Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #335: Flamengo 3×0 Sport 2009

    Jogos eternos #335: Flamengo 3×0 Sport 2009

    Antes do jogo de hoje, volto para um jogo contra Sport, no ano dourado de 2009. Há semelhanças com a situação atual. Palmeiras era líder do Brasileirão, Sport estava no Z-4. Já a situação do Flamengo era bem diferente. O Mengão estava apenas na 11.a colocação, mas com uma tabela apertadíssima, ainda podia sonhar com uma classificação na Copa Libertadores. Ousar mais parecia loucura.

    Depois da eliminação contra Fluminense na Copa Sul-Americana, Andrade mudou o time, com a estreia de Álvaro e Maldonado, além da efetivação de Petkovic no time titular. Flamengo venceu 3×0 Santo André e conseguiu um 0x0 no sempre difícil campo do Athletico Paranaense. Precisava ainda mais para sonhar mais. Para o jogo contra Sport, em 12 de setembro de 2009, o técnico Andrade escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Ronaldo Angelim, Álvaro, Éverton; Airton, Maldonado, Petkovic; Zé Roberto, Dênis Marques, Adriano.

    A Nação parecia ainda duvidar do time. No Maraca, tinha apenas um pouco de 29 mil para assistir ao jogo. E precisava chegar ao estádio na hora. Com apenas dois minutos de jogo, Petkovic, no meio do campo, fez um belo passe para acionar Adriano. Com a vantagem da habilidade e do físico, Adriano dominou de pé esquerdo, fintou, abriu espaço com o corpo. Chutou com força e precisão, com curva e talento. Bola na gaveta, golaço. Depois de faltar três jogos do Flamengo por causa de suspensão e jogo na seleção brasileira, o Imperador estava de volta e já impunha seu reino.

    Quinze minutos depois, Adriano quase fez outro golaço. Éverton cruzou, o Imperador dominou de peito. Com a bola no ar, de costas ao gol, Adriano girou e voleiou de pé direito, sem chance para o goleiro. Porém Magrão tinha sorte, e a bola apenas flirtou com a trave. Logo depois, o artilheiro quase virou garçom. Adriano fez passe sensacional na profundidade para deixar Dênis Marques no cara-a-cara, mas Magrão saiu bem nos pés do atacante rubro-negro.

    Assim, o garçom ficou o garçom mesmo. Num escanteio de Sport, bola voltou nos pés mágicos de Petkovic, que percorreu 50 metros com a bola no pé, olho no campo. O garçom, que comemorou seus 37 anos dois dias antes, abriu na direita para o chute cruzado de Zé Roberto, no fundo da rede. Ainda no primeiro tempo, Durval fez falta em posição de último defensor e foi logicamente expulso. O Maracanã partiu para a festa.

    No segundo tempo, Flamengo dominou, Álvaro cabeceou duas vezes, mas Magrão defendeu. Adriano quase fez outro golaço de bicicleta, Magrão fez outra defesa. Flamengo reinava no jogo, com outra cabeçada de Álvaro e sim, outra bicicleta de Adriano. Apenas Magrão impedia um naufrágio do Sport. Flamengo finalizou 18 vezes durante o jogo e concedeu muito pouco. Aos 34 minutos do segundo tempo, Magrão fez outra defesaça numa falta de Petkovic. Logo depois, o sérvio de 37 anos, de raça e técnica, saiu aplaudido pela torcida. Depois de começar o ano com poucas oportunidades, com apenas um gol e 0 assistência em 11 jogos, Petkovic parecia começar realmente sua temporada, já na reta final do campeonato. E com ele, o Flamengo era outro.

    Flamengo merecia a goleada, ao menos o terceiro gol. Álvaro abriu na direita para Léo Moura, que no seu estilo particular, driblou um, fintou e cravou a falta perto do escanteio. Léo Moura cobrou mesmo e o Imperador chegou mais uma vez. Adriano cabeceou e essa vez, Magrão ficou de pé, apenas olhando para a bola no fundo do gol, se curvando à sua majestade. Depois de três jogos sem fazer gol no Flamengo, Adriano fazia dois, liderava o rubro-negro na vitória, na primeira parte da tabela. E quem ousava, podia sonhar mais, muito mais.

  • Jogos eternos #334: Racing 1×1 Flamengo 2023

    Jogos eternos #334: Racing 1×1 Flamengo 2023

    Depois da vitória por 1×0 na ida, Flamengo precisa apenas de um empate para chegar em mais uma final da Copa Libertadores. É quase um lema, basta o empate.

    Na última vez que Flamengo jogou contra o Racing, o cenário era bem diferente. Era ainda a primeira fase da Copa Libertadores, em 2023. Flamengo começou a competição com uma derrota e uma vitória e já precisava de um resultado na Argentina, contra o Racing, que tinha vencido seus dois primeiros jogos. Em 4 de maio de 2023, o técnico argentino Jorge Sampaoli escalou Flamengo assim: Santos; Wesley, Fabrício Bruno, Léo Pereira, Ayrton Lucas; Thiago Maia, Erick Pulgar, Arturo Vidal; Éverton Ribeiro, Gabigol, Pedro.

    Flamengo vivia momentos de frustrações, com derrotas na Recopa Sudamericana e na final do campeonato carioca. Vinha de uma derrota contra Botafogo no Brasileirão. Muitos tropeços, muitas frustrações. Mas precisava de um resultado na Argentina, ao menos um empate. No Cilindro, o Racing dominou o início do jogo e o goleiro Santos foi bem no jogo aéreo. Flamengo levou dois amarelos, com jogo perigoso de Wesley e Thiago Maia.

    Porém, do lado argentino, Gabriel Hauche fez pior e levou dois amarelos em dois minutos, sendo logicamente expulso. O jogo ficava mais fácil para Flamengo. Na teoria só. Em campo, o rubro-negro pouco criou e precisou de mais uma defesa de Santos para impedir a abertura do placar. No final do primeiro tempo, Flamengo finalmente começou a ameaçar a meta argentina, Vidal cruzou, Pulgar tocou de cabeça perto do gol. Sozinho na pequena área, Gabigol abriu o pé direito e perdeu o gol feito. Fazia 15 jogos que o novo camisa 10 do Flamengo não fazia gol com bola rolando, quase 3 meses sem gol, uma eternidade.

    Mas Gabigol é superação. Ainda no primeiro tempo, nos acréscimos, uma falta para Flamengo, no lado esquerdo. Jogada ensaiada, Pulgar tocou no chão, no espaço livre. Gabigol chegou e pegou de primeira, agora sim com o pé esquerdo. Mandou a bomba na rede, quase na gaveta. A série de 15 jogos sem gol tinha acabado, ali no Cilindro. E mais, Gabigol fazia assim seu 30.o gol na Copa Libertadores, ultrapassando Luizão para se tornar o maior artilheiro brasileiro da competição. Mesmo nas fases ruins, nos momentos difíceis, Gabigol marcava a história.

    Apesar de ter um jogador a mais, Flamengo não conseguiu fazer o segundo gol para segurar a vitória. E na metade do segundo tempo, Wesley falhou e tomou o segundo amarelo. Com igualdade numérica, o jogo se tornava na teoria mais difícil. E foi. Na cobrança de falta, Oroz colocou a bola na gaveta, sem chance para Santos. Em seguida, Fabrício Bruno falhou feio, mas Saliadarre chutou na trave. Jogo ficou no 1×1 e no final, Flamengo se classificou para as oitavas da Liberta. No Cilindro, bastava o empate.

  • Jogos eternos #333: Fortaleza 1×2 Flamengo 2019

    Jogos eternos #333: Fortaleza 1×2 Flamengo 2019

    Desde que Fortaleza voltou na Série A, em 2019, sempre jogou em casa contra Flamengo no segundo turno. No final do campeonato, quando o jogo vale mais que 3 pontos. O Flamengo saiu com a vitória em 2019, 2021 e 2023, empatou ou perdeu em 2020, 2022 e 2024. Mesmo não sendo supersticioso, os números apontam para uma vitória rubro-negra em 2025.

    Antes do jogo de hoje, volto para o primeiro confronto da lista, em 2019, quando Flamengo era o líder disparado, com 8 pontos a mais que Palmeiras. Também na época jogando contra Fortaleza no meio das semifinais da Copa Libertadores, o Mengo tinha muitos desfalques: Éverton Ribeiro e Bruno Henrique eram suspensos, Rafinha, Filipe Luís e Arrascaeta eram lesionados. Ainda tinha o possível desfalque de Reinier, com um imbróglio entra a CBF e o Flamengo sobre a convocação do jovem atleta para o Mundial U17. Depois de determinação do STJD, Reinier foi autorizado a jogar. Assim, em 16 de outubro de 2019, o técnico Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; João Lucas, Rodrigo Caio, Pablo Marí, Renê; Willian Arão, Gerson, Reinier; Lucas Silva, Vitinho, Gabigol.

    Com tantos desfalques, o Flamengo fez uma partida longe dos padrões de 2019. Dominou o primeiro tempo, mas criou pouco. Quase levou o primeiro gol do jogo, mas Diego Alves fez boa defesa numa cobrança de falta de Nenê Bonilha. E Flamengo teve mais um jogador lesionado, Lucas Silva, que cedeu seu lugar ao Piris da Motta. Num cruzamento, Vitinho quase achou diretamente a rede, mas o goleiro de Fortaleza foi bem também. O maior lance foi para Reinier, que chutou na direção do gol, mas Paulão salvou em cima da linha. No intervalo, ainda 0x0.

    No segundo tempo, o juiz apitou um pênalti para Fortaleza por causa de uma mão de Pablo Marí. O especialista Diego Alves saiu bem na cobrança de Bruno Melo, porém insuficiente para chegar na bola e impedir o gol. Jogo ficou tenso e Flamengo se aproximava da derrota, que não vinha desde 15 jogos. Faltando 7 minutos para o final do jogo, o juiz apitou outro pênalti, agora para Flamengo. Na cobrança, Gabigol, que voltava de um jogo com a Seleção brasileira em Singapura, cobrou e empatou. O Gabigol fazia seu 19.o gol do campeonato, ultrapassando seu recorde do ano passado com Santos, quando também se consagrou artilheiro do campeonato.

    Pelas circunstancias do jogo, o empate já parecia ficar bom. Mas era o Flamengo de Jorge Jesus, que nunca desistia da vitória. Nos acréscimos, Renê fez um lateral longo. Vitor Gabriel, 19 anos, tocou de cabeça, deixando a bola viva no ar. Reinier, 17 anos e principal nome do jogo antes do apito inicial, chegou, cabeceou, virou o jogo. O Flamengo não brilhou, mas saiu com a vitória em Fortaleza. Tinha cada vez mais a cara de campeão, seja no Brasil, seja na América.

  • Jogos eternos #332: Flamengo 2×1 Racing 1955

    Flamengo joga hoje contra o Racing com o objetivo de uma classificação para mais uma final da Copa Libertadores. Flamengo e Racing já se enfrentavam antes da criação da Copa Libertadores, até por motivos nobres. Em 1955, o ilustre presidente rubro-negro Gilberto Cardoso, aliás, se não o maior, um dos maiores presidentes da história do Flamengo, faleceu de uma parada cardíaca no Maracanazinho, assistindo a um jogo de basquete entre Flamengo e Sírio.

    E Gilberto Cardoso quase antecipou a própria morte, deixando para a eternidade uma das frases mais fortes, e mais exatas, sobre o Flamengo: “O Flamengo, o flamenguismo, para ser mais exato, é uma cardiopatia. O Flamengo dá febre, dá meningite, dá cirrose hepática, dá neurose, dá exaltação de vida e de morte. O Flamengo é uma alucinação”. Na morte do presidente, a Manchete Esportiva escreveu: “Podia-se escrever no túmulo que se abriu, sábado, em São João Batista: ‘Aqui jaz Gilberto Cardoso, assassinado por uma vitória’. E nenhuma legenda mais exata, nenhuma legenda mais fiel. Pois o que matou o grande presidente rubro-negro foi um violento, um glorioso, um triunfal espasmo […] Não tenhamos dúvida, este homem levou como última lembrança terrena a imagem da apoteose rubro-negra. Gilberto Cardoso já dera tudo pelo seu clube, só lhe faltava dar a vida. Vai, Gilberto, abençoar o Flamengo na eternidade!”.

    Depois da morte, Gilberto Cardoso conseguiu a façanha de reunir para um torneio no Maracanã quatro arquirrivais: Flamengo e Vasco do Rio, Racing e Independiente de Avellaneda. E mais, os times jogaram juntos, um combinado Flamengo x Vasco contra um combinado Racing x Independiente. Em 23 de dezembro de 1955, o time carioca, jogando com a camisa rubro-negra, derrotou o time argentino por 3×1, com um gol de Paulinho e dois de Dida. O resultado deu dois pontos para os cariocas e o Torneio Gilberto Cardoso prosseguiu com uma rodada dupla: Vasco x Independiente e Flamengo x Racing.

    Na preliminar, a vitória ampla de Independiente por 4×1 sobre Vasco deu medo de outra goleada argentina no Maracanã. O Racing era o vice-campeão argentino e Flamengo tinha muitos desfalques, entre eles Índio, Rubens, Pavão e Paulinho. Em 27 de dezembro de 1955, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Chamorro; Leone, Servílio; Jadir, Dequinha, Jordan; Joel, Duca, Zagallo, Esquerdinha, Dida.

    No Maraca, Flamengo começou o jogo de maneira cautelosa. No dia seguinte, escreveu o Diário da Noite: “Flamengo soube se armar para enfrentar o Racing. Sabendo que não estava com a força máxima e também alertado pela brilhante atuação do Independiente, o Flamengo iniciou a partida quase que inteiramente preocupado com a sua defesa. Assim é que Joel e Zagallo jogaram sempre dentro de seu próprio campo, ajudando a defesa e procurando lançar com profundidade à Dida e Esquerdinha”. Aliás, como ponta recuado, já percebemos a inteligência tática e a participação de Zagallo na modernização do futebol.

    Ainda no primeiro tempo, Flamengo teve mais um jogador lesionado e Esquerdinha teve que ceder seu lugar para Babá. A falta de sorte deu sorte, Flamengo tinha uma dezena de craques na frente. Escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports: “Volta o Flamengo ao ataque. Babá recebe o couro, dribla um adversário e atira cruzado violentamente. Domínguez defendeu e soltou para Dida entrar e mandar às redes aos 34 minutos de jogo”. Logo depois, Dida quase fez o segundo, de bicicleta. “A contagem permaneceu no escore mínimo até o fim do período, traduzindo com pouca fidelidade o que realmente era a superioridade do Flamengo”, julgou o Correio da Manhã.

    No início do segundo tempo, a dupla Dida – Babá voltou a funcionar, como descreveu o Jornal dos Sports: “Dida recebe de Milton e centra para Babá, de cabeça, encobrir o goleiro a marcar o segundo tento do Flamengo aos 12 minutos do segundo tempo”. Babá, um gigante de apenas 1,54 m de altura, fez uma “cabeçada espetacular” e colocou Flamengo perto da vitória. No final do jogo, Flamengo quase deixou escapar o sucesso. Rodríguez fez um gol para o Racing, Servílio salvou de cabeceio e no finalzinho, Chamorro fez uma “defesa sensacional” num chute poderoso de Bianco. O juiz inglês Charles Williams apitou, o Flamengo venceu.

    “Flamengo, vingador terrível”, manchetou o Jornal dos Sports, em relação a goleada sofrida pelo Vasco. Faltava o jogo contra Independiente para vingar mais uma vez Vasco e sobretudo, para homenagear o maior e mais flamenguista presidente de todos, Gilberto Cardoso.

  • Jogos eternos #331: Flamengo 2×0 Palmeiras 2021

    Jogos eternos #331: Flamengo 2×0 Palmeiras 2021

    Flamengo segue vivo na disputa pelo título brasileiro. O principal concorrente é o adversário do dia, Palmeiras, que por causa dos critérios de desempate, vai fechar a rodada na liderança. Mas Flamengo pode empatar em pontos. Ou seja, a derrota é impossível, a vitória é obrigação.

    No começo do ano de 2021, com o Brasileirão de 2020 fechando atrasado por causa da pandemia, Flamengo também estava um pouco atrás na tabela, não podia perder mais. Tinha 52 pontos, 7 a menos que o Internacional, mas com uma rodada a menos e duelos decisivos na frente. Palmeiras andava bem perto, com 51 pontos. Ou seja, a derrota equivalia quase a largar a mão do Brasileirão.

    Em 21 de janeiro de 2021, o técnico Rogério Ceni escalou Flamengo assim: Hugo Souza; Isla, Willian Arão, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Gerson, Diego, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. Depois de problemas na zaga e atuações ruins de vários jogadores, Rogério Ceni fazia uma escolha ousada, colocando como zagueiro o volante Willian Arão. “Ele é um jogador muito importante para a gente. Tem 280 jogos pelo Flamengo, e é um cara que sempre tem boa vontade de ajudar. Ele me falou: ‘Professor, onde você quiser, estou pronto para colaborar’. Para transformar um volante em zagueiro, também tenho que contar com a boa vontade, e ele sempre mostrou isso” explicou o técnico depois do jogo.

    No estádio Mané Garrincha, vazio por causa da pandemia, Palmeiras quase abriu o placar com apenas 3 minutos de jogo. Danilo abriu na profundidade para Viña, que cruzou. Willian chegou um pouco atrasado e perdeu o gol quase feito. Logo depois, numa bola bem alta, Arrascaeta arriscou uma bicicleta. Pegou bem na bola, mas o rebote não enganou Weverton, que impediu o golaço. Outro quase golaço, o de Bruno Henrique depois de um passe sensacional do peito de Éverton Ribeiro. Weverton fez outra defesaça. Na continuidade do lance, Gabigol voleiou, em cima do travessão. Flamengo estava melhor, mas faltava o gol.

    E no final do primeiro tempo, já nos acréscimos, Gabigol roubou uma bola nos pés de Danilo, na parte do campo do Palmeiras. Éverton Ribeiro se infiltrou na zaga palmeirense e chutou. A bola foi rebatida pelo Luan e chegou até Bruno Henrique, que achou Arrascaeta. Confusão na pequena área, bola passou na frente do goleiro, quase no gol. A zaga do Palmeiras se atrapalhou, Kuscevic, em cima da linha, chutou forte nas pernas do próprio companheiro Luan, obrigando-o a fazer gol contra.

    Também obrigado a vencer, Palmeiras pressionou no jogo e quase empatou com um chute de Gabriel Menino. Do lado do Flamengo, Gustavo Henrique entrou ainda no primeiro tempo e ficou perto de fazer o gol num cabeceio depois de bela cobrança de falta de Filipe Luís. A pandemia trazia a nova possibilidade de fazer cinco substituições por jogo. E Rogério Ceni, certinho na escalação inicial com Arão na zaga, mexeu o time. No segundo tempo, entraram João Gomes, Vitinho, Pedro e o jovem Pepê, que tinha jogado apenas 15 minutos em 4 jogos do Brasileirão até aqui. E mais uma vez, Rogério Ceni foi certinho.

    Faltando 8 minutos para o final do jogo, Vitinho cobrou um escanteio, Gustavo Henrique cabeceou. Confusão na pequena área e Pedro foi mais rápido que Zé Rafael para fazer o toquinho atrás. De voleio, Pepê chutou firme e fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado. Vale destacar também a rapidez de raciocínio e a assistência sensacional de Pedro.

    Flamengo vencia 2×0 e já tirava Palmeiras da luta pelo título. Apesar das dificuldades e de alguns tropeços, Flamengo voltava a acreditar no título, queria brigar até o final, se dizer que tudo podia acontecer. E aconteceu mesmo.

  • Jogos eternos #330: Flamengo 6×0 Botafogo 1981

    Jogos eternos #330: Flamengo 6×0 Botafogo 1981

    Flamengo volta hoje ao Brasileirão e tem obrigação de vencer. O jogo promete ser difícil, contra Botafogo, que ainda luta para o G-4. E mais, a derrota de goleada 4×1 no ano passado ainda dóí. Um dia, Flamengo terá que devolver. Pode ser hoje ou mais longe, mas Flamengo vai ter que vencer o Botafogo no Engenhão, de goleada.

    Uma situação similar aconteceu nos anos 1970. Foi até pior. Em 1972, Flamengo levou uma derrota 0x6 no Maracanã contra o Botafogo de Jairzinho. Para piorar ainda, o jogo aconteceu em 15 de novembro, dia do aniversário do Flamengo. A goleada tinha que ser devolvida. Virou uma obsessão. A cada clássico, durante nove anos, a torcida botafoguense exibia no Maracanã uma faixa com apenas a escrita “6×0”. Provocava, cantava “Flamengo, nós gostamos de vo-6”. Em 1975 e 1979, Flamengo vencia 3×0 contra Botafogo no intervalo, mas não conseguiu ir além de 4 gols até o final do jogo. A vitória virava uma frustração, não era o 6×0 esperado. Pior ainda, Botafogo impediu Flamengo de quebrar o recorde de jogos invictos em 1979 e eliminou o rubro-negro nas quartas de final do Brasileirão de 1981.

    No campeonato carioca de 1981, o primeiro Flamengo x Botafogo acabou em 0x0. No segundo turno, Botafogo venceu 2×1. Depois de 15 jogos sem perder, foi a primeira derrota do novo técnico, o antigo jogador Paulo César Carpegiani, campeão brasileiro em 1980 e que conhecia o time como ninguém. Depois, passou 10 jogos sem derrota, entre o campeonato carioca e a classificação para a final da Copa Libertadores. E veio de novo o Botafogo, no Maracanã, de novo com a faixa do 6×0 para irritar a torcida e o time do Flamengo.

    O técnico Paulo César Carpegiani conhecia bem o time, mas tinha dúvida sobre quais pontas escalar. Conhecia os líderes também e pediu assistência ao maior de todos, Zico. Lembra Nosso Rei no livro Zico, 50 anos de futebol: “Foi a única vez na minha carreira profissional que dei palpite em relação à escalão de time. Porque o Lico já tinha entrado bem no time e no domingo de manhã o Carpegiani veio conversar comigo, disse que estava em dúvida e tal, então eu falei para ele: ‘Eu acho que o nosso time fica mais equilibrado com o Lico, da forma como você quer que a gente jogue. Com o Baroninho, que joga muito avançado, o lado esquerdo, do Júnior, sempre fica descoberto. O que você está querendo que o Baroninho faça, ele não faz’. E começou assim, com o Lico”.

    Acrescenta Carpegiani no livro 1981 de André Rocha e Mauro Beting: “Aprendi com o Coutinho a ouvir os jogadores, a dialogar com eles para saber o que pretendiam. Até pela amizade e ascendência, ouvia sempre o Zico. Mas eu já tinha a ideia de escalar o Lico. Ele entrara bem nos jogos da Libertadores e fizera o gol da virada contra o Campo Grande, em Ítalo Del Cima. Normalmente, eu dava antes a escalação para a imprensa. Mas, naquele dia, resolvi guardar o Lico para a hora do jogo”. Assim, em 8 de novembro de 1981, Paulo César Carpegiani escalou o Flamengo assim: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Nunes.

    Com apenas 7 minutos de jogo, Flamengo já mostrava seu futebol envolvente e de passes precisos. Júnior mudou o jogo na direita para Leandro, que dominou com a classe de sempre e abriu de trivela, com ainda mais classe. A aposta de Carpegiani, o “quase desconhecido” Lico segundo o Jornal dos Sports, eliminou Rocha com uma finta de corpo e também tocou de trivela, para o overlapping de Adílio. Brown cruzou de primeira na segunda trave, Nunes chegou e abriu o placar. Golaço, 1×0 para o Flamengo.

    Aos 27 minutos, Lico abriu na esquerda para uma triangulação entre Júnior, Nunes e Adílio. Nosso eterno camisa 8 cortou no meio e fez o passe atrás, na entrada da grande área, para Zico, que chutou de primeira. A bola bateu na zaga e voltou nos pés de Zico, que tocou com o joelho direito e chutou com o pé esquerdo. Com a ajuda da trave, a bola foi no fundo da rede. E seis minutos depois, sim seis, Flamengo voltava ao ataque, para aterrorizar a defesa botafoguense. Júnior, que celebrava neste dia seu 500.o jogo com o Flamengo, pegou a bola e deixou para Zico no meio campo. Melhor a bola nos pés de Zico, ainda mais que Júnior fez a ultrapassagem e foi procurado pelo Zico. Uma finta e de novo para Zico, de um toque só, para Nunes. De pivô, Nunes achou na direita Lico, o predestinado que chutou cruzado. Paulo Sérgio estava vencido pela terceira vez, Flamengo tinha feito a metade do caminho da redenção.

    Flamengo estava imparável. Ainda no primeiro tempo, Perivaldo fez falta dura no Lico, ainda ele, perto da grande área, mas com ângulo fechado. Mesmo para Zico, não dava para chutar diretamente. O Galinho fez dois passinhos e com a habilidade de sempre, cruzou na grande área. Adílio chegou sozinho, cabeceou e fez o quarto gol do Flamengo. O time do Botafogo pedia para respirar e a torcida do Flamengo já pedia mais, já reclamava: “queremos seis, queremos seis”. “A partir daí, ninguém tinha mais dúvidas de que o Flamengo devolveria a goleada de 1972. Muitos torcedores do Botafogo abandonaram o estádio no intervalo” escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil.

    Sem opções, o técnico botafoguense sacou o volante Edson Carpegiani, irmão do técnico rubro-negro, para a entrada do craque veterano Jairzinho. O Furacão da Copa tinha feito 3 gols no 6×0 de 1972, inclusive um de letra. Foi o único a jogar as duas partidas, já que Zico, na época com 19 anos, ficou na tribuna: “Em 1972, eu estava relacionado para aquela partida. Doval tinha sido expulso no jogo anterior e cumpria a suspensão. Fui relacionado para a concentração e estava certo de que jogaria. Mas Zagalo optou por Humberto. Deixei a concentração e assisti ao jogo da arquibancada. Nunca sofri tanto e, assim como nossa torcida, também estava com este resultado atravessado na garganta”.

    No vestiário do Flamengo, o clima era longe de euforia. Só interessava o 6×0. Qualquer outro resultado seria uma frustração, uma goleada com sabor de derrota. Ainda Zico, falando depois do jogo: “A minha maior preocupação, ao sentir estar o jogo praticamente ganho, foi não sair de campo vaiado. De que adiantara vencermos de 4×0 se os torcedores não ficassem satisfeitos? […] Golear e ser vaiado não agrada ninguém”. Era o dia da vingança, ainda mais com Jairzinho em campo. Explica o zagueiro Mozer, que em 1972 jogava com os dentes de leite do Botafogo, mas torcia pelo Flamengo: “Que alegria eu senti quando vi o Jair entrando. Porque era um dos que mais me haviam feito sofrer tanto. Quando ele entrou, o jogo pra mim ficou mais emocionante. Passei a querer os 6 a 0 com mais força. Cada bola que eu disputava contra o Furacão era como se, por milagre, voltasse no tempo para jogar aquela outra partida”.

    No livro Zico, uma lição de vida, escreve Marcus Vinícius Bucar Nunes: “O lado esquerdo das cabines de rádio, no reduto alvinegro, estava praticamente vazio. Os poucos que restavam fiéis às cores alvinegras estavam em uma situação crítica: ou torciam desesperadamente para que saísse, pelo menos, um gol, um golzinho só, para esfriar aquela equipe comandada por Zico, ou ficavam de olho no relógio, contando os últimos minutos, que foram os mais longos da história do Botafogo, em jogos com o Flamengo. Mas a torcida do Fla queria mais e também olhava para o relógio. O segundo tempo já estava com quase 30 minutos e ainda faltavam dois gols”.

    Como só os gols interessavam, vamos diretamente para os gols mesmo. Faltando 15 minutos para o final do jogo, Zico serviu na esquerda Adílio, que invadiu a grande área na velocidade e foi derrubado. Pênalti. Zico chutou firme, e mesmo com o goleiro saindo do lado da bola, fez o gol, igualando Roberto Dinamite na artilharia. Mas isso não importava, só importava o 6×0. Ainda faltava um golzinho para a vingança completa. “Mais um, mais um” implorava a torcida. De pivô, Jairzinho girou até o caminho do gol, ou quase. Chutou, mas a bola apenas flirtou com a trave do Raul. Era a possibilidade de cancelar a festa. Em seguida, Jairzinho ainda ameaçou o gol rubro-negro, mas chutou para fora. Faltava poucos minutos, o jogo ainda era 5×0, um placar que não agradava a ninguém.

    E aos 42 minutos do segundo tempo, uma troca de passes bem ao estilo desse Flamengo inesquecível e histórico. Zico para Andrade, na esquerda para Adílio, de primeira para Lico, de novo para Andrade. O volante abriu de novo na esquerda para Adílio, que ouvindo o conselho mal-avisado do adversário, cruzou. A zaga rebateu e chegou Andrade, torcedor declarado do Botafogo na infância e agora camisa 6, sim 6, do Flamengo. Chutou de primeira, no fundo da rede. Um gol que valia 6, que valia 9 anos de espera e zoações, que valia ouro para os 69.051 presentes no Maracanã, menos os torcedores do Botafogo já em casa. A torcida rubro-negra não queria o sétimo, o 6×0 já era perfeito. A efusão no Maraca, até o final do jogo, foi de um título.

    No livro 20 jogos eternos do Flamengo, lembra Andrade: “É muito difícil descrever o que senti no momento daquele gol. Na realidade, tive a sensação de ter saído do ar por alguns momentos, deu um branco, tanto que corri para o lado errado. Foi um jogo que marcou definitivamente a minha carreira, talvez o mais emocionante de todos. E olha que eu joguei muito tempo… Acho que nos próximos 50 anos continuaremos falando disso. Foi tão importante que muita gente considera aquela vitória um título”. E foi mesmo, já passaram 44 anos e ainda falamos, escrevemos, sonhamos com esse gol.

    E o gol valia um título. O Jornal dos Sports, que manchetou “A vingança do Mengo”, anteviu: “Uma partida histórica, que a bondade de Deus escolheu o carioca para assistir. E a torcida, do Flamengo é claro, soube celebrá-la, mais que comemorá-la. Celebrou com a força de uma derrota – também de 6 a 0 – presa em seu coração há nove anos. Celebrou-a como, se em uma tarde, Deus lhe tivesse proporcionado tudo: uma goleada sobre o seu mais terrível rival, o Botafogo, o título regional, o Campeonato Nacional, a Libertadores da América, o Mundial de clubes”.

    Em um pouco mais de um mês depois desse jogo histórico, Flamengo conquistou uma tríplice coroa, Carioca, Liberta, Mundial. E Lico foi titular em 6 dos 7 jogos decisivos, faltando apenas o jogo desempate contra Cobreloa por causa da violência chilena. A partir do 6 a 0 contra Botafogo, Lico mudou um time que já era quase imbatível. “O Lico não pode mais sair do time. Parece que está há três anos aí dentro. O Carpegiani não vai mais poder mexer nesse time. É esse aí” falou Gérson ainda durante o jogo contra Botafogo.

    O herói do dia, Andrade, explica no livro 1981 de André Rocha e Mauro Beting: “O Lico era um jogador muito inteligente. Ele e o Tita eram meias que atuaram como falsos pontas do esquema para darem liberdade para o Adílio e o Zico. Eles se movimentavam e ainda ajudavam Leandro e Júnior. O time jogava num 4-5-1. Fixos, mesmo, só ficavam os zagueiros e eu. O resto se movimentava muito”. Acrescenta Júnior sobre Lico: “Quando entrou no time, o meu futebol cresceu ainda mais. Porque o Júlio César era um ponta-esquerda nato, jogava só do meio para frente. O Julinho ‘Uri Geller’ não era maluco, era desligado, desde os tempos de salão. O Júlio tinha um talento absurdo, que compensava esse jeito diferente. Mas, com o Lico, arredondou tudo no time. Era mais inteligente no posicionamento. Ele e o Tita foram fundamentais para a equipe embalar de vez”.

    A palavra final vai para o nosso maior ídolo, Zico, de “alma lavada” como ele mesmo confessou, falando também sobre as provocações dos botafoguenses: “A única coisa que nos incomodava em qualquer jogo era aquela faixinha no Maracaná do 6 a 0… Acabou ali […] Em 1981, ganhamos quatro coroas: o Mundial, a Libertadores, o Estadual, e o 6 a 0”. De tanto ídolo que é, às vezes esquecemos que Zico também é torcedor do Flamengo, como cada um de nós, sofrendo com as derrotas, vibrando com as vitórias. Assim, para fechar, cito um grande jornalista e torcedor do próprio Botafogo, Oldemário Touginhó, sobre o final do jogo: “Zico vibrou como se fosse um torcedor na arquibancada. Zico, que quase foi escalado no jogo de 1972 no lugar de Doval, parecia no gramado um simples torcedor de arquibancada. E como torcedor, sabia que aquele gol não foi feito a três minutos do fim, mas nove anos depois do começo”. Flamengo esperou nove anos para se vingar, para fazer desaparecer para sempre a faixinha do 6×0. Até hoje, a goleada nunca foi devolvida pelo Botafogo.

  • Jogos eternos #329: Kashima Antlers 1×2 Flamengo 1994

    Jogos eternos #329: Kashima Antlers 1×2 Flamengo 1994

    Hoje a Seleção brasileira joga no Japão. Tem laços fortes entre os dois países, principalmente em São Paulo. Tem outra ligação evidente: o Japão e o Flamengo. Teve alguns jogos eternos na história do clube e no blog, o Mundial contra Liverpool claro, um jogo contra o Bayer Leverkusen para vencer a Copa Kirin 1988 com gol de Zico, e dois anos depois, uma goleada 7×0 contra a Real Sociedad.

    E a ligação mais obvia ainda é Flamengo, Japão e Zico. Nosso Rei brilhou no País do Sol Nascente com o Manto Sagrado, depois quase fundou o futebol no Japão e virou Sakka no Kami-Sama, o Deus do futebol. Depois de três anos e muitos gols, Zico teve uma despedida no Japão, mais uma, depois daquela com a Seleção em 1989 e a com o Flamengo em 1990, outro jogo para eternizar aqui. Mas agora era a despedida definitiva, do futebol mesmo, aos 41 anos.

    O jogo de despedida, mesmo que teve outro semanas depois, não podia ser melhor, entre o Kashima Antlers e Flamengo, dois times onde Zico é ídolo para sempre. O local é perfeito também, o estádio nacional de Tóquio, onde Flamengo marcou a história. A data também é especial, 21 de junho, dia em que Zico perdeu o pênalti contra a França na Copa de 1986 e exatamente um ano depois, fez um de pênalti no Fla-Flu, depois de meses de sofrimentos e lesões. Em 21 de junho de 1994, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Adriano; Henrique, Índio, Rogério, Marcos Adriano; Charles Guerreiro, Fabinho, Marquinhos, Nélio; Sávio, Charles Baiano.

    Havia um outro sinal, o técnico do Flamengo era o Carlinhos Violino, um dos maiores ídolos do clube, primeiramente como jogador, depois como técnico. E na sua própria despedida de jogador, em 1970 no Maracanã, Carlinhos deu suas chuteiras a uma promessa de base, o Zico mesmo, então com 17 anos. Depois, os dois ganharam juntos o Brasileirão de 1987, Carlinhos de técnico e Zico já monstro consagrado. Agora se reencontravam mais uma vez no Japão.

    Já fazia mais de quatro anos que Flamengo andava sem seu maior ídolo. Na despedida no Maracanã, repetindo o gesto de Carlinhos, Zico entregou suas chuteiras para Pintinho, um craque da base que infelizmente nunca vingou no profissional. Se Zico tinha um herdeiro, ele estava em campo no Japão, um craque de apenas 20 anos, um Diabo Loiro que virou Anjo, Sávio.

    Sávio desfilou sua classe no estádio nacional com dribles e bons passes. Zico, no ápice dos 41 anos, jogava de mais longe, mais calmo, mas igualmente com muita classe. No primeiro tempo, numa triangulação, Sávio pegou de primeira com o pé esquerdo e venceu o goleiro japonês para abrir o placar. Logo depois, num bom passe de Zico, Alcindo quase empatou mas chutou para fora. Em seguida, Zico quase fez outra assistência sensacional, de trivela na profundidade, mas Hasegawa tocou na trave. Ainda no primeiro tempo, outra oportunidade de Zico conseguir uma assistência, mas agora foi a vez do goleiro rubro-negro Adriano de defender.

    No segundo tempo, Sávio ainda aplicou sua classe com dribles desconcertantes, Zico com passes mágicos. Kashima chegou ao empate graças a um gol de Akita num falta cobrada por Alcindo, um garoto do Ninho que iniciou a carreira ao lado de Zico no Flamengo. Depois, Alcindo foi um dos muitos brasileiros que ajudaram Zico a desenvolver o futebol no Japão, que sediou a Copa do Mundo apenas oito anos depois.

    No estádio nacional de Tóquio, palco da maior glória do Flamengo, estava escrito que a vitória seria rubro-negra. Numa jogada na direita, Sávio pegou de primeira, agora de pé direito, na gaveta, sem chance para o goleiro. Era o segundo gol do Flamengo, o segundo do Sávio. No seu canal, Zico lembrou do jogo: “Nosso querido Anjo Loiro meteu dois golaços pro Flamengo. Eu, lógico, como eu ia conseguir fazer gol contra Flamengo? Não tem menor condição”. Zico teve sua chance numa bela cobrança de falta, mas a bola apenas flirtou com a trave. Teve outra bela falta de Zico, agora com boa defesa de Adriano. Não tinha jeito Zico fazer gol contra Flamengo.

    O jogo acabou assim, com vitória do Flamengo, dois gols de Sávio e muitas homenagens para Zico. O Galinho recebeu o título de cidadão de Kashima e a chave da cidade, honras que não vinham desde 1966 para um estrangeiro. Os prêmios foram entregues pelo Primeiro ministro do Japão, Tsutomu Hata. Basta dizer isso para mostrar toda a importância de Zico no Japão, que ficou até hoje divindade no país.

    Em campo, Zico ainda teve tempo de retribuir o carinho ao Carlinhos e de o entregar sua camisa, 24 anos e 5 dias depois das chuteiras no Maracanã. E mais, na volta ao Brasil no avião, Zico, sabendo que era o ídolo do Sávio (e como não podia ser?), entregou para o jovem craque uma foto autografada dos dois durante o jogo. A partir dali, Sávio, que tinha feito apenas 5 gols em 39 jogos com o Flamengo, começou a se firmar no time e virou nos anos seguintes o ídolo das crianças rubro-negras. As chuteiras de 1990 no Maracanã eram muita responsabilidade para o Pintinho, o verdadeiro legado aconteceu aqui, entre o Japão e o Brasil, entre o estádio nacional de Tóquio e o Maracanã, entre Zico e Sávio, dos dois maiores camisas 10 e ídolos do Flamengo.

  • Jogos eternos #328: Flamengo 1×1 Fluminense 1942

    Jogos eternos #328: Flamengo 1×1 Fluminense 1942

    Ainda sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de outro jogo aniversário, mais antigo ainda do que da última crônica. Desde o final da década 30, a cena do futebol carioca foi dominada pela dupla Fla-Flu. Fluminense conquistou o tricampeonato entre 1936 e 1938, Flamengo sempre na vice-colocação, e o rubro-negro finalmente venceu o título em 1939. Fluminense respondeu com o bicampeonato 1940-1941. E em 1942, Flamengo colocou um fim a Era Leônidas, com a saída de seu maior craque em campo, maior ídolo na arquibancada.

    Flamengo sentiu a perda de Leônidas no início do campeonato carioca, começando de modo bem morno: uma vitória, três empates, uma derrota. Se recuperou de forma exuberante, concedeu apenas um empate no segundo turno e ganhou todos os jogos no terceiro turno, aplicando várias goleadas: 4×1 Canto do Rio, 4×0 Botafogo, 2×1 Vasco, 4×1 Madureira, 8×5 America, 7×0 Bonsucesso, 3×0 Bangu, 4×0 São Cristóvão. Assim, chegou para a última rodada precisando apenas de um empate para ser campeão. E o adversário era justamente Fluminense.

    Nesta hora, Fluminense já estava fora do título e apenas Botafogo podia impedir a glória do rubro-negro. Os laços de amizade entre os jogadores da dupla Fla-Flu anunciavam um jogo fácil para o Mengo. Explica Zizinho, o maior craque da época, na sua autobiografia Mestre Ziza: “Todos nós, jogadores do Flamengo, tínhamos certeza de que os jogadores do Fluminense nos preferiam, aos do Botafogo, para campeões. O Fla-Flu que se aproximava ruidosamente tinha, para os torcedores, cara de marmelada, pela amizade que reinava entre os jogadores da famosa dupla. Após cada partida, quem quisesse ver esses jogadores bastava ir a uma churrascaria da época, junto ao Santos Dumont, onde todos se reuniam”.

    Porém, os dirigentes do Fluminense não viam isso de bom olho. Continua Zizinho: “Na véspera da partida, a diretoria reuniu os jogadores e os convenceu de que o Fla-Flu não era brincadeira e esperavam que os profissionais do Fluminense soubessem cumprir com os seus deveres em campo. E ao chegar o momento do jogo, tão esperado por nós, vimos que ia se travar em Laranjeiras uma das mais difíceis partidas do campeonato”. Era o Fla-Flu, o Fla-Flu, mesmo valendo nada, sempre vale. Ainda mais para uma decisão, apesar de apenas um time lutar para a taça. Aliás, os torcedores tricolores, no caso contrário, provavelmente chamariam isso de final. Não foi, mas foi Fla-Flu, basta isso.

    E não resisto de citar mais uma vez o gênio Nelson Rodrigues falando do Fla-Flu, já na Era Maracanã: “Hoje, nos grandes jogos, o Estádio Mário Filho é inundado pela multidão rubro negra. O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, o Flamengo venta, chove, troveja, relampeja. Eis o pergunto: – Os gatos pingados que se reuniram, numa salinha, imaginavam as potencialidades que estavam liberando? Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamazov do futebol brasileiro”.

    E para entender o Fla-Flu de 1942, precisa voltar a um passado ainda mais distante. Em 1927, o baiano Jayme de Carvalho se radicalizou no Rio de Janeiro. Assistiu a um jogo do Fluminense, gostou e pediu para visitar a sede, a aristocrática Álvaro Chaves. Homem do povo, foi duramente recusado pelo clube da elite carioca. Não se assustou, literalmente atravessou a rua e chegou na rua Paissandu, na sede do Flamengo. Foi acolhido, quem diria adotado. “No relampejar de poucos segundos, nascia uma paixão” escreveu Roberto Sander no seu excelente livro Anos 40: viagem à década sem Copa. E lembra as escritas sagradas de Nelson Rodrigues, Flamengo venta, chove, troveja, relampeja.

    E finalmente em 1942, com a ajuda do amigo e vizinho Miguel, Jayme pegou uma faixa de morim e escreveu: “Avante, Flamengo”. Com alguns amigos – fontes falam de meia-dúzia a vintena de pessoas, a pequena multidão chegou com instrumentos e bateria nas arquibancadas das Laranjeiras, onde Jayme havia sido recusado 15 anos antes. Antes do jogo, Jayme e Miguel foram ao campo com a faixa “Avante, Flamengo” e foram aplaudidos pelos jogadores do Flamengo e até pelos torcedores do Fluminense. E Flamengo começou a vencer o Fla-Flu ali, antes mesmo do apito inicial.

    Em 11 de outubro de 1942, para o Fla-Flu decisivo e já eterno, o técnico Flavio Costa escalou Flamengo assim: Jurandir; Domingos, Newton Canegal; Biguá, Volante, Jayme de Almeida; Zizinho, Valido, Nandinho, Vevé, Pirillo. A banda de Jayme, ainda sem nome, tocou músicas, do hino do clube até marchinhas do carnaval. E parava nunca, mesmo quando Nandinho se chocou com o próprio companheiro Pirillo e se machucou. Nandinho só ficou em campo porque as substituições não eram permitidas, mas fez apenas número em campo. O Fla-Flu se complicava.

    Mas Flamengo tinha a banda de Jayme na arquibancada e o gênio-operário Zizinho em campo. Aos 21 minutos de jogo, Pirillo, o substituto de Leônidas e que um dia falou “É fácil ser artilheiro se ao nosso lado está um Zizinho”, chegou e abriu o placar, fazendo seu 21.o gol do campeonato. O Fla-Flu se abria para o Flamengo, e o grupo de Jayme tocava mais forte, ao ponto de incomodar os jogadores do Fluminense. O goleiro Batatais foi reclamar com o juiz Jose Pereira Peixoto, mas de nada serviu. Era tarde demais para reclamar, os tempos agora eram outros, a arquibancada também, e quem tinha mais raça era o Flamengo.

    Porém, Fluminense lutou para chegar ao empate. Escreveram Arturo Vaz, Celso Júnior e Paschoal Ambrósio Filho no livro 100 anos de bola, raça e paixão: “E quem pensava que o Fluminense iria se abalar, se enganou. Eles não tinham nada a perder e partiram pra cima do Flamengo. Logo veio o empate. O goleiro Jurandir havia acabado de fazer uma defesa tranquila, mas Carreiro trombou com ele e lá se foi o arqueiro, com bola e tudo, para dentro do gol. Falta clara, que o árbitro José Pereira Peixoto preferiu ignorar. No segundo tempo, uma pressão incrível dos tricolores, que os rubro-negros conseguiram segurar com muita raça”.

    Fluminense lutou, mas Flamengo lutou mais. Lembra Zizinho: “O Pedro Amorim martelou nosso gol com uma pontaria que se não fosse o Jurandir estar num grande dia teríamos que disputar uma melhor de três com o Botafogo. Com todos os santos nos ajudando (naquele tempo não era São Judas Tadeu o padroeiro), a partida terminou 1 a 1. Assim começou a grande campanha rubro-negra para o tricampeonato”. No dia seguinte, o Jornal dos Sports escrevia: “O Clássico dos Clássicos não desmereceu as suas tradições. Respondendo com a dignidade que era de esperar, à meia dúzia de maledicentes que procuravam durante a semana criar um ambiente de desconfiança em torno do Fla-Flu, o quadro tricolor foi um grande adversário para o rubro-negro, impondo-lhe, ao final, a perda de um ponto precioso neste final de certame. O match disputado com entusiasmo pelos dois conjuntos terminou igual em 1 x 1, tendo o placard sido construído no primeiro tempo, por gols de Pirillo, aos 21 minutos, e Carreiro, aos 43”.

    Flamengo levou o título e partiu para uma festa, agora e para sempre com música. Era uma marca não só na história do Flamengo, mas do futebol mundial. Mas no início, a banda de Jayme não fez só adeptos. O compositor rubro-negro e radialista Ary Barroso, falou em tom de deboche: “Isso não passa de uma charanga”. Sem se incomodar, Jayme chamou o grupo de “Charanga Rubro-Negra”. A Charanga cresceu, agora com uma banda militar, com mais faixas e músicas. Escreveu Roberto Sander: “Jayme e a esposa Laura produziam toda a festa. As faixas e bandeiras eram feitas em casa, artesanalmente. Jaime comprava os tecidos num armarinho e Laura, boa de costura, se encarregava do acabamento, logicamente, em vermelho e preto. Nesse sentido, Jaime foi a personificação do torcedor na sua essência”.

    Em 1945, a Charanga ainda era bem contestada. Por exemplo, escreveu Alberto Mendes para o Esporte Ilustrado: “Prosseguem os rubro-negros na sua campanha do tetra e com fundidas razões. Apenas julgamos que a sua torcida organizada deve adaptar melhor as suas iniciativas ao espetáculo futebolístico. Domingo, por exemplo, tivemos uma música, misto de fanfarra e batucada, de todo inoportuna, pois não se calou um único momento durante os noventa minutos, enfadando todos. Por outro lado, achamos excelente a demonstração dessa torcida, que após o prélio desfilou pelo gramado, comemorando carnavalescamente a vitória retumbante. Para o futuro, sempre música após o jogo e nunca durante o mesmo”.

    Mas pouco a pouco, a animação se impôs na paisagem carioca, até virar marca registrada. Ainda Roberto Sander: “No Rio, a torcida era carnavalizada. Havia música, fantasia, gritos, fogos e até brigas, embora, na Charanga de Jaime, fosse proibido falar palavrão e xingar o adversário. Tudo era mais civilizado, mas havia um quê anárquico e tropical: o samba, o batuque desciam o morro e, junto com o negro e o mulato, assumiam o papel de fazer uma metamorfose na fisionomia do futebol brasileiro”.

    Jayme de Carvalho, rubro-negro fanático até a morte em 1967, ainda virou chefe da torcida brasileira na Copa do Mundo de 1950. Virou o mesmo espetáculo de música e fogos, de festa e cantos, até a inesquecível marchinha “Touradas em Madri” cantada pelo Maracanã inteiro contra a Espanha. Depois do torneio, iugoslavos maravilhosos fundaram um grupo para apoiar o time dele, que chamaram de “Torcida Split”. As torcidas organizadas começavam a se instalar na Europa.

    Na hora de eleger o maior clube do Brasil, deixando de fora a cegueira e a burrice do clubismo, vejo dois candidatos naturais, Flamengo e São Paulo. E além do futebol e dos títulos, dos ídolos e dos times históricos, tem que ver o lado pioneirismo do Flamengo. Aconteceu muitas vezes, em campo e na arquibancada, de uma charanga a uma Nação. E tudo começou graças a um baiano tricolor de um dia, rubro-negro na eternidade, num 11 de outubro de 1942, num Fla-Flu com festa, música e taça.

  • Jogos eternos #327: Paris SG 0x2 Flamengo 1975

    Sem jogo hoje, eu vou de um jogo aniversário, de exatamente 50 anos atrás. Queria escrever sobre esse jogo um pouco antes, no Mundial de clubes, com a possibilidade de um Flamengo x Paris nas quartas de final, com meu coração dividido, de torcedor terceirizado. Infelizmente, Flamengo perdeu contra o Bayern nas oitavas e adiou a eternização desse jogo.

    Há pouco, escrevi que na Europa, eu torcia pelo Real Madrid, desde meus 8 aninhos e a final da Liga dos campeões de 2000, um amor reforçado com os Galáticos de Ronaldo e Zidane. Mas também torço pelo PSG. Hoje pode estranhar, mas na época Paris não lutava com os gigantes da Europa. Na minha França natal, depois dos primeiros amores com o Mônaco, também em 2000, fiquei sem realmente torcer por um clube francês. Mas eu tinha um carinho pelo PSG por causa de ser o clube da capital, o Parque dos Príncipes e claro, a ligação com o Brasil. Gostei da época com Ronaldinho, da campanha na Liga dos campeões em 2004/2005, da temporada 2005/2006… Depois, comecei a acompanhar de perto o Flamengo, e com a queda dos Galáticos e a lesão de meu ídolo Ronaldo no Milan, foi só Flamengo, apenas Flamengo, sempre Flamengo.

    Em 2010, me mudei para a Cidade Luz e comecei a realmente torcer pelo PSG, um time que tinha como estrela Nenê e coadjuvantes Giuly, Makélélé, Hoarau e Sakho. Um amor reforçado com a chegada dos cataris e dos grandes craques, alguns brasileiros. Também voltei a seguir de perto o Real Madrid com a segunda versão dos Galáticos. De novo, eu voltava ao futebol europeu, de novo tinha o coração dividido, de torcedor terceirizado.

    Bem antes disso, em 1975, o Paris SG era um clube muito recente, ainda criança, de apenas 5 anos. Flamengo já era gigante, um vovô de 80 anos. E partiu para uma excursão na França para cumprir uma cláusula na venda de Paulo César Caju na França um ano antes. Também tinha a ideia de ser convidado para o prestigioso Torneio de Paris no ano seguinte, depois de uma primeira participação já na segunda edição do torneio, em 1958.

    O Paris SG tinha seu craque, o argelino Mustapha Dahleb, oriundo de Béjaïa, na Cabília. Como apaixonado pela história do futebol e o clube, é um nome bem conhecido para mim. Já o Flamengo tinha vários craques, com o maior de todos, Zico. Tinha até o irmão de Zico, o também craque Edu Coimbra. Porém, estava machucado e voltou ao Rio de Janeiro no dia seguinte do jogo. Em 8 de outubro de 1975, o técnico Carlos Froner escalou Flamengo assim: Renato; Júnior, Rondinelli, Jayme de Almeida, Rodrigues Neto; Liminha, Tadeu, Zico; Paulinho, Luisinho, Luiz Paulo.

    No Parque dos Príncipes, jogando em casa e com o apoio do público, Paris dominou o início do jogo. “No entanto, a partir dos 10 min, o time brasileiro passou a forçar os lançamentos longos, conseguindo fazer 1 a 0, aos 13 min. A jogada começou com Zico, que lançou Paulinho pela direita. O ponteiro foi à linha de fundo e centrou para a área, onde Luisinho tocou de cabeça para marcar. O goleiro Pantelic ainda chegou a tocar na bola, mas não evitou que ela chegasse às redes”, escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports.

    O Paris SG voltou a tomar conta do jogo, ainda sem fazer gol. O goleiro rubro-negro Renato brilhou, espalmando para escanteio um chute do português Humberto Coelho. Renato fez outras grandes defesas em frente de Tokoto e Zico perdeu a chance de ampliar para o Mengo no final do primeiro tempo.

    Para o segundo tempo, sem vídeo do jogo, apenas vou citar o Jornal do Sports: “No segundo tempo, o Flamengo melhorou seu rendimento, principalmente em função de Zico, que conseguiu fugir da marcação cerrada e organizou boas jogadas com Tadeu. O Paris Saint Germain caiu um pouco de produção e somente conseguiu seu primeiro bom ataque aos 20 min, quando M’Pelé cabeceou bem e Renato fez defesa difícil. O Flamengo fez 2 a 0 aos 22 min, num lance em que Zico partiu com a bola desde o meio-campo e deu um passe para Tadeu, que lançou Luisinho na área. O atacante apenas tirou Pantelic da jogada e marcou. Daí em diante, apesar da luta do time francês em busca de um gol, o Flamengo teve maior liberdade para atuar, criando ainda outras grandes oportunidades, que foram desperdiçadas por Paulinho e Luisinho. A partir dos 30 min, principalmente, o domínio do Flamengo foi total”.

    O Jornal dos Sports manchetou “Mengo foi uma festa em Paris” e ainda precisou “Mengo vence e torcida aplaude: 2 a 0 no Saint-Germain”. Nas atuações, elogiou Renato, Júnior, Luisinho, Tadeu “o grande destaque da equipe, além de organizar as jogadas de ataque, esteve sempre presente nos lances defensivos, tudo com a melhor técnica”, e claro, Zico: “muito marcado, mesmo assim conseguiu participar de vários lances de grande categoria, inclusive o do segundo gol”.

    Antes de jogar contra um combinado de jogadores PSG/OM, coisa improvável hoje, Flamengo vencia o primeiro confronto da história com o Paris Saint-Germain. Perdeu o segundo em 1979 apesar de um gol de Zico e empatou em 1991, com classificação rubro-negra nos pênaltis para a final do Torneio de Paris. Com um retrospecto equilibrado, o quarto jogo ainda se fez esperar. Mas pude antever com a possibilidade no Mundial de clubes, em caso de outro confronto, meu coração dividido, de torcedor terceirizado, ficará só Flamengo, apenas Flamengo, sempre Flamengo. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #326: Bahia 0x2 Flamengo 2001

    Jogos eternos #326: Bahia 0x2 Flamengo 2001

    Na última crônica, escrevi sobre um jogo contra Cruzeiro em 2014, ano difícil para o Flamengo, com luta contra o rebaixamento. No Brasileirão de 2001, também foi complicado, até pior. Flamengo fechou a primeira fase na 24.a colocação, com apenas dois pontos a mais que o primeiro rebaixado. Talvez com um número menor de times no campeonato, o desfecho teria sido terrível. Ou talvez com um outro resultado na Fonte Nova contra Bahia.

    Flamengo estreou no Brasileirão com um 0x0 contra a Ponte Preta e em seguida perdeu três jogos consecutivos, o último um 0x4 contra o Athletico Paranaense. Se recuperou um pouco vencendo Sport em casa, antes de um jogo emSalvador. Flamengo não tinha Petkovic, mas em troca tinha a volta dos convocados Juan e Edílson. E mais, tinha a estreia de Vampeta, por coincidência nas suas terras natais da Bahia. A contratação foi motivo de esperança para a Nação, mas em campo só rendeu decepções.

    Em 19 de agosto de 2001, o técnico Zagallo escalou Flamengo assim: Júlio César; Alessandro, Juan, Leonardo Valença, Cássio; Jorginho Araújo, Vampeta, Beto, Fábio Augusto; Edílson, Reinaldo. O time era até bom, mas Flamengo não vencia contra Bahia no Brasileirão desde 1987, ou seja, 11 jogos sem vitória!

    E o início do jogo na Fonte Nova quase confirmou isso. Nonato driblou Júlio César, mas não conseguiu chutar no gol. Na metade do primeiro tempo, Bahia acentuou a pressão, mas a bola apenas flirtou com a trave. E quem não faz, acaba tomando. Aos 26 minutos, Beto cobrou uma falta de longe. No rebote, Edílson girou e tocou para Alessandro, que de calcanhar abriu para Reinaldo, para o gol fácil, para o golaço coletivo.

    No final do primeiro tempo, Júlio César, o herói de tantas lutas contra o rebaixamento, fez duas grandes defesas em cima de Nonato e Marcus Vinícius. E quem não faz, acabada tomando. Na metade do segundo tempo, bem lançado pelo Fábio Augusto, o também baiano Edílson driblou o goleiro e tocou no fundo da rede.

    Flamengo acabava com o jejum contra Bahia, seja no Maracanã, seja na Fonte Nova, e conseguia três pontinhos, que valiam muito mais no final do campeonato. Em 2025, com um luta diferente, agora pelo título, esses três pontos também valem ouro.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”