Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #399: Flamengo 3×0 Estudiantes 1988

    Jogos eternos #399: Flamengo 3×0 Estudiantes 1988

    Flamengo joga hoje contra o Estudiantes, com jogo valendo o primeiro lugar do grupo. Os dois times já se encontraram na Copa Libertadores do ano passado e o confronto pode virar um clássico da Libertadores, como já foi em outra competição, hoje extinta.

    Disputada entre 1988 e 1997, a Supercopa Libertadores, como o nome indicava, reunia os campeões da Copa Libertadores. Na época, entre os clubes brasileiros, apenas Santos, Cruzeiro, Flamengo e Grêmio. Nas dez edições do torneio, Flamengo enfrentou em quatro oportunidades o Estudiantes: em 1988, 1991, 1992 e 1994. Eu fico então para a crônica do dia com o primeiro confronto, em 1988.

    O Estudiantes, campeão da Copa Libertadores em 1968, 1969 e 1970, foi o primeiro adversário do Flamengo na história da Supercopa Libertadores, uma competição em mata-mata. Nas oitavas de final, Flamengo estreou com empate 1×1 na Argentina. Assim, até um empate sem gol no Maracanã era suficiente para se classificar na próxima fase. O Mengo era o franco favorito, já que o Estudiantes estava no 15o lugar do campeonato argentino, com apenas 5 vitórias em 30 jogos até então. Em 5 de abril de 1988, o eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Jorginho, Zé Carlos II, Edinho, Leonardo; Andrade, Ailton, Zinho; Luís Henrique, Renato Gaúcho, Bebeto.

    Das ausências rubro-negras, tinha dois jogadores em destaque, provavelmente os dois maiores ídolos da história do Flamengo. Leandro recebeu uma pancada no jogo de ida e se machucou na costela. Já o Zico não jogava desde um mês por causa de dores musculares e até anunciou uma provável aposentadoria por causa das lesões repetidas. Dessa forma, o maior protagonismo do jogo ficou para Bebeto e Renato Gaúcho, sempre provocativo com os argentinos: “Em plena Buenos Aires, eles não tomaram uma goleada porque tivemos muito azar nas finalizações. Aqui, porém, vai ser diferente. A torcida pode comparecer. É sempre bom se derrotar argentinos”.

    Apesar do apelo de Renato Gaúcho, a competição, ainda na sua primeira edição, atraiu pouco público. No Maracanã, foram 8.653 pagantes. Porém, a baixa de bilheterias e de policiamento provocaram uma confusão e até invasão do Maracanã. “Muita gente só conseguiu entrar bem depois do jogo iniciado”, explicou o Jornal do Brasil na edição do dia seguinte. Por isso, muitos perderam o primeiro gol, marcado com apenas 5 minutos de jogo. No escanteio curto, Renato Gaúcho cruzou, Luís Henrique chegou, cabeceou e abriu o placar.

    A competição era diferente da Copa Libertadores, mas tinha uma coisa que não mudava. Atrás no placar, os argentinos partiam para a violência e Bebeto, Edinho e Jorginho foram deslealmente atingidos. “O maior adversário do time foi a violência do adversário”, até escreveu o Jornal do Brasil. No intervalo, Flamengo tinha um gol de vantagem e precisava fazer um pouco mais para derrotar os argentinos e garantir a classificação.

    Renato Gaúcho falava muito fora do campo e fazia ainda mais em campo. No início do segundo tempo, depois de passe de Bebeto, chutou de primeira, mas o goleiro defendeu. Na esquerda, o craque gaúcho fintou e cruzou bem para o voleio de Ailton, que passou em cima do travessão. Dois minutos depois, outro passe de Bebeto para Renato Gaúcho, que dominou de peito e pegou de voleio, de novo fora do gol. Numa ‘homenagem’ ao gol de Diego Maradona dois anos antes, Henágio fez um gol com a ajuda da mãozinha, mas não enganou o juiz, que anulou o gol.

    Henágio, falecido em 2015 com apenas 53 anos de idade, é um pouco esquecido hoje, infelizmente como muitos outros. Na época, era o reserva natural de Zico, substituindo-o muitas vezes em campo na reta final do Brasileirão de 1987. Tinha um futebol alegre e irreverente, mas também irregular. Cotado como substituto de Zico, não vingou no Flamengo e deixou o clube em 1988 com apenas 28 jogos. Mas tinha seus momentos de brilho. Contra Estudiantes, Henágio entrou no lugar de Luís Henrique, eliminou um adversário apenas com uma finta de corpo e, no primeiro toque, deixou em profundidade para Renato Gaúcho. No cara a cara, com a habilidade do craque e a tranquilidade do artilheiro, Renato Gaúcho venceu o goleiro sem dificuldade.

    No final do jogo, com classificação já definida, Jorginho driblou na direita e cruzou para Bebeto, que fez o terceiro e último gol da partida. Apesar da vitória ampla do rubro-negro, não foi um bom jogo. “Foi talvez a pior partida do Flamengo desde que cheguei ao clube. Tudo deu errado. O time não jogou como está habituado no meio campo, marcando em cima, dando chance a que o adversário crescesse”, até falou o zagueiro Edinho. Na fase seguinte, o Flamengo foi eliminado com duas derrotas 0x3 e 0x2 contra o Nacional.

    A torcida rubro-negra, já privada de Copa Libertadores, vivia um drama maior, com a possível despedida de seu maior ídolo, Zico. Com apelo de Renato Gaúcho e do amigo vascaíno Roberto Dinamite, que vivia problemas similares, Zico recogitou a aposentadoria, como ele próprio explicou para o Jornal dos Sports: “É claro que manifestações de apoio, como as do Roberto e do Renato, deixam a gente sensibilizado. Vou pensar mais um pouco sobre o assunto, ver se realmente o melhor será largar o futebol. Em julho, como já disse, definirei minha posição”. A Nação ainda tinha esperança.

  • Jogos eternos #398: Vitória 1×3 Flamengo 2003

    Jogos eternos #398: Vitória 1×3 Flamengo 2003

    Flamengo joga hoje contra Vitória na Copa do Brasil no Barradão. O Mengo tem vantagem magra depois da vitória 2×1 na ida no Maracanã. A lembrança do dia então é evidente, com um jogo de 2003.

    Na Copa do Brasil de 2003, Flamengo também jogou contra Vitória. Na época, o jogo aconteceu nas quartas de final e o Vitória chocou o futebol brasileiro na fase anterior, goleando 7×2 o Palmeiras. Na ida, como em 2026, Flamengo venceu Vitória 2×1 no Maraca, com gols de Fernando Baiano e Fernando. O empate no Barradão era suficiente para se classificar na semifinal. Em 14 de maio de 2003, o técnico Nelsinho Baptista escalou Flamengo assim: Júlio César; Luciano Baiano, Fernando, André Bahia, Athirson; Fabinho, André Gomes, Fábio Baiano, Felipe; Jean, Edílson.

    No time titular, tinha três jogadores com Bahia ou Baiano no nome, André Bahia, Luciano Baiano e Fábio Baiano, além de Fernando Baiano no banco. Em campo, ainda tinha Edílson, oriundo de Salvador e que fazia neste jogo sua reestreia com o Mengo depois de brilhar em 2000 e 2001. “Não tinha melhor jogo para a minha reestreia. A presença da minha família no estádio e a sorte que eu sempre tenho contra o Vitória em Salvador me motiva ainda mais”, falou antes do jogo o Capetinha. Também deve se notar que apesar do nome, André Bahia nasceu no Rio de Janeiro.

    No Barradão, uma dupla baiana funcionou bem, já no final do primeiro tempo. Luciano Baiano fez o passe de trivela para Fábio Baiano, que de primeira, tocou de calcanhar para Jean. O atacante, com um pouco de sorte e ajuda do goleiro, finalizou e abriu o placar. No início do segundo tempo, a dupla baiana virou trio. Fábio Baiano ficou agora na iniciativa da jogada, driblou um adversário no círculo central e fez um lançamento longo na direita, com uma curva sensacional e uma precisão absurda. Luciano Baiano chegou primeiro e cruzou de primeira, para Edílson. O pentacampeão abriu o espaço já no domínio da bola, e com a tranquilidade do artilheiro, abriu o pé para tirar o goleiro e comemorar com estilo sua reestreia.

    Cinco minutos depois, o Vitória reencontrou esperança com um pênalti apitado pelo juiz. Zé Roberto, aquele que brilharia com o Manto Sagrado em 2009, venceu o Júlio César. Flamengo tinha agora só um gol de vantagem no jogo, mas andava com tranquilidade para a classificação. Ainda mais que na metade do segundo tempo, o Mengo fez outro gol, de novo com a marca do Fábio Baiano, um craque numa época de vacas magras.

    No primeiro gol, Fábio Baiano tocou na bola a 25 metros do gol do Vitória. No segundo gol, começou a jogada no círculo central. E no terceiro, começou a 25 metros, mas do próprio gol do Flamengo. Percorreu 50 metros bola no pé, elegância do bico da chuteira até os poucos cabelos. Fez o passe na profundidade, com precisão perfeita. Jean chegou antes do goleiro e fez o segundo dele no jogo, o quinto dele na competição. Flamengo estava na semifinal e o destino era outro rubro-negro nordestino, o Sport.

  • Jogos eternos #397: Grêmio 0x1 Flamengo 2019

    Jogos eternos #397: Grêmio 0x1 Flamengo 2019

    Flamengo joga hoje na Arena do Grêmio, onde sempre é difícil de jogar. Na verdade, para o Flamengo tem duas fases distintas no estádio inaugurado em 2012. Nos oito primeiros jogos, o Mengão empatou três vezes, perdeu 5 jogos e nunca venceu. Daqui para frente, são também 8 jogos, com um retrospecto bem diferente: 5 vitórias, um empate e duas derrotas. Vamos então para a crônica do dia da primeira vitória rubro-negra lá, em 2019.

    Nessa sequência de partidas, tem um jogo pivô, um antes e um depois. Um jogo já eternizado no Francêsguista, o Cincum, quando Flamengo goleou Grêmio 5×0 no Maracanã na semifinal da Copa Libertadores de 2019. Depois disso, o Grêmio nunca mais foi o mesmo rival. Era o Flamengo que impunha medo no confronto, mesmo em Porto Alegre.

    Menos de um mês depois do Cincum, os dois times se reencontraram, agora na Arena do Grêmio. Com a final da Copa Libertadores se aproximando, Jorge Jesus escalou contra Grêmio um time misto, quase reserva. Em 17 de novembro de 2019, o técnico português escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rodinei, Thuler, Rhodolfo, Renê; Piris da Motta, Diego, Arrascaeta; Reinier, Lucas Silva, Gabigol.

    Mesmo com o time reserva, era o Flamengo de Jorge Jesus, sempre ofensivo, sempre buscando o gol. Lucas Silva teve a primeira oportunidade de gol, mas Paulo Victor fechou bem o ângulo e fez a defesa. E nem era o time reserva, era um time misto, com Gabigol e Arrascaeta, que tabelaram para assustar mais uma vez a defesa do Grêmio. Porém, Gabigol chutou de trivela, sem força, sem fazer o gol ainda.

    Grêmio reagiu com uma tentativa de Bruno Cortez, mas o Flamengo tinha um paredão chamado Diego Alves, que também pegou uma cobrança de falta viciada e desviada pela barreira. E o show rubro-negro voltou com a magia de Arrascaeta, que driblou um, driblou um segundo e deixou para Gabigol. O ídolo cruzou no chão. Léo Moura, antigo ídolo e agora gremista que nunca mais vencerá a Copa Libertadores, tocou na bola com a mão. O juiz não duvidou e apitou o pênalti. Na cobrança, claro Gabigol, e claro hoje tem. Gabigol pegou o goleiro no contrapé e deixou mais um pesadelo na casa do Grêmio.

    No segundo tempo, Gabigol quase fez o segundo, mas a bola passou em cima do travessão. O então gremista Éverton Cebolinha driblou bem, mas chutou muito mal. Gabigol, por reclamação e aplausos irônicos, recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso. A torcida gremista comemorou, o Gabigol provocativo mostrou os cinco dedos da mão, um para cada gol, e a Arena inteira se calou.

    Com um homem a mais, o Grêmio buscou o empate e multiplicou os chutes. Foram 22 contra 9 para o Flamengo. Mas nenhum no fundo do gol. Flamengo vencia pela primeira vez na Arena do Grêmio e se aproximava de conquistar também o Brasileirão. O título seria confirmado no dia seguinte à glória eterna de Lima, com a ajudinha do… Grêmio, o Imortal matado pelo Mengo.

  • Jogos eternos #396: América de Cali 1×1 Flamengo 1984

    Jogos eternos #396: América de Cali 1×1 Flamengo 1984

    Flamengo pode já se classificar para as oitavas de final da Copa Libertadores em caso de vitória na Colômbia, contra o Independiente de Medellín. Até um empate ajuda. Assim, para o jogo eterno do dia, eu vou de um outro empate na Colômbia na Copa Libertadores, contra o América de Cali.

    Em 1984, Flamengo estava órfão de Zico, exilado na Itália, mas ainda tinha craques em cada posição, em cada lugar do campo. Na estreia da Copa Libertadores, Flamengo goleou 4×1 Santos, um jogo já eternizado no Francêsguista, com gols de Mozer, duas vezes, Lico e Tita. Por sua vez, o América de Cali, bicampeão colombiano em 1982 e 1983 (seria tri em 1984), também estreou com vitória, sobre o Junior de Barranquilla.

    Depois da vitória contra Santos, Flamengo estava relativamente tranquilo na competição, mas com apenas o primeiro do grupo classificado na semifinal, também não podia vacilar. Para se defender dos contra-ataques do América, o técnico rubro-negro Cláudio Garcia escalou no meio do campo Bigu, de apenas 19 anos. A defesa ficou a mesma. “Na defesa, não há o que se mexer, pois os seus integrantes são jogadores de alto nível”, escreveu Ricardo Pietro no Jornal dos Sports. Em 27 de março de 1984, o técnico Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Bigu, Adílio, Tita, Lico, Nunes.

    Já nos primeiros minutos, Leandro, ainda jogando de lateral-direito, mostrou toda sua classe e seu repertório: um passe de trivela, um desarme limpo, um apoio ao ataque. Ali está meu personagem do jogo. Leandro tinha uma classe absurda, fazendo o simples quando apenas precisava disso, fazendo o difícil quando precisava mais, com a mesma impressão de facilidade. Lia tudo, a trajetória da bola, o movimento dos companheiros e dos adversários. Desarmava fácil, fintava apenas com o corpo para abrir espaço, se livrava do adversário para criar perigo no ataque.

    E de vez em quando, Leandro fazia seu gol. No campo de Cali, Leandro dominou de peito e chutou de pé esquerdo. Sabia fazer tudo. A bola foi embaixo do travessão, mas o goleiro defendeu e retardou o brilho de Leandro. Mas claro, nosso ídolo tinha muita estrela e mostrou isso mais uma vez, na metade do primeiro tempo. Aqui o relato de Antônio Maria Filho para o Jornal do Brasil: “Aos 24 minutos, o Flamengo fez uma jogada muito boa. Leandro cortou um contra-ataque do América de Cali, tocou rápido para Tita e recebeu na frente, fora da área. Dali mesmo, de primeira, ele emendou de direita, no canto, sem defesa para Falcone. Era o primeiro gol do Flamengo, marcado por um dos jogadores de maior destaque, até aquele momento”.

    Vale a pena assistir ao gol, de novo ou pela primeira vez, descrever mais uma vez o lance do gol. Aqui está o paradoxo de Leandro. Faz tudo como se fosse nada. Desarma com classe, e no mesmo desarme, já faz o passe certinho, bonitinho, de trivela para Tita. Na verdade, nem faz coisas difíceis, faz coisas impossíveis para os mortais. Ainda dá opção de passe, domina no ar, deixa a bola cair para melhor pegar nela e manda no cantinho de voleio. E fazia tudo isso, do desarme até o gol, com uma beleza plástica de poucos, talvez só de Leandro.

    Três minutos após o gol de Leandro, Flamengo foi surpreendido num escanteio e cedeu o empate. Nosso lateral ainda mostrou sua classe, com desarmes limpos, lançamentos precisos e dribles bonitos. No final do primeiro tempo, recebeu uma pancada e precisou ser substituído. Apenas as lesões podiam atrapalhar o futebol dele. Leandro só jogou no Flamengo na carreira inteira, mas pendurou as chuteiras com apenas 31 anos e 414 jogos. A Nação em particular e o futebol em geral mereciam mais.

    Enfim, com a substituição de Leandro, o jogo perdeu metade do interesse e o futebol no estádio Pascoal Guerrero caiu. Leandro precisou de apenas 45 minutos para ser eleito o melhor do jogo pelo Jornal dos Sports, com nota 9: “Foi um dos principais jogadores do Flamengo, apoiando com decisão e marcando um lindo gol”. Para o Jornal do Brasil, Antônio Maria Filho escreveu: “A saída de Leandro, que se contundiu no fim do primeiro tempo ao sofrer uma falta violenta, desarrumou um pouco o Flamengo, e a péssima atuação do juiz peruano Cesar Pegano, sem personalidade e beneficiando sempre o time da casa, desarrumou totalmente o jogo, que era bom no primeiro tempo”. Assim era a Copa Libertadores nesta época. Ao menos, Flamengo conseguiu o empate e ficou no primeiro lugar. Leandro se recuperou e ainda durante alguns anos, desfilou toda sua classe nos gramados da América do Sul.

  • Jogos eternos #395: Flamengo 2×1 Vasco 1983

    Jogos eternos #395: Flamengo 2×1 Vasco 1983

    Ainda amargado com o último jogo entre Flamengo x Vasco, um empate com sabor de derrota, eu vou para a crônica do dia de um jogo aniversariante, que completa hoje 43 anos. Um Clássico dos Milhões com final feliz, tanto no jogo quanto no campeonato com a conquista do Tri.

    No Brasileirão de 1983, Flamengo e Vasco se enfrentaram nas quartas de final. Talvez o Clássico dos Milhões mais importante da história do Brasileirão. Os dois times já se enfrentaram meses antes na final do campeonato carioca de 1982, com final feliz para o Vasco. Em 5 de maio de 1983, o ainda novato técnico Carlos Alberto Torres escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Vítor, Adílio, Zico; Elder, Júlio César Barbosa, Baltazar.

    Como na última crônica, um Flamengo x Vasco de 1992, tinha muita gente no Maracanã: 111.260, apenas contando os pagantes. E como o jogo de 1992, teve muitas faltas: 42 apenas no primeiro tempo! Assim, teve chances de golaço de falta de Zico, mas o experiente goleiro Mazarópi foi bem na bola. Outra falta, mais da direita, mais para um cruzamento, mais com o pé mágico de Júnior. Elder cabeceou para fora e o placar ficou no 0x0.

    Aos 25 minutos, outra falta para o Flamengo, agora no círculo central, sem perigo imediato. Júnior cobrou rapidamente, para Vítor, para Zico, que dominou com o pé esquerdo e, com o pé direito, deixou de trivela para Júnior, já de olho no lance. De primeira, Júnior achou Adílio na profundidade. Com o fôlego de um meia e a finalização de um centroavante, Adílio venceu o Mazarópi e fez mais um gol decisivo contra Vasco, faria outros depois. Um golaço, um gol típico do tão inesquecível Flamengo de 1978 a 1983.

    O jogo foi muito violento, com uma falta absurda de Orlando sobre Zico, valendo um cartão amarelo mas era mais para ser vermelho direito. O juiz José Roberto Wright chamou os dois capitães, Roberto Dinamite e Zico, dois símbolos de classe e fair play. Pediu para um jogo menos violento antes de ser obrigado a dar cartões vermelhões num déjà-vu. No final do primeiro tempo, melhorou o futebol e melhorou o Vasco. Elói infernizou a defesa rubro-negra com dribles, Serginho chutou e Raul defendeu parcialmente. No duelo com Roberto Dinamite, Mozer conseguiu tocar a bola com a cabeça mas encobriu o próprio goleiro. No intervalo, Flamengo 1×1 Vasco.

    No segundo tempo, o jogo foi menos violento. Assim, Flamengo foi o mais perigoso. Escreveu o Jornal dos Sports no dia seguinte: “Os dois times voltaram mais soltos e isto beneficiou o Flamengo que deixava Zico e Adílio em liberdade para criar e provocar pânico na defesa do Vasco”. Porém, a primeira oportunidade do segundo tempo foi do Vasco. Mas Raul, perto da aposentadoria, defendeu bem a cobrança de falta de Marquinho.

    Na metade do segundo tempo, o técnico Carlos Alberto Torres chamou o Júlio César Barbosa para deixar seu lugar ao Gilmar Popoca na próxima saída de bola. Bola rolando, Marinho, em posição de ponta-direita, conseguiu um chapéu sobre Gilberto Coroa e cruzou. Mazarópi falhou na saída, a bola desfilou na pequena área vascaína e chegou até a esquerda. Júlio César esticou a perna, tocou na bola, deixou na rede. Flamengo voltou na frente no placar.

    Até o final do jogo, Zico quase fez de voleio, Roberto Dinamite quase fez de cabeceio, achando o travessão. Júlio César – ainda em campo, Carlos Alberto Torres preferiu substituir Baltazar após o gol – teve um cara-a-cara com Mazarópi, mas demorou muito para chutar. Adílio passou entre três adversários na grande área e chutou com o pé esquerdo, mas o goleiro vascaíno defendeu. Depois de último escanteio do Vasco, o Wright finalmente apitou o final do jogo e deixou feliz a maioria dos Milhões. Flamengo vencia, mais uma vez com grande jogo de Zico, “o melhor jogador da partida. Só não fez chover no Maracanã” segundo o Jornal do Brasil. Flamengo podia até perder de um gol de diferença na volta e se classificar para a semifinal. Com outro show de Adílio e Zico, o Mengo empatou e continuou a caminhar para o tricampeonato.

  • Jogos eternos #394: Flamengo 1×1 Vasco 1992

    Jogos eternos #394: Flamengo 1×1 Vasco 1992

    Flamengo não perde contra Vasco no Brasileirão desde 2015. Já são 15 jogos de invencibilidade. Porém, os três últimos jogos acabaram em empate. Para o jogo eterno do dia, eu vou então de um empate entre Flamengo e Vasco, no caminho do penta.

    No Brasileirão de 1992, os 20 times jogaram uma vez entre si, e os 8 primeiros se classificaram para a segunda fase. No primeiro Flamengo x Vasco do campeonato, ainda na primeira fase, o cruzmaltino venceu 4×2 com gols de Bebeto, duas vezes, Edmundo e Flávio. O Vasco disparou na liderança e Flamengo ficou no 13o lugar, ameaçado de ficar fora da segunda fase. Porém, sob a maestria do Vovô-Garoto Júnior, Flamengo arrancou e acabou no quarto lugar.

    Na segunda fase, tinha dois grupos de quatro times e apenas o primeiro se classificava para a final. Na estreia, Flamengo venceu São Paulo, mas logo depois perdeu contra Santos. Já o Vasco começou a fase com dois empates contra os mesmos times. O Clássico dos Milhões valia ouro. Quem perdia estava quase eliminado. “Desse duelo, só um sobreviverá”, escreveu Washington Rodrigues para o Jornal dos Sports. Talvez por isso o jogo ficou tão violento.

    E a violência começou antes mesmo do jogo. Teve brigas de torcidas organizadas nas ruas, apreensão de coquetéis molotov, barras de ferro e pedaços de pau nos ônibus, invasões em portões do Maracanã, cheio com 101.343 pagantes e mais de 130 mil presentes. Em 28 de junho de 1992, o nosso eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá; Uidemar, Júnior, Zinho, Nélio; Paulo Nunes, Gaúcho. O Vasco era o favorito do jogo, com um trio ofensivo impressionante: Bismarck, Bebeto e Edmundo.

    Já do lado do Flamengo, o principal nome era o de sempre: Júnior. Ainda mais que o Vovô-Garoto completaria 38 anos no dia seguinte e recebeu uma homenagem do Jornal dos Sports. A festa do pré-jogo foi realmente bonita, com show das duas torcidas. Mas em campo, teve pouca festa e ainda menos futebol. Com apenas dois minutos de jogo, Zinho cruzou, Luís Carlos Winck tocou a bola com a mão, mas o juiz nada marcou pênalti. Assim, inflamou o jogo, que foi quase só violência. Teve algumas faltas que hoje são impossíveis de imaginar. “No primeiro tempo do jogo vimos apenas pancadas e troca de socos e pontapés, diante do olhar complacente do árbitro”, escreveu Washington Rodrigues.

    Até a torcida reclamou da falta de futebol e do excesso de violência. Na sua crônica para o Jornal do Brasil, Cláudio Arreguy viu uma “vitória da arquibancada”: “A torcida foi a grande vencedora […] Ela, com sua sabedoria, conseguiu a proeza de fazer com que um jogo que caminhava para um triste desfecho, tamanha a violência exibida pelos jogadores em campo, melhorasse, ganhasse contornos do clássico que ele é e terminasse eletrizante […] Até então, o que eles tiveram de suportar eram botinadas de ambos os times, trocas de empurrões, peitadas e até uma cusparada de Eduardo em Nélio […] Foram momentos de tremor nas estruturas do velho estádio, cada torcida tentando gritar mais alto que a rival. E o futebol, que ainda não entrara em campo, surgiu com a emoção que uma casa cheia é capaz de proporcionar. Não um espetáculo de alto nível, com jogadas de arte. Mas, pelo menos, um jogo de velocidade, empenho, busca do gol”.

    O único ponto positivo das inumerosas faltas é que dava chances de gol. Ainda mais quando no time tem a figura de Júnior. O ex-lateral e agora meio de campo vivia uma fase exuberante, com vários golaços de falta no campeonato, contra o Atlético Mineiro, o Corinthians e o Internacional. Destaque para o primeiro gol, contra o Galo, num lugar do campo reservado aos craques, bem na esquerda, com muito pouco ângulo. Mesmo assim, Júnior conseguiu o golaço, com uma curva reservada aos craques. E do exato mesmo cantinho do campo, teve uma falta para o Flamengo no jogo contra Vasco. Júnior conhecia a curva e o efeito, conhecia tudo da bola. Bateu de pé direito e surpreendeu o goleiro Régis, que falhou. Com um golaço de seu capitão, Flamengo abria o placar no final do primeiro tempo.

    No segundo tempo, o futebol melhorou, apesar de ainda algumas faltas duras, afinal era o Clássico dos Milhões. Numa bola alta, Júnior Baiano antecipou a saída fraca de Gilmar e tocou de cabeça. Cássio recuperou, invadiu a grande área rubro-negra e tocou para Wilsinho, pronto para fazer o gol. Júnior, definitivamente o nome do jogo, chegou antes e foi quase forçado a fazer o gol contra, o gol do placar final.

    Com o empate, os dois times seguiam vivos para a classificação. O jogo seguinte, outro Flamengo x Vasco marcado três dias depois, prometia mais uma guerra, dentro e fora do campo: “Tomara que a gente assiste a futebol, nos 90 minutos. E que as torcidas não repitam o triste espetáculo na saída do estádio, quando resolveram brigar e ameaçar a muitos que nada tinham a ver com a história”, concluiu Washington Rodrigues. A festa nas arquibancadas submetia-se a muitos, mas a festa do futebol em campo dependia apenas de alguns craques, como Júnior, o Vovô-Garoto de agora 38 anos.

  • Ídolos #51: Edílson

    Ídolos #51: Edílson

    Dos ídolos rubro-negros dos anos 1990 ou do início dos anos 2000, eu conheci muitos sendo ‘francês’, ou seja, conhecendo-os porque jogavam na Europa ou eram jogadores da Seleção. Edílson, que jogou pouco na Europa, é um deles. Ele também é minha memória mais antiga do Flamengo. Comecei a acompanhar o futebol brasileiro de clubes em 2005 e conhecer bem o elenco do Flamengo em 2007. Mas lembro que para a Copa do Mundo de 2002, eu tinha um carinho especial pelo Edílson porque jogava no Flamengo. Na verdade, nem jogava mais no Flamengo, mas nos quadrinhos Panini, bem famosos na França e que eu colecionava como todos os garotos, a ficha do Edílson indicava que jogava no Flamengo. E gostava do Edílson porque eu gostava do Flamengo. Ele é minha prova que eu era flamenguista antes de meus 10 anos, quem sabe antes de meu nascimento.

    Edílson da Silva Ferreira nasceu em 17 de setembro de 1970, em Salvador. Passou por clubes menores em vários estados do Brasil. No livro 2001, isso aqui é Flamengo de Claudio Portella e Roberto Assaf, Edílson lembra sua trajetória: “Jogava futebol amador em Salvador e recebi um convite de um treinador para jogar no Industrial, time da primeira divisão do Espírito Santo. Aceitei, fiquei um ano e me profissionalizei. Consegui fazer alguns gols no Campeonato Capixaba […] Meu tio me levou para fazer um teste no Vitória, mas o clube estava contratando Arthurzinho, que jogava na mesma posição, e não me deixaram treinar. Acabei aceitando uma proposta para ir para o Tanabi, do interior de São Paulo. Fui bem e o Guarani me contratou”. Quando chegou ao Guarani em 1992, já tinha 21 anos. Foi bem, inclusive com dois gols em cima do Palmeiras, e no ano seguinte, acabou contratado pelo próprio Palmeiras, um time que tinha, entre outros, Roberto Carlos, Zinho, Evair e Edmundo. Conquistou uma tríplice coroa em 1993 com o campeonato paulista, o torneio Rio – São Paulo e o Brasileirão. No jogo de ida da final, no seu Salvador natal, Edílson fez o único gol do jogo contra Vitória.

    Em 1994, Edílson conquistou mais um campeonato paulista e fez um dos gols mais bonitos da história do futebol brasileiro contra o Corinthians. Saiu da parte do campo do Verdão e driblou todo mundo antes de finalizar a pintura, ainda mais bela na voz de Silvio Luiz. Com seu futebol envolvente e irreverente, também ganhou o apelido de Capetinha, como ele próprio explicou: “Combina com o que eu fazia dentro de campo porque eu sempre fui um cara tranquilo no dia a dia. O apresentador Roberto Avallone, que era da TV Gazeta na época, colocava apelido nos jogadores. Colocou Animal no Edmundo, El Matador no Evair, Enceradeira no Zinho e começou a me chamar de Capetinha, e aí pegou”.

    Depois percorreu o mundo, jogou na Europa no Benfica. “Gostei muito de Portugal. Aprendi a gostar do Benfica. Eles me conhecem como o ‘Pequeno Grande Homem’, pois era baixinho e fazia coisas grandes dentro de campo. Lembro que tive uma despedida emocionante lá”, ainda lembra Edílson, que depois passou pelo Japão, seis anos antes da Copa. Brilhou e fez seus gols antes de voltar para o futebol brasileiro, agora no arquirrival do Palmeiras, o Corinthians. E de novo fez história num timaço, que tinha Gamarra, Vampeta, Ricardinho, Marcelinho Carioca e Luizão. Em 1998, foi eleito o melhor jogador do campeonato, que conquistou em cima do Cruzeiro. No jogo desempate, driblou o goleiro Dida, que já tinha martirizado na final de 1993, para abrir o placar e deixar o Timão perto da taça.

    Em 1999, provocou uma das maiores brigas do futebol brasileiro, quando fez algumas embaixadinhas para zoar o Palmeiras, o que custou sua vaga na Copa América com a Seleção. Também conquistou seu terceiro Brasileirão e deixou no ano seguinte mais uma jogada icônica do futebol brasileiro. No Mundial de clubes, o Capetinha conseguiu a canetinha nas pernas do francês Karembeu e completou para fazer o golaço contra o Real Madrid. Conquistou o Mundial e foi eleito melhor jogador da competição. Porém, o Corinthians foi eliminado pelo Palmeiras no campeonato paulista e Edílson pediu para sair do clube.

    Edílson era desejado pelo Flamengo e também pelo Vasco, vice-campeão mundial, vice-campeão carioca e que tinha no elenco jogadores como Júnior Baiano, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano e claro, Romário. Lembra o presidente do Flamengo, Edmundo Silva: “O Luiz Viana, empresário na época do Edílson, trouxe o nome dele. Foi uma briga entre Vasco e Flamengo. Mas chegamos na frente e fechamos antes. Eu achava a cara do Flamengo pela sua irreverência e futebol vistoso”. No mesmo livro 2001, isso aqui é Flamengo, Edílson revela o motivo da escolha: “Acreditei no projeto de levantar um time que estava em baixa. No Vasco, seria o contrário, já que estavam no alto e a tendência era cair”. Ainda falou o Capetinha: “Não encerraria a carreira sem jogar pelo Flamengo”.

    Edílson chegou ao Flamengo por 7,5 milhões de dólares, uma fortuna na época. O clube rubro-negro fechava uma janela bem ambiciosa, trazendo também Gamarra, Petkovic, Alex e Denílson. Não deu tudo certo em campo. Edílson estreou numa derrota contra River Plate na Copa Mercosul e fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado, no jogo seguinte, na Europa contra o Atlético de Madrid. No jogo seguinte, contra o Bétis, Edílson fez outro gol com passe de Denílson. O outro gol da vitória rubro-negra foi marcado pelo Adriano. Havia muito talento.

    De volta ao Brasil, Edílson fez mais um gol para seu primeiro jogo do Brasileirão com o Flamengo, uma vitória 2×1 contra o Atlético Mineiro no Mineirão, um jogo eterno no Francêsguista. Dejan Petkovic fez o outro gol da vitória em virada do Flamengo. Havia muito talento, muito ego também. Edílson ainda fez dois gols no jogo seguinte, uma goleada 4×0 contra o Universidad de Chile, outro jogo eterno no blog. O Capetinha chegou aos 5 gols nos seus 5 primeiros jogos, mas fechou a temporada de 2000 com apenas 2 gols nos 21 jogos seguintes! Ao menos, sabia escolher seus jogos e deixou a marca dele na goleada 4×0 contra Vasco e abriu o placar contra River Plate, o que não foi suficiente para impedir a eliminação rubro-negra da Copa Mercosul.

    Em 2001, alguns medalhões saíram do time e Edílson, que vestia a camisa 9, trocou de camisa, como ele explicou: “Gosto de dois números. Como a 10 é do Petkovic, optei este ano pela camisa 11. O 7 e o 9 são números feios”. Já tinha uma rivalidade entre o Capetinha e Pet, que começou a temporada machucado. Assim, o maior protagonismo caiu nos ombros do camisa 11, herdeiro de Romário, que não decepcionou. “A torcida do Flamengo deposita grande esperança em mim, mas, por ter chegado no meio do campeonato ano passado, não vinha correspondendo. Agora fiz uma boa pré-temporada e tenho tudo para decidir os jogos”, explicou Edílson, que passou os dois primeiros jogos do ano em branco. Logo depois, fez dois contra o Americano, inclusive um golaço com drible de vaca, ginga e habilidade.

    No campeonato carioca, Edílson fez vários gols, o que lhe valeu convocações na seleção brasileira e uma briga na artilharia com ninguém menos que Romário. “Não é fácil ganhar do Romário, não. Ser artilheiro numa competição em que ele está disputando e sempre ganhando não é para qualquer um”, explicou Edílson. Por sua vez, Romário explicava que era os concorrentes eram cavalos paraguaios e garantiu que seria o artilheiro. Fazia cinco anos consecutivos que o Baixinho era o artilheiro do campeonato carioca, seja com a camisa do Flamengo quatro vezes, seja com a camisa do Vasco uma vez.

    Edílson passou a meta dos 10 gols no campeonato fazendo os dois gols do jogo contra Friburguense. No livro 100 anos de bola, raça e paixão, pode se ler: “Foi exatamente após esse jogo que os problemas de relacionamento entre os jogadores se tornaram públicos. O grupo estava desunido. Iranildo saiu de campo criticando a falta de união do time. Houve uma discussão em campo. Reinaldo se preparava para bater uma falta e foi empurrado por Petkovic. Reinaldo saiu reclamando: ‘Não adianta treinar faltas aqui no Flamengo porque o Pet não deixa bater’. Dentro do clube, os dirigentes já começavam a cogitar uma possível venda do sérvio. Além do alto salário que recebia, era apontado como desagregador e com pouco ambiente entre os jogadores mais jovens”. Para lidar com o ego de Petkovic e Edílson, precisava da habilidade e experiência de Zagallo, que reuniu os dois e falou: “Aqui dentro do campo, é o preto e vermelho. É a união. Fora de campo, se vocês não se dão, aí é outro problema”. No jogo seguinte, Fla venceu, Edílson fez um gol, Pet fez dois, e Zagallo abraçou o sérvio, acabou com os problemas.

    Edílson também estava acostumado a voltar nas suas terras baianas e às vezes atrasava para voltar na concentração no Rio de Janeiro. “Algumas vezes você precisa ter equilíbrio e não tomar nenhuma atitude radical. Era um jogador importante e que estava fazendo sua parte dentro de campo”, explicou Zagallo, que ainda falou sobre o Capetinha: “la para o jogo e decidia. Jogava muita bola! Infernizava qualquer defesa”. Na Taça Rio, Flamengo ficou no segundo lugar, atrás do Vasco. A final, como em 1999 e 2000, era entre Flamengo e Vasco.

    Vasco venceu o jogo de ida por 2×1, podendo perder por até um gol de diferença na volta e ser campeão. Por causa de falta de pagamentos, tempos sombrios da ISL, Petkovic ameaçou não jogar o jogo de volta. Acabou jogando e quem ficou fora foi o Romário, ainda machucado. Assim Edílson se consagrou como artilheiro do campeonato e pôs fim ao reinado do Baixinho. Faltava o título coletivo. No Maracanã lotado, com 20 minutos, um pênalti para o Flamengo. Edílson cobrou firme e abriu o placar. No final do primeiro tempo, Juninho Paulista empatou. No início do segundo tempo, Petkovic pedalou, fintou, driblou. O Pet cruzou, o baixinho Edílson pulou, cabeceou, golaçou. Flamengo vencia, mas faltava um golzinho para conquistar o título.

    O minuto 43 é eterno na história do Flamengo, mas a canonização começou no minuto 42. Edílson fez a jogada de pivô e cavou a falta, à 25 metros de distância, para manter viva a esperança da torcida. O final, todo mundo conhece, foi visto e revisto, mesmo sem ver o lance de novo, é impresso na retina, na cabeça e no coração de todo rubro-negro. Agora, paro de escrever para ver de novo a falta de Edílson, a esperança da Nação, a preocupação de Helton, a ansiedade de Alessandro, a fé de Zagallo, o chute, o suspiro, o golaço de Petkovic. Gol do Pet, Fla campeão, Fla tricampeão. No final do jogo, o artilheiro do campeonato exultou: “Já passei por tudo na carreira, mas hoje foi demais. Ganhei títulos em quase todos os clubes, mas igual a esse, sofrido assim, nunca”.

    Há uma curiosidade com Edílson no Flamengo. Em seu maior jogo com o Manto Sagrado, sua atuação é esquecida. O golaço de falta de seu maior rival apagou sua participação. O próprio Edílson reconhecia isso no livro 2001, isso aqui é Flamengo de Roberto Assaf e Claudio Portella: “Fiz dois gols na final, sofri a falta, mas o Pet que levou a fama. Se não fosse o gol dele de nada adiantariam os dois que fiz. Foi uma das grandes decisões que disputei na minha carreira”. Como camisa 10, Petkovic elogiou Edílson, no estilo particular dele: “Ele foi para Seleção com tanta assistência que eu dei para ele naquele ano. E, claro, por méritos dele”. Nas eliminatórias, o melhor momento dele foi na 16a rodada, quando o Brasil estava ameaçado de ficar fora da Copa. Contra o Chile no Couto Pereira, Edílson abriu o placar e o caminho do Brasil para a Copa.

    Com o Flamengo, repito, no inesquecível 27 de maio de 2001, Edílson fez dois gols e cravou a falta para o gol eterno de Pet no tricampeonato carioca. Teve outros momentos de brilho, na Copa dos Campeões regionais, fez um gol contra Bahia na estreia. Fez outro na semifinal contra Cruzeiro e deixou mais uma atuação inesquecível no jogo de ida da final contra São Paulo. Abriu o placar, fez uma assistência de bicicleta, deixou mais um gol e ainda provocou o quinto gol do Flamengo com um drible de vaca para uma vitória 5×3, outro jogo eterno no Francêsguista. Na volta, mais um golaço de falta de Pet, mais uma taça para o Mengo.

    No Brasileirão, fez um gol contra Bahia, gostava de fazer gols na sua terra natal, mas decepcionou no final. O Capetinha fez apenas 3 gols no campeonato e Flamengo quase foi rebaixado. Dos últimos 15 jogos na temporada, Edílson passou em branco em 14 jogos! Ao menos, escolheu bem seu jogo para mais uma atuação de craque. Nas quartas de final da Copa Conmebol, Flamengo goleou Independiente 4×0, Edílson fez dois gols, com duas assistências de Petkovic. O fim de uma dupla de sonho e pesadelo. Na final, Edílson foi expulso e já tinha deixado o clube para o jogo de volta, perdido contra San Lorenzo. O fim de uma época.

    Voltamos assim ao início da crônica, a Copa de 2002, ao quadrinho de Panini. A minha primeira lembrança de flamenguista, minha prova que Flamengo foi uma coisa de criança, talvez que já estava na minha alma antes de nascer. Edílson não foi titular, porque na frente tinha Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. Apenas isso. Mas o Capetinha participou de 4 jogos, com destaque para a semifinal. Substituiu o Ronaldinho Gaúcho, expulso contra a Inglaterra, e teve uma atuação segura contra a Turquia. Não jogou a final, mas foi um dos 23 pentacampeões. Analisa o próprio Edílson: “Não conquistei a titularidade, mas joguei quatro jogos na Copa e dei a minha contribuição com boas exibições. Saí de um time amador da Bahia e fui pentacampeão mundial. Foi coisa de Deus. Posso dizer que fui muito longe na vida”.

    Depois de boa passagem no Cruzeiro, conquistando a Copa Sul-Minas de 2002, Edílson ficou no Japão após a Copa. Voltou ao Kashiwa Reysol, onde já tinha jogado em 1996. Fez seus golzinhos e teve mais uma volta, agora no Flamengo. Já na reestreia, fez um gol contra Vitória, gostava de deixar sua marca nas suas terras baianas. Marcou no jogo seguinte contra Sport, mas com um elenco ruim e algumas lesões, passou os nove jogos seguintes em branco. A volta foi sensacional, um hat-trick na goleada 6×0 contra… Bahia. Fez outros gols, mas não levou títulos. Até a despedida foi melancólica. O Capetinha fez dois gols na virada contra São Paulo, mas acabou expulso por causa de uma briga com Jean. Era assim o fim definitivo da linha de Edílson no Flamengo: 117 jogos, 51 gols, dois títulos, a artilharia do campeonato carioca de 2001, e claro, a atuação inesquecível contra Vasco.

    Em 2004, Edílson voltou para a Bahia, conquistando o campeonato baiano com Vitória. Passou pelo futebol árabe e voltou ao Brasil, no São Caetano e depois o Vasco, perdendo a final da Copa do Brasil de 2006 contra o Flamengo. Aposentou-se em 2007 com a camisa do Vitória, mas voltou dois anos depois, agora com o arquirrival Bahia. Jogou até a final do campeonato baiano de 2010, perdida contra o Vitória.

    Com bom humor e brincadeiras, teve passagens na televisão, como comentarista e até participante de reality show como Danças dos Famosos e BBB. No Flamengo, não foi o maior jogador nem o melhor, não foi o maior ídolo nem o mais flamenguista. Mas sem ele, não teria saído o gol de Pet contra Vasco. Basta isso para fazer do Capetinha um ídolo do Flamengo.

  • Jogos eternos #393: Estudiantes 1×0 Flamengo 2025

    Jogos eternos #393: Estudiantes 1×0 Flamengo 2025

    Flamengo joga hoje na Argentina em busca de uma oitava vitória consecutiva. Reencontra o Estudiantes, contra quem já jogou na Copa Libertadores do ano passado. O técnico rubro-negro era outro, mas o Flamengo já estava em grande forma. Dos últimos 10 jogos, tinha vencido oito, contra dois empates e nenhuma derrota. A fase da Copa Libertadores também estava diferente, com um quarta de final, um jogo que valia semifinal, que valia ouro no caminho do tetra.

    Depois de passar da fase de grupos com susto e eliminar o Internacional sem susto, Flamengo estava nas quartas de final, contra o Estudiantes. Na ida, com Maracanã cheio, Flamengo fez grande jogo. Porém, na reta final, Plata foi expulso e Léo Pereira fez gol contra. A vitória de apenas um gol de diferença deixava as chances argentinas vivas na volta.

    Depois da eliminação em 2024 na mesma fase contra Peñarol, Flamengo precisava absolutamente da classificação. Em 25 de setembro de 2025, o técnico e ídolo Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro; Jorginho, Saúl Ñíguez, Arrascaeta; Gonzalo Plata, Samuel Lino, Pedro. Detalhe para a participação de Gonzalo Plata, depois da Conmebol anular o segundo cartão amarelo da ida por causa de uma intervenção do VAR fora das regras previstas.

    Jogo de Copa Libertadores na Argentina sempre é especial, ainda mais na mata-mata. No estádio Jorge Luis Hircshi, Flamengo teve a primeira chance de gol, Pedro tocou com um carrinho, mas o zagueiro Facundo Rodríguez conseguiu impedir o gol. Depois foi a vez do Estudiantes de ameaçar o gol, com um chute de voleio de Arzamendia. O goleiro rubro-negro Agustín Rossi quase falhou, mas segurou a bola.

    Saúl Ñíguez, ainda sem fazer um gol com o Manto Sagrado, quase fez dois contra o Estudiantes, com dois chutes de longe. O primeiro tocou na trave, o segundo apenas passou por perto. Nos acréscimos, o longo cruzamento de Santiago Núñez chegou até a segunda trave, até Gaston Benedetti, que pegou de voleio. Agustín Rossi meio falhou e deixou a bola entrar. Estudiantes abria o placar e chegava ao empate na soma dos dois jogos.

    No segundo tempo, o jogo ficou ainda mais tenso e, ao mesmo tempo, quase morno. O lateral Gaston Benedetti escapou na esquerda e chegou ao cara-a-cara com Rossi. Por segundos, fez o segundo dele no jogo. Porém, o VAR anulou o gol e aliviou a torcida rubro-negra. Ou aumentou o nível de ansiedade. Em Paris, coloquei um despertador para acordar às 2:30 da manhã e não faltar o jogo. Confesso que não lembro exatamente como eu me sentia. Com a grande fase do Filipe Luís e o nível alto do time, tinha um bom pressentimento sobre a Copa Libertadores de 2025. Mas era jogo de volta na Argentina, era igualdade no placar, era impossível ficar tranquilo.

    No tempo normal, não teve outros lances para tirar o fôlego. O jogo acabou assim, 1×0 para Estudiantes, na soma 2×2. Que seja bendito o fim da regra do gol fora. O jogo agora era a disputa de penalidades, que consagrou heróis e crucifixou vilões. Do lado do Flamengo, o maior nome era o goleiro argentino Agustín Rossi. Inclusive, Rossi jogou no Estudiantes no início da carreira, estreando no campeonato argentino com o time de La Plata aos 19 anos. Mas foram ao total apenas três jogos com o Estudiantes, depois brilhou em outros times da Argentina e chegou ao Flamengo. E já se destacou nos pênaltis, pegando tentativas de especialistas como Ganso, Thiago Almada e Gabigol. Mas agora era a Copa Libertadores. Do outro lado, tinha também um grande goleiro, o Fernando Muslera, 39 anos e 133 jogos com a seleção uruguaia.

    De novo, não lembro de meu estado emocional antes da disputa de penalidades. Mas era impossível para mim ficar tranquilo. Quem ficou tranquilo é o Jorginho, que nunca errou um pênalti com a camisa do Flamengo, mesmo em jogos importantíssimos, como contra o Bayern, ou depois o Palmeiras e o PSG. Na Argentina, Jorginho pulou, cobrou e abriu o placar na disputa. José Sosa achou a gaveta, Luiz Araújo também foi firme. Agora era a vez do Gaston Benedetti, que tinha feito o gol durante o tempo normal. O roteiro foi visto tantas vezes que podia ser antevisto. O herói virou vilão, Benedetti cobrou, Rossi escolheu um lado e a mão oposta ficou firme, calando um estádio inteiro.

    Em Paris, eu começava a respirar melhor, ainda mais depois da finalização de Carrascal. O Cetré, com muita força, manteve a esperança viva para a hinchada argentina. Com gelo no sangue, Léo Pereira chutou forte e preciso, achando a gaveta. Agora lembro de minha ansiedade durante a disputa. Nem conseguia acreditar como Léo Pereira podia ter cobrado de uma maneira tão fria com tanta pressão, eu que mal conseguia respirar. Enfim, Léo Pereira fez o golaço e deixou para Rossi a oportunidade de brilhar e de matar o Estudiantes.

    E foi o caso. O capitão argentino Ascacíbar cobrou (mal), Rossi defendeu, virou herói e começava a se eternizar ao lado de grandes goleiros argentinos rubro-negros, como Chamorro, Domínguez e Fillol. Agora, apenas o paraguaio García pode talvez impedir Rossi de ser o maior goleiro gringo da história do Flamengo. Ainda há muitos pênaltis para defender, muitas taças para conquistar. Certeza é que neste dia, Flamengo sobrevivia ao inferno argentino e caminhava em direção ao tetra.

  • Jogos eternos #392: Atlético Mineiro 1×2 Flamengo 2000

    Jogos eternos #392: Atlético Mineiro 1×2 Flamengo 2000

    Flamengo joga hoje contra o Atlético Mineiro na Arena MRV, palco em que o Mengão ainda está invicto com 3 vitórias e um empate em 4 jogos. No tradicional Mineirão, o retrospecto não era tão bom e a última vitória rubro-negra no Brasileirão é de 2009, com o inesquecível gol olímpico do Petkovic.

    Para o jogo eterno do dia, fico com Petkovic e o Mineirão, mas vou de outro jogo, no início da década. O iugoslavo não era a única estrela do time patrocinado pela ISL. No segundo semestre, a ISL trouxe um pacote de reforços com Gamarra, Denílson e Edílson. O Jornal do Brasil via a volta do “futebol moleque” e da “irreverência”. Porém, na estreia de Edílson, contra River Plate na Copa Mercosul, Flamengo perdeu no Maracanã, apesar de um gol de Petkovic.

    Depois de dois amistosos na Espanha contra o Atlético de Madrid e o Betis, com gol de Edílson em cada jogo, a estreia rubro-negra do Capetinha no Brasileirão ficou marcada contra o Atlético Mineiro. Por sua vez, o Denílson ainda devia esperar para ser inscrito por causa das dívidas já existentes da ISL. Assim, em 2 de setembro de 2000, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Júlio César; Maurinho, Juan, Fabão, Marco Antônio; Leandro Avila, Rocha, Lê, Petkovic; Edílson, Adriano.

    Edílson precisou de apenas 8 minutos para assustar o Mineirão com um bom drible. Porém, depois de bela jogada coletiva e finalização de trivela de Valdir Bigode, foi o Atlético Mineiro que abriu o placar, com 12 minutos de jogo. No minuto seguinte, Valdir Bigode quase fez o segundo, mas Júlio César fez boa defesa.

    Flamengo reagiu com um chute cruzado de Edílson, mas a bola apenas flirtou com a trave. O Petkovic chutou de longe, o goleiro atleticano defendeu. No final do primeiro tempo, Edílson achou Adriano, que girou e chutou, fora do gol. Logo depois, Adriano cruzou, Edílson desviou de cabeça, Petkovic tentou finalizar, mas Kléber defendeu mais uma vez. Flamengo tinha muitos craques, na verdade três, mas ainda nada de gol no Mineirão.

    Com apenas 5 minutos na segunda etapa, Flamengo ameaçou mais uma vez o gol do Galo. Petkovic chutou de longe, a bola explodiu na trave. Logo depois, num escanteio, Petkovic tentou o gol olímpico, no mesmo cantinho em que se eternizará nove anos depois. Em 2000, Kléber foi vigilante e impediu o golaço. O gol só parecia questão de tempo. E realmente foi. Aos 10 do segundo tempo, Petkovic pedalou e achou Adriano perto do gol. O Imperador driblou um, driblou outro e chutou. Mais uma defesaça de Kléber, mas a bola seguiu viva na grande área. Petkovic não desistia de nenhuma bola e foi o primeiro a chegar, um pouco antes do Kléber, quase forçado a cometer pênalti. O juiz apitou, o Pet cobrou. Gol do Pet, gol do Flamengo, 1×1 no placar.

    Depois do gol do empate, o jogo ficou mais equilibrado. Cada time teve chance de fazer, sem fazer. Faltava um craque para desequilibrar o jogo. Ou talvez mais que um craque. Petkovic fez uma finta sensacional e cruzou no chão para Adriano ou Edílson, mas Cláudio Caçapa salvou o gol, desviando a bola para escanteio. Na cobrança, uma cabeçada atleticana, a bola ficou muito alto no ar e finalmente caiu no pé de Pet. Com a perna ruim que não existia, o camisa 10 conseguiu um domínio absurdo para matar a bola. Na sequência, chutou forte com o pé direito. Kléber defendeu apenas parcialmente, Edílson pegou de voleio e quebrou o pescoço do Galo. Gol do Capetinha, virada do Mengo, 2×1 no placar.

    No final do jogo, Adriano ganhou uma bola do zagueiro, driblou o goleiro, mas com o gramado ruim, a bola soltou e Adriano chutou para fora. Com uma grande atuação do trio ofensivo, Flamengo vencia de virada e chegava na 6a colocação, 5 pontos atrás do líder Fluminense e ainda com uma rodada a menos. “O caminho da vitória passa pelos pés de quem sabe jogar bom futebol. Edílson e Petkovic me lembraram os bons tempos de um futebol que era jogado com graça, leveza, dribles e passes precisos. O futebol-arte sobrevive aos carrinhos”, escreveu Sérgio Noronha no Jornal do Brasil. E mais, o craquaço Alex seria mais um grande reforço rubro-negro nos dias seguintes. Flamengo tinha tudo para triunfar, mas com problemas de dinheiro e de ego, nem chegou entre os 12 primeiros para chegar na fase final do Brasileirão de 2000. Uma decepção, que não tira o brilho da estreia do Edílson Capetinha.

  • Jogos eternos #391: Flamengo 2×0 Vitória 1987

    Jogos eternos #391: Flamengo 2×0 Vitória 1987

    Flamengo estreia hoje na Copa do Brasil contra Vitória no Maracanã. Para o jogo eterno do dia, vamos de uma estreia de temporada, em 1987, também contra Vitória no Maracanã.

    O ano era 1987 mas o Brasileirão ainda era de 1986. O campeonato nacional se estendia por semanas, às vezes meses, até o ano seguinte. A Seleção perdeu a Copa e pôs um fim definitivo ao futebol-arte como ideal. O futebol brasileiro estava em crise, de imagem e de dinheiro, o que incitou a criação da Copa União. Enfim, no início de 1987, ainda era o Brasileirão de 1986.

    A temporada de 1987 apenas começava, mas Flamengo já andava com vários atletas machucados. Leandro, Adílio, Bebeto e Zico estavam fora do jogo contra Vitória. Ao menos, tinha Sócrates. O Doutor estreou no Flamengo no início de 1986, com três amistosos e a estreia do campeonato carioca, o inesquecível Fla-Flu com 3 gols de Zico. Foi o único jogo oficial no Flamengo da dupla Zico – Sócrates, que fez sonhar o Brasil e o mundo inteiro na Copa de 1982.

    Depois do Fla-Flu de 1986, Sócrates não jogou com o Flamengo durante 9 meses, entre preparação na Copa, lesão na coxa e até hérnia discal. E mais, não se dava bem com o autoritário técnico do Flamengo, símbolo do futebol-força, Sebastião Lazaroni, que criticou publicamente o Doutor: “Talvez não o convocasse para a Copa. Eu não o considero um extraclasse. Hoje, Sócrates não seria titular do Flamengo. O dono da posição é e será Ailton”. Lazaroni também recusou a ideia de Leandro, que queria fazer de Sócrates o capitão do time na ausência de Zico. Mesmo assim, Sócrates voltou com muita classe no time titular no final de 1986, fazendo um golaço de falta contra Goiás, um jogo eterno no Francêsguista. Aliás, seu primeiro gol no Flamengo.

    Sócrates ainda fez seis jogos no Brasileirão para fechar o ano de 1986, sem deixar sua marca. Não foi só ele, o Flamengo todo não marcou sequer um gol nos últimos quatro jogos do ano! Não escapou das críticas da imprensa e do torcedor, mas, faltando duas rodadas para o final da segunda fase, precisava apenas de mais uma vitória para se classificar nas oitavas de final. Em 25 de janeiro de 1987, o técnico Sebastião Lazaroni escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Ailton, Aldair, Mozer, Jorginho; Andrade, Sócrates, Gilmar; Carlinhos, Zinho, Kita.

    No Maracanã, os poucos mais de 20 mil pagantes anunciavam um prejuízo para o Flamengo e a necessidade de reformar o campeonato nacional, que naquele ano teve nada menos que 80 clubes. No Jornal do Brasil, o grande Sandro Moreyra escreveu: “Mesmo com o aumento de 100% no preço dos ingressos, as rendas que marcaram a volta do futebol não foram suficientes para tranquilizar os dirigentes dos grandes clubes. A maioria deles continua pagando para jogar […] A legítima pretensão dos grandes em criar divisões visando não só reduzir o número dos concorrentes ao Campeonato Brasileiro, mas torná-lo mais rentável, até agora não foi alcançada. E embora já exista no papel, como resolução, dificilmente, será obedecida. A CBF, que neste campeonato se dobrou à vontade de ministros, infringindo do seus próprios regulamentos para manter na competição clubes já eliminados, evidentemente não merece confiança para evitar uma nova virada de mesa”.

    Voltando ao campo, Sócrates precisou de apenas 3 minutos para ameaçar o gol do Vitória, com um cabeceio que passou para fora. Na metade do primeiro tempo, Andrade fez um passe para Kita, bem marcado por dois zagueiros. A bola seguiu viva, Sócrates foi o mais rápido para chegar. O Doutor abriu o pé e matou o goleiro com sua classe habitual, para fazer a alegria da Nação e de Zico, que assistia ao jogo no Maracanã com seus filhos.

    No final do primeiro tempo, Mozer ultrapassou sua função – ou era função dele? – e invadiu a grande área. Girou e tocou atrás para a chegada de Sócrates, que, segundo o Jornal do Brasil, “deu um bico na bola, sutil e eficiente” no fundo da rede. “Sobrou para Sócrates ditar o ritmo. Marcou, não errou um passe sequer, infiltrou-se, deslocou-se, fez lançamento e também os dois gols da vitória do Flamengo”, avaliou o Jornal dos Sports.

    Na entrevista depois do jogo, contrariando a genialidade em campo, Sócrates foi bem simples: “Foram dois gols que representaram muito para mim, por se tratar dos primeiros que marquei com a camisa do Flamengo no Maracanã e também por terem sido responsáveis pela nossa classificação para a terceira fase”. Para fechar, cito então a crônica para o Jornal do Brasil de Tadeu de Aguiar, bem intitulada “Tudo teria sido igual, não fosse Sócrates”: “O que mudou? Dois times, as mesmas cores, o mesmo Campeonato – e que Campeonato! – e um craque, sempre fator de desequilíbrio. Enfim, os torcedores do Flamengo viram a estreia de Sócrates – não a de direito, mas a de fato –, seus dois gols, o jeito manso e cadenciado de tocar a bola e o seu suor, in loco – não de ouvir falar. Felizmente. Pois de seus pés nasceu a vitória sobre o Vitória, que garantiu a classificação do Flamengo à próxima fase do Campeonato Brasileiro”.

    Flamengo começava bem o ano de 1987, mas na fase seguinte, ainda com Sócrates, ainda sem Zico, acabou eliminado pelo Atlético Mineiro. O final do ano, com reforma necessária do futebol, com Zico de volta, mas sem Sócrates, que pendurou as chuteiras depois de outro conflito com Lazaroni, seria ainda melhor.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”