
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #405: Flamengo 1×0 Chapecoense 2015

Com a parada por causa da Copa, Flamengo só vai reestrear daqui um mês e meio, contra a Chapecoense. Para o jogo eterno do dia, eu vou de outro jogo contra a Chape, que completa hoje exatamente 11 anos.
E em 11 anos, a situação mudou muito para o Flamengo. No ano de 2014, Flamengo passou a pausa da Copa na 19a e penúltima colocação, com apenas uma vitória em 9 jogos. Tinha um sério risco de rebaixamento, mas o Flamengo se salvou no final. Em 2015, de novo Flamengo começou mal o campeonato e trocou de técnico, com a saída de Vanderlei Luxemburgo. O novo técnico Cristóvão Borges – tempos sombrios – perdeu o Fla-Flu logo na estreia e ainda perdeu contra o Cruzeiro. Com 5 partidas no Brasileirão, Flamengo tinha apenas um ponto, de novo estava na 19a colocação, na briga contra o rebaixamento.
Em 6 de junho de 2015, para o jogo contra Chapecoense, o técnico Cristóvão Borges escalou Flamengo assim: Paulo Victor; Luiz Antônio, Wallace, Samir, Pará; Marcio Araujo, Jonas, Canteros, Gabriel; Marcelo Cirino, Eduardo da Silva. Realmente tempos difíceis do Flamengo, com quase ninguém do elenco que traz boas lembranças. O ingresso valia apenas par ver o Manto Sagrado.
No Maracanã, cheio na Norte e quase vazio nas outras arquibancadas, Flamengo teve o primeiro lance de perigo, mas o cabeceio do capitão Wallace apenas flertou com a trave. Em seguida, Gabriel fez ótimo lançamento, Marcelo Cirino não conseguiu finalizar. Eduardo chutou cruzado, de novo a bola escapou do gol. Num outro escanteio, a bola fugiu da grande área e voltou para Gabriel, que chutou de longe. A bola foi desviada e chegou na rede, mas do outro lado do gol. Canteros cobrou uma falta, que passou só um pouco em cima do travessão. No intervalo, apesar do franco domínio do Flamengo, o placar ainda era 0x0.
No segundo tempo, Gabriel foi o jogador que mais apareceu, ainda de forma caótica. Errou no cruzamento, que quase se transformou em gol, mas o saudoso goleiro Danilo ficou vigilante. Logo depois, Gabriel errou no chute, que quase se transformou em assistência, mas Marcelo Cirino não conseguiu tocar na bola. Com uma hora de jogo, Cirino escapou da defesa da Chape, obrigada a cometer uma falta para impedir o gol. O juiz Daronco mostrou o cartão vermelho para Vilson e o jogo ficou mais fácil para o Mengo.
Cinco minutos depois, Luiz Antônio cruzou na direita, Danilo saiu mal e a bola voltou para Gabriel, que chutou de novo. Danilo ainda desviou a bola, o que impediu o zagueiro de salvar em cima da linha. Era o gol do camisa 17, o gol da liberação para a Nação. No final do jogo, Paulo Victor fez uma linda defesa para garantir o resultado. Flamengo não jogava bem e não tinha jogadores de destaque. Mas tinha o peso do Manto Sagrado para sair momentaneamente da zona de rebaixamento.
Para fechar a crônica então, só me vem uma frase do eterno tricolor Nelson Rodrigues, sobre nosso Flamengo: “Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E diante do furor imponente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.
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Jogos eternos #404: Flamengo 3×1 São Bento 1916
Com a longa parada por causa da Copa, eu vou aproveitar do momento sem jogos do Flamengo para lembrar jogos aniversariantes de um tempo atrás, mais ou menos antigo. Hoje eu vou de um jogo que aconteceu há muito tempo, há exatamente 110 anos.
Flamengo ainda era um moço, com apenas quatro anos de existência falando da seção de futebol. O rubro-negro já tinha vencido o campeonato carioca em 1914 e 1915, porém, os antis podem sorrir, não tinha estádio próprio. E o rubro-negro nem era totalmente rubro-negro. A história já foi muitas vezes escrita e lida, falada e ouvida. Em 1911, os fundadores do Flamengo e praticantes do remo, esporte do maior prestígio social, eram contra a criação de uma seção de futebol dentro do clube. Finalmente, autorizaram, mas sem deixar os “foot-ball players” usar o Manto Sagrado, de listras vermelhas e negras. O time usou uma camisa Papagaio de Vintém, que não trouxe sorte. Então o Flamengo trocou de camisa, com a Cobra Coral, que tinha pequenas listras brancas entre as duas tradicionais, ainda para diferenciar da camisa de regatas. O Mengão conquistou o bicampeonato carioca, mas a Alemanha, que tinha a bandeira semelhante, virou inimigo de guerra do Brasil. Finalmente, a seção do futebol ia adotar o Manto Sagrado, com estreia contra São Bento em 1916.
Além da estreia da camisa rubro-negra, tinha a inauguração do estádio da rua Paysandu. Na verdade, era a terceira, o estádio já tinha sido o palco de um primeiro jogo, contra Bangu, para fechar o glorioso campeonato carioca de 1915, um jogo já eterno no Francêsguista, com vitória 5×1 do Mengo. Teve outra inauguração, com o maior jogo possível, o Fla-Flu, em 13 de maio de 1916, dia da comemoração da abolição da escravidão, apenas 28 anos antes. E teve o maior resultado possível, vitória 4×1 do Fla. Agora era a inauguração oficial, como relatou a Gazeta de Notícias no dia do jogo: “A história do foot-ball no Brasil será aumentada de mais uma de suas brilhantes páginas, assinalada nesta data pela grandiosidade e pelo duplo efeito esportivo da festa que se prepara para a tarde de hoje era excelente praça da rua Paysandu”.
Por sua vez, o Correio da Manhã escreveu depois do jogo: “A festa de ontem, como foi fartamente anunciado pela imprensa, inaugurou oficialmente a nova sede do campeão do Rio. As palavras de elogio que todos já tivemos, para com os moldes magníficos que serviram à construção de suas dependências não necessitam de ser repetidas”. Vamos então para o adversário do jogo, o São Bento, campeão paulista em 1914. “O ‘team’ que nos envia a associação paulistana é um conjunto forte, capaz de levar de vencida o nosso glorioso campeão”, escreveu o Jornal do Commercio no dia do jogo. O principal nome era o meia Lagreca, que fez em 1914 o primeiro gol da seleção brasileira, apenas isso.
Além da estreia da camisa e da inauguração do estádio, teve uma terceira inovação, bem menos oficial. Escreveu Luís Miguel Pereira no excelente livro Bíblia do Flamengo: “Ao contrário do que muita gente pensa, o hino oficial do Flamengo não é o popular ‘Uma vez Flamengo, sempre Flamengo!’. ‘Flamengo, tua glória é lutar’, é o verdadeiro hino oficial. A obra tem letra e música de Paulo Magalhães, teatrólogo, jornalista e ex-goleiro do clube. Foi gravado, pela primeira vez, em 1932, pelo cantor Castro Barbosa, e foi registrado apenas em 1937 no Instituto Nacional de Música. A primeira exibição pública do hino aconteceu a 4 de junho de 1916, na Rua Paysandu, num amistoso Flamengo x São Bento”. O hino, o estádio, o Manto, faltava apenas o Mengo vencer.
Em 4 de junho de 1916, o ‘técnico’ Emmanuel Nery escalou Flamengo assim: Cazuza; Antonico, Nery; Coriolano, Sidney Pullen, Gallo; Arnaldo, Gumercindo, Reid, Borgerth, Riemer. Na nova casa, o Flamengo, mantendo sua tradição, partiu para o ataque. “Desde o primeiro minuto de jogo até o último, o Flamengo se manteve na ofensiva”, escreveu o Correio da Manhã, que, com grafia da época, também relatou o primeiro gol: “Desde os minutos iniciaes, o Flamengo premiu, com as suas investidas continuadas, os defensores do ‘goal’ paulista. Em quatro minutos de jogo, Sidney marca o primeiro ponto do vencedor. Após driblar alguns antagonistas, o ‘center-half’ desloca-se para a meia-direita. Dahi lança um ‘shoot’ enviesado. O ‘keeper’ do São Bento segura a bola… e deixa-a penetrar nas redes do ‘goal’”. Sidney Pullen escrevia seu nome na história e é, até hoje, um dos cinco jogadores nascidos no exterior a ter defendido a Seleção brasileira.
Flamengo abria o placar e continuava no ataque. Treze minutos depois, fez outro gol, agora com descrição do Jornal do Brasil: “A bola permanece por alguns instantes no centro do campo, até que Gumercindo com bem calculado ‘kick’ vasa pela segunda vez o ‘goal’ confiado a guarda de Penteado. Prolongada salva de palmas coroou o feito do impetuoso ‘forward’ carioca”. Ainda no primeiro tempo, o São Bento conseguiu um gol. O lance partiu com um chute de Hopkins. O Jornal do Brasil viu uma defesa parcial do goleiro rubro-negro e um gol de Dias. O Correio da Manhã viu um chute na trave e um gol de Burgos. Ficou a dúvida. Certeza é que o gol foi aplaudido pela plateia e o placar no intervalo foi de 2×1 para o Mengão.
O segundo tempo foi mais calmo. “Nada houve de notável neste segundo ‘half’, a não ser o ‘goal’”, até escreveu o Jornal do Brasil. O Flamengo fez mais um gol com uma dupla que brilhou muito nos primeiros anos de futebol: Borgerth, o fundador da seção, e o Riemer, um dos primeiros artilheiros do Flamengo. Prosseguiu o Correio da Manhã: “Só depois de vinte e sete minutos do início do período os nossos acrescentam mais um merecido ‘goal’ ao seu ‘stock’ victorioso. Esse ‘goal’ é adquirido de um belo passe de Borgerth, pelo ‘inside’ Riemer, com um ‘shoot’ de estilo”.
Flamengo vencia 3×1 e quebrava a série de empates entre paulistas e cariocas. “Finalmente o ‘statu-quo’ entre Rio e São Paulo, que se vinha mantendo e que prometia prolongar-se pelo resto do ano, graças aos deuses do ‘football’, foi ontem quebrado em favor do Rio”, escreveu o jornal A Noite, que prosseguiu: “A nossa admiração, entretanto, é toda pela linha dianteira dos flamengos, que nem da metade do que fez supúnhamos capaz”. Por sua vez, o Jornal do Brasil destacou “Sidney, o herói da tarde, Nery, Antonico, Casusa e a ala direita” quando para a Gazeta de Notícias: “As honras do match couberam sem dúvida alguma a Sidney, um dos center-halves mais perfeitos que tem pisados nos nossos campos”.
A festa continuou após o jogo: “Depois do ‘match’ o Club de Regatas Flamengo ofereceu à embaixada do São Bento um lauto banquete, que foi servido no luxuoso salão do City Club”, relatou o Jornal do Commercio. Flamengo fechava a trindade de inaugurações do estádio da rua Paysandu com três vitórias: 5×1, 4×1 e 3×1. “A festa de inauguração da sede do Flamengo alcançou, como esperávamos um grande sucesso, firmando um traço indelével na história sportiva do nosso paiz”, ainda escreveu o Correio da Manhã.
Flamengo tinha um Manto Sagrado e um estádio, um hino e uma torcida, títulos e ídolos, era maior que qualquer um do Rio, de São Paulo, do Brasil inteiro. Para fechar, deixo mais um recorte de jornal da época, agora o bem nomeado o Imparcial: “O glorioso campeão carioca pode orgulhar-se de possuir a melhor praça de sports existente aqui na Capital, ou talvez, do Brasil. Há um ano, a diretoria do Flamengo, não medindo sacrifícios, afrontando toda a crise que avassalava o país, tomou conta do ground, obrigando-se a fazer todas as obras necessárias para que ali fosse construída uma sede modelo. E para que a colossal empreitada fosse coroada de êxito, meteu mãos à obra”. Flamengo, Flamengo, tua glória é imortal.
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Jogos eternos #403: Flamengo 5×0 Coritiba 2008

Flamengo joga hoje contra Coritiba, último jogo do Mengo antes da longa parada por causa da Copa. Ótimo seria fechar com uma goleada, como aconteceu em 2008.
Na época, na reta final do Brasileirão, Flamengo brigava por uma classificação na Copa Libertadores. Por sua vez, como é o caso hoje, Coritiba estava na primeira parte da tabela. Em 23 de outubro de 2008, o saudoso técnico Caio Júnior escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Jaílton, Ronaldo Angelim, Luizinho; Airton, Toró, Kléberson, Ibson; Marcelinho Paraíba, Obina.
No Maracanã meio vazio, o primeiro lance de perigo foi para o Coritiba, mas Bruno fez uma dupla defesa para impedir a abertura do placar. Logo depois, Obina entrou em ação, achando a trave num cabeceio firme. Era só o início do show Obina, meu primeiro ídolo no Flamengo.
Aos 20 minutos de jogo, Jaílton errou o passe na profundidade. Era uma bola perdida para todo mundo, menos o Obina, que não desistiu do lance e chegou na bola antes da zaga adversária, forçada a cometer o pênalti. Marcelinho Paraíba deixou a bola para o aniversariante do dia, Léo Moura, que festejava seus 30 anos. Léo Moura pegou a bola e chutou a meia altura. O goleiro conseguiu a defesa, mas no rebote, o mesmo Léo Moura chegou e conseguiu colocar a bola na rede, aliviando a Nação.
Na metade do primeiro tempo, Obina pegou a bola à 30 metros do gol, fez um lindo domínio e girou para abrir espaço. O chute apenas flirtou com a trave. Tabelando com Marcelinho Paraíba, Ibson quase deixou o gol dele, mas de novo a bola escapou do gol. Flamengo levava perigo com contra-ataques rápidos. Aos 36 minutos, de novo Marcelinho Paraíba, de novo para Ibson, que lançou na frente Kléberson. Na direita, o meia pentacampeão invadiu a área e tocou para Obina, que teve tempo de dominar e ajustar o chute. Gol do Flamengo, gol do meu primeiro ídolo rubro-negro. Obina não fazia uma grande temporada, fazendo apenas seu quarto gol no Brasileirão, mas era meu ídolo, o primeiro no meu coração, e claro, melhor que Eto’o.
No segundo tempo, Flamengo continuou com os contra-ataques, principalmente usando o fôlego de Léo Moura, que não parecia ter 30 anos. Porém, nem Obina, nem Fernando, que entrou no lugar de Luizinho, conseguiram fazer o terceiro gol. Faltando 15 minutos para o final do jogo, outro contra-ataque rápido do Mengo. Obina fez dois cortes lindos e chutou, mas um último zagueiro conseguiu o desvio e impediu o terceiro gol.
Dois minutos depois, Flamengo partiu mais uma vez para o ataque. Ibson, ainda em fase exuberante, tabelou com Maxi Biancucchi, primo de um tal Messi. Ibson recuperou a bola e, de primeira, fuzilou o goleiro, achando a gaveta. O técnico Caio Júnior, que morreu na tragédia de Chapecoense em 2016, não conquistou títulos com o Flamengo, mas o futebol era lindo de ver, eu gostava de assistir aos jogos na época e o técnico é lembrado até hoje.
O Flamengo fazia mais um gol e não desistia de procurar ainda outro. Ronaldo Angelim recuperou uma bola perto do gol rubro-negro e Fierro lançou Obina na esquerda. O ídolo driblou um adversário com uma finta de corpo, chegou antes de outro defensor e puxou a bola. Já perto do gol, Obina cruzou no chão, a bola desfilou na linha do gol e chegou até a segunda trave, até o Maxi Biancucchi, que fez o gol que Messi não fez. Um gol com o Manto Sagrado, maior glória de um jogador de futebol.
Já era goleada, mas o Flamengo de Caio Júnior queria ainda mais, para uma festa linda com sua torcida. Nos acréscimos, Obina, ainda ele, driblou um com bela finta, deixou a bola entre as pernas de outro. Na dividida, Ibson chegou primeiro e cravou outro pênalti. Obina pegou a bola mas a torcida pediu outro ídolo da época, o goleiro Bruno. Uma tragédia que Bruno cometeu um crime tão horrível e apagou a história dele, porque ao lado de Obina, Léo Moura e Ibson, foi um de meus grandes ídolos, fazendo desse Flamengo um time muito especial no meu coração de ainda jovem apaixonado rubro-negro. Enfim, neste dia, com estilo à la Djalminha, de cavadinha, Bruno fez o quinto gol do dia, o gol do placar final. O juiz nem esperou a saída de bola do Coritiba e apitou o final do jogo logo após o gol. Era uma festa completa no Maracanã.
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Jogos eternos #402: Flamengo 3×3 Vasco 2000

Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de um jogo aniversariante com um clássico eterno, disputado ao menos mais de 400 vezes, talvez milhões de vezes. Porém, escolho de um placar raro, que aconteceu apenas seis vezes na história do clássico, um placar que acho bom demais. E a última vez que tal resultado aconteceu foi exatamente 26 anos atrás.
Em 2000, o clássico Flamengo x Vasco viveu um de seus momentos mais acirrados da rivalidade. Ainda mais que Romário trocou o Flamengo para o Vasco no início do ano. Na sua volta contra o Mengão, o Baixinho deixou 3 gols na goleada 5×1 do Vasco. Foi o fim da linha para o técnico Carpegiani e depois de uma incerteza com o Carlos César, o Carlinhos Violino, herói da Copa Mercosul de 1999 e de tantos outros momentos rubro-negros, voltou mais uma vez no banco do Mengo.
A volta do Carlinhos como técnico alegrava o time, principalmente a estrela sérvia Petkovic. “Técnico faz até Petkovic sorrir”, escreveu o Jornal do Brasil, que relatou as palavras de Carlinhos para o Pet: “Eu já fui jogador e quero o melhor para nós dois. Como você prefere jogar?”. Para a imprensa, o Violino explicou a nova função do Maestro: “Não vou pedir para ele marcar. A palavra certa é participar. Ele tem que estar sempre no jogo, participar ali dentro do seu pedaço de campo”. Fora do jogo contra Bahia por causa de uma amigdalite, Petkovic devia voltar contra o Vasco.
O jogo de ida na Taça Guanabara ainda ficava na memória de cada torcedor, seja vascaíno, seja flamenguista. O Vasco venceu a Taça Guanabara de maneira invicta e já tinha seu ingresso para a final do campeonato. Porém, Romário, principal nome da goleada cruzmaltina, estava fora da partida da Taça Rio. Do outro lado, tinha a volta de Edmundo para o Vasco e de Athirson para o Flamengo. Além da volta de Petkovic. Era um jogaço antes do apito inicial. Em 28 de maio de 2000, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Maurinho, Juan, Fabão, Athirson; Rocha, Mozart, Fábio Baiano, Petkovic; Reinaldo, Leandro Machado.
O Clássico dos Milhões se animou com apenas 5 minutos de jogo. Fábio Baiano cobrou uma falta com potência, bola foi desviada e chegou até o Juan, que antecipou a saída de Helton. O zagueiro-artilheiro esticou a perna e abriu o placar. Flamengo já estava na frente.
Aos 20 minutos, Petkovic entrou em ação. Na esquerda, “o sérvio, que é muito habilidoso” segundo o narrador Luiz Carlos Júnior, pedalou na frente de Odvan e deixou para Athirson. O lateral chutou e bola foi morrer na linha do fundo, flirtando com a trave. No escanteio, Petkovic mostrou que era um autêntico craque e cobrou diretamente no gol. O pulo de Juninho serviu para nada, a bola foi diretamente na gaveta, no gol vascaíno. Petkovic já tinha feito um gol olímpico com a camisa rubro-negra de Vitória, mas pela primeira vez, fazia com o Manto Sagrado essa proeza que repetiria cinco vezes até 2009.
Flamengo já sonhava de devolver a goleada 5×1 da Taça Guanabara, mas no minuto seguinte ao gol de Pet, o Vasco já reagiu. “Há certas deficiências na defesa do Flamengo que parecem crônicas. Uma delas é que Clemer não saiu do gol – ou sai mal. A outra é que, em cruzamentos, a defesa marca a bola”, avaliou o Jornal do Brasil. Numa bola vinda da esquerda, Edmundo escapou da zaga, chegou livre e cabeceou para vencer o Clemer. Pior ainda para o Mengo, cinco minutos depois, Edmundo mais uma vez desequilibrou. O Animal chutou, o Clemer desviou, o Mozart fez jogada feia e não conseguiu afastar o perigo. Juninho Pernambucano, outro craque de bolas paradas, foi no chão e, ainda sentado, conseguiu tocar a bola no fundo da rede para empatar.
No final do primeiro tempo, Flamengo teve uma falta, bem no lado esquerdo, quase na entrada da grande área, com muito pouco ângulo. Quase no mesmo lugar onde Fábio Baiano se eternizaria duas semanas depois na final do Carioca. Só que essa vez foi Petkovic que bateu, e Helton ficou vigilante, conseguindo o desvio para impedir o golaço. Petkovic tinha que esperar ainda mais para fazer seu golaço de falta numa decisão contra Vasco.
Voltando ao jogo da Taça Rio, o juiz expulsou severamente pouco antes do intervalo Fábio Baiano, que saiu da barreira numa falta. Flamengo se complicava a vida, mas tinha raça. No início do segundo tempo, com apenas 30 segundos, Athirson driblou um vascaíno, atraiu mais dois antes de fazer o passe em profundidade. Reinaldo chutou de primeira, cruzado e firme, bem na rede. De novo, o Flamengo estava na frente no placar. Porém, Dedé e Mozart se desentenderam e acabaram expulsos. O jogo, agora com 9 jogadores do Flamengo contra 10 do Vasco, era ainda mais complicado para o time rubro-negro.
O Mengo lutou, mostrou alma e coração, mas cedeu o empate nos minutos finais. Edmundo mais uma vez fez a diferença, com um drible de vaca sobre Maurinho. Bola chegou até Viola que, de pivô, girou e chutou forte, diretamente na gaveta. Era o gol do empate, do 3×3 final. O Clássico ainda não tinha escolhido seu vencedor, mas Flamengo ficava na liderança na Taça Rio. O Mengo podia sonhar com outro Clássico dos Milhões, agora na final, com golaço eterno de falta, com goleada 5×1 a devolver.
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Jogos eternos #401: Flamengo 2×1 Sporting Cristal 2022

Com o primeiro lugar já garantido, Flamengo joga hoje seu último jogo da fase de grupos da Copa Libertadores, contra a lanterna Cusco. A lembrança para o jogo eterno do dia era evidente. Em 2022, Flamengo também era líder e tinha os mesmos 13 pontos antes de fechar a primeira fase no Maracanã contra a lanterna, outro peruano, o Sporting Cristal.
Como é o caso hoje, apesar de ficar invicto na Copa Libertadores, a fase do Flamengo não estava ótima. Tinha perdido a Supercopa do Brasil e a final do campeonato carioca, tinha vencido apenas um dos últimos cinco jogos do Brasileirão. Como é o caso hoje com Rossi, o goleiro estava bastante criticado. Hugo Souza falhou em vários jogos, contra Fluminense, o Atlético Mineiro ou ainda Ceará, e provocou a ira da torcida. Em 24 de maio de 2022, o também contestado técnico Paulo Sousa escalou Flamengo assim: Hugo Souza; Isla, David Luiz, Pablo, Ayrton Lucas; Thiago Maia, João Gomes, Lázaro; Marinho, Gabigol, Pedro.
Contra o Sporting Cristal, que ainda não tinha vencido na competição, Flamengo dominou o início do jogo, com três chutes em apenas 5 minutos. Na meia hora do jogo, o Mengo logicamente abriu o placar. David Luiz abriu longe para Isla, na grande área. O lateral chileno esticou a perna, e com a ajuda involuntária da zaga adversária, fez o primeiro gol do jogo. Antes do intervalo, Flamengo quase fez o segundo, mas o jovem Lázaro perdeu o cara a cara com o goleiro peruano.
No segundo tempo, mais uma vez Flamengo tomou conta do jogo de maneira quase absoluta. Porém, sem fazer o gol, ao menos até os 30 minutos do segundo tempo. Na cobrança de falta, Andreas Pereira, que entrou em campo cinco minutos antes, cruzou, Pedro cabeceou e achou a gaveta, sem chance para Duarte. Flamengo fazia o segundo e quase assegurava a vitória, ameaçada nos cinco minutos finais. Christofer Gonzáles pedalou e chutou, Hugo Souza falhou outra vez e deixou a bola entrar no gol.
No final, Flamengo conseguiu a vitória e seguiu na Liberta com uma campanha quase perfeita. O time trocou de técnico, de goleiro também, mas manteve a perfeição na competição até levantar a taça.
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Jogos eternos #400: Flamengo 1×0 Palmeiras 2025

E o destino, com ajuda minha, queria que o jogo eterno #400 desse blog fosse um Flamengo x Palmeiras, a maior rivalidade do futebol brasileiro dos últimos 10 anos. A crônica #100, publicada em outubro de 2023, foi um Flamengo x Vasco de 1983. A #200, escrita em setembro de 2024, um Fla-Flu de 2006. A #300, publicada em julho de 2025, foi a decisão da Taça Guanabara de 1995 entre Flamengo e Botafogo.
Na época da publicação da 300a crônica, eu já tinha decidido que eu ia trocar mais uma vez de rival e de década. Tinha a opção de um jogo contra Bangu ou o America na década de 1960, também pensei num jogo contra Palmeiras desde 2016. Só faltava saber qual jogo. E a evidência chegou quatro meses depois, não podia ser outro jogo a não ser a final da Copa Libertadores de 2025.
Era um jogaço antes do apito inicial. O Flamengo se classificou no sufoco, passando nas fases anteriores com dificuldades por Estudiantes e Racing. Mais difícil ainda para o Palmeiras, que perdeu 0x3 contra a LDU na ida, mas conseguiu vencer 4×0 na volta e se classificar para a final. Era o campeão de 2019 e 2022 contra o campeão de 2020 e 2021. Eram os dois melhores times da América. Só faltava saber qual era o maior.
Também era para o Flamengo a possibilidade da vingança da derrota de 2021, que ainda dói na alma. Mais ainda, o vencedor se tornaria o primeiro brasileiro tetracampeão da Copa Libertadores. Melhor que o Santos, que o São Paulo, que o Grêmio, que o rival derrotado. Era um jogaço antes do apito inicial e já escrevi sobre o pré-jogo, no meu ainda amado consulado Fla Paris, numa crônica logo depois do jogo. Eu vou então já para a escalação do Mengo. Em 29 de novembro de 2025, o técnico e ídolo Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Danilo, Léo Pereira, Alex Sandro; Erick Pulgar, Jorginho, Arrascaeta; Carrascal, Samuel Lino, Bruno Henrique.
Antes do apito inicial, o estádio Monumental de Lima trazia lembranças ótimas, a decisão contra River Plate, o Milagre de Lima, o pé santo de Gabigol e a glória eterna do Mengo. O estádio era o mesmo, mas agora era outro jogo, outro rival, outra taça para conquistar. Contra Palmeiras, Flamengo começou melhor. Bruno Henrique chutou para fora, Samuel Lino pedalou, também chutou para fora. O jogo se equilibrou e ficou bastante disputado. Cada time reclamava de um cartão vermelho para o adversário, mas o juiz só deu amarelos, três para o Flamengo e um para o Palmeiras. No final do primeiro tempo, Bruno Henrique teve outra chance, mas Píquerez salvou. No intervalo, ainda 0x0, ainda nada definido.
No início do segundo tempo, Murilo falhou e entregou a bola para Bruno Henrique perto do gol palmeirense. Porém, Flamengo não conseguiu aproveitar, Gustavo Gómez bloqueando o chute de Arrascaeta. Era uma final, com jogo fechado, pouco espaço e poucas oportunidades de gol. Na metade do segundo tempo, Arrascaeta, já eterno com a camisa 10 e melhor jogador do Flamengo na temporada, cobrou um escanteio, à la Zico, à la Petkovic. Danilo subiu no céu de Lima e cabeceou firme. A bola tocou na trave e morreu na rede. Gol do Flamengo, Flamengo na frente.
O Danilo, que já tinha feito um gol numa final de Copa Libertadores, em 2011 no início da carreira com o Santos de Neymar, fazia agora um gol para o Flamengo. Se juntava na história do clube ao Zico e Gabigol. Só isso, apenas isso. Oriundo de Bicas, cidade mineira mais perto do Rio de Janeiro do que de Belo Horizonte, Danilo sempre foi torcedor do Flamengo e no início de 2025, finalmente ingressou no clube de coração. “Poderia ter ido para vários clubes, tive várias propostas, não é segredo para ninguém. Não pensei em grana, teve a ver com necessidade de continuar vencendo e realizar meu sonho de criança”, falou o lateral-zagueiro depois do jogo.
Flamengo estava na frente, mas numa final em Lima, tudo podia acontecer. O gol obrigava o Palmeiras a partir no ataque, o Flamengo a se defender, a sofrer. Felipe Anderson driblou na grande área, mas não conseguiu finalizar. Faltando cinco minutos para o final do jogo, Flaco López cruzou, Gustavo Gómez cabeceou, A bola seguiu viva e chegou ao pé de Vítor Roque na pequena área. Chutou forte, Danilo chegou junto e conseguiu desviar um pouquinho o chute, com só que precisava para a bola fugir do gol rubro-negro. Era assim o segundo ‘gol’ de Danilo no jogo. Não era um lance que valia +1 para o Flamengo, mas -1 para o adversário. Um lance tão decisivo quanto o primeiro gol, do já consagrado Danilo. O Deus do futebol já tinha escolhido seu vencedor, sua história bonita. A Nação respirava, os mais sabidos já podiam comemorar.
Nos acréscimos, Éverton Cebolinha cobrou uma falta na trave e o jogo seguiu 1×0. Já estava escrito que o jogo tinha um lance só, um herói só, que provavelmente, sem a lesão de Léo Ortiz, nem teria jogado. Danilo tinha uma coisa de Rondinelli, de Ronaldo Angelim. Flamenguista de infância, herói comum de sangue vermelho e preto. Um zagueiro que podia morrer em campo para o Mengo, mas que matou o outro time com um cabeceio mortal, num escanteio imortal do ídolo e camisa 10, Zico, Petkovic, Arrascaeta.
Não resisto à vontade de citar o amigo Douglas Nogueira no seu livro O Flamengo do século XXI, sobre o gol de Ronaldo Angelim no título do hexa contra Grêmio em 2009: “Aquela partida teve um paralelo com outra decisão inesquecível: o Campeonato Carioca de 1978. Assim como em 1978, quando o jogo estava empatado, o jogador mais talentoso do time cobrou escanteio e um zagueiro cabeceou para a consagração. Em vez de Zico, Petkovic colocou a bola na área adversária. No lugar do Deus da Raça Rondinelli, o Magro de Aço Angelim subiu entre os 438 marcadores. Não foi Adriano Imperador, Léo Moura, Juan, Zé Roberto ou outro jogador de perfil ofensivo que surgiu na multidão da pequena área. Coube ao defensor Ronaldo Angelim se antecipar e cabecear aquela bola longe do alcance do goleiro Victor. Entre todos, o mais humilde entrou para a eternidade. Nada mais justo”. Pode trocar os jogadores ofensivos, mais uma vez o herói foi o zagueiro, o mais humilde.
O juiz apitou o final do jogo e a canonização de Danilo, a glória eterna do Flamengo como maior campeão brasileiro da Copa Libertadores. Faltam palavras para descrever a importância do jogo, então só escrevo isso: Flamengo tetracampeão 1981, 2019, 2022 e 2025. E para fechar, ainda emocionado, deixo a palavra para Danilo, que provou mais uma vez a existência de um Deus rubro-negro: “Não é segredo para ninguém que sou flamenguista, o quanto eu queria voltar para jogar no Flamengo. Era a minha prioridade. É especial. A minha tia faleceu ontem. O meu pai teve que voltar. Meu pai é flamenguista, está lá em Bicas, não pôde estar aqui. Queria dedicar essa vitória para ele e para toda a minha família”. Amém, a Terra está em paz e o paraíso em festa, Fla é tetra.
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Jogos eternos #399: Flamengo 3×0 Estudiantes 1988

Flamengo joga hoje contra o Estudiantes, com jogo valendo o primeiro lugar do grupo. Os dois times já se encontraram na Copa Libertadores do ano passado e o confronto pode virar um clássico da Libertadores, como já foi em outra competição, hoje extinta.
Disputada entre 1988 e 1997, a Supercopa Libertadores, como o nome indicava, reunia os campeões da Copa Libertadores. Na época, entre os clubes brasileiros, apenas Santos, Cruzeiro, Flamengo e Grêmio. Nas dez edições do torneio, Flamengo enfrentou em quatro oportunidades o Estudiantes: em 1988, 1991, 1992 e 1994. Eu fico então para a crônica do dia com o primeiro confronto, em 1988.
O Estudiantes, campeão da Copa Libertadores em 1968, 1969 e 1970, foi o primeiro adversário do Flamengo na história da Supercopa Libertadores, uma competição em mata-mata. Nas oitavas de final, Flamengo estreou com empate 1×1 na Argentina. Assim, até um empate sem gol no Maracanã era suficiente para se classificar na próxima fase. O Mengo era o franco favorito, já que o Estudiantes estava no 15o lugar do campeonato argentino, com apenas 5 vitórias em 30 jogos até então. Em 5 de abril de 1988, o eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Jorginho, Zé Carlos II, Edinho, Leonardo; Andrade, Ailton, Zinho; Luís Henrique, Renato Gaúcho, Bebeto.
Das ausências rubro-negras, tinha dois jogadores em destaque, provavelmente os dois maiores ídolos da história do Flamengo. Leandro recebeu uma pancada no jogo de ida e se machucou na costela. Já o Zico não jogava desde um mês por causa de dores musculares e até anunciou uma provável aposentadoria por causa das lesões repetidas. Dessa forma, o maior protagonismo do jogo ficou para Bebeto e Renato Gaúcho, sempre provocativo com os argentinos: “Em plena Buenos Aires, eles não tomaram uma goleada porque tivemos muito azar nas finalizações. Aqui, porém, vai ser diferente. A torcida pode comparecer. É sempre bom se derrotar argentinos”.
Apesar do apelo de Renato Gaúcho, a competição, ainda na sua primeira edição, atraiu pouco público. No Maracanã, foram 8.653 pagantes. Porém, a baixa de bilheterias e de policiamento provocaram uma confusão e até invasão do Maracanã. “Muita gente só conseguiu entrar bem depois do jogo iniciado”, explicou o Jornal do Brasil na edição do dia seguinte. Por isso, muitos perderam o primeiro gol, marcado com apenas 5 minutos de jogo. No escanteio curto, Renato Gaúcho cruzou, Luís Henrique chegou, cabeceou e abriu o placar.
A competição era diferente da Copa Libertadores, mas tinha uma coisa que não mudava. Atrás no placar, os argentinos partiam para a violência e Bebeto, Edinho e Jorginho foram deslealmente atingidos. “O maior adversário do time foi a violência do adversário”, até escreveu o Jornal do Brasil. No intervalo, Flamengo tinha um gol de vantagem e precisava fazer um pouco mais para derrotar os argentinos e garantir a classificação.
Renato Gaúcho falava muito fora do campo e fazia ainda mais em campo. No início do segundo tempo, depois de passe de Bebeto, chutou de primeira, mas o goleiro defendeu. Na esquerda, o craque gaúcho fintou e cruzou bem para o voleio de Ailton, que passou em cima do travessão. Dois minutos depois, outro passe de Bebeto para Renato Gaúcho, que dominou de peito e pegou de voleio, de novo fora do gol. Numa ‘homenagem’ ao gol de Diego Maradona dois anos antes, Henágio fez um gol com a ajuda da mãozinha, mas não enganou o juiz, que anulou o gol.
Henágio, falecido em 2015 com apenas 53 anos de idade, é um pouco esquecido hoje, infelizmente como muitos outros. Na época, era o reserva natural de Zico, substituindo-o muitas vezes em campo na reta final do Brasileirão de 1987. Tinha um futebol alegre e irreverente, mas também irregular. Cotado como substituto de Zico, não vingou no Flamengo e deixou o clube em 1988 com apenas 28 jogos. Mas tinha seus momentos de brilho. Contra Estudiantes, Henágio entrou no lugar de Luís Henrique, eliminou um adversário apenas com uma finta de corpo e, no primeiro toque, deixou em profundidade para Renato Gaúcho. No cara a cara, com a habilidade do craque e a tranquilidade do artilheiro, Renato Gaúcho venceu o goleiro sem dificuldade.
No final do jogo, com classificação já definida, Jorginho driblou na direita e cruzou para Bebeto, que fez o terceiro e último gol da partida. Apesar da vitória ampla do rubro-negro, não foi um bom jogo. “Foi talvez a pior partida do Flamengo desde que cheguei ao clube. Tudo deu errado. O time não jogou como está habituado no meio campo, marcando em cima, dando chance a que o adversário crescesse”, até falou o zagueiro Edinho. Na fase seguinte, o Flamengo foi eliminado com duas derrotas 0x3 e 0x2 contra o Nacional.
A torcida rubro-negra, já privada de Copa Libertadores, vivia um drama maior, com a possível despedida de seu maior ídolo, Zico. Com apelo de Renato Gaúcho e do amigo vascaíno Roberto Dinamite, que vivia problemas similares, Zico recogitou a aposentadoria, como ele próprio explicou para o Jornal dos Sports: “É claro que manifestações de apoio, como as do Roberto e do Renato, deixam a gente sensibilizado. Vou pensar mais um pouco sobre o assunto, ver se realmente o melhor será largar o futebol. Em julho, como já disse, definirei minha posição”. A Nação ainda tinha esperança.
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Jogos eternos #398: Vitória 1×3 Flamengo 2003

Flamengo joga hoje contra Vitória na Copa do Brasil no Barradão. O Mengo tem vantagem magra depois da vitória 2×1 na ida no Maracanã. A lembrança do dia então é evidente, com um jogo de 2003.
Na Copa do Brasil de 2003, Flamengo também jogou contra Vitória. Na época, o jogo aconteceu nas quartas de final e o Vitória chocou o futebol brasileiro na fase anterior, goleando 7×2 o Palmeiras. Na ida, como em 2026, Flamengo venceu Vitória 2×1 no Maraca, com gols de Fernando Baiano e Fernando. O empate no Barradão era suficiente para se classificar na semifinal. Em 14 de maio de 2003, o técnico Nelsinho Baptista escalou Flamengo assim: Júlio César; Luciano Baiano, Fernando, André Bahia, Athirson; Fabinho, André Gomes, Fábio Baiano, Felipe; Jean, Edílson.
No time titular, tinha três jogadores com Bahia ou Baiano no nome, André Bahia, Luciano Baiano e Fábio Baiano, além de Fernando Baiano no banco. Em campo, ainda tinha Edílson, oriundo de Salvador e que fazia neste jogo sua reestreia com o Mengo depois de brilhar em 2000 e 2001. “Não tinha melhor jogo para a minha reestreia. A presença da minha família no estádio e a sorte que eu sempre tenho contra o Vitória em Salvador me motiva ainda mais”, falou antes do jogo o Capetinha. Também deve se notar que apesar do nome, André Bahia nasceu no Rio de Janeiro.
No Barradão, uma dupla baiana funcionou bem, já no final do primeiro tempo. Luciano Baiano fez o passe de trivela para Fábio Baiano, que de primeira, tocou de calcanhar para Jean. O atacante, com um pouco de sorte e ajuda do goleiro, finalizou e abriu o placar. No início do segundo tempo, a dupla baiana virou trio. Fábio Baiano ficou agora na iniciativa da jogada, driblou um adversário no círculo central e fez um lançamento longo na direita, com uma curva sensacional e uma precisão absurda. Luciano Baiano chegou primeiro e cruzou de primeira, para Edílson. O pentacampeão abriu o espaço já no domínio da bola, e com a tranquilidade do artilheiro, abriu o pé para tirar o goleiro e comemorar com estilo sua reestreia.
Cinco minutos depois, o Vitória reencontrou esperança com um pênalti apitado pelo juiz. Zé Roberto, aquele que brilharia com o Manto Sagrado em 2009, venceu o Júlio César. Flamengo tinha agora só um gol de vantagem no jogo, mas andava com tranquilidade para a classificação. Ainda mais que na metade do segundo tempo, o Mengo fez outro gol, de novo com a marca do Fábio Baiano, um craque numa época de vacas magras.
No primeiro gol, Fábio Baiano tocou na bola a 25 metros do gol do Vitória. No segundo gol, começou a jogada no círculo central. E no terceiro, começou a 25 metros, mas do próprio gol do Flamengo. Percorreu 50 metros bola no pé, elegância do bico da chuteira até os poucos cabelos. Fez o passe na profundidade, com precisão perfeita. Jean chegou antes do goleiro e fez o segundo dele no jogo, o quinto dele na competição. Flamengo estava na semifinal e o destino era outro rubro-negro nordestino, o Sport.
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Jogos eternos #397: Grêmio 0x1 Flamengo 2019

Flamengo joga hoje na Arena do Grêmio, onde sempre é difícil de jogar. Na verdade, para o Flamengo tem duas fases distintas no estádio inaugurado em 2012. Nos oito primeiros jogos, o Mengão empatou três vezes, perdeu 5 jogos e nunca venceu. Daqui para frente, são também 8 jogos, com um retrospecto bem diferente: 5 vitórias, um empate e duas derrotas. Vamos então para a crônica do dia da primeira vitória rubro-negra lá, em 2019.
Nessa sequência de partidas, tem um jogo pivô, um antes e um depois. Um jogo já eternizado no Francêsguista, o Cincum, quando Flamengo goleou Grêmio 5×0 no Maracanã na semifinal da Copa Libertadores de 2019. Depois disso, o Grêmio nunca mais foi o mesmo rival. Era o Flamengo que impunha medo no confronto, mesmo em Porto Alegre.
Menos de um mês depois do Cincum, os dois times se reencontraram, agora na Arena do Grêmio. Com a final da Copa Libertadores se aproximando, Jorge Jesus escalou contra Grêmio um time misto, quase reserva. Em 17 de novembro de 2019, o técnico português escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rodinei, Thuler, Rhodolfo, Renê; Piris da Motta, Diego, Arrascaeta; Reinier, Lucas Silva, Gabigol.
Mesmo com o time reserva, era o Flamengo de Jorge Jesus, sempre ofensivo, sempre buscando o gol. Lucas Silva teve a primeira oportunidade de gol, mas Paulo Victor fechou bem o ângulo e fez a defesa. E nem era o time reserva, era um time misto, com Gabigol e Arrascaeta, que tabelaram para assustar mais uma vez a defesa do Grêmio. Porém, Gabigol chutou de trivela, sem força, sem fazer o gol ainda.
Grêmio reagiu com uma tentativa de Bruno Cortez, mas o Flamengo tinha um paredão chamado Diego Alves, que também pegou uma cobrança de falta viciada e desviada pela barreira. E o show rubro-negro voltou com a magia de Arrascaeta, que driblou um, driblou um segundo e deixou para Gabigol. O ídolo cruzou no chão. Léo Moura, antigo ídolo e agora gremista que nunca mais vencerá a Copa Libertadores, tocou na bola com a mão. O juiz não duvidou e apitou o pênalti. Na cobrança, claro Gabigol, e claro hoje tem. Gabigol pegou o goleiro no contrapé e deixou mais um pesadelo na casa do Grêmio.
No segundo tempo, Gabigol quase fez o segundo, mas a bola passou em cima do travessão. O então gremista Éverton Cebolinha driblou bem, mas chutou muito mal. Gabigol, por reclamação e aplausos irônicos, recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso. A torcida gremista comemorou, o Gabigol provocativo mostrou os cinco dedos da mão, um para cada gol, e a Arena inteira se calou.
Com um homem a mais, o Grêmio buscou o empate e multiplicou os chutes. Foram 22 contra 9 para o Flamengo. Mas nenhum no fundo do gol. Flamengo vencia pela primeira vez na Arena do Grêmio e se aproximava de conquistar também o Brasileirão. O título seria confirmado no dia seguinte à glória eterna de Lima, com a ajudinha do… Grêmio, o Imortal matado pelo Mengo.
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Jogos eternos #396: América de Cali 1×1 Flamengo 1984

Flamengo pode já se classificar para as oitavas de final da Copa Libertadores em caso de vitória na Colômbia, contra o Independiente de Medellín. Até um empate ajuda. Assim, para o jogo eterno do dia, eu vou de um outro empate na Colômbia na Copa Libertadores, contra o América de Cali.
Em 1984, Flamengo estava órfão de Zico, exilado na Itália, mas ainda tinha craques em cada posição, em cada lugar do campo. Na estreia da Copa Libertadores, Flamengo goleou 4×1 Santos, um jogo já eternizado no Francêsguista, com gols de Mozer, duas vezes, Lico e Tita. Por sua vez, o América de Cali, bicampeão colombiano em 1982 e 1983 (seria tri em 1984), também estreou com vitória, sobre o Junior de Barranquilla.
Depois da vitória contra Santos, Flamengo estava relativamente tranquilo na competição, mas com apenas o primeiro do grupo classificado na semifinal, também não podia vacilar. Para se defender dos contra-ataques do América, o técnico rubro-negro Cláudio Garcia escalou no meio do campo Bigu, de apenas 19 anos. A defesa ficou a mesma. “Na defesa, não há o que se mexer, pois os seus integrantes são jogadores de alto nível”, escreveu Ricardo Pietro no Jornal dos Sports. Em 27 de março de 1984, o técnico Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Bigu, Adílio, Tita, Lico, Nunes.
Já nos primeiros minutos, Leandro, ainda jogando de lateral-direito, mostrou toda sua classe e seu repertório: um passe de trivela, um desarme limpo, um apoio ao ataque. Ali está meu personagem do jogo. Leandro tinha uma classe absurda, fazendo o simples quando apenas precisava disso, fazendo o difícil quando precisava mais, com a mesma impressão de facilidade. Lia tudo, a trajetória da bola, o movimento dos companheiros e dos adversários. Desarmava fácil, fintava apenas com o corpo para abrir espaço, se livrava do adversário para criar perigo no ataque.
E de vez em quando, Leandro fazia seu gol. No campo de Cali, Leandro dominou de peito e chutou de pé esquerdo. Sabia fazer tudo. A bola foi embaixo do travessão, mas o goleiro defendeu e retardou o brilho de Leandro. Mas claro, nosso ídolo tinha muita estrela e mostrou isso mais uma vez, na metade do primeiro tempo. Aqui o relato de Antônio Maria Filho para o Jornal do Brasil: “Aos 24 minutos, o Flamengo fez uma jogada muito boa. Leandro cortou um contra-ataque do América de Cali, tocou rápido para Tita e recebeu na frente, fora da área. Dali mesmo, de primeira, ele emendou de direita, no canto, sem defesa para Falcone. Era o primeiro gol do Flamengo, marcado por um dos jogadores de maior destaque, até aquele momento”.
Vale a pena assistir ao gol, de novo ou pela primeira vez, descrever mais uma vez o lance do gol. Aqui está o paradoxo de Leandro. Faz tudo como se fosse nada. Desarma com classe, e no mesmo desarme, já faz o passe certinho, bonitinho, de trivela para Tita. Na verdade, nem faz coisas difíceis, faz coisas impossíveis para os mortais. Ainda dá opção de passe, domina no ar, deixa a bola cair para melhor pegar nela e manda no cantinho de voleio. E fazia tudo isso, do desarme até o gol, com uma beleza plástica de poucos, talvez só de Leandro.
Três minutos após o gol de Leandro, Flamengo foi surpreendido num escanteio e cedeu o empate. Nosso lateral ainda mostrou sua classe, com desarmes limpos, lançamentos precisos e dribles bonitos. No final do primeiro tempo, recebeu uma pancada e precisou ser substituído. Apenas as lesões podiam atrapalhar o futebol dele. Leandro só jogou no Flamengo na carreira inteira, mas pendurou as chuteiras com apenas 31 anos e 414 jogos. A Nação em particular e o futebol em geral mereciam mais.
Enfim, com a substituição de Leandro, o jogo perdeu metade do interesse e o futebol no estádio Pascoal Guerrero caiu. Leandro precisou de apenas 45 minutos para ser eleito o melhor do jogo pelo Jornal dos Sports, com nota 9: “Foi um dos principais jogadores do Flamengo, apoiando com decisão e marcando um lindo gol”. Para o Jornal do Brasil, Antônio Maria Filho escreveu: “A saída de Leandro, que se contundiu no fim do primeiro tempo ao sofrer uma falta violenta, desarrumou um pouco o Flamengo, e a péssima atuação do juiz peruano Cesar Pegano, sem personalidade e beneficiando sempre o time da casa, desarrumou totalmente o jogo, que era bom no primeiro tempo”. Assim era a Copa Libertadores nesta época. Ao menos, Flamengo conseguiu o empate e ficou no primeiro lugar. Leandro se recuperou e ainda durante alguns anos, desfilou toda sua classe nos gramados da América do Sul.








