
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #427: Flamengo 1×0 São Cristóvão 1983
Na última quarta-feira, completaram-se dois anos do falecimento do eterno Adílio. Ainda lembro onde eu estava quando soube da notícia, ainda sinto a dor de perder precocemente um ídolo tão gigante do Flamengo. Para o jogo eterno do dia, escolho um jogo que completa hoje 43 anos, com mais uma vez Adílio decisivo.
Na época, Flamengo já estava de luto. O presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches cometeu o crime de vender o maior ídolo, o maior patrimônio do clube, Zico. Na estreia do campeonato carioca de 1983, já sem Zico, Flamengo perdeu contra o inexpressivo Goytacaz. “O Flamengo sem o Zico é um time igual aos outros”, escreveu João Saldanha no Jornal do Brasil. Confirmou Washington Rodrigues para o Jornal dos Sports: “O Flamengo sem o Zico é igualzinho a todo mundo”.
A torcida estava furiosa. O presidente Dunshee de Abranches, além de vender Zico, falhou em trazer novos jogadores. Tentou contratar João Paulo de Santos, Zé Sérgio de São Paulo, Alzamendi de Nacional e Gareca do Boca Juniors, mas todos acabaram em fracasso. Assim, antes do jogo contra São Cristóvão, os muros da Gávea foram pichados com mensagens como “Fora ditador” e “Um presidente pequeno demais para um clube tão grande”.
Fora da estreia contra Goytacaz por causa de uma lesão, Adílio voltou na segunda rodada para o Fla-Flu, que terminou empatado em 0x0. Ficou fora de mais um jogo do campeonato carioca e voltou dois dias antes do jogo contra São Cristóvão, fazendo os dois gols da vitória rubro-negra num amistoso contra Rio Branco. Para o Jornal dos Sports, que via com o novo camisa 10 da Gávea a “promessa de uma grande atuação”, Adílio explicou como era o novo Flamengo: “A melhor defesa é o ataque e, apesar de esta história ser velha, ainda funciona. O Flamengo está mudando sua maneira de jogar e vai voltar a ser o favorito do campeonato. Estamos aprendendo a marcar com mais rigor, função que tem de ser desempenhada, agora que não contamos mais com o Zico”.
Em 7 de agosto de 1983, o técnico Carlos Alberto Torres escalou Flamengo assim: Raul; Carlos Alberto, Marinho, Mozer, Júnior; Vítor, Adílio, Lico; Robertinho, Edson, Baltazar. Pior para os saudosistas de Zico, ou seja, para cada rubro-negro vivo, o Nosso Rei jogava neste mesmo dia contra Vasco, mas na Itália, com a camisa de Udinese. O time de Zico derrotou Vasco 3×0 e conquistou o Troféu Zanussi. De volta no Rio de Janeiro, ou mais exatamente no estádio Caio Martins de Niterói, Flamengo justificou o favoritismo contra o Tóvão e abriu rapidamente o placar: “O gol surgiu logo aos 11 minutos. Carlos Alberto lançou Marinho, que cruzou para a área. Robertinho disputou a bola com um zagueiro e Adílio recebeu o rebote na pequena área e não teve dificuldade para marcar, embora o gol desse a impressão de ter sido casual, sem uma construção lúcida. O descontrole do Flamengo começou a partir daí”, escreveu Márcio Tavares para o Jornal do Brasil.
Sem Zico, Flamengo era outro time, quase um time comum. Até o final do primeiro tempo, o Mengo teve outras oportunidades, principalmente com Vítor, mas o goleiro Mauro fez algumas boas defesas. No intervalo, Adílio, que “fez o gol e as melhores jogadas de ataque” segundo o Jornal dos Sports, atribuindo-lhe a nota 9, sentiu no tornozelo e teve que ser substituído. Já morno no primeiro tempo, Flamengo ainda caiu de produção na segunda etapa: “Pior foi no segundo tempo, quando a torcida já estava impaciente e sentiu que a saída de Adílio e consequente entrada de Peu contribuíram ainda mais para a queda de produção do Flamengo […] O São Cristóvão era cada vez mais perigoso nos contra-ataques. Muito mais pelos erros da zaga do Flamengo, indecisa e muito exposta, do que pelas virtudes do modesto grupo”, prosseguiu o Jornal do Brasil.
Com sofrimento, Flamengo conseguiu a vitória magra, mas não escapou das críticas da própria torcida. “Parece que o Flamengo assumiu a rotina de sair de campo vaiado. Sem Zico, ficou reduzido a um time absolutamente igual aos outros, com ligeira superioridade individual em algumas posições, mas sua torcida ainda não se habituou ao novo quadro. E vaia muito porque não admite atuações lamentáveis, medíocres e decepcionantes como a de ontem”, julgava severamente o Jornal do Brasil. Para Wilson de Carvalho, autor de uma crônica no Jornal dos Sports, “Flamengo tem que valorizar esta vitória, pelas circunstâncias. O seu time precisa realmente de reforços em, pelo menos, duas posições. Aquela força que a equipe tinha com Zico, é óbvio, não existe mais”.
A palavra final para Sandro Moreyra, nas páginas do Jornal do Brasil: “O Flamengo continuou dando razão aos que lamentam e choram a saída de Zico. Decididamente não sabe jogar sem o seu Galinho […] O time anda perdido e dá a impressão que não está se entendendo. As constantes mudanças de jogadores e determinadas escalações não estão, ao que dizem, sendo bem recebidas. A torcida, por sua vez, anda impaciente. Mal acostumada com atuações bisonhas, irrita-se ao ver o Flamengo jogar tão mal e começa a vaiar o time, tornando as coisas piores. De muita calma está precisando o Flamengo, ainda tonto com a perda de Zico”. Não era fácil a vida sem Zico. E quando Adílio não conseguia ficar em campo, era ainda pior.
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Jogos eternos #426: Flamengo 2×1 Fluminense 1939
Na última crônica, escrevi sobre um Fla-Flu de 1913, apenas o terceiro da história. Hoje, aproveito de outro aniversário para comemorar mais um Fla-Flu, o 88o da história, em 1939.
Entre 1913 e 1939, aconteceram muitas coisas. O mundo mudou, com a Grande Guerra de 1914-1918. E estava pronto a conhecer a Segunda Guerra Mundial, maior conflito da história, causando a morte de entre 60 à 80 milhões de pessoas no mundo inteiro. O futebol também mudou em 26 anos. Flamengo conquistou seu primeiro título carioca em 1914, repetiu a dose em 1915, conquistou outro bicampeonato em 1920-1921. Também foi campeão em 1925 e 1927 e depois, não conquistou outro título na era amador.
A oficialização do profissionalismo em 1933 definitivamente mudou a face do futebol brasileiro em geral e do Fla-Flu em particular. Fluminense também vivia um jejum de títulos, não conquistando o campeonato carioca desde 1924. Como o profissionalismo permitia, e respeitando a tradição de elitismo, contratou jogadores ricos e brancos, em maioria de São Paulo. O Flamengo procurou outro caminho e contratou jogadores pobres e negros, em maioria de Rio de Janeiro. Escreveu Mário Filho na sua obra clássica O Negro no futebol brasileiro: “Enquanto o Fluminense trazia para Álvaro Chaves os grandes jogadores do futebol paulista, quase todos brancos, muitos com nome italiano, o Flamengo levava para a Gávea os grandes jogadores do futebol carioca, quase todos pretos, Fausto dos Santos, Leônidas da Silva, Domingos da Guia, brasileiros até no nome”. Assim, o Fla-Flu, já com nome oficial e difundido, virou outra coisa do que apenas um jogo de futebol, virou uma coisa social, uma questão de honra e identificação.
Com o profissionalismo, a dupla Fla-Flu passou a dominar o futebol carioca, mas com vantagem para Fluminense, tricampeão em 1936-1937-1938. E Flamengo, igualmente com um timaço, estava sempre na vice-liderança. O Fla-Flu era a coisa mais séria da cidade. Antes do jogo de 1939, e bem diferente do que acontecia nos primórdios do Foot-Ball, o Diário da Noite falava sobre o jogo: “O prestígio do Fla-Flu cada vez se acentua mais. A torcida já não pode conceber o football sem um Fla-Flu. Seria, assim, uma coisa sem graça, parecida com abacate sem limão, para não citar a clássica formula da flor sem perfume nem a do amor sem ciúme… Pois o negócio é assim. E, por isso mesmo, ninguém quer saber se amanhã vai haver ou não um tal competição que se desconfia chamar ‘Grande Prêmio Brasil’”. Agora, não era sobre hipismo no Rio de Janeiro, era sobre futebol, um futebol para ricos e pobres, para a cidade inteira, que tinha com o Fla-Flu sua maior expressão.
O Diário da Noite também trouxe números do Fla-Flu desde o primeiro confronto em 1912 e dividiu o confronto em duas fases: a do amadorismo e a do profissionalismo. No amadorismo, tem 16 vitórias do Fla, 14 vitórias do Flu e 12 empates. No profissionalismo, o jornal conta 14 vitórias do Flu, 9 vitórias do Fla e 11 empates. De acordo com os dados do excelente site FlaEstatísticas e com minha própria pesquisa, tenho mais jogos até o jogo de 1939: 87 jogos, 28 vitórias do Fla, 31 vitórias do Flu e 28 empates. Certeza é que Fluminense dominava no início do profissionalismo. Dori Kruschner, treinador húngaro do Flamengo a partir de 1937, trouxe o esquema tático em WM, mas falhou para conquistar um título. E nem conquistou um Fla-Flu. Em 8 jogos, teve 7 derrotas e apenas um empate…
Em 1938, o técnico Hilton Santos quebrou o tabu do Fla-Flu. Em 1939, Flamengo voltou com o histórico técnico Flávio Costa e o tradicional 2-3-5. O rubro-negro vivia seu maior jejum de títulos, não conquistando o campeonato carioca desde 1927. Começou o estadual com um empate, quatro vitórias e uma goleada sofrida 0x4 contra Bangu. No primeiro Fla-Flu do ano, Fluminense abriu 2×0, mas sob o impulso de Leônidas e Valido, Flamengo conseguiu o empate. E Leônidas teve que parar de jogar. O grande Alberto Borgerth, fundador da seção de futebol do Flamengo, autor de dois gols no já falado Fla-Flu de 1913 e médico de profissão, aconselhou Leônidas a ser operado do apêndice. Foi, e Leônidas ficou fora dos gramados durante quase três meses. E voltou justamente para o Fla-Flu do segundo turno. O Diamante Negro já tinha feito 9 gols em 16 Fla-Flus. O número de jogos pode surpreender para um jogador que chegou ao clube apenas três anos antes, mas vale lembrar que no de 1936 só, teve 10 Fla-Flus.
Do lado do Fluminense, tinha a volta de Russo, artilheiro argentino do Tricolor entre 1933 e 1937 e que passou uma temporada na França, na minha cidade-luz de Paris antes de voltar ao Rio de Janeiro, outra cidade de meu coração. Em 5 de agosto de 1939, para mais um Fla-Flu, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Walter; Domingos, Newton Canegal; Volante, Jocelino, Artigas; Sá, Valido, Jarbas, González, Leônidas.
O jogo aconteceu à noite e, mesmo assim, o estádio do São Januário ficou lotado. A renda de mais de 156 contos foi um recorde do campeonato. Na “peleja das multidões” como chamou o jogo o jornal A Noite, Flamengo começou melhor. Leônidas cruzou para uma cabeçada de Jarbas, forçando Batatais a fazer a defesa. Fluminense reagiu com Amorim, o goleiro rubro-negro Walter também brilhou. Flamengo dominava o primeiro tempo, como relatou o Jornal do Brasil: “Continua o Flamengo a cerrar os ataques à defesa tricolor. Valido apodera-se da bola, corre sobre o goal e cede em boa situação a Sá, que avança sobre o arco, quando surge Machado, que é obrigado a praticar a falta máxima. Assinalada a falta pelo juiz Carlos Monteiro, aliás muito justamente, Leônidas, com shoot rasteiro no canto esquerdo do goal do Batatais, consigna, às 21:46 horas, o 1.o goal do Flamengo”. De pênalti, era o décimo gol de Leônidas no Fla-Flu, era a volta do consagrado artilheiro.
No segundo tempo, Fluminense voltou melhor, mas Flamengo tinha Leônidas, que quase fez o segundo gol do jogo. Porém, chutou no lado de fora do gol de Batatais. Com uma hora de jogo, Flamengo de novo fez a diferença. Agora o relato do Jornal dos Sports: “Jarbas cobra o escanteio com segurança e González saltando no ‘bolo’ cabeceia vigorosamente para o canto direito, fazendo o segundo goal do Flamengo”. Faltando cinco minutos para o final do jogo, Romeu fez o gol do Tricolor e colocou mais emoção no Fla-Flu. O time do Fluminense teve a oportunidade de empate, mas brilhou o zagueiro Newton Canegal, de 22 anos e quase um estreante no Flamengo. Já com “duas tiradas seguidas, notáveis pela firmeza” no primeiro tempo segundo o Jornal dos Sports, Newton salvou Flamengo no final, quando “arroja-se de cabeça, cortando espetacularmente o centro”. Para o jornal A Noite, “Flamengo obteve um belíssimo triunfo, por 2×1, que refletiu a superioridade conseguida durante o match”.
Flamengo era o vencedor e Leônidas o grande nome do jogo, mesmo sem fazer um grande jogo. “Leônidas apareceu discretamente, ainda não está em plena forma”, julgou o Jornal do Brasil quando Jornal dos Sports avaliou: “Leônidas, ainda que sem produzir o máximo de suas possibilidades, foi a atração e o perigo permanente do ataque”. Palma para o Correio da Manhã, que teve um comentário aparentemente contraditório e completamente justo: “Leônidas ainda não está em forma. É ainda um perigo com a bola”. Assim era o Diamante Negro, o melhor jogador do mundo. Nos seus piores dias, era discreto, mas decisivo. Com um gol dele, o Fla-Flu era do Mengo. E daqui a pouco, o campeonato carioca finalmente seria do Mengo também.
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Jogos eternos #425: Flamengo 6×3 Fluminense 1913
Em 1913, o mundo era diferente. A Primeira Guerra Mundial, conhecida como A Grande Guerra, nem tinha acontecido. Leônidas da Silva, maior ídolo do Flamengo na era do amadorismo, não tinha ainda nascido, Nelson Rodrigues tinha apenas um ano de existência e Rasputin ainda estava vivo. O bondinho do Pão de Açúcar foi inaugurado um ano antes e o Cristo Redentor era apenas um sonho. Era outro mundo. Mas Flamengo já existia.
Falando de futebol, Flamengo tinha também apenas um ano de existência em 1913. Vale a pena explicar de novo. No final de 1911, Alberto Borgerth, atacante do Fluminense, entrou em conflito com a diretoria do Tricolor. Já praticante de remo no Flamengo, convenceu oito outros jogadores do Fluminense, que tinham acabado de conquistar o campeonato carioca, a criar um time de futebol dentro do clube de regatas. “Alberto Borgerth e seus companheiros de rebelião, ao deixarem o Fluminense, adotam novos hábitos: incorporam o espírito flamengo que vinha sendo moldado pela República Paz e Amor. O Flamengo nunca desejou ser um club à inglesa […] O Flamengo já é caracterizado bem diferentemente. Tem a cara do carioca: moleque, sério e criativo”, escreveu Edilberto Coutinho no livro Nação Rubro-Negra.
Flamengo fez sua primeira partida de foot-ball em 3 de maio de 1912. Com camisa Papagaio de Vintém, goleou Mangueira 15×2, um jogo eterno no Francêsguista. Por causa da história da fundação, o jogo Flamengo x Fluminense era especial antes mesmo do primeiro confronto. Completou Edilberto Coutinho: “Fluminense e Flamengo eram como irmãos. A vida de um, muitas vezes, se confundiu com a do outro. Virgílio Leite de Oliveira e Silva chegou a ser, ao mesmo tempo, presidente do Flamengo e diretor do Fluminense. Muitos atletas, nos primeiros tempos, eram jogadores de futebol do tricolor e remadores do Flamengo. Mesmo depois de iniciados os Fla-Flus no futebol, se manteve a convivência fraterna”. Flamengo, apesar do favoritismo, perdeu o primeiro confronto contra Fluminense, em 7 de julho de 1912, exatamente 80 anos antes de eu nascer.
No segundo turno do campeonato carioca, Flamengo se vingou da derrota inaugural contra Fluminense com uma goleada 4×0, mas fechou o torneio na vice-liderança. Nos arquivos, há poucas coisas sobre os jogos dos primeiros tempos. O Jornal dos Sports, maior fonte de jogos antigos, só foi fundado em 1931. Assim, eu tinha que pesquisar em outros jornais. No pré-jogo de 1913, nas páginas do jornal A Época, tinha coisas sobre esportes com turf e rowing, mas nada de futebol. No pós-jogo, uma página inteira sobre hipismo, mas de novo, nenhuma palavra sobre o Fla-Flu, que nem se chamava ainda assim, o termo só foi popularizado em 1925. O Jornal do Brasil apenas escreve sobre o pré-jogo e prováveis desfalques, como Gallo no ataque rubro-negro. A única fonte que achei foi do Jornal do Commércio, que fala sobre o jogo e até descreve os gols. Vamos então para o terceiro Fla-Flu da história. Afinal, como escreveu Nelson Rodrigues, o Fla-Flu foi criado 40 minutos antes do nada.
No campeonato carioca de 1913, Flamengo começou o torneio com duas derrotas, antes de vencer Paysandu 3×2, Mangueira 11×0 e Bangu 4×0. Agora era o dia do Fla-Flu. Mas a cidade, ainda não apaixonada pelo esporte bretão, quase não percebeu o momento de história. Em 3 de agosto de 1913, para o jogo no General Severiano, casa do Botafogo, o Ground Committee liderado por Píndaro de Carvalho escalou Flamengo assim: Baena; Píndaro, Nery; Lawrence Andrews, Amarante, Gallo; Pinho, Gumercindo, Pedro Alves, Baiano, Borgerth.
Obviamente sem imagens do jogo, eu vou apenas citar alguns trechos da matéria do Jornal do Commércio, bem no estilo da época. Por isso também, decido preservar a ortografia antiga, já no pré-jogo: “O jogo mais importante dos realizados domingo ultimo para a disputa do campeonato do Rio de Janeiro foi o do match Flamengo ‘versus’ Fluminense, effectuado no campo da rua General Severiano. Uma numerosa assistencia, avaliada numas 2.000 pessoas, affluio às elegantes archibancadas e demais dependencias daquella nova praça de sports do Botafogo F.C parar apreciar o tão fallado encontro entre os dous clubs rivaes”.
O primeiro tempo viu um jogo equilibrado em campo e uma dominação total do Flamengo no placar. Prosseguiu o Jornal do Commércio: “Na primeira parte do jogo, que foi bastante movimentada e cheia de lances mais ou menos emocionantes, o Fluminense se não conseguio abrir o seu score, enquanto que o valoroso team do club nautico marcava tres bellos goals, sob delirantes acclamações dos seus numerosos partidarios. Estes pontos do Club de Regatas do Flamengo foram conseguidos por Bahiano, Gumercindo e Pinho”.
No segundo tempo, Fluminense acreditou na virada. O Tricolor “consegue marcar o seu primeiro goal” com Baptista, que ainda fez um segundo gol, “off-side” segundo o Jornal do Commércio. Borgerth, o artilheiro do Flamengo e líder da dissidência com Fluminense, de uma certa forma o criador do Fla-Flu, entrou em ação: “Borgerth, recebendo a bola da extrema-direita, dribla a defesa contraria e com shoot firme augmenta o score do seu club”.
Flamengo vencia 4×1 e era o dono do jogo, o dono do Fla-Flu. Já respeitando sua tradição, o rubro-negro ainda queria fazer gols e continuou a atacar. Descreveu a matéria: “Pouco depois Bahiano apanhando a bola, tendo os backs pela frente, dribla estes e manda um shoot que resulta em goal, porém o referee, não sabemos porque, anulla esse ponto. O 5o ponto do Flamengo foi feito com um bello kick por Gumercindo e o 6o e ultimo por Borgerth, sendo o Club de Regatas delirantemente applaudido pela assistencia”.
O último gol do Tricolor apenas definiu o placar: 6×3 para o Mengo. O rubro-negro vencia o terceiro Fla-Flu da história, o segundo de goleada. Flamengo ainda venceria os seis confrontos seguintes, até um empate 1×1 em 1915. Os torcedores do Fluminense falam que ganhar Fla-Flu é normal. Discordo. Mesmo com as estatísticas de nosso lado, ganhar Fla-Flu sempre é especial, isso desde 1912 e a abençoada fundação do Flamengo.
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Jogos eternos #424: Internacional 0x2 Flamengo 2025

Apesar do empate frustrante contra o São Paulo, Flamengo conseguiu reduzir a diferença sobre o líder Palmeiras. O sonho de conquistar o decacampeonato brasileiro segue bem vivo. Antes do jogo contra o Internacional, lembro de um outro jogo contra o Inter de um ano atrás só, numa outra competição, no caminho do tetra da Copa Libertadores.
Na Copa Libertadores de 2025, Flamengo sofreu na fase de grupos, com os mesmos 11 pontos que a LDU Quito e Central Córdoba, se classificando graças ao saldo de gols. No jogo de ida das oitavas de final, Flamengo venceu 1×0 o Internacional no Maracanã, um placar magro, que deixava tudo aberto para a volta no Beira-Rio. Flamengo conhecia o caminho. Três dias antes do jogo, o rubro-negro já tinha vencido o clube colorado em Porto Alegre, dessa vez no campeonato brasileiro. Em 20 de agosto de 2025, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro, Saúl, Jorginho, Arrascaeta; Gonzalo Plata, Samuel Lino, Bruno Henrique.
Com muitos papéis picados jogados em campo pela torcida, o jogo teve de ser atrasado de 21 minutos, tempo para os funcionários limparem o gramado. No frio gaúcho, Flamengo começou melhor. Arrascaeta fez um ótimo passe para Varela, que finalizou para fora. Na metade do primeiro tempo, Bruno Henrique abriu de trivela para Samuel Lino na esquerda. O ponta fintou, pedalou e chutou. O goleiro Rochet errou na defesa e a bola seguiu viva no outro lado, até Plata que fez o passe de cabeceio. De primeira, Arrascaeta esticou a perna e mandou na rede. Flamengo calava o Beira-Rio e já abria o placar.
Ainda no primeiro tempo, Bruno Henrique foi lançado sozinho em profundidade e quase definiu o confronto com um segundo gol, finalmente anulado por impedimento. No segundo tempo, o Internacional passou a ameaçar um pouco mais o gol de Rossi, sem fazer o gol do empate no jogo, muito menos o do empate no geral ou o da classificação. Para o Flamengo, teve uma jogada idêntica àquela do final do primeiro tempo. Bruno Henrique foi lançado em profundidade, quase saindo da parte do campo do Flamengo, e venceu o goleiro no cara a cara. De novo, o gol foi anulado por um impedimento de centímetros. Faltava pouco para ver o Flamengo definitivamente triunfar em terras gaúchas.
O técnico Filipe Luís mexeu. Bruno Henrique, autor do gol na ida, saiu aplaudido pela torcida rubro-negra e deixou seu lugar para Pedro, que tinha feito dois gols no Beira-Rio no Brasileirão três dias antes. No final do jogo, o técnico rubro-negro fez outras trocas, com a entrada de Luiz Araújo no lugar do Arrascaeta, autor do gol do dia. E cinco minutos depois, Samuel Lino abriu na esquerda para Luiz Araújo, que cruzou no chão. A bola chegou mansamente na segunda trave até Pedro, que só teve de colocar o pé para empurrar na rede. Era o gol da vitória, da classificação. Com muita autoridade e tranquilidade, Flamengo eliminava o Internacional, repetindo o feito de 2019. O sonho de um tetracampeonato sul-americano seguia vivo.
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Jogos eternos #423: Flamengo 2×1 São Paulo 2009

Antes do jogo de hoje contra São Paulo, Flamengo tem 7 pontos a menos que o líder Palmeiras. Falta ainda um turno inteiro – e mais um jogo para Flamengo, para conseguir o primeiro lugar. Ou seja, cada jogo é importante, mas ainda tem muito tempo.
Em 2009, a situação era mais desesperada e, com três quartos do campeonato já disputados, quase ninguém ousara sonhar com o título. O objetivo mais realista, já grande, era uma classificação para a Copa Libertadores. Apesar da boa fase, Flamengo estava apenas no 8o lugar, 12 pontos a menos que o líder, na época já Palmeiras. O hexa era improvável.
O próximo adversário do Mengo era um gigante e hexacampeão, São Paulo, que tinha vencido os três últimos campeonatos nacionais. Em 2009, estava na vice-liderança e sonhava com um tetra consecutivo. O jogo prometia ser equilibrado. Em 10 de outubro de 2009, o técnico Andrade escalou Flamengo assim: Bruno; Everton Silva, Álvaro, Ronaldo Angelim, Juan; Maldonado, Willians, Petkovic; Zé Roberto, Everton, Dênis Marques. Sem Adriano, convocado com a Seleção brasileira, o maior protagonismo caiu nas costas do veterano Dejan Petkovic, que vivia uma nova e excelente fase com a chegada no banco do ídolo Andrade.
A chuva quase ininterrupta nos dias anteriores impediu que o Maracanã ficasse completamente lotado. Mesmo assim, tinha 57.210 pagantes e 60.280 presentes no estádio. Flamengo dominou o início do jogo, com duas oportunidades para Dênis Marques, sem achar a rede. Petkovic apareceu no lado esquerdo, fez bom passe para Juan, que pegou de voleio, de novo fora do gol de Rogério Ceni. Na metade do primeiro tempo, São Paulo finalmente conseguiu levar perigo. Dagoberto lançou Hernanes, que dominou perfeitamente, até driblando o goleiro Bruno. O Profeta só teve que empurrar na rede vazia para abrir o placar, contrariando a fisionomia do jogo e as esperanças da Nação.
Flamengo estava atrás mas não se desanimou, nem o Maracanã. Zé Roberto, outro jogador rubro-negro em grande fase, escapou na direita e cruzou. Rogério Ceni fez a defesa parcial, a bola voltou para Juan, que chutou com o pé direito. Ceni foi vencido, mas Renato Silva salvou em cima da linha. De 30 metros, Everton Silva soltou a bomba, Rogério Ceni fez a defesa, o Maraca dobrou o apoio ao Mengo. Num longo cruzamento de Pet, Ronaldo Angelim fez um ótimo cabeceio, mas Rogério Ceni salvou mais uma vez. Ainda não era a hora do Magro de Aço se eternizar no Flamengo. O intervalo acabou assim, com uma vantagem de um gol para São Paulo, que ameaçou apenas uma vez a meta rubro-negra. Do outro lado, o Flamengo lutou muito, mas Rogério Ceni parou tudo. Parecia esse tipo de jogo em que o ídolo são-paulino era simplesmente invencível.
O segundo tempo começou igualmente: chute de um jogador rubro-negro, defesa do goleiro tricolor. O técnico Andrade mexeu, com as entradas em campo de Toró e Bruno Mezenga. Num lateral, Bruno Mezenga brigou na dividida de cabeça, a bola ficou livre na grande área, Toró chegou primeiro, Jorge Wagner chegou atrasado e cometeu o pênalti. Era um duelo de ídolos veteranos entre Petkovic, especialista em bolas paradas, e Rogério Ceni, também mestre neste quesito, tanto em defesas quanto em cobranças. De 11 metros, Petkovic chutou, e mais uma vez Rogério Ceni defendeu, calando por um segundo o Maracanã. Só que Ceni, especialista também nisso, se adiou e o juiz mandou tirar de novo. Petkovic tinha outra chance.
Quando o pênalti se repete, acho que o cobrador perde a vantagem natural. Fica a dúvida: chutar no mesmo canto, com nova possibilidade de errar, ou trocar de lado, também com o risco de perder. Petk escolheu outro caminho, chutou no meio do gol, com uma cavadinha espetacular, humilhando Rogério Ceni. Para mim, é uma das cavadinhas mais sensacionais da história do futebol, num estilo próximo ao do Benzema na Liga dos campeões contra Manchester City em 2022. No meu top 5 de panenkas, como se chama na minha França, tem aquela do Petkovic contra São Paulo, junto com outros especialistas, como Pirlo, El Loco Abreu, Benzema e Zidane.
Flamengo empatou e o Maracanã explodiu, cantou até o final do jogo. Na arrancada de 2009, o Maraca fez muita diferença, ganhou jogos quase sozinho. Claro, também tinha alguns craques em campo. No minuto seguinte, Rodrigo chegou sozinho na grande área flamenguista, mas errou feio no chute. O Maracanã cantou ainda mais, comemorou mais forte. Mesmo com o empate no placar, a vitória parecia já ser do Mengo. Num chute de longe de Pet, Rogério Ceni brilhou mais uma vez e adiantou a glória rubro-negra.
E a glória chegou no Maracanã. Faltando 10 minutos para o final do jogo, Bruno Mezenga fez um passe lindo de peito para Petkovic. O Maestro dominou, acelerou, esperou e fez o passe mágico de pé esquerdo, no espaço certo, no momento certo. Zé Roberto só teve que chutar de primeira. Nem tocou perfeitamente na bola, que venceu o Ceni e chegou mansamente na rede do Tricolor. Era o gol da virada, da alegria, da euforia. Com uma atuação impecável de Petkovic, Flamengo vencia mais um jogo e prolongava o sonho da Libertadores. E talvez neste dia, dentro dos 60 mil iluminados no estádio Mário Filho, alguns já sonhavam com uma glória ainda maior.
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Jogos eternos #422: Chapecoense 1×3 Flamengo 2015

Finalmente, o Flamengo está de volta em campo. Depois de um mês e meio de parada por causa da Copa, Flamengo reestreia hoje no Brasileirão, contra Chapecoense. Depois do primeiro turno, Flamengo está na segunda colocação, já com 7 pontos a menos (e uma rodada a menos) que o líder Palmeiras. Por sua vez, a Chapecoense é a lanterna, com apenas uma vitória em 18 jogos. A vitória do Flamengo na Arena Condá é uma obrigação.
Em 2015, a situação era diferente no fim do primeiro turno. Flamengo era bem mediano, com 23 pontos e um 13o lugar na tabela. A Chape, na sua segunda participação no Brasileirão, era um pouco melhor, o nono colocado com 28 pontos. No início do segundo turno, Oswaldo do Oliveira substituiu Cristóvão Borges como técnico e o Flamengo mudou, conseguindo cinco vitórias consecutivas. Contra Cruzeiro, um jogo eterno no Francêsguista, Flamengo venceu 2×0 com golaços de Alan Patrick e Luiz Antônio. O Mengão estava de volta no G-4 pela primeira vez desde 2011.
Para o jogo contra Chapecoense, Flamengo ainda não tinha à disposição Paolo Guerrero, lesionado no tornozelo, e Alan Patrick, suspenso. Ederson, que faltou vários jogos por causa de uma lesão na coxa direita, estava de volta no grupo. Em 13 de setembro de 2015, o técnico Oswaldo de Oliveira escalou Flamengo assim: Paulo Victor; Pará, César Martins, Samir, Jorge; Márcio Araújo, Héctor Canteros, Éverton; Paulinho, Marcelo Cirino, Kayke. Do lado da Chapecoense, tinha alguns ídolos que morreram um ano depois na tragédia do voo LaMia, como o goleiro Danilo, o meia Cléber Santana e o artilheiro Bruno Rangel.
Na Arena Condá, Flamengo começou melhor e precisou de apenas 11 minutos para abrir o placar. César Martins cruzou na direita, Paulinho pegou de voleio e quase destruiu a gaveta. Ao lado de Paulinho, César Martins foi o nome do primeiro tempo. Com 33 minutos, desarmou um jogador e fez o toque leve de cobertura, Kayke desviou de cabeça para Marcelo Cirino na grande área. O camisa 7 girou e fez o passe atrás no espaço livre para Canteros. A jogada foi linda na construção e igualmente na finalização. Canteros achou a outra gaveta de Danilo para mais um golaço do Flamengo.
No segundo tempo, a Chapecoense voltou melhor e passou a dominar o jogo, conseguindo um pênalti marcado por Daronco. Na cobrança, o artilheiro e capitão Bruno Rangel chutou na direita, Paulo Victor ficou no meio e tomou o gol. A série de vitórias rubro-negras estava em risco. Faltando dois minutos para o final do jogo, Flamengo fez o contra-ataque rápido, Ederson, que saiu do banco dez minutos antes, fez o passe para Kayke, que venceu Danilo e fez o gol que decretou a vitória.
Flamengo conseguia uma sexta vitória seguida e igualava seu recorde de 1978 e 1982, com adversários bem mais modestos. O Mengo ficava no G-4 e sonhava com a volta à Copa Libertadores. Porém, o final do campeonato foi muito ruim: duas vitórias, dois empates e nove derrotas, que custaram ao Oswaldo de Oliveira seu emprego. Flamengo fechou o Brasileirão no 12o lugar, muito longe de uma classificação na Copa Libertadores. Já o recorde de vitórias consecutivas seria superado em 2019, o Flamengo de Jorge Jesus alcançando oito triunfos seguidos. Mas isso é outra história…
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Jogos eternos #421: Guarani 0x1 Flamengo 2004

A reestreia do Flamengo no Brasileirão se aproxima e aproveito a data para eternizar um último jogo aniversariante. Na semana passada, escolhi um jogo contra Vasco em 2008 e escrevi que o Flamengo dos anos 2000 era imprevisível. Além do vexame da Copa Libertadores, Flamengo estava na liderança do Brasileirão com 5 pontos a mais que o segundo colocado, mas fracassou e perdeu o título.
E teve pior, no início da década, Flamengo lutou várias vezes contra o rebaixamento. No Brasileirão de 2004, Flamengo teve que esperar a 9a rodada para finalmente vencer um jogo! A sequência seguinte foi um pouco melhor e logo depois, Flamengo voltou a mergulhar na crise. Teve três derrotas seguidas, duas em casa contra Vasco e Juventude, sem sequer fazer um gol. O técnico Abel Braga não resistiu a mais uma vergonha e foi demitido. Como interino, foi chamado um ídolo e campeão, Andrade.
Antes do jogo contra Guarani, Flamengo estava simplesmente na 24a e última colocação, com apenas 12 pontos em 16 rodadas. Guarani estava só um pouco melhor, na 20a colocação, com 16 pontos. O jogo já era uma questão de vida ou morte. Em 20 de julho de 2004, o técnico Andrade escalou Flamengo assim: Diego; Gauchinho, Henrique, Fabiano Eller, Roger; Da Silva, Ibson, Douglas Silva, Jônatas; Jean, Whelliton. Com certeza, uma das piores escalações da história do Flamengo, com apenas Ibson se salvando.
Antes da partida, o técnico interino Andrade recebeu do Japão o apoio do amigo e maior ídolo rubro-negro, Zico: “Torcemos pelo amigo Tromba. Que Deus lhe ilumine”. Com uma frase só, a fase do Flamengo já tinha mudado. Porém, ainda era um time com nenhuma confiança, com quase nenhum craque. No frio de Campinas, com apenas 2.703 pagantes no Brinco de Ouro, o jogo foi ruim, o Flamengo também. “A defesa continua confusa. O meio-campo, sem criatividade. E o ataque, uma nulidade”, até escreveu o Jornal do Brasil.
No primeiro tempo, Flamengo teve apenas uma chance. A palavra agora para o Jornal dos Sports: “Sem qualquer inspiração, o time rubro-negro pouco criou. Ibson se encarregou de perder uma oportunidade com a bola rolando. Todas as outras surgiram em cobranças de faltas endereçadas à arquibancada do estádio pelo cabeça-de-área Douglas Silva. Triste sina. Pior mesmo somente as falhas do zagueiro Henrique, que teve sua atuação salva pelas defesas milagrosas de Diego, em noite para lá de inspirada”.
No início do segundo tempo, quase um replay do lance do primeiro tempo, Whelliton para Ibson na direita. O meia chutou cruzado, de trivela, e, dessa vez, venceu o goleiro. Depois de 412 intermináveis minutos, Flamengo finalmente voltou a marcar. A salvação era Ibson mesmo. Apesar do gol, a fisionomia da partida não mudou. “O jogo continuou com o nível técnico baixo, como já havia sido no primeiro tempo, mas os jogadores rubro-negros mostrando pelo menos a disposição que a torcida exige”, prosseguiu o JDS. E o jogo acabou assim, sem brilho, mas com vitória, que foi insuficiente para tirar o Flamengo da última colocação.
Nas avaliações do Jornal dos Sports, o time teve uma nota média de apenas 3,69, o goleiro Diego sendo o melhor do jogo com nota 7. Nem o Ibson se salvou: “Acabou se perdendo na mediocridade do time. Só se encontrou quando fez o gol. Nota 5”. Assim, a maior figura do jogo era o técnico interino Andrade, “iluminado por Zico” segundo a manchete do Jornal dos Sports. “Essa vitória foi importante para devolver a confiança aos jogadores. Não posso esconder que sonho continuar como técnico”, revelou Andrade depois do jogo. Não foi realmente o caso. Ainda em 2004, o Tromba voltou duas vezes como interino depois do fracasso dos técnicos PC Gusmão e Ricardo Gomes. Andrade garantiu a permanência e só foi efetivado cinco anos depois, na glória do Hexa. Era o fim do tenebroso Flamengo dos anos 2000.
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Jogos eternos #420: Flamengo 5×2 Campo Grande 1982

O Campo Grande sumiu do mapa do futebol carioca, mas foi um clube importante da Cidade Maravilhosa nas décadas de 1960 até de 1980. Teve seu maior título em 1982 quando conquistou a Taça Prata, na época a Série B do campeonato brasileiro. Para a crônica do dia, eu vou justamente de um jogo de 1982, na estreia do campeonato carioca.
O jogo aconteceu duas semanas depois da Tragédia do Sarriá, quando a Seleção brasileira foi eliminada da Copa. Zico, Júnior, Leandro e os outros voltaram mais cedo para casa. O jogo contra Campo Grande marcou a reestreia com o Manto Sagrado da dupla Zico – Júnior. “No Flamengo reaparecem Zico e Júnior. Normalmente os jogadores que reaparecem depois de longa permanência em seleção brasileira, especialmente em Copa do mundo, jogam mal”, previa Washington Rodrigues no dia do jogo para sua crônica no Jornal dos Sports. E Leandro ficava fora do jogo.
Há uma frase conhecida do grande presidente rubro-negro George Helal sobre Leandro: “No auge da carreira, Leandro chegou na minha sala para renovar o contrato e, assinou em uma folha A4 em branco dizendo: ‘os valores não importam, o fundamental é jogar no Flamengo’”. Pesquisando nos jornais da época, a realidade parece menos romântica. Leandro esperou a Copa para renovar no Flamengo, apostando com boas atuações para ter um aumento salarial. Porém, não foi completamente o caso e depois da Copa, teve um impasse entre o pai do jogador e a diretoria do Flamengo.
Vale lembrar que o presidente do clube na época não era George Helal, mas Antônio Augusto Dunshee de Abranches, que um ano depois cometeria o crime de vender Zico. Em 1982, foi o vice-presidente Eduardo Motta que denunciou a atitude de Leandro: “Antes da Copa, tínhamos uma estrutura montada. Oferecemos ao Leandro as mesmas garantias oferecidas a Júnior e Zico. Ele porém, preferiu valorizar a coisa, causando alguns pequenos problemas, se preocupando com detalhes que consideramos insignificantes. Então, ele foi o grande culpado do negócio ter melado. Só podemos pagar o que oferecemos. O restante era da publicidade, que agora não existe mais em virtude da retração do mercado”. A oferta da diretoria passou assim de 2,2 milhões de cruzeiros mensais para 1,2 milhão de cruzeiros. Uma queda de quase a metade do valor.
Segundo a imprensa, o pai de Leandro chamou Eduardo Motta de “maluco”, o que ele negou. O presidente do Flamengo não gostou e o proibiu de entrar na sede do clube, ainda falando que “Leandro, se não estiver satisfeito pode começar a procurar clube”. Mais uma vez, Eduardo Motta detalhou as negociações com o pai de Leandro: “Ele exigiu que o Flamengo ficasse com o compromisso de pagar o Imposto de Renda, o que não concordei e ele começou a discutir comigo. Vendo que não havia acordo, rasguei o local onde Leandro já havia assinado […] O Flamengo não mudou nada. Continuamos oferecendo ao Leandro o mesmo que propusemos na última vez. Acontece que as empresas que cobriram a diferença estão em fase de retraimento, já que o Brasil não se sagrou campeão do mundo. O grande culpado desta situação foi o Leandro mesmo”.
Assim, o passe de Leandro foi colocado à venda e teve ameaças de o vender para Olaria, que jogava na segunda divisão do campeonato carioca, também de não inscrever o jogador na lista para a Copa Libertadores. Por sua vez, Leandro ficou firme: “Gosto muito do Flamengo, acho sua diretoria excelente, mas pelo que me foi oferecido é impossível. Estou tranquilo e disposto a parar de jogar até aparecer clube interessado em me contratar […] Errei quando coloquei meu pai como procurador. Agora eu mesmo discuto a questão com a diretoria”. Desse jeito, Leandro ficou fora do jogo contra Campo Grande. Em 18 de julho de 1982, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Cantarele; Antunes, Marinho, Figueiredo, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Peu.
No Maracanã, tinha um pouco mais de 30 mil pagantes e muito mais presentes. Com poucas bilhetarias disponíveis e a hora do jogo se aproximando, vários torcedores invadiram o Maracanã. A Nação tinha saudade de seu time e de seus craques. E Zico precisou de apenas oito minutos para mostrar que, mesmo não sendo campeão do mundo com a seleção, era o ídolo de sempre. Bem lançado por Adílio, Zico antecipou a saída do goleiro e fez o toque leve de cobertura para abrir o placar. E se Zico não estava na finalização, estava na criação. Com 20 minutos de jogo, Nosso Rei fez um lindo toque de trivela para Lico. No bate-rebate, a bola chegou até o pé de Peu, que chutou firme para fazer o segundo gol rubro-negro do dia. Antes do intervalo, o Campo Grande conseguiu um gol, também de cobertura, Neném surpreendendo Cantarele.
No segundo tempo, de novo o astro de Zico brilhou mais que o dos outros. Na criação, Zico fez outro passe sensacional de trivela para Peu, que antecipou a saída do goleiro e conseguiu o pênalti. Na finalização, Zico chutou bem, a meia altura, e converteu o pênalti para fazer seu segundo gol do jogo. Zico aparecia muito no jogo e Júnior nem tanto, até fazer o golaço do dia. O goleiro de Campo Grande afastou o perigo com o punho, a bola quicou uma vez e chegou até Júnior, que, de fora da área, pegou de voleio, com um lindo chute indo embaixo do travessão.
O Flamengo se relaxou um pouco e tomou mais um gol, com uma falha de Antunes que, claro, Leandro não faria. Já nos acréscimos, Wilsinho acelerou na direita, driblou um e cruzou. Zico não conseguiu tocar na bola, Adílio pegou de voleio e decretou o placar final: 5×2. O jornalista Washington Rodrigues estava errado. Talvez os jogadores normais decepcionassem na reestreia depois da Copa, mas Zico e Júnior eram craques fora de série. Para o Jornal do Brasil, o melhor do jogo foi Zico, para o Jornal dos Sports, foi Júnior. Empate entre os dois craques.
Para fechar a crônica, falo sobre o outro craque Leandro e sua novela que se estendeu por mais dez dias. O final foi feliz, Leandro assinou um novo contrato, mostrou que o caso não era sobre dinheiro, como ele mesmo explicou e provou: “Renovei por 12 meses. Estou feliz porque adoro o Flamengo e não queria mesmo sair daqui. Assinei em branco, acreditando que o presidente vai me pagar o que mereço. Se for Cr$ 100 mil, Cr$ 500 mil ou Cr$ 2 milhões, jogarei sem problemas. Assinei em branco porque confio nele. Posso dizer apenas que não há publicidade no contrato”. George Helal estava certo, mesmo no auge, Leandro assinava em branco, o fundamental era jogar no Flamengo. O camisa 2 ainda falou na renovação: “Não importa quanto vou receber, e sim o fato de continuar na Gávea”. A diretoria de Dunshee de Abranches vencia uma batalha contra um ídolo, aplicou um ano depois a mesma estratégia de (não)pagamento de salários por patrocinadores com Zico e voltou atrás da palavra. E dessa vez, o final foi bem trágico…
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Jogos eternos #419: Flamengo 3×1 Vasco 2008

Ainda sem jogos oficiais do Flamengo, aproveito mais uma vez a data para comemorar outro jogo aniversariante. E mais uma vez, escolho o maior rival do Flamengo, o Vasco, que sempre é bom de derrotar, ainda mais para ficar na liderança do Brasileirão.
Em 2008, Flamengo viveu um de seus maiores traumas, com a eliminação da Copa Libertadores contra o América de México em pleno Maracanã. Apesar da derrota, Flamengo tinha um grande time e começou bem o Brasileirão, com 7 vitórias, dois empates e apenas uma derrota nos dez primeiros jogos. Flamengo era o líder do campeonato, mas era ainda o Flamengo dos anos 2000. Antes do jogo contra Vasco, o técnico Caio Júnior recebeu uma proposta milionária do Catar e ainda não tinha dado uma resposta. Pior ainda, depois do empate contra o Atlético Mineiro, os jogadores Marcinho, Bruno e Diego Tardelli foram surpresos numa festa com prostitutas. Marcinho também foi acusado de agressão a uma garota de programa. Os jogadores foram multados e o clima na Gávea ficou pesado.
Ainda por causa do vexame na Libertadores, a torcida rubro-negra colocou em cada jogo uma faixa com uma mensagem simples e direta: “O Brasileiro é obrigação”. A faixa até incomodava os jogadores, mas ficou na arquibancada. A vitória em cima do Vasco virou uma dupla, talvez tripla obrigação: vencer o clássico, ficar líder, alegrar a Nação. Em 13 de julho de 2008, o saudoso técnico Caio Júnior escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Ronaldo Angelim, Fábio Luciano, Juan; Airton, Jônatas, Cristian, Ibson; Marcinho, Souza.
Fora dos últimos dois jogos por causa de uma lesão muscular, Ibson estava de volta e melhor ainda, com empréstimo renovado até o final do ano. Com 7 minutos de jogo, Ibson fez lindo lançamento para Juan, que dominou de peito, invadiu a grande área e sofreu o pênalti. Na cobrança, o mesmo Ibson, com categoria, para pegar no contrapé o goleiro e abrir o placar. O Maraca explodiu na maioria dos seus 63.611 pagantes, recorde da edição do Brasileirão até aqui.
No final do primeiro tempo, Cristian cobrou uma falta na grande área vascaína, o goleiro Tiago e o zagueiro Eduardo Luiz se desentenderam, o capitão rubro-negro Fábio Luciano aproveitou para fazer um lindo gol de voleio. O golaço do dia chegou porém na metade do segundo tempo. O centroavante Souza tentou driblar na grande área e sem espaço, recuou para Juan. O lateral fez o mesmo: tentou o drible e foi forçado a fazer o passe atrás para Cristian, a 30 metros do gol. O meia nem pensou de drible ou de jogada de efeito. Dominou a bola e mandou a bomba. O goleiro reagiu tarde demais, a bola foi morrer no ângulo para matar o Vasco. De todos os ângulos, foi um golaço. Era o segundo gol de Cristian com o Manto Sagrado, o último também, já que deixou o clube no mês seguinte.
A vitória estava certa e a torcida podia comemorar, torcer para um campeonato que não vinha desde 1992. O gol vascaíno, do jovem Alex Teixeira com passe do veterano Edmundo, nem assustou. Flamengo era o dono do Clássico dos Milhões, era o dono do campeonato, com 5 pontos de vantagem sobre o vice-líder. Porém, era ainda o Flamengo dos anos 2000. Caio Júnior recusou a proposta do Catar, mas o time perdeu durante o campeonato jogadores importantes como Renato Augusto, Marcinho e Souza. Depois da vitória contra Vasco, o Mengo marcou apenas dois pontos nos 7 jogos seguintes. A polêmica faixa tinha que ficar na arquibancada do Maracanã por mais um ano.
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Jogos eternos #418: Flamengo 3×0 Santos 1993

Na última crônica, eternizei um Flamengo x Santos no Brasileirão de 1992, conquistado dias depois pelo Flamengo. Hoje, eu avanço de um ano e dois dias para eternizar um outro Flamengo x Santos, no Torneio Rio-São Paulo.
O Torneio Rio-São Paulo foi idealizado pelo também eterno Mário Filho e teve sua primeira edição em 1933. Consolidou-se nos anos 1950-1960, com a construção do Maracanã e um conjunto de craques nunca visto antes e depois na história do futebol brasileiro. Inclusive, acho que no dossiê de reunificação dos campeonatos brasileiros em 2010, o Torneio Rio-SP poderia ter sido incluído. Flamengo venceu de forma não-oficial o torneio de 1940, que não teve fim, e em 1961, com atuação mágica de Dida no jogo eterno contra o Corinthians. Em 1966, o torneio de novo não teve desfecho. Um ano depois, outros estados foram representados na competição, que virou o torneio Roberto Gomes Pedrosa.
Em 1993, com um buraco no calendário antes do início do Brasileirão, o Torneio Rio-São Paulo voltou depois de 27 anos de ausência. O Jornal dos Sports viu “a restauração de uma tradição do futebol brasileiro”. Foi um torneio curto, com apenas 8 times. Dos gigantes cariocas e paulistas, apenas o São Paulo FC, com um calendário já cheio, não participou e foi substituído pela Portuguesa.
No Torneio Rio-SP, Flamengo estreou com um empate 1×1 no Fla-Flu, gol de Renato Gaúcho, que em 1995 vestiu a camisa do Fluminense e fez gol contra o próprio Flamengo. Depois, Flamengo fez outro empate 1×1, contra Palmeiras, gol de Djalminha, que em 1996 vestiu a camisa do Palmeiras e fez gol contra o próprio Flamengo. Em 1993, Djalminha fazia seus últimos jogos com o Manto Sagrado quando Renato Gaúcho voltava à sua terceira passagem no Mengo. E voltou fazendo o que sabia fazer: em 14 jogos, fez 8 gols.
A final do Brasileirão de 1992 foi disputada entre dois cariocas mas o início do Torneio Rio-SP viu uma dominação paulista nos jogos interestaduais. O empate 1×1 entre Flamengo e Palmeiras foi a única vez que um clube carioca escapou de uma derrota contra o paulista em 4 jogos. Assim, antes do jogo Flamengo x Santos, o clube carioca ainda buscava a primeira vitória da edição em cima dos paulistas. Em 10 de julho de 1993, o técnico Evaristo de Macedo escalou Flamengo assim: Gilmar; Fábio Baiano, Júnior Baiano, Rogério, Piá; Fabinho, Marquinhos, Luís Antônio, Rodrigo Mendes; Marcelinho Carioca, Renato Gaúcho.
Sem o Maracanã, fechado depois da tragédia durante a decisão do Brasileirão, o estádio escolhido também era tradicional mas bem menos histórico, o Caio Martins em Niterói. E o Mengo precisou de apenas 19 minutos para fazer um gol. Na esquerda, Luís Antônio cruzou alto, Renato Gaúcho, sozinho na segunda trave, só teve de cabecear para abrir o placar. O resto do primeiro tempo só teve uma anedota, relatada pelo Jornal dos Sports: “De destaque ainda no primeiro tempo apenas um perturbador torcedor, provavelmente vascaíno, que do prédio em frente ofuscava a visão do goleiro Gilmar com reflexos de um espelho. A Polícia Militar agiu e o torcedor sumiu”.
No segundo tempo, Flamengo voltou a dominar e Renato Gaúcho ainda foi a maior figura do jogo. “A superioridade só não foi transformada em gols em razão da boa atuação do goleiro Gomes e do azar do Flamengo nas finalizações”, prosseguiu o Jornal dos Sports. Só nos cinco minutos finais, Flamengo garantiu a vitória. Luís Antônio lançou Renato Gaúcho, que cruzou no chão na segunda trave, para o gol fácil de Marcelinho. Três minutos depois, num cruzamento de Piá, Renato Gaúcho dominou de peito, mas não conseguiu finalizar. A bola escapou até Luís Antônio, que fintou de pé esquerdo e finalizou de pé direito. “Era Flamengo 3 a 0 e agora sim o placar mostrava a verdadeira superioridade que o time teve durante todo o jogo”, finalizou o Jornal dos Sports.
Porém, Flamengo perdeu o Fla-Flu seguinte e ainda perdeu o jogo decisivo contra o mesmo Santos. Conhecia uma quarta eliminação depois de ficar fora da Copa Libertadores, da Copa do Brasil e do campeonato carioca. Os outros cariocas também decepcionaram e a final do Torneio Rio-São Paulo foi o Derby Paulista entre o Corinthians e Palmeiras. Para Flamengo, sobrou apenas a artilharia geral para Renato Gaúcho…








