Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #413: Flamengo 4×1 Vasco 1976

    Jogos eternos #413: Flamengo 4×1 Vasco 1976

    Sem jogo do Flamengo hoje, escolho um jogo eterno que completa exatamente 50 anos. O rival era o maior, o Vasco, e o momento era delicado. Duas semanas antes, Flamengo e Vasco disputaram a decisão da Taça Guanabara. Com gols de Roberto Dinamite e Geraldo, o jogo acabou em 1×1. Na disputa de penalidades, Zico tinha a cobrança decisiva para oferecer o título ao Flamengo, mas Mazarópi defendeu. Em seguida, Vasco conquistou a Taça Guanabara.

    Hoje inexpressiva, a Taça Guanabara valia muito na época. O Brasileirão e a Copa Libertadores eram importantes, mas o campeonato estadual era a alma do futebol carioca, ainda mais com o Maracanã cheio. A derrota contra Vasco foi dura, para o time todo, para a Nação inteira. Ainda mais para Zico, que foi culpado pela derrota. No dia seguinte ao jogo, os muros rubro-negros ainda foram pichados, com cobrança sobre o salário alto de Zico. O Galinho, na época com 23 anos, respondeu: “Sei que é uma minoria. A maior prova disso é que até agora recebi mais de 30 cartas e só uma com palavras odiosas, ofensivas, pedindo até que eu encerrasse minha carreira. As outras trazem palavras de carinho e compreensão”.

    Quinze dias depois da decisão, o jogo ainda estava em todas as cabeças, da comissão técnica, dos jogadores e do Maracanã, meio lotado com 47.912 pessoas. Em 27 de junho de 1976, o técnico Carlos Froner escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Rondinelli, Dequinha, Vanderlei Luxemburgo; Merica, Tadeu, Júnior Brasília; Zico, Luisinho, Zé Roberto. O Flamengo tinha alguns desfalques como Jayme, Júnior e Geraldo, mas precisava absolutamente de um sucesso para recuperar a confiança.

    O início do jogo mostrou o nervosismo do time rubro-negro, que dominava a partida, sem conseguir o gol. Talvez a decisão da Taça Guanabara ainda pesava nas pernas e nas cabeças. No dia seguinte, o Sandro Moreyra escreveu para o Jornal do Brasil: “Sempre melhor, o Flamengo poderia ter começado já no primeiro tempo a sua goleada, o que não fez talvez por um certo respeito pelo adversário e pelos já habituais gols perdidos por Luisinho”. Assim, no intervalo, o placar ainda era de 0x0.

    Mas foi só marcar um gol para desencadear as coisas. Com 8 minutos no segundo tempo, Zico cobrou uma falta, a bola foi desviada pela barreira e chegou até Tadeu, que chutou de primeira, firme e preciso, para abrir o placar. No minuto seguinte, Dé aproveitou de um erro de Rondinelli para empatar o jogo. Mas estava escrito já antes do apito inicial, já 15 dias antes, esse jogo era do Mengo.

    De novo no minuto seguinte ao gol do Vasco, o Flamengo fez pressão alta e ganhou a bola na grande área vascaína. A bola chegou até Zico, que já tinha chutado três vezes na trave durante o jogo. Chutou forte e não perdoou o goleiro, nem os críticos e os duvidosos. Com o gol, o Galinho recuperava a artilharia do campeonato carioca. Depois do jogo, Zico explicou: “Aquela decisão para mim foi algo muito cruel, que chegou a me abalar profundamente por todos estes dias. Por sorte nossa, foi exatamente o Vasco que acabou nos proporcionando esta oportunidade. Confesso que no momento em que percebi que poderia marcar, parti de encontro à bola com uma raiva imensa e quando a vi no fundo da rede é que pude respirar descansado. Foi como se tivesse tirado um peso enorme da cabeça”.

    Logo depois, o vascaíno Renê foi expulso e a goleada rubro-negra se desenhava. Faltando dez minutos para o final do jogo, o Flamengo aplicou seu jogo característico de passes ao pedido do técnico Carlos Froner. Luís Paulo achou de trivela Tadeu, que dominou, cortou um jogador com um drible seco e tocou de trivela para o chute de primeira de Vanderlei, no fundo do gol. E como aconteceu com o segundo gol, Vasco teve um jogador expulso na sequência, agora Dé. “O pior do Vasco foi que, além de jogar mal, não soube perder. Teve três jogadores expulsos de campo por não aceitarem a derrota que o Flamengo impunha lisamente”, continuou Sandro Moreyra.

    Já nos acréscimos, Luisinho finalizou uma linda jogada individual e decretou a goleada flamenguista: 4×1. “Como se disse de início uma vitória bem ao gosto da torcida rubro-negra. Com garra, determinação, uma vontade de vencer que era de todo o time. Num jogo assim, qualquer tática é secundária. O Flamengo de ontem valeu pelo empenho com que lutou sempre”, finalizou Sandro Moreyra.

    Flamengo goleava e Zico superava o trauma da Taça Guanabara, sendo mais uma vez o craque de sempre. No dia seguinte, o Jornal dos Sports avaliou: “De novo todo o esplendor do craque. Foi o nome do jogo, mesmo sem muita sorte. Um golaço e três balaços na trave que fizeram a torcida gritar seu nome como nos melhores dias”. Para fechar, deixo um retrato da crônica de Duarte Gralheiro para o mesmo JDS: “Falo de Zico. Todas as coisas que fez durante a partida comprovam sua grande classe. O tiro indefensável no gol. As três bolas na trave. O passe para o gol anulado de Luisinho. Algumas passagens e tabelas do melhor Zico […] Esta vitória, não tenho dúvida, tem um efeito curativo e regenerador. No mesmo local e contra o mesmo adversário, Zico e seus parceiros recuperaram a confiança perdida”. O Flamengo estava quase pronto para ser campeão e deixar o vice ao Vasco.

  • Jogos eternos #412: Flamengo 2×2 Celtic 1994

    A Seleção brasileira joga hoje contra a Escócia, na terceira rodada da Copa do Mundo. E como foi o caso contra o Marrocos e o Haiti, eu aproveito do jogo para eternizar um jogo do Flamengo na Escócia. E de novo não tive dúvidas: Flamengo jogou apenas duas vezes na Escócia: uma derrota 2×9 contra o Motherwell em 1960 e um empate 2×2 contra o Celtic em 1994. Vamos então para o jogo de 1994, outro ano de ouro do futebol brasileiro.

    O Celtic é um dos dois maiores times da Escócia, junto com o Rangers. Aberdeen é o último fora dos dois a ter vencido o campeonato escocês, em 1985, com um tal de Sir Alex Ferguson como técnico. Em 1994, Flamengo fez uma excursão na Ásia, justamente durante a Copa do Mundo. Venceu o Kashima Antlers na despedida de Zico, um jogo eterno no Francêsguista, derrotou o Bayern Munich para conquistar o Torneio da Malásia, outro jogo eterno no blog. Com dois gols contra Kashima e mais um contra o Bayern, Sávio se tornou o maior nome do time. Já uma grande promessa havia alguns anos, o Anjo Loiro aproveitou a excursão para ser mais decisivo.

    Depois da Ásia, Flamengo seguiu para a Europa e jogou uma primeira vez contra o Celtic, mas na Irlanda. O jogo empatou em 1×1, com mais um gol de Sávio. Quatro dias depois, os dois times se reencontraram, agora em Glasgow, no mítico Hampden Park. Em 2 de agosto de 1994, o saudoso Carlinhos escalou Flamengo assim: Adriano; Henrique, Gelson, Rogério, Marcos Adriano; Marçal, Marquinhos, Hugo, Rodrigo Mendes; Nélio, Sávio. Destaque para a escalação do zagueiro Marçal como volante na ausência do titular Fabinho, e claro, para o melhor jogador do time, Sávio.

    E de novo, a estrela de Sávio brilhou, agora na Escócia. De falta, abriu o placar e conquistou novos fãs europeus. Marçal foi expulso e o Celtic empatou, depois virou no segundo tempo. Faltando cinco minutos para o final do jogo, Fábio Baiano empatou e permitiu ao Flamengo fechar a excursão de maneira invicta: três vitórias e três empates. “A torcida aplaudiu muito os jogadores brasileiros, num reconhecimento da superioridade técnica – apesar de o Celtic ser a base da seleção escocesa, com um total de seis jogadores. Em momento algum o Flamengo deixou a desejar em campo”, escreveu o Jornal dos Sports.

    O Flamengo estava de volta ao Brasil e sonhava alto para o campeonato nacional. Queria contratar um recente tetracampeão e não era o menos importante. Romário, apenas isso, era o novo objetivo dos dirigentes rubro-negros para alegrar a Nação e formar uma dupla mortal com Sávio.

  • Jogos eternos #411: Flamengo 2×1 Fluminense 1991

    Jogos eternos #411: Flamengo 2×1 Fluminense 1991

    Sem jogo do Flamengo hoje, aproveito mais uma vez do momento para eternizar um jogo aniversariante, de 35 anos atrás. O jogo é eterno, um dos maiores confrontos do futebol mundial, o Fla-Flu. Já a competição não entrou na história, a chamada Copa Rio.

    A primeira edição da Copa Rio aconteceu justamente em 1991. A Copa do Brasil ainda era recente e tinha 32 participantes por edição, os campeões estaduais, além dos vices para as maiores federações. Para a Ferj, era melhor ter dois campeões. A federação carioca criou então a Copa Rio, para designar o segundo representante na Copa do Brasil. A competição foi idealizada pelo presidente da Ferj, Eduardo Viana, também torcedor do Americano. “A premissa desse torneio era uma vergonha. Ele foi criado para ver se o Americano era o campeão”, julgou para GE o jornalista Roberto Assaf.

    A Copa Rio não era bem vista pelos grandes do Rio, que tinham de jogar mais uma competição desnecessária. Flamengo estreou com duas vitórias, 2×1 contra Campo Grande no Ítalo del Cima e 2×0 contra Olaria na Gávea, com pouco brilho em campo, com pouca atenção da mídia e da torcida. Porém, o jogo seguinte era diferente, era o Fla-Flu, o clássico que começou 40 minutos antes do nada. “O Fla-Flu é um clássico que fascina a torcida e esse encantamento mágico que o cerca é certamente a ligação histórica que une os dois clubes. Por isso é que cada edição desse jogo, que parece ungido pelos deuses do futebol, tem como moldura uma plateia que não é vista habitualmente no Maracanã”, escreveu no dia do jogo o Jornal dos Sports. Já o Jornal do Brasil foi um pouco mais reservado e julgou que “só a mistica anima o Fla-Flu da Taça Rio”.

    O Jornal dos Sports realmente parecia chamar a torcida para o Fla-Flu: “Não importa se vale pontos ou não. Muito menos o local. Pode ser em Juiz de Fora, no Caio Martins, ou seja lá onde for. Mas é claro que no Maracanã, valendo pontos, é muito mais empolgante. Por isso, mesmo com uma competição esvaziada, onde os cartolas fazem tudo para desmoralizá-la, o Fla-Flu de hoje tem tudo para ser empolgante. E será sempre o maior clássico do futebol brasileiro”. Em 23 de junho de 1991, sem o convocado Wilson Gottardo e o machucado Gaúcho, o jovem técnico Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Gilmar; Ailton, Júnior Baiano, Rogério Lourenço, Piá; Charles Guerreiro, Júnior, Zinho, Djalminha, Marcelinho Carioca; Nélio.

    Os esforços do Jornal dos Sports não foram suficientes para lotar o estádio. Tinha um pouco mais de 8 mil presentes, um dos piores públicos do Fla-Flu no Maracanã. Em campo, Flamengo começou melhor o jogo. “Logo de início pôde-se observar que o Flamengo estava mais disposto, mais ousado e querendo partir em cima do adversário”, julgou o Jornal dos Sports quando o Jornal do Brasil foi mais severo, vendo dois times “igualados na mediocridade, recheadas de erros e incompetência”. Teve poucos lances perigosos e a diferença se fez na bola parada, com um jovem mestre, Marcelinho Carioca. Bem perto do gol, bem no seu estilo particular, Marcelinho bateu a falta levemente, com efeito, quase oferecendo a bola para a gaveta tricolor. Golaço.

    Ainda no primeiro tempo, num bate-rebate de cabeças que justificou o jogo feio que viu o Jornal do Brasil, Ézio colocou a bola em cima da defesa rubro-negra e Marcelo Gomes conseguiu empatar. No segundo tempo, de novo Flamengo dominou, “atacava com mais frequência, mas não chegava a ameaçar com perigo”. Assim, mais uma vez a diferença se fez na bola parada. Flamengo teve outra falta, agora de bem longe. Claro, o Marcelinho Carioca podia bater forte, mas a cobrança caiu para um zagueiro, Júnior Baiano ou Rogério. Júnior Baiano fintou, Rogério chutou com força, achou a rede tricolor.

    Sem brilhar, Flamengo conseguiu a vitória no Fla-Flu e ficou na liderança, o que foi o caso até o final da fase de grupos. Na final, Flamengo enfrentou o Americano de Eduardo Viana e conquistou o título invicto e inédito. Pior que no final, o torneio valeu por nada: Flamengo venceu o Brasileirão de 1992, se classificou para a Copa Libertadores de 1993 e assim, desistiu de jogar a Copa do Brasil de 1992. Isso era o nível da bagunça dos torneios no início dos anos 1990.

  • Times históricos #38: Flamengo 1958

    Flamengo cedeu quatro jogadores para a Copa do Mundo de 2026, repetindo o feito de 1958, primeiro ano de glória mundial da seleção brasileira. Em 2026, os jogadores eram mais nas funções defensivas, em 1958 eram ofensivos, com um dos mais brilhantes ataques da história do clube. Na Suécia, teve no começo da competição um trio ofensivo rubro-negro, depois ofuscado por uma dupla Pelé – Garrincha, apenas isso.

    Como era de costume na época, Flamengo começou a temporada de 1958 com uma excursão na América do Sul. Na ausência do técnico Fleitas Solich, o time foi comandado por Jaime de Almeida, que, como o filho dele depois, regularmente assumia a função de técnico interino. No primeiro jogo do ano, o Mengo derrotou 2×0 o Alianza Lima no estádio nacional de Lima. Os gols foram marcados por Henrique Frade e Dida, que seriam os dois maiores artilheiros do clube na temporada. No Peru, Flamengo venceu também o Centro Iqueño e o Universitário antes de ir ao Chile para empatar duas vezes contra o Colo-Colo. Para fechar a excursão, mais três jogos na Bombonera de Buenos Aires: uma vitória de prestígio contra o Boca Juniors e uma derrota contra o Racing. Na despedida, mais um jogo contra o Racing, que acabou em empate 3×3. Com 11 gols em 8 jogos, Dida foi o grande artilheiro da excursão.

    De volta ao Brasil, Flamengo estreou no Torneio Rio-São Paulo, contra o São Paulo no Pacaembu. Começou com vitória e ainda derrotou a Portuguesa e o Santos antes de perder contra o America no Maracanã. Goleou Botafogo 4×0 e Palmeiras 6×2, também venceu o Fla-Flu antes de empatar contra Vasco, que também lutava pelo título. No último jogo, Flamengo foi duramente vencido 3×0 pelo Corinthians no Pacaembu e viu quatro dias depois Vasco levantar a taça no mesmo estádio. Por dois pontinhos, Flamengo perdeu um primeiro título na temporada contra o Vasco. O grande artilheiro rubro-negro do torneio foi Henrique Frade, que fez 9 gols em 9 jogos, inclusive 4 gols na vitória 6×2 sobre o Verdão.

    Flamengo fez alguns amistosos, o primeiro contra Bangu, com dura derrota 4×0 no Maraca. Porém, o jogo marcou a estreia de um dos maiores símbolos do Flamengo, o Violino Carlinhos. Depois de três jogos na Bahia, o Mengo voltou ao Maracanã para enfrentar o maior, a Seleção brasileira, que se preparava para a Copa do mundo. Um ano antes, Flamengo já havia enfrentado a Seleção, com um empate 0x0. Agora, Flamengo jogava sem Moacir, Joel, Zagallo e Dida, justamente convocados com a seleção brasileira. No Maraca, depois de um 0x0 no primeiro tempo, o técnico brasileiro Vicente Feola lançou em campo o quarteto rubro-negro. Eram quatro do Flamengo na Seleção contra 11 que vestiam o Manto Sagrado. Escreveu Roberto Assaf no livro Almanaque do Flamengo: “Logo aos 6 minutos, o atacante Manoelzinho, que substituíra Henrique no intervalo, apanhou uma sobra na entrada da área e bateu forte e rasteiro, surpreendendo Gilmar, que nem sequer esboçou reação. No final, a seleção até que apertou, porém o rubro-negro resistiu e garantiu o resultado”. O Flamengo conseguia uma vitória de prestígio e seguia invicto contra a Seleção, o que é o caso até hoje. Para fechar o capítulo da Seleção, a observação do Correio da Manhã: “É justo que se registre, também, que coube ao desfalcado quadro do Flamengo as honras da tarde esportiva de domingo […] Dentre os rubro-negros, deve ser ressaltada a atuação de Dequinha, a grande figura do gramado. De um modo geral, entretanto, todo o quadro atuou magnificamente, principalmente pelo jogo de conjunto, fator principal de sua brilhante atuação”.

    Depois de vencer a Seleção, Flamengo imitiu a própria seleção e fez uma excursão na Europa pelo terceiro ano consecutivo. Na época, os torneios amistosos, muitas vezes quadrangulares, começavam a se tornar frequentes. O Torneio de Paris era para mim o mais prestigioso. Na primeira edição, em 1957, Vasco fez brilhar o futebol brasileiro e conquistou a taça. Um ano depois, Flamengo foi convidado como representante brasileiro e estreou contra Bolton, que tinha acabado de vencer a mítica Copa da Inglaterra. No Parque dos Príncipes, Duca abriu o placar com um “pelotaço”, mas Flamengo cedeu o empate no segundo tempo. Na disputa de penalidades, outro empate, agora 3×3. A dura, injusta, já ultrapassada regra do sorteio em caso de empate escolheu Bolton como vencedor. Na disputa do terceiro lugar, Flamengo derrotou o forte time húngaro de Ujpest e ficou invicto em Paris, na minha França também, com vitórias sobre Nantes e Sochaux em amistosos. Flamengo passou por Portugal, Espanha, Israel, Turquia e Hungria e ainda jogou no Brasil com um time alternativo, marcando a estreia de um meio campista canhoto de apenas 17 anos, um tal Gérson. Em 15 jogos na Europa e Ásia, o Mengo conseguiu 9 vitórias, 3 empates e teve apenas três derrotas. O maior artilheiro da excursão foi o pequeno Babá, com 9 gols. E mais, com participação de quatro atletas rubro-negros, o futebol brasileiro agora era diferente, era campeão do mundo.

    O Flamengo tinha campeões do mundo, mas Zagallo saiu do clube para jogar no Botafogo e Dida e Joel perderam espaço no time titular, por causa de Pelé e Garrincha. Já Moacir só ameaçou o posto do insuperável Didi nos treinos. Numa entrevista para o Placar, Dida mostrou alguma mágoa: “Faltavam duas horas para o jogo com a Inglaterra. O Feola se aproximou de mim e disse: ‘Você não vai jogar’. Até hoje o Feola me deve uma explicação […] Os homens já queriam me queimar há muito tempo. Diziam que eu era de vidro, medroso. Nunca tive medo. É mentira sina, torpe! Não tremi contra a Áustria. Como iria tremer num jogo fácil daquele? Pedi então para voltar ao Brasil. Muito pedido, muitos conselhos e acabei ficando. Acabei não jogando ao lado do Pelé. Feola dizia que não queria complicar as posições. Mas não era nada disso. No jogo com a Inglaterra ele me tirou e botou o Vavá junto com o Mazzola”.

    De volta ao Brasil, o Flamengo estreou no campeonato carioca com ampla vitória sobre Canto do Rio. No Maraca, o Mengo venceu 4×0, com gols de Babá, Henrique Frade, Joel e Dida. Logo depois, já perdeu a invencibilidade, com derrota 0x1 contra o America, de novo no Maracanã, a casa do Flamengo. O Mengão voltou com as goleadas, 4×1 contra Bonsucesso no Maraca, 5×0 contra a Portuguesa na Gávea, outra casa do Flamengo. E voltou a perder contra outro time mediano que já foi grande, o Bangu. O Flamengo oscilava e de novo goleou, agora 8×0 contra Olaria na Gávea, com nada menos que 5 gols de Dida! Para fechar o primeiro turno, o Mengo empatou contra Botafogo e Vasco e levou o Fla-Flu, de novo com um gol de Dida.

    No segundo turno, Flamengo começou com duas vitórias 3×0 contra Canto do Rio e São Cristóvão. Com a saída de jogadores importantes como García, Tomires, Paulinho e Duca, o Mengo perdeu dois clássicos consecutivos, contra Fluminense e Botafogo. Voltou a vencer com o trio Dida – Henrique Frade – Luís Carlos em grande forma. Em pleno campeonato, Flamengo entrou de luto com a morte do fundador de sua secção de futebol, o grande médico Alberto Borgerth. O clube decretou um luto de cinco dias, “durante os quais a bandeira do clube será hasteada em funeral”. No Jornal do Brasil, Célio de Barros homenageou o homem de “ação diligente e inteligente”, o fundador da “seção terrestre, que tantas glórias acarretaria para as cores rubro-negras”, o jogador que “se tornou campeão carioca de futebol e, por várias vezes, integrou as seleções guanabarina e brasileira […] um autêntico craque em sua época”, o árbitro que dirigiu a “famosa partida entre argentinos e brasileiros, em Buenos Aires, na disputa da 1a ‘Copa Roca’”, o “dirigente do C.R. do Flamengo, presidente da Federação Metropolitana de Futebol, diretor da Confederação Brasileira de Desportos e juiz do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, deixando em todas essas funções de releve traços indeléveis de sua passagem”, além do “médico capaz e cirurgião hábil” e “o amigo devotado, de alma nobre e coração de ouro”.

    De volta no campeonato carioca, Flamengo precisava vencer o Vasco na última rodada para forçar um supercampeonato, como aconteceu em 1946. Dida estava machucado e Luís Carlos virou o herói, fazendo dois gols na vitória 3×1. “Venceu o Flamengo na raça e na flama”, escreveu o Jornal dos Sports. Flamengo fechou o campeonato com 14 vitórias, 4 empates e 4 derrotas, exatamente como Vasco e Botafogo. Com 61 gols, o Mengo tinha o melhor ataque do campeonato e dos três times empatados, também tinha a melhor defesa. Porém, não existia o saldo de gols como critério de desempate e a solução foi um supercampeonato.

    Na estreia do supercampeonato, ainda sem Dida, artilheiro rubro-negro no campeonato com 18 gols, Flamengo perdeu 2×0 contra Vasco. Em 27 de dezembro, para o último jogo do ano, Flamengo venceu o Botafogo de Didi e Garrincha com gols de Dida e Luís Carlos, e seguiu vivo na competição. Já no mês de janeiro de 1959, Botafogo venceu Vasco e forçou um supersupercampeonato. Só que dessa vez, no supersuper, Flamengo só conseguiu dos empates e viu o Vasco levar a taça de campeão depois de conquistar o Torneio Rio – São Paulo no início do ano.

    No time vascaíno campeão, tinha um antigo ídolo rubro-negro, o grande Rubens, que entrou em conflito com o técnico Fleitas Solich e disputou apenas um jogo no Flamengo em 1957. Assinou com o Vasco e foi um dos destaques do time, com 8 gols em 21 jogos no campeonato carioca. “Nem o fato de ter vestido a camisa de um grande rival fez com que o torcedor rubro-negro esquecesse Rubens. Nos anos em que defendeu o Flamengo – 173 jogos e 84 gols –, ele se identificou de tal maneira com o clube que, para a História, ele sempre será lembrado como o ‘Doutor’ Rubens rubro-negro, um catedrático de futebol, um artista da bola”, escreveu Roberto Sander no seu livro Os dez mais do Flamengo.

    Rubens conquistou um tetracampeonato carioca pessoal e Flamengo, sem vencer um grande título desde 1955, ainda precisava esperar para ser campeão, numa época de ouro do futebol brasileiro.

  • Jogos eternos #410: Flamengo 1×1 Seleção de Haiti 1964

    Antes do jogo da Copa entre o Brasil e o Haiti, e como fiz antes do Brasil x Marrocos na estreia, eu vou lembrar de um jogo do Flamengo no Haiti. Não há dúvida sobre o jogo, já que Flamengo jogou apenas uma vez no Haiti, em 1964. Eleito presidente de Haiti em 1957, François Duvalier, conhecido como Papa Doc, transformou o país em uma ditadura com o apoio dos Estados Unidos. O Massacre de 26 de abril de 1963 custou a vida de ao menos 73 pessoas, a maioria militares da oposição. Em junho de 1964, o Papa Doc foi proclamado “presidente vitalício” do país.

    Entre as duas datas, Flamengo foi jogar lá, no início da temporada de 1964. Depois de dois jogos contra o Atlético Nacional da Colômbia na Jamaica, a delegação rubro-negra, chefiada pelo antigo jogador e ídolo Agustín Valido, chegou na ilha haitiana. No dia do jogo, contra um combinado de dois times locais, Racing e Aguila Negra, o Jornal do Brasil escreveu: “A recepção ao Flamengo – primeiro time brasileiro que se exibe aqui – foi extraordinária, com o prefeito da cidade, o embaixador do Brasil e um grande cortejo de carros formado especialmente em homenagem à delegação”.

    Em 23 de fevereiro de 1964, sem o poupado Aírton mas com a volta de Luís Carlos, o histórico técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Marcial; Murilo, Luís Carlos, Joubert, Paulo Henrique; Carlinhos, Nelsinho; Espanhol, Carlos Alberto, Paulo Alves, Osvaldo Ponte Aérea. Em Porto Príncipe, no estádio Sylvio Cator, atleta haitiano medalhista de prata nas Olimpíadas de 1928 e antigo recordista mundial de salto em distância, Flamengo começou melhor. “No primeiro tempo da partida de sábado, o Flamengo ainda foi superior ao combinado haitiano, marcando um gol aos 14 minutos, numa finalização de Carlos Alberto”, escreveu o Jornal do Brasil.

    Porém, no segundo tempo, o combinado do Haiti conseguiu o empate. “Moran, cobrando uma penalidade, aos 14 minutos da etapa final, fez o gol de empate para a seleção do Haiti. Marcial falhou na defesa do chute de Moran, que saiu fraco e quase cobre o goleiro”, julgou o Jornal dos Sports.

    Na crônica sobre o jogo contra o time do Marrocos, escrevi que o próprio Rei do Marrocos anulou um gol legítimo do Flamengo. Agora, no pesado clima de Haiti, um gol do Flamengo foi anulado pelo ator legítimo, o juiz. Ainda o Jornal dos Sports: “O campeão carioca poderia ter alcançado a vitória, não tivesse o arbitro da partida anulado gol lícito de Carlos Alberto, aproveitando uma bola rebatida pela defesa do Flamengo, já ao final do jogo, e quando maior era a pressão dos haitianos em busca do gol da vitória. Os protestos dos jogadores cariocas junto ao juiz de nada valeram, pois o mesmo se manteve irredutível na marcação de impedimento, inexistente. O delírio do público, ao constatar a anulação do gol de Carlos Alberto, serviu de incentivo para que o juiz mantivesse a marcação e até de expulsão”.

    “Flamengo empate com Haiti por 1 a 1 e não vence por causa do arbitro”, manchetou o Jornal dos Sports. Ser roubado pelo juiz fora do Brasil é coisa habitual. Ainda mais num regime autoritário, como se tornava o Haiti. Coisa anormal, mesmo para a época, podia-se ler na crônica do Diário de Notícias: “Flamengo jogou com medo no Haiti: juiz estava armado”. Na matéria, foi além, falando de “um revólver que o juiz portava na cinta, enquanto o técnico do time adversário também não fazia segredo de que estava armado”. O clima era pesado e, pior ainda, nas semanas seguintes, o Brasil também se tornaria uma ditadura, com todos os abusos associados…

  • Jogos eternos #409: Flamengo 1×0 Seleção carioca 1970

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu escolho mais um jogo aniversariante para a crônica do dia. Não foi um grande jogo, nem um bom jogo. O Jornal dos Sports até escreveu na edição do dia seguinte: “Flamengo e Seleção carioca disputaram ontem um jogo fraco sob todos os aspectos. Do lado do campeão da Taça Guanabara ainda se viu algum entusiasmo, o que lhe garantiu absoluto domínio durante os 90 minutos. A Seleção carioca, entretanto, nada mostrou de bom e perdeu de apenas 1 a 0 por pura sorte”.

    Por que então escolher esse jogo? Na verdade, a eternização começou antes do apito inicial, começou 16 anos antes do dia do jogo. Em 1954, o eterno Biguá, que só jogou no Flamengo na carreira inteira, se despediu dos gramados e entregou as chuteiras a um jogador da base, que tinha apenas 17 anos, Carlinhos. O jovem virou Violino, virou ídolo e eterno, também só jogou no Flamengo até o final da carreira, em 1969. Para fechar o ciclo, precisava repetir o gesto das chuteiras e abençoar um jovem rubro-negro. E a escolha foi perfeita. Escreveu o Jornal dos Sports dois dias antes do jogo de 1970 contra a seleção carioca: “O apoiador Carlinhos, antes do jogo principal dará uma volta olímpica no gramado e entregará suas chuteiras a Zico, irmão de Dudu, do America, que surge como um futuro valor do Flamengo”.

    Zico, com os mesmos 17 anos que Carlinhos na hora de receber as chuteiras de Biguá, era a maior promessa do Mengo e, pela primeira vez, jogava no Maracanã. Escreveu Marcus Vinícius Bucar Nunes, no livro Zico, uma lição de vida: “Foi na preliminar do jogo de despedida do Carlinhos, aquele grande jogador de meio-de-campo, que formava dupla com Liminha. As escolinhas do Flamengo e do América abriram a jornada festiva, fazendo um bom jogo. E lá estava ele, pela primeira vez, correndo com a camisa do Flamengo, em pleno Maracanã. Como registro dessa partida, apenas um gol feito, que ele perdeu, no final. No jogo principal, Carlinhos, ao deixar o gramado, entregou-lhe as chuteiras de presente, simbolizando sua confiança na nova geração”.

    Agora a palavra para o próprio Zico, no livro Maracanã, 50 anos de glória, de Renato Sérgio: “Foi inesquecível, a primeira vez que joguei no Maracanã. Estava no dente-de-leite e o jogo contra o América fazia parte da despedida de Carlinhos do Flamengo. Eu nem imaginava que viveria exatamente ali os melhores momentos da minha carreira, ali, naquele palco que abrigaria tantos craques inesquecíveis […] O Maracanã foi um prolongamento de minha família, sentia-me tão à vontade ali como se estivesse em minha casa”. Carlinhos brilhou no Maraca, se despediu e entregou as chuteiras ao garoto. Agora, o Flamengo e o Maracanã já não eram os mesmos.

    Em 16 de junho de 1970, para o jogo contra uma seleção carioca que tinha jogadores como Denílson e Didi do Fluminense no meio de campo, Flávio e Silva na frente, o técnico Yustrich escalou Flamengo assim: Adão; Murilo, Washington, Reyes, Paulo Henrique; Zanata, Liminha; Doval, Caldeira, Adãozinho, Fio Maravilha. O início do jogo foi do Mengo, como relatou o Jornal dos Sports: “Aos 9 minutos, surgiu a primeira jogada perigosa do Flamengo, quando Adãozinho chutou da linha da grande área, rasteira, exigindo de Cao o maior esforço para colocar a córner. A esta altura, o Flamengo já dominava inteiramente o jogo e, aos 21 minutos, surgiu o gol: Paulo Henrique faz um lançamento em profundidade, Leônidas sai para colocar Adãozinho em impedimento, mas Batista dava condições de jogo. Adãozinho correu, perseguido por Denílson e chutou, sem chances de defesa para Cao”.

    “O segundo tempo foi bem pior que o primeiro, com o Flamengo dominando”, ainda escreveu o Jornal dos Sports, que relatou poucas coisas sobre o segundo tempo: “Aos 23 minutos, Alex salva da linha de gol uma cabeçada de Caldeira que tinha endereço certo. Depois disso, ainda se viu algumas oportunidades do Flamengo, mas o placar permaneceu no 1 a 0”.

    É um dos poucos casos de jogos eternizados em nenhum dos 90 minutos, mas já no pré-jogo, com um jovem craque de chuteiras velhas, de sonhos gigantes e de realizações ainda maiores. Para fechar então, deixo a palavra para um dos dois heróis do dia, Zico, na biografia do segundo, Carlinhos, escrita por Renato Zanata e Bruno Lucena: “Quando eu já estava há três anos no Flamengo, ele parou de jogar e eu fui o garoto escolhido para receber as chuteiras dele. Era um cara espetacular. Aquela tranquilidade, delicadeza, na forma como ele tratava todo mundo, envolvidos ou não no trabalho dele. Uma pessoa de diálogo. Gostava de falar sobre futebol e também era professor […] E vejam vocês como é o destino. Eu pude entregar a ele a camisa do meu último jogo pelo Kashima. Foi contra o Flamengo, e o Carlinhos era o técnico. Pude retribuir o que ele havia feito por mim”.

  • Jogos eternos #408: Flamengo 2×1 Vasco 2003

    Jogos eternos #408: Flamengo 2×1 Vasco 2003

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou lembrar um jogo aniversariante de 2003. O Flamengo tinha um elenco bem limitado e estava no meio da tabela no campeonato nacional. O Brasileirão de 2003 era o primeiro com pontos corridos e já era claro que Flamengo, com 14 pontos em 11 rodadas, não ia brigar pelo título. Pior ainda, o rubro-negro vinha de uma goleada sofrida por 6×2 diante do Paraná. E para piorar ainda mais, quatro dias antes do jogo contra Vasco, Flamengo foi derrotado pelo Cruzeiro na final da Copa do Brasil, perdendo a maior chance de um título em 2003.

    Do outro lado, Vasco vinha invicto nos últimos seis jogos, mas com 5 empates e apenas uma vitória. Tinha conquistado o campeonato carioca três meses antes. O roteiro apontava uma vitória do Vasco, ainda mais que o Mengo tinha desfalques de peso: Athirson e Felipe lesionados, Júlio César convocado com a seleção e Edílson suspenso. Eram literalmente os quatro melhores jogadores do time. Assim, Flamengo sendo o Flamengo, a vitória rubro-negra era o mais provável. Em 15 de junho de 2003, o técnico Nelsinho Baptista escalou Flamengo assim: Diego; Luciano Baiano, Fernando, André Bahia, Cássio; Fabinho, Jônatas, Fabiano Eller, Igor; Jean, Zé Carlos. Vendo a escalação completa, ficava mais razoável apostar numa vitória do Vasco, que tinha como destaque Souza e Marcelinho Carioca.

    Por causa dos resultados recentes, tinha pouca gente no Maracanã, apenas 13.920, com maioria vascaína. Em campo, o Vasco abriu o placar já nos dez primeiros minutos. Marques, craque que se despedia do Vasco neste dia, cruzou, André Bahia falhou e Cadu aproveitou para fazer o primeiro gol do dia. Flamengo reagiu rapidamente, muito rapidamente. Três minutos depois, Igor lançou de trivela para Luciano Baiano que cruzou na grande área. De pivô, Zé Carlos dominou, girou e chutou para empatar o jogo. O placar ficou assim até o intervalo. Escreveu o UOL: “Apesar da disposição das duas equipes, o jogo foi caindo de ritmo. Com muitos erros na armação das jogadas, os dois times não criaram mais grandes chances de gol e Márcio e Diego, goleiros de Vasco e Flamengo, pouco trabalharam até o final do primeiro tempo”.

    No início do segundo tempo, Cássio quase fez gol contra de cabeça, mas Diego impediu o vexame com uma linda defesa. “Foi praticamente o único lance de emoção durante vários minutos. As duas equipes, muito desorganizadas, erraram muito. O jogo ficou morno e com baixo nível técnico”, prosseguiu o UOL. Cássio, que substituía o lesionado Athirson como lateral-esquerdo, chutava de longe, mas sempre encontrava um vascaíno no caminho. No final de jogo, Cássio chutou de fora de área de novo. A bola de novo foi desviada por uma cabeça do Vasco. A bola pegou efeito, surpreendeu o goleiro vascaíno e morreu na rede. Era o gol da virada, do triunfo rubro-negro, para esquecer a derrota na Copa, para esquecer o elenco pífio. Outro aniversariante era o próprio Maracanã, que completaria no dia seguinte 53 anos. O velho estádio queria uma vitória de seu maior patrimônio, o Flamengo.

    E de novo, como foi o caso dez dias atrás com a lembrança de uma vitória magra sobre Chapecoense em 2015, não resisto à vontade de citar o grande tricolor Nelson Rodrigues, que, sem ser um idiota da objetividade, entendeu porque o Flamengo, mesmo sem jogadores, nunca ia ser rebaixado: “Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E diante do furor imponente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.

  • Ídolos #52: Leonardo

    Ídolos #52: Leonardo

    Nessa época de Copa do Mundo, eu vou de um craque da base do Flamengo, campeão do mundo em 1994 e que voltou ao Mengo em 2002, outro ano de glória da Seleção brasileira. Craque em campo, Leonardo também foi fora, sendo um símbolo de classe e fair play.

    Já falei em outras crônicas que comecei a acompanhar o futebol na Copa de 1998 e, sendo garoto francês, descobri muitos jogadores brasileiros na Europa, seja na Copa, ou nos campeonatos europeus. Foi o caso de Leonardo, que descobri na Copa de 1998, na minha França. Mas, no meio de tantos craques, não realmente notei Leonardo. Ou talvez, eu o percebi por sua diferença com os outros, parecia uma pessoa comum. Tinha os craques habilidosos, Rivaldo, Ronaldo e Denílson, tinha os xerifes atrás, Aldair e Júnior Baiano, tinha o operário Dunga e tinha um quase funcionário público, Leonardo. Enganei-me. Leonardo era um craque.

    Leonardo Nascimento de Araújo nasceu em 5 de setembro de 1969, em Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara. Como no Rio de Janeiro, tinha muitos garotos flamenguistas, Leonardo sendo um deles. Caçula de uma família de classe média com três filhos, Leonardo, já bem cedo, combinou os estudos, aprendendo o inglês, e o futebol, jogando no Rio Cricket, clube de Niterói. Aos 14 anos, Ratinho, como era chamado pelos colegas por causa do físico franzino, conseguiu um teste no… Vasco. Jogando como ponta-esquerda, ingressou no Vasco, mas ficou no time reserva dos infantis. Além disso, o transporte de Niterói até São Januário custava caro, tanto em tempo quanto em dinheiro, e Leonardo perdia as aulas de inglês que gostava. Ficou pouco tempo no Vasco.

    Isaías Tinoco, supervisor da base do Flamengo, conheceu Leonardo no Vasco e chamou o garoto para um teste no Maior do Rio. Em 1985, Leonardo finalmente ingressou no time do coração, se destacando na posição de lateral esquerdo. Conquistou a Taça Belo Horizonte de Juniores, além de um torneio internacional no Marrocos. Em 1987, o técnico da base era o eterno Carlinhos Violino, símbolo maior do amor pelo Flamengo. Melhor ainda, o time principal fez uma excursão nos Estados Unidos e Zico ficou no Rio de Janeiro para treinar com os jovens, reencontrando Carlinhos e conhecendo o garoto Leonardo. E, como um sonho, no dia em que completou 18 anos, Leonardo recebeu uma ligação do técnico Antônio Lopes, convidando-o para treinar com o time principal. Flamengo tinha uma mescla de experiência e juventude, com Zico, Leandro, Mozer e Andrade de um lado, Jorginho, Aldair e Bebeto do outro. E agora Leonardo.

    Dois dias depois do 18o aniversario, Leonardo estreou com o Manto Sagrado numa amistoso contra Bahia, na Fonte Nova. No time rubro-negro, tinha Zé Carlos, Edinho, Renato Gaúcho, Nunes e claro, Zico. Flamengo tinha um timaço. Na estreia do Brasileirão de 1987, Flamengo perdeu para o São Paulo e, já pressionado, o técnico Antônio Lopes foi demitido. O técnico da base Carlinhos foi chamado, o que facilitou ainda mais a adaptação do Leonardo no time principal. Ainda amador, Leonardo não decepcionou e conquistou os fãs, principalmente as meninas. Com cara de bom moço, virou um dos jogadores mais assediados pelas torcedoras, logo decepcionadas: o jovem craque se casou com sua namorada desde a adolescência, com quem teve três filhos.

    Na tão falada Copa União de 1987, Leonardo participou de 18 dos 19 jogos, inclusive os dois jogos da final contra o Internacional. Após a final, chorou de emoção, o ainda adolescente já era campeão brasileiro com o time de coração. Em seguida, assinou seu primeiro contrato profissional. Craque dentro e fora de campo, ainda prosseguiu os estudos na faculdade de Educação Física da Universidade Gama Filho. Em 1988, ao lado dos vascaínos Bismarck e Sonny Anderson, foi campeão sul-americano com a seleção brasileira de juniores. Um ano depois, participou do Mundial da categoria, inclusive fazendo um gol na vitória contra os Estados Unidos que deu ao Brasil o terceiro lugar. Lembra o Raí, no livro Os 11 maiores laterais do futebol brasileiro de Paulo Guilherme: “Quando o Leonardo disputou o Mundial Sub-20 na Arábia Saudita, ele era o único membro da delegação brasileira que falava inglês fluentemente. Assim, era ele quem falava com a imprensa estrangeira e representava a seleção brasileira diante dos dirigentes da Fifa. O Leonardo sempre teve muita facilidade em fazer contato com as pessoas e isso lhe abriu muitas portas”.

    Com o Manto Sagrado, o primeiro gol de Leonardo chegou em julho de 1988, num amistoso contra uma seleção de Ilhéus. Pouco tempo depois, ao pedido da Nação, Telê Santana foi nomeado treinador do Flamengo. Com seu estilo limpo e sua habilidade, Leonardo caiu nas graças do novo técnico, que por sua vez, desenvolveu a confiança e os fundamentais do jovem lateral-esquerdo. O primeiro gol oficial do Leonardo chegou contra Cabofriense, no início do campeonato carioca de 1989. Porém, na final do campeonato, Leonardo foi vencido no duelo com Maurício, que fez o único gol da decisão, oferecendo ao Botafogo a taça. O jovem lateral ficou marcado pelo erro e começou a ser criticado.

    No início de 1990, participou do jogo de despedida de Nosso Rei Zico, e mais, fez o gol do empate, permitindo assim que Zico não saísse com uma derrota. Na Copa do Brasil de 1990, Leonardo fez 3 gols em 8 jogos, incluindo um lindo gol contra Taguatinga, com domínio de peito e voleio de pé esquerdo. Porém, na decisão vencida pelo Flamengo contra Goiás, Leonardo já tinha deixado o clube. O craque de Niterói foi contratado pelo São Paulo, que tinha acabado de fechar o campeonato paulista num vergonhoso 15o lugar. Lembra o Raí, capitão do time: “O Leonardo jogava no Flamengo e foi trocado por empréstimo junto a Alcindo por outros dois jogadores do São Paulo. Eu me lembro que no dia em que ele apareceu pela primeira vez no Centro de Treinamento da Barra Funda eu estava machucado, fazendo trabalhos de recuperação no Departamento Médico. Ali conversamos um pouco e logo surgiu uma admiração mútua pelo futebol e também pelo lado pessoal. É um jogador muito inteligente e uma pessoa muito carismática. Tem ótimo relacionamento com todo mundo e em campo apresentou uma técnica e habilidade acima da média”.

    Logo depois de sua chegada ao São Paulo, Leonardo reencontrou o técnico Telê Santana, fortalecendo um relacionamento muito especial. Lembra o próprio Leonardo no livro Ao mestre, com carinho – O São Paulo FC da era Telê, de Felipe Morais: “Telê era um cara especial, eu sabia que ele gostava muito de mim, ele nunca me disse ou demonstrou, mas sabia. Existia uma ligação forte, uma comunicação silenciosa que nós entendíamos. Eu, com certeza, não fui o maior jogador que ele dirigiu, mas com certeza fui o que mais o atendeu. Era nítida a ligação que tínhamos e que era diferente dos demais jogadores […] Sempre gostei de treinar e chegar cedo para me preparar. Eu chegava às 7h30 para o treino das 9h e lá estava Telê arrumando o gramado, todos os dias. Ele queria um ‘tapete’ pois sabia que o palco era importante para o espetáculo. Ele queria a perfeição, sempre”. E O São Paulo quase foi perfeito. Ainda Leonardo, agora no livro Os 11 maiores camisas 10 do futebol brasileiro, de Marcelo Barreto: “Aquele São Paulo era especial. Nunca joguei num time em que tinha tanta certeza da vitória. Fizemos uns cem jogos entre 1990 e 1991 e não me lembre de quantos perdemos”. São Paulo foi vice-campeão brasileiro em 1990 e conquistou o título em 1991. Leonardo, lançado na Seleção brasileira em 1990 pelo também craque Falcão, foi eleito melhor lateral-esquerdo do Brasileirão de 1991, conquistando a tão prestigiosa Bola de Prata.

    Os sucessos coletivos e individuais chamaram a atenção da Europa e Leonardo acabou contratado pelo Valencia. Repetiu o sucesso coletivo e individual. Valencia fechou o campeonato espanhol no quarto lugar e Leonardo foi eleito melhor lateral-esquerdo, conquistando o também prestigioso premio Don Balón. Na temporada seguinte, passou a jogar no meio de campo, com a mesma classe e eficiência. Quando foi a vez de Raí de deixar o São Paulo FC para a Europa, o craque não duvidou e indicou Leonardo como seu substituto. “Ele é muito inteligente, vai saber jogar bem no meio de campo”, explicou o Raí para sua diretoria. Dito e feito, Leonardo, que tinha perdido espaço na Seleção, estava de volta ao São Paulo.

    O São Paulo tinha acabado de conquistar o bi da Copa Libertadores. Leonardo não esperou para brilhar no time paulista, principalmente contra nosso Flamengo, na final da Supercopa Libertadores. Na ida no Maracanã, Leonardo abriu o placar num jogo que acabou em 2×2. Na volta no Morumbi, outro 2×2, outro gol de Leonardo, que ainda converteu o pênalti dele na disputa que consagrou o Tricolor. Sobretudo, São Paulo conquistou logo depois mais um Mundial, agora contra o Milan de Baresi, Maldini, Papin e outros. Avalia o Raí sobre Leonardo: “Depois que eu saí do São Paulo, em 1993, ele assumiu o papel de criação das jogadas […] O Leonardo chegou em seguida, após a minha saída, para comandar o time na conquista do Mundial, naquela vitória contra o Milan. Ele jogou no meio de campo com a camisa 10, que eu costumava usar, e foi fundamental para aquela conquista”. Quando o jogo estava em 1×1, Leonardo fez ótimo drible na grande área e cruzou bem para o gol de Toninho Cerezo.

    A boa fase de Leonardo no Tricolor o ajudou a reencontrar a Seleção em 1993. Fez a preparação da Copa como reserva de Branco, mas teve um papel importante, principalmente na crise depois da derrota na Bolívia, assegurando ao técnico Parreira que os reservas também estavam focados no sucesso coletivo. Com os problemas de lesão de Branco, Leonardo assumiu a posição de titular na Copa. O que era para ser uma consagração virou um pesadelo nas oitavas de final, com uma violenta cotovelada, que quase matou Tab Ramos. Leonardo foi expulso e suspenso até o final da Copa, mas negou fazer isso de propósito: “As pessoas que me conhecem sabem que eu jamais iria atingir um adversário com o objetivo de machucá-lo. Não é essa a minha filosofia. Eu tinha um sonho, que era disputar uma Copa do Mundo. Agora esse sonho é interrompido de modo tão feio”. A classe e o histórico de fair play falam em favor da boa fé de Leonardo, que foi até o hospital para pedir desculpas ao Tab Ramos. O Brasil foi campeão, mas como o companheiro de sempre Raí, que perdeu a braçadeira e até a posição de titular durante o torneio, a Copa teve um gosto agridoce para Leonardo. Ao menos, foi campeão, ao lado de outros craques da base rubro-negra, como Jorginho, Aldair, Zinho e Bebeto.

    Após a Copa, Leonardo atendeu ao apelo de outro ídolo, o maior de todos, Zico, que o chamou para ser seu substituto no Japão, no time do Kashima Antlers. De novo, Leonardo conquistou os torcedores e torcedoras, até aprendendo um pouco de japonês. “O Leonardo tem uma facilidade incomum de aprender novos idiomas. Isso ajuda bastante quando um jogador vai atuar em um clube estrangeiro. Mas a capacidade de adaptação ele já mostrou ainda garoto, quando saiu do Rio de Janeiro para jogar em São Paulo. Muitos jogadores cariocas não conseguem se acostumar com o ritmo da vida paulistana. O Leonardo chegou e já se adaptou muito bem”, explicou o amigo Raí. Em campo, fez simplesmente o gol mais bonito da história do campeonato japonês com três chapéus e um voleio para finalizar, além de conquistar a J-League em 1996.

    Com o objetivo da Copa do Mundo, disputada na minha França em 1998, Leonardo voltou para a Europa e mais uma vez atendeu ao apelo do amigo Raí, destaque do Paris Saint-Germain, clube pelo qual eu torço na França. A história é conhecida: Leonardo aprendeu rapidamente o idioma e conquistou os fãs. Não ganhou títulos na única temporada que fez, mas conquistou com a Seleção a Copa América e a Copa das confederações em 1997. Na Copa América, o Brasil tomou dois gols contra o México antes de empatar em 2×2. No final, Leonardo ganhou uma bola, driblou dois zagueiros e mandou a bola na gaveta para fazer o golaço de virada. Na Copa das confederações, todos os jogadores rasparam o cabelo, o que deixou Leonardo bastante irritado. O veterano era bem diferente dos outros.

    Em 1997, Leonardo assinou com o Milan. Claro, ficou fluente em italiano e conquistou a Serie A em 1999. Jogando como ponta-direita, mais uma posição para ele, fez 12 gols no campeonato, com destaque para os dois gols no Derby de la Madonnina, incluindo um lindo gol de falta. Eu começava a acompanhar o futebol europeu, mas tenho poucas lembranças do Leonardo no Milan. Por causa das contusões, o craque bonito faltou a vários jogos. Voltamos então ao meu início, a Copa do Mundo de 1998, com Leonardo dando entrevistas em português, inglês, espanhol, italiano e francês. Começou o primeiro jogo no banco, mas com Giovanni fora do time, disputou todos os outros, jogando em mais uma posição, como meia mas caindo na direita, com Rivaldo no lado esquerdo. “Leonardo era um jogador muito inteligente, atuou como lateral em uma Copa e no meio de campo na outra”, homenageou o técnico Zagallo. Na grande final, ficou bastante preocupado com o drama vivido pelo Ronaldo. Lembrou Zico para a Folha de S. Paulo: “Alguns jogadores que sabiam mostraram preocupação em campo. O Cafu correu quando Ronaldo se chocou com o goleiro da França. O Leonardo a todo momento perguntava se ele tinha perigo de vida jogando ali”. Leonardo não fez um bom primeiro tempo e, com o Brasil precisando fazer dois gols, foi substituído pelo Denílson no intervalo. Eu precisava esperar para saber realmente quem era Leonardo.

    Em 1999, Leonardo era o capitão da Seleção brasileira que ia disputar a Copa América. Mas com relacionamento difícil com o técnico Vanderlei Luxemburgo e a perda da braçadeira, Leonardo se desligou da seleção antes mesmo da Copa América. Voltou em 2001 para dois jogos no comando de Luiz Felipe Scolari. E teve outra volta, maior ainda, no Flamengo, quando assinou um contrato de 6 meses no início de 2002. “Eu sempre quis terminar minha carreira onde comecei”, explicou o meia, que reestreou num amistoso contra Palmeirinha, já fazendo dois gols na goleada 4×0! Na reestreia oficial, contra Palmeiras no Torneio Rio-São Paulo, fez um golaço de falta para abrir o placar. Porém, ficou pouco tempo, fazendo apenas 8 jogos, o último contra Santos na eliminação do Torneio Rio-São Paulo. Ao total, em duas passagens, foram 176 jogos e 10 gols com o Manto Sagrado além de conquistar o Brasileirão e a Copa do Brasil.

    Leonardo ainda teve outra volta, no Milan, quando fez parte do elenco que conquistou a Copa da Itália em 2003. Jogou pouco e definitivamente pendurou as chuteiras, sem deixar o futebol. Foi dirigente do Milan e acertou em cheio com as contratações de Kaká, Alexandre Pato e Thiago Silva. Substituiu Carlo Ancelotti com técnico e logo depois foi para o rival, a Internazionale, com quem conquistou a Copa da Itália em 2011.

    Voltou como dirigente no Paris Saint-Germain, que iniciava o projeto de ser um dos maiores clubes do mundo. Fazia muitas entrevistas com um francês impecável, que parecia impossível para uma pessoa que passou apenas um ano na França, 15 anos atrás. O poliglota tinha classe e competência, mas o final foi frustrante. Depois de um jogo tenso, deu uma trombada no juiz e foi suspenso 9 meses, um fim que lembrava a cotovelada de 1994. Pediu demissão, voltou no Milan, voltou no PSG em 2019 e contratou o Lionel Messi. Porém, o PSG falhou de novo na Liga dos campeões e o brasileiro acabou demitido.

    Para fechar, escrevo sobre o maior golaço de Leonardo na sua carreira. Em 1998, ainda em atividade, fundou com o amigo de sempre Raí a instituição Gol de Letra, que atende às crianças de comunidades carentes em São Paulo e no Rio de Janeiro. Lembrou o Raí: “O atleta de sucesso tem um poder de mobilização muito grande, e é um desperdício ele não usar isso. Não precisa fazer como eu e o Leonardo fizemos e montar um projeto como o nosso, mas pode se colocar à disposição em alguma atividade em prol de uma causa”. Eu sou voluntário na Gol de Letra há mais de 10 anos, e nunca vi Leonardo, que aparentemente se desligou do projeto. Porém, ele deu o apito inicial de um projeto que já ajudou mais de 30 mil famílias. Craque dentro de campo, Leonardo também é fora.

  • Jogos eternos #407: Flamengo 2×1 Força Armada Real 1968

    A Seleção brasileira estreia hoje na Copa do mundo, contra o Marrocos. Aproveito então do momento para eternizar o primeiro jogo da história do Flamengo no Marrocos, em 1968.

    O Torneio Mohamed V teve sua primeira edição em 1962, um ano depois da morte do rei Mohamed V. A competição tinha muito prestígio logo no início com participação do campeão marroquino, o Força Armada Real, time do exército, além dos campeões espanhol e francês, o Real Madrid e o Stade de Reims, e da Internazionale como convidada.

    O Boca Juniors foi o primeiro clube sul-americano a participar do torneio em 1964 e chegou na final em 1966, perdendo contra o poderoso Real Madrid. Flamengo estreou em 1968, como convidado da federação marroquina. Informou o Jornal dos Sports: “O Flamengo estreia hoje no Torneio Mohamed V, em Casablanca, contra o FAR, campeão do Marrocos […] O campeão receberá o troféu das mãos do Rei Hassan. Silva é a maior atração do Flamengo”. O Silva Batuta, um ídolo no Flamengo e no Francêsguista, brilhou no clube em 1965 e após passagem frustrante no Barcelona e Santos, voltou ao Flamengo em 1968.

    Na outra semifinal do Torneio Mohamed V, tinha o argentino Racing, então campeão sul-americano e mundial de clubes, e o Saint-Étienne, bicampeão francês 1967-1968 e que se tornaria tetra em 1970. Era um torneio de muito prestígio e nível altíssimo. Em 31 de agosto de 1968, sem o zagueiro uruguaio lesionado Manicera, o técnico Valter Miraglia escalou Flamengo assim: Marco Aurélio; Murilo, Onça, Guilherme, Paulo Henrique; Carlinhos, Liminha; Neviton, Rodrigues Neto, Fio Maravilha, Silva Batuta.

    O jogo aconteceu no estádio Mohamed V de Casablanca. Na época, o estádio se chamava Marcel Cerdan, lutador de boxe francês famoso e que fez história em Casablanca antes de morrer em 1949 num acidente aéreo. Nas tribunas, detalhe importante, tinha a presença do novo rei e filho do Mohamed V, o Rei Hassan II. Em campo, Flamengo levou o melhor no início do jogo e abriu o placar com apenas 15 minutos graças a um gol de Liminha. Porém, o FAR reagiu e conseguiu empatar antes do intervalo, com um gol de Mohammed Mahroufi, que jogaria a Copa do Mundo de 1970 com o Marrocos.

    Para o segundo tempo, de novo a palavra para o Jornal dos Sports: “Na fase complementar, o Flamengo voltou mais organizado. Sua defesa estava mais firme e o ataque jogava com mais desembaraço. Aos poucos, os marroquinos foram perdendo terreno. O Flamengo cresceu muito e nos lances individuais era absoluto”. E teve um lance inusitado, bem lembrado pelo Marcelo Schwob, no seu excelente livro Silva, o Batuta: “ Em determinado lance, com a partida empatada em 1×1 e o time carioca no ataque, uma bola saiu pela linha lateral e, antes do gandula pegá-la, um jogador do banco de reservas do Flamengo devolveu-a com rapidez para Paulo Henrique cobrar rápido o lateral para Silva, que driblou seu marcador e chutou da quina da área, fazendo o gol, num lance lícito. O rei do Marrocos não concordou e acenou para que falassem ao juiz de sua discordância. Quando ia ser dada a saída, o juiz acedeu ao pedido do rei e mandou cobrar tiro de meta, anulando o gol rubro-negro… Um acontecimento parecido com outro ocorrido na Copa do Mundo de 1982 (França 4×1 Kweit), quando um juiz russo, que nunca mais apitou, por pressão do Sheik do Kweit, presente na tribuna, foi forçado a anular o quarto gol da França, totalmente lícito, feito por Platini. Nos dois casos, minutos depois, tanto Platini, como Silva, repetiriam a dose e os sheiks não tiveram a cara de pau de anular novamente”.

    Na verdade, foi Alain Giresse que teve o gol anulado contra o Kuwait e Bossis que fez o quarto gol logo depois. O resto é exato. Silva Batuta teve o gol mal anulado pelo Rei e cinco minutos depois, fez o gol da vitória e classificou o Flamengo na decisão. “A exibição do Flamengo mereceu aplausos do público e elogios da imprensa, sobretudo devido à boa atuação do FAR no primeiro tempo. O goleiro Marco Aurélio foi considerado como um dos melhores jogadores da partida. Outros destaques foram Murilo, Onça, Paulo Henrique, Carlinhos, Fio e Silva. O Flamengo é finalista do Torneio Mohamed V”, finalizou o Jornal dos Sports. Faltava um jogo ainda para levantar a pesada taça, oferecida pelo rei Hassan II.

  • Jogos eternos #406: Flamengo 2×0 Botafogo 1974

    Jogos eternos #406: Flamengo 2×0 Botafogo 1974

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu escolho para a crônica do dia um jogo aniversariante de 52 anos, contra um dos maiores rivais históricos do Flamengo, o Botafogo, numa época de rivalidade acirrada, nos anos 1970.

    O maior trauma do Flamengo em relação ao Botafogo é a derrota 6×0 em 1972. De lá para cá, o Flamengo só tinha o desejo de vingança. Não importava a tabela, a competição, o palco, a escalação, o Flamengo, a Nação, só queriam o 6×0 da vingança, que não chegava. Nos cinco Flamengo x Botafogo seguintes, teve dois empates, duas vitórias do Botafogo e uma do Flamengo, no Brasileirão de 1973.

    Seis meses depois, já na edição seguinte do Brasileirão, Flamengo foi bem, com apenas uma derrota nos 17 primeiros jogos. Com 27 pontos, estava classificado para a fase seguinte e mirava a primeira colocação do grupo. Já o Botafogo tinha apenas 14 pontos e precisava desesperadamente de uma vitória para sonhar com uma classificação na segunda fase.

    Zico, que estreou no time profissional em 1971, escapou da humilhação do 6×0 quando não foi escalado pelo Zagallo. Em 1974, o Flamengo trocou o comando e chamou Joubert, que tinha sido o técnico de Zico na base. Nosso Rei, que passou em branco nos cinco jogos que fez contra o Fogão, definitivamente se firmou dentro do time titular. Virou a maior esperança de gol do time, a maior possibilidade de espetáculo, ao lado do gênio gringo Doval. Em 9 de junho de 1974, o técnico Joubert escalou Flamengo assim: Cantarele; Nei, Rondinelli, Luís Carlos, Jayme; Liminha, Geraldo, Zico; Doval, Paulinho, Arílson.

    No Maracanã, o Flamengo dominou o jogo, desde o apito inicial. Explicou na sua edição do dia seguinte o Jornal dos Sports: “Um Flamengo como a sua torcida gosta e cada vez mais de acordo com as tradições de muita garra, foi o se que viu, ontem, desde o primeiro minuto de jogo. Quando Zico, aos 9 minutos, provocou a primeira explosão nas arquibancadas, obrigando o goleiro Jair Bragança a uma sensacional defesa, ficou claro que os primeiros 45 minutos seriam todos do rubro-negro. A defesa do Botafogo mostrou-se completamente perdida com o ataque do Flamengo, principalmente com a dupla Zico-Doval”.

    Flamengo era o melhor e logo fez o primeiro gol do jogo. Agora a palavra para o Globo: “Doval inaugurou o marcador aos 13 minutos, recebendo um passe de Paulinho após troca de passes com Zico, batendo inapelavelmente a Osmar e Jair Bragança”. Ainda no primeiro tempo, Flamengo fez o segundo, com o maior de todos. De novo, o relato do Jornal dos Sports: “Aos 34 minutos, Zico fez 2 a 0, num dos mais bonitos gols de todo o Campeonato Nacional. Driblou todos os adversários que se lhe apresentaram, inclusive o goleiro, e, deslocando-se da direita para o interior da área, ainda teve que tirar Doval da jogada. Ao completar, no ângulo, levou um sarrafo de Valtencir”.

    Abro um parêntese aqui para falar do Valtencir, realmente era um zagueiro viril, às vezes violento. Ainda o JDS: “Além do destaque para o toque de bola do time rubro-negro e da genialidade da dupla Zico-Doval, realmente desequilibrando o jogo, o primeiro tempo teve um outro detalhe a não ser destacado: a violência de Valtencir, um jogador que se preocupou muito mais em bater nos adversários do que na bola”. Porém, Valtencir teve um fim trágico. Num jogo entre Colorado e Grêmio Maringá em 1978, teve um choque com Nilvaldo. Fraturou a coluna cervical e teve uma hemorragia fatal na medula. Morreu quase em campo, com apenas 31 anos de idade.

    De volta ao jogo, o segundo tempo de novo foi rubro-negro. Flamengo tinha dois gols de vantagem e a Nação queria muito mais. “Com a torcida gritando ‘queremos seis’ – para vingar a goleada histórica – e sem qualquer substituição, o segundo tempo começou mostrando o Botafogo disposto a descontar”, descreveu o Jornal dos Sports. Não teve outro gol, nem para o Flamengo, muito menos para o Botafogo. “Com vantagem numérica em campo e no marcador, o Flamengo continuou dominando o jogo. Despreocupado com o marcador, o Flamengo preferiu gastar o tempo, para delírio de sua torcida, que terminou o jogo gritando olé e festejando uma nova excelente vitória de sua equipe”, prosseguiu o Jornal dos Sports, que ainda escreveu: “Pelo volume de jogo do Flamengo e considerando-se as chances desperdiçadas por seus atacantes, pode-se concluir que o Botafogo, com muita sorte, conseguiu escapar da forra dos 6 a 0”.

    Confirmou o Globo: “O melhor que poderia ter acontecido ao Botafogo, foi perder de apenas 2 a 0 para o Flamengo que, positivamente, está atravessando este Campeonato Nacional em estado de graça”. Além disso, o jogo confirmava mais uma vez a dupla Doval-Zico. Escreveu o Jornal dos Sports sobre o Gringo: “Sabe tudo de bola e não é de hoje. Fez um gol – o primeiro – e mostrou que é um dos mais completos atacantes do futebol brasileiro pela sua habilidade e visão de gol. Ele se encaixa perfeitamente ao futebol de Zico e formam uma dupla de área a gosto da torcida”. Já sobre o Zico, escrevia: “Um gol sensacional quando além de driblar o goleiro chegou a passar até pelo seu companheiro de ataque Doval. Está numa fase excelente e comprovou isso mais uma vez ontem”.

    Nas suas avaliações, o Globo deu uma nota 8 para Doval: “‘Quem sabe, sabe sempre’ disse o ‘gringo’ desde que chegou. E Doval sabe que sabe”. E o melhor jogador, claro, foi mais uma vez Zico, com uma nota 9: “Há muito tempo que o futuro de Zico é o presente e só não vê isso quem não quer. É uma estrela da Companhia e uma vedete humilde, para sorte sua e do seu clube. Parece melhorar de 15 em 15 minutos e como um jogo de futebol tem 6 x 15 minutos, sabe tudo sobre futebol”. Zico e Doval juntos, era o passado e o futuro que se juntavam no presente para ter uma das maiores duplas da história do Flamengo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”