Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #142: Atlético-GO 0x1 Flamengo 2010

    Jogos eternos #142: Atlético-GO 0x1 Flamengo 2010

    Flamengo joga hoje no Serra Dourada contra o Atlético-GO para o reinício do Brasileirão. Em 2010, jogo aconteceu na 9a rodada, logo depois da pausa do Brasileirão por causa da Copa do Mundo e do hexacampeonato frustrado. Hexa, só o Flamengo.

    No 18 de julho de 2010, o técnico Rogério Lourenço escalou Flamengo assim: Marcelo Lomba; Léo Moura, Welinton, Ronaldo Angelim, Juan; Corrêa, Willians, Kléberson, Petkovic; Diego Maurício, Vinícius Pacheco. Não parecia que Flamengo era o último campeão brasileiro e meio time era bem limitado. Mas ainda tinha craques, o maior um sérvio, um ídolo, eternizado no minuto 43 de um jogo contra Vasco.

    E foi justamente Petkovic que apareceu no início do jogo, com a camisa 10, eu tinha esquecido que vestiu de novo a camisa 10 depois de eternizar a camisa 43 no hexa. Depois de uma tabelinha com Juan, Petkovic chutou, chutou fora. No minuto seguinte, Marcelo Lomba fez boa defesa numa falta de longe de Róbston. Fez outra defesa importante em seguida, agora na frente de Rodrigo Tiuí. Dez minutos antes do intervalo, Diego Maurício invadiu a grande área e conseguiu um pênalti. O dono da bola, claro era o Pet, a tranquilidade é bem conhecida, no contrapé do goleiro, Petkovic abriu o placar.

    No início do segundo tempo, Marcelo Lomba fez outra bela defesa. Marcelo Lomba assumiu a titularidade depois da Copa do Mundo e do sinistro caso Eliza Samudio, assassinada a mando do goleiro Bruno. No ano de 2010, Marcelo Lomba se saiu bem no gol do Flamengo e ajudou o time a ganhar pontos num campeonato bem difícil. No Serra Dourada, o Atlético-GO dominou o segundo tempo, sem conseguir fazer o gol do empate. E o último lance do jogo foi para o Flamengo, com o gênio Petkovic, que fez um grande passe para deixar Cristian no cara a cara com o goleiro. Cristian se precipitou e chutou no goleiro. Realmente, faltava craques neste Flamengo, mas ainda tinha o Pet, que fez contra o Atlético-GO seu pré-antepenúltimo gol com o Manto Sagrado.

  • Jogos eternos #141: Flamengo 5×0 Palestino 2017

    Jogos eternos #141: Flamengo 5×0 Palestino 2017

    Flamengo joga hoje contra Palestino, um adversário que já enfrentou na Copa Sudamericana de 2017. Na época, Flamengo vinha de uma grande decepção com a eliminação na fase de grupos da Libertadores, indo para a segunda fase da Copa Sudamericana. O Palestino é chamado assim porque foi fundado por um grupo de imigrantes palestinos, o Chile abriga uma grande colônia de palestinos.

    O Flamengo já estava quase classificado para a próxima fase com uma vitória 5×2 na ida, em Santiago de Chile. Mesmo assim, Flamengo vivia dias conturbados e três dias antes do jogo, uma derrota contra Vitória foi o fim da linha para o técnico Zé Ricardo. Foi substituído para o jogo contra Palestino pelo interino de sempre, Jayme de Almeida, que escalou Flamengo assim: Alex Muralha; Pará, Juan, Rhodolfo, Renê; Willian Arão, Márcio Araújo, Éverton Ribeiro; Éverton, Geuvânio, Felipe Vizeu.

    Com apenas 4 minutos, num escanteio de Éverton, a bola fugiu na direita até os pés de Éverton Ribeiro, que esperou um pouco e fez o passe atrás para o chute de primeira de Willian Arão. A bola foi desviada pelo Felipe Vizeu, que abriu o placar. A Ilha do Urubu estava pequena e assim, mesmo com apenas 5.170 pagantes, tinha uma ótima atmosfera, agora ainda mais com Flamengo na frente. O segundo gol chegou ainda nos 10 minutos iniciais, com bela construção coletiva, cruzamento de Éverton e finalização de Geuvânio.

    O Palestino tentou reagir e teve algumas oportunidades, sem muito perigo. Antes do intervalo, Flamengo fez um terceiro gol. Geuvânio, que não jogou muito com o Manto Sagrado, lançou Éverton Ribeiro. A finalização é de craque, com apenas um toque de bico, Éverton estufou as redes. Flamengo fez um terceiro e fez um quarto, de novo com cruzamento de Éverton vindo da esquerda, quase uma repetição do gol de Geuvânio. A finalização foi diferente, uma cabeçada de Willian Arão, sem chance para o goleiro. No intervalo, Flamengo 4×0 Palestino, no placar agregado Flamengo 9×2 Palestino.

    O segundo tempo serviu para dar oportunidades aos craques da casa, com a entrada dos jovens Lucas Paquetá e Vinícius Júnior. Os dois cresceram muito perto da Ilha do Governador onde tinha o estádio, na Ilha do Paquetá para Lucas Paquetá e em São Gonçalo para Vinícius Júnior, que completou 17 anos um mês antes do jogo. Vinícius Júnior, já um ídolo no Francêsguista, entrou no 27o minuto do segundo tempo. E no minuto seguinte, foi lançado na profundidade pelo Éverton Ribeiro. A velocidade, era de espantar qualquer par de olhos na Ilha. A objetividade também. Vinícius Júnior escapou da saída do goleiro e cruzou para Berrío. Sem espaço para finalizar, Berrío cabeceou na pequena área. Vinícius Júnior chegou com velocidade, com objetividade, com coração, com talento, chutou e brocou. Era o primeiro gol profissional de um jogador tão promissor que foi vendido ao Real Madrid antes de seu primeiro jogo profissional. No final, Flamengo vencia 5×0 e ia nas oitavas de final, mas mais importante, uma estrela tinha nascido na Ilha.

  • Jogos eternos #140: Flamengo 3×1 Botafogo 2008

    Jogos eternos #140: Flamengo 3×1 Botafogo 2008

    Hoje, Flamengo pode conquistar seu 38o título do campeonato carioca. Escrevi há pouco sobre um título carioca conquistado em cima do Vasco, em 1974, eu vou então para hoje de um título em cima do Botafogo, o 30o da história do Flamengo. A época ainda é recente e parece ao mesmo tempo ser de mil anos atrás. Em 2008, um ano histórico no Francêsguista, Flamengo tinha um time completamente diferente, mas eu já sonhava alto com meu Flamengo.

    Eu já falei que comecei a acompanhar Flamengo no final de 2005, vibrei com a Copa do Brasil de 2006, mas comecei a assistir realmente aos jogos e aos melhores momentos em 2007, vibrando de novo com o título do campeonato carioca de 2007, já contra Botafogo. E eu já tinha a consciência da importância da Copa Libertadores que, como todo rubro-negro, achava que ia ser do Mengo em 2008. Eu queria a Copa Libertadores, mas queria o campeonato carioca também, porque ser o Rei do Rio me dava a sensação de ser o Rei do Mundo.

    Em 2008, com um time cheio de ídolos, Flamengo chegou a final contra Botafogo para a revanche de 2007. E na ida, vitória 1×0 do Flamengo, passe de Diego Tardelli, gol de Obina, meu primeiro ídolo no Flamengo. E três dias depois, um passo na frente na Copa Libertadores, com vitória 4×2 no México. Só faltava vencer de novo Botafogo e gritar “É campeão” pela 30a vez.

    No 4 de maio de 2008, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Ronaldo Angelim, Fábio Luciano, Juan; Jaílton, Cristian, Toró, Ibson; Marcinho, Souza. Adorava a defesa inteira, foi uma das melhores que vi no Flamengo, na história recente apenas a de 2019 pode competir. Também tinha no meio de campo Ibson, que eternizei como ídolo no blog, e Souza na frente, um centroavante às vezes limitado na técnica, mas nunca na raça. E meu maior ídolo, Obina, estava no reserva, como já foi na ida, quando saiu do banco para fazer o gol da vitória.

    E o Maracanã estava cheio, com público de 78.716 pessoas. Eu me apaixonei com o Flamengo, não sei exatamente porque, não sei exatamente quando e não sei exatamente quanto o Maracanã foi decisivo para isso. Certeza é que o Maracanã estava uma festa na época, respirava rubro-negro, mesmo sem a geral, era o templo do futebol, a alma do Flamengo, a essência do futebol carioca. Porém, em 2008 quem gritou primeiro foi a torcida do Botafogo. Na metade do primeiro tempo, Lúcio Flávio cobrou falta na grande área, ninguém tocou, Bruno falhou, Botafogo abriu o placar. Assim, como foi o caso em 2007, o título ia ser decidido nos pênaltis. O Papai Joel não queria. No intervalo, sacou dois meios, Cristian e Ibson, para a entrada de dois atacantes, Diego Tardelli e Obina, meu ídolo.

    E com apenas 4 minutos no segundo tempo, Joel Santana mostrou que tinha estrela. Numa falta bem parecida a de Lúcio Flávio no primeiro tempo, Juan cobrou na grande área, Obina, de forma acrobática, empatou no jogo, deu vantagem ao rubro-negro no placar agregado. Com hora de jogo, Bruno fez grande defesa num chute de voleio de Jorge Henrique e na contra-ataque Diego Tardelli perdeu o gol de cobertura, com defesa de Renan. Cinco minutos depois, Marcinho –, eu adorava Marcinho e a ginga dele, achou o travessão. Flamengo estava melhor, mas ainda não tinha matado o jogo. Precisando da vitória para forçar a disputa de penalidades, Botafogo levou tudo no ataque, o chute de Lúcio Flávio parou nas mãos de Bruno, o chute de Alessandro passou atrás do gol.

    Faltando 15 minutos para o fim do jogo, Renato Silva recebeu o segundo cartão amarelo e deixou o Botafogo com 10 homens em campo para a alegria da quase geral do Maraca. Jogo ficou mais fácil para Flamengo, mas ainda faltava o gol para assegurar a vitória, o título. A torcida esperou cinco minutos. Num mais outro contra-ataque, Léo Moura lançou na direita Kléberson, que também entrou no decorrer do jogo. Kléberson mudou tudo e achou do lado esquerdo Obina, que voltou no meio com passe para Souza. Cercado por três defensores, Souza se deportou na esquerda e deixou para Juan. O Juan esperou cinco segundos. Deu drible desconcertante ao Leandro, invadiu a grande área e cruzou atrás. Bola foi levemente desviada e chegou até o Tardelli, que chutou rasteiro, chutou bonito, chutou no gol. Flamengo tinha 2 gols de vantagem, Flamengo estava quase o campeão.

    Já tinha o grito de campeão no Maraca, mas ainda faltava mais um gol para aliviar definitivamente a imensa torcida do Fla, mais de 60 mil no estádio, mais de 30 milhões no Brasil e mais um torcedor de 15 anos na França. E o gol chegou com Obina, o maior ídolo da época, não só do pequeno torcedor francês, mas de quase toda a Nação. Com mais um contra-ataque, Diego Tardelli driblou na esquerda e arrancou. O gol foi quase uma repetição do gol da ida, com filtro inverso. Diego Tardelli cruzou sem deixar possível a intervenção do goleiro ou do zagueiro, Obina meteu o pé e enviou a torcida rubro-negra ao delírio da vitória, ao grito do campeão, ao paraíso do futebol, sem saber que ia voltar três dias depois ao inferno, ao grito do ódio, a dor da eliminação. Enfim, no momento, Flamengo igualava Fluminense com um 30o título carioca e ia ultrapassar o Tricolor no ano seguinte, de novo vencendo na final Botafogo. E desde lá, Flamengo nunca deixou de ser o Rei do Rio.

  • Ídolos #32: Cantarele

    Ídolos #32: Cantarele

    No jogo de Libertadores com Millonarios, o goleiro Rossi tomou um gol e viu sua marca de invencibilidade ser interrompida com 1.134 minutos. É um novo recorde para um goleiro do Flamengo, Rossi ultrapassando Cantarele, que ficou 959 minutos sem ter o gol vazio em 1979. Cantarele não se mostrou incomodado ao ver seu recorde batido: “Recordes são feitos para serem quebrados. Feliz por ter permanecido tantos anos fazendo parte de um fato histórico do clube. Contente em ver um Flamengo sempre querendo crescer cada dia mais”. Provavelmente porque, além de ser grande goleiro, Cantarele é de um rubro-negrismo feroz e que ultrapassa qualquer dúvida.

    Antônio Luis Cantarele nasceu no 26 de setembro de 1953 em Além Paraíba, Minas Gerais. Seu nome foi escrito às vezes Cantarele, às vezes Cantarelli, outras vezes Cantareli. Segundo o próprio goleiro, em entrevista com o quase homônimo Leonardo Cantarelli, foi registrado como Cantarele apesar da grafia correta do nome de origem italiana ser Cantarelli: “O meu nome foi registrado errado. Antigamente era comum o escrivão não conhecer outra língua e acabava escrevendo de forma errada. Eu sou o filho mais velho dos meus pais e os meus outros 4 irmãos, tem o sobrenome Cantarelli registrado da forma correta. Só o meu que não”. Vamos então de Cantarele.

    A cidade natal de Cantarele, Além Paraíba, no Minas Gerais, está separada do estado do Rio de Janeiro e das cidades fluminenses de Carmo e Sapucaia apenas pelo rio Paraíba do Sul. Cantarele estava muito mais perto da cidade de Rio de Janeiro do que de Belo Horizonte. Porém, Cantarele ainda estava muito longe do Flamengo. Cantarele escolheu ser goleiro por causa da idolatria que tinha pelo Manga, um dos maiores goleiros do Botafogo e do Internacional. Cantarele jogava as peladas dele na cidade de Além Paraíba, até um dia que mudou sua vida: “Era uma partida na minha cidade. Eu estava com 15 anos e havia 2 olheiros do Rio. Um trabalhava para o Vasco e o outro para o Flamengo e também para o Botafogo. Inicialmente me levaram para fazer teste no Botafogo, mas lá acabaram não ficando comigo, pois alegaram que eu era muito novo. No ano seguinte, o mesmo olheiro me levou para o Flamengo. Era um período de férias escolares, aí fiquei treinando e se não desse certo eu retornava para casa. No entanto, gostaram de mim e eu fiquei. Queria aproveitar a oportunidade”.

    Cantarele estava no Flamengo, mas o olheiro do Vasco não se arrependeu. Indicou ao clube cruzmaltino outro goleiro de Além Paraíba, Mazarópi, que enfrentou inumerosas vezes Cantarele nos Clássicos dos Milhões e ficou 1.816 minutos sem ter o gol vazado entre 1978 e 1979, um recorde mundial. O raio dos goleiros imbatíveis caiu de forma inacreditável duas vezes no mesmo pequeno lugar. Na base do Flamengo, Cantarele conheceu vários futuros craques, como Zico, Rondinelli, Geraldo e Júnior. Flamengo foi campeão carioca de juvenis em 1972, com uma campanha quase perfeita: 17 vitórias, 5 empates, 3 derrotas, 27 gols pro, 8 gols contra. O final também foi perfeito, uma vitória 2×0 contra Vasco no jogo decisivo. Em 1973, Flamengo repetiu a dose e conquistou o bicampeonato. E neste mesmo ano, Cantarele fez seu primeiro jogo com o time principal, num amistoso no Espírito Santo, lançado pelo Joubert e substituindo Ubirajara Motta, que foi o primeiro goleiro a fazer um gol pelo Flamengo. Flamengo venceu 3×1, gols de Doval, Arílson e Zico. Se não me engano, foi o Ubirajara Motta que levou o gol do combinado de Cachoeiro do Itapemirim e Cantarele, já, preservou sua meta invicta.

    Cantarele só fez um jogo profissional em 1973 e voltou a jogar no time principal em 1974, fazendo seu primeiro jogo oficial contra o America, no Brasileirão. Ainda estava na reserva do Renato e foi do banco que assistiu ao título carioca de 1974, conquistado em cima do Vasco, um jogo eterno no Francêsguista. Mas Cantarele era promissor e a diretoria resolveu vender Renato ao rival Fluminense para dar espaço ao Cantarele. E Cantarele não decepcionou. Não tão alto para um goleiro (1,78 m), compensava com ótima impulsão e visão de jogo, o que o permitia, muitos anos antes de Manuel Neuer, de sair da meta para cortar o lançamento do adversário. Cantarele virou titular num time com vários craques da casa, Rondinelli, Júnior, Geraldo e claro, Zico. O time era muito promissor, mas ainda faltava os títulos. Em 1976 e 1977, Cantarele viu duas vezes o vizinho mineiro Mazarópi levar o melhor nas disputas de pênaltis e Vasco eliminar Flamengo no campeonato carioca.

    Em 1978, Flamengo contratou outro grande goleiro, Raul Plassmann, vindo de Cruzeiro. Cantarele ficou titular e foi com ele no gol que Flamengo mudou sua história, conquistando o campeonato carioca contra Vasco com gol salvador do ídolo Rondinelli, o que marcou o início de uma geração multicampeã. Fala Cantarele ao jornalista Leonardo Cantarelli: “Era uma geração vencedora e que gostava do Flamengo. Um time identificado com o clube, diferente de hoje, onde muitos jogadores beijam escudos de equipes, mas não a amam de verdade. Aquela equipe amava o Flamengo”. Ainda como titular, Cantarele completou o tricampeonato carioca em 1979, com dois títulos no mesmo ano, um ano histórico no Francêsguista. Antes de Raul eternizar a camisa amarelo do goleiro do Flamengo, Cantarele eternizou a camisa verde, mas também jogou com uma azul, cinza ou preta.

    Em 1980, Raul passou a ser titular, mas Cantarele, de tanto que amava Flamengo, ficou no clube. “Aproveitei a oportunidade que a vida me deu. Jogar em um clube tão importante do Brasil e por tanto tempo. Mais de 500 jogos como titular. O torcedor daquela época quando me vê na rua, me cumprimenta, felicita e relembra aqueles bons tempos. Isso é bacana. Os mais novos, infelizmente não me conhecem, mas faz parte” fala Cantarele. Mesmo sendo reserva, era regularmente escalado no time titular, participou de vários jogos na Europa durante excursões do Flamengo, também jogou uma partida no Brasileirão de 1980, 4 jogos da Libertadores de 1981 e 2 do Brasileirão de 1982, todas essas competições foram conquistadas pelo Mengão. Flamengo também podia conquistar tudo porque tinha ótimos reservas, que não alteravam a qualidade do time, como Cantarele.

    Na semifinal da Copa Libertadores de 1982, Cantarele foi culpado nos gols de Penãrol que decretaram a eliminação do Flamengo, João Saldanha falando por exemplo de uma “falha primaria de Cantarelli” no gol de falta de Jair. Ao meu ver, foi julgado de forma muita severa e não tinha muito a fazer sobre o gol de Jair. Cantarele ainda fez um jogo no Brasileirão de 1983, suficiente para levar um tricampeonato pessoal (com apenas 4 jogos!) e foi emprestado ao Náutico, onde foi vice-campeão pernambucano. Mas Cantarele não podia ficar longe do Flamengo durante muito tempo e voltou na Gávea em 1984, quando disputou o posto de titular com o argentino Fillol. Relembra Cantarele: “Com o Fillol houve uma disputa boa pela titularidade. Eu a ganhei em 1985, mas acabei lesionando o joelho em uma partida contra o Bangu em 1986. Fiquei um ano parado. Quando retornei,o Zé Carlos era o titular e não saiu mais. Fiquei até 1989 e depois resolvi me aposentar”.

    O último jogo oficial de Cantarele não faz jus ao talento e importância de Cantarele no clube, levou uma goleada 6×1 contra Grêmio, que eliminou Flamengo na semifinal da Copa do Brasil de 1989. Cantarele ainda voltou a calçar as luvas em 1990 no jogo de despedida de Zico, por quem Cantarele tinha, claro, só admiração: “Senti nitidamente seu caráter, a maneira como se destacava no grupo. E isso sem jamais exigir regalias, sempre pedia em favor do grupo. Com isso, conquistou o respeito e a admiração dos companheiros”. No Maracanã, Cantarele subsistiu seu antigo companheiro, Raul, outro ídolo no Francêsguista. E como Raul, não levou gol durante o jogo que acabou num 2×2, com os dois gols sofridos pelo Zé Carlos.

    Depois de pendurar definitivamente as luvas, Cantarele passou a ser olheiro pelo Flamengo, até recomendando ao clube Ronaldo Fenômeno… “Eu vi o Ronaldo atuando e o aprovei. Entretanto, o Flamengo não quis ficar com ele. Na época, eu não soube o motivo que fez com ele não ficasse no clube. Tempos depois, vi entrevista dele dizendo que ele morava muito longe do CT do Flamengo e a diretoria não quis custear o trajeto de ida e volta”. Depois, foi preparador de goleiros em Flamengo, Corinthians e Palmeiras, trabalhando com campeões do mundo como Gilmar Rinaldi, Dida e Marcos. A amizade com Zico o levou do CFZ até a Turquia, passando pelo Japão, quando foi preparador de goleiros na Copa de 2006: “Adorei a minha passagem pelo Japão. Pude passar muito do meu conhecimento para eles. Ensinei eles a cair e não se machucar, a antever uma jogada e forçar o atacante a fazer o que ele não quer, evitando assim um gol. De início eu tinha um intérprete que me ajudava na comunicação e um dos goleiros havia morado em São Paulo e sabia português. Conforme o tempo passou, eu aprendi o básico da língua japonesa: o que era necessário para o dia a dia e para os treinamentos”.

    Como quase sempre, Cantarele voltou ao Flamengo, sendo preparador de goleiros e depois assistente de Jayme de Almeida, que conhecia desde a base do Flamengo, 40 anos atrás. Juntos, levaram a Copa do Brasil de 2013. Hoje, Cantarele continua a acompanhar o Flamengo, agora apenas como torcedor. Hoje, Cantarele não é mais o goleiro do Flamengo com mais tempo sem levar gol. Mas ainda é o goleiro, e até o sexto jogador, que mais vestiu o Manto Sagrado, com 557 jogos. Esse recorde dificilmente será superado. De 1973 até 1990, na reserva ou como titular, Cantarele sempre foi exemplar no Flamengo.

  • Jogos eternos #139: Flamengo 3×2 São Paulo 1982

    Jogos eternos #139: Flamengo 3×2 São Paulo 1982

    Flamengo reestreou na Copa Libertadores e está perto de reestrear em mais uma competição, o Brasileirão que Flamengo não ganha desde 2020. Vamos para hoje numa outra reestreia do Brasileirão, em 1982, que viu no final das contas Flamengo conquistar o bicampeonato.

    No início de 1982, o Flamengo estava o Maior do Mundo, no papel e no campo, com um 3x0 eterno contra Liverpool. Campeão de quase tudo, sonhava de conquistar de novo o Brasileirão, que escapou das mãos rubro-negras em 1981 com eliminação nas quartas de final. Para a edição de 1982, Flamengo começou num grupo de 5 times e estreou contra o adversário mais poderoso, o São Paulo.

    Para o primeiro jogo do ano, no 20 de janeiro de 1982, inclusive dia de São Sebastião, padroeiro de Rio de Janeiro, o Maracanã estava bem lotado. Um público de 85.236 pessoas, para festejar os recentes campeões do mundo. E o Paulo César Carpegiani, quase repetindo o time campeão mundial, escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Chiquinho, Lico, Nunes. Na época, o futebol brasileiro era o maior do mundo e São Paulo tinha um grande time também, quase só com jogadores com passagem na Seleção. A defesa tinha o goleiro Waldir Peres, os laterais Getúlio e Marinho Chagas e provavelmente a maior zaga da história do clube, com Oscar e o uruguaio Darío Pereyra. O Tricolor ainda tinha o craque Mário Sérgio na armação do time e uma dupla de ataque poderosa, com Renato e Serginho Chulapa. Um timaço, para um jogo eterno, já antes do apito inicial.

    E no Maracanã, o São Paulo foi o primeiro time a brocar, com o maior artilheiro de sua história, Serginho Chulapa, que de pé esquerdo, no estilo dele, achou o cantinho de Raul. Antes do intervalo, Renato, antigo craque do Guarani, cruzou e Serginho Chulapa, quase em cima da linha, só teve a empurrar a bola nas redes para completar o doblete. Serginho Chulapa foi o titular da Seleção de 1982 e foi bastante criticado pelo seu desempenho. Minha escolha para o ataque da Seleção, considerando a lesão de Careca teria sido Roberto Dinamite, fazendo dupla com Reinaldo. E o reserva teria sido nosso ídolo Nunes, que tinha mais bola para jogar com Zico, Sócrates & Cia. Mas mesmo sem ser gênio da bola, Serginho Chulapa era um artilheiro nato e no início de 1982, permitia ao São Paulo de voltar aos vestiários do Maracanã com vantagem de 2 gols, uma vantagem quase definitiva. Quase.

    Flamengo, campeão do Rio, campeão da América, campeão do Mundo, só faltava o Brasil, voltou melhor no segundo tempo. Falou Zico no livro Zico, 50 anos de futebol: “Voltamos para o vestiário com uma vergonha danada, 85 mil pessoas no Maracanã… No vestiário, fizemos a corrente… vamos lá, vamos lá! Olha, o time voltou prontinho. Quando fizemos o primeiro gol, o estádio veio abaixo. O time de São Paulo ficou maluquinho”. Com uma hora de jogo, Júnior achou Zico, de costas, à 30 metros de distância do gol. Sempre me impressiona e me encanta a rapidez e a objetividade de Zico. No domínio da bola, já tinha visto tudo. Dominou a bola, girou, fez o passe para Lico no contrapé dos defensores e já chamou a bola de novo no espaço vazio. Lico completou a tabela e de novo, Zico foi mais craque que os outros. Apenas no domínio, escapou de dois adversários. A finalização foi de quem fez mais de 800 gols na carreira, de quem sabia tudo da bola. Combinou força e precisão, sem chance para Waldir Peres. A geral se inflamava e voltava a acreditar na virada.

    Dez minutos depois, numa bola mal saída pela defesa tricolor, Adílio fez na grande área várias fintas, vários dribles, mas a bola finalmente escapou dos pés dele. E Zico, mesmo sendo craque, tinha a combatividade de quem era ruim de bola, de quem só tinha isso para jogar. Só que Zico tinha o drible do gênio da bola, o chute do artilheiro nato, o cérebro do meia arquiteto, o coração do meia raçudo. Acreditava em todas as bolas, até as mais perdidas. Na ponta do pé, ressuscitou a bola, que voltou atrás nos pés de Andrade, que chutou de primeira, que empatou. Além de Zico como sempre, agora era toda a geral do Maraca que acreditava na virada.

    E dez minutos depois, Júnior, bem servido pelo Lico, cruzou na esquerda para Zico, que fez de cabeça o gol da virada, o gol da vitória do Mengo. Claro, Zico tinha o cabeceamento do goleador voador. O cabeceamento não ia faltar ao repertório do Zico, um dos jogadores mais completos de todos os tempos. A geral podia explodir de felicidade, Flamengo virava e fazia o primeiro passo para o bicampeonato. No final do campeonato, com várias outras viradas e time histórico, com jogo eterno contra Grêmio, Flamengo voltava a ser campeão do Brasil, a ser campeão de tudo.

  • Jogos eternos #138: Atlético Nacional 0x1 Flamengo 1993

    Jogos eternos #138: Atlético Nacional 0x1 Flamengo 1993

    Flamengo joga hoje contra o Millonarios na estreia da Copa Libertadores de 2024 e o início do sonho do tetra. Na sua história, Flamengo jogou apenas uma vez contra o Millonarios, uma derrota 4×1 num amistoso de 1952, vamos então abrir para outros times colombianos e eternizar um jogo contra o Atlético Nacional na Copa Libertadores de 1993.

    Na época, a Libertadores ainda tinha o antigo formato com grupos de 4 times, 2 times de 2 países diferentes. Flamengo caiu no grupo 4 com o campeão colombiano, o América de Cali, e o vice-campeão, o Atlético Nacional, além do campeão da Copa do Brasil, o Internacional. O Mengão começava a competição com 3 jogos fora de casa. Estreou com 0x0 no Beira-Rio e perdeu contra o América em Cali. Três dias depois, ainda na Colômbia, Flamengo precisava de uma reação para sonhar com a classificação.

    No 19 de fevereiro 1993, o ídolo e técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Rogério, Piá; Júnior, Marquinhos, Nélio, Marcelinho Carioca; Nílson, Renato Gaúcho. Do outro lado, ainda era a época do narco-fútbol e o Atlético Nacional, time de Medellin e apoiado pelo traficante Pablo Escobar, foi o primeiro clube colombiano a conquistar a Copa Libertadores, em 1989. O Atlético Nacional tinha 6 jogadores que participaram da Copa do Mundo de 1994, sem contar a ausência do mítico goleiro René Higuita, não-convocado por causa de algumas polêmicas, inclusive uma amizade com Pablo Escobar.

    A Copa do Mundo de 1994 virou um fiasco para a Colômbia, com eliminação e mais grave, o assassinato do defensor Andrés Escobar, que jogou contra Flamengo neste mês de fevereiro de 1993, e tinha feito um gol contra na eliminação contra os Estados Unidos. Outro jogador em campo contra Flamengo que morreu precocemente foi o Hermán Gaviria. Em 2002, com apenas 32 anos, foi atingido por um raio durante um treino de seu clube do Deportivo Cali, e não resistiu.

    Como um retrato da violência da época, o jogo no estádio Atanasio Girardot começou com muitas faltas e o primeiro cartão amarelo foi para o veterano Júnior por uma cotovelada. O primeiro lance saiu dos pés do atacante colombiano John Tréllez, mas bola foi fora do gol de Gilmar. Com 19 minutos de jogo, o Atlético Nacional recuou a bola até o goleiro René Higuita, que dominou mal. Higuita, conhecido pelos seus 41 gols em carreira e a “defesa escorpião” contra a Inglaterra, tentou uma finta de chute, o também folclórico Renato Gaúcho antecipou e conseguiu tocar a bola para a deixar no gol vazio e abrir o placar. O Atlético Nacional tentou reagir ainda no primeiro tempo, Gilmar fez duas belas defesas de chutes de falta, e Júnior Baiano afastou o perigo com gesto acrobático.

    No início do segundo tempo, Júnior Baiano quase concedeu um pênalti, mas o juiz não apitou. O Atlético Nacional botava pressão no jogo, num cruzamento alto o goleiro Gilmar saiu mal e deixou a bola escapar, Carlos Zúñiga chutou no gol defendido apenas pelo Wilson Gottardo, mas só conseguiu achar o travessão. Gilmar ainda fez outras defesas decisivas e virava o grande homem do jogo, mantendo Flamengo na frente no placar de forma milagrosa.

    Outro retrato da violência da época, na cobrança de um escanteio, Júnior foi atingido na cabeça por uma pedra, mas seguiu em campo. Flamengo foi melhor no final do jogo, mas nem Marcelinho Carioca nem Gaúcho conseguiram fazer o gol para uma vitória mais tranquila. Finalmente não foi necessário, Flamengo, com a ajuda de René Higuita, derrotava o narco-fútbol e um mês depois fechou o grupo no primeiro lugar, antes de ser eliminado nas quartas de final pelo antigo e futuro campeão, São Paulo.

  • Jogos eternos #137: Flamengo 15×2 Mangueira 1912

    Jogos eternos #137: Flamengo 15×2 Mangueira 1912

    Esse fim de semana, com gol de Pedro, Flamengo chegou ao gol 13.000 de sua história, primeiro clube do mundo a atingir tal marca. Esse fim de semana também foi de Pascoa, vamos então para um chocolate do Flamengo, a primeira de todas as goleadas, o primeiro de todos os jogos, lá em 1912.

    Eu já escrevi sobre a fundação da seção de futebol no Flamengo na crônica sobre o time histórico de 1912, vamos então diretamente para o primeiro jogo, contra Mangueira, no 3 de maio de 1912. Jogo aconteceu no estádio do America, o campo da Rua Campos Salles, lá em Tijuca. E para o primeiro jogo de sua história, o time do Flamengo foi escalado assim: Baena; Píndaro, Nery; Coriolano, Gilberto, Gallo; Baiano, Arnaldo, Amarante, Gustavo, Borgerth. Desse time, apenas Coriolano e Gilberto não conquistaram o campeonato carioca 1911 com Fluminense. Outro craque em campo, o próprio juiz, Belfort Duarte, zagueiro do America e que deu seu nome a um prêmio de fair-play.

    E o Flamengo nem esperou um minuto para fazer o primeiro gol de sua história, para dar uma dica de quanto será gigante. “Diante de pequena concorrência foi dado o sinal para o kick off, cabendo a saída ao Flamengo, que logo ataca o goal adversário, fazendo o primeiro em um minuto de jogo, marcado pelo inside left Gustavo” escreveu na época o Jornal do Commercio, mostrando como o vocabulário do futebol evoluiu. Em 1971, para a revista Grandes Clubes Brasileiro, Gustavo falou sobre o primeiro gol do Flamengo: “Foi praticamente no início da partida, mais precisamente no primeiro minuto. A jogada começou lá atrás, na esquerda da nossa defesa, com o Galo dominando e me cedendo um passe na altura da meia canhota. De primeira, tão pronto recebi, lancei na extrema direita, em profundidade, para o Arnaldo, que fugiu pela linha de fundo e de lá deu para trás, dentro da grande. Eu acompanhara o ataque no pique mais veloz que possuía e, de pé direito e em plena velocidade, emendei de primeira e violentamente, rasteiro, de forma indefensável para qualquer goleiro. Eu era baixinho (1,58 m) e muito leve (54 kg), mas compensava tudo isso com a rapidez […] Eu fui o autor desse feito histórico e titular até o mês de julho, quando viajei para a Inglaterra, onde permaneci cinco anos, estudando engenharia. Quando formado, em 1918, voltei ao Rio e a jogar pelo Flamengo. Mais tarde, acabei me tornando seu presidente, conquistando o primeiro título do clube no profissionalismo, em 1939”. Apesar dos títulos, Gustavo de Carvalho não foi tão feliz na presidência, forçando a saída do então maior ídolo do Flamengo, Leônidas da Silva.

    E com dois minutos de jogo, Flamengo já fazia outro gol, de novo com Gustavo, agora com passe de Gilberto. “Dada de novo a saída, Gilberto, ‘center-half’ do Flamengo, faz um belo passe a Gustavo, que marca ainda o 2º ‘goal’, depois de cerrado ataque ao gol guardado por Moggey” escreveu agora o jornal O Paiz. Provavelmente Flamengo é o único clube do mundo a ter feito 2 gols nos 2 primeiros minutos de sua história. O terceiro gol chegou na metade do primeiro tempo, Borgerth servindo Arnaldo. E como Gustavo, Arnaldo esperou pouco tempo, apenas 3 minutos, para conseguir o doblete. Octavio finalmente fez um gol para Mangueira, mas dois minutos depois, Gustavo completou o hat trick e Belfort Duarte apitou o intervalo com um placar de 5×1.

    E os gols foram ainda mais numerosos no segundo tempo. Gallo, três de Amarante, mais um de Arnaldo, Flamengo fazia 5 gols em 10 minutos, mostrando que era um clube destino a fazer muitos gols. “A peleja foi desastrosa para o Mangueira, cujo eleven era visivelmente inferior ao do adversário. Foram poucas as vezes em que seus players pisaram o campo inimigo. O seu goal-keeper, desnorteado, sem calma, fez o que era possível naquella conjectura. Para o contraste flagrante do estado das equipes o defensor das barras do Flamengo passeava de braços cruzados por não ter serviço” escreveu o Jornal do Brasil. Mangueira conseguiu um segundo gol, com bela falta de Levy. Mas no minuto seguinte, já tomou um novo gol, feito pelo Gustavo.

    E os minutos finais do jogo foram iguais ao resto do jogo, deu só Flamengo, apenas Flamengo, que fez mais quatro gols com Arnaldo, Amarante, Borgerth e Gustavo. O placar final foi 15×2 e podia ter sido até maior, já que Gallo e Baiano perderam pênalti. No final, 5 gols de Gustavo, 4 de Arnaldo e Amarante, 1 de Gallo e Borgerth. Uma vitória 15×2, que durante muito tempo foi considerada 16×2, por causa de um duplo erro do Jornal do Commercio, que escreveu: “Fluminense vence Mangueira 16×2”. A correção do erro o dia seguinte ficou despercebida, como também o placar correto de 15×2 anunciado pelos jornais Gazeta de Notícias e A Noite. Precisou esperar quase 100 anos e a pesquisa de Marcelo Abinader no livro Uma viagem a 1912: surge o futebol do Flamengo, para ter o placar correto de 15×2. Enfim, 15×2, 16×2, não importa a dúvida, a certeza era que, mesmo com apenas 80 minutos de jogo, o Flamengo era uma máquina de fazer gols e um clube com destino de eternidade.

  • Jogos eternos #136: Flamengo 5×0 Nova Iguaçu 2022

    Jogos eternos #136: Flamengo 5×0 Nova Iguaçu 2022

    Apesar de Nova Iguaçu ser um adversário relativamente novo na longa tradição do campeonato carioca, tinha algumas possibilidades de um jogo eterno antes do jogo de ida da final do campeonato carioca. Eu já escrevi sobre a vitória 2×0 de 2012, jogo que marcou a reestreia de Vágner Love com o Manto Sagrado. Vou avançar então de 10 anos (e um dia) para um jogo ainda recente na história do Flamengo.

    No campeonato carioca de 2022, antes de enfrentar o Nova Iguaçu, Flamengo tinha 3 vitórias, um empate e uma derrota, no Fla-Flu. No 13 de fevereiro de 2022, um dia antes do Dia dos Namorados na França, o técnico português Paulo Sousa escalou Flamengo assim: Hugo Souza; Gustavo Henrique, Léo Pereira, Fabrício Bruno; Rodinei, Willian Arão, João Gomes, Arrascaeta, Éverton Ribeiro; Marinho, Gabigol. Não gostava do sistema tático de Paulo Sousa e Flamengo não foi bem no início de 2022.

    Mas Flamengo tinha craques, brasileiros e gringos. Com apenas 4 minutos de jogo, Arrascaeta cruzou perfeitamente na grande área, Gustavo Henrique, já grandão, subiu alto e cabeceou para abrir o placar. Não foi o único doce, o único presente, o único gesto de amor de Arrascaeta no primeiro tempo. Com 38 minutos, teve uma falta, bem perto da grande área. Arrascaeta chutou colocado, angulado, golaçado. De maneira geral, é impressionante a queda de gols de falta no futebol mundial. Acho que tem nos treinos uma falta de dedicação ao exercício, de repetições no trabalho. O Flamengo viveu um jejum de mais de 3 anos, entre 2018 e 2021, sem gol de falta. Depois de gol de Arrascaeta contra Nova Iguaçu, Flamengo esperou mais 15 meses antes de ver outro gol de falta, também assinado pelo Arrascaeta. Ainda bem que ainda tem craques diferenciados como Arrascaeta para ver golaços de falta.

    Arrascaeta ainda apareceu no segundo, o uruguaio cruzou na grande área e a bola morreu no braço de Vinícius. O juiz apitou o pênalti e Gabigol, no seu estilo particular, fez o terceiro gol do jogo com tranquilidade. Era impressionante a facilidade de Gabigol nesse exercício particular e difícil, que também exige trabalho e repetições nos treinos. A partir de 2023, Gabigol começou a perder pênaltis com mais frequência, mas o gol contra Nova Iguaçu foi o 27o pênalti convertido pelo Gabigol em apenas 29 tentativas. Impressionante.

    O que também era impressionante era a facilidade de Pedro para fazer o gol, mesmo saindo do banco. Pedro entrou no final do jogo e apenas cinco minutos depois, com boa triangulação e passe de Gabigol, chegou ao cara a cara com o goleiro e, no estilo matador dele, fez o quarto gol do dia. O placar final foi de 5×0 depois de mais uma jogada coletiva e participação de 4 jogadores saindo do banco. Lance começou na direita com Rodinei e Vitinho, que de trivela mandou a bola na esquerda. Renê achou na grande área Pedro, que com inteligência e drible de bico, esperou o overlapping para devolver a Renê. Com um passe atrás do lateral-esquerdo, bola caiu nos pés de Diego, bola levantou no domínio de Diego, bola no fundo do gol, goleada, Flamengo 5×0 Nova Iguaçu.

    Um dia antes do Dia dos Namorados, Flamengo fazia lindo jogo, e eu jurava mais uma vez amor eterno ao Flamengo.

  • Jogos eternos #135: Flamengo 4×1 Santos 1984

    Jogos eternos #135: Flamengo 4×1 Santos 1984

    A estreia de Flamengo na Copa Libertadores se aproxima e vamos então para o jogo eterno de hoje de uma estreia na Libertadores. Tinha várias opções, contra a Universidad Católica em 2010, contra San Lorenzo em 2017 ou até jogos mais recentes, mas finalmente decidi de voltar 40 anos atrás, com um jogo contra Santos, até porque ainda não tinha escrito sobre um jogo de 1984.

    Em 1984, Flamengo fazia sua quarta Copa Libertadores consecutiva e já era um gigante do continente. Na época, a fase inicial da Libertadores tinha grupos de 4 times, com 2 times de 2 países diferentes. Assim, os dois finalistas do Brasileirão sempre se reencontravam na Copa Libertadores alguns meses depois. Foi o caso em 1984 com um novo Flamengo x Santos, depois do 3×0 na final do Brasileirão, um jogo ainda não eternizado no Francêsguista.

    Na época, Flamengo aprendia a viver sem Zico, vendido pelo presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches, que renunciou logo depois. No 11 de fevereiro de 1984, o técnico Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Tita; Lúcio, João Paulo, Nunes. Detalhe, os dois únicos jogadores estrangeiros em campo eram os goleiros, o argentino Fillol para Flamengo e, do lado de Santos, o também lendário uruguaio Rodolfo Rodríguez. Santos tinha outros craques ou jogadores consagrados: Pita, Paulo Isidoro e Serginho Chulapa. Um jogaço antes do apito inicial.

    Nos anos 1980, a Copa Libertadores tinha prestígio, mas nada comparável ao de hoje e num sábado de fevereiro de 1984, o Maracanã tinha um público de 37.682 pagantes, com geral em bom número, sem ser lotada como podia ser na época. Em comparação, o Flamengo x Santos da final do Brasileirão alguns meses antes conquistou 155.253 pagantes, um recorde para um jogo do Brasileirão.

    Na Libertadores de 1984, Flamengo estreou bem, com um gol aos 33 minutos. A falta de Tita foi desviada pela barreira – afinal Flamengo estava sem Zico, mas a bola seguiu viva depois de duas cabeçadas, de um flamenguista, de um santista, bem alto no ar, Mozer pegou de primeira, de voleio, e abriu o placar. Já no segundo tempo, o zagueirão Mozer conseguiu o doblete, sem a ajuda de ninguém. Recuperou a bola no campo de Santos, acelerou na esquerda, fixou um defensor e abriu o espaço com uma finta e um drible seco. Em seguida, literalmente fuzilou o pobre Rodríguez para fazer o gol. O chute não foi tão bem colocado, mas foi tão potente, tão poderoso, que deixou o goleiro uruguaio sem chance de defender.

    Mozer já tinha feito o trabalho dele e com uma hora de jogo, Cláudio Garcia o trocou para a entrada em campo de Marinho. Outra mudança, João Paulo cedeu seu lugar ao Lico. Com 27 minutos no segundo tempo, Santos descontou com uma cabeçada do quase homônimo, Lino, num escanteio. Mas Lico era mais craque que Lino e no minuto seguinte do gol santista, Flamengo já voltou com 2 gols de vantagem. Júnior procurou na esquerda Tita, que cruzou muito alto. O domínio de Lico foi de craque, a finta, a categoria com drible de calcanhar para passar entre três defensores foi de craque, a finalização também, Lico era craque, Flamengo 3×1 Santos.

    Dez minutos depois, de novo a tripla Júnior – Tita – Lico, agora em outra ordem. Passe na esquerda de Júnior para Lico, que fez um drible e para evitar a saída da bola, cruzou diretamente, cruzou alto, cruzou na cabeça de Tita, que fez o gol do 4×1. A camisa 10 do Flamengo estava órfã de Zico, mas Tita, outro ídolo no Francêsguista, foi um dos maiores sucessores possíveis, capaz de fazer uma tarefa impossível de fazer, honrar a camisa 10 do Flamengo. Com goleada na estreia da Liberta e geral feliz, Flamengo podia sonhar da conquista de uma outra Copa Libertadores.

  • Ídolos #31: Dida

    Ídolos #31: Dida

    Dida ainda não tinha a crônica dele na categoria dos ídolos e vamos reparar essa anomalia no dia que ele completaria 90 anos. Dida foi um grande ídolo, e mais, foi o ídolo do maior ídolo do Flamengo, Zico. Vamos então começar essa crônica com a palavra de Nosso Rei, no livro Zico conta sua história: “Futebol era o que mais me dava prazer na vida. Contam lá em casa que, depois de papai e mamãe, a primeira palavra que eu disse foi Dida – meu primeiro e até hoje meu maior ídolo no futebol. Não era para menos. Foi o ano do tricampeonato do Flamengo, e o Dida foi o artilheiro da competição. O Dida, com sua postura elegante, chutando bem com as duas pernas e com aquela imensa alegria que passava ao comemorar o gol – jogar, para ele, era decididamente uma satisfação”. Confirma seu Antunes, o pai de Zico, também rubro-negro roxo: “Ele aprendeu primeira a dizer ‘Dida’ depois de papai e mamãe”. Como todos nós, Zico é flamenguista, e ele tem um primeiro ídolo do Flamengo, que é Dida. Basta isso para entender a qualidade de Dida.

    Edvaldo Alves de Santa Rosa nasceu no 26 de março de 1934, em Maceió, terra de outro ídolo do Flamengo e do Brasil, Zagallo. A história de Dida e o Flamengo começa em 1953, com… o voleibol e uma excursão do time feminino do Flamengo no Nordeste, em Maceió. Lá, as meninas rubro-negras assistiram a um jogo de futebol entre a seleção alagoana e a seleção baiana, que, como favorito, dominou o primeiro tempo, com um placar parcial de 3×1. E o jovem Dida, então com 19 anos, entrou no segundo tempo. E dominou o jogo, acabou com o jogo. No livro Os dez mais do Flamengo, Roberto Sander escreveu: “Nos primeiros lances dos quais participou, Dida já mostrou um algo mais que não passaria despercebido nem para quem jogava bola somente com as mãos. Boquiabertos, os atletas rubro-negros de vôlei acompanhavam aquele garoto de 19 anos fazer misérias. Eram dribles desconcertantes, toques de primeira, passes de trivela, chutes bem colocados e, de quebra, três gols que deram a vitória de virada para o estado de Alagoas por 4 a 3. Na volta ao Rio de Janeiro, foi impossível não se comentar a façanha daquele garoto. Não demorou e o clube inteiro sabia da história”.

    Dida chegou na Gávea em 1954, mas, como Zico anos depois, estava muito franzino. E sem confiança, quase desmaiou quando soube que ia jogar com Rubens, o Doutor Rúbis, outro ídolo no Francêsguista. Continua Roberto Sander: “Quando soube que ia treinar com o grande Doutor Rubens, craque do meio-campo do time, Dida ficou nervoso e começou a apresentar os primeiros sinais de icterícia: sentiu tonteiras, a pele ficou amarela, os olhos brancos, feridas surgiram na boca e seu corpo passou a arder em febre. Foram vinte dias se recuperando até que pudesse voltar a treinar. Só então, aos poucos, Dida foi se soltando, deixando de lado a timidez e mostrando aquele futebol que tanto encantara os atletas de vôlei do clube. Para isso, contou também com a ajuda de seus companheiros – virou uma espécie de xodó do grupo”. Pouco a pouco, Dida fazia jogadas paradisíacas com os aspirantes nos jogos e infernizava os zagueiros titulares Tomires e Pavão nos treinos. E finalmente teve a primeira oportunidade no time principal, em 1954.

    Flamengo foi campeão carioca em 1953 e tinha um rolo compressor em 1954, principalmente no setor ofensivo: Rubens, Benítez, Joel, Evaristo, Paulinho, Índio, Esquerdinha, Zagallo, só craques. A chance de Dida chegou no final do ano de 1954, com as lesões de Benítez, Evaristo e Zagallo, Dida foi chamado com outro jovem, nordestino, promissor e franzino, Babá. Como Zico anos depois, Dida foi lançado pelo técnico Fleitas Solich. Como Zico, estreou contra Vasco. E como Zico, Dida brilhou no Clássico dos Milhões, que acabou, como Zico em 1971, numa vitória 2×1 de Flamengo. Na estreia, Dida brilhou ainda mais que Zico, como escreveu Aristélio Andrade para Placar em 1971: “A estreia de Zico no Flamengo não foi igual ao lançamento de Dida em 1954. Foi comedida, menos espetacular, mas eficiente. De seus pés saiu a jogada que resultou no gol de Ney. Zico simplifica todas as jogadas: toca de primeira e procura os espaços vazios para receber os passes. Não tem medo de jogo duro e está sempre na área. Fora de dúvida, a posição é sua”. É que, no 17 de outubro de 1954, Dida fez um autêntico show contra Vasco. Não fez gol, a tarefa coube ao Rubens, de falta, e Índio, mas fez viver um inferno aos vascaínos, especialmente ao meia Ely do Amparo, grande craque da época. “Como se fosse desconhecedor do nome, do prestígio do médio do Vasco, Dida prosseguiu passando por Eli como se Eli não existisse” explicou a grande voz do futebol brasileiro da época, Luiz Mendes.

    Dida jogou na semana seguinte o Fla-Flu, que acabou num 0x0, mas com as voltas dos craques mais consagrados, voltou nos aspirantes. Com uma diferença, os torcedores do Flamengo chegavam mais cedo ao Maracanã para ver Dida e os aspirantes. E tinha uma constante, Dida brilhava. O jovem atacante fez mais um jogo com o time principal no campeonato carioca, contra a Portuguesa. No 21 de novembro de 1954, Flamengo venceu a Portuguesa 2×1. O primeiro gol, há quem viu que foi Dida que marcou, mas o juiz assinalou o tento para Rubens. O segundo gol, agora não teve dúvidas, como escreveu o Jornal dos Sports no dia seguinte: “Dida, recebendo ótimo passe de Rubens, manobrou rápido e atirou violentamente, vencendo a meta guarnecida por Antoninho, que viu baldados seus esforços para deter o couro. Seria esse o tento da vitória do Flamengo sobre a Portuguesa, embora a essa altura o placar fosse 2×0”. Dida fazia seu primeiro gol com o Manto Sagrado e algumas semanas depois, sem a presença de Dida, Flamengo faturava o bicampeonato.

    Em 1955, um ano histórico no Francêsguista, Dida beneficiou-se de várias lesões dos craques do ataque para ter mais tempo de jogo. E não decepcionou: doblete contra Olaria, hat-trick contra Canto do Rio, gol contra America. Também teve participação fundamental no Fla-Flu, com 2 gols na vitória 6×1, maior goleada do Fla-Flu no campeonato carioca, junto com o 6×1 de 1944, também em favor do Flamengo, claro. Infelizmente, o ano de 1955 também foi de tristezas, com a morte do presidente Gilberto Cardoso, que não resistiu a uma parada cardíaca num jogo de basquete de seu tão amado Flamengo. Mas também é o poder do futebol, a morte do Gilberto Cardoso reuniu no mesmo time alguns dos rivais mais ferozes do futebol internacional, um combinado Flamengo-Vasco enfrentou um combinado Racing-Independiente, da Argentina. E o time do Rio derrotou o time de Avellaneda 3×1 com um gol de Dida, que, agora apenas com o time de Flamengo, também fez gol contra o Racing e o Independiente, ajudando o rubro-negro a conquistar o Torneio Internacional do Rio de Janeiro.

    Mas a maior façanha de Dida no ano de 1955 chegou no início de 1956. O campeonato carioca de 1955 ainda estava em andamento em 1956 e o Padre Góes, flamenguista roxo, anunciou o tricampeonato do Flamengo. Na final contra o America, Flamengo ganhou o jogo de ida 1×0, gol de Evaristo, mais foi duramente goleado na volta, 5×1. Dida jogou nenhum desses jogos. Sem saber realmente se foi por questões táticas ou disciplinares, Fleitas Solich sacou do time Paulinho e Jadir, para a entrada dos jovens Dida e Duca no jogo-desempate. Esse jogo do 4 de abril de 1956 merece uma crônica à parte na categoria dos jogos eternos. Porque jogo o foi eternizado só pelo talento de Dida. Segundo o próprio Dida, o favoritismo era mais do America: “Eu e meus companheiros estávamos dispostos a dar a vida pelo tricampeonato. No vestiário, fizemos uma espécie de pacto: a “negra” há de ser nossa! Só Deus sabia nosso estado de nervos. Afinal, entramos em campo debaixo do calor de 200 mil bocas. Nossos adversários eram francos favoritos. Apostava-se na cidade pela vitória americana. Eis a verdade: ninguém fazia fé no Flamengo, a não ser a nossa fabulosa torcida”.

    Flamengo tinha fé, tinha ídolos, tinha o talento e a raça de Dida que acabou com o jogo, fazendo nada menos do que os 4 gols do Flamengo na vitória 4×1. E a torcida rubro-negra partiu para um carnaval atrasado na cidade. Era o segundo tricampeonato da história do Flamengo, a maior homenagem possível ao falecido Gilberto Cardoso. E lá em Quitino, o pequeno Arthur, de 3 anos, só falava uma coisa: “Dida, Dida, Dida, Dida”. Em apenas um jogo, Dida passou de jovem promissor no banco de reservas até a idolatria da maior torcida do Brasil. Nessa época, os números nas camisas de futebol ainda eram novidade e Dida tornou-se o primeiro grande camisa 10 do Flamengo, inspirando Zico, que explicou no livro Uma vez Zico, sempre Zico, de Luís Miguel Pereira: “Quando era garoto, o meu único sonho era jogar com a camisa 10 do Dida. Era isso que me motivava”. No jogo de botão, era só Dida. Continua Zico: “Fazia os campeonatos, havia aqueles botões em que punha a cara dos jogadores: o Flamengo era sempre o campeão; e o Dida, invariavelmente o artilheiro…”.

    O Dida conhecia a maior alegria e o maior orgulho que um homem pode conhecer, ser ídolo do Flamengo. Um mês depois do poker contra o America, Dida descartou qualquer troca de clube e jurou amor eterno ao Flamengo, falando ingenuamente para Manchete Esportiva: “Meu passe é de propriedade do Flamengo. Em quanto está estipulado? Não sei e nem me interessa, porque não cogito, em futuro próximo ou remoto, trocar de camisa. No Flamengo é que me sinto bem e vestindo a camisa do Flamengo é que sinto vontade de lutar. Acho que isso acontece porque sou Flamengo; assim como sou alagoano, assim como sou brasileiro”. Dida bateu seu recorde de gols em 1956 e brilhou ainda mais em 1957. Nos históricos jogos contra o Honved, base do poderoso time da Hungria, Dida fez gols em 3 partidas, nas vitórias 6×4 e 5×3 e na derrota 4×6. Outros tempos do futebol. Em outro jogo internacional, na inauguração do Camp Nou contra Burnley, também jogo eterno no Francêsguista, Dida abriu o placar de cabeça para uma vitória 4×0 do Flamengo. No final do ano, fez em um pouco mais de um mês, 4 hat-tricks no campeonato carioca, contra Madureira, Vasco, Bonsucesso e a Portuguesa. Ninguém resistia ao talento de Dida.

    Em 1958, Dida estreou com a Seleção brasileira, numa vitória 5×1 contra o Paraguai no Maracanã. Deixou seu gol e depois deixou seu lugar para ninguém menos de que Pelé. Também abriu o placar contra a Bulgária no último jogo no Maracanã antes da Copa do Mundo. Dida foi titular na estreia da Copa do Mundo, uma vitória 3×0 contra a Áustria, mas saiu do time no jogo seguinte e não jogou mais. Alguns falaram que estava machucado, outros que amarelou, ainda eram tempos do complexo de vira-lata. Para Placar em 1971, falou o próprio Dida: “Faltavam duas horas para o jogo com a Inglaterra. O Feola se aproximou de mim e disse: ‘Você não vai jogar’. Até hoje o Feola me deve uma explicação […] Os homens já queriam me queimar há muito tempo. Diziam que eu era de vidro, medroso. Nunca tive medo. Não tremi contra a Áustria. Como iria tremer num jogo fácil daquele? Pedi então para voltar ao Brasil. Muito pedido, muitos conselhos e acabei ficando. Acabei não jogando ao lado do Pelé. Feola dizia que não queria complicar as posições. Mas não era nada disso”. Mesmo assim, Dida foi campeão do mundo e na volta ao Brasil, dois meses depois da Copa, fez cinco gols na goleada 8×0 contra Olaria.

    Em 1959, Dida inscreveu-se ainda mais na idolatria da torcida e na história do Flamengo. Durante o ano, fez 46 gols, então um recorde para um jogador do Flamengo numa mesma temporada, ultrapassando Leônidas e Pirillo. Apesar de todos os gols, Flamengo não vencia título desde o tricampeonato de 1955. A volta aos títulos chegou em 1961 com o Torneio Rio – São Paulo, que começou de forma bem ruim para Flamengo. No Maracanã, levou uma derrota 7×1 contra o Santos de Pelé, Pepe e Coutinho. A vingança rubro-negra chegou um mês depois, no Pacaembu. Sem Pelé, Santos levou um 5×1, com dois de Dida e três de Gérson, que formava ao lado do ídolo Carlinhos um meio de campo jovem e de alta qualidade.

    Falou o então jogador e futuro técnico de Zico na base e no time profissional, Joubert: “O que mais me marcou naquele Rio – São Paulo de 1961 foram os confrontos do Flamengo com o Santos. No Maracanã, perdemos por 7 a 1. Nós, jogadores, ficamos envergonhados. Foi terrível. A nossa própria torcida gritou “olé!”. Ninguém mais acreditava na gente. Fizemos uma reunião, com a promessa de reverter a situação. Daí, o nosso time não perdeu mais. Durante o jogo no Maracanã, eu falava para os jogadores do Santos: ‘Vai ter a volta, lá o nosso troca será pior’. No dia da forra, do jogo com eles no Pacaembu, em São Paulo, pagamos a promessa. Disse ao falecido Dida: ‘Vamos botar na roda’. Não deu outra: metemos 5 a 1. O Dida chegou a sentar na bola, e aí veio o Zito para dar bronca. Essa revanche é inesquecível. Pelé poderia estar em campo, que venceríamos do mesmo jeito. Ali, passamos a ter a autoconfiança de que seríamos campeões. O Flamengo tinha um belo time. O Bolero era um zagueiro altamente técnico, tipo Leandro, era realmente excepcional. Dida era infernal, Gérson estava começando a carreira”.

    Quatro dias depois da vitória contra Santos, Flamengo enfrentava o Corinthians no Maracanã e precisava de uma combinação de resultados para ser campeão. No primeiro tempo, Dida ganhou o escanteio que viu Joel abrir o placar. No segundo tempo, Dida recebeu um passe de Henrique e fez o gol do 2×0, o gol do título. Com essa vitória contra o Corinthians, também um jogo eterno no Francêsguista, Flamengo conquistava seu único título do Rio – São Paulo. E mais, na arquibancada, tinha para sentir a emoção da torcida rubro-negra, a presença do fã de sempre, Zico, que recordou no livro Zico, 50 anos de futebol: “Meu pai já me levara antes, bem pequeno. Mas a imagem que guardei para sempre foi ver da arquibancada o Dida fazer um gol no Corinthians”.

    O Botafogo de Garrincha passou a dominar o futebol carioca e Flamengo estava sem condições de luta, apesar dos gols de sempre de Dida. Teve um hat-trick num 4×1 contra Fluminense em 1961, um doblete num 3×2 contra Botafogo em 1962. Não fazia gols apenas contra os grandes rivais cariocas. Apenas no ano de 1962, Dida fez gol na Costa Rica, no México, na Tchecoslováquia, na Itália, na Espanha, na Suécia, na URSS, na Noruega, na Tunísia, no Gana. Fez brilhar o futebol brasileiro e o Manto Sagrado quase em todos os continentes, todos os lugares do Mundo. Eram tempos de futebol ainda sem as estatísticas de hoje, mas considerando que o Pirillo era o então maior artilheiro do Flamengo com 204 gols, Dida igualou e ultrapassou a marca no mesmo jogo. No 30 de abril de 1962, no Camp Nou, Flamengo venceu Barcelona 2×0 com 2 gols de Dida, agora artilheiro máximo da história do Flamengo com 205 gols. Pena que não tinha na época a consciência do momento histórico, e não tem hoje as imagens dos gols. Uma época do futebol com estádios cheios, ingressos baratos, mas também sem televisão, o que infelizmente fez esquecer um pouco Dida na galeria dos ídolos do Flamengo, restringindo sua classe e habilidade às testemunhas do Maracanã, como Zico e muitos outros flamenguistas dos anos 1950 e 1960.

    Em 1963, Dida fez outros gols na Europa, na Romênia, na Polônia, na Dinamarca, na Suécia e na minha França, em Tolosa. Mas o campeonato carioca foi mais difícil e Dida fez apenas 4 gols no torneio. Um empate sem gol contra Madureira quando o jornalista José Castolo falou de uma “sabotagem dos jogadores ao comando técnico” foi o ápice da crise, com expulsão de Dida durante o jogo. No dia seguinte, o presidente Fadel Fadel deu plenos poderes ao autoritário técnico Flávio Costa, que barrou Dida e Gérson. Contra Ferroviário no Ceará, Dida fez algumas semanas antes seu 253o e último gol com o Manto Sagrado, em 358 jogos, com uma média superior inclusive à de Zico. E como para simbolizar o fim de uma Era, Flamengo voltou neste mesmo ano de 1963 a ser campeão carioca depois de 8 anos sem título, depois de um 0x0 eterno no Fla-Flu. Dida ainda passou pela Portuguesa, fazendo 54 gols em um ano, e exportou-se na Colômbia, no Júnior Baranquilla, que contratou ao mesmo tempo outros craques brasileiros, Garrincha e Quarentinha. Garrincha fez apenas um jogo, Dida fez 46 gols com o time colombiano e pendurou as chuteiras em 1967.

    O fim da trajetória no Flamengo foi triste e deixou Dida amargurado, como ele falou para Placar em 1978: “Dei tudo a eles, não me deram nada, só migalhas. Diziam: ‘Dida, não vá para a Itália, você é imprescindível’. Eu ficava cheio de vento, topava. Fui um grande torcedor do Flamengo, não fui profissional. Fui ídolo sim, mas ninguém fala mais em Dida. O Dida, o jogador, morreu”. Mas o ídolo da torcida nunca morreu, apesar de ter alguns recordes quebrados pelo seu maior fã, Zico. Em 1974, Zico, quase contra sua vontade, quebrou o recorde de gols no Flamengo em um ano, com 49 gols, 3 a mais que Dida em 1959. E em 1979, Zico tornou-se maior artilheiro da história do Flamengo, ultrapassando mais uma vez Dida. Decepcionado com a diretoria do Flamengo, Dida nunca escondeu sua admiração por Zico, falando depois da marca batida pelo Galinho: “Se Zico igualou o meu recorde é porque ele é um fora-de-série”. Algumas semanas depois, no amistoso contra o Atlético Mineiro com Pelé vestindo o Manto Sagrado, também um jogo eterno no blog, Dida foi no gramado para finalmente receber uma homenagem, junto com Pelé e Zico.

    Em 1982, Dida voltou a falar sobre Zico: “Zico é mais completo do que eu. Além de artilheiro, arma as jogadas, crias oportunidades para os companheiros, dá gols para todos eles. Ah, se eu tivesse a firmeza do chute de Zico, nem sei o que teria feito no futebol…”. Zico conseguiu ser o ídolo de seu ídolo, conseguiu o ultrapassar na hierarquia dos ídolos do Flamengo. Em 2002, alguns meses antes da morte de Dida, Zico entrevistou Dida por uma rádio, como lembrou Zico ao Roberto Sander: “Pouca gente sabe, mas essa foi a última entrevista do Dida. Fiquei muito emocionado e senti que aquilo mexeu com ele também. Eu lembro que ele estava contente por estarmos ali. Dida foi um craque de uma época diferente do futebol, de atletas mais ingênuos que sofreram muito por isso”. Infelizmente, como outros craques da época, Dida sofreu depois da carreira de jogador. Investiu na própria casa de loteria, Didasorte, mas foi um fracasso. Escreveu Roberto Sander: “Dida foi obrigado a viver da renda proveniente da venda de seus imóveis. Aos poucos, acossado por problemas familiares, como a diabetes de um dos filhos, foi perdendo tudo. Acabou voltando à Gávea para ser auxiliar-técnico e trabalhar nas categorias de base. Àquela altura, era um homem amargurado. Consumia-se na bebida, em vários maços de cigarros diários e numa mágoa profunda. Um fim de vida anunciado”. Dida morreu de insuficiência hepática e respiratória no 17 de setembro de 2002, com apenas 68 anos. Ainda hoje, Dida é o segundo artilheiro da história do Flamengo. Para sempre, mesmo sem muitos lances disponíveis na Internet, Dida é um dos maiores ídolos da história do Flamengo. Para a eternidade, Dida é o maior ídolo do maior ídolo do Flamengo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”