Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #77: Flamengo 2×0 Corinthians 1961

    Jogos eternos #77: Flamengo 2×0 Corinthians 1961

    O Torneio Rio – São Paulo foi disputado pela primeira vez em 1933, para comemorar a oficialização do profissionalismo. Depois, só voltou a ser organizado em 1950, ainda sem o Maracanã. Gosto muito desse torneio, 10 times só, os 4 gigantes de Rio, os 4 gigantes de São Paulo e a Portuguesa, às vezes Bangu, às vezes o America. Só grandes times e um nível muito alto.

    Os paulistas ganharam todas as edições de 1950 até 1955, e depois de um ano sem os cariocas na competição, Fluminense conquistou o título em 1957. No ano seguinte, foi a vez do Vasco. Depois, claro, o Santos de Pelé, e Fluminense voltou a ganhar o título em 1960. Flamengo foi vice em 1957 e 1958, no terceiro lugar em 1959 e 1960. Sempre bem colocado, mas nunca campeão.

    Flamengo começou bem a edição do Rio – São Paulo de 1961, com vitórias no Pacaembu, contra São Paulo e Palmeiras, Dida fazendo gols nos dois jogos. Flamengo vinha de uma derrota dolorosa, num amistoso, mas no placar humilhante de 7×2 contra o Corinthians. E na terceira rodada do Rio – São Paulo, Flamengo voltou a ser goleado, em pleno Maracanã, um vergonhoso 7×1 contra o Santos de Pelé, que fez 3 gols nesse dia. Flamengo também perdeu o Fla-Flu e foi derrotado 3×0 pelo Botafogo de Garrincha, que fez o último gol do jogo. Era uma época cheia de craques sim, mas o Flamengo estava numa posição difícil, perto de uma eliminação na primeira fase.

    Flamengo voltou a ganhar contra a Portuguesa, também venceu America e Vasco. Na última rodada da primeira fase, mais uma derrota dura, um 3×0 contra Corinthians, que não impediu Flamengo de se classificar, em terceiro lugar, com dois pontos a mais do que Fluminense. Na fase final, 6 times, bem equilibrado entre times cariocas e paulistas: Flamengo, Botafogo e Vasco para Rio, Santos, Corinthians e Palmeiras para SP. E curiosidade da segunda fase, os paulistas jogaram apenas contra os cariocas, e inversamente. Acho o sistema um pouco injusto, mas era assim.

    Flamengo começou com vitória 3×1 contra Palmeiras, com gols de craques só: Joel, Dida e Gérson. Ainda mais importante, Flamengo se vingou do 7×1 contra Santos com outra goleada, agora no Pacaembu. Sem Pelé, Santos tomou um 5×1 com 3 gols de Gérson e 2 de Dida. Na última rodada, para ser campeão, Flamengo precisava de uma vitória contra o Corinthians, que tinha perdido seus dois primeiros jogos em São Paulo contra Botafogo e Vasco. Para Flamengo, também era a oportunidade de se vingar do 7×2 no amistoso, do 3×0 no torneio. O outro candidato ao título era o grande rival da época, o Botafogo de Garrincha, que jogava contra o Santos de Pelé, mas também de Pepe e Coutinho, os dois finalmente artilheiros do torneio com 9 gols. Uma época cheia de craques.

    No 23 de abril de 1961, o técnico paraguaio Fleitas Solich, que conquistou o tricampeonato carioca com Flamengo entre 1953 e 1955 e voltou ao clube em 1960, escalou Flamengo assim: Ari; Joubert, Balero, Jadir, Bigode; Carlinhos, Gérson; Joel, Henrique, Germano, Dida. Uma época cheia de craques e de ídolos, como Gérson, Joel e Dida e sobretudo, com a classe e maestria de Carlinhos. No primeiro tempo, maior oportunidade do jogo foi de Dida, que acertou o travessão. No segundo tempo, a televisão perdeu o lance, mas o mais importante era a bola nas redes, gol de Joel, explosão no Maracanã e seus 40.000 torcedores, número relativamente pequeno em consideração da época e da importância do jogo.

    Na segunda metade do segundo tempo, Joel cruzou na linha de fundo, Dida só teve a empurrar a bola nas redes, fazer seu oitavo gol do torneio, abrir os braços. Flamengo era o campeão. Flamengo conquistava um título nacional graças a uma grande atuação de Joel e Dida, dois jogadores que começaram a Copa do Mundo 1958 como titulares, antes de perder a posição para Garrincha e Pelé. Uma época cheia de craques e ídolos.

  • Jogos eternos #76: Flamengo 8×0 Fortaleza 1981

    Jogos eternos #76: Flamengo 8×0 Fortaleza 1981

    Mais um jogo de 1981, o maior ano da história do Flamengo. Flamengo conquistou no fim do ano a Libertadores contra Cobreloa, o campeonato carioca contra Vasco, o Mundial contra Liverpool, mas também brilhou no início, no Brasileirão. Na primeira fase, começou com um empate contra Santos, uma vitória contra Nacional, uma derrota contra Paysandu. Em seguida, venceu Sampaio Corrêa e Itabaiana, até o jogo contra Fortaleza.

    No 4 de fevereiro de 1981, o técnico e ídolo Modesto Bria, que tinha substituído Cláudio Coutinho no início do ano, escalou Flamengo assim: Raul; Vítor, Luís Pereira, Marinho, Carlos Alberto; Paulo César Carpegiani, Adílio, Peu; Fumanchu, Édson, Nunes. Um time misto, sem Zico e Júnior, convocados com a Seleção brasileira para as eliminatórias da Copa do Mundo. Talvez por causa disso e do dia, uma quarta-feira, teve um pequeno publico, apenas 11.804 pagantes no Maracanã.

    Com apenas 5 minutos de jogo, já um gol no Maraca, um chute cruzado de Peu. O primeiro gol do Flamengo, não o último. Com meia hora de jogo, um chute forte de Vítor, Ado, goleiro campeão do mundo em 1970 e jogando seu último Brasileirão em 1981, defendeu, mas Nunes fez o gol de cabeça. O primeiro gol de Nunes, não o último.

    No segundo tempo, Nunes, depois de um cruzamento de Édson, fez mais um gol de cabeça. E de pênalti, Nunes fez seu terceiro do jogo, fez o hat-trick, pediu a música. Uma chuva de gol, que não parava. Fumanchu, uma grande promessa da base do Vasco quando Zico jogava com os juvenis, chutou na trave de Ado, bola foi na outra trave, foi nos pés de Vítor, que, com a camisa 2 de Leandro, fez o quinto gol do jogo, o quinto gol do Flamengo.

    E Nunes voltou a marcar, depois de uma tabelinha com Adílio, bola foi na trave, e em seguida, nas redes. Mais um gol, num passe de Marinho e com chute forte, Peu fez o doblete. A goleada parou no 8×0 com o quinto gol de Nunes, depois de driblar o goleiro. Uma atuação de sonho para Nunes, que era o recorde de mais gols por um jogador num jogo do Brasileirão, recorde que seria batido pelo Edmundo em 1997. Para o recorde de mais gols com a camisa do Flamengo, era, ainda é, de Durval, que fez 7 gols num amistoso no 30 abril de 1950, quando Flamengo goleou 13×1 Campos Atlético Associação. Mesmo assim, o 8×0 contra Fortaleza é um jogo eterno e a prova que mesmo sem Zico, Júnior e Leandro, o Flamengo de 1981 era um timaço.

  • Jogos eternos #75: Flamengo 2×0 Emelec 2019

    Jogos eternos #75: Flamengo 2×0 Emelec 2019

    De novo, um jogo de 2019. Mas 2019 foi muita emoção, e esse jogo também. O adversário é um time do Equador, Emelec. Para mim, um trauma, com a eliminação da Libertadores 2012 no último minuto, até depois do fim do jogo para Flamengo, no último minuto do jogo entre Olimpia e Emelec. Sete anos depois, o time do Flamengo era muito diferente, mas vinha de outras decepções, em 2017, em 2018. O time era muito bom, faltava um título, nacional, ou melhor, continental.

    A Copa Libertadores sempre é diferente, e em 2019, mais uma vez, Flamengo passou da fase de grupos no sufoco, com um 0x0 em Montevidéu contra Peñarol na última rodada. No final, três times empatados com 10 pontos, mas essa vez, deu Flamengo no primeiro lugar, Flamengo nas oitavas, Flamengo contra Emelec, que por sua vez se classificou com mais um milagre. Depois de ter apenas três pontos nas quatro primeiras rodadas, Emelec conseguiu duas vitórias fora da casa, a última contra Cruzeiro no Mineirão, para se classificar nas oitavas.

    E no jogo de ida, Flamengo decepcionou mais uma vez com uma derrota 2×0 em Guayaquil. Essa vez, nem podia culpar a altitude, Guayaquil sendo uma cidade no nível do mar. O placar deixava tudo possível para o jogo de volta, o que era nada reconfortante. A desilusão era possível, como era possível uma noite mágica no Maracanã, cheio com 67.664 espectadores. Tudo era possível, até o impossível.

    Depois de um mês a trabalhar no centro de treinamento durante a pausa para a Copa América, Jorge Jesus estreou com o Flamengo contra o Athletico Paranaense na Copa do Brasil. Em 6 jogos, o Flamengo de Jorge Jesus brilhou, como no 6×1 contra Goiás, mas também decepcionou, com eliminação contra o Furacão e derrota contra Emelec. Flamengo precisava ganhar, e não qualquer vitória, mas ao menos de dois gols de diferença, Flamengo não podia viver mais uma frustração na Libertadores. No 31 de julho de 2019, Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Pablo Marí, Filipe Renê; Willian Arão, Cuéllar, Gerson; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol.

    Na França, jogo aconteceu meio da semana, meio da noite, mas mesmo trabalhando no dia seguinte, eu não podia faltar esse jogo. Num Maracanã pronto a explodir, Flamengo começou bem, Everton Ribeiro quebrando uma linha com um passe em um toque só, para Renê, que de carinho abriu para Gabigol. Gabigol teve duas oportunidades de fazer o gol, na primeira parou no goleiro, na segunda mandou a bola fora do gol. Mas Flamengo queria o gol de qualquer maneira, e num escanteio curto, Rafinha, que já tinha feito duas assistências no jogo anterior, recebeu a bola, entrou na grande área, conseguiu o pênalti. Em Paris, pouco barulho por causa do horário, mas muita vibração e muito estresse quando Gabigol começou a correr, muita libertação quando Gabigol conseguiu fazer o gol de contrapé. O Maracanã, por sua vez, explodiu.

    Em seguida, Bruno Henrique também teve a oportunidade de fazer o gol, mas cabeceou fora. Não desistiu, dois minutos depois, Bruno Henrique ganhou uma bola, escapou do carrinho de um zagueiro, e fez o passe atrás, para Gabigol, para o segundo gol de Gabigol, para mais uma explosão do Maracanã. Em menos de 20 minutos, Flamengo já tinha igualado o placar agregado. No Maraca, no Brasil e em Paris, depois de comemorar com gritos, às vezes altos, às vezes abafados, todo mundo esperava agora uma goleada.

    Mas a goleada não veio, não teve quase outros lances no primeiro tempo. No segundo tempo, Flamengo levou mais perigo perto do gol, mas sem fazer o gol. E Emelec teve também oportunidades. E em Paris, tive muito medo. Não entendia porque o time tinha parado de jogar depois do 2×0. Se era possível de fazer dois gols em menos de 20 minutos, era possível de fazer mais um, mais dois gols e ter uma classificação tranquila. Mas não foi o caso, e depois do drama de 2012, eu temia, até antecipava, para ter uma dor menos intensa, um gol de Emelec, uma eliminação do Flamengo.

    Mas não teve gol, teve disputa de penalidades. E eu estava ainda menos confiante, cada vez mais vendo Flamengo eliminando. Os quatro primeiros batedores fizeram, 2×2 no placar geral, 2×2 na disputa de penalidades. Empate. E era a vez de Renê. Estava quase certo que ele ia errar, ainda mais quando eu o vi chegar lentamente na bola, de uma maneira horrível, que quase sempre dá errado. Mas ele fez o gol, quebrou o empate. Claro, o doblete de Gabigol foi importante, mas acho que Flamengo começou a ganhar a Copa Libertadores nesse exato momento, quando Renê fez esse gol de pênalti. Ainda mais quando em seguida, Diego Alves, um dos maiores pegadores de pênalti, se não o maior, da história, defendeu a cobrança de Arroyo.

    Outro lateral do Flamengo, Rafinha, também bateu, também fez o gol, agora 4×2 para Flamengo. Em Paris, ainda não um total alívio, mas o estresse agora se sentia de uma maneira positiva. E Queiroz parou no travessão, explosão no Maracanã, Flamengo classificado, no sufoco sim quando a tranquilidade era possível no primeiro tempo, mas Flamengo vivo na Libertadores, ainda não campeão, mas daqui até 4 meses, Flamengo campeão sim.

  • Jogos eternos #74: Santos 4×5 Flamengo 2011

    Jogos eternos #74: Santos 4×5 Flamengo 2011

    Por uma vez, não tive nenhuma dúvida na hora de escolher a lembrança de um Santos x Flamengo. Só apareceu um, o Santos x Flamengo de 2011, um dos maiores jogos da história do Brasileirão, se não o melhor. Como o Flamengo x Vasco de 2001 sobre qual escrevi há pouco, todo mundo que assistiu ao jogo relembra onde era, de tanto alucinante era esse jogo. E quem foi na cama no 3×0 de Santos, se levantou no dia seguinte muito arrependido. E quem não assistiu ao jogo, ficou tanto alucinado que o próprio jogo ao ver o placar, até duvidando da realidade. Foi um jogo de sonho, foi uma obra de Deus, nenhum romancista poderia ter escrito um roteiro tão incrível.

    Infelizmente, não assisti ao jogo desde a França, em Troyes mais precisamente. Jogo meio da semana, meio da noite, com trabalho no dia seguinte, não podia assistir. Mas já era um jogaço antes da bola rolando, entre nosso Flamengo e Santos, que tinha conquistado a Copa Libertadores um mês antes, com uma grande atuação de Neymar. Com 19 anos, Neymar era a maior promessa do Brasil, aliás já era realidade, desde talvez Ronaldinho, que brilhou igualmente aos 19 anos num GreNal contra Dunga e depois com a camisa amarelinha. E Ronaldinho vestia justamente o Manto Sagrado nesse ano de 2011 depois de conquistar tudo na Europa. Ganhou o campeonato carioca de maneira invicta, mas o início de Brasileirão, sem ser ruim, era longe do nível do craque que ele foi no Barcelona. Mas o craque é craque para sempre, e pode brilhar a qualquer momento, ainda mais quando tem um outro craque do outro lado do campo, um duelo particular nesse Santos x Flamengo, um duelo de gerações também entre Neymar e Ronaldinho.

    Outro duelo desse Santos x Flamengo ficou no banco com dois dos maiores técnicos da história do futebol brasileiro, Muricy Ramalho para Santos, que tinha vencido 4 vezes o Brasileirão, o último um ano antes com Fluminense, e Vanderlei Luxemburgo e seus 5 títulos do Brasileirão, o último em 2004, justamente com Santos. Dois técnicos que gostam do jogo limpo, de um futebol ofensivo, cheio de gols. No 27 de julho de 2011, Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Welinton Silva, Ronaldo Angelim, Júnior César; Willians, Luiz Antônio, Renato Abreu; Ronaldinho, Thiago Neves, Deivid. Vale a pena também anunciar a escalação toda de Santos, que não ganhou a Libertadores só com o talento de Neymar, tinha também um timaço com grandes jogadores em cada linha: Rafael Cabral; Pará, Edu Dracena, Durval, Léo; Arouca, Elano, Ibson, Ganso; Neymar, Borges. Um jogaço, antes do jogo eterno.

    E o Santos x Flamengo de 2011 não esperou muito tempo para se inscrever na eternidade. Com 5 minutos de jogo só, um drible de vaca de Neymar, um outro drible sobre Luiz Antônio e bola para Elano, com um passe preciso para Borges, com bom domínio e finalização também precisa. Já um golaço e Santos na frente. E com 15 minutos de jogo, novo golaço, que começou com um passe errado de Renato Abreu para Neymar, que procurou a tabelinha com seu melhor parceiro no Santos, Ganso. Neymar recebeu de volta, invadiu a grande área com a facilidade dele, e quase conseguiu a cavadinha. Felipe defendeu, mas Neymar era craque, sempre é craque, e de costas ao gol, teve a inteligência de fazer uma bicicleta em dois tempos, talvez diretamente para o gol, mas no final para Borges fazer o doblete, para fazer a alegria dos 12.968 espectadores na Vila Belmiro. E cinco minutos depois, mais alegria na Vila, com um dos gols mais perdidos da carreira de Deivid, que perdeu muitos gols feitos, sozinho no gol vazio depois de bom cruzamento de Luiz Antônio, tocou do pé esquerdo no pé direito, fora do gol. Inacreditável, tanto incrível que o próprio jogo.

    E cinco minutos depois, o golaço dos golaços, a obra de arte de uma obra de arte, o gol Puskás de Neymar. Talvez nem vale a pena descrever o gol de tantas vezes a gente assistiu. Passou entre Willians e Léo Moura, “a facilidade de Neymar, levitando o jogador de Santos”, achou em pivô Borges, que devolveu a Neymar para o golaço, a obra de arte, a pintura. Um drible desmoralizante, a palavra parece ser inventada para esse drible, sobre Ronaldo Angelim, um drible de vaca com a sola, e um toque leve para tirar Felipe da jogada. Um golaço. Santos 3×0 Flamengo na Vila Belmiro. Talvez alguns flamenguistas foram dormir depois desse gol. Acontece, o que não acontece mais é esse Santos x Flamengo. Mas eles já estavam errados, o jogo já era jogaço, com golaços só.

    E Flamengo reagiu em apenas 3 minutos, com o gol menos golaço do dia, mas uma jogada bem construída, Renato Abreu no meio de campo abriu na direita para Léo Moura, que achou até a linha de fundo Luiz Antônio, que cruzou. Rafael falhou, Ronaldinho não perdoou e fez seu sexto gol do Brasileirão em 11 jogos. Bons números, mas a torcida flamenguista esperava ainda mais genialidade do Ronaldinho Gaúcho. Pelo menos por uma noite em Santos, a torcida ia ter o que ela queria. E dois minutos depois, Flamengo inflamou o jogo, que virou do possível ao impossível, com mais um gol bem construído. Um chapéu de Renato Abreu, uma bola para Deivid que, com inteligência, abriu na direita para Léo Moura. O cruzamento foi ótimo, a chegada de Thiago Neves também, que descontou com uma cabeçada, Santos 3×2 Flamengo.

    Nessa altura, já era jogaço, com tanta bola rolando tinha pouco tempo para os replays das jogadas, não tinha câmera lenta para um jogo tão rápido, tão cheio de jogadaças. Na esquerda, mais um pique de Neymar, muito mais veloz do que Willians, que cometeu o pênalti. E mais uma loucura no jogo, uma cavadinha de Elano, o goleiro Felipe antecipou a jogada, ficou de pé, dominou com as mãos e, outra loucura, fez 4 embaixadinhas, de pé e de joelho. Jogo já era na história, foi mais uma peripécia de uma peça teatral que ainda estava longe de seu desfecho. Claro, teve o show de Neymar e Ronnie, teve os 9 gols, muitos golaços, mas tanto essa jogada que o gol perdido de Deivid colocam ainda mais magia nesse jogo eterno. Esse jogo é a pura essência do futebol brasileiro.

    Nome do fim do primeiro tempo foi Deivid, que quase empatou, mas gol foi mal anulado, e dois minutos antes do intervalo, num escanteio de Ronaldinho, Deivid desviou de cabeça, fez valer a lei do ex, empatou. O intervalo serviu só para descansar, jogadores, torcedores, comentaristas e todos os envolvidos nesse jogo, 15 minutos, não mais. Com apenas 5 minutos no segundo tempo, Léo avançou no campo do Flamengo, achou com sorte Neymar, que passou na frente de David Braz. Dessa vez, a cavadinha funcionou, mais um golaço, agora Santos 4×3 Flamengo. Uma loucura total, no estádio ou na frente da televisão, a gente não sabia como esse jogo ia acabar, o que ia acontecer ainda num jogo que era o recado de porque nós amamos o futebol.

    O segundo tempo foi finalmente um pouco mais tranquilo, mas ainda teve seus momentos de gênio, de bruxo. Numa falta a 20 metros do gol santista, Ronaldinho mostrou que era craque para sempre. O Bruxo chutou bola no chão, a barreira pulou, Rafael viu a bola ir no seu gol, sem ter o tempo de fazer nada. Mais um golaço, mais um momento de pura magia, talvez um gol ainda mais mágico do que o Puskás de Neymar, porque ninguém esperava isso num jogo que já foi além de todas as esperanças. E um gol que mudou o futebol, hoje é comum ver um jogador deitado para completar a barreira e impedir essa jogada. Mas antes, Ronaldinho fez isso, um gol para aplaudir de pé.

    Definitivamente um jogo eterno com esse golaço de Ronaldinho, que deixava o placar louco igual os espectadores, Santos 4×4 Flamengo. Talvez num jogo assim o empate teria sido mais justo. Mas tinha um duelo particular, Neymar, que brilhou muito no primeiro tempo, e Ronaldinho, que brilhou ainda mais no segundo tempo. Era um duelo entre os dois maiores gênios brasileiros do século XXI, um duelo entre o pai e o herdeiro. Então precisava de um vencedor, o Deus do futebol não podia deixar o duelo particular empatado. A dez minutos do final, o trio ofensivo flamenguista entrou mais uma vez em ação, Deivid para Thiago Neves para Ronaldinho na esquerda. Ronaldinho abriu o pé, fez o hat-trick, pediu a música, que deveria ser uma música homenageando a beleza do Brasil, de seu futebol tão genial, que brilhou como poucas vezes nesse 27 de julho de 2011.

    No final, vitória 5×4 do Flamengo, mas alegria na Vila Belmiro, porque, apesar da derrota, ninguém poderia se arrepender de ter ido no estádio. Foi uma vitória do futebol, uma vitória do futebol brasileiro. Falou no fim do jogo o técnico do Flamengo, Vanderlei Luxemburgo: “O jogo de hoje vai entrar para a história. Teve tudo de um grande jogo de futebol. As mexidas, as alternativas, os erros, acertos, gols. A gente fica encantado. O futebol sai enriquecido. Parecia um jogo de pingue-pongue – bola pra um lado, bola pro outro, quase não parava no meio-campo”. Não era pingue-pongue, era futebol, era o futebol brasileiro na sua essência pura, na sua pura magia.

    Se tiver um filho, vou deixar esse jogo para ele assistir e se apaixonar pelo futebol brasileiro. Para se apaixonar com o Flamengo, ainda tenho muitos, muitos jogos eternos.

  • Times históricos #19: Flamengo 2009

    Times históricos #19: Flamengo 2009

    Talvez valia esperar 17 anos par ter um final tão bonito. O ano de 2009 é o ano de hexa, com um final que ninguém tinha imaginado. Mas eu também nunca teria imaginado o início da temporada, que na verdade, começou no fim do ano de 2008, um ano histórico também aqui, começou com uma terrível desilusão.

    Ronaldo está no meu top3 dos ídolos, junto com Garrincha e Zico. E ele foi o primeiro ídolo. Com 6 anos recém-completados, meu aniversário foi alguns dias antes da final da Copa do Mundo de 1998, torcia pelo Brasil contra meu próprio país, a França, principalmente por causa do Ronaldo Fenômeno. Se adoro o futebol brasileiro, talvez Ronaldo é a principalmente explicação. Quando ele assistiu a final do campeonato carioca 2008 com uma camisa do Flamengo, fiquei alucinado de alegria, passei a sonhar com a chegada dele no Flamengo, para jogar, para brocar, para ser campeão brasileiro.

    E o sonho ficou ainda mais forte quando ele passou a treinar na Gávea, quando ele repetiu diversas vezes que queria jogar no Maior do Mundo. Assistia a todos os jogos do Ronaldo, assistia a todos os jogos do Flamengo. Meu interesse pelo futebol ficou quase apenas no futebol brasileiro quando Ronaldo rompeu os ligamentos do joelho pela terceira vez e saiu do Milan. Antes era Ronaldo e Flamengo, depois só Flamengo, e podia ser agora Ronaldo no Flamengo, Ronaldo com o Manto Sagrado. Daí a decepção foi ainda maior. Foi uma terrível desilusão. E mais, foi uma traição. Sentiu-me traído como nunca quando Ronaldo assinou com o Corinthians. Entre os dois, entre meu ídolo e meu clube de coração, escolhi Flamengo, e mais, passei a odiar Ronaldo. Como se o ídolo nunca tinha existo, como se sempre foi um mercenário. Mas foi muito difícil de parar de amar o Fenômeno.

    Foi difícil assistir ao início do Flamengo no campeonato carioca, uma vitória 1×0 contra Friburguense, gol de Juan, ídolo do Flamengo, mas menos ídolo do que Ronaldo no meu coração ferido. Flamengo conseguiu várias vitórias, empatou contra Botafogo, e fechou seu grupo da Taça Guanabara como líder. E na semifinal, perdeu de forma surpreendente contra Mesquita em pleno Maracanã, em pleno Carnaval. Depois de dez dias sem jogos, com Botafogo campeão da Taça Guanabara, Flamengo se recuperou na estreia da Copa do Brasil, goleando 5×0 Ivinhema. A Taça Rio, a segunda fase do campeonato carioca na época, foi difícil, Flamengo até perdeu 2×0 contra Vasco, mas Flamengo conseguiu a primeira colocação e a vaga na semifinal com um 1×1 no Fla-Flu, Emerson Sheik fazendo o gol do empate no último minuto. E uma semana depois, teve outro Fla-Flu, dessa vez com vitória do Fla, com Mengo na final da Taça Rio.

    Flamengo conquistou a Taça Rio contra Botafogo e se classificou para a grande final do campeonato carioca, de novo contra Botafogo. De novo, como em 2007, como em 2008. Flamengo tinha conquistado um tricampeonato carioca em cima do Vasco entre 1999 e 2001, podia fazer agora contra Botafogo. Na ida, muitos gols, muita emoção e um empate 2×2. E na volta, muitos gols, muita emoção e um empate 2×2. Grande nome foi Bruno, que pegou um pênalti durante o tempo normal e mais dois na disputa de penalidades. Gostei muito desse time, gostei muito desse título, com Fábio Luciano levantando a taça. Adorava Fábio Luciano, um dos melhores capitães que vi no Flamengo e fiquei muito triste quando ele encerrou a carreira nesse mesmo jogo. E adorei o Tri em cima do Botafogo, por isso também fiquei muito chateado quando Flamengo perdeu o campeonato carioca 2022 contra Fluminense, perdendo a oportunidade de completar um novo tri contra um mesmo rival.

    Depois, Flamengo goleou Fortaleza para se classificar nas quartas de final da Copa do Brasil, mas perdeu na estreia do Brasileirão contra Cruzeiro, também foi eliminado da Copa do Brasil pelo Internacional. Mas uma boa notícia veio logo depois, uma ótima notícia, depois de algumas semanas de incerteza, o Imperador voltou, Didico era de novo do Mengo. Na verdade, Adriano nunca parou de ser flamenguista, mas agora era de novo jogador do Flamengo. Estava muito feliz com a volta dele, ele era um de meus ídolos no futebol. Já estava feliz quando ele voltou no Brasil em 2008 com São Paulo, mas agora era diferente, era do Mengo. Um casamento que deu certo, com no início várias camisas diferentes. Teve 29, 27, 92, 90, 100. Era uma espécie de chá revelação para a nova camisa do novo fornecedor, Olympikus, depois de vários anos com Nike, alias para mim o principal motivo da não vinda de Ronaldo no Flamengo. Teve até enquete na Internet para a torcida escolher a camisa de Adriano, deu 9, mas Adriano finalmente escolheu a 10 de Zico. Uma história perfeita.

    E outro ídolo voltou, Petkovic. Mesmo sem acompanhar a primeira passagem dele no Mengo, sempre fui muito fã do Petkovic, ele era até a personalização de meu sonho, um europeu fazendo história no Brasil, um camisa 10 clássico, minha posição preferida num campo de futebol. Mas por causa do Didico e da camisa 10, Petkovic escolheu a camisa 43, como o minuto que o eternizou no Flamengo, na hora de conquistar o Tri contra Vasco. Estava feliz com a escolha dele, porém sem o sonho de ver ele como destaque do Brasileirão. Escreve Marcos Eduardo Neves no livro 20 jogos do Flamengo: “Com pendências financeiras para resolver com o clube, Petkovic propôs reduzir e parcelar a dívida, desde que pudesse se despedir do futebol com a camisa que o consagrou. Os torcedores gostaram da ideia, até porque faltava um meia cerebral no elenco. Entretanto, alguns dirigentes torceram o nariz pra Pet, duvidando que, aos quase 37 anos, pudesse dar retorno. O acordo financeiro foi assinado. Contudo, o técnico Cuca e alguns diretores decretaram que o sérvio, no máximo, faria um jogo de despedida”. E quase foi, com o comando de Cuca, Petkovic jogou apenas 27 minutos.

    Quem brilhou durante esse tempo foi Adriano. Marcou na estreia contra o Athletico Paranaense, fez um hat-trick contra o Internacional depois de um vexame, quando Fla tomou um 5×0 contra Coritiba. Mas aí aconteceu uma coisa para mim. O Corinthians ganhou a Copa do Brasil, com gol de Ronaldo na final. O traidor já tinha brilhado no campeonato paulista, com gol na estreia como titular contra Palmeiras, com golaço na semifinal contra São Paulo, com golaço e título contra Santos. E agora conquistava um título nacional. Depois de dois anos longe do futebol europeu, do dinheiro e da falta de emoção, eu me afastava do futebol brasileiro e do Flamengo por excesso de emoção. A traição de Ronaldo foi dura, passei a odiar ele, e ver ele brilhando no Brasil doava meu coração. Sem acesso a um computador nos domingos a noite, passei a acompanhar menos o Flamengo, nem os melhores momentos dos jogos eu assistia regularmente. Incrivelmente, o ano 2009 foi o ano que menos acompanhei o Flamengo. Nos tempos difíceis, para mim 2010, 2012 e 2014 em destaque, com pouco futebol, eu estava lá. Mas em 2009, acompanhei menos, de novo não por falta de amor, mas por excesso de amor.

    Ainda mais, o Flamengo de 2009 era irregular e depois da vitória 4×0 contra Internacional, conseguiu apenas uma vitória em 6 jogos, empatando contra Fluminense e Botafogo, perdendo contra Palmeiras. E Cuca, sem apoio dos jogadores do time, saiu do Flamengo. O time nesse momento era na 11a colocação, 11 pontos atrás do líder. Próximo jogo já era decisivo, já uma virada no ano, com um técnico interino, um ídolo, Andrade. Esse jogo contra Santos merece um capítulo na categoria dos jogos eternos, mas vamos dizer aqui que Flamengo nunca tinha vencido Santos na Vila Belmiro num jogo oficial, mas ganhou de virada, com gol de Adriano, com lágrimas de Andrade e homenagem ao Zé Carlos, antigo goleiro do Flamengo, que tinha falecido dois dias antes. E no jogo seguinte, Flamengo venceu, de novo em virada, venceu o líder do campeonato, o Atlético Mineiro. Era um novo Mengo.

    Até o Petkovic, esquecido pelo Cuca, começou a aparecer com Andrade, saindo do banco, fazendo gol de fora da área contra Goiás. Petkovic passou a ser titular, a ser referência técnica do time. E no jogo seguinte, vitória sobre o Corinthians, sem Ronaldo, gol de Adriano, eu feliz. Mas o Flamengo de 2009 era irregular. Fez 5 jogos sem vitórias, com eliminação na Copa Sudamericana contra Fluminense apesar de dois empates no Maracanã, e três derrotas no Brasileirão. Fla perdeu 3×0 contra Avaí, foi na 14a posição, perto do Z-4, muito longe do G-4. O título nem era um sonho. Mas Flamengo se recuperou, ficou 6 jogos sem tomar gol, golaçou contra Coritiba, venceu o Fla-Flu com doblete de Adriano, outro jogo eterno. Petkovic começou a brilhar, duas assistências no 3×0 contra Sport, um gol e uma assistência contra Coritiba, mais um gol no 3×3 contra Vitória, que interrompeu a série sem ser vazado do Mengo, não a boa fase do Fla.

    A recuperação do Flamengo veio com a dupla Petkovic – Adriano, que brilhou ainda mais do que no fim do século passado, no início do terceiro milênio. Olha os números, do 3×0 contra Sport até o hexa, Didico fez 9 gols em 12 jogos, Pet deu 5 assistências e marcou 7 vezes em 14 jogos. Teve outros jogos eternos, até gols olímpicos de Pet, contra Palmeiras e o Atlético Mineiro. E teve a volta do Mengo, no início no G-4, perto do líder, mas ainda não líder. E depois de alguns meses longe do Fla como nunca fui na minha vida, passei a acompanhar de novo o Mengo de perto, perto do título. Mas torcer pelo Flamengo é sofrer, quando podia tomar a liderança, empatou em casa contra Goiás, que tinha nada mais a jogar. Faltava dois jogos, contra o Corinthians de Ronaldo, contra o Grêmio no Maracanã.

    E jogo contra Corinthians foi sem Adriano, machucado com uma queimadura, de luminária, de churrasco, de moto, de bala perdida, de ataque alienígena, sei lá, foi mais um capítulo de um ídolo no Flamengo. Enfim, o Imperador não podia estar em campo. E o traidor saiu também machucado, com apenas 25 minutos do jogo. No Brinco de Ouro, teve gol de Zé Roberto, que também jogou muito no fim da temporada, teve gol de outro ídolo do Fla, Léo Moura, num pênalti no último minuto, teve vitória do Mengo, teve Flamengo na liderança. Flamengo nunca foi tão perto do hexa, e ao mesmo tempo, tão longe, tudo pode acontecer em 90 minutos, até o impossível.

    Para o último jogo, já eternizado nesse blog, teve volta do Didico, teve Álvaro suspenso, teve David Braz titularizado, teve invasão no Maracanã. Teve polêmica também, já que o adversário era Grêmio e um dos outros candidatos ao título era o Inter. Mas, mesmo com um time misto, mesmo sem jogar nada, Grêmio abriu o placar no Maracanã, e quase no mesmo minuto, o Inter também abriu o placar, voltou a ser o campeão virtual. Teve muito emoção no Maracanã, com bola rolando, na bola parada também. Num escanteio de Petkovic, Adriano parou de jogar, reclamou uma mão, David Braz continuou a jogar, fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado. Mas o empate ainda não era suficiente para ser campeão, precisava vencer, vencer na raça, no amor, na paixão.

    E na metade do segundo tempo, quando Inter goleava, quando Petkovic estava pronto a sair, o Gringo bateu mais um escanteio, na cabeça de um dos mais flamenguistas do elenco, Ronaldo Angelim. No início do mesmo ano de 2009, Ronaldo Angelim correu o risco de ter uma perna amputada por causa de um problema sanguíneo. Mas o sangue de Ronaldo Angelim era rubro-negro, Ronaldo Angelim era o único Ronaldo que a Nação precisava. De cabeça e de coração, Ronaldo Angelim fez o gol da virada, o gol do título, o gol do hexa. Assisti ao jogo ao vivo, mas sem imagens, sem voz, só com a descrição escrita dos lances. Mas, como se eu nunca tinha me afastado um pouco do Flamengo durante o ano, vibrei igual os 90.000, talvez 100.000 pessoas no Maracanã, comemorei, sozinho mas felizão, meu primeiro título brasileiro com Flamengo. Era o ano de 2009, eu tinha 17 anos. Valia a pena esperar uma vida inteira.

  • Jogos eternos #73: Flamengo 1×0 Benfica 1972

    Jogos eternos #73: Flamengo 1×0 Benfica 1972

    Hoje, a Seleção brasileira joga no Portugal, em Lisboa. E Flamengo e Lisboa, só vem para mim uma coisa na mente, um jogo que aconteceu no Rio de Janeiro, mas contra o Benfica, um jogo de um golaço, um jogo de um canto, um jogo de uma polêmica também.

    O jogo aconteceu no início da temporada de 1972, um ano histórico aqui. Foi na abertura da segunda edição do Torneio Internacional do Rio de Janeiro, a primeira foi vencida pelo Flamengo, derrotando em 1970 Vasco, Independiente e a Seleção de Romênia. Era os tempos sombrios da ditadura e o futebol era uma das únicas distrações do povo, além da música, quando não era censurada. Pela essa edição do Torneio de Verão, um triangular com um português, um brasileiro e um meio português meio brasileiro, Benfica, Flamengo e Vasco. O primeiro jogo, um Flamengo x Benfica.

    Fio Maravilha ia ser o grande nome, a grande estrela do jogo. No site Trivela, Emmanuel do Valle escreve sobre Fio Maravilha: “Capaz de, num mesmo jogo, marcar um golaço ou criar de improviso uma jogada genial e no lance seguinte tropeçar na bola ou dominar de canela, era, não obstante, uma figura carismática com seu jeito simples, suas tiradas espirituosas, corpo troncudo, jeito de andar um tanto desengonçado e, sobretudo, sua pronunciada arcada dentária”. Era isso Fio Maravilha, um jogador que a gente não sabia se era craque ou perna de pau, a cada jogada a dúvida ficava mais forte. Também não sabia se era ponta ou centroavante, se era polivalente ou jogava onde tinha espaço para ele. Certeza que, com o novo técnico do Flamengo, o jovem Zagallo, e com muitos outros técnicos, Fio Maravilha era reserva. Outra certeza é que era ídolo do Flamengo. Talvez por causa justamente dessa dificuldade a saber qual era o verdadeiro nível dele em campo, talvez por causa do jeito simples de ser, talvez por causa da dentição tão particular, não sei, o que eu sei, é que Fio Maravilha era um ídolo do Flamengo, ídolo da arquibancada e da geral do Maraca.

    Como no primeiro jogo da temporada, contra Botafogo, Fio Maravilha começou o jogo contra Benfica no banco. No 15 de janeiro de 1972, Zagallo escalou Flamengo assim: Ubirajara; Aloísio, Fred, Reyes, Paulo Henrique; Liminha, Rodrigues Neto, Rogério; Caio Cambalhota (Samarone), Paulo César Caju, Arílson (Fio Maravilha). Do lado de Benfica, o craque que ninguém duvidava que era craque, Eusébio, estava machucado, mas o clube de Lisboa era uma máquina, o líder disparado do campeonato português com 13 vitórias e 2 empates em 15 jogos. O jogo começou equilibrado, com lances de perigo de Rogério para o Flamengo. E depois, Arílson se machucou. E a torcida flamenguista só tinha um nome na boca, uma boca tão grande que a do jogador em questão, Fio Maravilha, o perna de pau mais craque do futebol, o craque mais perna de pau da história do Flamengo, a alegria do Maracanã. No intervalo, pressionado pela torcida flamenguista, Zagallo botou em campo Fio Maravilha e sua camisa 14, não camisa de craque como Cruyff, camisa 14 de reserva, de coringa, às vezes de milagre.

    Esse jogo é um jogo de um golaço, um jogo de um lance só. Então vamos diretamente no minuto 33 do segundo tempo, bola nos pés de Samarone no centro, nos pés de Rogério na direita, nos pés de Fio Maravilha para o milagre, para a maravilha de Fio Maravilha que ia maravilhar 44.280 torcedores maravilhados, entre eles, o compositor Jorge Ben Jor. Fio Maravilha pegou a bola, passou entre os defensores Rui Rodrigues e Messias, driblou o goleiro Zé Henrique, deixou a bola no fundo do gol. Um golaço, um dos mais importantes dos 84 gols de Fio Maravilha com o Manto Sagrado. “Fio tem noite de Pelé”, escreveu no dia seguinte Globo. “Gol de rei, não. Gol de Fio, mesmo”, respondeu o humilde Fio Maravilha. “Ainda tentei fazer pênalti, mas não sei como passou por mim. Provou no drible que é mais esperto que eu” inclinou-se o goleiro Zé Henrique.

    Pela beleza plástica, o gol já era famoso. Pela importância também, já que Flamengo conquistou o título do torneio internacional de Rio depois de mais uma vitória 1×0, contra Vasco, gol de Paulo César Caju. Mas o gol virou eterno com uma cancão de Jorge Ben e interpretada pela Maria Alcina no Festival Internacional da Canção, vencendo a fase nacional no Maracanãzinho, uma canção que virou hit nas boates de Rio e até de Paris. Uma canção simples como Fio Maravilha, com letras bonitas como o gol contra Benfica. Vale a pena lembrar a letra inteira: “E novamente ele chegou com inspiração, Com muito amor, com emoção, com explosão em gol, Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo, Depois de fazer uma jogada celestial em gol. Tabelou, driblou dois zagueiros, Deu um toque, driblou o goleiro, Só não entrou com bola e tudo, Porque teve humildade em gol, Foi um gol de classe, onde ele mostrou sua malícia e sua raça. Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa, Que a galera, agradecida, se encantava, Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa, Que a galera, agradecida, se encantava. Filho Maravilha, nós gostamos de você, Ih-ih-ih-ih-ih-ih-ih, Filho Maravilha, faz mais um pra gente ver, Ih-ih-ih-ih-ih-ih-ih”.

    E depois teve a polêmica. Diante do sucesso da música, um ingênuo Fio Maravilha deixou seu advogado entrar em processo na Justiça para tentar ganhar dinheiro sobre os direitos autorais. Magoado, Jorge Ben Jor trocou “Fio Maravilha” pelo “Filho Maravilha”. Mas só tem um Fio, só tem uma Maravilha, o golaço contra Benfica, e as duas partes finalmente selaram a paz. O que fica finalmente é o golaço de Fio Maravilha, a música de Jorge Ben Jor, e o Maracanã cheio de alegria com um gol de seus ídolos particulares.

    Fecho essa crônica com as lembranças de Fio Maravilha, no livro Grandes jogos do Flamengo, de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Foi um jogo interessante. O Eusébio estava machucado, mas o Benfica tinha um grande time. Em 10 anos de Flamengo, só fui titular em 1969 e 1970, com o Yustrich. O Zagallo não era muito simpático ao meu futebol, ao meu estilo. Eu estava na reserva, mas o Zagallo me chamou para entrar. Naquele dia, eu estava inspirado. Numa jogada com o Rogério, saí driblando e fui parar dentro do gol. Daí, veio a música e ela caiu no gosto popular. O problema com o Jorge Ben Jor é que houve um desencontro de informações. Havia um amigo, já falecido, o Joaquim Reis, que era advogado de alguns jogadores, como o Jairzinho, o Rodrigues Neto e meu também. Um dia me perguntou: ‘O autor da música te botou como parceiro? Posso entrar em contato com ele para você ganhar alguma coisa?’. Disse que podia. Pouco depois, fui jogar em Vitória. Quando cheguei ao Rio, já estava um burburinho tremendo. Não tinha a intenção de processar. Mas não culpo o advogado. Se alguém cometeu um engano, fui eu, não ele, que era uma pessoa maravilhosa. Não tiro também a razão do Ben Jor. Seria um prazer um dia reencontrá-lo. Mesmo morando nos Estados Unidos, acompanho os jogos do Flamengo, que defendi com muito carinho. Contra o Benfica foi especial, porque disseram que o Fio fez gol de Pelé. Adorei, porque eu era comparado com um monte de perna de pau. Depois do meu pai, Pelé foi o meu maior ídolo”.

  • Ídolos #18: Renato Abreu

    Ídolos #18: Renato Abreu

    Eu comecei a acompanhar o futebol brasileiro e Flamengo em 2005 e apesar da situação difícil do Flamengo, o time estava muito bem servido de ídolos. Claro, o maior para mim era Obina, mas ainda tinha Zinho, Ibson e foi o ano da chegada de dois outros ídolos, Léo Moura e Renato Abreu.

    Carlos Renato de Abreu nasceu no 9 de junho de 1978 em São Paulo e começou sua carreira em clubes de Santa Catarina, a começar pelo Marcílio Dias, onde foi expulso no seu primeiro jogo profissional. Jogou no Joinville, ainda no Santa Catarina, e depois voltou no futebol paulista, em União Barbarense e em seguida Guarani, onde, para seu primeiro jogo com o time, fez dois gols contra… Flamengo, no Maracanã, num 3×3 na Copa do Brasil de 2000.

    Em 2001, Renato chegou no Corinthians, onde conquistou vários títulos, fez gol olímpico contra Palmeiras e, sem ser ídolo, chegou ao Flamengo em 2005. “Quando cheguei ao Flamengo, meu objetivo era vestir a camisa com o maior orgulho e carinho. Lembro que na primeira entrevista disse que eu não podia prometer títulos, mas que prometia vontade de vencer o tempo todo, brigar pela vitória, e isso não ia faltar nunca”, falou Renato Abreu em 2013 para GloboEsporte. Por causa da presença do jovem Renato Augusto no elenco, Renato virou Renato Abreu. E ainda mais, virou ídolo. Camisa 11, Renato Abreu fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado num clássico contra Botafogo no campeonato carioca. O segundo, contra Friburguense, veio de pé direito, o terceiro, contra Coritiba, veio de uma falta de longe, de um chutaço de pé esquerdo. As faltas foram a principal caraterística do Renato Abreu. Por isso, e para sempre, é ídolo do Flamengo.

    Impressionante o número de grandes batedores de falta no Brasil. Didi, Pelé, Pepe, Rivelino, Nelinho, Marcelinho, Rogério Ceni, Juninho Pernambucano, Ronaldinho Gaúcho e claro, obvio, Zico. Mas, tem uma coisa evidente, no Brasil, e no mundo inteiro também, o grande batedor de faltas teve a tendência de sumir nos últimos anos. Então Renato Abreu é um dos últimos sobreviventes, faz parte de uma espécie em vias de extinção. Uma falta para o Flamengo na época do Renato Abreu tinha muito mais emoção do que hoje, por causa do Renato Abreu. E qualquer falta, Renato Abreu podia fazer gol de falta de 16 até 40 metros de distância.

    Mas Renato Abreu não foi só faltas. Podia recuperar a bola nos pés do adversário, tinha boa técnica, podia fazer passes na frente e claro, podia chutar de longe. Não foi só faltas, foi também chutaços de longe, só golaços. Era o coração do time e ele foi uma das únicas satisfações do Flamengo em 2005, sendo artilheiro do time, mesmo jogando no meio de campo. E em 2006, de novo ele foi artilheiro do time, com a marca impressionante de 19 gols. E mais, ele fez contra São Caetano um doblete com dois golaços de falta. E ainda mais, contra Fluminense, quando Flamengo estava num jejum de dois anos e meio sem vitória no Fla-Flu, Renato Abreu fez, de novo, dois golaços de falta e Flamengo goleou. E mais importante, Renato Abreu foi artilheiro do Flamengo na Copa do Brasil, fazendo na semifinal o gol da virada contra Ipatinga, vencendo a final conta Vasco. Agora, Renato Abreu não era mais só coração do time, só artilheiro, era também, par a eternidade do Clássico dos Milhões e para os 35 milhões de flamenguistas, campeão nacional com o Flamengo.

    Comecei a acompanhar o futebol brasileiro em 2005 mas realmente comecei a assistir aos melhores momentos de todos os jogos do Flamengo em 2007. Então, o campeonato carioca 2007 foi minha primeira competição mais ou menos ao vivo, e adorei, do início até o fim. Quase todos os jogadores do time viraram meus ídolos., ao menos durante um momento. Bruno, Léo Moura, Ronaldo Angelim, Juan, Claiton, Renato Augusto. E Renato Abreu. A final contra Botafogo foi surreal, um Maracanã lotado, cheio, pronto para se inflamar. E Renato inflamou o Maraca, com um gol de pênalti e uma comemoração do Urubu-Rei que o inscrivia ainda mais na galera dos ídolos rubro-negros, uma comemoração que o eternizava no Flamengo. Vale a pena ler as lembranças de Renato Abreu sobre o Urubu-Rei: “Sempre gostei das comemorações do Viola. Sempre. Acho que era uma coisa que ele representava bem a alegria do torcedor em campo. Saímos comemorando quando marcamos o gol, mas não sabemos a dimensão daquilo para o torcedor lá em cima. Eu era muito torcedor de arquibancada. Ia sempre para os estádios torcer pelo Santos com meu pai e vibrávamos muito, de todas as formas. Nas peladas, a gente imitava o Viola. Quando cheguei no Flamengo, vi que o carioca, o Maracanã tinha muito isso. A geral, onde ficava todo mundo correndo, tinha muita gente fantasiada. Era anjinho, Popeye… Na véspera da final de 2007, contra o Botafogo, estava falando com minha esposa no telefone e pensei: ‘Poxa, queria fazer algo de diferente’. Tinha umas máscaras em casa para brincar com minha filha. Comprei de cachorro, ratinho, elefante, tigre, e tinha uma de galinha. Eu falei com ela: ‘Amor, pega aquela máscara de galinha, pinta de preto e faz uma de urubu para mim. Você é inteligente’. Ela cortou a crista da galinha, costurou, fechou e pintou. Como era de borracha, não tinha problema de colocar no calção. Ninguém estava sabendo. Fui para o estádio já com a máscara na cueca. Na hora de me trocar, botei a toalha, disfarcei, ajeitei e fui para o jogo pensando: ‘Vamos ganhar e vou fazer gol para ser campeão e comemorar com a máscara’. O Botafogo fez 1 a 0, fez 2 a 0 e pensei: ‘Já era’. Até que tabelei com o Souza pelo meio, driblei o goleiro e sofri o pênalti. Peguei a bola para bater o pênalti e pensei: ‘Não quero nem saber, vou comemorar como pensei’. Fiz o gol e botei a máscara. Renato Augusto ficou olhando assustado, o Souza… E vi que a galera levantou, incendiou o jogo, empatamos e fomos campeões nos pênaltis. Aí virou marca registrada. Lembro que subi na trave, comemorei o título, começaram a chamar de urubu, eu batia asa”.

    Quatro dias depois da final, Renato Abreu brilhou muito no jogo de volta das oitavas de final da Libertadores, depois de perder 3×0 no jogo de ida contra Defensor. Como capitão, liderou o time e fez mais um doblete, um chutaço de falta na gaveta para começar, e depois mais um golaço de fora da área, agora um chutaço com bola rolando, na gaveta de novo. Infelizmente, não foi suficiente e Flamengo foi eliminado apesar da vitória 2×0. Foi uma mistura de decepção e de orgulho, orgulho do Maracanã e do time, que lutou muito para a classificação que não veio. Renato ainda jogou alguns jogos do Brasileirão de 2007, fez mais um doblete, contra Sport, de pênalti e de gol olímpico, o Rei das bolas paradas, de qualquer jeito, principalmente de faltas, o Urubu-Rei, Renato Abreu.

    Infelizmente, Renato Abreu saiu do Flamengo nos meados do ano de 2007 para Al-Nasr, nos Emirados Árabes Unidos. Não relembro com certeza, mas acho que fiquei muito chateado com a saída dele, ainda mais para o Oriente Médio. Ainda descobria o futebol brasileiro e achava que todo mundo amava o Flamengo igual eu, que os dirigentes e jogadores estavam aqui para o Flamengo, apenas o Flamengo. A realidade é bem longe disso, e hoje entendo a escolha dele, mas não fui o único a ficar chateado, como fala o próprio Renato Abreu no GloboEsporte sobre a despedida dele da Gávea: “Chorei muito. Despedida é muito triste. Ainda mais quando se cria um laço de amizade forte no clube. E não só com jogadores, mas todas as partes. Roupeiro, massagista, dirigente, torcedor… Deixei uma marca importante. Fiquei feliz porque todos também sentiram. Quando somos queridos, acabamos retribuindo de alguma forma. Além de deixar o país, o clube, deixei vários amigos. Lembro que uns três jogos antes de sair para os Emirados eu tive uma proposta do Bordeaux, mas ninguém sabia. Um repórter até comentou e eu respondi que não sabia de nada. No jogo seguinte, contra o Grêmio, o time estava muito mal e a torcida, não sei se estavam revoltados porque eu ia deixar o Flamengo, pegava no meu pé. Eu pegava na bola e me vaiavam”.

    E finalmente, Renato Abreu voltou na Gávea, em 2010, com a ajuda de Zico, na época diretor de futebol do Flamengo. A segunda passagem, como acontece muitas vezes, foi menos convincente, mas o Urubu-Rei, proibido de fazer essa comemoração, o futebol virando cada vez menos engraçado, ainda fez alguns bons jogos e foi um líder do time, até podia orientar a maior estrela da época, Ronaldinho. De novo Renato Abreu, sobre um gol do Bruxo contra o Galo: “Lembro que ali ele fez um gol e a torcida pegava muito no pé dele há alguns jogos. Não tinha aquele laço de amizade tão forte com o Ronaldinho, mas é um cara totalmente do bem, superamigo, gente boa. No vestiário, falávamos que ele que faria a diferença. Nesse jogo, ele fez o gol e ia fazer algum gesto. Na hora, eu abracei, peguei pela cabeça e falei: ‘Não faz nada porque você é grande’. Por ser mais velho no Flamengo, acho que ele escutou. O carinho dele pelo clube também era grande. É algo momentâneo. Muitos jogadores fizeram isso, esse tipo de comemoração. São coisas de segundos. O torcedor está revoltado lá em cima e nós, às vezes, nos revoltamos também pela derrota e pela luta em campo. Na maioria das vezes, tentamos acertar”.

    Renato Abreu ganhou mais um campeonato carioca, o de 2011, de forma invicta, ainda fez alguns bons jogos, até estreou com a Seleção brasileira com 33 anos num jogo contra a Argentina. Teve depois algumas lesões, teve até cirurgia no coração, mas Renato Abreu voltou e ainda marcou gols com o Manto Sagrado. Na despedida de Petkovic, Renato Abreu fez gol de falta, olha o tamanho da personalidade de Renato Abreu e da homenagem ao Pet. Renato Abreu ainda fez um doblete contra Fluminense e mais um doblete de falta contra Campinense, na Copa do Brasil de 2013. Mas Renato Abreu não viu a final dessa campanha vitoriosa, porque saiu antes. Na verdade, foi mandado embora pelo Flamengo. Entre um jogador e o Flamengo, eu sempre vou do lado de meu clube. Às vezes, eu acho que sou muito fã de um jogador do Flamengo, mas quando ele sai do clube, eu não ligo, fico frio, tanto faz, acabou, obrigado e que vem o próximo. Flamengo sempre é o mais importante. Mas acho que no caso de Renato Abreu, a diretoria errou e o tratou de uma forma deselegante. Algumas semanas antes de ter seu contrato rescindido pela diretoria, Renato Abreu falava isso para GloboEsporte: “Não me vejo em outro clube porque criei uma identificação muito grande, muito forte. Não sei nem como falar. Tenho um dia a dia no clube, olho as categorias de base, os funcionários, procuro falar uma coisa ou outra. Nunca me vi fora do Flamengo. Claro que não sabemos do futuro, mas não penso em sair do Flamengo. Só se me tirarem. O laço é forte. Minhas filhas eu nem preciso fazer força para falar que torcem. Quero viver aqui muitos e muitos anos ainda. Não sei quanto tempo ainda vou jogar. Talvez dois, três anos…”

    Infelizmente, o futebol é assim, às vezes cruel. Depois, Renato Abreu, que encerrou a carreira alguns meses depois no time da infância, Santos, entrou em justiça contra o Flamengo, faz também parte do futebol profissional. O presidente da época, Eduardo Bandeira de Mello, falou na época: “O afastamento dele foi uma decisão do departamento de futebol, foi uma decisão técnica. Em que se entendeu que não seria mais interessante contar com ele no elenco. Tenho o maior respeito pelo Renato Abreu. Eu considero que, talvez, ele seja o melhor cobrador de faltas do Brasil. Ele tem uma história no Flamengo que deve ser respeitada. Eu tenho certeza que ele não está sendo desrespeitado pela diretoria do Flamengo”. No final, as duas partes acertaram as contas em 2015. Ficam desse jeito os títulos, duas vezes a Copa do Brasil e duas vezes o campeonato carioca, fica o Urubu-Rei, ficam os números: 271 jogos e 73 gols, o último, de calcanhar contra o Athletico Paranaense. Eu conheço o número de 73 gols de coração e cabeça porque durante muito tempo, Renato Abreu foi o maior artilheiro do Flamengo do século XXI. Por isso e por muitas outras coisas, Renato Abreu é um dos maiores ídolos da história do Flamengo.

  • Jogos eternos #72: Flamengo 4×0 Burnley 1957

    Jogos eternos #72: Flamengo 4×0 Burnley 1957

    Hoje, a Seleção brasileira joga na Espanha, em Barcelona. É a oportunidade para falar de um jogo do Flamengo em Barcelona, e não qualquer jogo, porque foi um jogo durante a inauguração em 1957 do Camp Nou, ainda hoje o maior estádio da Europa, com uma capacidade para quase 100.000 pessoas.

    Flamengo não participou do jogo da inauguração, que foi entre Barcelona e Légia Varsovia, com uma vitória 4×2 de Barcelona e um gol de Evaristo, antigo ídolo do Flamengo. E foi justamente por causa das boas relações entre Barcelona e Flamengo, Evaristo tinha saído do Flamengo alguns meses antes para o Barcelona, que o clube rubro-negro foi convidado para um jogo amistoso, um dia depois da inauguração do Camp Nou. O Brasil ainda não era campeão do mundo, mas seu futebol já era muito respeitado, com um futebol alegre e ofensivo, cheio de malabarismo e de técnica. E Flamengo também era muito respeitado, por ter ganhado o tricampeonato carioca entre 1953 e 1955. Um gigante, tanto que Barcelona pagou Flamengo 8 mil dólares para vir na Espanha.

    O adversário do Flamengo era um grande time, Burnley, um dos 12 fundadores da Liga Inglesa em 1888. Os ingleses, por ser os inventores das regras do futebol, eram os mais respeitados no futebol. E Burnley ganhou a Copa da Inglaterra em 1914 e o campeonato inglês em 1921. Escreve o Barcelona no seu site oficial em inglês: “Burnley, com uma impressionante time jovem, liderada pelo provavelmente maior jogador a vestir a camisa vinho tinto de todos os tempos, o norte-irlandês Jimmy McIlroy, estava disputando a supremacia da Inglaterra com Manchester United na época”. Aluns meses antes, já na Espanha, Burnley tinha goleado o campeão espanhol de 1956, o Athletic Club, com um 5×1 e três gols de McIlroy.

    Por sua vez, Flamengo estava de reformulação no time. O técnico tricampeão carioca 1953-1955, o paraguaio Fleitas Solich, ainda estava lá, mas além da saída de Evaristo, Flamengo perdeu outros dois atacantes, Paulinho no Palmeiras e Índio no Corinthians. Mas Fleitas Solich não era chamado de Feiticeiro à toa, promoveu no time vários jovens, como Joubert e Milton na defesa e Moacir e Henrique no ataque. Dida, já ídolo do Flamengo com 3 gols na decisão do campeonato carioca 1955 contra o America, ganhava a plena titularidade. Para ir na Espanha, Flamengo conseguiu antecipar um jogo do campeonato carioca, vencido 4×1 contra o Bangu de Zizinho, e embarcou no Galeão com um voo de Air France, sem o capitão Dequinha, lesionado e substituído pelo jovem Milton, e sem o ídolo Joel, doente da gripe asiática e substituído pelo também jovem Luís Carlos. O Mengo embarcou também com os locutores Rui Porto e Jorge de Souza, que iam retransmitir o jogo para o Brasil.

    Os jogadores do Flamengo desfilaram no Camp Nou com a bandeira do Brasil e um dia depois da vitória do Barcelona para a inauguração do estádio, Flamengo entrou em campo no Camp Nou, na época realmente novo. O feiticeiro Fleitas Solich optou por um 4-2-4 ainda pouco visto no futebol, mas que ia marcar a Seleção brasileira campeã do mundo um ano depois. Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Ari; Joubert, Pavão, Jadir, Jordan; Milton, Moacir; Luís Carlos, Zagallo, Dida, Henrique. No lado de Burnley, a maior estrela era Jimmy McIllroy, também líder da Irlanda da Norte, que tinha realizado uma sensação, eliminando a Itália e o Portugal no início do ano para se classificar para a Copa do Mundo 1958.

    O jogo, apitado pelo espanhol Gómez Contreras, começou equilibrado, mas Flamengo pouco a pouco mostrou a força e a magia do futebol brasileiro. Na metade do primeiro tempo, num escanteio curto, Luís Carlos abriu para Zagallo, que cruzou perfeitamente na cabeça de Dida para fazer o primeiro gol do Flamengo. Três minutos depois, o contrário. Moacir, que era tão bom que quase tirou Didi do time titular da Seleção de 1958, driblou um jogador e deixou para Dida, que avançou um pouco e abriu na esquerda para o chute poderoso e cruzado de Zagallo, que estufou as redes. No intervalo, Flamengo 2×0 e o ídolo Dida aplaudido a cada jogada.

    No segundo tempo, Burnley tentou reagir, mas numa jogada boba, Winton não percebeu que seu goleiro estava avançado e fez o gol contra tentando dar um passe em recuo. Flamengo fez um quarto gol, de Luís Carlos após jogada de Moacir, mas o juiz o anulou por uma suposta mão de Luís Carlos. O quarto gol do Flamengo finalmente chegou a 15 minutos do final do jogo, um golaço de Henrique, que driblou vários defensores, goleiro incluído, antes de decretar o placar final: Flamengo 4×0 Burnley. Infelizmente, não tem registro desse gol, apenas da imprensa espanhola e do Mundo Deportivo, que escreveu no dia seguinte: “O time do Flamengo se move com facilidade pelo campo, e com um sentido tático que nos impressiona […] A vitória brasileira foi mais uma prova de que os ingleses já não são mais os donos do belo jogo”. Parece exagero, mas talvez o Brasil começou a ganhar sua primeira Copa do Mundo ali, no Camp Nou, com essa atuação magistral do Flamengo sobre os poderosos mas derrotados ingleses.

    Flamengo voltaria duas vezes ao Camp Nou com mais dois jogos eternos, uma vitória 2×0 em 1962, com dois gols do ídolo Dida, e uma derrota 4×5 em 1968 na final da terceira edição do troféu Joan Gamper. Flamengo em Barcelona é sempre um show à parte.

  • Jogos eternos #71: Flamengo 7×1 Rio Negro 1983

    Jogos eternos #71: Flamengo 7×1 Rio Negro 1983

    Com a pausa internacional, eu vou de um jogo contra um time que não deveria jogar no Brasileirão antes de um bom momento, Rio Negro, time de Manaus, que até foi rebaixado do campeonato amazonense. Mas faz agora 40 anos que conquistamos o Brasileirão 1983, com um time histórico, e vale a pena falar sobre um jogo da conquista.

    Flamengo começou o Brasileirão de 1983 com fechou: com vitória sobre Santos no Maracanã. Depois, empatou contra Moto Club e Rio Negro, venceu Paysandu e Moto Club. Precisava da vitória contra Rio Negro no Maracanã e seus 25.181 torcedores. Uma afluência pequena por causa do Carnaval no mesmo fim de semana. Mas Flamengo deu outro carnaval.

    No 20 de fevereiro de 1983, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul Plassmann; Cocada, Leandro, Marinho, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Júlio César Barbosa, Robertinho, Baltazar. Um time histórico, mas perto do desfecho, com a venda de Zico alguns meses depois.

    Curiosidade do jogo é que Flamengo tomou o primeiro gol da partida, uma jogada bem executada e concluída pelo Aluísio Guerreiro. Mas o gol acordou um gigante, que empatou no final do primeiro tempo, com um cruzamento alto de Robertinho e uma cabeçada de Adílio. A geral, único setor cheio do Maracanã, estava feliz, mas ia ver ainda muito mais gols. Ainda no primeiro tempo, Flamengo virou, com uma jogada digna do Flamengo de 1978-1983, toques de efeito, passes curtos e precisos, finalização certa. Andrade com um passe na frente para Júlio César, de trivela para o domínio de joelho de Baltazar, e sem deixar a bola cair, de novo de trivela para Robertinho, chegando em velocidade, chutando forte, virando o jogo.

    E Flamengo fez o terceiro em apenas 4 minutos, Zico na velocidade e na direção do gol, de trivela para Baltazar, que dominou e girou, tentando achar de novo Zico na profundidade. Goleiro demorou muito a sair e quem aproveitou foi Leandro, para fazer o terceiro do Flamengo. A geral bem feliz, só precisava esperar 15 minutos para ver mais gols. Quinze minutos ou um pouco mais, o quarto gol só chegou na segunda metade do segundo tempo. Baltazar para Zico, que recebeu de costas, mas já no domínio estava na frente do gol. Um domínio de um autentico craque, que precisa ser visto mais de uma vez para ser plenamente entendido, plenamente avaliado. Na continuidade da jogada, um carinho para fazer o quarto gol do Flamengo de bico. Numa goleada assim, não podia faltar o gol de Zico.

    E o quinto gol chegou cinco minutos depois, com bola longa de Andrade, falha da zaga do Rio Negro, passe atrás de Júnior, gol de Baltazar. O Baltazar não conseguiu substituir plenamente o ídolo Nunes, mas ele fez jogos muito bons com o Manto Sagrado. Final do jogo pertence ao jogador menos conhecido do time, o lateral-direito Cocada, que fez apenas 9 jogos com Flamengo. Irmão do ídolo são-paulino Müller, Cocada aproveitou de um chute de Baltazar mal defendido pelo goleiro para fazer de cabeça seu primeiro gol no Flamengo. E no final do jogo, uma dupla tabelinha entre Zico e Elder, um drible de Zico e um passe atrás. Cocada chegou firme, chutou forte, fez o doblete.

    No final, uma goleada 7×1, a maior da campanha vitoriosa do Brasileirão de 1983, e mais um carnaval no Rio de Janeiro.

  • Jogos eternos #70: Flamengo 5×0 Grêmio 2019

    Jogos eternos #70: Flamengo 5×0 Grêmio 2019

    Um jogo eterno e uma das minhas maiores emoções como torcedor do Flamengo. Acho que todo mundo relembra onde era quando assistiu a esse jogo. Porque esse jogo tem uma coisa de surreal. Todo mundo esperava uma classificação, mas ninguém esperava de tal maneira.

    O ano de 2019 é histórico e já no decorrer da temporada, já antes do Milagre de Lima, se sentia que esse ano poderia ser histórico. O Flamengo de Jorge Jesus conseguiu fazer duas coisas muito difíceis de combinar: ganhar e encantar. Antes do jogo contra Grêmio, Flamengo vinha de uma sequência de 17 jogos sem perder, o último jogo uma vitória no Fla-Flu. A última derrota era um jogo contra Bahia, quatro dias depois de uma classificação difícil, emocionante e histórica na Libertadores contra Emelec.

    Depois, ninguém resistiu ao Flamengo. Não o Internacional na Copa Libertadores, não os rivais históricos do Flamengo, no Rio, como Vasco, que tomou um 4×1 no Mané Garrincha, ou de fora do Rio, como Palmeiras, campeão brasileiro mas derrotado 3×0, ou o Atlético Mineiro, que perdeu 3×1 no Maracanã. Um futebol alegre e ofensivo, um Maracanã lotado, e um entrosamento entre os jogadores que poucas vezes apareceu num time de futebol, no Brasil ou no mundo inteiro. O Flamengo de Jorge Jesus ganhava, encantava, fazia gols.

    Mas mesmo assim, ninguém esperava um jogo assim contra Grêmio. Na ida, o empate foi até injusto, Flamengo merecia ganhar, mas empatou, e deixava as possibilidades abertas na volta. No Maracanã, Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí, Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Éverton Ribeiro, Arrascaeta; Bruno Henrique, Gabigol. Uma escalação perfeita, sem nenhum desfalque. Um time histórico, um time que talvez só perde pelo Flamengo de 1981 na história do clube. Do outro lado, o Grêmio com Everton Cebolinha no ataque e uma zaga fortíssima com Kannemann e Pedro Geromel. E no banco, um ídolo dos dois clubes, Renato Gaúcho, campeão da Libertadores dois anos antes com Grêmio. Esse Grêmio era muito perigoso e muito respeitado na América do Sul.

    Todo mundo relembra onde estava nesse 23 de outubro de 2019 porque o jogo foi além das possibilidades. Eu não posso esquecer onde estava nesse dia, até já falei aqui, quando escrevi sobre a criação do consulado Fla Paris. Foi meu primeiro jogo com a Fla Paris, no meio da semana, meio da noite. Fui com meu amigo Piriquito e encontrei pela primeira vez Cidel, Waldez e Felipe, os outros fundadores da Fla Paris. A retransmissão do jogo foi ruim, mas o encontro foi ótimo. O jogo já era especial só por causa disso, iria ser ainda mais especial com bola rolando.

    Jogo começou equilibrado e Grêmio teve primeiro lance de perigo, com Everton Cebolinha driblando na grande área e Maicon parando no Diego Alves. Flamengo reagiu com cabeçada de Bruno Henrique, perto da trave de um antigo ninho do Urubu, Paulo Victor. Depois, numa disputa de bola entre Everton e Willian Arão, Everton tomou o cartão amarelo e jogo quase partiu para briga no meio de campo, com quase todos os jogadores envolvidos. Jogo tenso, jogo equilibrado. Nos minutos seguintes, Éverton Ribeiro deixou em profundidade para Arrascaeta, que chutou, ou cruzou, na direção do gol. Paulo Vitor defendeu, Gabigol tentou uma bicicleta, tocou a bola mas não marcou. Em seguida, num passe de Gerson, Gabigol chutou, Paulo Vitor defendeu de novo. Ainda era 0x0, mas jogo não estava equilibrado mais.

    No minuto 42, no campo do Flamengo, Everton Ribeiro deu o pique para recuperar a bola, para Gerson, para Bruno Henrique. Ainda no campo do Flamengo, Bruno Henrique deu o pique, passou entre vários defensores e achou na profundidade Gabigol. De pé direito, Gabigol chutou, Paulo Victor defendeu de novo, mas Bruno Henrique estava aqui para empurrar a bola nas redes e abrir o placar. No intervalo, 1×0 para Flamengo, placar magro, mas já muita bola e muito futebol do Flamengo.

    Flamengo começou o segundo tempo com 6 jogadores na linha central e os 4 defensores um pouco atrás na mesma linha. Esse Flamengo era ofensivo, queria ir no ataque, para o desespero de Grêmio e de outros times, sempre queria fazer mais gols. Por isso, além dos títulos, o Flamengo de 2019 foi tão especial. Com apenas 20 segundos de jogo, com raça, Bruno Henrique ganhou uma bola dividida no campo de Grêmio e deixou para Éverton Ribeiro, que não fez o segundo gol de pouco. Bola foi no escanteio, e no escanteio, Gabigol fez um de seus gols mais bonito com o Manto Sagrado, com um gol de voleio muito difícil de conseguir. Até foi achar na arquibancada uma placa “Hoje tem gol do Gabigol”. Esse Flamengo era show. Tinha gol de Gabigol, e tinha ainda mais.

    No terceiro minuto do segundo tempo, quando Galvão Bueno falava que Grêmio era imortal, Flamengo quase fez o terceiro, com chute de Bruno Henrique em cima do travessão. No banco, Renato Gaúcho parecia desesperado, sem poder de reação. Seu time também não sabia reagir. Numa chegada na esquerda de Felipe Luís, Bruno Henrique recebeu a bola, evitou o carrinho de Matheus Henrique, tomou o carrinho de Pedro Geromel. O Bruno Henrique tomou o carinho, a bola já estava longe, fora do Geromel, fora do Grêmio, e o juiz não hesitou: pênalti para Flamengo. Sem hesitar também, Gabigol fez o doblete, fez o terceiro do Flamengo. Teve dança com o quarteto mágico, Everton Ribeiro, Bruno Henrique, Arrascaeta e Gabigol, já era muito para Grêmio, mas tinha ainda mais, Flamengo estava além do possível.

    Com uma hora de jogo, Gabigol recebeu a bola na esquerda e abriu para Bruno Henrique fazer o quarto gol. Era um momento surreal, até de ter pena para Grêmio, uma avalanche de gols que relembrava, agora no bom lado, o 7×1. Mas o juiz deu um pouco de normalidade ao jogo e anulou o gol por impedimento. Tanto faz, cinco minutos depois, num escanteio de Arrascaeta, o zagueiro Pablo Marí fazia o quarto gol, agora valido. E cinco minutos depois, também numa bola parada da esquerda, agora de Éverton Ribeiro, teve outro gol do outro zagueiro, Rodrigo Caio. Gosto muito dessa sequência de dois gols dos zagueiros para uma das maiores duplas de zaga que vi no Flamengo, talvez só perdendo de Fábio Luciano – Ronaldo Angelim.

    Mais impressionante ainda, era o placar: Flamengo 5×0 Grêmio. Antes do jogo, tinha um certo favoritismo do Flamengo, mas nada de evidente. Depois, só tinha um Grêmio morto. E Jorge Jesus estava sem piedade, quando Pablo Marí e Gerson começaram a trocar passes laterais no campo de Flamengo, ele entrou numa fúria e pediu o time atacar. Por isso seu Flamengo foi tão vencedor, tão memorável. E Jorge Jesus ainda ofereceu um nome a esse jogo eterno, “o Cincum”, na verdade ele falou isso dez dias antes do jogo, para reclamar da violência dos outros times contra um Flamengo imparável. Não importa o motivo, gosto muito de jogos que têm nomes, e acho “o Cincum” um dos mais legais.

    Com esse nome, “o Cincum” era ainda mais eterno. Flamengo foi muito bonito em 2019, mas mais bonito do que esse jogo durante a temporada, só a própria final da Liberta e o Milagre de Lima. E “o Cincum” é o jogo que representa mais o Flamengo de 2019, de um futebol alegre e ofensivo, com no banco um técnico aborrecido e vitorioso, um jogo que marcou eternamente todos os 69.981 presentes no Maracanã e todos os flamenguistas, no Rio, em Paris e em todos os cantos do mundo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”