Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #395: Flamengo 2×1 Vasco 1983

    Jogos eternos #395: Flamengo 2×1 Vasco 1983

    Ainda amargado com o último jogo entre Flamengo x Vasco, um empate com sabor de derrota, eu vou para a crônica do dia de um jogo aniversariante, que completa hoje 43 anos. Um Clássico dos Milhões com final feliz, tanto no jogo quanto no campeonato com a conquista do Tri.

    No Brasileirão de 1983, Flamengo e Vasco se enfrentaram nas quartas de final. Talvez o Clássico dos Milhões mais importante da história do Brasileirão. Os dois times já se enfrentaram meses antes na final do campeonato carioca de 1982, com final feliz para o Vasco. Em 5 de maio de 1983, o ainda novato técnico Carlos Alberto Torres escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Vítor, Adílio, Zico; Elder, Júlio César Barbosa, Baltazar.

    Como na última crônica, um Flamengo x Vasco de 1992, tinha muita gente no Maracanã: 111.260, apenas contando os pagantes. E como o jogo de 1992, teve muitas faltas: 42 apenas no primeiro tempo! Assim, teve chances de golaço de falta de Zico, mas o experiente goleiro Mazarópi foi bem na bola. Outra falta, mais da direita, mais para um cruzamento, mais com o pé mágico de Júnior. Elder cabeceou para fora e o placar ficou no 0x0.

    Aos 25 minutos, outra falta para o Flamengo, agora no círculo central, sem perigo imediato. Júnior cobrou rapidamente, para Vítor, para Zico, que dominou com o pé esquerdo e, com o pé direito, deixou de trivela para Júnior, já de olho no lance. De primeira, Júnior achou Adílio na profundidade. Com o fôlego de um meia e a finalização de um centroavante, Adílio venceu o Mazarópi e fez mais um gol decisivo contra Vasco, faria outros depois. Um golaço, um gol típico do tão inesquecível Flamengo de 1978 a 1983.

    O jogo foi muito violento, com uma falta absurda de Orlando sobre Zico, valendo um cartão amarelo mas era mais para ser vermelho direito. O juiz José Roberto Wright chamou os dois capitães, Roberto Dinamite e Zico, dois símbolos de classe e fair play. Pediu para um jogo menos violento antes de ser obrigado a dar cartões vermelhões num déjà-vu. No final do primeiro tempo, melhorou o futebol e melhorou o Vasco. Elói infernizou a defesa rubro-negra com dribles, Serginho chutou e Raul defendeu parcialmente. No duelo com Roberto Dinamite, Mozer conseguiu tocar a bola com a cabeça mas encobriu o próprio goleiro. No intervalo, Flamengo 1×1 Vasco.

    No segundo tempo, o jogo foi menos violento. Assim, Flamengo foi o mais perigoso. Escreveu o Jornal dos Sports no dia seguinte: “Os dois times voltaram mais soltos e isto beneficiou o Flamengo que deixava Zico e Adílio em liberdade para criar e provocar pânico na defesa do Vasco”. Porém, a primeira oportunidade do segundo tempo foi do Vasco. Mas Raul, perto da aposentadoria, defendeu bem a cobrança de falta de Marquinho.

    Na metade do segundo tempo, o técnico Carlos Alberto Torres chamou o Júlio César Barbosa para deixar seu lugar ao Gilmar Popoca na próxima saída de bola. Bola rolando, Marinho, em posição de ponta-direita, conseguiu um chapéu sobre Gilberto Coroa e cruzou. Mazarópi falhou na saída, a bola desfilou na pequena área vascaína e chegou até a esquerda. Júlio César esticou a perna, tocou na bola, deixou na rede. Flamengo voltou na frente no placar.

    Até o final do jogo, Zico quase fez de voleio, Roberto Dinamite quase fez de cabeceio, achando o travessão. Júlio César – ainda em campo, Carlos Alberto Torres preferiu substituir Baltazar após o gol – teve um cara-a-cara com Mazarópi, mas demorou muito para chutar. Adílio passou entre três adversários na grande área e chutou com o pé esquerdo, mas o goleiro vascaíno defendeu. Depois de último escanteio do Vasco, o Wright finalmente apitou o final do jogo e deixou feliz a maioria dos Milhões. Flamengo vencia, mais uma vez com grande jogo de Zico, “o melhor jogador da partida. Só não fez chover no Maracanã” segundo o Jornal do Brasil. Flamengo podia até perder de um gol de diferença na volta e se classificar para a semifinal. Com outro show de Adílio e Zico, o Mengo empatou e continuou a caminhar para o tricampeonato.

  • Jogos eternos #394: Flamengo 1×1 Vasco 1992

    Jogos eternos #394: Flamengo 1×1 Vasco 1992

    Flamengo não perde contra Vasco no Brasileirão desde 2015. Já são 15 jogos de invencibilidade. Porém, os três últimos jogos acabaram em empate. Para o jogo eterno do dia, eu vou então de um empate entre Flamengo e Vasco, no caminho do penta.

    No Brasileirão de 1992, os 20 times jogaram uma vez entre si, e os 8 primeiros se classificaram para a segunda fase. No primeiro Flamengo x Vasco do campeonato, ainda na primeira fase, o cruzmaltino venceu 4×2 com gols de Bebeto, duas vezes, Edmundo e Flávio. O Vasco disparou na liderança e Flamengo ficou no 13o lugar, ameaçado de ficar fora da segunda fase. Porém, sob a maestria do Vovô-Garoto Júnior, Flamengo arrancou e acabou no quarto lugar.

    Na segunda fase, tinha dois grupos de quatro times e apenas o primeiro se classificava para a final. Na estreia, Flamengo venceu São Paulo, mas logo depois perdeu contra Santos. Já o Vasco começou a fase com dois empates contra os mesmos times. O Clássico dos Milhões valia ouro. Quem perdia estava quase eliminado. “Desse duelo, só um sobreviverá”, escreveu Washington Rodrigues para o Jornal dos Sports. Talvez por isso o jogo ficou tão violento.

    E a violência começou antes mesmo do jogo. Teve brigas de torcidas organizadas nas ruas, apreensão de coquetéis molotov, barras de ferro e pedaços de pau nos ônibus, invasões em portões do Maracanã, cheio com 101.343 pagantes e mais de 130 mil presentes. Em 28 de junho de 1992, o nosso eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá; Uidemar, Júnior, Zinho, Nélio; Paulo Nunes, Gaúcho. O Vasco era o favorito do jogo, com um trio ofensivo impressionante: Bismarck, Bebeto e Edmundo.

    Já do lado do Flamengo, o principal nome era o de sempre: Júnior. Ainda mais que o Vovô-Garoto completaria 38 anos no dia seguinte e recebeu uma homenagem do Jornal dos Sports. A festa do pré-jogo foi realmente bonita, com show das duas torcidas. Mas em campo, teve pouca festa e ainda menos futebol. Com apenas dois minutos de jogo, Zinho cruzou, Luís Carlos Winck tocou a bola com a mão, mas o juiz nada marcou pênalti. Assim, inflamou o jogo, que foi quase só violência. Teve algumas faltas que hoje são impossíveis de imaginar. “No primeiro tempo do jogo vimos apenas pancadas e troca de socos e pontapés, diante do olhar complacente do árbitro”, escreveu Washington Rodrigues.

    Até a torcida reclamou da falta de futebol e do excesso de violência. Na sua crônica para o Jornal do Brasil, Cláudio Arreguy viu uma “vitória da arquibancada”: “A torcida foi a grande vencedora […] Ela, com sua sabedoria, conseguiu a proeza de fazer com que um jogo que caminhava para um triste desfecho, tamanha a violência exibida pelos jogadores em campo, melhorasse, ganhasse contornos do clássico que ele é e terminasse eletrizante […] Até então, o que eles tiveram de suportar eram botinadas de ambos os times, trocas de empurrões, peitadas e até uma cusparada de Eduardo em Nélio […] Foram momentos de tremor nas estruturas do velho estádio, cada torcida tentando gritar mais alto que a rival. E o futebol, que ainda não entrara em campo, surgiu com a emoção que uma casa cheia é capaz de proporcionar. Não um espetáculo de alto nível, com jogadas de arte. Mas, pelo menos, um jogo de velocidade, empenho, busca do gol”.

    O único ponto positivo das inumerosas faltas é que dava chances de gol. Ainda mais quando no time tem a figura de Júnior. O ex-lateral e agora meio de campo vivia uma fase exuberante, com vários golaços de falta no campeonato, contra o Atlético Mineiro, o Corinthians e o Internacional. Destaque para o primeiro gol, contra o Galo, num lugar do campo reservado aos craques, bem na esquerda, com muito pouco ângulo. Mesmo assim, Júnior conseguiu o golaço, com uma curva reservada aos craques. E do exato mesmo cantinho do campo, teve uma falta para o Flamengo no jogo contra Vasco. Júnior conhecia a curva e o efeito, conhecia tudo da bola. Bateu de pé direito e surpreendeu o goleiro Régis, que falhou. Com um golaço de seu capitão, Flamengo abria o placar no final do primeiro tempo.

    No segundo tempo, o futebol melhorou, apesar de ainda algumas faltas duras, afinal era o Clássico dos Milhões. Numa bola alta, Júnior Baiano antecipou a saída fraca de Gilmar e tocou de cabeça. Cássio recuperou, invadiu a grande área rubro-negra e tocou para Wilsinho, pronto para fazer o gol. Júnior, definitivamente o nome do jogo, chegou antes e foi quase forçado a fazer o gol contra, o gol do placar final.

    Com o empate, os dois times seguiam vivos para a classificação. O jogo seguinte, outro Flamengo x Vasco marcado três dias depois, prometia mais uma guerra, dentro e fora do campo: “Tomara que a gente assiste a futebol, nos 90 minutos. E que as torcidas não repitam o triste espetáculo na saída do estádio, quando resolveram brigar e ameaçar a muitos que nada tinham a ver com a história”, concluiu Washington Rodrigues. A festa nas arquibancadas submetia-se a muitos, mas a festa do futebol em campo dependia apenas de alguns craques, como Júnior, o Vovô-Garoto de agora 38 anos.

  • Ídolos #51: Edílson

    Ídolos #51: Edílson

    Dos ídolos rubro-negros dos anos 1990 ou do início dos anos 2000, eu conheci muitos sendo ‘francês’, ou seja, conhecendo-os porque jogavam na Europa ou eram jogadores da Seleção. Edílson, que jogou pouco na Europa, é um deles. Ele também é minha memória mais antiga do Flamengo. Comecei a acompanhar o futebol brasileiro de clubes em 2005 e conhecer bem o elenco do Flamengo em 2007. Mas lembro que para a Copa do Mundo de 2002, eu tinha um carinho especial pelo Edílson porque jogava no Flamengo. Na verdade, nem jogava mais no Flamengo, mas nos quadrinhos Panini, bem famosos na França e que eu colecionava como todos os garotos, a ficha do Edílson indicava que jogava no Flamengo. E gostava do Edílson porque eu gostava do Flamengo. Ele é minha prova que eu era flamenguista antes de meus 10 anos, quem sabe antes de meu nascimento.

    Edílson da Silva Ferreira nasceu em 17 de setembro de 1970, em Salvador. Passou por clubes menores em vários estados do Brasil. No livro 2001, isso aqui é Flamengo de Claudio Portella e Roberto Assaf, Edílson lembra sua trajetória: “Jogava futebol amador em Salvador e recebi um convite de um treinador para jogar no Industrial, time da primeira divisão do Espírito Santo. Aceitei, fiquei um ano e me profissionalizei. Consegui fazer alguns gols no Campeonato Capixaba […] Meu tio me levou para fazer um teste no Vitória, mas o clube estava contratando Arthurzinho, que jogava na mesma posição, e não me deixaram treinar. Acabei aceitando uma proposta para ir para o Tanabi, do interior de São Paulo. Fui bem e o Guarani me contratou”. Quando chegou ao Guarani em 1992, já tinha 21 anos. Foi bem, inclusive com dois gols em cima do Palmeiras, e no ano seguinte, acabou contratado pelo próprio Palmeiras, um time que tinha, entre outros, Roberto Carlos, Zinho, Evair e Edmundo. Conquistou uma tríplice coroa em 1993 com o campeonato paulista, o torneio Rio – São Paulo e o Brasileirão. No jogo de ida da final, no seu Salvador natal, Edílson fez o único gol do jogo contra Vitória.

    Em 1994, Edílson conquistou mais um campeonato paulista e fez um dos gols mais bonitos da história do futebol brasileiro contra o Corinthians. Saiu da parte do campo do Verdão e driblou todo mundo antes de finalizar a pintura, ainda mais bela na voz de Silvio Luiz. Com seu futebol envolvente e irreverente, também ganhou o apelido de Capetinha, como ele próprio explicou: “Combina com o que eu fazia dentro de campo porque eu sempre fui um cara tranquilo no dia a dia. O apresentador Roberto Avallone, que era da TV Gazeta na época, colocava apelido nos jogadores. Colocou Animal no Edmundo, El Matador no Evair, Enceradeira no Zinho e começou a me chamar de Capetinha, e aí pegou”.

    Depois percorreu o mundo, jogou na Europa no Benfica. “Gostei muito de Portugal. Aprendi a gostar do Benfica. Eles me conhecem como o ‘Pequeno Grande Homem’, pois era baixinho e fazia coisas grandes dentro de campo. Lembro que tive uma despedida emocionante lá”, ainda lembra Edílson, que depois passou pelo Japão, seis anos antes da Copa. Brilhou e fez seus gols antes de voltar para o futebol brasileiro, agora no arquirrival do Palmeiras, o Corinthians. E de novo fez história num timaço, que tinha Gamarra, Vampeta, Ricardinho, Marcelinho Carioca e Luizão. Em 1998, foi eleito o melhor jogador do campeonato, que conquistou em cima do Cruzeiro. No jogo desempate, driblou o goleiro Dida, que já tinha martirizado na final de 1993, para abrir o placar e deixar o Timão perto da taça.

    Em 1999, provocou uma das maiores brigas do futebol brasileiro, quando fez algumas embaixadinhas para zoar o Palmeiras, o que custou sua vaga na Copa América com a Seleção. Também conquistou seu terceiro Brasileirão e deixou no ano seguinte mais uma jogada icônica do futebol brasileiro. No Mundial de clubes, o Capetinha conseguiu a canetinha nas pernas do francês Karembeu e completou para fazer o golaço contra o Real Madrid. Conquistou o Mundial e foi eleito melhor jogador da competição. Porém, o Corinthians foi eliminado pelo Palmeiras no campeonato paulista e Edílson pediu para sair do clube.

    Edílson era desejado pelo Flamengo e também pelo Vasco, vice-campeão mundial, vice-campeão carioca e que tinha no elenco jogadores como Júnior Baiano, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano e claro, Romário. Lembra o presidente do Flamengo, Edmundo Silva: “O Luiz Viana, empresário na época do Edílson, trouxe o nome dele. Foi uma briga entre Vasco e Flamengo. Mas chegamos na frente e fechamos antes. Eu achava a cara do Flamengo pela sua irreverência e futebol vistoso”. No mesmo livro 2001, isso aqui é Flamengo, Edílson revela o motivo da escolha: “Acreditei no projeto de levantar um time que estava em baixa. No Vasco, seria o contrário, já que estavam no alto e a tendência era cair”. Ainda falou o Capetinha: “Não encerraria a carreira sem jogar pelo Flamengo”.

    Edílson chegou ao Flamengo por 7,5 milhões de dólares, uma fortuna na época. O clube rubro-negro fechava uma janela bem ambiciosa, trazendo também Gamarra, Petkovic, Alex e Denílson. Não deu tudo certo em campo. Edílson estreou numa derrota contra River Plate na Copa Mercosul e fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado, no jogo seguinte, na Europa contra o Atlético de Madrid. No jogo seguinte, contra o Bétis, Edílson fez outro gol com passe de Denílson. O outro gol da vitória rubro-negra foi marcado pelo Adriano. Havia muito talento.

    De volta ao Brasil, Edílson fez mais um gol para seu primeiro jogo do Brasileirão com o Flamengo, uma vitória 2×1 contra o Atlético Mineiro no Mineirão, um jogo eterno no Francêsguista. Dejan Petkovic fez o outro gol da vitória em virada do Flamengo. Havia muito talento, muito ego também. Edílson ainda fez dois gols no jogo seguinte, uma goleada 4×0 contra o Universidad de Chile, outro jogo eterno no blog. O Capetinha chegou aos 5 gols nos seus 5 primeiros jogos, mas fechou a temporada de 2000 com apenas 2 gols nos 21 jogos seguintes! Ao menos, sabia escolher seus jogos e deixou a marca dele na goleada 4×0 contra Vasco e abriu o placar contra River Plate, o que não foi suficiente para impedir a eliminação rubro-negra da Copa Mercosul.

    Em 2001, alguns medalhões saíram do time e Edílson, que vestia a camisa 9, trocou de camisa, como ele explicou: “Gosto de dois números. Como a 10 é do Petkovic, optei este ano pela camisa 11. O 7 e o 9 são números feios”. Já tinha uma rivalidade entre o Capetinha e Pet, que começou a temporada machucado. Assim, o maior protagonismo caiu nos ombros do camisa 11, herdeiro de Romário, que não decepcionou. “A torcida do Flamengo deposita grande esperança em mim, mas, por ter chegado no meio do campeonato ano passado, não vinha correspondendo. Agora fiz uma boa pré-temporada e tenho tudo para decidir os jogos”, explicou Edílson, que passou os dois primeiros jogos do ano em branco. Logo depois, fez dois contra o Americano, inclusive um golaço com drible de vaca, ginga e habilidade.

    No campeonato carioca, Edílson fez vários gols, o que lhe valeu convocações na seleção brasileira e uma briga na artilharia com ninguém menos que Romário. “Não é fácil ganhar do Romário, não. Ser artilheiro numa competição em que ele está disputando e sempre ganhando não é para qualquer um”, explicou Edílson. Por sua vez, Romário explicava que era os concorrentes eram cavalos paraguaios e garantiu que seria o artilheiro. Fazia cinco anos consecutivos que o Baixinho era o artilheiro do campeonato carioca, seja com a camisa do Flamengo quatro vezes, seja com a camisa do Vasco uma vez.

    Edílson passou a meta dos 10 gols no campeonato fazendo os dois gols do jogo contra Friburguense. No livro 100 anos de bola, raça e paixão, pode se ler: “Foi exatamente após esse jogo que os problemas de relacionamento entre os jogadores se tornaram públicos. O grupo estava desunido. Iranildo saiu de campo criticando a falta de união do time. Houve uma discussão em campo. Reinaldo se preparava para bater uma falta e foi empurrado por Petkovic. Reinaldo saiu reclamando: ‘Não adianta treinar faltas aqui no Flamengo porque o Pet não deixa bater’. Dentro do clube, os dirigentes já começavam a cogitar uma possível venda do sérvio. Além do alto salário que recebia, era apontado como desagregador e com pouco ambiente entre os jogadores mais jovens”. Para lidar com o ego de Petkovic e Edílson, precisava da habilidade e experiência de Zagallo, que reuniu os dois e falou: “Aqui dentro do campo, é o preto e vermelho. É a união. Fora de campo, se vocês não se dão, aí é outro problema”. No jogo seguinte, Fla venceu, Edílson fez um gol, Pet fez dois, e Zagallo abraçou o sérvio, acabou com os problemas.

    Edílson também estava acostumado a voltar nas suas terras baianas e às vezes atrasava para voltar na concentração no Rio de Janeiro. “Algumas vezes você precisa ter equilíbrio e não tomar nenhuma atitude radical. Era um jogador importante e que estava fazendo sua parte dentro de campo”, explicou Zagallo, que ainda falou sobre o Capetinha: “la para o jogo e decidia. Jogava muita bola! Infernizava qualquer defesa”. Na Taça Rio, Flamengo ficou no segundo lugar, atrás do Vasco. A final, como em 1999 e 2000, era entre Flamengo e Vasco.

    Vasco venceu o jogo de ida por 2×1, podendo perder por até um gol de diferença na volta e ser campeão. Por causa de falta de pagamentos, tempos sombrios da ISL, Petkovic ameaçou não jogar o jogo de volta. Acabou jogando e quem ficou fora foi o Romário, ainda machucado. Assim Edílson se consagrou como artilheiro do campeonato e pôs fim ao reinado do Baixinho. Faltava o título coletivo. No Maracanã lotado, com 20 minutos, um pênalti para o Flamengo. Edílson cobrou firme e abriu o placar. No final do primeiro tempo, Juninho Paulista empatou. No início do segundo tempo, Petkovic pedalou, fintou, driblou. O Pet cruzou, o baixinho Edílson pulou, cabeceou, golaçou. Flamengo vencia, mas faltava um golzinho para conquistar o título.

    O minuto 43 é eterno na história do Flamengo, mas a canonização começou no minuto 42. Edílson fez a jogada de pivô e cavou a falta, à 25 metros de distância, para manter viva a esperança da torcida. O final, todo mundo conhece, foi visto e revisto, mesmo sem ver o lance de novo, é impresso na retina, na cabeça e no coração de todo rubro-negro. Agora, paro de escrever para ver de novo a falta de Edílson, a esperança da Nação, a preocupação de Helton, a ansiedade de Alessandro, a fé de Zagallo, o chute, o suspiro, o golaço de Petkovic. Gol do Pet, Fla campeão, Fla tricampeão. No final do jogo, o artilheiro do campeonato exultou: “Já passei por tudo na carreira, mas hoje foi demais. Ganhei títulos em quase todos os clubes, mas igual a esse, sofrido assim, nunca”.

    Há uma curiosidade com Edílson no Flamengo. Em seu maior jogo com o Manto Sagrado, sua atuação é esquecida. O golaço de falta de seu maior rival apagou sua participação. O próprio Edílson reconhecia isso no livro 2001, isso aqui é Flamengo de Roberto Assaf e Claudio Portella: “Fiz dois gols na final, sofri a falta, mas o Pet que levou a fama. Se não fosse o gol dele de nada adiantariam os dois que fiz. Foi uma das grandes decisões que disputei na minha carreira”. Como camisa 10, Petkovic elogiou Edílson, no estilo particular dele: “Ele foi para Seleção com tanta assistência que eu dei para ele naquele ano. E, claro, por méritos dele”. Nas eliminatórias, o melhor momento dele foi na 16a rodada, quando o Brasil estava ameaçado de ficar fora da Copa. Contra o Chile no Couto Pereira, Edílson abriu o placar e o caminho do Brasil para a Copa.

    Com o Flamengo, repito, no inesquecível 27 de maio de 2001, Edílson fez dois gols e cravou a falta para o gol eterno de Pet no tricampeonato carioca. Teve outros momentos de brilho, na Copa dos Campeões regionais, fez um gol contra Bahia na estreia. Fez outro na semifinal contra Cruzeiro e deixou mais uma atuação inesquecível no jogo de ida da final contra São Paulo. Abriu o placar, fez uma assistência de bicicleta, deixou mais um gol e ainda provocou o quinto gol do Flamengo com um drible de vaca para uma vitória 5×3, outro jogo eterno no Francêsguista. Na volta, mais um golaço de falta de Pet, mais uma taça para o Mengo.

    No Brasileirão, fez um gol contra Bahia, gostava de fazer gols na sua terra natal, mas decepcionou no final. O Capetinha fez apenas 3 gols no campeonato e Flamengo quase foi rebaixado. Dos últimos 15 jogos na temporada, Edílson passou em branco em 14 jogos! Ao menos, escolheu bem seu jogo para mais uma atuação de craque. Nas quartas de final da Copa Conmebol, Flamengo goleou Independiente 4×0, Edílson fez dois gols, com duas assistências de Petkovic. O fim de uma dupla de sonho e pesadelo. Na final, Edílson foi expulso e já tinha deixado o clube para o jogo de volta, perdido contra San Lorenzo. O fim de uma época.

    Voltamos assim ao início da crônica, a Copa de 2002, ao quadrinho de Panini. A minha primeira lembrança de flamenguista, minha prova que Flamengo foi uma coisa de criança, talvez que já estava na minha alma antes de nascer. Edílson não foi titular, porque na frente tinha Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. Apenas isso. Mas o Capetinha participou de 4 jogos, com destaque para a semifinal. Substituiu o Ronaldinho Gaúcho, expulso contra a Inglaterra, e teve uma atuação segura contra a Turquia. Não jogou a final, mas foi um dos 23 pentacampeões. Analisa o próprio Edílson: “Não conquistei a titularidade, mas joguei quatro jogos na Copa e dei a minha contribuição com boas exibições. Saí de um time amador da Bahia e fui pentacampeão mundial. Foi coisa de Deus. Posso dizer que fui muito longe na vida”.

    Depois de boa passagem no Cruzeiro, conquistando a Copa Sul-Minas de 2002, Edílson ficou no Japão após a Copa. Voltou ao Kashiwa Reysol, onde já tinha jogado em 1996. Fez seus golzinhos e teve mais uma volta, agora no Flamengo. Já na reestreia, fez um gol contra Vitória, gostava de deixar sua marca nas suas terras baianas. Marcou no jogo seguinte contra Sport, mas com um elenco ruim e algumas lesões, passou os nove jogos seguintes em branco. A volta foi sensacional, um hat-trick na goleada 6×0 contra… Bahia. Fez outros gols, mas não levou títulos. Até a despedida foi melancólica. O Capetinha fez dois gols na virada contra São Paulo, mas acabou expulso por causa de uma briga com Jean. Era assim o fim definitivo da linha de Edílson no Flamengo: 117 jogos, 51 gols, dois títulos, a artilharia do campeonato carioca de 2001, e claro, a atuação inesquecível contra Vasco.

    Em 2004, Edílson voltou para a Bahia, conquistando o campeonato baiano com Vitória. Passou pelo futebol árabe e voltou ao Brasil, no São Caetano e depois o Vasco, perdendo a final da Copa do Brasil de 2006 contra o Flamengo. Aposentou-se em 2007 com a camisa do Vitória, mas voltou dois anos depois, agora com o arquirrival Bahia. Jogou até a final do campeonato baiano de 2010, perdida contra o Vitória.

    Com bom humor e brincadeiras, teve passagens na televisão, como comentarista e até participante de reality show como Danças dos Famosos e BBB. No Flamengo, não foi o maior jogador nem o melhor, não foi o maior ídolo nem o mais flamenguista. Mas sem ele, não teria saído o gol de Pet contra Vasco. Basta isso para fazer do Capetinha um ídolo do Flamengo.

  • Jogos eternos #393: Estudiantes 1×0 Flamengo 2025

    Jogos eternos #393: Estudiantes 1×0 Flamengo 2025

    Flamengo joga hoje na Argentina em busca de uma oitava vitória consecutiva. Reencontra o Estudiantes, contra quem já jogou na Copa Libertadores do ano passado. O técnico rubro-negro era outro, mas o Flamengo já estava em grande forma. Dos últimos 10 jogos, tinha vencido oito, contra dois empates e nenhuma derrota. A fase da Copa Libertadores também estava diferente, com um quarta de final, um jogo que valia semifinal, que valia ouro no caminho do tetra.

    Depois de passar da fase de grupos com susto e eliminar o Internacional sem susto, Flamengo estava nas quartas de final, contra o Estudiantes. Na ida, com Maracanã cheio, Flamengo fez grande jogo. Porém, na reta final, Plata foi expulso e Léo Pereira fez gol contra. A vitória de apenas um gol de diferença deixava as chances argentinas vivas na volta.

    Depois da eliminação em 2024 na mesma fase contra Peñarol, Flamengo precisava absolutamente da classificação. Em 25 de setembro de 2025, o técnico e ídolo Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro; Jorginho, Saúl Ñíguez, Arrascaeta; Gonzalo Plata, Samuel Lino, Pedro. Detalhe para a participação de Gonzalo Plata, depois da Conmebol anular o segundo cartão amarelo da ida por causa de uma intervenção do VAR fora das regras previstas.

    Jogo de Copa Libertadores na Argentina sempre é especial, ainda mais na mata-mata. No estádio Jorge Luis Hircshi, Flamengo teve a primeira chance de gol, Pedro tocou com um carrinho, mas o zagueiro Facundo Rodríguez conseguiu impedir o gol. Depois foi a vez do Estudiantes de ameaçar o gol, com um chute de voleio de Arzamendia. O goleiro rubro-negro Agustín Rossi quase falhou, mas segurou a bola.

    Saúl Ñíguez, ainda sem fazer um gol com o Manto Sagrado, quase fez dois contra o Estudiantes, com dois chutes de longe. O primeiro tocou na trave, o segundo apenas passou por perto. Nos acréscimos, o longo cruzamento de Santiago Núñez chegou até a segunda trave, até Gaston Benedetti, que pegou de voleio. Agustín Rossi meio falhou e deixou a bola entrar. Estudiantes abria o placar e chegava ao empate na soma dos dois jogos.

    No segundo tempo, o jogo ficou ainda mais tenso e, ao mesmo tempo, quase morno. O lateral Gaston Benedetti escapou na esquerda e chegou ao cara-a-cara com Rossi. Por segundos, fez o segundo dele no jogo. Porém, o VAR anulou o gol e aliviou a torcida rubro-negra. Ou aumentou o nível de ansiedade. Em Paris, coloquei um despertador para acordar às 2:30 da manhã e não faltar o jogo. Confesso que não lembro exatamente como eu me sentia. Com a grande fase do Filipe Luís e o nível alto do time, tinha um bom pressentimento sobre a Copa Libertadores de 2025. Mas era jogo de volta na Argentina, era igualdade no placar, era impossível ficar tranquilo.

    No tempo normal, não teve outros lances para tirar o fôlego. O jogo acabou assim, 1×0 para Estudiantes, na soma 2×2. Que seja bendito o fim da regra do gol fora. O jogo agora era a disputa de penalidades, que consagrou heróis e crucifixou vilões. Do lado do Flamengo, o maior nome era o goleiro argentino Agustín Rossi. Inclusive, Rossi jogou no Estudiantes no início da carreira, estreando no campeonato argentino com o time de La Plata aos 19 anos. Mas foram ao total apenas três jogos com o Estudiantes, depois brilhou em outros times da Argentina e chegou ao Flamengo. E já se destacou nos pênaltis, pegando tentativas de especialistas como Ganso, Thiago Almada e Gabigol. Mas agora era a Copa Libertadores. Do outro lado, tinha também um grande goleiro, o Fernando Muslera, 39 anos e 133 jogos com a seleção uruguaia.

    De novo, não lembro de meu estado emocional antes da disputa de penalidades. Mas era impossível para mim ficar tranquilo. Quem ficou tranquilo é o Jorginho, que nunca errou um pênalti com a camisa do Flamengo, mesmo em jogos importantíssimos, como contra o Bayern, ou depois o Palmeiras e o PSG. Na Argentina, Jorginho pulou, cobrou e abriu o placar na disputa. José Sosa achou a gaveta, Luiz Araújo também foi firme. Agora era a vez do Gaston Benedetti, que tinha feito o gol durante o tempo normal. O roteiro foi visto tantas vezes que podia ser antevisto. O herói virou vilão, Benedetti cobrou, Rossi escolheu um lado e a mão oposta ficou firme, calando um estádio inteiro.

    Em Paris, eu começava a respirar melhor, ainda mais depois da finalização de Carrascal. O Cetré, com muita força, manteve a esperança viva para a hinchada argentina. Com gelo no sangue, Léo Pereira chutou forte e preciso, achando a gaveta. Agora lembro de minha ansiedade durante a disputa. Nem conseguia acreditar como Léo Pereira podia ter cobrado de uma maneira tão fria com tanta pressão, eu que mal conseguia respirar. Enfim, Léo Pereira fez o golaço e deixou para Rossi a oportunidade de brilhar e de matar o Estudiantes.

    E foi o caso. O capitão argentino Ascacíbar cobrou (mal), Rossi defendeu, virou herói e começava a se eternizar ao lado de grandes goleiros argentinos rubro-negros, como Chamorro, Domínguez e Fillol. Agora, apenas o paraguaio García pode talvez impedir Rossi de ser o maior goleiro gringo da história do Flamengo. Ainda há muitos pênaltis para defender, muitas taças para conquistar. Certeza é que neste dia, Flamengo sobrevivia ao inferno argentino e caminhava em direção ao tetra.

  • Jogos eternos #392: Atlético Mineiro 1×2 Flamengo 2000

    Jogos eternos #392: Atlético Mineiro 1×2 Flamengo 2000

    Flamengo joga hoje contra o Atlético Mineiro na Arena MRV, palco em que o Mengão ainda está invicto com 3 vitórias e um empate em 4 jogos. No tradicional Mineirão, o retrospecto não era tão bom e a última vitória rubro-negra no Brasileirão é de 2009, com o inesquecível gol olímpico do Petkovic.

    Para o jogo eterno do dia, fico com Petkovic e o Mineirão, mas vou de outro jogo, no início da década. O iugoslavo não era a única estrela do time patrocinado pela ISL. No segundo semestre, a ISL trouxe um pacote de reforços com Gamarra, Denílson e Edílson. O Jornal do Brasil via a volta do “futebol moleque” e da “irreverência”. Porém, na estreia de Edílson, contra River Plate na Copa Mercosul, Flamengo perdeu no Maracanã, apesar de um gol de Petkovic.

    Depois de dois amistosos na Espanha contra o Atlético de Madrid e o Betis, com gol de Edílson em cada jogo, a estreia rubro-negra do Capetinha no Brasileirão ficou marcada contra o Atlético Mineiro. Por sua vez, o Denílson ainda devia esperar para ser inscrito por causa das dívidas já existentes da ISL. Assim, em 2 de setembro de 2000, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Júlio César; Maurinho, Juan, Fabão, Marco Antônio; Leandro Avila, Rocha, Lê, Petkovic; Edílson, Adriano.

    Edílson precisou de apenas 8 minutos para assustar o Mineirão com um bom drible. Porém, depois de bela jogada coletiva e finalização de trivela de Valdir Bigode, foi o Atlético Mineiro que abriu o placar, com 12 minutos de jogo. No minuto seguinte, Valdir Bigode quase fez o segundo, mas Júlio César fez boa defesa.

    Flamengo reagiu com um chute cruzado de Edílson, mas a bola apenas flirtou com a trave. O Petkovic chutou de longe, o goleiro atleticano defendeu. No final do primeiro tempo, Edílson achou Adriano, que girou e chutou, fora do gol. Logo depois, Adriano cruzou, Edílson desviou de cabeça, Petkovic tentou finalizar, mas Kléber defendeu mais uma vez. Flamengo tinha muitos craques, na verdade três, mas ainda nada de gol no Mineirão.

    Com apenas 5 minutos na segunda etapa, Flamengo ameaçou mais uma vez o gol do Galo. Petkovic chutou de longe, a bola explodiu na trave. Logo depois, num escanteio, Petkovic tentou o gol olímpico, no mesmo cantinho em que se eternizará nove anos depois. Em 2000, Kléber foi vigilante e impediu o golaço. O gol só parecia questão de tempo. E realmente foi. Aos 10 do segundo tempo, Petkovic pedalou e achou Adriano perto do gol. O Imperador driblou um, driblou outro e chutou. Mais uma defesaça de Kléber, mas a bola seguiu viva na grande área. Petkovic não desistia de nenhuma bola e foi o primeiro a chegar, um pouco antes do Kléber, quase forçado a cometer pênalti. O juiz apitou, o Pet cobrou. Gol do Pet, gol do Flamengo, 1×1 no placar.

    Depois do gol do empate, o jogo ficou mais equilibrado. Cada time teve chance de fazer, sem fazer. Faltava um craque para desequilibrar o jogo. Ou talvez mais que um craque. Petkovic fez uma finta sensacional e cruzou no chão para Adriano ou Edílson, mas Cláudio Caçapa salvou o gol, desviando a bola para escanteio. Na cobrança, uma cabeçada atleticana, a bola ficou muito alto no ar e finalmente caiu no pé de Pet. Com a perna ruim que não existia, o camisa 10 conseguiu um domínio absurdo para matar a bola. Na sequência, chutou forte com o pé direito. Kléber defendeu apenas parcialmente, Edílson pegou de voleio e quebrou o pescoço do Galo. Gol do Capetinha, virada do Mengo, 2×1 no placar.

    No final do jogo, Adriano ganhou uma bola do zagueiro, driblou o goleiro, mas com o gramado ruim, a bola soltou e Adriano chutou para fora. Com uma grande atuação do trio ofensivo, Flamengo vencia de virada e chegava na 6a colocação, 5 pontos atrás do líder Fluminense e ainda com uma rodada a menos. “O caminho da vitória passa pelos pés de quem sabe jogar bom futebol. Edílson e Petkovic me lembraram os bons tempos de um futebol que era jogado com graça, leveza, dribles e passes precisos. O futebol-arte sobrevive aos carrinhos”, escreveu Sérgio Noronha no Jornal do Brasil. E mais, o craquaço Alex seria mais um grande reforço rubro-negro nos dias seguintes. Flamengo tinha tudo para triunfar, mas com problemas de dinheiro e de ego, nem chegou entre os 12 primeiros para chegar na fase final do Brasileirão de 2000. Uma decepção, que não tira o brilho da estreia do Edílson Capetinha.

  • Jogos eternos #391: Flamengo 2×0 Vitória 1987

    Jogos eternos #391: Flamengo 2×0 Vitória 1987

    Flamengo estreia hoje na Copa do Brasil contra Vitória no Maracanã. Para o jogo eterno do dia, vamos de uma estreia de temporada, em 1987, também contra Vitória no Maracanã.

    O ano era 1987 mas o Brasileirão ainda era de 1986. O campeonato nacional se estendia por semanas, às vezes meses, até o ano seguinte. A Seleção perdeu a Copa e pôs um fim definitivo ao futebol-arte como ideal. O futebol brasileiro estava em crise, de imagem e de dinheiro, o que incitou a criação da Copa União. Enfim, no início de 1987, ainda era o Brasileirão de 1986.

    A temporada de 1987 apenas começava, mas Flamengo já andava com vários atletas machucados. Leandro, Adílio, Bebeto e Zico estavam fora do jogo contra Vitória. Ao menos, tinha Sócrates. O Doutor estreou no Flamengo no início de 1986, com três amistosos e a estreia do campeonato carioca, o inesquecível Fla-Flu com 3 gols de Zico. Foi o único jogo oficial no Flamengo da dupla Zico – Sócrates, que fez sonhar o Brasil e o mundo inteiro na Copa de 1982.

    Depois do Fla-Flu de 1986, Sócrates não jogou com o Flamengo durante 9 meses, entre preparação na Copa, lesão na coxa e até hérnia discal. E mais, não se dava bem com o autoritário técnico do Flamengo, símbolo do futebol-força, Sebastião Lazaroni, que criticou publicamente o Doutor: “Talvez não o convocasse para a Copa. Eu não o considero um extraclasse. Hoje, Sócrates não seria titular do Flamengo. O dono da posição é e será Ailton”. Lazaroni também recusou a ideia de Leandro, que queria fazer de Sócrates o capitão do time na ausência de Zico. Mesmo assim, Sócrates voltou com muita classe no time titular no final de 1986, fazendo um golaço de falta contra Goiás, um jogo eterno no Francêsguista. Aliás, seu primeiro gol no Flamengo.

    Sócrates ainda fez seis jogos no Brasileirão para fechar o ano de 1986, sem deixar sua marca. Não foi só ele, o Flamengo todo não marcou sequer um gol nos últimos quatro jogos do ano! Não escapou das críticas da imprensa e do torcedor, mas, faltando duas rodadas para o final da segunda fase, precisava apenas de mais uma vitória para se classificar nas oitavas de final. Em 25 de janeiro de 1987, o técnico Sebastião Lazaroni escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Ailton, Aldair, Mozer, Jorginho; Andrade, Sócrates, Gilmar; Carlinhos, Zinho, Kita.

    No Maracanã, os poucos mais de 20 mil pagantes anunciavam um prejuízo para o Flamengo e a necessidade de reformar o campeonato nacional, que naquele ano teve nada menos que 80 clubes. No Jornal do Brasil, o grande Sandro Moreyra escreveu: “Mesmo com o aumento de 100% no preço dos ingressos, as rendas que marcaram a volta do futebol não foram suficientes para tranquilizar os dirigentes dos grandes clubes. A maioria deles continua pagando para jogar […] A legítima pretensão dos grandes em criar divisões visando não só reduzir o número dos concorrentes ao Campeonato Brasileiro, mas torná-lo mais rentável, até agora não foi alcançada. E embora já exista no papel, como resolução, dificilmente, será obedecida. A CBF, que neste campeonato se dobrou à vontade de ministros, infringindo do seus próprios regulamentos para manter na competição clubes já eliminados, evidentemente não merece confiança para evitar uma nova virada de mesa”.

    Voltando ao campo, Sócrates precisou de apenas 3 minutos para ameaçar o gol do Vitória, com um cabeceio que passou para fora. Na metade do primeiro tempo, Andrade fez um passe para Kita, bem marcado por dois zagueiros. A bola seguiu viva, Sócrates foi o mais rápido para chegar. O Doutor abriu o pé e matou o goleiro com sua classe habitual, para fazer a alegria da Nação e de Zico, que assistia ao jogo no Maracanã com seus filhos.

    No final do primeiro tempo, Mozer ultrapassou sua função – ou era função dele? – e invadiu a grande área. Girou e tocou atrás para a chegada de Sócrates, que, segundo o Jornal do Brasil, “deu um bico na bola, sutil e eficiente” no fundo da rede. “Sobrou para Sócrates ditar o ritmo. Marcou, não errou um passe sequer, infiltrou-se, deslocou-se, fez lançamento e também os dois gols da vitória do Flamengo”, avaliou o Jornal dos Sports.

    Na entrevista depois do jogo, contrariando a genialidade em campo, Sócrates foi bem simples: “Foram dois gols que representaram muito para mim, por se tratar dos primeiros que marquei com a camisa do Flamengo no Maracanã e também por terem sido responsáveis pela nossa classificação para a terceira fase”. Para fechar, cito então a crônica para o Jornal do Brasil de Tadeu de Aguiar, bem intitulada “Tudo teria sido igual, não fosse Sócrates”: “O que mudou? Dois times, as mesmas cores, o mesmo Campeonato – e que Campeonato! – e um craque, sempre fator de desequilíbrio. Enfim, os torcedores do Flamengo viram a estreia de Sócrates – não a de direito, mas a de fato –, seus dois gols, o jeito manso e cadenciado de tocar a bola e o seu suor, in loco – não de ouvir falar. Felizmente. Pois de seus pés nasceu a vitória sobre o Vitória, que garantiu a classificação do Flamengo à próxima fase do Campeonato Brasileiro”.

    Flamengo começava bem o ano de 1987, mas na fase seguinte, ainda com Sócrates, ainda sem Zico, acabou eliminado pelo Atlético Mineiro. O final do ano, com reforma necessária do futebol, com Zico de volta, mas sem Sócrates, que pendurou as chuteiras depois de outro conflito com Lazaroni, seria ainda melhor.

  • Jogos eternos #390: Flamengo 6×0 Bahia 2003

    Jogos eternos #390: Flamengo 6×0 Bahia 2003

    Flamengo joga hoje contra Bahia no Maracanã. Os dois times estão no G-6, mas nem sempre foi o caso. Em 2003, para o primeiro Brasileirão dos pontos corridos, o momento era mais difícil. Flamengo estava no meio da tabela, no 14o lugar de um campeonato que tinha 24 times. Pior para o Bahia, 4 pontos atrás e na 19a colocação. O jogo valia ouro.

    O time do Flamengo da época também era muito diferente daquele de hoje. Provavelmente um dos piores elencos da história do clube, com pouco talento. Para provar isso, basta anunciar a escalação completa para o jogo contra Bahia. Em 8 de agosto de 2003, o técnico Oswaldo de Oliveira escalou Flamengo assim: Júlio César; Rafael, André Bahia, Fernando, Anderson Alves; Fabinho, Fábio Baiano, Fernando Diniz, Felipe; Jean, Edílson. Do lado do Bahia, tinha no banco uma lenda do Flamengo, o grande Evaristo de Macedo.

    Ao menos Flamengo tinha seus craques, Felipe, que vivia com as lesões, e Edílson, de volta ao Flamengo depois do grande ano de 2001. Nos dois primeiros jogos em 2003, Edílson deixou seu golzinho e Flamengo venceu os dois jogos. Porém, o Capetinha também tinha problemas de lesão e passou em branco nos 9 jogos seguintes! No Brasileirão de 2003, Felipe e Edílson disputaram apenas um jogo juntos até aqui, uma vitória contra Juventude. O jogo contra Bahia, time do estado natal de Edílson, parecia ideal para acabar com o jejum do atacante.

    No Maraca, Flamengo dominou o início da partida. No dia seguinte, o Jornal do Brasil escreveu: “O time rubro-negro tomou logo a iniciativa das ações. Conduzido por Felipe, o time cercava a área do Bahia, sem conseguir, contudo, finalizar. Logo Evaristo de Macedo mandou Preto marcar Felipe em cima, para evitar que o meia acionasse os jogadores de frente. Não adiantou. Felipe continuou levando a melhor sobre a marcação com dribles em quem lhe aparecia pela frente […] O problema é que o Flamengo só tinha Felipe […] Dessa forma o Flamengo só podia mesmo chutar a gol no primeiro tempo de bola parada, resultante de faltas cometidas sobre Felipe”.

    Numa falta cravada pelo Felipe, o lateral Anderson Alves quase fez o golaço. Bateu com muita força e a bola explodiu no travessão. Logo depois, outra falta do Flamengo, cravada e cobrada pelo Felipe. Claro, com mais classe e efeito, o Maestro bateu colocado, mas o destino foi igual: o travessão. Flamengo abriu o placar só nos acréscimos, com cabeceio do zagueiro Fernando. No intervalo, apesar da superioridade em campo, o Mengo tinha apenas um gol de vantagem.

    O segundo tempo foi um show de bola. Logo no início da segunda etapa, os craques entraram em ação. Felipe fez o passe que quase ninguém tinha visto, um passe reservado aos craques, de visão absurda, de qualidade técnica também. Edílson recebeu, dominou e chutou, colocando a bola diretamente na gaveta. O futebol, quando é bem jogado, pode ser simples assim.

    E Felipe continuou a brilhar, a exaltar a beleza do futebol. Jean fez a jogada de pivô para Felipe, que dominou de sola e achou o passe preciso, no espaço certo, no tempo certo também, para Edílson na direita. O Capetinha cruzou no chão e Rafael só teve a empurrar na rede para ampliar.

    Dois minutos depois do terceiro gol, outro gol rubro-negro, que começou da mesma forma: nos pés mágicos do Felipe. O Maestro dominou a bola, esperou um pouco para fazer o drible seco e o passe preciso, no meio dos defensores. A bola chegou para Jean, que de novo jogou de pivô, atrás para Rafael. E a jogada rubro-negra acabou do mesmo jeito que o terceiro gol, com gol de Rafael, mas com muita mais classe. De primeira, Rafael encobriu o goleiro e assinou o golaço. E mais uma vez, o Maraca gritava o nome de Felipe, o cérebro do time e o iniciador das jogadas.

    Quem iniciava as jogadas era Felipe e quem concluía era Edílson. Dois minutos depois do quarto gol, outro gol rubro-negro. Felipe cobrou o escanteio, Edílson cabeceou e marcou. Simples assim. No final do jogo, com Felipe já substituído, Anderson Alves driblou na esquerda e cruzou para Edílson. O baixinho baiano cabeceou mais uma vez e completou o hat-trick, fechou a goleada 6×0.

    O Flamengo de 2003 não convenceu e nem sempre brilhou, bem longe disso, tomou um 0x5 contra Coritiba no jogo seguinte. Mas quando tinha craques em campo como Felipe e Edílson, a magia do futebol aparecia. Simples assim.

  • Jogos eternos #389: Flamengo 3×0 Deportivo Cali 1981

    Jogos eternos #389: Flamengo 3×0 Deportivo Cali 1981

    Flamengo joga hoje contra Independiente Medellín, um adversário que enfrentou apenas uma vez na história, um amistoso em 1964. Para o jogo eterno do dia, eu vou então de um outro time colombiano, mais tradicional, na sagrada Libertadores de 1981.

    Disputando pela primeira vez a Copa Libertadores em 1981, Flamengo ficou invicto na fase de grupos e se classificou depois do polêmico jogo contra o Atlético Mineiro. A semifinal era disputada com dois grupos de três times cada. E Flamengo estreou com duas vitórias fora de casa, contra o Deportivo Cali e o Jorge Wilstermann. De volta ao Brasil, Flamengo precisava da vitória contra o Deportivo Cali para se classificar na final com um jogo de antecedência. Em 23 de outubro de 1981, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Chiquinho, Baroninho, Nunes.

    Até aqui, Zico tinha feito 5 gols na competição: dois gols na ida contra Cerro Porteño, e três gols na volta, num jogo já eternizado no blog, em que Zico ainda fez uma assistência para Baroninho. Porém, nos quatro jogos seguintes da Liberta, Zico passou em branco. Nosso Rei tinha fome de gol. E no Maraca contra Cali, com apenas 10 minutos – sim 10, o ponta-direita Chiquinho passou para o lateral Leandro na direita. Com o olhar cirúrgico e o pé mágico, Leandro cruzou para Zico, que dominou de peito e chutou na sequência, embaixo do travessão, sem chance para o goleiro. Golaço de nosso eterno camisa 10.

    O time colombiano reclamou bastante de um impedimento de Zico, que, devemos conceder, parecia realmente existir. Mesmo assim, o juiz confirmou o gol. Porém, a reclamação entrou na cabeça do bandeirinha. Nos minutos seguintes, marcou um impedimento inexistente de Zico, em boa posição de fazer o gol, e logo depois, apitou outro impedimento no gol de cabeça de Nunes, erradamente anulado. Ainda no primeiro tempo, Zico bateu bem uma falta, a bola foi na direção da gaveta, mas o goleiro colombiano fez a grande defesa.

    No segundo tempo, o ponta-esquerda Baroninho passou para o lateral Júnior na esquerda. Com o olhar cirúrgico e o pé mágico, Júnior cruzou para Chiquinho, que cabeceou e venceu Valencia. No final do jogo, uma falta para o Mengo, com 25 metros de distância, bem no meio do gol. Para Zico, um meio gol. Zico bateu bem a falta, a bola foi embaixo do travessão. O goleiro falhou e deixou a bola entrar. Gol de Zico, mais uma vez o grande nome do jogo.

    Flamengo estava na final, graças a um doblete de Nosso Rei. Ainda faltavam outros dois dobletes de Zico na final e um golaço de falta para chegar no topo da América.

  • Jogos eternos #388: Flamengo 2×0 Vasco 2019

    Jogos eternos #388: Flamengo 2×0 Vasco 2019

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de um jogo aniversariante. No início de 2019, o time comandado ainda por Abel Braga não convencia completamente. Tinha perdido apenas duas vezes, contra Fluminense e Peñarol, mas era longe de apresentar o futebol que foi sob o comando de Jorge Jesus no segundo semestre.

    No campeonato carioca, o Fla foi eliminado da semifinal da Taça Guanabara e conquistou a Taça Rio nos pênaltis, já contra Vasco. Na semifinal do estadual, o empate no Fla-Flu foi suficiente para reencontrar Vasco na grande final. O Mengo vinha de uma goleada 6×1 na Copa Libertadores contra San José. Arrascaeta, na época ainda um reserva, fez um gol e Abel Braga surpreendeu escalando de novo o craque uruguaio para a final do campeonato carioca, no lugar de Diego. Em 14 de abril de 2019, Abel Braga escalou Flamengo assim: Diego Alves; Pará, Rodrigo Caio, Léo Duarte, Renê; Willian Arão, Cuéllar, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. Ao meu ver, o melhor time possível com o elenco da época.

    No Engenhão, Flamengo precisou de apenas dois minutos para ameaçar a meta vascaína. Na grande área, Éverton Ribeiro fez o passe para Bruno Henrique, que conseguiu o giro, errou no chute. Abro aqui um parêntese para falar sobre o Bruno Henrique. Já falei no blog que dos primeiros reforços de 2019, o nome de Bruno Henrique era o que menos me agradava. Achava que ele era irregular demais e vinha de uma temporada no Santos com apenas dois gols marcados. Mas logo na estreia com o Manto Sagrado, o BH27 me conquistou, fazendo os dois gols na vitória sobre Botafogo. Dois meses depois, fez dois gols contra Fluminense para levar o Fla-Flu. Faltava Vasco na lista das vítimas cariocas.

    No resto do primeiro tempo, Flamengo dominou de forma quase absoluta, mas o goleiro vascaíno Fernando Miguel estava em grande forma e impediu a abertura do placar. Depois de um chute de Willian Arão e mais uma defesa de Fernando Miguel, o juiz apitou o intervalo. No placar, ainda 0x0. O segundo tempo começou do mesmo jeito. Renê cruzou uma bola, Gabigol cabeceou. Fernando Miguel apenas olhou a bola, mas a bola apenas flertou com a trave. Num escanteio de Éverton Ribeiro, Rodrigo Caio também cabeceou, agora fora do gol. Quase milagrosamente, Vasco ainda resistia.

    Ainda faltava um desequilibrador. Na profundidade, Arrascaeta achou Bruno Henrique, que tentou de cavadinha. Fernando Miguel, ainda ele, defendeu com o rosto. No minuto seguinte, o zagueiro cruzmaltino Léo Santos falhou, Bruno Henrique aproveitou e finalmente venceu o goleiro. O Engenhão, com apenas 10 mil presentes, explodiu. Na frente no placar, Flamengo continuou a dominar, Renê chutou e na confusão, Bruno Henrique chegou primeiro, fez o segundo. Porém, o VAR anulou o gol por impedimento, aliviou a torcida vascaína. Por minutos.

    Faltando 15 minutos para o final do jogo, Arrascaeta, outro grande nome do jogo, ganhou uma bola, escapou na esquerda e cruzou no chão. Fernando Miguel saiu na bola, mas deixou-a viva. E de novo Bruno Henrique chegou primeiro, fez o segundo, agora válido. O camisa 27 se eternizava como o Rei dos clássicos cariocas e Flamengo se aproximava da primeira taça de 2019, contra o vice de sempre.

  • Jogos eternos #387: Flamengo 2×1 Fluminense 2020

    Jogos eternos #387: Flamengo 2×1 Fluminense 2020

    Flamengo joga hoje contra o Fluminense em busca do bicampeonato brasileiro 2025-2026. Já tem 5 pontos a menos que o líder Palmeiras e precisa vencer o Fla-Flu. Em 2020, Flamengo também buscava um segundo título nacional em dois anos, e com um quarto do campeonato já jogado, também estava um pouco atrás na tabela, no quinto lugar, três pontos atrás do líder.

    Assim, o Fla-Flu ainda não era uma questão de vida ou morte para o título. Mas o Fla-Flu não depende da tabela, da forma do time, da forma de jogar, dos jogadores em campo. Bastam as duas camisas, é o Fla-Flu, e só a vitória interessa. Em 9 de setembro de 2020, o técnico Domenec Torrent escalou Flamengo assim: Gabriel Batista; Isla, Rodrigo Caio, Gustavo Henrique, Filipe Luís; Thiago Maia, Gerson, Diego; Arrascaeta, Éverton Ribeiro, Gabigol.

    O retrospecto geral e recente do Fla-Flu era do Flamengo. Dos últimos 10 Fla-Flus, Flamengo tinha vencido 6 jogos, contra 3 empates e apenas uma vitória do Fluminense, bem no início de 2020, quando Flamengo ainda jogava com a garotada escalada pelo técnico Maurício Souza. Já Flamengo venceu os dois Fla-Flus da final do campeonato carioca de 2020. Mas dia de jogo, o Fla-Flu não é sobre os jogos passados e os títulos, as estatísticas e as apostas. O Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada e tem 90 minutos para se eternizar na história.

    E com apenas 8 minutos de jogo, Filipe Luís se eternizou no Fla-Flu. A jogada começou nos pés de Diego para Éverton Ribeiro. De primeira, com um toque lindo de trivela, o camisa 10 que vestia a 7 abriu na direita para Isla. O lateral-direito cruzou, Arrascaeta cabeceou, Muriel defendeu parcialmente. Na grande área, de primeira, sem duvidar, Filipe Luís pegou de voleio, chutou forte com a perna esquerda e achou a rede. Era o segundo gol do Filipe Luís com o Manto Sagrado. E detalhe, fez esses dois gols num Fla-Flu.

    Ainda no primeiro tempo, teve uma falta para o Flamengo no lado direito, quase no mesmo lugar em que saiu o primeiro gol. Na cobrança, o camisa 10 que vestia a 14, Arrascaeta. O uruguaio cruzou, Muriel defendeu parcialmente. A bola ficou na grande área, quase no mesmo lugar em que saiu o primeiro gol. Só que essa vez, Gabigol dominou. O final foi igual, Gabigol chutou forte com a perna esquerda e achou a rede. O Maracanã só não explodiu porque estava vazio por causa da pandemia.

    No segundo tempo, o jogo ficou mais equilibrado. Arrascaeta e Michel Araújo chutaram para fora, teve gol anulado de Éverton Ribeiro. Num escanteio, Willian Arão cabeceou para fora e nos acréscimos, o zagueiro tricolor Digão cabeceou para o fundo do gol. Era tarde demais para o Fluminense, que perdia mais um clássico. No Fla-Flu, o dono era o Mengo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”