Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #361: Flamengo 1×0 Vasco 2005

    Jogos eternos #361: Flamengo 1×0 Vasco 2005

    Flamengo conseguiu apenas um ponto nos três primeiros jogos do campeonato carioca, saindo de uma derrota no Raulino de Oliveira. Já falam de um risco de rebaixamento, a meu ver de forma exagerada. Ainda tem três jogos na primeira fase para se reerguer e chegar às quartas de final. Começa hoje, contra quem sabe de rebaixamento, Vasco.

    A luta contra a queda era bem mais intensa e assustadora no Brasileirão de 2005. Flamengo começou o campeonato nacional com duas vitórias, três empates e já seis derrotas antes de enfrentar Vasco. Flamengo estava no Z-4, junto com o Vasco. Assim o jogo foi nomeado o “Clássico dos desesperados”. Flamengo estava numa fase bem ruim, pior ainda nos clássicos. Não vencia um clássico desde a final do campeonato carioca de 2004, vencida contra Vasco com 3 gols de Juan. Desde então, foram seis empates, cinco derrotas e nenhuma vitória.

    Para o Clássico dos desesperados, em 17 de julho de 2005, o técnico Celso Roth escalou Flamengo assim: Diego; Léo Moura, Henrique, Júnior Baiano, Rodrigo Arroz; Da Silva, Augusto Recife, Souza, Renato Abreu; Juan, Obina. Como era de esperar, o jogo foi ruim, com poucos lances perigosos, muitos chutes bem longe do gol. Aos 35 minutos, o meia Souza, que fazia sua estreia no Flamengo, chutou de longe. A bola foi desviada por Ciro e enganou o goleiro vascaíno para fechar sua trajetória na gaveta.

    Apesar do gol do Flamengo, jogo continuou fraco, sem muito perigo de gol. Júnior Baiano, que tinha feito um gol contra improvável no jogo anterior contra São Paulo, quase repetiu a dose, a bola escapando milagrosamente do gol, Júnior Baiano implorando o céu. Léo Moura, um quase estreante – era apenas o sexto jogo dele com o Manto Sagrado – quase fez, mas parou na trave. O gol de Souza era suficiente para a alegria da torcida, o alívio rubro-negro. Flamengo voltava a vencer depois de 7 jogos, acabava com o jejum nos clássicos, saía do Z-4. O Vasco sempre é o adversário ideal para sair de uma crise.

  • Jogos eternos #360: Volta Redonda 1×3 Flamengo 1997

    Jogos eternos #360: Volta Redonda 1×3 Flamengo 1997

    Com um empate e uma derrota no campeonato carioca, Flamengo já tem obrigação de vencer hoje o Volta Redonda no Raulino de Oliveira. Em 1997, também era o caso. Flamengo ficou fora da final da Taça Guanabara por um pontinho a menos que Vasco. Na Taça Rio, começou mal, com dois empates contra Botafogo e Madureira, o que foi o fim da linha para o técnico Júnior.

    O novo técnico Sebastião Rocha estreou com um 1×1 contra Internacional na Copa do Brasil, gol de Romário. De volta ao campeonato carioca, o Mengo perdeu o Fla-Flu 3×2 apesar de dois gols de Romário. A vitória contra Volta Redonda era obrigação. Em 22 de abril de 1997, o técnico Sebastião Rocha escalou Flamengo assim: Fábio Noronha; Marcelo Ribeiro, Júnior Baiano, Juan, Athirson; Jamir, Maurinho, Evandro, Lúcio; Sávio, Romário.

    No Raulino de Oliveira, a situação se complicou ainda mais para o Mengo logo no início da partida. Com apenas dois minutos, Volta Redonda abriu o placar graças a um gol de Ângelo. Flamengo reagiu com seu artilheiro de sempre, Romário. O Baixinho recebeu, dominou de peito, tabelou, chutou cruzado, sem chance para o goleiro. Ainda no primeiro tempo, Flamengo virou com um golaço de falta do zagueiro Júnior Baiano, que achou a gaveta do goleiro.

    No segundo tempo, mais uma falta de Júnior Baiano, que agora achou Romário. O Baixinho dominou mais uma vez de peito, tirou um zagueiro com dois dribles secos sensacionais, fintou mais um e colocou a bola no fundo da rede. Simples assim. Romário fazia seu 17o gol em 15 jogos e se tornaria mais uma vez o artilheiro da competição. O Flamengo venceu no Raulino, mas nem foi até o final do campeonato. Com falta de datas por causa da Copa dos campeões e do início do Brasileirão, Fla brigou com a federação carioca e desistiu do torneio estadual.

  • Jogos eternos #359: Bangu 2×5 Flamengo 2002

    Jogos eternos #359: Bangu 2×5 Flamengo 2002

    Flamengo joga hoje contra Bangu no mítico estádio da Moça Bonita. O Mengo não tinha jogado lá contra o alvirrubro desde 2002, uma derrota 2×1, aliás o último revés do Flamengo contra Bangu. Para o jogo eterno do dia, eu vou então do penúltimo jogo, um mês antes.

    A competição não era o campeonato carioca, mas o Torneio Rio – São Paulo, que vivia em 2002 sua 25a e última edição. Também foi a edição com o maior número de participantes, 16 times, 9 de São Paulo e 7 de Rio de Janeiro. Na fase final, os quatro participantes eram paulistas, o que evidenciou a crise do futebol carioca. De fato, Flamengo começou muito mal a competição com dois empates, cinco derrotas e nenhuma vitória!

    O rubro-negro se recuperou, vencendo o Corinthians no Maracanã e o America, já na Moça Bonita. Três dias depois, Flamengo estava de novo no campo de Bangu agora para enfrentar o time local. Em 20 de março de 2002, o técnico João Carlos escalou Flamengo assim: Júlio César; Maurinho, Juan, Fernando, Athirson; Felipe Melo, Leandro Ávila, Beto, Juninho Paulista; Andrezinho, Leandro Machado.

    Jogo começou mal para o Flamengo e aos 11 minutos, Renatinho abriu o placar para Bangu, quase sem querer. Flamengo reagiu rapidamente, Beto fez uma incursão na defesa alvirrubra e achou Juninho Paulista que, de primeira e com a ajuda da trave, empatou. Beto também iniciou o gol da virada com uma falta perigosa. O goleiro falhou, no rebote Felipe Melo chutou, bola quicou no travessão, de novo Felipe Melo, com cabeceio no gol vazio. No final do primeiro tempo, Juninho Paulista aproveitou da apatia da defesa para fazer seu segundo gol do dia. O Flamengo estava muito perto da vitória.

    Como no primeiro tempo, Bangu começou melhor a segunda etapa e chegou ao gol, graças a Léo Guimarães. Mas a esperança banguense foi curta. De novo Beto iniciou uma jogada decisiva, com bola para Andrezinho, que recolocou Flamengo com dois gols de vantagem. E dois viraram três, Andrezinho achou Juninho Paulista, que abriu o pé, de novo de primeira, para achar o outro canto, completar o hat-trick e fechar a goleada. Na Moça Bonita, o dono era o Mengo.

  • Jogos eternos #358: Flamengo 2×1 Portuguesa-RJ 2022

    Jogos eternos #358: Flamengo 2×1 Portuguesa-RJ 2022

    Flamengo estreia hoje na temporada, marcada pelo novo calendário do futebol brasileiro. O campeonato carioca tem agora menos data. Acho uma boa iniciativa, com um torneio muito desequilibrado e que não tem o prestígio de antes. O que não muda é Flamengo começar a temporada com o time sub20.

    O calendário cada vez mais cheio, o Flamengo chegando longe nas competições, faz anos que o clube estreia o campeonato carioca com seus garotos da base. Em 2022, já era o caso, e Flamengo já começava o torneio contra a Portuguesa. Até o treinador mudava. Em 26 de janeiro de 2022, o técnico Fábio Matos escalou Flamengo assim: Matheus Cunha; Wesley, Cleiton, Gabriel Noga, Marcos Paulo; Igor Jesus, Yuri, Matheus França; Lázaro, Thiaguinho, André Luiz.

    No estádio Luso-Brasileiro, casa da Portuguesa e antiga casa do Flamengo, o jogo se animou nos primeiros minutos. O centroavante André Luiz pegou a bola e desequilibrou a defesa da Lusa, conseguindo o pênalti. Na cobrança, Lázaro pegou o goleiro no contrapé e abriu o placar. Do outro lado, o goleiro Matheus Cunha também brilhou, com uma defesa sensacional com o pé. Cada time teve seus momentos no primeiro tempo, que acabou com um gol de vantagem para o Mengo.

    E Flamengo fez o segundo gol no início do segundo tempo. Thiaguinho cruzou, o goleiro Carlão desviou, Lázaro pegou de voleio, com rebote, no fundo das redes. Num escanteio, Sánchez descontou, mas não impediu a vitória rubro-negra, o brilho de Lázaro, grande nome do jogo. Lázaro ainda não vingou no futebol, muito menos no Flamengo. Já no meio do ano de 2022, foi vendido por 7 milhões de euros ao Almería, time da Espanha, onde não se firmou. O Flamengo ainda tem muitos garotos no Ninho para brilhar com o Manto Sagrado.

  • Jogos eternos #357: Flamengo 3×2 São Paulo 1961

    Antes da nova temporada, volto para um jogo aniversário que completa hoje 65 anos. A competição era amistosa, com uma única edição, mas com cara de Copa Libertadores. Com sedes em Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu, o Gran Torneo Internacional de Verano, idealizado pelo presidente do Boca Juniors, Alberto Jacinto Armando, teve oito participantes: Flamengo, Vasco, São Paulo, Corinthians, Boca Juniors, River Plate, Nacional, Cerro. Apenas a ausência de Peñarol e Santos impede o torneio de ser o mais prestigioso possível.

    Flamengo estreou bem na competição com vitória sobre o Corinthians no Pacaembu, um jogo já eternizado no Francêsguista. Os três outros jogos da rodada acabaram em empate e assim o Flamengo já era o líder isolado do torneio. De volta ao Maracanã, jogava contra São Paulo, que na estreia cedeu um empate 2×2 contra Vasco depois de vencer 2×0.

    Para Flamengo, a dúvida era a presença de Dida, que tinha uma lesão na coxa. Finalmente, o ídolo rubro-negro, que tinha feito um gol no jogo anterior, foi confirmado. Em 7 de janeiro de 1961, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Ari; Joubert, Bolero, Jadir, Jordan; Carlinhos, Gérson; Luís Carlos, Babá, Dida, Henrique Frade. Do lado do São Paulo, tinha alguns veteranos no time como o goleiro Poy e o elegante lateral-direito De Sordi, além de uma lenda do Flamengo no banco: o técnico Flávio Costa.

    No Maracanã, São Paulo começou melhor. Aos 8 minutos de jogo, Paulo aproveitou de uma dupla falha do zagueiro Bolero e do goleiro Ari para abrir o placar. No restante do primeiro tempo, Flamengo tinha a bola, sem saber o que fazer. Até o grande locutor Oduvaldo Cozzi se desesperou: “Esse ataque do Flamenga está fazendo tricot, não, ponto de cruz. Aliás, não sei o que, mas a verdade é que está bordando demais”. A situação piorou para Flamengo com a lesão de Jadir, substituído por Nelinho. Ainda no primeiro tempo, Moacir entrou no lugar de Luís Carlos e iniciou a jogada do empate: Moacir para Henrique, para Gérson, para Dida, para Babá. “Babá, ao receber livre, chutou forte, cruzado e rasteiro. Poy pulou para a direita mas a bola entrou pela esquerda numa falha do goleiro, que ainda tentou defender com o pé, mas não conseguiu”, escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil.

    No segundo tempo, o jogo mudou. Agora o relato do Diário da Noite: “A fisionomia da partida foi inteiramente mudada. O Flamengo deu ‘show’, reagiu sensacionalmente e passou de dominado a dominador”. Flamengo teve duas oportunidades com Babá e Dida, mas Poy fez grandes defesas. “Pressão espetacular do Flamengo. Defesa espetacular de Poy”, escreveu o Jornal dos Sports. Flamengo era espetacular, Poy também, Dida ainda mais. Agora a palavra para o Jornal do Brasil: “Dida recebeu uma bola na entrada da área, matou-a no peito, invadiu, ultrapassando Geraldo e Gérsio, e com chute espetacular, venceu Poy”.

    Apenas três minutos depois, o juiz uruguaio marcou um pênalti polêmico para o São Paulo. “Flamengo lutou contra o São Paulo e o juiz”, escreveu o Diário de Notícias, quando o Diário da Noite julgou que o juiz era “muito confuso e prejudicando visivelmente o conjunto carioca”. Dino aproveitou do presente e empatou mais uma vez no jogo. Flamengo pressionou para conseguir uma segunda vitória na competição. No final do jogo, o pequeno Babá “deu violento chute de primeira, que passou a meia altura, pela esquerda de Poy, rumo ao fundo das redes”. Graças a sua dupla de baixinhos Dida – Babá, Flamengo vencia mais um e seguia isolado na liderança. Vinte dias depois, Flamengo derrotava Cerro no Centenário e levantava a taça inédita.

  • Jogos eternos #356: Flamengo 4×0 Paysandu 1916

    Começa um ano novo com a esperança de muitas vitórias e taças rubro-negras. É assim desde 100 anos, até mais. Já em 1916, o Flamengo tinha sua grandeza e sua galeria de troféus. Como em 2026, era o então bicampeão carioca. E o futebol do Flamengo, a torcida também, já iam além dos limites do Rio de Janeiro.

    Em 1916, para os 300 anos da cidade de Belém, o carioca Eduardo Pessoa, um dos fundadores do Paysandu de Belém, convidou o Flamengo para uma excursão. Flamengo era gigante já na fundação, com vários jogadores oriundos do Fluminense, time campeão do carioca de 1911. Faltava para o Flamengo o título carioca, que só veio em 1914. Um ano depois, Flamengo foi bi, agora de maneira invicta. E o prestígio do clube só aumentou. Escreveu o jornal paraense Estado do Pará para a chegada da delegação do Flamengo na cidade: “Os players que hoje deverão pisar em terras paraenses, além de representar o expoente máximo do ‘football’ carioca, como campeões que são do Rio de Janeiro, em dois anos sucessivos, constituam como que uma seleção da mais fina mocidade da capital da República”.

    Flamengo já tinha jogado fora do Rio de Janeiro, no Paraná em 1914 e um jogo em São Paulo em 1915. Mas pela primeira vez jogava no Norte e criava laços indestructíveis com essa região do Brasil. Depois de uma viagem de nove dias, a delegação foi recepcionada calorosamente em Belém por 2 mil paraenses, inclusive o governador do Pará, Enéas Martins, e o prefeito de Belém, Antônio Martins Pinheiro. Já no primeiro jogo, ainda no final do ano de 1915, Flamengo conquistou um troféu, a Taça Jornal Folha do Norte, goleando uma seleção paraense por 5×1. Harry Welfare foi o destaque do jogo, com 3 gols.

    Na verdade, Harry Welfare nem jogava no Flamengo. Era jogador do Fluminense, um quase irmão do Flamengo. Era o melhor jogador do Brasil, até hoje o sexto artilheiro da história do Fluminense. Inglês nascido em 1888, jogou no Liverpool e veio ao Brasil em 1913 como professor no Gymnasio Anglo-Americano. Centroavante ambidestro de 1,90 m, era conhecido como o Tanque inglês e foi artilheiro do campeonato carioca em 1915. No mesmo ano, foi um dos destaques na vitória 5×2 da seleção carioca, a primeira da história sobre a seleção paulista. Escreveu Mário Filho no seu clássico livro O Negro no futebol brasileiro: “Era como se o Fluminense estivesse usando uma arma proibida. Os outros clubes de espada, o Fluminense de revólver, de metralhadora”.

    E para a excursão no Pará, Flamengo conseguiu ter a metralhadora tricolor. Welfare não decepcionou. Na estreia, três gols. Flamengo jogou de novo contra a seleção paraense, já no 1o de janeiro de 1916. De novo, Welfare fez um gol no empate 1×1. Assim, um outro jogo foi marcado para designar o campeão da taça do tricentenário de Belém. Antes disso, teve um jogo contra o Paysandu local, com disputa do Troféu Artístico.

    Antes do jogo, o clima era de amizade. Escreveu o jornal Estado do Pará no dia do jogo: “O Paysandu Sport Club, querendo manifestar o mais frisante testemunho de sua forte amizade aos players da Delegação Flamenga, dando mostras, assim, de superior espírito de camaradagem que sabe cultivar como sportsmen da envergadura dos distintos moços que nos visitam, adquiriu um valioso brinde que ofertará hoje, no intervalo dos halftimes, ao captain-geral e representante do Clube de Regatas do Flamengo, sr. Emmanuel Nery”. Em 3 de janeiro de 1916, o técnico, ou melhor, o captain-geral Emmanuel Nery, escalou Flamengo assim: Baena; Píndaro, Nery; Cuthbert, Coriolano, Gallo; Antonico, Juvenal, Welfare, Batista, Paulo Buarque.

    Outra época do futebol, dos meios de comunicação também, bem do mundo em geral, há poucas informações nos jornais cariocas sobre a partida, demorando alguns dias para chegar até a capital. “Quinta-feira última a equipe carioca encontrou-se com a do Paysandu, o club campeão do Pará, derrotando-a por 4 goals a nihil, marcados dous por Welfare, um pelo Gallo e outro por Paulo Buarque”, escreveu a Gazeta de Notícias, quando o relato do Jornal do Brasil foi assim: “O ‘match’ foi bom, porém, fraco, vencendo com facilidade o Flamengo por 4×0”. Com a ajuda preciosa do Celso Júnior, dono do incrível site Flaestatísticas, é possível ter os minutos dos gols, todos no primeiro tempo: Paulo Buarque aos 10 minutos, Welfare aos 16, de pênalti, e aos 22, e Gallo aos 37. Ainda é possível dizer que Flamengo jogava com a antiga e polêmica camisa Cobra-Coral, que vivia seus últimos meses por causa da Grande Guerra e da semelhança com a bandeira alemã. Um outro mundo, mas já com Flamengo gigante.

    Voltando ao Tanque inglês, Harry Welfare não jogou o quarto jogo da excursão, contra Remo. “A falta de Welfare na linha desequilibrou o ataque formidável dos cariocas. Incontestavelmente, esse extraordinário player é o eixo dessa poderosa linha e a garantia do ‘team’”, julgou O Estado do Pará. Mesmo sem Welfare, Flamengo venceu 3×2 e conquistou mais um troféu, a Taça Clube do Remo. Flamengo ainda levou a Taça Bancada Paraense no Congresso, com vitória 2×0 sobre a seleção paraense. O último jogo aconteceu em 9 de janeiro de 1916 e foi interrompido por causa da chuva. Sem tempo para continuar o jogo, a Taça Tricentenário do Belém foi oferecida aos visitantes, Flamengo. A delegação rubro-negra voltou ao bordo do navio Brasil e foi recebida no Palácio do Catete pelo prefeito carioca Rivadávia da Cunha Correia. Com quatro taças e recepções calorosas, Flamengo começava a escrever sua história de amor com o Norte do Brasil.

    Para fechar, mais umas linhas sobre Harry Welfare. Depois da excursão, o Tanque inglês voltou ao Fluminense, onde foi tricampeão carioca entre 1917 e 1919. Ainda conquistou o campeonato carioca de basquete em 1924. Depois, se tornou ídolo do Vasco, agora como técnico, onde conquistou três vezes o campeonato carioca. Treinou o clube durante mais de 10 anos, dirigindo lendas como Jaguaré, Domingos, Fausto e Leônidas. E com quatro taças, cinco jogos e seis gols, Harry Welfare foi, durante uma excursão no Pará, um ídolo do Flamengo, vestindo o Manto Sagrado, ainda de Cobra-Coral.

  • Jogos eternos #355: Flamengo 2×1 Independiente 1939

    Antes de fechar um ano de glórias, volto bem atrás no tempo, em 1939. Também foi um ano de glórias para o Flamengo, conquistando o campeonato carioca depois de 12 anos na fila. Também era uma época conhecida como platinismo, com um complexo de inferioridade em relação aos argentinos. O complexo de ‘vira-latas’ piorou com a derrota 5×1 em pleno São Januário na Copa Roca, com gol de “honra” de Leônidas, maior craque e ídolo do Brasil e do Flamengo. Explica Roberto Sander no seu excelente livro Anos 40: viagem à década sem Copa: “Esse resultado gerou um trauma que acompanhou a seleção por boa parte da década de 1940. Tínhamos um colossal complexo de inferioridade. Víamos os argentinos como europeus”.

    Não por acaso o Flamengo contratou vários craques argentinos, até jogadores comuns, nessa época. Entre 1937 e 1944, nada menos que 22 jogadores argentinos vestiram o Manto Sagrado, com destaque para Volante, Valido e González. Também não por acaso o Independiente, campeão argentino de 1939, foi convidado para uma excursão no Brasil no final do ano. Em 24 de dezembro de 1939, venceu Flamengo por 4×3, um jogo eternizado no blog apesar da derrota, com estreia de Zizinho e golaço de bicicleta de Leônidas. Uma semana depois, uma revanche foi marcada no São Januário, casa do Vasco em particular e do futebol brasileiro em geral.

    A derrota do Flamengo no primeiro jogo sobre Independiente foi considerada injusta pela imprensa carioca. Assim, uma ‘revanche’ foi marcada, inicialmente em 1o de janeiro de 1940, finalmente um dia antes, ou seja, um ano antes. Escreveu o Correio da Manhã: “Revanche é um modo de dizer. O que os donos da temporada queriam era outro jogo em que o rubro-negro participasse porque é um gremio de maior torcida da cidade. Pensaram que era só chamar os teams a campo e a população inteira correria para ver o cotejo”. Em 31 de dezembro de 1939, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Yustrich; Domingos, Newton Canegal; Artigas, Jocelino, Médio; Sá, Zizinho, Jarbas, González, Leônidas.

    No São Januário, Flamengo precisou de apenas quatro minutos para impor sua superioridade sobre os argentinos. “Jarbas cobrou bem um corner concedido por Lecéa, e González, saltando com o zagueiro portenho, cabeceou firme para assinalar o primeiro goal do Flamengo”, escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports. E Flamengo continuou a dominar o jogo, impor seu ritmo, seu futebol. Agora a palavra para a Gazeta de Notícias: “Sucedem-se os ataques, e doze minutos após, Zizinho de posse do couro, dá a Leônidas que driblando toda a defesa obtem o segundo goal do Flamengo”. O Mengão tinha nas mãos uma dupla de ouro, com os dois principais jogadores de duas épocas distintas, mas infelizmente, foi pouco aproveitada em campo.

    Outro lamento, agora de um dia só, era a possível goleada sobre Independiente, que finalmente não chegou. No segundo tempo, Flamengo sentiu tanto o desfalque do insuperável Domingos na zaga, como depois do argentino González na frente. Leônidas também se machucou, mas ficou em campo. O juiz argentino não viu um pênalti óbvio sobre Leônidas e o Independiente passou a ter mais controle do jogo, ainda sem brilhar. Yustrich impediu com brilho um gol de Zorila, mas finalmente foi vencido por Martinez.

    “Nítida e indiscutível vitória do Flamengo sobre o Independiente por 2×1” manchetou a Gazeta de Notícias. O Globo Sportivo foi além: “A campanha do Independiente em canchas cariocas veio alterar, profundamente, uma ideia que se formara após a disputa da Copa Roca – a respeito do futebol argentino. Supunha-se antes que, dificilmente o campeão da AFA experimentaria um revés em toda a temporada internacional. O que sucedeu foi o contrário. Desiludiu o Independiente”. Talvez o futebol brasileiro ainda não era melhor que o futebol argentino. Mas o campeão carioca Flamengo, com seus craques do quase passado Domingos e Leônidas, com seu craque do já presente Zizinho, era melhor que o campeão argentino. E com os craques do futuro, o Flamengo será o Maior do Mundo.

    Acabava assim um ano, uma década, num mundo em guerra. “Há no Flamengo esta predestinação para ser, em certos momentos, uma válvula de escape às nossas tristezas”, escreveu uma vez José Lins do Rego. O eterno Nelson Rodrigues escolheu a felicidade: “A alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda ou mais dilacerada, ou mais santa, só sei que é diferente”. O Flamengo, campeão ou não, sempre foi o dono do Rio de Janeiro, só por causa da torcida. E já era o caso nos primórdios do futebol, quando se falava ‘goal’ em vez de ‘gol’, ‘team’ em vez de ‘time’, quando Flamengo era “um gremio de maior torcida da cidade”, onde “a população inteira correria para ver o cotejo”. Explicava o maior de todos, o Mário Filho: “Por que o Flamengo tornou-se o clube mais amado do Brasil? Porque o Flamengo se deixa amar à vontade…”.

    Para fechar mais uma gloriosa página do Flamengo, de novo a palavra para o tricolor que mais entendeu a alma rubro-negra, Nelson Rodrigues: “Por onde vai, o Rubro-Negro arrasta multidões fanatizadas. Há quem morra com seu nome gravado no coração, a ponta de canivete. O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, o Flamengo venta, chove, troveja, relampeja. Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia”. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Ídolos #49: Paulo César Carpegiani

    Ídolos #49: Paulo César Carpegiani

    Um dos grandes nomes da temporada de 2025 do Flamengo foi indiscutivelmente o Filipe Luís. Bicampeão do Brasileirão e da Copa Libertadores como jogador, Filipe Luís foi nomeado técnico do Flamengo quase na sequência da carreira de jogador. E de novo venceu tudo, colocando seu nome ao lado de outros ídolos do Flamengo como jogadores e técnicos, Carlinhos claro, Carpegiani também.

    Paulo César Carpegiani nasceu em 7 de fevereiro de 1949 em Erechim, Rio Grande do Sul. Seu pai, Hermínio Carpegiani, conhecido como Borjão, foi um bom jogador no time da cidade. Porém, o jovem Paulo César tinha preferência pelo futsal, na época chamado futebol de salão. “Eu tinha pavor do futebol de campo. Achava o campo grande demais”, explicou depois Paulo César. Assim, se tornou um jogador completo, bom na defesa, bom no ataque, bom no drible, bom no desarme. Aos 18 anos, trabalhava num escritório de contabilidade e sua técnica em campo – melhor, nos quadros, chamava atenção.

    Com a benção do pai, Paulo César partiu para a capital. O destino era os juvenis de Grêmio. Porém, no caminho, mudou o destino. Paulo César teve um acidente de carro, faltou o encontro marcado e os dirigentes gremistas pararam de o contatar. Assim, o jovem foi para o rival, o Internacional. Lá, seu futebol agradou o técnico dos juvenis, Abílio do Reis, além de alguns jogadores profissionais. Em 1968, foi chamado no time principal pelo técnico Foguinho, também amigo do pai. Participou de dois jogos, contra Rio Grande e Sapucaiense, mas ainda jovem e franzino, voltou para os juvenis, onde conquistou o campeonato gaúcho sub-20, o primeiro da história do Internacional.

    Paulo César, que logo virou Paulo César Carpegiani para não ser confundido com o irreverente Paulo César Caju, voltou no time principal em 1970 e estreou no GreNal, no Olímpico. Sem sentir o peso da estreia nem da camisa, foi decisivo na vitória em virada, cravando uma falta para o gol de empate. No jogo decisivo, Bráulio fez um dos gols que consagrou o Internacional como campeão gaúcho invicto. Na época, Bráulio era o principal nome do time colorado. Logo mudou com a nomeação como técnico de um antigo clássico meio-campista, Dino Sani, e a chegada de outro jovem craque da base, Falcão.

    “Os coloridos dividiam-se entre braulistas e não braulistas. Quando o técnico Dino Sani foi convidado para assumir o Inter, em 1971, a discussão terminou. Sani sabia que Bráulio era lento demais, clássico demais, participativo de menos para o tipo de futebol que se praticaria nos anos 70. O Internacional lançava, na equipe principal, jogadores de força, como Caçapava. Mas dois garotos representavam a mistura ideal. Um era Paulo César Carpegiani, revelado ao mesmo tempo que Bráulio saía da equipe. O outro representava ainda mais a mistura perfeita entre o velho e o novo, a classe e a força, a disciplina e a arte: Falcão”, escreveu no livro Os 100 melhores jogadores brasileiros, Paulo Vinícius Coelho, que prosseguiu: “No começo dos anos 70, no triângulo de meio-campo que tinha o incansável Caçapava e o imortal Paulo Roberto Falcão, Carpegiani era o vértice da técnica, da visão, do passe preciso, do controle do jogo. Dos 8 títulos gaúchos seguidos que o Inter ganhou entre 1969 e 1976, o nome de Carpegiani só não aparece no primeiro, porque ele ainda não jogava no time principal”. Para Kenny Braga no livro Os dez mais do Internacional, “apesar da concorrência acirrada na disputa por vagas no meio-campo do Internacional, que dificultava as escolhas do técnico, Paulo César soube se impor com seu raciocínio rápido e exemplar domínio de bola, como poucos jogadores tiveram na história do futebol gaúcho”.

    O futebol de Carpegiani foi além das fronteiras gaúchas e chegou na Seleção brasileira. Estreou em 1974 num amistoso contra o México e foi titular absoluto na Copa de 1974. Porém, o Brasil não convenceu e foi eliminado pela Laranja Mecânica de Cruyff. No livro Os 11 maiores volantes do futebol brasileiro de Sidney Garambone, Carpegiani lamentou a ausência de seu companheiro do Inter, Falcão: “Começamos a jogar juntos em 1972, 73… e acho até que ele poderia ter ido à Copa de 1974 comigo. Naquele time do Zagallo, por exemplo, eu tinha que marcar o tempo todo, porque o Rivellino só cercava, para ajudar. Se o Falcão estivesse lá, ia aliviar minha barra”. No mesmo livro, Rivellino lamenta por sua vez o desfalque de Clodoaldo, homenageando ao mesmo tempo Paulo César: “Carpegiani fez um p. mundial. Tinha melhor passe, afinal era um meia de origem… mas, pôooooo, fez falta fez. Se Corró tivesse em campo, Zagallo podia usar o Paulo mais na frente, usar outras variações, um ponta falso no lugar do Valdomiro, eu poderia ir mais na frente”.

    De volta ao futebol nacional, o Internacional foi além das fronteiras gaúchas, conquistando o Brasileirão em 1975 e 1976. No time de Rubens Minelli, onde “todos precisam defender e atacar, independente da posição” e era inspirado pelo próprio Carrossel holandês, Carpegiani foi essencial com seu folego incansável e sua técnica apurada. Fez um gol na semifinal do Brasileirão de 1975 contra Fluminense, porém faltou a reta final da edição seguinte por causa de uma lesão na varilha. Foi um líder em campo, e nos vestiários. E por isso, acabou contratado pelo Flamengo.

    O time do Flamengo tinha muitas craques da casa, mas o elenco era muito jovem. Faltava experiência na hora dos jogos importantes, dos momentos decisivos. Assim chegaram Paulo César Carpegiani, Cláudio Adão e Carlos Alberto Torres, depois Raul, com o objetivo de deixar o time mais preparado para a glória eterna. “Todos aqueles bons resultados foram consequência da política do clube de valorizar a prata da casa, mas, por outro lado, contratando aqui e ali jogadores experientes, como foram os casos do Raul e do Carpegiani. Assim, quem vinha das categorias de base já encontrava um suporte”, lembrou Júnior no livro Os dez mais do Flamengo de Roberto Sander. Paulo César Carpegiani estreou com o Manto Sagrado contra Olaria no campeonato carioca em 26 de março de 1977. O primeiro gol chegou exatamente dois meses depois numa goleada 7×1 contra Volta Redonda.

    Carpegiani não revolucionou a maneira de jogar do Flamengo, mas se encaixou perfeitamente no time. “A virada de jogo com o Carpegiani era mais fácil, pela inteligência dele”, explicou Júnior no livro 1981 de André Rocha e Mauro Beting. “No Flamengo, o Carpegiani tocava a bola e aparecia livre. Aliás, o seu apelido entre a gente era ‘Sempre Livre’. Era muito inteligente. Jogava e colocava os companheiros para jogar”, acrescentou Nosso Rei Zico no mesmo livro. Ainda Júnior, agora no livro Os 11 maiores laterais do futebol brasileiro, de Paulo Guilherme: “Além de grande qualidade técnica, os jogadores eram inteligentes dentro e fora de campo. Raul e Carpegiani eram os mais experientes e passavam orientações que nos servem até hoje. O Zico, que era um craque, era de uma humildade em todos os sentidos. Tinha ainda o Júlio César e o Adílio, meus amigos desde moleque. Éramos como uma família. Quando um se desgarrava, o grupo puxava de volta”. Em 1978, Flamengo finalmente venceu o campeonato carioca, com um jogo eterno contra Vasco. E Carpegiani viveu seu ano mais completo no Flamengo com 67 jogos.

    Flamengo também brilhou na Europa, conquistando o Troféu Cidade de Palma de Mallorca em 1978 contra o Real Madrid e o Troféu Ramón de Carranza em 1979 contra o Barcelona e Ujpest. “O Flamengo fez com os pés o que os Globetrotters fazem com as mãos”, escreveu o Diário de Cádiz. No Rio de Janeiro, Flamengo alcançou o tricampeonato carioca, ainda em 1979. “Só ganha títulos quem tem time, quem tem craques. E o Flamengo os têm. Bastam dois, Carpegiani e Zico, para desequilibrar a coisa”, explicou o eterno João Saldanha. Carpegiani ainda voltou na Seleção, disputando a Copa América de 1979, mas, coincidência ou não, não jogou na derrota fatal contra o Paraguai. No seu livro A Nação, Marcel Pereira escalou Carpegiani no seu time ideal do Flamengo dos anos de 1970, ao lado de Liminha e Geraldo no meio de campo.

    Paulo César Carpegiani era uma peça extraordinária no esquema de Cláudio Coutinho e nem a ascensão meteórica de Andrade o tirou do time. Foi titular absoluto no Brasileirão de 1980, conquistado em cima do Atlético Mineiro. E PC Carpegiani, já bicampeão brasileiro com o Inter, chegava ao título máximo no Brasil com o Manto Sagrado. Flamengo fez mais uma vez uma excursão na Europa e o excesso de jogos pesou no Carpegiani, que começou a sentir lesões. Assim, jogou apenas 12 dos 27 jogos do campeonato carioca de 1980 e Flamengo falhou no tetra. Carpegiani fez seu último gol com o Manto Sagrado na mesma competição, num 2×2 no Fla-Flu, no Maracanã.

    Em 1981, o trio Andrade – Adílio – Zico definitivamente reinou no meio de campo. Carpegiani ainda disputou 18 jogos, o último num 1×1 contra Bangu, de novo no Maracanã, antes de pendurar as chuteiras. O técnico era Dino Sani, primeiro técnico da carreira profissional de Paulo César Carpegiani. Assim, naturalmente, já com sua liderança em campo e sua amizade com os outros jogadores, Carpegiani passou a ser o assistente técnico do Dino Sani. Quando o Dino Sani teve problemas de relacionamento com alguns jogadores e precisou sair do Flamengo apesar dos bons resultados, o substituto era evidente: Paulo César Carpegiani.

    Essa categoria é sobre os ídolos em campo, e não no banco, mas é impossível de não falar sobre o mestre Carpegiani, que pegou com naturalidade a nova função: “Acredito que não há dificuldade nenhuma em ser treinador, muito pelo contrário. Sempre adorei essa responsabilidade e, agora, mais do que nunca, estou pronto e apto para encarar esse problema com tranquilidade”. Anos depois, com muitas taças na conta, o técnico confirmou: “A transição de ex-companheiro para treinador foi muito fácil. Eu era querido e respeitado pelo grupo. Eles me ajudaram muito”. Carpegiani estreou no banco no Maracanã, com um empate 1×1 contra Olímpia na Copa Libertadores, gol de Adílio, que o substituiu em campo.

    Já como técnico, Carpegiani teve seu jogo de despedida, num amistoso contra Boca Juniors eternizado no Francêsguista, conhecido como o “Desafio da Camisa 10” por causa do duelo entre Zico e Maradona. No livro Grandes jogos do Flamengo, da Fundação ao Hexa, de Roberto Assaf e Roger Garcia, Carpegiani falou sobre o jogo: “Eu já tinha largado o futebol, já era o treinador do flamengo, mas aproveitei o amistoso, que era encarado como o grande desafio entre os dois craques, Zico e Maradona, para fazer a minha despedida. Eu não tinha mais condições físicas, havia sido muito exigido durante a carreira, subi muita escadaria com peso, e nos últimos anos o joelho vivia à base de injeção. Aos 30 anos, parei. Logo que cheguei ao Flamengo, em 1977, vindo do Inter, que era bicampeão brasileiro, percebi uma coisa: o Flamengo, que não tinha sido campeão nacional, era festejado em qualquer lugar do Brasil. Sua torcida fantástica lotava todos os estádios, botava gente pelo ladrão. O Inter não lotava estádios. Em 81, assumi como treinador. A transição foi facilitada, porque era um time vencedor e eu conhecia bem os jogadores. Assumi logo depois do Dino Sani, e, ao contrário do que muitos pensam, não peguei o time formado, fiz várias alterações até o time ideal. No amistoso contra o Boca, por conta da rivalidade criada pela imprensa, incumbi o Andrade de marcar o Maradona. Disse para acompanhá-lo somente quando ele passasse do meio-campo. Andrade foi perfeito, e Zico marcou os dois gols da vitória. Joguei poucos minutos e fui recebido à beira do campo pelos meus filhos. Zico foi um dos cinco maiores do futebol mundial, de todas as épocas. Se encher a mão, ele cabe nos cinco dedos, assim como o Maradona e, logicamente, o Pelé”.

    Carpegiani se juntava a uma galeria de ilustres nomes que brilharam no Flamengo tanto em campo como no banco, Carlinhos claro, Zagallo também, Andrade no hexa, Filipe Luís hoje. Claro, Carpegiani pegou algumas coisas do mestre e idealizador do Flamengo 1978-1983, o capitão Cláudio Coutinho. “Busquei muitas coisas nele. O diálogo, a conversa que eu tenho com os meus jogadores, eu aprendi muito com Cláudio Coutinho. Essa liberdade de expressão talvez tenha sido o grande motivo do sucesso do próprio capitão, além de todo o conhecimento que ele tinha”, explicou o sucessor no livro 1981, o ano rubro-negro, de Eduardo Monsanto.

    Uma das maiores provas disso é na goleada contra Botafogo, onde jogava o próprio irmão do técnico rubro-negro, Édson Carpegiani. Lembra Zico, no livro Zico, 50 anos de futebol: “Foi a única vez na minha carreira profissional que dei palpite em relação à escalão de time. Porque o Lico já tinha entrado bem no time e no domingo de manhã o Carpeggiani veio conversar comigo, disse que estava em dúvida e tal, então eu falei para ele: ‘Eu acho que o nosso time fica mais equilibrado com o Lico, da forma como você quer que a gente jogue. Com o Baroninho, que joga muito avançado, o lado esquerdo, do Júnior, sempre fica descoberto. O que você está querendo que o Baroninho faça, ele não faz’. E começou assim, com o Lico”. Confirmou Carpegiani: “Aprendi com o Coutinho a ouvir os jogadores, a dialogar com eles para saber o que pretendiam. Até pela amizade e ascendência, ouvia sempre o Zico. Mas eu já tinha a ideia de escalar o Lico. Ele entrará bem nos jogos da Libertadores e fizerá o gol da virada contra o Campo Grande, em Ítalo Del Cima. Normalmente, eu dava antes a escalação para a imprensa. Mas, naquele dia, resolvi guardar o Lico para a hora do jogo”. E Flamengo goleou 6×0, Carpegiani achou o time que ia ganhar tudo.

    O time eterno do Mengo foi um pouco diferente com a chegada do novo técnico, antigo jogador. “A cultura do Paulo César Carpegiani mudou um pouco aquela que o Coutinho tinha deixado, ele havia jogado com a equipe e conhecia todos, muito bem. Carpegiani foi um jogador de toque refinado, de muita visão, um craque. Trabalhou a equipe apurando o toque de bola, dando liberdade aos jogadores para criarem situações e se mexerem no campo. Por vezes, era Mozer quem estava no ataque, outras vezes era Andrade. Havia sempre muita movimentação”, julgou José Maria Zuchelli no livro Mozer, a história de um campeão, quando o próprio Carpegiani explicou bem simplesmente: “Futebol é a imposição de um modo de jogar sobre outro”. E Flamengo impôs a classe de seu futebol, o toque rápido, a troca de passes curtos, o futebol-arte.

    E chegou a glória eterna, na final da Copa Libertadores. Depois de vitória no Maracanã e violência em Santiago, Flamengo tinha o desfalque de Lico, agredido pelo sanguinário Mario Soto. Assim, Carpegiani reformulou o time, com a ousadia e ideia brilhante de colocar Leandro no meio de campo. “Formamos um time combativo, com o Leandro no meio. Mas sempre dando liberdade para eles expressarem sua técnica e seu jogo”, lembrou o técnico. E em Montevidéu, Flamengo venceu com dois gols de Zico e um final de jogo que entrou na história. O Flamengo não era só bola, também era briga. Ainda PC Carpegiani: “Faltava pouco para o jogo terminar. A bola estava na esquerda, do outro lado, com o Júnior. O Tita estava bem na nossa frente e o Soto deu-lhe um soco na cara. Tive ímpetos de entrar em campo e bater também na cara dele. Eu e todo o banco. A revolta foi geral. Presidente, médico, todo mundo queria pegar o Soto. Então, na mesma hora, mandei o Anselmo entrar para dar o troco. Nosso preparador físico queria aquecê-lo. Falei para ele: ‘Não vai aquecer, não! Sai o Nunes e você entra lá, Anselmo, deixa a bola ficar do outro lado, dá no meio dele e pode sair’. Ele cumpriu sua missão. Hoje, me arrependo. Sou contra a violência. Não faria isso de novo. Nunca mais fiz”.

    Depois do Carioca e da América, chegou o mundo inteiro. E o jogo contra Liverpool ficou marcado na história. Ainda Carpegiani, no livro 1981 de André Rocha e Mauro Beting: “Eu era um treinador jovem, ainda garoto, sem experiência. Mas, desde então, treinava muito duas situações. Uma era simples: o overlapping. Tínhamos muitas jogadas pelos flancos. Desde quando Chiquinho e Baroninho eram os pontas, sempre gostei de ponteiros. Mas, naquele Flamengo, era melhor atuar com Tita e Lico. Eles faziam múltiplas funções. A outra situação que eu trabalhava muito era a compactação. E muito difícil você acertar isso numa equipe. Sem a bola, todos atrás dela. Não é fácil recompor rapidamente. Trabalhamos muito nisso. Não admito que os zagueiros rivais tenham liberdade para sair jogando. Insistia muito com o Nunes. Até que acertamos e dávamos pouco espaço para os adversários saírem jogando. O Nunes forçava os zagueiros deles a lateralizarem o jogo. Desse modo, fazíamos o pressing, a pressão na saída deles. Deu muito certo”. Deu muito certo mesmo, um banho de bola, um bando de ingleses na roda, um jogo marcado na história.

    Já tricampeão brasileiro como jogador, Carpegiani também conquistou o Brasileirão de 1982, em cima do maior rival do Internacional, o Grêmio. Mais uma vez, o técnico rubro-negro brilhou taticamente, com liberdade e troca de posições entre Zico e Tita. “O Grêmio caiu nesta armadilha. O Batista, mais separado dos zagueiros, não sabia se colava no Zico ou se marcava o Tita. O gol nasceu dessa indecisão”, lembrou Carpegiani. Depois de tantos jogos e tantas vitórias, algumas derrotas duras, o grupo se cansou. Carpegiani dirigiu seu último jogo numa vitória 2×0 sobre Tiradentes, dois gols de Zico. O maior Flamengo da história estava perto do fim.

    Depois, Carpegiani passou por vários clubes brasileiros e brilhou no futebol paraguaio, conquistando o campeonato nacional com Cerro Porteño. Ainda dirigiu a seleção paraguaia na Copa de 1998, o inesquecível time de Chilavert e Arce, que apenas perdeu na prorrogação contra o anfitrião e futuro campeão, a França. Em 2000, voltou ao Flamengo, mas teve alguns atritos com o elenco. Julgado culpado da derrota 5×1 sobre Vasco, saiu imediatamente do clube. Ainda voltou em 2018, onde ficou apenas três meses, saindo após a eliminação do campeonato carioca contra Botafogo. No mesmo ano, fez um último trabalho no Vitória. Não teve o mesmo brilho que no início da carreira de técnico, mas seja no campo, seja no banco, Carpegiani é um dos principais nomes da maior Era da história do Flamengo.

  • Jogos eternos #354: Flamengo 4×0 Bangu 1947

    Já de olho na próxima temporada, Flamengo vai estrear contra Bangu no campeonato carioca. Há quase 80 anos, Flamengo fechou a temporada contra Bangu. Durante o ano de 1947, Flamengo jogou em vários lugares do Brasil, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Norte e Pernambuco, mas decepcionou no campeonato carioca. Pior, Vasco conquistou o campeonato invicto com 17 vitórias e 3 empates. Antes do último jogo, o quinto lugar já era definido para Flamengo, atrás até do America.

    Assim, nos jornais, não tinha muitas coisas sobre o pré-jogo. Mesmo o tão precioso Jornal dos Sports apenas anunciava: “Bangu x Flamengo, em General Severiano, e Bonsucesso x Canto do Rio, em Teixeira de Castro, são os outros encontros complementares. No primeiro dos referidos encontros, o Flamengo terá nos suburbanos adversários dos mais difíceis. O Bangu ainda domingo venceu o Canto do Rio, em Caio Martins, e surge, portanto, bem credenciado”. O jogo valia nada, ou quase.

    O jogo ficou marcado na história por ser o último com o Manto Sagrado do centroavante Pirillo. O craque gaúcho chegou ao Mengo seis anos antes para suceder ao maior ídolo do clube na época, Leônidas da Silva. Pirillo lembrou anos depois: “Dizia-se que nem Jesus Cristo, se voltasse à terra, podia substituir Leônidas da Silva. Mas acabei conseguindo que a torcida do Flamengo me aceitasse”. Pirillo, já eternizado no blog na categoria dos ídolos, conseguiu com muitos gols e muitos títulos. Seus 39 gols no campeonato carioca de 1941 são um recorde até hoje. Foi tricampeão 1942-1943-1944. Muitas vezes, era o artilheiro do ano no Flamengo. Em 1947, dividia a artilharia com um recém-contratado, que também se tornará ídolo contestado, Jair Rosa Pinto.

    Flamengo foi meio bem meio mal no campeonato carioca de 1947. Mas faltava um jogo, o último de Pirillo. O palco era o General Severiano, por coincidência o estádio do próximo clube de Pirillo, que também substituirá um ídolo, Heleno de Freitas, também se tornará campeão. Em 28 de dezembro de 1947, o técnico Juca da Praia escalou Flamengo assim: Borracha; Miguel, Newton Canegal; Valdir, Modesto Bria, Jayme de Almeida; Adílson, Jervel, Hélio, Jair Rosa Pinto, Pirillo.

    E contra Bangu, “Flamengo venceu bem” segundo o Diário da Noite. E claro, Pirillo deixou a marca dele, abrindo o placar como fechou para uma vitória 4×0. Entre os dois “tentos”, Jair Rosa Pinto e Jervel também fizeram. Assim, Pirillo chegava aos 208 gols, em 237 jogos, total que ainda lhe vale um quarto lugar no ranking dos maiores artilheiros do Flamengo.

    O jogo em si, não foi muito bom. “O Flamengo merecia ganhar, é verdade, mas não pela contagem que acusou o ‘placard’ ao finalizar o embate”, escreveu o Diário da Noite. Completou o jornal A Noite, na crônica “Uma peleja falha de técnica”: “Os dois quadros estavam se desobrigando, apenas, do compromisso da tabela e como não tinham nenhuma outra pretensão apresentaram um jogo sem nenhum detalhe de sensação […] A equipe rubro-negra que ontem atuou no campo do Botafogo não demonstrou classe para vencer qualquer adversário categorizado, como não venceu durante o certame. Levou a melhor sobre o Bangu porque o quadro suburbano não passa de modesto, tendo, mesmo, alguns elementos bisonhos”.

    Para fechar, ainda o Diário da Noite, sobre o jogo e o final da temporada: “O Flamengo despediu-se ontem do campeonato da cidade realizando uma exibição que se não agradou em cheio, serviu para evidenciar, mais uma vez, as altas virtudes de Jair e Luiz, a displicência enervante e irritante de Pirillo”. O jogo valia quase nada, apenas a despedida de um dos mais brilhantes centroavantes da história e a prova que nem os títulos e os gols são suficientes para se tornar um ídolo absoluto do Flamengo.

  • Jogos eternos #353: Flamengo 5×1 Bonsucesso 1954

    Em 1953, ou melhor, no início do ano de 1954, Flamengo colocou um fim a um jejum de 9 anos e conquistou finalmente o campeonato carioca, com vitória épica sobre Vasco, um jogo já eternizado no Francêsguista. “Isso foi apenas o começo”, profetizou o técnico e feiticeiro paraguaio Fleitas Solich.

    Para o campeonato carioca de 1954, Flamengo começou bem também, vencendo seus oito primeiros jogos. Empatou no Fla-Flu e voltou depois com as vitórias, até as goleadas, com 5×0 sobre Madureira e Canto do Rio. E de novo não venceu o Fla-Flu. Pior, perdeu por 3×0. Os rivais já queriam a queda do líder disparado. Alguns falaram até de cavalo paraguaio. Só que Flamengo era gigante e de paraguaio tinha apenas o técnico Fleitas Solich, o goleiro García e o centroavante Benítez.

    Flamengo tinha craques em campo e até no banco. O ano de 1954 foi o ano de afirmação de jovens jogadores como Tomires, Jadir, Evaristo e Zagallo. Ainda tinha Dida e Babá que esperavam a chance deles no time titular. Em 23 de dezembro de 1954, para o último jogo do ano, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: García; Tomires, Pavão; Servílio, Dequinha, Jordan; Rubens, Joel, Zagallo, Índio, Evaristo de Macedo.

    Após o tropeço no Fla-Flu, o Mengão precisava de uma reação contra o Bonsucesso. E no Maraca, num jogo noturno, Flamengo dominou o início da partida. Zagallo, titular no lugar de Esquerdinha, cruzou para o cabeceio de Joel, que abriu o placar com 29 minutos de jogo. Parecia o início da goleada. Porém, o Bonsucesso chegou ao empate no final do primeiro tempo. Os antis já queriam a virada do jogo, a queda do Flamengo. Mas Flamengo era gigante.

    No início do segundo tempo, Joel fez o segundo dele, o segundo do Mengo, vencendo o goleiro Ari, que brilhou no Flamengo a partir do ano seguinte. Dez minutos depois do segundo gol, Flamengo voltou ao ataque. Escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports: “Acontece uma grande jogada de Índio que, alias, fez uma excelente partida, sem gols, é verdade, mas construindo nada menos de três tentos. Índio aproveitou uma falha do zagueiro no meio de campo e escapou rápido para o gol. Prevendo o perigo iminente, Ari deixa a meta mas Índio dribla-o sensacionalmente, e quando o goleiro voltava para o arco, juntamente com os dois zagueiros, Índio, já sem ângulo para finalizar, estendeu, com sangue frio admirável para Evaristo que vinha na corrida. Ari ainda corria para a sua posição quando a bola encontrou as redes”.

    E no final do jogo, a dupla Índio – Evaristo voltou a funcionar: “Rubens conduz o couro, cede a Índio que entrega otimamente a Evaristo e este atira firme às redes, quarto tento do Flamengo”. Simples assim. Ainda tinha espaço para um golzinho, “possivelmente o mais belo da noite, consignado por Zagallo. A bola veio da direita, atirada por Índio. Zagallo matou-a no peito, ajeitou como quis e chutou alto, longo, sobre o gol. Ari pulou, mas estava um pouco fora da meta e não pôde evitar a entrada da bola”.

    Mesmo sem fazer um gol, Rubens foi eleito o melhor do jogo pelo Correio da Manhã: “O atacante Rubens foi indiscutivelmente a grande figura da noitada futebolística. Repetiu ontem, a atuação desenvolvida na pugna com o Botafogo, revelando estar em esplêndida forma”. O Jornal dos Sports via a mesma coisa, elogiando também todo o ataque rubro-negro: “No ataque Rubens voltou a ser a maior figura, logo seguido por Joel e Índio, excelentes ambos, Joel finalizando bem nos dois gols e Índio dando passes ‘amanteigados’ para Evaristo. A ala esquerda lutou bastante, esforçou-se e garantiu nada menos de três gols. Assim, de um modo geral todo o ataque correspondeu e o ‘Rôlo’ voltou mais uma vez a funcionar”. O Rolo compressor voltava a vencer, voltava a golear e podia aproveitar as festas do final do ano antes de ser campeão, bicampeão, ainda não tricampeão. Fleitas Solich tinha razão, o campeonato carioca de 1953 foi apenas o começo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”