Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #386: Alianza Lima 0x2 Flamengo 1958

    Flamengo reestreia hoje na mais bela de todas, a Copa Libertadores. O Mengo joga no Peru, contra o Cusco, time de pouca tradição na Copa Libertadores, com apenas três participações na fase de grupos até aqui. Para o jogo eterno do dia, eu vou então de um jogo contra um dos maiores times do Peru, o Alianza Lima, em 1958, dois anos antes da criação da Copa Libertadores.

    Flamengo começou a temporada de 1958 com uma excursão na América do Sul, como era de costume na época. Estreou no Peru, contra o Alianza Lima, campeão peruano em 1957. O técnico rubro-negro Fleitas Solich ainda não tinha a certeza de ficar no cargo e foi substituído para a excursão pelo antigo ídolo Jaime de Almeida. Para o primeiro jogo do ano, em 9 de janeiro de 1958, Jaime de Almeida escalou Flamengo assim: Fernando; Joubert, Pavão; Jadir, Dequinha, Jordan; Moacir, Joel, Zagallo, Dida, Henrique Frade.

    Flamengo jogava em Lima, cidade de tantas alegrias rubro-negras mais de 60 anos depois. “O interesse e a expectativa que cercaram esta primeira apresentação do tricampeão carioca, foi das maiores, refletindo-se perfeitamente na plateia monumental que compareceu ao estádio Nacional de Lima, lotando-se quase que totalmente”, escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports. Com apenas 16 minutos de jogo, Flamengo já abria o placar. O Jornal dos Sports descreveu o gol de Henrique, “que concluindo perigosa trama do ataque rubro-negro, onde todos os jogadores participaram, conseguiu burlar a vigilância do goleiro Ormenho, com tiro seco e rasteiro no canto esquerdo da meta peruana”.

    Flamengo chegou ao intervalo com um gol de vantagem. “Não se pode negar a justiça do marcador final do primeiro tempo”, julgou o Jornal dos Sports. No segundo tempo, o time local foi melhor e ameaçou a meta rubro-negra. O goleiro Fernando fez algumas defesas e impediu o empate. “Até os dez minutos da fase final, as ações pertenceram inteiramente ao Alianza, travando seu ataque, tremendo duelo com a defensiva rubro-negra, que saiu vitoriosa neste período crítico, mantendo incólume sua cidadela. E, a partir do décimo minuto, a equipe carioca, refeita da pressão dos locais, começou a manobrar com maior desenvoltura, equilibrando as ações”, prosseguiu o Jornal dos Sports. E na metade do segundo tempo, Jordan abriu para Zagallo. O ainda não campeão do mundo cruzou, Dida chegou e fez o segundo tento do Mengo.

    O segundo gol mudou o panorama do jogo. Ainda o Jornal dos Sports: “Flamengo passou a atuar livremente, manobrando dentro do campo contrário, exercendo por vezes, tremendo bombardeio à meta de Ormenho, que efetuava milagrosas intervenções, tudo fazendo para evitar a conquista do terceiro tento rubro-negro que se apresenta iminente”. Dida e Zagallo tocaram na trave, teve um gol mal anulado de Henrique, mas nada de terceiro gol. Flamengo vencia 2×0, um “resultado justíssimo” segundo o Jornal dos Sports.

    Já o Jornal do Brasil relatava a avaliação da imprensa do Peru: “Atribuem ao quadro carioca qualidades de domínio da bola se bem que com o que se considera a tradicional falha do futebol brasileiro: nervosismo na área de gol e falta de iniciativa final para consignar o tento”. Flamengo fechou a excursão com apenas uma derrota em 8 jogos, contra o Racing, e teve uma vitória de prestígio contra o Boca Juniors na Bombonera. Realmente, 1958 foi um ano de brilho do futebol brasileiro.

  • Jogos eternos #385: Santos 0x5 Flamengo 1984

    Jogos eternos #385: Santos 0x5 Flamengo 1984

    Flamengo joga hoje contra Santos no Maracanã em pleno fim de semana de Páscoa. Isso lembra um outro jogo entre Flamengo e Santos, também durante Pascoa, em 1984.

    O estádio era outro, o Morumbi, e a competição também era outra, a Copa Libertadores. Assim, o jogo aconteceu na sexta-feira de Páscoa. Flamengo já tinha na competição duas vitórias e um empate, faltava pouco para se classificar nas semifinais. O Lico, com amigdalite, estava fora de jogo, e o treinador rubro-negro ficava na dúvida para o substituto entre João Paulo, Lúcio ou Élder. Em 20 de abril de 1984, o técnico Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Bigu, Tita; João Paulo, Edmar, Bebeto.

    Os dois times se enfrentavam na Copa Libertadores como finalistas do Brasileirão de 1983. Na época, ainda com Zico, Flamengo atropelou o Santos no Maraca e conquistou o tricampeonato. Na estreia da Copa Libertadores de 1984, os dois times voltaram a se enfrentar e deu Flamengo de novo. Num jogo já eternizado no blog, Mozer brilhou com dois gols e Flamengo goleou 4×1. Faltava ainda o jogo de volta, agora em São Paulo, com desejo de dupla vingança para o Peixe.

    Bola no gramado, o Flamengo foi superior, do início até o fim. “Até por ser Sexta-feira Santa, havia, antes da partida, muita gozação. Os torcedores diziam que o Flamengo iria comer peixe e foi o que aconteceu: cozido, assado, frito, a bone femme”, escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports. Porém, o primeiro lance do perigo foi do Santos. O craque Pita invadiu a grande área e quase fez o golaço de cobertura, mas Fillol fez grande defesa. Na sequência, bola para o Mengo, Bebeto recebeu, dominou de peito e deixou de calcanhar para o chute de Andrade. O goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez defendeu apenas parcialmente. Andrade não desistia das jogadas e ele mesmo recuperou a bola na direita para cruzar no ar. Tita cabeceou e Bebeto chegou de novo, para pegar de primeira, para abrir o placar com um golaço. O Peixe já começava a estar bem cozido.

    “Foi um banho de bola, especialmente após o primeiro gol”, escreveu o jornalista rubro-negro Washington Rodrigues, que também popularizou a expressão “chocolate” para designar uma goleada. Flamengo tinha craques, no ataque e na defesa. Até os defensores sabiam jogar com a bola, sabiam atacar. Com 32 minutos, Júnior cobrou uma falta na esquerda, com pouco ângulo. A bola saiu até o lado direito, até o pé mágico de Leandro. O Peixe-frito fez uma finta e cruzou perfeitamente, Mozer se jogou no chão e fez o gol de peixinho. O Peixe estava assado. Ainda no primeiro tempo, Bebeto puxou o ataque rápido e deixou na profundidade para Edmar, que fintou e fritou o goleiro Rodríguez, abatido no chão. Só teve a empurrar a bola na rede. Antes do intervalo, Flamengo já tinha 3 gols de vantagem.

    “No segundo tempo, já sem qualquer poder de reação, o Santos partiu para violência”, escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil. Deu ruim para o futebol-força, Dema fez falta dura e levou o cartão vermelho direito. E o futebol-arte voltou a funcionar. Andrade tabelou com Élder e invadiu a grande área, sofreu falta e cravou o pênalti. “Flamengo não encontrou o menor obstáculo para relembrar o futebol mágico dos tempos de Zico”, prosseguiu o Jornal do Brasil. O camisa 10 Tita pegou a bola, cobrou firme e fez o quarto gol do dia. O Peixe estava frito.

    Tita, com seus dribles e seu futebol mágico, foi a maior figura do final do jogo. Provocou mais uma expulsão santista, com falta desnecessária de Toninho Carlos. Logo depois, Lúcio cobrou um escanteio, tanto Júnior quanto Edmar fizeram o corta-luz, e Tita pegou de primeira para fazer o segundo dele, o quinto do dia. À la bonne femme, com um toque delicado como uma cozinha francesa. “Não era dia de brigas nem de brigões e não era, portanto, dia do Santos. Era dia de futebol bem jogado, dia de muitos gols. Um dia de futebol bem brasileiro”, escreveu Fernando Calazans para fechar sua crônica no Jornal do Brasil. Na semana de Páscoa, quem dava chocolate era o Flamengo.

  • Jogos eternos #384: Bragantino 0x1 Flamengo 1996

    Jogos eternos #384: Bragantino 0x1 Flamengo 1996

    Flamengo joga hoje contra Bragantino no campo deles, onde sempre foi difícil de jogar. No ano passado, o Mengo venceu no Cícero de Souza Marques, que talvez traz mais sorte que o estádio Nabi Abi Chedid. A vitória acabava com um jejum de quase 30 anos no campo deles. Precisamos dizer que Flamengo não jogou lá durante 25 anos e a sequência sem vencer era de cinco jogos só. Mesmo assim, vamos hoje para a agora penúltima vitória fora, em 1996.

    E tinha um outro jejum, agora particular. De volta ao Flamengo depois da traição de 1989, Bebeto reestreou em julho de 1996 e em cinco jogos com o Manto Sagrado, ainda não tinha feito sequer um gol. O último gol ainda era de 1989 contra… Vasco. No Brasileirão de 1996, Flamengo começou com 3 vitórias e 3 derrotas e já vinha pressionado para o jogo contra o Bragantino, que por sua vez, tinha perdido todos seus cinco jogos do campeonato. Em 4 de setembro de 1996, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Leonardo Santos, Fabiano, Ronaldão, Athirson; Márcio Costa, Marques, Mancuso, Fábio Baiano; Sávio, Bebeto.

    No primeiro tempo, Flamengo teve dificuldades para jogar e foi dominado pelo Bragantino, que por pouco, não abriu o placar. “Erradamente, o Flamengo tentou se impor na base do toque de bola, o que o péssimo e irregular gramado do estádio Marcelo Stefani tornava impraticável de se fazer. Com Bebeto e Sávio isolados na frente, sem conseguir superar a marcação”, escreveu o Jornal do Brasil. Flamengo teve apenas uma chance clara de gol, com uma falta cobrada pelo Mancuso. Com pouca animação no jogo, bolas paradas podiam ser uma solução, mas não foi essa vez.

    “No segundo tempo, o Flamengo mudou a maneira de jogar. Trocou o inútil toque de bola por mais disposição e passou a dominar”, prosseguiu o Jornal do Brasil. Bebeto tabelou com Sávio, mas Fábio Baiano chegou atrasado e não conseguiu o gol. No final do jogo, o jovem Aloísio entrou no lugar de Marques e na sua primeira bola, provocou uma falta perto da entrada da grande área. Agora quem pegou a bola foi Bebeto. Dois passos, um chute e bola na gaveta. Golaço do Bebeto, fim do jejum. Flamengo vencia na Bragança e o artilheiro e antigo ídolo fazia uma paz apenas fugaz com a Nação rubro-negra.

  • Jogos eternos #383: Flamengo 7×1 Goytacaz 1979

    Jogos eternos #383: Flamengo 7×1 Goytacaz 1979

    Ainda sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de outro jogo aniversariante, com uma partida de 1979, a temporada em que Zico fez mais gols. Apenas pelo Flamengo foram 81 gols, e pode acrescentar 7 gols com a seleção brasileira e um gol com uma seleção FIFA no Monumental contra o campeão do mundo, a Argentina.

    No final de março, Zico já vinha de um jogo com 3 gols contra o São Cristóvão. E tinha uma boa notícia para os torcedores rubro-negros em particular e os apaixonados do futebol em geral, Pelé ia vestir o Manto Sagrado ao lado de Zico para um amistoso contra o Atlético Mineiro, marcado uma semana depois. “Pelé e Zico é até uma covardia”, escreveu o Jornal dos Sports. Mas tem outra covardia mais simples: ter Zico no seu time.

    No “I Campeonato Estadual”, chamado depois de campeonato carioca especial, Flamengo ainda andava invicto e seria o caso até o final da competição. O adversário era Goytacaz, essa era a novidade do campeonato, incluía times do interior. Em 29 de março de 1979, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Rondinelli, Manguito, Júnior; Andrade, Tita, Zico; Luisinho, Júlio César, Reinaldo.

    Com um time bem inferior, o Goytacaz apostou na violência. Deu muito errado. E logo no início, começou o show do Flamengo, ou melhor, o show do Zico. Com 10 minutos, claro 10, Toninho fez belo cruzamento e Zico cabeceou para abrir o placar. “O domínio do campeão carioca era absoluto e o marcador bastante justo”, escreveu o Jornal dos Sports. Ou talvez até injusto, de tanta dominação rubro-negra. Só no final do primeiro tempo Flamengo conseguiu o segundo gol, com o primeiro pênalti do dia, claro cobrado pelo Zico.

    Ainda no primeiro tempo, Goytacaz aproveitou de uma falha de Cantarele para fazer um gol e voltar com apenas um gol de atraso. E ainda aumentou a agressividade em campo. “O espetáculo, que poderia ter sido bonito desde o início, foi comprometido pela violência do Goytacaz, sob as vistas complacentes do juiz”, julgou o Jornal do Brasil. No início do segundo tempo, Flamengo teve outro pênalti. Outra vez Zico, outra vez no canto esquerdo. Gol do Flamengo, gol de Zico. O Goytacaz estava perdido em campo e cometeu outro pênalti nove minutos depois. Zico cobrou no mesmo lugar e já fazia seu quarto gol do jogo.

    Entre tantos pênaltis, chegou o golaço do dia. Na esquerda, o grande ponta Júlio César levantou com facilidade a bola, Júnior completou a tabelinha com uma cabeçada leve. De primeira, Júlio César tocou mansamente na segunda trave, para a chegada de Zico, para o quinto gol dele. Em 10 jogos do campeonato, Zico tinha feito ao menos um gol em todos os jogos e já chegava aos 20 gols! “No segundo tempo, o que o Flamengo fez em campo só tem uma qualificação: covardia”, ainda escreveu o Jornal dos Sports.

    No final do jogo, uma mão de Carlinhos e mais um pênalti para o Flamengo. Zico trocou de lado mas o destino foi o mesmo: bola na rede, gol do Flamengo, gol de Zico. Nosso Rei fazia seu sexto gol na partida e ingressava em um clube com apenas Nelson, Alfredinho e Leônidas, outros que fizeram 6 gols num jogo do Flamengo, todos 40 anos ou mais atrás. Na verdade, Zico está sozinho no clube dele, o do maior ídolo do Flamengo.

    O show do Flamengo terminou com um gol de falta e pode crer, não foi de Zico. Na direita, Júlio César cobrou perfeitamente e foi o melhor jogador humano do jogo. Zico era outra coisa, de outro planeta. E o Flamengo nem precisava de Pelé, tinha Zico. Na manchete, o Jornal dos Sports foi certeiro: “É Zicovardia”.

  • Jogos eternos #382: Racing Paris 1×5 Flamengo 1951

    Hoje tem França x Brasil, um jogo entre meu país de nascimento e meu país de adoção. Já num Brasil x França eu torço inteiramente para o Brasil, imagina então um Flamengo contra qualquer time francês. O último confronto entre Flamengo e um clube francês, o PSG, que até é meu clube de coração na França, ainda dói. Eu vou então hoje para o primeiro jogo do Mengo contra um francês, em 1951.

    A história do jogo começou dois anos antes, em 1949, com a recepção do time sueco de Malmö no Rio de Janeiro, no antigo estádio das Laranjeiras, o Maracanã ainda estava em construção. Depois de um empate 4×4, Flamengo venceu o segundo jogo 3×0. Em 1951, a Suécia, que tinha acabado de ser semifinalista da Copa do Mundo no próprio Brasil, retribuiu o convite, chamando o Flamengo na Escandinávia. E o Flamengo foi perfeito para sua primeira excursão na Europa, com 8 vitórias em 8 jogos na Suécia. Depois, o Mengo foi à minha França para enfrentar o Racing Paris, um gigante que hoje sumiu do mapa do futebol francês.

    Para o Jornal dos Sports, escreveu antes do jogo o enviado especial Mario Julio Rodrigues: “O match de amanhã, entre Flamengo e Racing, nesta capital, vem despertando o mais vivo interesse. O prestígio do football brasileiro se faz sentir nesse interesse popular pela apresentação do quadro do Flamengo, amanhã. A imprensa alardeia as virtudes do football brasileiro, seus valores e seus feitos, ressaltando a brilhante campanha que o Flamengo vem de cumprir na Escandinávia”. Em 13 de junho de 1951, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: García; Biguá, Pavão; Válter Miraglia, Dequinha, Bigode; Nestor, Hermes, Esquerdinha, Índio, Adãozinho.

    No Parque dos Príncipes, casa do Paris SG até hoje, Flamengo reinou já no início do jogo. Com apenas 10 minutos de jogo, Hermes abriu o placar num escanteio. Na metade do primeiro tempo, de novo Hermes conseguiu o segundo gol rubro-negro, com grande participação de Dequinha segundo o Jornal dos Sports: “Dequinha, que vem sendo uma das figuras destacadas do quadro do Flamengo nesta temporada, firmando-se como um excelente ‘pivot’, controlando o couro, cobre espetacularmente um adversário, avança e entrega o couro a Hermes que estava em excelente situação para o arremate final”. Quatro minutos depois do segundo gol, já vinha um outro, Adãozinho tabelou com Esquerdinha e venceu o goleiro Vignal.

    No segundo tempo, a dominação do futebol brasileiro seguiu a mesma no campo parisiense. Com uma hora de jogo, Esquerdinha, em dois tempos, fez o quarto gol do Mengo. “Já a essa altura era completa a superioridade do quadro brasileiro”, escreveu o Jornal do Brasil. Logo depois, a dupla Adãozinho – Esquerdinha voltou a funcionar. Palavra agora para o Jornal dos Sports: “Esquerdinha e Adãozinho organizaram uma avançada, com rápida troca de passes, aproximando-se da área, quando o center recebe do ponteiro, dá um dribbling de corpo nos backs e atira violentamente, consignando o quinto goal do Flamengo”.

    O Racing conseguiu fazer o gol de honra para preservar a amizade franco-brasileira. O Flamengo já tinha feito mais que sua parte em campo. Ainda Mario Julio Rodrigues: “O quadro do Flamengo não mais se preocupa com o marcador e passa a fazer uma belíssima demonstração de bom football, arrancando entusiásticos aplausos da assistência”. O jogo ultrapassou as expectativas, até na bilheteria: “O Estadio Parc des Princes apresentava-se totalmente tomado por uma assistência entusiástica que aplaudiu de pé o team do Flamengo, ao término do encontro. A renda foi de 4.800.000 francos, excedendo à expectativa”.

    Vinte e seis anos depois do Paulistano, um time brasileiro brilhava na França. “Melhor football do ano em Paris” anunciava o Jornal dos Sports quando a imprensa francesa, conquistada pela ginga brasileira, comparava o time do Flamengo aos Harlem Globetrotters. Para fechar, deixo uma crônica do grande José Lins do Rego sobre o jogo e a atuação do Flamengo em particular, do futebol brasileiro em geral: “Chego da Suécia convencido de que o futebol é hoje produto tão valioso quanto o café, para as nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: ‘Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante a tudo que não é europeu, como os rapazes do Flamengo’. Este fato, os milhares de franceses que permaneceram no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo os nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinha feito uma exibição primorosa. E a nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite esplêndida de primavera. O futebol brasileiro deu aos mil brasileiros que ali estavam a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo de todos os tempos”.

  • Jogos eternos #381: Flamengo 3×1 Campo Grande 1990

    Jogos eternos #381: Flamengo 3×1 Campo Grande 1990

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de um jogo aniversariante e aproveito o momento para homenagear um saudoso jogador do Flamengo. Na semana passada, completaram-se 10 anos desde que o Gaúcho nos deixou de uma forma tão precoce, com apenas 52 anos, de um maldito câncer de próstata.

    De nome completo Luís Carlos Tóffoli e – claro – oriundo do Rio Grande do Sul, Gaúcho começou a carreira no próprio Flamengo, onde fez apenas dois jogos entre 1982 e 1984. Passou por vários clubes e voltou no Flamengo no início de 1990, onde já começou a fazer seus gols, principalmente de cabeça. Gaúcho foi um dos maiores centroavantes e talvez o maior cabeceador da história do Flamengo.

    Gaúcho mostrou sua habilidade com a cabeça em vários estádios do Brasil. No Maracanã claro, mas também num estádio ao mesmo tempo pequeno e gigante, o estádio da Gávea. Nos anos 1990, Flamengo mandou vários jogos na Gávea, principalmente no campeonato carioca. Na edição de 1990, Gaúcho começou a competição com 5 gols em 8 jogos. Desses 5 gols, já três foram de cabeçada.

    Em 25 de março de 1990, para enfrentar o Campo Grande, o técnico Valdir Espinosa escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Mário Carlos, Fernando César, André Cruz, Leonardo; Ailton, Júnior, Zinho; Marcelinho Carioca, Alcindo, Gaúcho. O Flamengo vivia mais uma vez um momento delicado, o técnico Espinosa tinha o cargo ameaçado e o estádio da Gávea estava quase vazio, com menos de 1.500 presentes.

    E o Espinosa salvou sua cabeça com cabeçadas. Na metade do primeiro tempo, Alcindo cruzou na direita, Gaúcho pulou, cabeceou e abriu o placar. No segundo tempo, o garçom virou artilheiro. O Maestro Júnior cobrou perfeitamente uma falta, Alcindo conseguiu o cabeceio e venceu o goleiro.

    Quando a vitória parecia certa, Flamengo se complicou a vida. Teve um gol mal anulado do Campo Grande, que logo depois, fez um gol, agora validado pelo juiz, que mesmo assim errou na súmula em atribuir o gol ao Nilton. A torcida rubro-negra podia tremer o empate, mas o Gaúcho salvou o jogo e o técnico com o que sabia fazer. Na esquerda, Leonardo cruzou bem alto, Gaúcho pulou ainda mais alto, ao menos mais alto que os adversários, e cabeceou firme para definir o placar.

    No Jornal dos Sports, Gaúcho ganhava a nota 7: “Dois gols de cabeça. Uma impulsão impressionante, ganhando a maioria das jogadas”. Apenas foi superado pelo baixinho Marcelinho Carioca: “O grande nome do jogo. Substituiu Edu sem se incomodar até em vestir a camisa 10 que já foi de Zico. Errou pouquíssimos passes, nunca deu mais do que três toques na bola e iniciou as jogadas de todos os gols do Flamengo”. Com a magia nos pés de Marcelinho e a magia no ar de Gaúcho, o Flamengo, mesmo em crise, era capaz de muita coisa.

  • Jogos eternos #380: Corinthians 0x3 Flamengo 2018

    Jogos eternos #380: Corinthians 0x3 Flamengo 2018

    Flamengo joga hoje na Arena Corinthians, onde já fez grandes jogos, no Brasileirão, na Copa do Brasil ou na Copa Libertadores. No estádio inaugurado em 2014, Flamengo começou com três derrotas e um empate. A primeira vitória veio em 2018, com grande atuação de um jogador que estará em campo hoje e que ainda pode render mais, Lucas Paquetá.

    Em 2018, Flamengo tinha desejo de vingança na Arena Corinthians. Dez dias antes, Flamengo perdeu 2×1 no mesmo palco e foi eliminado nas semifinais da Copa do Brasil. Foi o fim da linha para o técnico Maurício Barbieri, substituído pelo Dorival Júnior, que assinou um contrato de 12 jogos até o final do ano. Estreou com um empate 0x0 contra Bahia no Brasileirão. Logo depois, chegou o jogo contra o Corinthians. Em 5 de outubro de 2018, o técnico Dorival Júnior escalou Flamengo assim: César; Pará, Léo Duarte, Réver, Renê; Willian Arão, Cuéllar, Lucas Paquetá; Éverton Ribeiro, Vitinho, Uribe.

    Flamengo dominou o primeiro tempo, mas nem Vitinho, nem Lucas Paquetá, nem Uribe conseguiram fazer o gol. E no final do primeiro tempo, com uma falha de Willian Arão, o Corinthians quase abriu o placar, mas César, preferido pelo novo técnico ao Diego Alves, fez uma dupla grande defesa.

    No segundo tempo, os dois principais nomes rubro-negros do jogo voltaram a se acionar. Vitinho cobrou o escanteio, Lucas Paquetá conseguiu o cabeceio, Flamengo abriu o placar na Arena Corinthians. Cinco minutos depois, outro escanteio de Vitinho, confusão na pequena área e a bola voltou para Lucas Paquetá que dominou de peito, chutou de pé esquerdo, dobletou no jogo.

    Atrás no placar, o Corinthians passou a ter as maiores oportunidades de gol, sem muito susto para o Flamengo, principalmente com a atuação segura de César. E nos acréscimos, Flamengo afastou qualquer risco de empate com uma jogada de seus laterais, Rodinei para Renê, que em dois tempos, fez o terceiro gol rubro-negro. Na Arena Corinthians, o dono era o Mengo e o Lucas Paquetá seguia o melhor jogador do futebol brasileiro da atualidade.

  • Jogos eternos #379: Flamengo 3×0 Remo 2013

    Jogos eternos #379: Flamengo 3×0 Remo 2013

    Flamengo joga hoje contra Remo, pela primeira vez no Brasileirão desde 1978. Eu vou então do último Flamengo x Remo da história, mas numa outra competição, a sagrada Copa do Brasil de 2013.

    Na histórica campanha do tricampeonato, Flamengo estreou na primeira fase contra o próprio Remo. Na ida, o rubro-negro venceu 1×0 no Mangueirão, gol de Rafinha. Na volta, em 17 de abril de 2013, o técnico Jorginho escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Renato Santos, Marcos González, Ramon; Amaral, Elias, Renato Abreu; Gabriel, Rafinha, Hernane.

    No Raulino de Oliveira, o jogo pertenceu apenas a um jogador, que se tornaria artilheiro da competição, o Brocador Hernane, que até hoje faz seus golzinhos no Nacional de Amazônia. Em 2013, viveu sua melhor fase e começou muito bem o ano, fazendo gols em cinco jogos consecutivos no campeonato carioca, outra competição que se tornaria artilheiro. Logo depois, viveu um jejum de cinco jogos sem marcar. E quebrou o jejum no Fla-Flu. No jogo seguinte, o adversário era Remo, o palco era Raulino, o jogo era do Hernane.

    Já no final do primeiro tempo, Rafinha, outro grande nome do início da temporada de 2013, acelerou e deixou para Hernane, que com um toque só do pé direito, venceu pela primeira vez o goleiro paraense e mostrou na comemoração a camisa 9 que honrou muito. No início do segundo tempo, Renato Abreu fez passe na esquerda para o próprio Hernane, que esperou um pouco antes de achar Gabriel. O meia vestia neste jogo a camisa 208, como o carro do patrocinador do Flamengo, o francês Peugeot. Outros tempos do Flamengo. Enfim, Gabriel fez grande jogada para eliminar dois adversários na grande área e cruzou. Bola voltou para Hernane, de novo de primeira, de novo com a perna direita, de novo no fundo do gol.

    Na metade do segundo tempo, Luiz Antônio ganhou uma bola e chutou forte, o goleiro do Remo defendeu de forma parcial. A bola voltou nos pés de Hernane. A bola parecia procurar o Brocador e o Brocador procurava o gol. De primeira, de direita, Hernane completou o hat-trick, definiu o jogo e o placar. Flamengo 3×0 Remo, três gols de Hernane.

    Eu acho maneiro quando um time ganha 3×0 com três gols do mesmo jogador. No Flamengo, lembro de jogos assim de Zico, Romário e Pedro. Procurando no meu banco de dados, ainda teve Silva Batuta, Tita e Sávio entre outros. Hernane não chegou ao nível técnico deles, mas foi um ídolo da Nação e o maior personagem de um título nacional do Flamengo, começado com um hat-trick em cima do Remo.

  • Times históricos #37: Flamengo 2021

    Times históricos #37: Flamengo 2021

    No último fim de semana, Flamengo conquistou o tricampeonato carioca, o sétimo tri da história do clube. O primeiro foi entre 1942 e 1944, o último, agora penúltimo, entre 2019 e 2021. Neste ano de 2021, Flamengo conquistou o 37o título carioca de sua história. Para a 37a crônica da categoria dos times históricos, o ano de 2021 parece perfeito.

    E o ano de 2021 começou com a temporada de 2020 ainda. Foi um período bizarro, estressante, trágico também, marcado pela pandemia de Covid. Flamengo começou o ano na segunda colocação do Brasileirão de 2020, quatro pontos atrás do São Paulo. Para o primeiro jogo de 2021, o Mengo perdeu o Fla-Flu, num Maracanã vazio, ainda por causa da pandemia. Perdeu em seguida contra Ceará e caiu para o quarto lugar. O Brasileirão se distanciava, nem parecia mais um sonho.

    No meio do mês de janeiro, Flamengo se recuperou, vencendo Goiás, Palmeiras e Grêmio. Maior personagem foi mais uma vez Gabigol. Nos últimos dez jogos do Brasileirão, deixou sua marca e sua comemoração icônica em sete jogos. No final de fevereiro, sem Carnaval no Rio, olha a situação, o Internacional abriu o placar no Maracanã e foi o virtual campeão. Arrascaeta empatou, Gabigol virou e Flamengo adiou a decisão.

    E até a decisão do Brasileirão foi bizarra. Flamengo perdeu contra São Paulo no Morumbi e olhou para o Beira-Rio. Eu, sozinho na cama de meu pequeno apartamento em Paris, também comecei a assistir ao Internacional – Corinthians. O Internacional precisava de um empate para ser campeão pela primeira vez desde 1979. Para mim, assistir a um outro jogo com Flamengo jogando ao mesmo tempo, mas sem o destino nas suas mãos, trazia péssimas lembranças de quase dez anos atrás. Na Copa Libertadores de 2012, Flamengo venceu Lanús e precisava de um empate entre Emelec e Olimpia para ver as oitavas de final. O empate chegou nos últimos minutos e sumiu no último minuto. Flamengo foi eliminado e eu, sozinho na sala de meu apartamento, tive uma crise incontrolável de raiva. Em 2021, tinha medo de viver a mesma situação de novo, de ver o Flamengo perto da taça e não chegar.

    No Beira-Rio, o final do jogo foi dramático. Caio Vidal tocou na trave, Lucas Ribeiro cabeceou para fora, Thiago Galhardo chutou com pouca força. O goleiro alvinegro Cássio pegou tudo e virou ídolo rubro-negro. Nos acréscimos, o zagueiro Víctor Cuesta partiu com tudo, cruzou no chão, Edenílson sozinho na segunda trave, tocou no fundo na rede. Era o gol do título colorado. Minha intuição estava certa, revivi por um segundo o trauma do gol de Quiñónez em 2012. Ao vivo, pensei que não tinha impedimento. O bandeirinha levou, mas nem assim, me sentia bem. Ainda pensava em um gol valido, a uma derrota traumatizante.

    O VAR foi acionado, o impedimento confirmado, o Inter teve que esperar mais que 41 anos. O título era do Flamengo e fiz uma festa particular no meu salão parisiense. Pelo roteiro, a derrota no Morumbi, a pandemia no mundo inteiro, acho que é o Brasileirão menos marcante da história do clube. Mas o Flamengo era o campeão, bicampeão, imitando o Cruzeiro 2013-2014, já com Éverton Ribeiro. Tinha os mesmos heróis de 2019, mas sem o mesmo brilho. Como prova, apenas dois jogadores do Flamengo, Gerson e Gabigol, foram nomeados na seleção ideal do campeonato, contra nove em 2019. Para fechar essa temporada de 2020 em 2021, uma menção para Rogério Ceni. Foi um de meus primeiros ídolos do Brasileirão, comecei a acompanhar o futebol do Brasil em 2005, e estava feliz de o ver campeão no seu Morumbi, mesmo sem vitória.

    O Flamengo começou a temporada de 2021 no campeonato carioca, com time reserva, com vitórias sobre Nova Iguaçu e Macaé. Mas logo perdeu o primeiro clássico do ano, o Fla-Flu. Com novo formato do campeonato, agora uma Taça Guanabara de 11 rodadas antes das semifinais, Flamengo teve tempo de se recuperar. Como campeão brasileiro, ainda jogou a Supercopa do Brasil, contra Palmeiras. Traz outras lembranças da pandemia. Na França, começou uma semana antes do jogo mais um lockdown, de um mês. Foi o lockdown com menos duração, mas também era o terceiro, com um cansaço mental e emocional. Morava sozinho e pesava demais. Felizmente, e diferentemente do primeiro lockdown, tinha o Flamengo. Assisti assim, mais uma vez sozinho no sofá, ao jogo da Supercopa, um jogo eterno no Francêsguista. O jogo começou muito mal, Palmeiras abrindo o placar com um minuto de jogo. Gabigol empatou, Arrascaeta virou, mas o Verdão forçou o empate. A disputa de penalidades começou muito mal. Palmeiras levou dois gols de vantagem e eu tinha até desistido do título. Assisti ao final, sem esperança. Diego Alves pegou as cobranças de Luan e Danilo, Gabigol empatou. Diego Alves fez mais uma defesaça e Rodrigo Caio, como nono cobrador, fez o gol do título. Flamengo era campeão da Supercopa, bicampeão.

    Antes disso, Flamengo estreou na Copa Libertadores com vitória na Argentina apesar de ter sido duas vezes atrás no placar. Gabigol empatou de pênalti e Arrasca virou com um golaço. Em seguida, o Mengo conquistou a Taça Guanabara, vencendo Volta Redonda 2×1, gols de Michael e Vitinho, dois nomes importantes da temporada. O eterno massagista Denir, afastado do time no final de 2020 por causa do Covid, levantou a taça. Em seguida, Flamengo venceu outro jogo da Libertadores, também eternizado no Francêsguista, contra La Calera, com golaço absurdo de Pedro, que também fez os três gols do jogo na semifinal do campeonato carioca, de novo contra Volta Redonda.

    Flamengo, mesmo sem sua abençoada torcida, vivia um grande momento. Venceu a LDU no Ecuador, goleou Volta Redonda na volta, para ter um outro Fla-Flu na final do campeonato carioca. Na ida, 1×1 gol de Gabigol, na volta 3×1, dobradinha de Gabigol, gol de título de João Gomes. Gabigol foi eleito melhor jogador do torneio, Flamengo conquistava mais uma taça, mas sem a torcida, não tinha o mesmo gosto. O Mengão vivia uma grande fase, ficando 16 jogos sem perder, até o início do Brasileirão. Vacilou um pouco, perdeu quatro jogos em seis disputados, com vários desfalques por causa da desnecessária Copa América, ainda mais nessa época de pandemia. O técnico Rogério Ceni, dono de forte personalidade e com desgastes no clube, foi demitido. Achei a decisão precipitada, o que o próprio Marcos Braz admitiu depois.

    O novo técnico foi Renato Gaúcho, ídolo do Grêmio e campeão da Libertadores 2017 com o clube gaúcho. Também ídolo do Flamengo, principalmente por causa de 1987, mas com uma história mais contrastada. E a passagem como técnico também foi. Renato Gaúcho estreou com vitória na Argentina na Liberta e veio o tempo das goleadas: 5×0 contra Bahia, 4×1 contra Defesa y Justicia, 5×1 contra São Paulo, 6×0 contra ABC. Em quatro jogos, Flamengo fez 20 gols! Mas o clube era irregular e levou uma goleada 0x4 contra o Internacional. Na Libertadores, continuou a brilhar nas quartas de final contra Olimpia, vitória 4×1 na ida, outra goleada 5×1 na volta. Fla também venceu 4×0 contra Grêmio na Copa do Brasil e contra Santos no Brasileirão no mesmo placar, ainda venceu Palmeiras 3×1 e podia sonhar com o Brasileirão, com um ano histórico.

    Melhor ainda, teve a volta do público no Maracanã, ainda de forma bem modesta. Flamengo já tinha reencontrado sua torcida, na Copa Libertadores contra Defensa y Justicia, mas no Mané Garrincha de Brasília. Agora o Maracanã voltava a receber público, ainda com restrições fortes. Na Copa do Brasil contra Grêmio, 6.446 pessoas vieram a grande atuação de Pedro, que fez os dois gols do jogo para classificar Flamengo na semifinal. Flamengo finalmente reencontrava seu maior patrimônio, a torcida.

    Teve outra semifinal, da Copa Libertadores, contra Barcelona. Flamengo não tremeu, vitória 2×0 na ida com dobradinha de Bruno Henrique, vitória 2×0 na volta também, outra vez dois gols de Bruno Henrique. O jogo de ida marcou a estreia de David Luiz, nome consagrado na Europa, e vale dizer, também foi meu técnico num time de futsal de amigos brasileiros em Paris, que chegou até a segunda divisão nacional, muito graças ao apoio e incentivo de David Luiz. Foi uma das maiores experiências de minha vida e posso dizer que ele é craque também fora dos campos. No próprio Flamengo, sua dedicação e profissionalismo fizeram crescer o Flamengo e alguns jogadores do elenco.

    O Flamengo de Renato Gaúcho estava bem, mas vale repetir, era irregular. Passou quatro jogos sem vencer, com eliminação na Copa do Brasil e derrota no Fla-Flu no Brasileirão. Na sequência, venceu o líder o Atlético Mineiro, gol de Michael, um dos grandes nomes da temporada. O calendário era tão cheio que os hospitais e com vários jogos de diferença entre os times, era difícil de ler a tabela. Flamengo estava atrás, em jogos disputados e em pontos. E ficou atrás. O Atlético Mineiro, livre de limitações de público no Mineirão, foi mais consistente. A Nação, na sua ausência, mais uma vez, fez a diferença. Flamengo ficou invicto durante nove jogos no Brasileirão, mas não foi suficiente para alcançar o Atlético Mineiro. O Galo chegou aos 84 pontos no campeonato nacional, a segunda marca do Brasileirão com 20 clubes, atrás apenas do inalcançável Flamengo de 2019.

    O Brasileirão fora, ainda tinha a Copa Libertadores, a segunda final em três anos. Nunca na sua história Flamengo tinha perdido uma final de Copa Libertadores. O adversário era o então campeão, Palmeiras, o maior rival do Flamengo nos últimos anos. Um dos maiores fregueses também, fazia 4 anos e 9 jogos que Flamengo não perdia contra Palmeiras. Assisti ao jogo com meu tão amado consulado Fla Paris, no Belushi’s em Paris, já o lugar da consagrada Libertadores de 2019. Essa vez, jogo começou mal, Raphael Veiga abrindo o placar com apenas 4 minutos de jogo. Gabigol, já herói em 2019, deixou mais uma vez sua marca com o gol de empate e se eternizou ainda mais na competição.

    O final não foi feliz, na prorrogação, Andreas Perreira vacilou, Deyverson aproveitou e ofereceu ao Palmeiras a Copa Libertadores. Vale dizer também, a Nação, a menos aquela que estava no Centenário de Montevidéu, também falhou, com pouco incentivo ao time, o que é a prerrogativa de sua existência. Até hoje, mesmo com a vingança de 2025, essa derrota dói. Lembro que depois do jogo, fui numa festa de brasileiros em Paris, com meu amigo Piriquito e o irmão dele. Eu ainda estava com o Manto Sagrado e um cara que eu não conhecia, quis me zoar. Depois, ele queria fazer amizade, mas cortei. Eu não tinha vontade de ser simpático e se ele queria ser simpático, não era para começar me zoando. O futebol em geral, o Flamengo em particular, têm essa coisa, transcenda tudo, é sinônimo de profunda tristeza ou de imensa alegria, se torna a coisa mais importante da vida. Nunca me sinto tão Flamengo do que na derrota dura e cruel, mas neste dia, só queria ser campeão.

    A temporada de 2021 começou com estádios vazios e taças menos importantes, o campeonato carioca e a Supercopa do Brasil. Fechou com estádios meio lotados, com uma derrota dura, queda lógica de Renato Gaúcho, e três jogos sem vencer para fechar o Brasileirão no segundo lugar, treze pontos atrás do Atlético Mineiro. Teve falta da Nação, excesso de jogos, de lesões e de frustrações. Fazendo o time de 2021 com quem mais jogou, a escalação é assim: Diego Alves; Matheuzinho, Bruno Viana, Gustavo Henrique, Filipe Luís; Willian Arão, João Gomes, Diego; Éverton Ribeiro, Michael, Vitinho. Isso deixa de fora nomes muito importantes como Rodrigo Caio, Arrascaeta, Bruno Henrique, Gabigol e Pedro. Mesmo assim, Gabigol foi o artilheiro do ano com 34 gols em 45 jogos. Faltou muitas coisas para tornar o ano de 2021 realmente histórico para o Flamengo. A temporada de 2022 seria melhor.

  • Jogos eternos #378: Flamengo 6×1 Botafogo 1985

    Jogos eternos #378: Flamengo 6×1 Botafogo 1985

    No ano passado, antes do Botafogo x Flamengo no Engenhão, eternizei o Jogo da Vingança de 1981, quando Flamengo se vingou do 0x6 de 1972 com o mesmo 6×0 nove anos depois. Escrevi sobre isso porque ainda estava amargado com a derrota 1×4 de 2024. Um ano depois só, o Flamengo se vingou com uma vitória 3×0 no Engenhão, caminhando para o eneacampeonato.

    Há quem considere uma vitória 3×0 uma goleada. Pessoalmente, acho que uma goleada exige uma vitória de 3 gols de vantagem com ao menos 4 gols marcados. A vingança para mim então é ainda incompleta. E na dúvida, nada impede de golear Botafogo mais uma vez, o que aconteceu em 1985.

    No Brasileirão de 1985, Flamengo foi bem na primeira fase. Antes do jogo contra Botafogo, vinha de uma goleada 7×0 sobre Santa Cruz e de um empate 2×2 contra Palmeiras no Morumbi. Porém, tinha perdido 2×1 contra Botafogo na ida. Ainda tinha necessidade de uma vingança, pedida pelo próprio presidente do clube, o eterno George Helal: “O jogo de amanhã é muito importante para o Flamengo. Mesmo com o time desfalcado, a vitória sobre o Botafogo tem que ser conquistada a qualquer custo. E vencendo, vamos acabar com o último orgulho e patrimônio que eles têm”. Falava como último patrimônio do retrospecto geral do clássico desde 1913: 70 vitórias do Botafogo, 69 do Flamengo e 61 empates.

    Flamengo tinha desfalques de grande nome: o lesionado Leandro e os suspensos Marquinho e Bebeto. A cada linha do campo, Flamengo perdia uma peça importante. Assim, antes do jogo, o sempre supersticioso técnico rubro-negro Zagallo disse: “Da última vez que disse que o Flamengo era favorito para vencer uma partida, acabamos perdendo. E foi justamente contra o Botafogo que isso aconteceu. Agora, com tantos desfalques, só posso dizer que o Botafogo é o favorito”. O desfalque de Bebeto abria espaço para Gilmar, que, como seu presidente, fez uma promessa: “Podem escrever aí: o Flamengo vai vencer por 3 a 0, com três gols do Gilmar”.

    O favoritismo era do Botafogo e antes do jogo a própria diretoria do clube alvinegro fez algumas provocações, colocando papel higiênico na porta do vestiário do Flamengo, como se o time ia “se molhar todo”. A torcida do Botafogo entrou na brincadeira, jogando papéis no Maracanã. “A única coisa que me perturba é um clube todo endividado como o Botafogo, gastar a fortuna que gastou na compra de rolos de papel higiênico”, devolveu o presidente rubro-negro George Helal. O clássico tinha começado antes do apito inicial. Em 24 de março de 1985, o técnico Zagallo escalou Flamengo assim: Fillol; Jorginho, Guto, Mozer, Adalberto; Andrade, Adílio, Gilmar; Helder, Paulo Henrique, Chiquinho.

    E o clássico começou realmente muito mal para o Flamengo. Com apenas três minutos de jogo, Botafogo abriu o placar graças a um gol de Elói. A reação do Flamengo foi rápida, radiante, até exuberante. Aos 10 minutos, Adalberto tabelou certinho com Gilmar e chegou antes da saída do goleiro para tocar no gol vazio. Flamengo empatou, o jogo já tinha mudado de rumo.

    No final do primeiro tempo, Paulo Henrique fez uma incursão na zaga alvinegra, não teve espaço para Gilmar chutar não, para Helder sim, com um chute indefensável embaixo do travessão. Flamengo virou e definitivamente tomou conta do jogo. Escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil: “O Flamengo passou a dominar as ações de tal maneira que a torcida do Botafogo […] passou a assistir ao jogo em silêncio – um silêncio sepulcral, como diria Nelson Rodrigues. Também, gritar por que, e por quem? O Flamengo estava irresistível e tocava a bola como nos grandes dias de Zico, Júnior e companhia. Os desfalques de Bebeto, Leandro e Marquinho? Ninguém sequer percebeu. Gilmar, Guto e Paulo Henrique, seus substitutos, marcavam e criavam no mesmo nível, completando com esforço o que lhes faltava em técnica”.

    O segundo tempo foi igual ao primeiro tempo, até pior para o Botafogo, bem pior. Com apenas um minuto de jogo, Helder cobrou uma falta na direita, Chiquinho cabeceou, Adílio chegou, quase sentado no chão, e também de cabeceio, ampliou para o Flamengo. Botafogo baixava a cabeça, se molhava em campo. Dez minutos depois, Adalberto entrou na grande área do lado esquerdo e, sem espaço para chutar, tocou atrás para Chiquinho, que tocou de primeira no fundo do gol para fazer o quarto gol do Mengo. E a torcida já cantava “queremos seis, queremos seis”, os mesmos de 1981, os anti-mesmos de 1972.

    E a Nação foi atendida no final do jogo. Faltando cinco minutos para o apito final, Adalberto fez outra incursão na grande área do lado esquerdo, só que essa vez tinha espaço para chutar e vencer o goleiro botafoguense. Faltava um gol. Andrade, herói do tão esperado sexto gol em 1981, quase de novo fechou a goleada, mas parou no Luís Carlos. A bola sobrou para Gilmar, que tinha prometido três gols e ainda não tinha feito sequer um gol. Fez mais que três gols, fez o sexto gol, o gol da vingança e goleada completas, o gol de mais uma humilhação para o Botafogo.

    A grande performance coletiva do Flamengo trazia alguns destaques individuais, como o lateral esquerdo Adalberto e o eterno Adílio, que ganhou nota 10 no Jornal do Brasil e esse comentário no Jornal dos Sports: “Eficiente, brilhante, inteligente, ele matou com sua habilidade o bom meio-campo do Botafogo. Saiu de campo com todos os prêmios a que tinha direito debaixo do braço […] Adílio voltou a alegrar os campos com seu futebol arte. Com a bola nos pés era impossível aos jogadores do Botafogo tirá-la. Adílio ainda fez mais, jogou com garra e aplicação, especialmente na marcação”.

    Para a diretoria e a torcida do Botafogo, os milhares de papéis higiênicos serviam apenas mais para uma coisa. Escreveu o Jornal do Brasil: “Choro de jovem traduz sentimento de toda a torcida”. Para a diretoria e a torcida do Flamengo, tinha uma coisa ainda melhor que a goleada contra Botafogo. George Helal, presidente do Flamengo e um dos maiores incentivos do Zico no início da carreira, anunciava que a volta do Nosso Rei, exilado em Udine, estava com 80% concluída: “Faltam detalhes, algumas coisas que podem complicar, justamente porque a transação é complexa e exige cuidado e silêncio. Há um empenho de todos para contornar os problemas de última hora e vamos torcer para Zico estar no Brasil, definitivamente, na época em que a Seleção Brasileira for convocado”. Zico voltou e Flamengo nunca mais ficou atrás do Botafogo no retrospecto geral.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”