Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #134: Valencia 1×3 Flamengo 1997

    Jogos eternos #134: Valencia 1×3 Flamengo 1997

    Na quarta-feira, a Seleção brasileira joga contra a Espanha num jogo contra o racismo, infelizmente tão presente na Espanha. O estádio é o Santiago Bernabéu, onde Flamengo nunca jogou, mas que viu muitas atuações brilhantes de nosso Vinícius Júnior. Vamos então de um jogo em outro estádio da Espanha, na Mestalla de Valência, que infelizmente viu recentemente casos de racismo contra Vinícius de parte de alguns dos torceburros de Valencia.

    Eu já escrevi sobre a vitória 3×0 contra o Real Madrid em 1997, com show de Sávio. Nesta altura, o Real Madrid já estava convencido de contratar nosso craque e ídolo. Mas Sávio fez mais um show apenas uma semana depois, agora no Troféu Naranja de Valência. No 23 de agosto de 1997, Paulo Autuori escalou Flamengo assim: Clemer; Fábio Baiano, Júnior Baiano, Luís Alberto, Gilberto; Jamir, Jorginho, Lúcio, Iranildo; Sávio, Renato Gaúcho. Do lado de Valencia, outro ídolo do Flamengo, Romário, bem acompanhado no ataque com os argentinos Ariel Ortega e Claudio López.

    E foi justamente Romário o primeiro em ação, bem servido pelo Ortega, Romário dominou na grande área. Tantas vezes os torcedores do Flamengo viu Romário fazer gol assim com o Manto Sagrado, e agora Flamengo era vítima da genialidade do Baixinho. Mas Flamengo tinha seu craque diferenciado também. No final do primeiro tempo, Lúcio foi derrubado por um último defensor, mas o juiz reagiu bem, não apitou e deu sequência a jogada. Sávio recuperou a bola, driblou o grande goleiro Zubizarreta e empatou com um chute no gol vazio.

    E de novo, agora no segundo tempo, jogada do gol começou com Lúcio, que arrancou quase 40 metros na esquerda e achou Sávio na profundidade. Já na tomada do posse da bola, Sávio eliminou Javi Navarro com um lindo corte. Uma jogada de craque. Sávio ainda abriu o ângulo e no pé direito, achou a gaveta, sem chance para Zubi. Um golaço e agora, Flamengo na frente na Mestalla.

    O Flamengo estava melhor que Valencia, na técnica e na velocidade. Com outro contra-ataque e grande passe, agora de Iranildo, Sávio de novo foi lançando na profundidade. De novo com grande classe e estilo à la Romário, Sávio deixou nenhuma chance ao Zubizarreta e completou o hat-trick, agora de pé esquerdo. Nas arquibancadas, os jogadores do Palmeiras comemoram o placar, que lhes dava o título do Troféu Naranja. Palmeiras campeão talvez, mas certeza é que só nós flamenguistas tínhamos um craque como Sávio.

  • Jogos eternos #133: Flamengo 0x0 Vasco 1974

    Jogos eternos #133: Flamengo 0x0 Vasco 1974

    O adversário do Flamengo na final do campeonato carioca está definido, o Nova Iguaçu, que pela primeira vez chega na final. Vamos então para enfrentar os adversários clássicos voltar ao passado, em 1974, quando Flamengo foi campeão em cima do Vasco.

    Eu já escrevi sobre o time histórico de 1974, uma marca na carreira de Zico. O técnico era Joubert, antigo zagueiro do time, que quase só jogou no Flamengo, entre 1955 e 1964. Como técnico, sucedeu ao Zagallo e lançou no time principal 11 craques da base, um time inteiro: Cantareli, Ivanir, Rondinelli, Jaime, Julinho, Léo, Ney, Paulinho, Geraldo, Rui Rei e Silvinho. E ainda mais importante, teve um papel fundamental na carreira de Zico, que estreou em 1971 mas ainda era reserva no comando de Zagallo. Com Joubert, Zico foi titular, camisa 10, cérebro do time e artilheiro. Zico fez gols, gols e ainda gols, até quebrou o recorde do ídolo Dida, que tinha feito 46 gols em 1959. “Foi uma marca quebrada contra a vontade” falou depois Zico, que fez 49 gols em 1974.

    Campeão do terceiro turno, a Taça Pedro Magalhães Corrêa, Flamengo chegou no triangular final do campeonato carioca, junto com o America e o Vasco. Com um jogo “nota 10” do jovem Júnior e vitória 2×1 contra o America, Flamengo precisava de apenas um empate contra Vasco para ser campeão. E tinha o apoio da torcida, com 165.358 presentes no Maracanã, o sétimo público da história do Maraca e o segundo do Clássico dos Milhões, ultrapassado apenas para o jogo de 1976, também um jogo eterno no Francêsguista.

    Mas tinha um ausente nas arquibancadas, o presidente do Flamengo, Hélio Maurício. Cardíaco, ele foi vetado para assistir ao jogo e foi no parque aquático do Fluminense, ouvindo o jogo com um (não tão) antigo radinho de pilha. Tinha também um ausente no gramado, o craque argentino Doval estava machucado e não teve condições de jogar. Assim, no 22 de dezembro de 1974, Joubert escalou Flamengo assim: Renato; Júnior, Jayme, Luís Carlos, Rodrigues Neto; Zé Mario, Paulinho, Geraldo; Zico, Julinho, Edson. Do lado do Vasco, campeão brasileiro alguns meses antes, grandes nomes como Andrada, Fidélis, Zanata, Jorginho Carvoeiro e claro, o artilheiro Roberto Dinamite, que iniciava com Zico uma das rivalidades mais lindas e limpas do esporte.

    No Maracanã, calor de Natal e jogo equilibrado, Vasco querendo o gol para ser campeão, Flamengo querendo o gol para matar o campeonato. Zico quase abriu o placar, com giro de corpo para driblar um defensor, uma pisada e drible curto para eliminar um outro, e chute do pé esquerdo, apenas desviado pelo Andrada. Seria um golaço, mas um defensor salvou em cima da linha. Do outro lado, num escanteio, Roberto Dinamite matou a bola de peito e deixou atrás para o chute do companheiro, que flirtou, apenas flirtou com a trave de Renato.

    No segundo tempo, Roberto Dinamite fez outro ótimo passe, agora para Jair Pereira, livre para chutar. E de novo, a bola fugia do gol rubro-negro, a taça fugia das mãos vascaínas. Não foi o melhor Clássico dos Milhões da história, mas Flamengo segurou o 0x0, segurou a taça. Zico não fez gol, ficando com 19 gols no campeonato, um a menos que o artilheiro americano Luisinho Lemos. Mas Zico tinha ali a recompensa de um duro trabalho coletivo, e também individual. Falou Deus no livro Zico conta sua história: “Procurava corresponder ao que se esperava de mim dentro de campo. Além dos treinamentos coletivos e de controle de bola, batia até 80 faltas por dia, das mais variadas posições. Chegava a bater 10 a 20 pênaltis por dia – costumava avisar ao goleiro onde ia colocar a bola, para me dificultar ainda mais. Isso, naturalmente, sem contar os exercícios físicos e de minha eterna musculação”. Zico era campeão carioca e começava uma caminhada que ia culminar até a maior idolatria da maior torcida do mundo.

  • Times históricos #26: Flamengo 2016

    Times históricos #26: Flamengo 2016

    Eu já escrevi sobre os anos históricos de 2015 e 2017 e vamos hoje para o ano de 2016, que foi a consolidação do projeto de Eduardo Bandeira de Mello. Depois de sacrifícios financeiros, Flamengo conseguiu contratar alguns jogadores no início do ano, com a maioria das despesas para dois meios campistas gringos, Cuéllar e Mancuello. Também vieram Alex Muralha, que brilhou no Brasileirão de 2015 como goleiro de Figueirense e dois jogadores importantes nas temporadas seguintes, Rodinei e Willian Arão. Até teve a volta de um ídolo, Juan, que logicamente pegou a braçadeira de capitão. Também teve um novo técnico, Muricy Ramalho, tetracampeão brasileiro e campeão da Libertadores. Sempre fui um grande fã de Muricy, que soube combinar eficiência defensiva e futebol ofensivo, e eu estava muito feliz com essa nominação.

    Flamengo começou o ano com amistosos valendo taças no Nordeste e coube ao Emerson Sheik fazer o primeiro gol do Flamengo da temporada. Mas Flamengo perdeu a Taça Asa Branca contra Ceará e a Taça Chico Science contra Santa Cruz. Flamengo estreou oficialmente na primeira edição da Primeira Liga, também chamada de Copa Sul-Minas-Rio. Ao lado de Fluminense, Flamengo foi um dos líderes da criação da competição, sob fundos de racha com a FERJ e de conflitos no comando da CBF. Sempre fui contra essa competição que não tinha tradição e só colocava mais jogos num calendário já cheio. Flamengo fechou seu grupo na liderança mas caiu na semifinal, contra o Athletico Paranaense.

    No campeonato carioca, coube ao Paolo Guerrero fazer o primeiro gol do Flamengo na competição, aliás um golaço. O peruano Guerrero ainda era a grande promessa do elenco para a temporada de 2016 e foi de meia satisfação até meia decepção. Por causa dos Jogos Olímpicos, Flamengo deslocalizou muitos jogos do campeonato, no Pacaembu de São Paulo, no Mané Garrincha de São Paulo ou na Arena da Amazônia de Manaus, quando foi eliminado pelo Vasco. A casa, não importa o local, estava sempre cheia, sempre rubro-negra, mas não foi suficiente e Vasco chegou ao bicampeonato. Outros tempos do futebol e uma competição para esquecer.

    Na Copa do Brasil, Flamengo estreou com derrota, contra Confiança. Virou na volta e se classificou graças ao doblete de Marcelo Cirino, mas caiu na segunda fase, com duas derrotas 2×1 contra Fortaleza. Mais uma competição para esquecer e agora o foco era no Brasileirão. Na estreia contra Sport, Éverton fez o único gol da partida, recebendo cruzamento de Willian Arão. E infelizmente, Muricy Ramalho teve que parar a carreira de técnico por conta de problemas no coração. Em 2023, voltou ao tema para ESPN: “No Flamengo eu tive um problema sério, fui duas vezes para a UTI. É terrível, um quarto fechado, que não tem ninguém, só aparelho piscando e fazendo barulho. E você pensa: não vi minha filha nascer, não vi meu pai ser enterrado, não criei meus filhos, perdi todos os aniversários. Foi o maior contrato que eu fiz na minha carreira, no Flamengo. Aí larguei, cara. Não quero esse dinheiro. Daqui a pouco eu vou morrer, então não quero isso. Foi uma decisão dura para caramba, do jeito que eu era pilhado, contrato ótimo. Foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida”. Uma notícia ruim para Flamengo, mas sensata. Depois de mais um interino de Jayme de Almeida, assumiu Zé Ricardo, um técnico promissor, porém ao meu ver, limitado.

    No primeiro turno, Flamengo foi irregular sim, mas convincente de maneira geral, com grande temporada de alguns jogadores, como Willian Arão, Alan Patrick e Éverton, e gols importantes de Paolo Guerrero. Também gostei das atuações do jovem lateral-esquerdo Jorge, que fez um golaço impressionante contra a Ponte Preta. Flamengo fechou o primeiro turno com vitória 1×0 sobre o Athletico e golaço de letra de Mancuello, ficando na quarta colocação, com apenas 2 pontos a menos que o líder, Palmeiras. E a torcida teve motivos de mais alegrias ainda, com a contratação de dois jogadores confirmados do Brasileirão, o zagueiro Réver e o centroavante Leandro Damião. Réver alternou o bom e o menos convincente, mas Leandro Damião foi uma decepção mesmo, apesar de um início lindo, com 2 gols e uma assistência nos 3 primeiros jogos.

    Mas a torcida estava ainda mais feliz com a contratação de Diego, craque da Seleção e que mostrou sua classe nos gramados europeus, no Portugal, na Alemanha, na Itália, na Espanha, na Turquia. Já falei que para mim o projeto de Eduardo Bandeira de Mello não começou com a contratação de Diego, mas de Paolo Guerrero um ano antes. Porém, a contratação de Diego foi mais um passo na frente e Flamengo mudou de patamar só com essa chegada. Diego, um ídolo no Francêsguista, estreou muito bem, fazendo o gol da vitória contra Grêmio, achando as redes de novo no jogo seguinte contra a Chape. Flamengo venceu 4 jogos consecutivos e tinha apenas um ponto a menos do que o líder Palmeiras, justamente o próximo adversário. E a torcida sentiu um cheirinho de título.

    No Allianz Parque, Alan Patrick abriu o placar num passe de Éverton, Flamengo teve oportunidades de ampliar, mas cedeu o empate nos minutos finais com gol de Gabriel Jesus. Flamengo se recuperou, ganhou o Fla-Flu, mas na reta final, perdeu de virada contra o Inter e concedeu 3 empates seguidos apesar da volta ao Maracanã depois de longes meses fora do estádio. Palmeiras era um time melhor e foi quase impecável no segundo turno, com apenas uma derrota no turno inteiro. Palmeiras fechou o campeonato com 80 pontos, e Flamengo ficou no terceiro lugar com 71 pontos, quatro a mais do que quando conquistou seu último Brasileirão, em 2009. O título tão esperado também não veio com a Copa Sudamericana, Flamengo foi eliminado nas oitavas de final contra Palestino no critério do gol fora da casa, no caso o Kleber Andrade. Talvez faltou um Maracanã mais presente para buscar mais coisas na temporada.

    Depois, teve que aguentar as piadas dos rivais, ou até não-rivais, sobre o cheirinho. Mas já falei que não me incomodou, porque eu sabia que os títulos iam chegar um dia ou um outro, só não podia esperar de tal forma como aconteceu. Depois de anos ficando no meio da tabela, no melhor, lutando contra o rebaixamento, no pior, Flamengo estava de volta no G-4, de volta na Libertadores. A espera, às vezes tão sofrida, para a alegria de ser campeão, se aproximava do fim.

  • Jogos eternos #132: Flamengo 1×1 Fluminense 2019

    Jogos eternos #132: Flamengo 1×1 Fluminense 2019

    Hoje, Flamengo enfrenta Fluminense na semifinal do campeonato carioca, podendo até perder por 2 gols de diferença e se classificar para a final, contra Vasco ou Nova Iguaçu. Em 2019, também teve Fla-Flu na semifinal do campeonato carioca, com vantagem para Flamengo, embora menor, que podia se classificar para a final com empate.

    E o jogo foi sofrido, com emoção, digno da grande história do Fla-Flu. No 6 de abril de 2019, o então técnico Abel Braga escalou Flamengo assim: Diego Alves; Pará, Rodrigo Caio, Léo Duarte, Renê; Willian Arão, Cuéllar, Diego; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Uribe. No banco, Arrascaeta, que não caía nas graças de Abel Braga, e Gabigol, apesar de ter feito 8 gols nos últimos 7 jogos.

    No início do jogo, Arão (achou que) fez um gol de cabeça, mas eram novos tempos do futebol, com o VAR e a possibilidade de anular um gol. Na câmera, o juiz viu falta no goleiro e anulou a alegria da torcida rubro-negra. Estou em favor do vídeo no futebol, apesar de ser frustrante às vezes com uma utilização mal feita, mas acho o futebol mais justo com o VAR. Flamengo continuou a dominar o jogo e quase abriu o placar no final do primeiro tempo, mas Rodolfo defendeu com o pé um chute de Bruno Henrique, e Gilberto chegou na linha antes do Uribe para impedir o gol do Flamengo.

    E na sequência, o lateral tricolor Gilberto foi mais uma vez decisivo, agora no ataque. Recebendo um cruzamento de Caio Henrique, Gilberto, sozinho na grande área, cabeceou e abriu o placar. No intervalo, classificação parcial do Fluminense. Abel Braga resolveu mudar o time, com a entrada de Gabigol no lugar do ineficiente Uribe. Início do segundo tempo foi equilibrado, Rodolfo defendeu um chute de Bruno Henrique, Diego Alves salvou o Flamengo num chute de Luciano. O 2×0 para Fluminense quase teria sido sinônimo de classificação do Flu, mas o Fla ainda estava vivo e Abel Braga fez mais uma troca, Arrascaeta entrando no lugar de Diego.

    Flamengo voltou a dominar o jogo, atacava na esquerda, atacava no meio, atacava na direita, mas sempre tinha um defensor tricolor para impedir o gol do empate, o gol da classificação do Flamengo. Até o meio do segundo tempo, quando Gabigol recebeu na esquerda. Gabigol olhou no gol, olhou na pequena área para o cruzamento que parecia evidente, mas Gabigol surpreendeu e chutou diretamente no gol com força, bem no cantinho. Gol do Gabigol, que comemorou com raça, com amor, com paixão. Gol do Flamengo, que ainda não era o time inesquecível de 2019, mas que já fazia vibrar a torcida, com vitória no Fla-Flu e classificação na final do campeonato carioca e em seguida, título contra Vasco, o que pode ser repetido em 2024.

  • Jogos eternos #131: Flamengo 4×0 America 1979

    Jogos eternos #131: Flamengo 4×0 America 1979

    Sem jogo hoje, eu vou para a lembrança do dia de um jogo do campeonato carioca contra um adversário que não joga mais na elite, mas um adversário de tradição, o America. Durante muitos anos, o clube alvirrubro era a quinta força do futebol carioca e fechou justamente no quinto lugar o campeonato carioca 1978, conquistado pelo Flamengo, que iniciou assim sua Era de ouro.

    Apenas algumas semanas depois, Flamengo voltou no campeonato carioca que, pela primeira vez, incluía times do interior do Rio de Janeiro. Flamengo estreou, sem Zico, com vitória sobre Volta Redonda, três dias antes do jogo contra America. No 11 de fevereiro de 1979, o saudoso Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Manguito, Rondinelli, Júnior; Leandro, Adílio, Zico; Reinaldo, Júlio César Uri Geller, Cláudio Adão. Um time ainda em transformação, com o jovem Leandro escalado no meio de campo.

    E o jogo contra o America foi histórico antes mesmo do apito inicial. Foi o jogo da inauguração do placar eletrônico do Maracanã, que se tornara tão mítico nos anos seguintes. E o primeiro artilheiro do placar eletrônico foi Reinaldo Gueldini, contratado pelo Flamengo em 1979, vindo justamente do America. Com 28 minutos de jogo, a defesa do America saiu mal a bola, que voltou nos pés de Júlio César Uri Geller. No seu estilo particular, Júlio César deu um drible encantador, se livrou de um outro adversário com mais um drible e cruzou. A bola desfilou na grande área alvirrubra e chegou até os pés de Reinaldo. No domínio de Reinaldo, a bola se elevou, Reinaldo deixou a cair antes de chutar cruzado para ter o primeiro “GOL” no placar, tudo lindo, tudo eletrônico.

    Com 28 minutos de jogo, agora no segundo tempo, num escanteio, de novo uma bola mal afastada pela defesa do America. E o craque Adílio apareceu. Sem tocar a bola, mas com a finta necessária, ganhou a bola, e com dois toques leves, perfeitos, ganhou a dividida. Voltou contra o mesmo zagueiro, e o eliminou mais uma vez, com apenas um drible curto. E agora mais uma vez, a jogada cerebral do autêntico craque. Adílio fez uma pequena finta de passe, quase imperceptível, mas que fixou o zagueiro, deixando tempo para Adílio de fazer mais um drible seco do pé esquerdo e de chutar forte na gaveta, indefensável para o goleiro País. Um golaço, um gol de placa, para o novo placar. “Só o gol vale o ingresso” falou o grande narrador Luciano do Valle. Mas para os 45.021 presentes no Maracanã, tinha ainda mais, muito mais.

    Zico ainda não tinha aparecido muito no jogo, mas ele tinha gosto de vingança na boca e nas pernas. Um ano antes, Nosso Rei bateu uma falta e o goleiro americano País defendeu. Defender uma falta de Zico era como defender um pênalti. O País, saindo como vencedor, exibiu a bola como um troféu para a torcida flamenguista, irritando uma Nação inteira e o próprio Zico, que foi para o País falar: “Te cuida que, no ano que vem, eu desconto”. E em 1979, um ano histórico para Flamengo e Zico, Deus descontou.

    Faltando dez minutos para o jogo acabar, Zico lançou Luisinho, um defensor do America chegou e fez uma falta desnecessária, uma “falta a caráter para Zico” segundo Luciano do Valle. “Dali é pênalti” acrescentou o comentarista Raul Quadros. E foi mesmo, o goleiro País ficou no meio do gol e apenas olhou para a bola, que chegou cirurgicamente na gaveta. Mais um golaço no Maracanã, mas o gosto de vingança de Zico ainda não era completamente adocicado. Apenas um minuto depois, de novo passe de Zico, levemente desviado pelo Adílio, até Luisinho, que cravou outra falta, quase no mesmo lugar do que a primeira falta, quase de novo um pênalti para o talento de Zico. “Outra vez uma falta no mesmo lugar, é tudo igual, parece um videoteipe, só falta a saber se a conclusão do lance será idêntica” antecipou Luciano do Valle.

    E foi, ou quase. A bola de Zico, de novo cirúrgica, foi um pouco em baixo da gaveta, quase a meia altura. Mas o desfecho foi o mesmo, bola nas redes, mais um gol no placar, mais um golaço no Maraca. E o País abatido, nunca mais provocou Zico. Nosso Rei não foi o inaugurador do placar eletrônico, mas foi o primeiro a fazer 2 gols no mesmo jogo, e quais golaços. Fazer um gol de falta já é uma façanha, ainda mais hoje, fazer 2 gols de falta no mesmo jogo é para poucos, mas 2 gols em 2 minutos, apenas para Deus, Nosso Rei, Zico.

    Deixo na crônica a sequência impressionante dos gols de Zico, mas vale a pena procurar também os dois primeiros golaços da história do placar eletrônico, principalmente o de Adílio, uma obra de arte, um pouco apagada pela genialidade de Zico.

  • Jogos eternos #130: Flamengo 3×2 Fluminense 2000

    Jogos eternos #130: Flamengo 3×2 Fluminense 2000

    Hoje é dia de Fla-Flu, meu clássico favorito no futebol. Também é o clássico sobre qual escrevi mais, já são 11 crônicas sobre o Fla-Flu no blog. As possibilidades são (quase) inumerosas e finalmente escolhi para hoje um Fla-Flu de 2000, no campeonato carioca.

    Em 2000, o favorito para ganhar o campeonato era o Vasco de Edmundo e Romário, que facilmente levou o primeiro turno, a Taça Guanabara. Do lado do Flamengo, o técnico Paulo César Carpegiani, campeão do mundo em 1981, pediu demissão depois de uma das maiores vergonhas da história do Flamengo, o chocolate 5×1 contra Vasco no dia de Pascoa.

    Antes de mais uma volta de Carlinhos no banco, a diretoria do Flamengo chamou como técnico interino Carlos César, que tinha feito um grande trabalho com a base do Flamengo, conquistando o campeonato carioca sub-20 em 1999. Depois de uma vitória contra o America na estreia da Taça Rio e de uma classificação na Copa do Brasil com duas vitórias contra Guarani, Carlos César conheceu seu primeiro clássico como técnico, contra Fluminense.

    No 7 de maio de 2000, Carlos César escalou Flamengo assim: Clemer; Maurinho, Juan, Luiz Alberto, Athirson; Leandro Ávila, Rocha, Mozart, Petkovic; Leandro Machado, Reinaldo. Do lado do Fluminense, o time decepcionou na Taça Guanabara com um quinto lugar e, como Flamengo, precisava absolutamente de conquistar a Taça Rio para ver as finais do campeonato. Estreou na Taça Rio com vitória sobre Friburguense, acabando com um jejum de 6 jogos sem vitória no campeonato.

    E no Maracanã, com um pouco menos de 50 mil espectadores, foi Fluminense que abriu o placar, Agnaldo driblando o Clemer antes de chutar no gol vazio. Antes do intervalo, Reinaldo puxou a contra-ataque rubro-negra e conseguiu uma falta, perto da grande área, bem no centro. Tinha a opção do canhoto Athirson ou do destro Petkovic. De qualquer modo, muito medo para o Fluminense. Petkovic, com o estilo particular, cobrou. O goleiro Zetti, com também seu estilo particular, ficou preso na calça, apenas olhou a bola morrer na gaveta. Mais um golaço de Petkovic, e no intervalo, empate no Fla-Flu.

    E no início do segundo tempo, Flamengo virou, com passe de Maurinho para Reinaldo. O lance é cirúrgico, o domínio de Reinaldo é perfeito, eliminando o zagueiro no controle de bola e já ficando em condições de fazer o gol. Zetti saiu, e de novo Reinaldo foi perfeito, derrubando o goleiro com um leve toque para fazer o gol de cobertura. Mais um golaço e agora Flamengo na frente.

    No meio do segundo tempo, Rocha achou Reinaldo, que achou Leandro Machado na grande área. Leandro Machado fez a finta para derrubar um adversário e chutou. Zetti defendeu, a bola foi no alto, Zetti se levantou e (quase) pegou a bola com uma mão. De forma inacreditável, Zetti jogou a bola nas próprias redes. Zetti foi um grande goleiro, mas também é conhecido pelos frangos que tomou, um inclusive já contra o Flamengo no Maracanã em 1993. Eu tinha esquecido que ele jogou no Fluminense, mas ele certamente não esqueceu desse Fla-Flu, com golaços de Petkovic e Reinaldo, com frango próprio.

    No final, Luiz Gustavo fez um gol para Fluminense, sem consequências para Flamengo, o Fla-Flu era rubro-negro. Depois, Flamengo ganhou todos os jogos da Taça Rio e derrotou o Vasco na final. O Rio era Flamengo. Vamos tentar uma primeira vez esse ano, se inspira, Flamengo de 2024.

  • Jogos eternos #129: Guarani 2×3 Flamengo 1982

    Jogos eternos #129: Guarani 2×3 Flamengo 1982

    Sem jogo no meio de semana, vamos aproveitar da pausa para homenagear mais uma vez Zico, que completou neste domingo 71 anos. Campeão de tudo em 1981, Flamengo continuou no início de 1982, um ano histórico no Francêsguista, com o Brasileirão.

    Depois de vários jogos, Flamengo chegou na semifinal, contra Guarani. Hoje na Série B, Guarani foi um time poderoso algumas décadas atrás, tornando-se o primeiro campeão brasileiro do interior, em 1978. Quatro anos depois, o time dirigido pelo José Duarte foi o melhor ataque do Brasileirão e tinha dois craques diferenciados, Jorge Mendonça e Careca.

    No jogo de ida no Maracanã, Flamengo estava desfalcado de Tita e Nunes, substituídos pelos Chiquinho e Peu. No primeiro tempo, Flamengo abriu 2×0 com gols de Zico e Peu, mas quase deixou escapar a vitória no segundo tempo depois do gol de Lúcio, outro craque do time bugrino. O jogo de volta no Brinco de Ouro prometia.

    O jogo prometia e o Brinco de Ouro estava cheio, com 52.002 pessoas, um recorde até hoje, provavelmente para a eternidade. Como a atuação de Zico está na eternidade. No 15 de abril de 1982, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Figueiredo, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Nunes. Um dos maiores times da história do Flamengo, com apenas uma troca em relação ao time que conquistou o Mundial contra Liverpool, Figueiredo sendo escalado na zaga no lugar de Mozer.

    E o Brinco de Ouro, ainda cheio de fumaças, pegou fogo bem no início do jogo, quando Jorge Mendonça, esquecido na segunda trave, abriu o placar num escanteio. Com esse resultado, quem chegava na final era o Guarani, apoiado pelos mais de 50 mil torcedores. E vinte minutos depois, Zico botou frio no estádio. Vale a pena voltar à jogada antes do escanteio. Zico recebeu no meio de campo, fez um drible “à la Cruyff” para escapar de um adversário, e achou de trivela Lico, que achou de volta Zico com um toque de calcanhar. Zico errou no domínio mas, antes da chegada de um defensor, se recuperou com um toque leve de bico. Era a jogada que precisava ser feita, impressionante a capacidade de adaptação de Zico, ainda mais com uma velocidade para pensar tão alta. A bola foi nos pés de Nunes, que cruzou, um adversário chegou na bola para afastar o perigo de cabeça. Escanteio para o Flamengo.

    Na cobrança, Lico para o ambidextro Júnior, que dominou pé direito, cruzou imediatamente pé esquerdo. De novo, Zico foi perfeito. Percebendo a curva do cruzamento de Júnior, Zico fez um passo atrás para cabecear, sem chance para o goleiro Wendell. Apesar do gol de empate, o estádio ainda era um caldeirão. Relembra Zico no livro Zico, 50 anos de futebol, de Róger Garcia e Roberto Assaf: “Um dos jogos mais complicados foi contra o Guarani, nas semifinais, lá em Campinas. No Rio, vencemos por 2 a 1, eles começaram fazendo 1 a 0. Com a vitória iriam à decisão. Eu empatei de cabeça. Então teve um córner a nosso favor e os caras resolveram jogar tudo dentro do campo. Foi um dia em que eu apelei… com o Leandro. Ele queria bater e eu falei para ele: ‘Não vai bater o córner porra nenhuma. Sai daí’. Aí eu puxei o Leandro pra fora, voltei para dentro do campo, cheguei lá, botei a bola no córner e falei para o Carlos Rosa (o juiz gaúcho Carlos Rosa Martins), que me respeitava muito: ‘Não vamos bater esse córner enquanto não parar isso aí’. Olha, os caras xingaram muito, levei tanta latada… mas depois acalmaram”.

    Guarani dominava o jogo, e Flamengo foi salvo algumas vezes pelo goleiro Raul Plassmann, mais um ídolo desse time inesquecível. Depois, Júnior abriu para Zico, que fez um gol, anulado por um impedimento muito duvidoso. E no início do segundo tempo, Zico acalmou mais uma vez a torcida do Guarani, recebendo um passe de Lico. Com 30 metros de distância, Zico chutou de primeira, fez seu segundo gol do dia, seu segundo golaço.

    Flamengo estava perto da final e o zagueiro Figueiredo, que morreu precocemente em 1984 com apenas 23 anos de idade, se infiltrou na defesa bugrina num estilo inabitual, mas o juiz não marcou um pênalti que parecia evidente. E alguns minutos depois, Zico achou Tita no espaço, que achou Adílio na profundidade. O goleiro defendeu o chute, a bola voltou nos pés de Lico, que chutou na cabeça de um defensor do time de Campinas. Agora, o juiz marcou um pênalti inexistente, que não faz esquecer a grande atuação do Flamengo e de Zico. Sem tremer, Zico fez o pênalti, completou o hat-trick, botou Flamengo na final apesar do gol de Jorge Mendonça nos instantes finais, colocou o Fla perto do título, que seria efetivado num outro jogo eterno, contra Grêmio. O Flamengo era o campeão e para a eternidade, Zico seu maior ídolo.

  • Jogos eternos #128: Flamengo 3×0 Madureira 1996

    Jogos eternos #128: Flamengo 3×0 Madureira 1996

    Flamengo joga hoje contra Madureira para conquistar a Taça Guanabara de maneira invicta, o que foi feito em 1996, um ano histórico no Francêsguista. Neste ano, Flamengo começou perfeitamente o campeonato carioca com 6 vitórias em 6 jogos. Para completar a série, Flamengo buscava mais uma vitória contra Madureira. No 14 de abril de 1996, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Roger; Alcir, Jorge Luís, Ronaldão, Gilberto; Márcio Costa, Mancuso, Nélio, Amoroso; Sávio, Romário.

    O jogo aconteceu na Gávea, com bela festa da torcida. Gostaria muito de ter uma reforma da Gávea para sediar pequenos jogos do campeonato carioca, vem imediatamente com esse estádio uma dose de nostalgia e de saudade, apesar de eu nunca ter assistido a um jogo aqui. Mas foi um estádio que viu desfilar muitos craques, Romário sendo provavelmente o último.

    Contra Madureira, o primeiro tempo foi equilibrado, com maior destaque para Flamengo o Márcio Amoroso, 21 anos na época. Quando era criança, adorava o Mario Amoroso, principalmente depois da final da Copa da UEFA 2002, perdida pelo Borussia Dortmund, mas com 4 jogadores brasileiros no time. Amoroso se destacava pela classe, pena que a passagem dele no Flamengo durou apenas 3 meses e 22 jogos. Contra Madureira, seu chute flirtou com a trave, depois serviu Romário em boas condições, mas o Baixinho não fez o gol, acontecia também.

    Mesmo perdendo um gol, Romário se destacava pela inteligência. Num passe de Nélio, percebeu que era impedido e não participou da jogada. O passe se transformou em cara a cara entre o goleiro e o próprio Nélio, que não evitou a saída de Cássio. Oportunista como sempre, Romário recuperou a bola e escapou dos braços do goleiro. O pênalti era claro, mas o juiz nada apitou. No finalzinho do primeiro tempo, Madureira fez um gol, anulado por impedimento. No intervalo, ainda 0x0.

    Depois da festa da torcida no intervalo, Flamengo voltou melhor no segundo tempo e com apenas um minuto, ainda oportunista, Romário abriu o placar com uma cabeçada sutil que enganou o goleiro. Com uma hora de jogo, Amoroso avançou na defesa de Madureira e o passe para Sávio na direita foi desviado por um zagueiro, mas se transformou em um passe para Romário na esquerda. O Baixinho não perdoou. Fixou o goleiro, tinha condições de fazer o gol, mas deixou de lado para o gol fácil de Sávio.

    No final do jogo, Sávio revidou o presente e achou Romário, que completou o doblete com um gol de carrinho. Romário fazia seu 10o gol na competição em apenas 6 jogos. Flamengo ganhou facilmente, a torcida festou lindamente, e no final, Flamengo conquistou a Taça Guanabara de maneira invicta.

  • Jogos eternos #127: Flamengo 2×1 Vasco 1999

    Jogos eternos #127: Flamengo 2×1 Vasco 1999

    Com a vitória no Fla-Flu, Flamengo está muito perto de conquistar sua 24a Taça Guanabara, um recorde. Também pode conquistar o título de maneira invicta pela primeira vez desde 2011. Antes disso, conquistou o título invicto num tríptico em cima do Vasco, com vitórias em 1989, 1996 e 1999. O jogo de 1996, com show de Sávio e Romário, já é um jogo eterno no Francêsguista. Vamos então para 1999, ainda com Romário, sempre com Romário.

    Como em 2024, o Flamengo estava quase perfeito na hora de conquistar a Taça Guanabara, com 7 vitórias, um empate, um 1×1 no Fla-Flu, e nenhuma derrota. Mas o adversário do dia era o mais poderoso da época, o Vasco, que conquistou sua única Copa Libertadores alguns meses antes. Em 1999, ainda tinha em campo jogadores como Carlo Germano, Mauro Galvão, Felipe, Juninho Pernambucano e Luizão. No 18 de abril de 1999, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Fábio Baiano, Fabão, Luiz Alberto, Athirson; Jorginho, Vágner, Beto, Iranildo; Leandro Machado, Romário.

    A primeira festa no Maracanã foi o próprio Maracanã, com 96.681 pagantes, mais de cem mil no total, e festa bonita das duas torcidas. Afinal, era o Clássico dos Milhões. A segunda festa foi da torcida do Flamengo só. Com apenas 5 minutos de jogo, Athirson, um ídolo da torcida e no Francêsguista, tabelou com Iranildo e chutou de fora de área para fazer um de seus inumerosos golaços com o Manto Sagrado.

    Iranildo também fez a assistência no segundo gol. Depois de um drible de vaca, Iranildo achou Romário na esquerda. No seu jeito particular, o Baixinho deixou Nena para trás e matou Carlo Germano do pé esquerdo com um chute cruzado indefensável para fazer seu décimo gol no campeonato. Ainda Romário, sempre Romário. No chamado clássico contra a violência, num momento que a Iugoslávia estava destruída, Romário exibiu uma camiseta eternizada, com mensagem em inglês que não precisa de tradução: “No war, peace in the world”. E a festa no Maraca, da torcida rubro-negra, ficou mais bonita ainda.

    Ainda no primeiro tempo, num escanteio, Odvan reduziu a vantagem do Flamengo e botou pressão no jogo. Clemer defendeu chutes perigosos, e Zé Maria e Luiz Alberto deixaram a paz de lado para trocar tapas e ser expulsos. O Flamengo segurou o placar, foi campeão e levantou a (pesada) Taça Guanabara. Vasco ficou com o vice e a história seria repetida algumas semanas depois, agora no campeonato carioca.

    Para fechar a crônica, deixo a palavra para Athirson, que falou sobre esse jogo para Lance!: “É um prazer imenso falar dessa partida. Ficou marcado na minha história vestindo este Manto Sagrado. Foi um dos títulos que eu tive uma representatividade muito grande, junto com o Romário. Tive a felicidade de fazer um gol, foi uma partida incrível, o time do Vasco era superior na parte técnica, mais forte e já consagrado. Sabíamos que tínhamos um rival muito competente… O Maracanã lotado, as duas torcidas fazendo festa. Pude fazer o primeiro gol e trazendo a vantagem para o nosso lado. O jogo ficou ainda mais aberto, de igual para igual, com o Romário ampliando com o segundo gol. O Vasco manteve a pressão, e fomos para cima de um jeito incrível”.

  • Na geral #19: Ganhar Fla-Flu é especial

    Na geral #19: Ganhar Fla-Flu é especial

    A torcida do Fluminense gosta de dizer que “ganhar Fla-Flu é normal”. Acho um absurdo. Primo, porque Fluminense está atrás do Flamengo no retrospecto geral do Fla-Flu. Está atrás até do empate. No Fla-Flu, a vitória do Fluminense é a coisa menos evidente. Segundo, porque ganhar Fla-Flu nunca é normal, ganhar Fla-Flu sempre é especial.

    Foi mais uma vez o caso ontem. O Flamengo não sabe o que é tomar um gol faz oito jogos, passou um mês inteiro sem tomar gol. Rossi está à 695 minutos sem ter o gol vazado, ultrapassando a performance de Diego Alves em 2018, mas ainda à boa distância do recordista absoluto do Flamengo, Cantarele, que ficou 959 minutos sem sofrer gols entre 1978 e 1979. Flamengo tomou apenas um gol no campeonato carioca, no empate 1×1 contra Nova Iguaçu quando jogou com os garotos. Vira agora até pena de ter jogado nos Estados Unidos com o time principal ao mesmo tempo e não privilegiar o início do campeonato carioca.

    O Tite sempre começa a armação de seus times com a defesa. E a defesa rubro-negra, que deixou a desejar em 2023, está mais do que eficaz em 2024. Ainda sinto a falta de um lateral-direito, mas a defesa raramente está em dificuldade. E o Flamengo de Tite já é muito mais que uma defesa imbatível. O meio de campo com Erick Pulgar, De La Cruz e Arrascaeta tem tudo para ficar na história. Com apenas 3 jogadores, tem todas as qualidades que o meio de campo exige, sem esquecer Gerson, no momento lesionado. Tem futebol para jogar bonito e também para ganhar quando o jogo está feio.

    O Everton Cebolinha é um outro jogador quando está nas mãos de Tite e fez mais um grande jogo ontem. Luiz Araújo apareceu um pouco menos, mas tem futebol também. E o Pedro manteve a fama de artilheiro e a fome de gols. As vaias do Maracanã no último jogo foram um absurdo quase tão enorme que dizer que ganhar Fla-Flu é normal. E Pedro respondeu no campo, abrindo o placar contra Fluminense. Bem posicionado na segunda trave, colocou a bola nas redes e depois na barriga, para comemorar o anúncio da paternidade. Merecia um segundo gol, já que Pedro vai ser pai de gêmeos.

    Pedro não fez o segundo gol, mantendo uma media de um gol por jogo, com agora 9 gols em 9 jogos. Mas participou do segundo gol, alias um golaço, que vale a pena repetir desde a cobrança de falta de Fabrício Bruno para De La Cruz, que com dribles e passe, quebrou o meio de campo tricolor e a esperança dos torcedores. De La Cruz para Arrascaeta, de letra para Pedro, também de letra para Everton, que chutou forte. A jogadaça merecia ser finalizada no ângulo, mas o que vale é o gol. Fábio desviou, apenas desviou, e a torcida rubro-negra comemorou.

    Flamengo vencia o Fla-Flu, ficava invicto, sem tomar gol, e é (quase) campeão da Taça Guanabara. Para ser campeão, Fluminense precisa, além da derrota do Flamengo, ganhar seu jogo e reverter um saldo de 11 gols. Isso é a diferença agora entre Flamengo e os demais. Flamengo já está de olho para as semifinais e ainda pode conquistar mais um título invicto.

    Fecho essa crônica, por coincidência a 200a do blog, com meu querido consulado Fla Paris. Espero um grande ano 2024 para meu blog, a Fla Paris e o Flamengo. Depois de perder o último jogo por causa de viagem, foi para mim o primeiro jogo do ano com o consulado. Ontem, a casa de (quase) sempre, o Fleurus, abriu só para nos receber. Tinha umas 30 pessoas, a galera de sempre, Cidel, Danilo, Thiago, Bruno, Sammy, Naldo, teve até a volta de Kevin e Sheyla, que eu não tinha visto desde o Brasil, teve a presença de Michel e Rafael, com quem eu só tinha jogado uma pelada antes. Tinha Marcio, um guia no RJ, que espero ver quando voltarei lá. A saudade de Rio é grande, mas um pouco menos forte com o consulado. Tinha também uma tricolor gentilmente zoada, uma santista com quem gostei de conversar, um francês que começa a se apaixonar pelo Flamengo. Teve cervejas, risadas, shots e cereja do bolo, vitória do Flamengo. O Fla-Flu sempre é especial.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”