Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #417: Flamengo 3×1 Santos 1992

    Jogos eternos #417: Flamengo 3×1 Santos 1992

    A Seleção brasileira está eliminada da Copa do Mundo e volto então com a programação original. Eu já escrevi aqui que eu sou flamenguista desde meu nascimento, até antes de nascer. Sou brasileiro no coração e flamenguista na alma. Acreditando na reencarnação e já tive a sensação de ter sido brasileiro na minha última vida passada. Na verdade, me parece o motivo mais sensato para explicar um amor tão forte pelo Brasil em geral e o Flamengo em particular. Tenho uma certeza quase matemática que eu já vivi grandes glórias rubro-negras de outra época, num outro corpo.

    Assim, hoje eu escrevo sobre meu primeiro jogo como torcedor do Flamengo nesta encarnação, com apenas um dia de existência. Eu nasci no dia 7 de julho, dia do primeiro Fla-Flu da história, da estreia de Pelé na Seleção brasileira, da atuação mágica de Ronaldo Fenômeno na semifinal da Copa contra os Países Baixos, de um jogo eterno do Mengo contra Toronto, com mais um show de Zico. Em 1992, fiz meu primeiro grito, com passaporte francês e sangue vermelho e preto.

    Flamengo estava na fase final do Brasileirão e o grupo estava apertadíssimo: São Paulo com 6 pontos, Flamengo e Santos com 5 pontos, Vasco com 4 pontos. E tinha apenas uma vaga para a final. Na última rodada, Flamengo precisava vencer o Santos e ainda contar com a ajuda do rival Vasco, que absolutamente precisava derrotar São Paulo para oferecer a vaga ao Flamengo. Era complicadíssimo, mas eu com um dia de vida, eu já sabia, nada era impossível para o Mengo. Em 8 de julho de 1992, o eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Fabinho, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá; Uidemar, Júnior, Zinho, Júlio César Garcia; Nélio, Gaúcho.

    No Maracanã, tinha menos de 30 mil presentes, mas era o Maraca antigo, ainda com a geral, com os cantos “Mengo” e a fé rubro-negra, com raça, amor e paixão. O Maracanã explodiu quando a três quilômetros de lá, o antigo ídolo Bebeto abriu o placar para o Vasco no São Januário e deixou aberta a classificação do Mengo. “O jogo seguia em alto nível tático até que o gol de Bebeto, em São Januário, mudou completamente o panorama do jogo no Maracanã, quando o relógio marcava cerca de 15 minutos. Daí em diante, Flamengo e Santos partiram para o desespero. Suas táticas foram esquecidas com os dois times passando a jogar na base da garra”.

    E na raça, Flamengo levou o melhor. Logo depois do gol de Bebeto, o ídolo Gaúcho desviou de cabeça uma cobrança de falta, Nélio dominou de peito, fez uma embaixadinha para abrir o caminho do gol e chutou, sem força nem precisão. Porém, Índio desviou o chute, que enganou o goleiro. Assim, Nélio, craque carioca nascido em 1971 e irmão de vários jogadores, que surgiu da base do Flamengo com outros grandes nomes como Marcelinho, Djalminha e Paulo Nunes, fez o primeiro gol de minha existência rubro-negra. Amém.

    Santos também podia sonhar com uma classificação e lutou para o empate. E no amor, Flamengo levou o melhor. Júnior, craque consagrado de 38 anos recém-completados, cobrou uma falta e forçou Bernardo a fazer o gol contra. No São Januário, Bismarck e Edmundo fizeram gols para o Vasco e colocaram Flamengo perto da decisão. Porém, no Maracanã, o jogo ficou tenso. Júnior Baiano cometeu um pênalti, cobrado por Paulinho, defendido por Gilmar. Logo depois, Marcelo Passos fez o primeiro gol santista. Flamengo estava perto de uma enorme decepção, o jogo se tornava irrespirável.

    E na paixão, Flamengo levou o melhor. Nos acréscimos, Nélio tabelou com Júlio César e abriu para Gaúcho. O artilheiro estava num jejum de 6 jogos e prometeu um gol. E cumpriu. No passe de Nélio, Gaúcho errou o domínio, acertou o chute. Mesmo desequilibrado, conseguiu chutar com força e precisão para vencer o goleiro, para fazer o terceiro gol rubro-negro, para colocar o Mengo na decisão. Na minha França, com apenas um dia de existência, eu já conhecia a alegria de uma vitória do Flamengo. Para fechar sobre a reencarnação, eu tenho a sensação que meu último falecimento foi difícil. Meu nascimento em 1992 também foi. Por causa de um problema no parto, passei os 15 primeiros dias de minha vida no hospital. Assim, mesmo antes de meu corpo conhecer minha casa na França, minha alma ainda estava no Maracanã cheio, com o Flamengo campeão brasileiro.

  • Jogos eternos #416: Flamengo 5×1 Seleção de Noruega 1962

    A Seleção brasileira joga hoje contra a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo. Como fiz com os jogos precedentes, escolho para a crônica do dia um jogo do Flamengo na Noruega. O Flamengo jogou lá três vezes na história, o que me dava três opções, todas de goleadas: 6×1 contra um combinado e 12×1 contra Brann em 1956, e um 5×1 contra uma seleção da Noruega em 1962.

    Eu quase fui da goleada 12×1 contra Brann em 1956. Foi uma das 10 vezes que Flamengo fez 12 gols ou mais, a penúltima, quatro meses antes do 12×2 contra São Cristóvão no Maracanã. E mais, um dia depois, o Botafogo de meu ídolo Garrincha jogava em Troyes, minha cidade natal na França. Porém esse blog é sobre o Flamengo e, mesmo pesquisando, tinha poucas coisas nos jornais sobre o 12×1 contra Brann. Eu escolho então o jogo de 1962 contra uma seleção de Noruega.

    E também, com um pouco de superstição, prefiro escolher um jogo em plena época de Copa do Mundo, vencida pelo Brasil. Também tem poucas coisas sobre o jogo do Flamengo de 1962 nos jornais. Tinha a guerra na Argélia, uma catástrofe aérea na França com a morte de 130 pessoas, e claro, tinha a Copa do Mundo no Chile. O Brasil estava invicto, mas devia jogar sem Pelé. Toda a fé estava no momento em cima de Garrincha e Amarildo.

    Durante esse tempo, o Flamengo fazia uma excursão na Europa. Depois de jogos na Espanha, Suécia e União Soviética, o Mengão fez mais um jogo na Noruega, contra uma seleção local. Em 5 de junho de 1962, o histórico técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Mauro; Décio Crespo, Vanderlei, Joubert, Jordan; Carlinhos, Nelsinho; Joel, Henrique Frade, Dida, Miranda. Destaque no time para dois campeões do mundo em 1958, Joel e Dida.

    E Joel e Dida brilharam na Noruega. Sem imagens do jogo, deixo o relato quase completo, quase só de marcadores e minutos, do Jornal do Brasil no dia seguinte: “Joel fez o primeiro gol aos 12 minutos, Dida aumentou para 2 a 0 aos 17 minutos e Miranda marcou o terceiro aos 19 minutos. Aos 24 minutos Joel voltou a marcar, aumentando para 4 a 0 e Dida fez o último gol do Flamengo aos 32 minutos. Depois disso os rubro-negros se limitaram a fazer passar o tempo, numa brilhante demonstração de domínio de bola”.

    Um Flamengo relâmpago fez 5 gols em um pouco mais de 30 minutos. No segundo tempo, o time norueguês fez o gol de honra, que decretou o placar final: 5×1 para o Mengão. Flamengo derrotava uma seleção nacional pela primeira vez desde 1958, quando venceu a própria seleção brasileira um pouco antes da Copa do Mundo. Só faltava para a Seleção vencer a Copa de novo…

  • Jogos eternos #415: Flamengo 2×2 Corinthians 1996

    Jogos eternos #415: Flamengo 2×2 Corinthians 1996

    Depois de um mês parado, Flamengo está de volta em campo hoje com um amistoso contra o River Plate. Para o jogo eterno do dia, escolho um outro amistoso, que completa hoje 30 anos, um Flamengo x Corinthians de 1996, em Manaus.

    Na época, todo mundo tinha na boca apenas um nome, que ainda dividia as opiniões: Bebeto. Sete anos depois da saída traumática para o Vasco, Bebeto estava de volta ao Mengo. Entre os dois momentos, Bebeto conquistou o Brasileirão de 1989 com o clube cruzmaltino e passou quatro anos na Espanha, no time da Corunha. Com um pouco de desgaste de ambas as partes, o craque baiano voltou ao Brasil. Um ano depois do fracasso dos Bad Boys, Flamengo tinha um novo ataque dos sonhos, com Sávio, Romário e Bebeto.

    “É hora de voltar, meu coração me diz”, explicou Bebeto para o Jornal do Brasil. Porém, a traição de 1989 ainda pesava na alma de cada torcedor rubro-negro. Para esquecer, precisava de gols e títulos, precisava de vitórias, mesmo em amistosos. Para o jogo da reestreia contra o Corinthians, em 3 de julho de 1996, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Roger; Zé Maria, Jorge Luis, Fabiano, Gilberto; Márcio Costa, Djair, Nélio; Sávio, Bebeto, Romário.

    Romário reencontrava Bebeto, o parceiro dos Jogos Olímpicos de 1988, da Copa América de 1989 e claro, do Tetra em 1994. Com o apoio de Sávio, Flamengo tinha um dos, se não o melhor, ataques do mundo. Invicta pela Seleção brasileira, a dupla Romário – Bebeto tinha tudo para dar certo, mas podia dar errado também. “Todo mundo considera um risco, no futebol de hoje, formar um time deixando lá na frente, nada menos de três jogadores ofensivos. Essa é a doutrina do futebol europeu, onde, por sinal, craque-atacante é coisa rara”, advertiu já em 1996 o grande Armando Nogueira.

    No estádio Vivaldão de Manaus, o Flamengo começou melhor o jogo, sem abrir o placar. Na metade do primeiro tempo, Bebeto perdeu uma bola e no contra-ataque, o corintiano Edmundo, que fez 9 gols em 23 jogos no Flamengo no ano anterior, foi lançado em profundidade e abriu o placar. “De útil, no primeiro tempo, Bebeto acertou apenas uma cobrança de falta, que saiu rente à trave esquerda de Nei, aos 45 min”, julgou no dia seguinte o Jornal do Brasil.

    No intervalo, o técnico Joel Santana deu bronca, sem efeito. Com uma hora de jogo, o corintiano Souza driblou dois rubro-negros e cruzou atrás para o gol de Ricardo Mendes. Só então o Flamengo reagiu, com seu melhor jogador, Romário. O Baixinho gingou na frente de Alexandre Lopes e chutou cruzado, no fundo da rede. Dois minutos depois, Bebeto tabelou com Romário e abriu o pé para chutar com efeito. Nei fez bela defesa e no rebote, Iranildo chutou livre, mas o volante Gilmar Fubá salvou em cima da linha.

    Só no final do jogo, já no meio da noite, o Flamengo alcançou o empate. Iranildo cobrou um escanteio, o goleiro falhou na saída e Romário cabeceou para fazer o segundo gol do Mengo, o segundo dele. Flamengo conseguia o empate e tinha motivos de esperança para seu ataque dos sonhos. “Nós ganhamos tudo que disputamos juntos e tenho certeza que aqui vai ser igual”, julgou Bebeto no final do jogo.

    No Jornal do Brasil, escreveu no dia seguinte o grande Sérgio Noronha: “O Flamengo não consegue se livrar do estigma de ter um ataque dos sonhos. Recomeçou tudo ontem no amistoso contra o Corinthians […] O sonho é embalado pelas mesmas frases. ‘Craque se entende dentro do campo’, ou ‘eles sabem que alguém tem que se sacrificar um pouco, de vez em quando’, e existe até a abertura para a declaração de Joel, que diz ainda não ter a fórmula para juntar Bebeto, Romário e Savio, mas terá que encontrá-la. Nem sempre os craques se entendem, dentro ou fora do campo”.

    E no Flamengo de 1996, os craques nem se encontraram em campo. Com lesão de Bebeto e ida e vinda de Romário no Valencia, a dupla do tetra participou de apenas um jogo oficial, contra o Internacional, quando Romário voltou do empréstimo na Espanha. No Beira-Rio, o Flamengo abriu o placar, Romário saiu machucado e o Inter virou com dois gols de Fabiano. Flamengo ficou fora da fase final do Brasileirão e Bebeto, com 7 gols em 21 jogos, teve números ainda inferiores aos do Edmundo em 1995, sem reencontrar o amor da Nação. De novo, o sonho virou pesadelo.

  • Jogos eternos #414: Flamengo 5×0 Shimizu S-Pulse 1995

    Jogos eternos #414: Flamengo 5×0 Shimizu S-Pulse 1995

    A Seleção brasileira joga contra o Japão, na segunda fase da Copa do Mundo. O Japão traz ótimas lembranças ao Flamengo. Foi lá que teve o maior jogo da história do Flamengo, o 3×0 contra Liverpool, claro, um jogo eterno no Francêsguista. Mas eternizei outros jogos do Mengo no Japão: o 1×0 contra o Bayer Leverkusen em 1988 com um gol de Zico para conquistar a Copa Kirin, uma goleada 7×0 contra a Real Sociedad em 1990, uma vitória 2×1 contra Kashima em 1994 com dois gols de Sávio na despedida de Zico. Teve vários jogos e hoje eu escolho o último jogo do Flamengo em terras japonesas, em 1995.

    Era o ano de centenário e o Flamengo decepcionava. Perdeu o campeonato carioca contra Fluminense, foi eliminado na semifinal da Copa do Brasil pelo Grêmio e perdeu seus três jogos na Copa dos campeões mundiais. Precisando de um título no ano do centenário, Flamengo contratou ainda mais pesado e assinou com Edmundo, para formar um ataque dos sonhos ao lado de Sávio e Romário. Na sua estreia contra Guarani, o Animal fez o único gol rubro-negro depois de uma tabelinha sensacional com Romário. Flamengo parecia estar no caminho certo.

    Logo depois, Flamengo partiu para uma excursão na Ásia. Estreou com vitória contra o Red Diamonds com gols de Marquinhos, Romário e Edmundo. Mas o sonho rapidamente se transformou em pesadelo. Apesar de mais um gol de Edmundo, Flamengo perdeu contra Kashiwa Reysol, na época lanterna do campeonato japonês. Ainda teve durante o jogo uma discussão entre Romário e Sávio, que já tinha se desentendido com Edmundo no jogo anterior. O clima ficou tão tenso que teve rumores de uma saída de Sávio, constrangido com os novos Bad Boys.

    Para o último jogo no Japão, Flamengo enfrentou o Shimizu, time fundado em 1991 e que teve como técnicos Émerson Leão e Rivelino. Ainda tinha jogadores brasileiros, como Carlos Alberto Dias, Toninho e Ronaldão, que assinou em seguida com o Flamengo. Em 5 de agosto de 1995, o técnico Edinho escalou Flamengo assim: Emerson; Fabiano, Jorge Luís, Herbert, Lira; Márcio Costa, Djair, Marquinhos; Sávio, Edmundo, Romário. Um time mal equilibrado, mas que tinha jogadores diferentes na frente.

    E para a despedida do Japão, o Mengo não decepcionou, com brilho dos três craques do ataque. No dia seguinte, o Jornal dos Sports escreveu: “Romário teve uma atuação destacada. Fez dois gols e comandou o time. A ponto de ser considerado, pelos organizadores do amistoso, como o melhor em campo. Por isso, foi premiado e recebeu o reconhecimento popular. Ao deixar o campo foi entusiasticamente aplaudido”.

    Além dos dois gols do Baixinho, a goleada 5×0 foi completada por dois gols de Rodrigo Mendes, que entrou no lugar de Sávio, e um de Edmundo. Sávio também fez um bom jogo, como relatou o Jornal dos Sports: “Sávio teve boa atuação. Ele jogou até os 27 minutos do segundo tempo, sendo substituído no mesmo momento de Edmundo, com quem vai formar o ataque da Seleção Brasileira, no amistoso da próxima quarta-feira, no Estádio Olímpico de Tóquio, com a Seleção Japonesa.” Por sua vez, o Flamengo seguia para a China e se afastava dos problemas de relacionamento entre os jogadores. Por um momento só.

  • Jogos eternos #413: Flamengo 4×1 Vasco 1976

    Jogos eternos #413: Flamengo 4×1 Vasco 1976

    Sem jogo do Flamengo hoje, escolho um jogo eterno que completa exatamente 50 anos. O rival era o maior, o Vasco, e o momento era delicado. Duas semanas antes, Flamengo e Vasco disputaram a decisão da Taça Guanabara. Com gols de Roberto Dinamite e Geraldo, o jogo acabou em 1×1. Na disputa de penalidades, Zico tinha a cobrança decisiva para oferecer o título ao Flamengo, mas Mazarópi defendeu. Em seguida, Vasco conquistou a Taça Guanabara.

    Hoje inexpressiva, a Taça Guanabara valia muito na época. O Brasileirão e a Copa Libertadores eram importantes, mas o campeonato estadual era a alma do futebol carioca, ainda mais com o Maracanã cheio. A derrota contra Vasco foi dura, para o time todo, para a Nação inteira. Ainda mais para Zico, que foi culpado pela derrota. No dia seguinte ao jogo, os muros rubro-negros ainda foram pichados, com cobrança sobre o salário alto de Zico. O Galinho, na época com 23 anos, respondeu: “Sei que é uma minoria. A maior prova disso é que até agora recebi mais de 30 cartas e só uma com palavras odiosas, ofensivas, pedindo até que eu encerrasse minha carreira. As outras trazem palavras de carinho e compreensão”.

    Quinze dias depois da decisão, o jogo ainda estava em todas as cabeças, da comissão técnica, dos jogadores e do Maracanã, meio lotado com 47.912 pessoas. Em 27 de junho de 1976, o técnico Carlos Froner escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Rondinelli, Dequinha, Vanderlei Luxemburgo; Merica, Tadeu, Júnior Brasília; Zico, Luisinho, Zé Roberto. O Flamengo tinha alguns desfalques como Jayme, Júnior e Geraldo, mas precisava absolutamente de um sucesso para recuperar a confiança.

    O início do jogo mostrou o nervosismo do time rubro-negro, que dominava a partida, sem conseguir o gol. Talvez a decisão da Taça Guanabara ainda pesava nas pernas e nas cabeças. No dia seguinte, o Sandro Moreyra escreveu para o Jornal do Brasil: “Sempre melhor, o Flamengo poderia ter começado já no primeiro tempo a sua goleada, o que não fez talvez por um certo respeito pelo adversário e pelos já habituais gols perdidos por Luisinho”. Assim, no intervalo, o placar ainda era de 0x0.

    Mas foi só marcar um gol para desencadear as coisas. Com 8 minutos no segundo tempo, Zico cobrou uma falta, a bola foi desviada pela barreira e chegou até Tadeu, que chutou de primeira, firme e preciso, para abrir o placar. No minuto seguinte, Dé aproveitou de um erro de Rondinelli para empatar o jogo. Mas estava escrito já antes do apito inicial, já 15 dias antes, esse jogo era do Mengo.

    De novo no minuto seguinte ao gol do Vasco, o Flamengo fez pressão alta e ganhou a bola na grande área vascaína. A bola chegou até Zico, que já tinha chutado três vezes na trave durante o jogo. Chutou forte e não perdoou o goleiro, nem os críticos e os duvidosos. Com o gol, o Galinho recuperava a artilharia do campeonato carioca. Depois do jogo, Zico explicou: “Aquela decisão para mim foi algo muito cruel, que chegou a me abalar profundamente por todos estes dias. Por sorte nossa, foi exatamente o Vasco que acabou nos proporcionando esta oportunidade. Confesso que no momento em que percebi que poderia marcar, parti de encontro à bola com uma raiva imensa e quando a vi no fundo da rede é que pude respirar descansado. Foi como se tivesse tirado um peso enorme da cabeça”.

    Logo depois, o vascaíno Renê foi expulso e a goleada rubro-negra se desenhava. Faltando dez minutos para o final do jogo, o Flamengo aplicou seu jogo característico de passes ao pedido do técnico Carlos Froner. Luís Paulo achou de trivela Tadeu, que dominou, cortou um jogador com um drible seco e tocou de trivela para o chute de primeira de Vanderlei, no fundo do gol. E como aconteceu com o segundo gol, Vasco teve um jogador expulso na sequência, agora Dé. “O pior do Vasco foi que, além de jogar mal, não soube perder. Teve três jogadores expulsos de campo por não aceitarem a derrota que o Flamengo impunha lisamente”, continuou Sandro Moreyra.

    Já nos acréscimos, Luisinho finalizou uma linda jogada individual e decretou a goleada flamenguista: 4×1. “Como se disse de início uma vitória bem ao gosto da torcida rubro-negra. Com garra, determinação, uma vontade de vencer que era de todo o time. Num jogo assim, qualquer tática é secundária. O Flamengo de ontem valeu pelo empenho com que lutou sempre”, finalizou Sandro Moreyra.

    Flamengo goleava e Zico superava o trauma da Taça Guanabara, sendo mais uma vez o craque de sempre. No dia seguinte, o Jornal dos Sports avaliou: “De novo todo o esplendor do craque. Foi o nome do jogo, mesmo sem muita sorte. Um golaço e três balaços na trave que fizeram a torcida gritar seu nome como nos melhores dias”. Para fechar, deixo um retrato da crônica de Duarte Gralheiro para o mesmo JDS: “Falo de Zico. Todas as coisas que fez durante a partida comprovam sua grande classe. O tiro indefensável no gol. As três bolas na trave. O passe para o gol anulado de Luisinho. Algumas passagens e tabelas do melhor Zico […] Esta vitória, não tenho dúvida, tem um efeito curativo e regenerador. No mesmo local e contra o mesmo adversário, Zico e seus parceiros recuperaram a confiança perdida”. O Flamengo estava quase pronto para ser campeão e deixar o vice ao Vasco.

  • Jogos eternos #412: Flamengo 2×2 Celtic 1994

    A Seleção brasileira joga hoje contra a Escócia, na terceira rodada da Copa do Mundo. E como foi o caso contra o Marrocos e o Haiti, eu aproveito do jogo para eternizar um jogo do Flamengo na Escócia. E de novo não tive dúvidas: Flamengo jogou apenas duas vezes na Escócia: uma derrota 2×9 contra o Motherwell em 1960 e um empate 2×2 contra o Celtic em 1994. Vamos então para o jogo de 1994, outro ano de ouro do futebol brasileiro.

    O Celtic é um dos dois maiores times da Escócia, junto com o Rangers. Aberdeen é o último fora dos dois a ter vencido o campeonato escocês, em 1985, com um tal de Sir Alex Ferguson como técnico. Em 1994, Flamengo fez uma excursão na Ásia, justamente durante a Copa do Mundo. Venceu o Kashima Antlers na despedida de Zico, um jogo eterno no Francêsguista, derrotou o Bayern Munich para conquistar o Torneio da Malásia, outro jogo eterno no blog. Com dois gols contra Kashima e mais um contra o Bayern, Sávio se tornou o maior nome do time. Já uma grande promessa havia alguns anos, o Anjo Loiro aproveitou a excursão para ser mais decisivo.

    Depois da Ásia, Flamengo seguiu para a Europa e jogou uma primeira vez contra o Celtic, mas na Irlanda. O jogo empatou em 1×1, com mais um gol de Sávio. Quatro dias depois, os dois times se reencontraram, agora em Glasgow, no mítico Hampden Park. Em 2 de agosto de 1994, o saudoso Carlinhos escalou Flamengo assim: Adriano; Henrique, Gelson, Rogério, Marcos Adriano; Marçal, Marquinhos, Hugo, Rodrigo Mendes; Nélio, Sávio. Destaque para a escalação do zagueiro Marçal como volante na ausência do titular Fabinho, e claro, para o melhor jogador do time, Sávio.

    E de novo, a estrela de Sávio brilhou, agora na Escócia. De falta, abriu o placar e conquistou novos fãs europeus. Marçal foi expulso e o Celtic empatou, depois virou no segundo tempo. Faltando cinco minutos para o final do jogo, Fábio Baiano empatou e permitiu ao Flamengo fechar a excursão de maneira invicta: três vitórias e três empates. “A torcida aplaudiu muito os jogadores brasileiros, num reconhecimento da superioridade técnica – apesar de o Celtic ser a base da seleção escocesa, com um total de seis jogadores. Em momento algum o Flamengo deixou a desejar em campo”, escreveu o Jornal dos Sports.

    O Flamengo estava de volta ao Brasil e sonhava alto para o campeonato nacional. Queria contratar um recente tetracampeão e não era o menos importante. Romário, apenas isso, era o novo objetivo dos dirigentes rubro-negros para alegrar a Nação e formar uma dupla mortal com Sávio.

  • Jogos eternos #411: Flamengo 2×1 Fluminense 1991

    Jogos eternos #411: Flamengo 2×1 Fluminense 1991

    Sem jogo do Flamengo hoje, aproveito mais uma vez do momento para eternizar um jogo aniversariante, de 35 anos atrás. O jogo é eterno, um dos maiores confrontos do futebol mundial, o Fla-Flu. Já a competição não entrou na história, a chamada Copa Rio.

    A primeira edição da Copa Rio aconteceu justamente em 1991. A Copa do Brasil ainda era recente e tinha 32 participantes por edição, os campeões estaduais, além dos vices para as maiores federações. Para a Ferj, era melhor ter dois campeões. A federação carioca criou então a Copa Rio, para designar o segundo representante na Copa do Brasil. A competição foi idealizada pelo presidente da Ferj, Eduardo Viana, também torcedor do Americano. “A premissa desse torneio era uma vergonha. Ele foi criado para ver se o Americano era o campeão”, julgou para GE o jornalista Roberto Assaf.

    A Copa Rio não era bem vista pelos grandes do Rio, que tinham de jogar mais uma competição desnecessária. Flamengo estreou com duas vitórias, 2×1 contra Campo Grande no Ítalo del Cima e 2×0 contra Olaria na Gávea, com pouco brilho em campo, com pouca atenção da mídia e da torcida. Porém, o jogo seguinte era diferente, era o Fla-Flu, o clássico que começou 40 minutos antes do nada. “O Fla-Flu é um clássico que fascina a torcida e esse encantamento mágico que o cerca é certamente a ligação histórica que une os dois clubes. Por isso é que cada edição desse jogo, que parece ungido pelos deuses do futebol, tem como moldura uma plateia que não é vista habitualmente no Maracanã”, escreveu no dia do jogo o Jornal dos Sports. Já o Jornal do Brasil foi um pouco mais reservado e julgou que “só a mistica anima o Fla-Flu da Taça Rio”.

    O Jornal dos Sports realmente parecia chamar a torcida para o Fla-Flu: “Não importa se vale pontos ou não. Muito menos o local. Pode ser em Juiz de Fora, no Caio Martins, ou seja lá onde for. Mas é claro que no Maracanã, valendo pontos, é muito mais empolgante. Por isso, mesmo com uma competição esvaziada, onde os cartolas fazem tudo para desmoralizá-la, o Fla-Flu de hoje tem tudo para ser empolgante. E será sempre o maior clássico do futebol brasileiro”. Em 23 de junho de 1991, sem o convocado Wilson Gottardo e o machucado Gaúcho, o jovem técnico Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Gilmar; Ailton, Júnior Baiano, Rogério Lourenço, Piá; Charles Guerreiro, Júnior, Zinho, Djalminha, Marcelinho Carioca; Nélio.

    Os esforços do Jornal dos Sports não foram suficientes para lotar o estádio. Tinha um pouco mais de 8 mil presentes, um dos piores públicos do Fla-Flu no Maracanã. Em campo, Flamengo começou melhor o jogo. “Logo de início pôde-se observar que o Flamengo estava mais disposto, mais ousado e querendo partir em cima do adversário”, julgou o Jornal dos Sports quando o Jornal do Brasil foi mais severo, vendo dois times “igualados na mediocridade, recheadas de erros e incompetência”. Teve poucos lances perigosos e a diferença se fez na bola parada, com um jovem mestre, Marcelinho Carioca. Bem perto do gol, bem no seu estilo particular, Marcelinho bateu a falta levemente, com efeito, quase oferecendo a bola para a gaveta tricolor. Golaço.

    Ainda no primeiro tempo, num bate-rebate de cabeças que justificou o jogo feio que viu o Jornal do Brasil, Ézio colocou a bola em cima da defesa rubro-negra e Marcelo Gomes conseguiu empatar. No segundo tempo, de novo Flamengo dominou, “atacava com mais frequência, mas não chegava a ameaçar com perigo”. Assim, mais uma vez a diferença se fez na bola parada. Flamengo teve outra falta, agora de bem longe. Claro, o Marcelinho Carioca podia bater forte, mas a cobrança caiu para um zagueiro, Júnior Baiano ou Rogério. Júnior Baiano fintou, Rogério chutou com força, achou a rede tricolor.

    Sem brilhar, Flamengo conseguiu a vitória no Fla-Flu e ficou na liderança, o que foi o caso até o final da fase de grupos. Na final, Flamengo enfrentou o Americano de Eduardo Viana e conquistou o título invicto e inédito. Pior que no final, o torneio valeu por nada: Flamengo venceu o Brasileirão de 1992, se classificou para a Copa Libertadores de 1993 e assim, desistiu de jogar a Copa do Brasil de 1992. Isso era o nível da bagunça dos torneios no início dos anos 1990.

  • Times históricos #38: Flamengo 1958

    Flamengo cedeu quatro jogadores para a Copa do Mundo de 2026, repetindo o feito de 1958, primeiro ano de glória mundial da seleção brasileira. Em 2026, os jogadores eram mais nas funções defensivas, em 1958 eram ofensivos, com um dos mais brilhantes ataques da história do clube. Na Suécia, teve no começo da competição um trio ofensivo rubro-negro, depois ofuscado por uma dupla Pelé – Garrincha, apenas isso.

    Como era de costume na época, Flamengo começou a temporada de 1958 com uma excursão na América do Sul. Na ausência do técnico Fleitas Solich, o time foi comandado por Jaime de Almeida, que, como o filho dele depois, regularmente assumia a função de técnico interino. No primeiro jogo do ano, o Mengo derrotou 2×0 o Alianza Lima no estádio nacional de Lima. Os gols foram marcados por Henrique Frade e Dida, que seriam os dois maiores artilheiros do clube na temporada. No Peru, Flamengo venceu também o Centro Iqueño e o Universitário antes de ir ao Chile para empatar duas vezes contra o Colo-Colo. Para fechar a excursão, mais três jogos na Bombonera de Buenos Aires: uma vitória de prestígio contra o Boca Juniors e uma derrota contra o Racing. Na despedida, mais um jogo contra o Racing, que acabou em empate 3×3. Com 11 gols em 8 jogos, Dida foi o grande artilheiro da excursão.

    De volta ao Brasil, Flamengo estreou no Torneio Rio-São Paulo, contra o São Paulo no Pacaembu. Começou com vitória e ainda derrotou a Portuguesa e o Santos antes de perder contra o America no Maracanã. Goleou Botafogo 4×0 e Palmeiras 6×2, também venceu o Fla-Flu antes de empatar contra Vasco, que também lutava pelo título. No último jogo, Flamengo foi duramente vencido 3×0 pelo Corinthians no Pacaembu e viu quatro dias depois Vasco levantar a taça no mesmo estádio. Por dois pontinhos, Flamengo perdeu um primeiro título na temporada contra o Vasco. O grande artilheiro rubro-negro do torneio foi Henrique Frade, que fez 9 gols em 9 jogos, inclusive 4 gols na vitória 6×2 sobre o Verdão.

    Flamengo fez alguns amistosos, o primeiro contra Bangu, com dura derrota 4×0 no Maraca. Porém, o jogo marcou a estreia de um dos maiores símbolos do Flamengo, o Violino Carlinhos. Depois de três jogos na Bahia, o Mengo voltou ao Maracanã para enfrentar o maior, a Seleção brasileira, que se preparava para a Copa do mundo. Um ano antes, Flamengo já havia enfrentado a Seleção, com um empate 0x0. Agora, Flamengo jogava sem Moacir, Joel, Zagallo e Dida, justamente convocados com a seleção brasileira. No Maraca, depois de um 0x0 no primeiro tempo, o técnico brasileiro Vicente Feola lançou em campo o quarteto rubro-negro. Eram quatro do Flamengo na Seleção contra 11 que vestiam o Manto Sagrado. Escreveu Roberto Assaf no livro Almanaque do Flamengo: “Logo aos 6 minutos, o atacante Manoelzinho, que substituíra Henrique no intervalo, apanhou uma sobra na entrada da área e bateu forte e rasteiro, surpreendendo Gilmar, que nem sequer esboçou reação. No final, a seleção até que apertou, porém o rubro-negro resistiu e garantiu o resultado”. O Flamengo conseguia uma vitória de prestígio e seguia invicto contra a Seleção, o que é o caso até hoje. Para fechar o capítulo da Seleção, a observação do Correio da Manhã: “É justo que se registre, também, que coube ao desfalcado quadro do Flamengo as honras da tarde esportiva de domingo […] Dentre os rubro-negros, deve ser ressaltada a atuação de Dequinha, a grande figura do gramado. De um modo geral, entretanto, todo o quadro atuou magnificamente, principalmente pelo jogo de conjunto, fator principal de sua brilhante atuação”.

    Depois de vencer a Seleção, Flamengo imitiu a própria seleção e fez uma excursão na Europa pelo terceiro ano consecutivo. Na época, os torneios amistosos, muitas vezes quadrangulares, começavam a se tornar frequentes. O Torneio de Paris era para mim o mais prestigioso. Na primeira edição, em 1957, Vasco fez brilhar o futebol brasileiro e conquistou a taça. Um ano depois, Flamengo foi convidado como representante brasileiro e estreou contra Bolton, que tinha acabado de vencer a mítica Copa da Inglaterra. No Parque dos Príncipes, Duca abriu o placar com um “pelotaço”, mas Flamengo cedeu o empate no segundo tempo. Na disputa de penalidades, outro empate, agora 3×3. A dura, injusta, já ultrapassada regra do sorteio em caso de empate escolheu Bolton como vencedor. Na disputa do terceiro lugar, Flamengo derrotou o forte time húngaro de Ujpest e ficou invicto em Paris, na minha França também, com vitórias sobre Nantes e Sochaux em amistosos. Flamengo passou por Portugal, Espanha, Israel, Turquia e Hungria e ainda jogou no Brasil com um time alternativo, marcando a estreia de um meio campista canhoto de apenas 17 anos, um tal Gérson. Em 15 jogos na Europa e Ásia, o Mengo conseguiu 9 vitórias, 3 empates e teve apenas três derrotas. O maior artilheiro da excursão foi o pequeno Babá, com 9 gols. E mais, com participação de quatro atletas rubro-negros, o futebol brasileiro agora era diferente, era campeão do mundo.

    O Flamengo tinha campeões do mundo, mas Zagallo saiu do clube para jogar no Botafogo e Dida e Joel perderam espaço no time titular, por causa de Pelé e Garrincha. Já Moacir só ameaçou o posto do insuperável Didi nos treinos. Numa entrevista para o Placar, Dida mostrou alguma mágoa: “Faltavam duas horas para o jogo com a Inglaterra. O Feola se aproximou de mim e disse: ‘Você não vai jogar’. Até hoje o Feola me deve uma explicação […] Os homens já queriam me queimar há muito tempo. Diziam que eu era de vidro, medroso. Nunca tive medo. É mentira sina, torpe! Não tremi contra a Áustria. Como iria tremer num jogo fácil daquele? Pedi então para voltar ao Brasil. Muito pedido, muitos conselhos e acabei ficando. Acabei não jogando ao lado do Pelé. Feola dizia que não queria complicar as posições. Mas não era nada disso. No jogo com a Inglaterra ele me tirou e botou o Vavá junto com o Mazzola”.

    De volta ao Brasil, o Flamengo estreou no campeonato carioca com ampla vitória sobre Canto do Rio. No Maraca, o Mengo venceu 4×0, com gols de Babá, Henrique Frade, Joel e Dida. Logo depois, já perdeu a invencibilidade, com derrota 0x1 contra o America, de novo no Maracanã, a casa do Flamengo. O Mengão voltou com as goleadas, 4×1 contra Bonsucesso no Maraca, 5×0 contra a Portuguesa na Gávea, outra casa do Flamengo. E voltou a perder contra outro time mediano que já foi grande, o Bangu. O Flamengo oscilava e de novo goleou, agora 8×0 contra Olaria na Gávea, com nada menos que 5 gols de Dida! Para fechar o primeiro turno, o Mengo empatou contra Botafogo e Vasco e levou o Fla-Flu, de novo com um gol de Dida.

    No segundo turno, Flamengo começou com duas vitórias 3×0 contra Canto do Rio e São Cristóvão. Com a saída de jogadores importantes como García, Tomires, Paulinho e Duca, o Mengo perdeu dois clássicos consecutivos, contra Fluminense e Botafogo. Voltou a vencer com o trio Dida – Henrique Frade – Luís Carlos em grande forma. Em pleno campeonato, Flamengo entrou de luto com a morte do fundador de sua secção de futebol, o grande médico Alberto Borgerth. O clube decretou um luto de cinco dias, “durante os quais a bandeira do clube será hasteada em funeral”. No Jornal do Brasil, Célio de Barros homenageou o homem de “ação diligente e inteligente”, o fundador da “seção terrestre, que tantas glórias acarretaria para as cores rubro-negras”, o jogador que “se tornou campeão carioca de futebol e, por várias vezes, integrou as seleções guanabarina e brasileira […] um autêntico craque em sua época”, o árbitro que dirigiu a “famosa partida entre argentinos e brasileiros, em Buenos Aires, na disputa da 1a ‘Copa Roca’”, o “dirigente do C.R. do Flamengo, presidente da Federação Metropolitana de Futebol, diretor da Confederação Brasileira de Desportos e juiz do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, deixando em todas essas funções de releve traços indeléveis de sua passagem”, além do “médico capaz e cirurgião hábil” e “o amigo devotado, de alma nobre e coração de ouro”.

    De volta no campeonato carioca, Flamengo precisava vencer o Vasco na última rodada para forçar um supercampeonato, como aconteceu em 1946. Dida estava machucado e Luís Carlos virou o herói, fazendo dois gols na vitória 3×1. “Venceu o Flamengo na raça e na flama”, escreveu o Jornal dos Sports. Flamengo fechou o campeonato com 14 vitórias, 4 empates e 4 derrotas, exatamente como Vasco e Botafogo. Com 61 gols, o Mengo tinha o melhor ataque do campeonato e dos três times empatados, também tinha a melhor defesa. Porém, não existia o saldo de gols como critério de desempate e a solução foi um supercampeonato.

    Na estreia do supercampeonato, ainda sem Dida, artilheiro rubro-negro no campeonato com 18 gols, Flamengo perdeu 2×0 contra Vasco. Em 27 de dezembro, para o último jogo do ano, Flamengo venceu o Botafogo de Didi e Garrincha com gols de Dida e Luís Carlos, e seguiu vivo na competição. Já no mês de janeiro de 1959, Botafogo venceu Vasco e forçou um supersupercampeonato. Só que dessa vez, no supersuper, Flamengo só conseguiu dos empates e viu o Vasco levar a taça de campeão depois de conquistar o Torneio Rio – São Paulo no início do ano.

    No time vascaíno campeão, tinha um antigo ídolo rubro-negro, o grande Rubens, que entrou em conflito com o técnico Fleitas Solich e disputou apenas um jogo no Flamengo em 1957. Assinou com o Vasco e foi um dos destaques do time, com 8 gols em 21 jogos no campeonato carioca. “Nem o fato de ter vestido a camisa de um grande rival fez com que o torcedor rubro-negro esquecesse Rubens. Nos anos em que defendeu o Flamengo – 173 jogos e 84 gols –, ele se identificou de tal maneira com o clube que, para a História, ele sempre será lembrado como o ‘Doutor’ Rubens rubro-negro, um catedrático de futebol, um artista da bola”, escreveu Roberto Sander no seu livro Os dez mais do Flamengo.

    Rubens conquistou um tetracampeonato carioca pessoal e Flamengo, sem vencer um grande título desde 1955, ainda precisava esperar para ser campeão, numa época de ouro do futebol brasileiro.

  • Jogos eternos #410: Flamengo 1×1 Seleção de Haiti 1964

    Antes do jogo da Copa entre o Brasil e o Haiti, e como fiz antes do Brasil x Marrocos na estreia, eu vou lembrar de um jogo do Flamengo no Haiti. Não há dúvida sobre o jogo, já que Flamengo jogou apenas uma vez no Haiti, em 1964. Eleito presidente de Haiti em 1957, François Duvalier, conhecido como Papa Doc, transformou o país em uma ditadura com o apoio dos Estados Unidos. O Massacre de 26 de abril de 1963 custou a vida de ao menos 73 pessoas, a maioria militares da oposição. Em junho de 1964, o Papa Doc foi proclamado “presidente vitalício” do país.

    Entre as duas datas, Flamengo foi jogar lá, no início da temporada de 1964. Depois de dois jogos contra o Atlético Nacional da Colômbia na Jamaica, a delegação rubro-negra, chefiada pelo antigo jogador e ídolo Agustín Valido, chegou na ilha haitiana. No dia do jogo, contra um combinado de dois times locais, Racing e Aguila Negra, o Jornal do Brasil escreveu: “A recepção ao Flamengo – primeiro time brasileiro que se exibe aqui – foi extraordinária, com o prefeito da cidade, o embaixador do Brasil e um grande cortejo de carros formado especialmente em homenagem à delegação”.

    Em 23 de fevereiro de 1964, sem o poupado Aírton mas com a volta de Luís Carlos, o histórico técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Marcial; Murilo, Luís Carlos, Joubert, Paulo Henrique; Carlinhos, Nelsinho; Espanhol, Carlos Alberto, Paulo Alves, Osvaldo Ponte Aérea. Em Porto Príncipe, no estádio Sylvio Cator, atleta haitiano medalhista de prata nas Olimpíadas de 1928 e antigo recordista mundial de salto em distância, Flamengo começou melhor. “No primeiro tempo da partida de sábado, o Flamengo ainda foi superior ao combinado haitiano, marcando um gol aos 14 minutos, numa finalização de Carlos Alberto”, escreveu o Jornal do Brasil.

    Porém, no segundo tempo, o combinado do Haiti conseguiu o empate. “Moran, cobrando uma penalidade, aos 14 minutos da etapa final, fez o gol de empate para a seleção do Haiti. Marcial falhou na defesa do chute de Moran, que saiu fraco e quase cobre o goleiro”, julgou o Jornal dos Sports.

    Na crônica sobre o jogo contra o time do Marrocos, escrevi que o próprio Rei do Marrocos anulou um gol legítimo do Flamengo. Agora, no pesado clima de Haiti, um gol do Flamengo foi anulado pelo ator legítimo, o juiz. Ainda o Jornal dos Sports: “O campeão carioca poderia ter alcançado a vitória, não tivesse o arbitro da partida anulado gol lícito de Carlos Alberto, aproveitando uma bola rebatida pela defesa do Flamengo, já ao final do jogo, e quando maior era a pressão dos haitianos em busca do gol da vitória. Os protestos dos jogadores cariocas junto ao juiz de nada valeram, pois o mesmo se manteve irredutível na marcação de impedimento, inexistente. O delírio do público, ao constatar a anulação do gol de Carlos Alberto, serviu de incentivo para que o juiz mantivesse a marcação e até de expulsão”.

    “Flamengo empate com Haiti por 1 a 1 e não vence por causa do arbitro”, manchetou o Jornal dos Sports. Ser roubado pelo juiz fora do Brasil é coisa habitual. Ainda mais num regime autoritário, como se tornava o Haiti. Coisa anormal, mesmo para a época, podia-se ler na crônica do Diário de Notícias: “Flamengo jogou com medo no Haiti: juiz estava armado”. Na matéria, foi além, falando de “um revólver que o juiz portava na cinta, enquanto o técnico do time adversário também não fazia segredo de que estava armado”. O clima era pesado e, pior ainda, nas semanas seguintes, o Brasil também se tornaria uma ditadura, com todos os abusos associados…

  • Jogos eternos #409: Flamengo 1×0 Seleção carioca 1970

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu escolho mais um jogo aniversariante para a crônica do dia. Não foi um grande jogo, nem um bom jogo. O Jornal dos Sports até escreveu na edição do dia seguinte: “Flamengo e Seleção carioca disputaram ontem um jogo fraco sob todos os aspectos. Do lado do campeão da Taça Guanabara ainda se viu algum entusiasmo, o que lhe garantiu absoluto domínio durante os 90 minutos. A Seleção carioca, entretanto, nada mostrou de bom e perdeu de apenas 1 a 0 por pura sorte”.

    Por que então escolher esse jogo? Na verdade, a eternização começou antes do apito inicial, começou 16 anos antes do dia do jogo. Em 1954, o eterno Biguá, que só jogou no Flamengo na carreira inteira, se despediu dos gramados e entregou as chuteiras a um jogador da base, que tinha apenas 17 anos, Carlinhos. O jovem virou Violino, virou ídolo e eterno, também só jogou no Flamengo até o final da carreira, em 1969. Para fechar o ciclo, precisava repetir o gesto das chuteiras e abençoar um jovem rubro-negro. E a escolha foi perfeita. Escreveu o Jornal dos Sports dois dias antes do jogo de 1970 contra a seleção carioca: “O apoiador Carlinhos, antes do jogo principal dará uma volta olímpica no gramado e entregará suas chuteiras a Zico, irmão de Dudu, do America, que surge como um futuro valor do Flamengo”.

    Zico, com os mesmos 17 anos que Carlinhos na hora de receber as chuteiras de Biguá, era a maior promessa do Mengo e, pela primeira vez, jogava no Maracanã. Escreveu Marcus Vinícius Bucar Nunes, no livro Zico, uma lição de vida: “Foi na preliminar do jogo de despedida do Carlinhos, aquele grande jogador de meio-de-campo, que formava dupla com Liminha. As escolinhas do Flamengo e do América abriram a jornada festiva, fazendo um bom jogo. E lá estava ele, pela primeira vez, correndo com a camisa do Flamengo, em pleno Maracanã. Como registro dessa partida, apenas um gol feito, que ele perdeu, no final. No jogo principal, Carlinhos, ao deixar o gramado, entregou-lhe as chuteiras de presente, simbolizando sua confiança na nova geração”.

    Agora a palavra para o próprio Zico, no livro Maracanã, 50 anos de glória, de Renato Sérgio: “Foi inesquecível, a primeira vez que joguei no Maracanã. Estava no dente-de-leite e o jogo contra o América fazia parte da despedida de Carlinhos do Flamengo. Eu nem imaginava que viveria exatamente ali os melhores momentos da minha carreira, ali, naquele palco que abrigaria tantos craques inesquecíveis […] O Maracanã foi um prolongamento de minha família, sentia-me tão à vontade ali como se estivesse em minha casa”. Carlinhos brilhou no Maraca, se despediu e entregou as chuteiras ao garoto. Agora, o Flamengo e o Maracanã já não eram os mesmos.

    Em 16 de junho de 1970, para o jogo contra uma seleção carioca que tinha jogadores como Denílson e Didi do Fluminense no meio de campo, Flávio e Silva na frente, o técnico Yustrich escalou Flamengo assim: Adão; Murilo, Washington, Reyes, Paulo Henrique; Zanata, Liminha; Doval, Caldeira, Adãozinho, Fio Maravilha. O início do jogo foi do Mengo, como relatou o Jornal dos Sports: “Aos 9 minutos, surgiu a primeira jogada perigosa do Flamengo, quando Adãozinho chutou da linha da grande área, rasteira, exigindo de Cao o maior esforço para colocar a córner. A esta altura, o Flamengo já dominava inteiramente o jogo e, aos 21 minutos, surgiu o gol: Paulo Henrique faz um lançamento em profundidade, Leônidas sai para colocar Adãozinho em impedimento, mas Batista dava condições de jogo. Adãozinho correu, perseguido por Denílson e chutou, sem chances de defesa para Cao”.

    “O segundo tempo foi bem pior que o primeiro, com o Flamengo dominando”, ainda escreveu o Jornal dos Sports, que relatou poucas coisas sobre o segundo tempo: “Aos 23 minutos, Alex salva da linha de gol uma cabeçada de Caldeira que tinha endereço certo. Depois disso, ainda se viu algumas oportunidades do Flamengo, mas o placar permaneceu no 1 a 0”.

    É um dos poucos casos de jogos eternizados em nenhum dos 90 minutos, mas já no pré-jogo, com um jovem craque de chuteiras velhas, de sonhos gigantes e de realizações ainda maiores. Para fechar então, deixo a palavra para um dos dois heróis do dia, Zico, na biografia do segundo, Carlinhos, escrita por Renato Zanata e Bruno Lucena: “Quando eu já estava há três anos no Flamengo, ele parou de jogar e eu fui o garoto escolhido para receber as chuteiras dele. Era um cara espetacular. Aquela tranquilidade, delicadeza, na forma como ele tratava todo mundo, envolvidos ou não no trabalho dele. Uma pessoa de diálogo. Gostava de falar sobre futebol e também era professor […] E vejam vocês como é o destino. Eu pude entregar a ele a camisa do meu último jogo pelo Kashima. Foi contra o Flamengo, e o Carlinhos era o técnico. Pude retribuir o que ele havia feito por mim”.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”