Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #377: Flamengo 6×2 Cruzeiro 2004

    Jogos eternos #377: Flamengo 6×2 Cruzeiro 2004

    Flamengo joga hoje contra Cruzeiro num reencontro entre o nosso agora técnico Leonardo Jardim e o Cruzeiro, que foi muito bem no ano passado. Eu tenho meu ingresso na Norte do Maracanã e só espero uma vitória, melhor ainda uma goleada.

    Em 2003, Cruzeiro também foi bem, até bem melhor, com uma tríplice coroa estadual – Copa do Brasil – Brasileirão. O ano de 2004 foi bem mais difícil para a Raposa, com o 13o lugar de um campeonato que tinha 24 times. Para o Flamengo, a situação era ainda pior. Passou algumas rodadas na lanterna e antes da 46a e última rodada, ainda não tinha garantido a permanência na Série A. O jogo contra Cruzeiro valia muito.

    Em 19 de dezembro de 2004, nosso eterno técnico e ídolo Andrade fazia mais um interino e escalou Flamengo assim: Júlio César; China, Júnior Baiano, André Bahia, Roger; Douglas Silva, Júnior, Ibson, Zinho, Felipe; Whelliton. O time tinha metade de craques e ídolos, e outra metade de jogadores limitados, até ruins. No Raulino de Oliveira de Volta Redonda, onde Flamengo tinha goleado Paysandu e Goiás no campeonato, também levou um 0x3 contra Figueirense, tudo podia acontecer, até o pior.

    Com apenas dois minutos de jogo, Whelliton cabeceou na trave e inflamou o estádio. Com 20 minutos, Cruzeiro ameaçou três vezes a meta rubro-negra e fez tremer toda a torcida. Numa falta perto da grande área, Júlio César fez grande defesa e a bola ainda tocou na trave. Sem gol ainda no Raulino, tudo podia acontecer.

    Com 27 minutos de jogo, outra falta agora para o Flamengo. Ibson cobrou, André Bahia cabeceou e abriu o placar, libertando a Nação de uma forma ainda parcial. André Bahia se tornava o herói improvável do jogo. Um pouco antes, assinou com o Feyenoord e anunciou sua saída do Flamengo no final do ano, o que provocou atritos com a diretoria. Escreveu o UOL: “Depois de acertar sua transferência para o Feyenoord, da Holanda, ele viveu momentos conturbados. Acusando-o de quebra de contrato por ter posado para fotos com a camisa do seu futuro clube, a diretoria do Flamengo decidiu afastá-lo e posteriormente processá-lo. Contudo, a carência de zagueiros forçou os dirigentes a reconsiderarem a decisão e reintegrarem Bahia ao elenco carioca. Mesmo assim, a ação processual não foi interrompida e o atleta conviveu com constantes visitas de oficiais de justiça à sua casa”.

    Em campo, Felipe continuou a animar a torcida, com domínio de sola e dribles desconcertantes entre dois adversários. Flamengo tinha um craque, até mais. Ibson se infiltrou na zaga cruzeirense e procurou a tabelinha com Felipe. Claro, Felipe achou o passe certo, e o garçom Ibson virou artilheiro para fazer o segundo gol do dia. A ameaça do rebaixamento na última rodada se afastava. Uma pena que o Flamengo era uma bagunça na época, porque com dois craques assim, não era para brigar contra o rebaixamento e sim, por títulos.

    No minuto seguinte do segundo gol, o camisa 9 Whelliton tocou firme e fez o terceiro gol do jogo, também seu terceiro gol com o Manto Sagrado em 19 jogos, sendo o último contra Cruzeiro. Júlio César, que também se despedia do Flamengo neste jogo antes de voltar em 2018, fez outra grande defesa numa falta de Jardel, mas Cruzeiro fez um gol logo depois graças ao jovem Fred. No final do primeiro tempo, Felipe cobrou magistralmente um escanteio, André Bahia cabeceou e fez o segundo dele, o quarto do Mengo.

    Ainda no primeiro tempo, Felipe fez outra magia, agora do lado direito, se livrando duas vezes do mesmo adversário. Felipe viveu altas e baixas durante o ano de 2004, mas para o último jogo, quando valia muito, foi muito inspirado. Porém, no contra-ataque, Héctor Tapia fez um gol para a Raposa. No intervalo, Flamengo estava bem, com dois gols de vantagem. Porém, Flamengo sendo o Flamengo, tudo podia acontecer, precisava fazer mais para garantir a permanência.

    No segundo tempo, Júlio César foi salvo pelo travessão num cabeceio de Gladstone. Logo depois, Athirson entrou em campo no lugar de Roger, para os dois foi último jogo com o Manto Sagrado. Na sequência, Júlio César fez outra defesa importante numa cobrança de falta e precisou ser atendido pelo médico do clube. Tempo para a televisão mostrar a tabela parcial. Flamengo tinha quatro pontos a mais que o primeiro rebaixado, mas ainda não tinha nada definido. Precisava mais.

    O livramento quase completo para a torcida chegou numa falta, com uma bomba de Athirson, diretamente na rede. Athirson, um ídolo no Flamengo e no Francêsguista, fazia assim seu 37o e último gol com o Manto Sagrado em 253 jogos. O Flamengo era garantido no Brasileirão de 2005, com uma goleada, mas Felipe tinha uma magia a mais para fechar sua grande atuação pessoal. Nos acréscimos, tentou o passe, cortado. Bola voltou nos pés do Maestro, que fixou dois adversários, driblou na esquerda e fez o golaço inspirado, uma pintura de cobertura sem chance para o goleiro. Uma obra de arte de um gênio para fechar um campeonato difícil, mas que se terminou de uma maneira bem linda. Infelizmente, como outros, o jogo contra Cruzeiro também foi o último de Felipe Maestro no Flamengo.

  • Jogos eternos #376: Flamengo 2×1 Fluminense 2017

    Jogos eternos #376: Flamengo 2×1 Fluminense 2017

    Flamengo joga hoje a final do campeonato carioca, em busca do 40o título estadual e do sétimo tricampeonato. Desde 2020, é o sexto Fla-Flu na final do campeonato em sete edições. Deu Flamengo em 2020 e 2021, Fluminense em 2022 e 2023. Flamengo venceu o quinto capítulo em 2025. Em toda a história do campeonato carioca, em decisões no Fla-Flu, quando ao menos um time podia ser campeão no final do jogo, há uma igualdade, com 7 títulos para cada time.

    Eu já eternizei no Francêsguista os títulos de 1963, 1972 e 1991, também de 2020. Eu vou então voltar um pouco mais no passado, com a final do campeonato carioca de 2017. Na Taça Guanabara, Flamengo e Fluminense foram perfeitos na fase de grupos, com 5 vitórias em 5 jogos. Na final, deu jogaço, com 3 gols para cada time. No final, a dupla da zaga rubro-negra Réver – Rafael Vaz falhou na disputa de penalidades e Fluminense conquistou a Taça Guanabara.

    Na Taça Rio, Flamengo seguiu invicto, com 3 vitórias e 3 empates. Na semifinal, o 0x0 contra Vasco eliminou o rubro-negro da Taça Rio. O regulamento era muito confuso e o jogo não valia nada, era até melhor para o Flamengo perder e zerar os cartões amarelos. Nas semifinais “gerais”, Flamengo eliminou Botafogo com dois gols de Paolo Guerrero e Fluminense atropelou Vasco. Na final do campeonato carioca, finalmente, o Fla-Flu.

    Pela primeira vez desde 1995 e o maldito gol de Renato Gaúcho, tinha um Fla-Flu decisivo para o título do campeonato carioca. Na ida, Renato Chaves falhou, Éverton golaçou e Flamengo venceu 1×0. Flamengo podia até empatar na volta e ser campeão. Em 7 de maio de 2017, o técnico Zé Ricardo escalou Flamengo assim: Alex Muralha, Pará, Réver, Rafael Vaz, Renê; Willian Arão, Márcio Araújo, Trauco; Berrío, Everton, Paolo Guerrero.

    Flamengo tinha uma vantagem de um gol, que caiu logo no início do jogo. Num escanteio, Henrique Dourado cabeceou e abriu o placar, empatou no placar agregado. No restante do primeiro tempo, Flamengo dominou a partida, teve chances de marcar com Renê, Pará e Éverton, sem fazer. No segundo tempo, foi a vez do Fluminense de ter as maiores oportunidades de gol, também sem fazer. O contestado goleiro rubro-negro Alex Muralha fez um grande jogo, com várias defesas. A disputa de penalidades, fatal para o Flamengo na Taça Guanabara, se aproximava.

    Faltando apenas 5 minutos para o final do jogo, quem sabe o título tricolor, Flamengo teve um escanteio, cobrado por Gabriel. O zagueiro Réver cabeceou, o goleiro do Flu, Cavalieri, defendeu de forma parcial e o Guerrero chegou, brocou, acabou o caô. O peruano fazia seu 10o gol do campeonato e se tornaria artilheiro da competição. O Flamengo era o virtual campeão.

    O final do jogo foi o que o futebol carioca tem de mais louco, o Fla-Flu de mais romântico, o herói do jogo de mais folclórico. Diego Cavalieri foi expulso, forçando a entrada do meia Orejuala como goleiro do Fluminense, de luvas e de short de jogador de campo. E com 5 minutos dos acréscimos, bem no final do jogo, teve um escanteio do Fluminense. Flamengo defendeu, Rodinei partiu para um contra-ataque de 50 metros, com o Orejuala saindo do gol, agora voltando para o gol de forma desesperada. Rodinei chutou, sem chance para o goleiro de um dia. O Maracanã, com seus 68.165 presentes, recorde do ano de 2017, explodiu e gritou: “É campeão”.

    Não tem nada melhor que comemorar um gol que oferece o título. Tem melhor sim, vencer em cima do Fluminense, com um gol tão inusitado que é impossível de esquecer. Rodinei no Fla-Flu de 2017, Flamengo campeão invicto pela sexta vez, campeão carioca pela 34a vez. Ganhar o Fla-Flu, ainda mais uma final, pela primeira vez em 26 anos ou pela quarta vez em 6 anos, sempre é especial.

  • Jogos eternos #375: Flamengo 4×2 Juventude 2024

    Jogos eternos #375: Flamengo 4×2 Juventude 2024

    Sem jogo do Flamengo antes da final do campeonato carioca, ainda preciso tempo para digerir a demissão de Filipe Luís. Foi um dos maiores técnicos da história do Flamengo, simples assim. Chegou no final de 2024, e já venceu na estreia contra o Corinthians, na semifinal da Copa do Brasil. Ainda venceu o Bahia na Fonte Nova no Brasileirão.

    Nessa época, cheguei ao Brasil para um mês de férias, com novas esperanças rubro-negras no coração. E a esperança de vencer mais um Fla-Flu no Maracanã. Não aconteceu, perdeu 2×0. Mas em seguida, Flamengo se classificou para a final da Copa do Brasil e tinha mais um jogo no Brasileirão, contra Juventude. Jogo no Maracanã, eu no Rio de Janeiro, impossível eu faltar esse jogo.

    Em 26 de outubro de 2024, para seu quinto jogo como técnico do clube, Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Wesley, Léo Pereira, Léo Ortiz, Ayrton Lucas; Evertton Araújo, Erick Pulgar, Gerson, Arrascaeta; Michael, Gabigol. Um sábado de sol, eu com algumas cervejas já bebidas, com o Manto Sagrado na Norte do Maraca, com a minha maior alegria.

    Apenas faltava um gol do Flamengo, depois de 90 minutos frustrantes contra o Fluminense. E contra Juventude, chegou com apenas 7 minutos de jogo. Na pressão alta, característica do Flamengo de Filipe Luís, Erick Pulgar ganhou a bola, tocou para Gabigol, para Arrascaeta, que chutou forte. O goleiro defendeu e bola voltou nos pés de Michael, que fintou, esperou e chutou. Gol do Flamengo, explosão geral no Maraca, explosão particular no meu coração rubro-negro. Tinha tanta saudade de ver o Flamengo marcar um gol no Maracanã.

    Flamengo estava bem, mas na metade do primeiro tempo, num contra-ataque, Gilberto fez o gol do empate para o Juventude. Até o final do primeiro tempo, Flamengo teve outras chances, principalmente com o Gabigol, que até fez um gol, anulado por impedimento. Nos acréscimos, Gerson teve outra chance, mas a bola apenas flertou com a trave. No intervalo, ainda uma igualdade no placar, apesar da superioridade do Flamengo em campo.

    E já no início do segundo tempo, bem na frente de meus olhos e meu coração na tribuna Norte, Michael fintou, girou e cravou o pênalti. Com a bola nas mãos, meu ídolo Gabigol, que antes nunca, ou quase nunca, errava um pênalti e depois passou a errar com muita mais frequência. O auge das dificuldades foi com o técnico Tite. Gabigol pouco jogava, sempre saindo do banco, às vezes nem entrando em campo. E não fazia mais gols. Nos últimos 14 jogos, uma eternidade de mais de três meses, Gabigol não fez nenhum gol.

    Mas agora o técnico era diferente, era Filipe Luís, antigo parceiro do Gabigol no eterno Flamengo de 2019-2022. Bola na marca do penal, eu com as mãos no coração, Gabigol fintou, esperou, cobrou. Gol do Flamengo, gol do Gabigol, que finalmente acabava com o jejum. Tinha tanta saudade de ver um gol de Gabigol no Maracanã.

    Cinco minutos depois, no campo do Flamengo, Léo Pereira fez o lançamento longo, característica do Flamengo de Filipe Luís. Michael dominou perfeitamente, tocou para Gerson, que tocou atrás para Arrascaeta. De primeira, na entrada da grande área, tocou no fundo do gol e fez mais uma vez a alegria da torcida. Tinha tanta saudade de ver um golaço do Flamengo no Maracanã.

    Na metade do segundo tempo, Edson Carioca fez um gol para o Juventude e colocou o resultado do final do jogo em dúvida. Já nos acréscimos, Gerson, ainda ele, foi lançado em profundidade, outra contra-ataque, outra característica do Flamengo de Filipe Luís. Gerson achou Gonzalo Plata, que dominou e chutou bem para fazer seu primeiro gol com o Manto Sagrado, duas semanas antes de se eternizar no Mineirão. Tinha tanta saudade de ver uma vitória do Flamengo no Maracanã.

    Flamengo fazia quatro gols, de contra-ataque, de pênalti ou de jogo de posição, mostrava raça, amor e paixão. Logo depois, conquistou o penta da Copa do Brasil. A temporada de 2025 ainda foi melhor, até a queda de Filipe Luís. Ídolo, nós já temos saudade de você.

  • Na geral #25: O absurdo

    Na geral #25: O absurdo

    A diretoria do Flamengo fez um dos maiores absurdos da história do clube. Filipe Luís, campeão do Brasileirão e da Copa Libertadores há menos de quatro meses, foi demitido. Escrever isso ainda parece uma loucura absoluta.

    Eu estava num voo para o Brasil quando Flamengo jogou contra Madureira no jogo de volta da semifinal. Com a vitória 3×0 na ida, estava confiante para Flamengo chegar até a final. Uma virada do Madureira parecia improvável. Quando o voo posou, liguei a Internet e entrei no Instagram. Antes mesmo de saber o resultado do jogo, vi que Filipe Luís tinha sido demitido. Imediatamente, pensei que Flamengo tinha levado a virada improvável. Só um roteiro impossível podia explicar a queda de um dos maiores técnicos da história do clube. Depois, vi que Flamengo tinha vencido 8×0. Deve ser um caso único na história do futebol mundial, um clube vence 8×0 e a diretoria demite o técnico. Um absurdo. Ontem comentei isso com um vendedor na praia de Copacabana, que me disse sorrindo: “Devia ganhar 20×0”.

    Verdade que o Flamengo de 2026 não convenceu e pouco venceu. Perdeu a Supercopa do Brasil e a Recopa Sudamericana, duas competições que Flamengo precisa vencer sim, mas que não definem o sucesso ou não de uma temporada. Verdade também que perder essas duas competições lembram o péssimo ano de 2023, de longe a pior temporada recente do Flamengo. E com a demissão de Filipe Luís, parece ainda mais 2023.

    Em 2022, também teve uma dupla de títulos no Brasil e na América, com a Copa do Brasil e a Copa Libertadores. E a diretoria rubro-negro já tinha feito um erro grosseiro, mandando embora o técnico Dorival Júnior, de forma injusta. Ainda mais para contratar o português Vítor Pereira, que com o Corinthians, tinha sido o vice de Dorival Júnior na Copa do Brasil. No Flamengo de 2023, Vítor Pereira perdeu a Supercopa e a Recopa. Pior ainda, perdeu a final do campeonato carioca contra Fluminense, de maneira improvável, uma se não a maior frustração de minha vida num estádio de futebol. E foi ali o fim da linha do português.

    Depois, a diretoria do Flamengo improvisou, contratou Jorge Sampaoli, que convenceu ainda menos, que também foi vice. E ainda teve a passagem apagada de Tite, até finalmente se recuperar com o Filipe Luís. E o ciclo começa de novo, ou se fecha de novo, não sei mais. Filipe Luís ganhou quase tudo entre 2024 e 2025. Concordo que não é motivo para ficar com o técnico. Motivo era o que 2026 podia trazer, já a final do campeonato carioca contra Fluminense, o Brasileirão, a Copa Libertadores, quem sabe mais. Agora não tem mais.

    Antes mesmo da demissão de nosso ídolo, a diretoria negociava com o Leonardo Jardim para o substituir. Outro português que foi bem no Brasil. Mas Flamengo não é o Corinthians, não é o Cruzeiro, é o Flamengo, é diferente de tudo. E já vejo 2023 se aproximar, o Leonardo Jardim não render, a diretoria sem solução e piorar ainda mais com a nomeação de outro técnico, que vai render ainda menos. Claro, espero estar errado, mas acho que o Flamengo vai pagar caro pelo erro da diretoria. Pior ainda, ou igualmente ruim, a gente também perdeu o assistente Rodrigo Caio, que mostrou muita classe ao se demitir ao mesmo tempo que o Filipe Luís. Os dois são ídolos, têm muita classe, o que não é o caso da diretoria agora.

    Enfim, só resta a torcer pelo Flamengo, para conquistar o primeiro título do ano ainda este domingo, para Leonardo Jardim ser um substituto convincente do Filipe Luís. O ano de 2026 mal começou, mas na verdade, nem começou. Falta muitas coisas para chegar ainda, infelizmente sem o FL, com tristeza no coração. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #374: Flamengo 1×0 Botafogo 1973

    Jogos eternos #374: Flamengo 1×0 Botafogo 1973

    Hoje é dia de minha chegada ao Brasil e sobretudo, é o aniversário de Zico. Nosso Rei faz hoje 73 anos. Para a lembrança do dia, eu vou então de um jogo de 1973, um clássico contra Botafogo no Brasileirão.

    Estreante em 1971, campeão carioca em 1972, Zico ainda era um garoto de 20 anos em 1973. Ainda reserva, precisava se afirmar nos jogos, principalmente nos clássicos. Nos seus 16 primeiros jogos contra Botafogo, Fluminense ou Vasco, Zico não fez nenhum gol. O Flamengo de 1973, dirigido pelo Zagallo, tinha muitos craques, deixando Zico como coringa no banco. Escreveu Marcus Vinícius Bucar Nunes no livro Zico, uma lição de vida: “Chegavam novos reforços, para alegria da nação rubro-negra: Rogério, Afonsinho, Dario, Doval e Paulo César passaram a compor o ataque titular. Liminha, com Afonsinho, formavam o meio-campo. No banco, como coringa predileto, estava ele, com muita juventude, muita disposição, querendo entrar na briga, mas sempre pulando de galho em galho, em diversas posições: esteve na ponta substituindo o Rogério, machucado. Também entrou, pelo mesmo motivo, no lugar do Dario, do Paulo César, do Afonsinho. Mas, na sua posição (camisa 10), o Doval não dava colher. E não havia como se firmar”.

    Zico ganhou algumas chances como titular no segundo semestre e “passou a conhecer um pouco mais o segredo de cada espaço do campo”. Fala o próprio Zico, no livro Zico conta sua história: “Naquele ataque, joguei em todas as posições. Armava, lançava, distribuía da intermediária, invadia pelos flancos e pelo meio, fazia as assistências, centrava e finalizava. Tive que aprender a fazer um pouco de tudo, a aproveitar cada oportunidade que aparecia para mostrar o quanto poderia ser útil ao time”. Zico começou a se firmar, fez seu primeiro gol num clássico, de pênalti, contra Vasco no mês de setembro de 1973. Aliás, foi o primeiro gol de Zico como profissional no Maracanã, depois de passar os 23 primeiros jogos em branco.

    Com Flamengo fora da classificação para a segunda fase, Zico ficou titular, no início ao lado do argentino e ídolo Doval, depois no lugar dele. Com a camisa 10 dele, oferecida pelo funcionário Meyer Andrade: “Estávamos no vestiário do Maracanã. Perguntei ao gringo se ele não poderia deixar o menino entrar com a 10. E ele me falou, naquele português enrolado: ‘Ô Andrade… quem joga sou eu, não é camisa, vai lá e dá a camisa ao menino’”. Doval faltou dois jogos, duas derrotas contra o Atlético Mineiro e o Fluminense. Voltou para o jogo contra Botafogo, ao lado de Zico.

    O jogo contra Botafogo não valia nada. Escreveu o Jornal dos Sports no dia do jogo: “Desclassificado da fase da semifinal do Campeonato Nacional, o Flamengo joga na tarde de hoje contra o Botafogo, no Mário Filho, tendo apenas uma motivação e um objetivo: vingar-se da contundente derrota sofrida no campeonato do ano passado, quando foi goleado de forma sensacional por 6 a 0 […] Uma vitória do Mengo hoje serviria também para quebrar uma longa invencibilidade dos alvinegros, que não perdem para o seu adversário há cinco anos, em jogos da Taça de Prata”. Um Flamengo x Botafogo, mesmo valendo nada na tabela, nunca vale nada para o torcedor, para o ídolo.

    Em 9 de dezembro de 1973, o técnico Zagallo escalou Flamengo assim: Renato; Moreira, Chiquinho, Reyes, Mineiro; Paulo Roberto, Afonsinho, Rodrigues Neto; Doval, Zico, Rogério. No Maracanã, com 27.759 pagantes, Botafogo dominou o início de jogo, sem fazer gol. Na metade do primeiro tempo, o ex-Botafogo e agora rubro-negro Rogério se livrou de Nílson Andrade e Marinho e tocou para Zico. O jovem craque, de camisa 10, dominou, girou, tocou de trivela no fundo do gol. Era o primeiro gol de Zico contra Botafogo, depois de 5 jogos sem marcar, sem vencer também.

    No segundo tempo, Dario entrou no lugar de Rogério e fez um gol mal anulado pelo juiz. Botafogo procurou o empate, Flamengo segurou o jogo, acabou com o jejum. “Zico dá show de bola e decide”, manchetou o Jornal dos Sports, que avaliou a atuação do polivalente craque: “seu trabalho foi perfeito. No primeiro tempo, jogou perto de Rogério e no segundo mais pelo miolo. O grande nome da vitória. Futebol de primeira”. No Jornal do Brasil, Zico ganhou nota 9. Flamengo fechou o ano com mais duas vitórias contra times cariocas no Brasileirão, Olaria e America. Zico fez gol em cada jogo. Flamengo, ainda longe do título, ganhou um novo camisa 10 e ídolo.

  • Jogos eternos #373: Flamengo 3×0 Madureira 1955

    Depois de ser quase eliminado do campeonato carioca, Flamengo deu um grande passo para a final e pode perder por até dois gols de diferença no jogo de volta da semifinal. Mas melhor ganhar e fazer gols, nada impede de vencer mais uma vez 3×0, como aconteceu na ida, como aconteceu em 1955 também.

    Campeão carioca em 1953, Flamengo queria o bicampeonato em 1954. Conquistou o primeiro turno de maneira invicta, foi bem também no segundo turno, até perder 3×0 o Fla-Flu. O Mengo se recuperou com uma goleada 5×1 sobre Bonsucesso, um jogo eterno no Francêsguista, e empatou duas vezes em seguida, contra Vasco e o America. Precisava de uma vitória em cima do Madureira para também vencer o segundo turno.

    Para o jogo contra Madureira, tinha alguns desfalques de alta qualidade, como Rubens, Joel e Zagallo. Mas o Flamengo do tricampeonato 1953-1955 era um grande time, principalmente no setor ofensivo, e não sentiu o peso das ausências. “Esta é uma vantagem que o Flamengo leva, nitidamente, sobre os demais candidatos: tem excelentes reservas e o conjunto, apesar de sensíveis modificações, não perder a sua homogeneidade” escreveu o Correio da Manhã. Em 16 de janeiro de 1955, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Garcia; Tomires, Pavão, Jadir; Jordan, Dequinha; Paulinho, Índio, Esquerdinha, Evaristo de Macedo, Benítez. Em destaque, o atacante polivalente Paulinho, de 21 anos, que não jogava havia dois meses e que agora tinha uma chance no time titular.

    E Paulinho não decepcionou. Com 27 minutos de jogo, ele dominou a bola, com a mão segundo os espectadores do estádio Aniceto Moscoso, sem irregularidade segundo o juiz. Paulinho cruzou, Índio cabeceou e abriu o placar. No segundo tempo, a dupla Paulinho – Índio funcionou novamente, com lançamento de Paulinho e gol de Índio. Paulinho justificava a confiança do técnico e ainda tinha uma jogada para a torcida: “Por fim, aos 34 minutos, Paulinho desferiu violento chute, fixando o ‘placard’ em 3×0”, escreveu com grafia da época o Correio da Manhã. “Paulinho esteve ótimo, e eu não esperava outra coisa dele”, explicou no final do jogo o técnico Fleitas Solich.

    Aliás, o técnico paraguaio Fleitas Solich, que mais tarde lançará Zico nos profissionais, entendia como poucos o que era o Flamengo e foi o mestre do rolo compressor rubro-negro. Mesmo assim, preferia ficar modesto: “Pouco fiz para que o Flamengo chegasse até onde está. Foi uma grande vitória, não a de hoje, mas a conseguida até aqui. Uma vitória da força de vontade, da fibra, do sangue rubro-negro. Os jogadores transpuseram todos os obstáculos, um a um, não se atemorizaram diante da derrota e nunca se conformaram com ela. E nas tardes de vitória souberam ser grandes, extraordinários […] Eu repito, só posso me sentir orgulhoso de dirigir e cooperar com os jogadores”.

    Flamengo vencia o primeiro turno do campeonato carioca, o segundo também. “O Flamengo é, indiscutivelmente e merecidamente, o campeão. E a torcida começou o carnaval da vitória após o jogo de Conselheiro Galvão”, escreveu o Jornal dos Sports depois do jogo contra Madureira. Porém, mesmo com os dois primeiros turnos conquistados, Flamengo ainda precisava jogar o terceiro turno, sem nenhuma vantagem. Um absurdo denunciado nas colunas de Última Hora pelo grande jornalista francês Albert Laurence: “O Flamengo é campeão. Do segundo turno. Isto é, esportivamente, campeão carioca, de fato e de direito. Pois foi, neste certame também, o melhor quadro da cidade. Assim como em 1953. Mas haverá o terceiro turno. E como todo o mundo vai tornar a sair da estaca zero, os seis ‘grandes’ têm direito agora de nutrir as mesmas esperanças, a rodada derradeira do ‘returno’ (a disputar domingo próximo), virando apenas último treino de conjunto prático para todas, antes do novo ‘campeonato-relâmpago’ que constitui o dito terceiro turno. E quando dizemos que o Flamengo já mereceu o título de bicampeão, bem sabemos que, no seu íntimo, todas as torcidas dos seus adversários estão concordando”.

    Flamengo também foi um rolo compressor no terceiro turno. Invicto e invencível, Fla conquistou o terceiro turno, de novo com antecipação, contra Vasco e fez um carnaval na goleada contra Bangu. Campeão dos três turnos, era finalmente o grande campeão da cidade.

  • Jogos eternos #372: Flamengo 2×0 Vélez Sarsfield 1998

    Jogos eternos #372: Flamengo 2×0 Vélez Sarsfield 1998

    Flamengo perdeu 1×0 no jogo de ida da Recopa Sudamericana e precisa vencer Lanús por dois gols de diferença para levantar a taça. Vencer os argentinos, seja time grande seja time menor, nunca foi fácil, mas já aconteceu várias vezes na história do Flamengo.

    Em 1998, Flamengo vivia uma péssima fase. No Brasileirão, tinha apenas 3 vitórias em 15 jogos e corria sério risco de rebaixamento. Na Copa Mercosul, estava um pouco melhor, mas longe do ideal: duas vitórias e duas derrotas. Nem a principal estrela do time, Romário, escapava das críticas, por alguns gols perdidos, acontecia sim, e um pequeno excesso de peso. Primeiramente nos microfones, o Baixinho rebateu as críticas: “Estou com 72 quilos, sim, e daí? O elefante é gordo, mas quando tem incêndio na floresta ninguém ganha dele na corrida”.

    Na Copa Mercosul, se classificavam para as quartas de final o primeiro de cada grupo e os três segundos melhores dentro dos cinco grupos. Contra Vélez, maior a vitória, melhor para o Flamengo. Em 30 de setembro de 1998, o técnico Evaristo de Macedo escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Ricardo Rocha, Luiz Alberto, Wágner; Fabiano, Marcos Assunção, Cleisson, Beto; Rodrigo Fabri, Romário. Do lado do Vélez, tinha um de meus primeiros ídolos no futebol, o goleiro paraguaio Chilavert, que brilhou semanas antes durante a Copa do Mundo na minha França, quando eu tinha apenas 6 anos e descobria o futebol.

    No Maracanã, bem vazio com apenas 396 pagantes e uma renda de menos de 3.000 reais, Romário precisou de apenas 13 minutos para calar as críticas em campo. Cleisson escapou na esquerda e cruzou na segunda trave, Romário, claro, não perdeu a chance e abriu o placar. Ainda amargo, o Baixinho comemorou de forma discreta. Do lado do Vélez, Chilavert teve sua chance, mas a bola de falta, também por isso adorava o Chilavert, passou em cima do travessão.

    E Romário continuou a perder alguns gols inusitados, com duas tentativas desnecessárias de cobertura. E no final do jogo, o brilho da estrela, o gênio da grande área. Romário pediu a bola de Beto, recebeu na profundidade. Viu a saída do goleiro e antes de tocar a bola, já tinha visto tudo. De primeira, fez apenas o toque leve para tirar o Chilavert da jogada, agora sim a cavadinha inesperada e necessária, genial e imortal. A bola morreu na rede e na comemoração, Romário foi mais ofensivo e mandou um abraço particular para quem o criticou, mostrando o dedo do meio para o pequeno número de torcedores presentes.

    Para fechar a crônica, uma palavra sobre Chilavert, que no final do jogo agrediu um fotógrafo brasileiro. Ficou meu ídolo por algum tempo antes de perder a idolatria, com alguns ainda recentes posicionamentos duvidosos e declarações de imensa burrice. Prefiro ficar com o Romário, que merecia jogar a Copa de 1998 pelo futebol que tinha. O Flamengo de 1998 não foi genial e o Romário nem sempre foi. Mas, na frente de um dos maiores goleiros do mundo, o Baixinho ainda tinha seus momentos de genialidade.

  • Jogos eternos #371: Flamengo 8×0 Madureira 1982

    Jogos eternos #371: Flamengo 8×0 Madureira 1982

    Flamengo joga hoje contra Madureira na semifinal do campeonato carioca. A classificação para a grande final é decidida em dois jogos, melhor então vencer na ida. Melhor ainda, ganhar de goleada. Vamos então para hoje com a maior goleada da história do Flamengo x Madureira, ao lado de um jogo de 1957.

    Em 1982, Flamengo era o campeão carioca e começou o estadual com duas goleadas, sobre Campo Grande e a Portuguesa. Porém, logo depois foi surpreendido pelo Americano, que derrotou o Mengo 1×0. Flamengo precisava de uma reação, esperada pelo presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches: “O importante é vencer por qualquer escore, mas uma goleada agora no Maracanã levantaria ainda mais o brio da torcida, que ficou triste com a derrota”.

    Em 4 de agosto de 1982, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Cantarele; Antunes, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Wilsinho, Lico, Tita. Mesmo sem Raul e Leandro, Flamengo tinha quase a força máxima, um time máximo. Já antes do apito inicial, tinha pena para o pobre Madureira. E em campo foi pior.

    No Maracanã, apenas um pouco mais de 10 mil viram a goleada. Com 8 minutos de jogo, Zico, bem na direita, cruzou perfeitamente, Tita chegou, cabeceou e abriu o placar. Logo depois, o artilheiro virou garçom, com um gol bem ao estilo do Flamengo dessa época. Antunes deixou de trivela para Andrade, que em um toque procurou e conseguiu a tabelinha com Tita, chutou e achou a rede. Madureira já estava bem perdido em campo.

    Cinco minutos depois, Wilsinho aplicou um drible desmoralizante sobre o zagueiro e deixou para Zico, que só teve de empurrar a bola na rede para fazer seu primeiro gol do dia. No minuto seguinte, outro gol, bem parecido ao primeiro, com cruzamento da direita, agora de Tita. Adílio caiu no chão para cabecear e vencer mais uma vez o goleiro. Ainda no primeiro tempo, agora um cruzamento do lado esquerdo, de Lico. Zico teve tempo para matar a bola com o pé direito e matar o goleiro com o pé esquerdo. No intervalo, Flamengo 5×0.

    E Madureira só teve 15 minutos para respirar. Logo no início do segundo tempo, Flamengo fez mais um gol, sem imagem. Uma pena porque o Jornal dos Sports aponta um golaço: “Mal começou a fase final e Lico fez o sexto gol, ao tocar de fora da área por cobertura”. Na metade do segundo tempo, Mozer ultrapassou sua função de zagueiro, foi ao ataque e cruzou. Zico chegou e pegou de primeira para completar o hat-trick, já seu 7o gol do campeonato, chegando ao final do campeonato à artilharia máxima pela sexta e última vez de sua carreira.

    Antes do apito final, Zezé, que fazia sua estreia com o Manto Sagrado neste jogo, cruzou na esquerda. Tita matou de peito, matou uma última vez o goleiro com um drible seco e decretou o placar final: 8×0 para o rubro-negro. Para o Jornal dos Sports, Zico foi “para variar, o melhor do time, mais uma vez. Esteve presente em praticamente todas as jogadas ofensivas, fez lançamentos precisos, driblou, correu e disparou de novo na artilharia do campeonato”. Do lado do Madureira, a avaliação do Jornal do Brasil mostra como foi o jogo: “No Madureira o melhor, apesar de oito gols, foi o goleiro Mauro, que evitou um placar mais elevado”. No Maracanã, o jogo foi totalmente do Flamengo, que chegou à goleada esperada, com o brilho do maior jogador de sua história.

  • Jogos eternos #370: Flamengo 3×1 Botafogo 2018

    Jogos eternos #370: Flamengo 3×1 Botafogo 2018

    Flamengo joga hoje contra Botafogo em pleno carnaval, para uma vaga na semifinal do campeonato carioca. Em 2018, também teve um Flamengo x Botafogo decisivo durante o carnaval, na semifinal da Taça Guanabara.

    Por causa de reformas no Maracanã, o jogo aconteceu no Raulino de Oliveira em Volta Redonda, onde Flamengo andava invicto em clássicos: 8 jogos, 5 vitórias e 3 empates. Em 10 de fevereiro de 2018, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: César; Pará, Réver, Juan, Renê; Cuéllar, Lucas Paquetá, Diego; Éverton Ribeiro, Éverton, Henrique Dourado. Destaque para Henrique Dourado, artilheiro do Brasileirão de 2017 com a camisa do Fluminense e que fazia sua estreia com o Manto Sagrado. Outra estreia era a de Diego com a camisa 10. Depois de jogar o Brasileirão de 2017 com a camisa 35, Diego assumiu a camisa 10 que era naturalmente dele.

    No Raulino de Oliveira, com a maestria de seu novo camisa 10 Diego, Flamengo dominou completamente o início de jogo. Henrique Dourado quase fez de cabeceio e Lucas Paquetá mandou uma bola de falta no travessão. Aos 35 minutos, outra falta cirúrgica de Diego, o pequeno motorzinho Éverton chegou, cabeceou e abriu o placar em Volta Redonda.

    O segundo tempo começou como o primeiro ato: dominação inteira do Flamengo. Aos 4 minutos do segundo tempo, Éverton Ribeiro deixou para Diego que cruzou na segunda trave. Lucas Paquetá, de primeira, deixou a bola perto do gol, para a chegada de Henrique Dourado. O artilheiro chegou, ceifou, ampliou a vantagem. O Ceifador fazia gol na estreia, fazia sua comemoração icônica e depois dedicou o gol ao filho, que acabava de completar 6 anos.

    Na metade do segundo tempo, Kieza fez um gol para o Botafogo, que começou a acreditar numa improvável virada. Renatinho cobrou uma falta, para fora. E nos acréscimos, com a vitória já quase certa, Vinícius Júnior, que entrou no lugar de Lucas Paquetá, recebeu de fora da área, abriu o pé e achou a gaveta do Jefferson para fazer o golaço e matar o Botafogo. A comemoração também é icônica, histórica, de Souza até Hernane, de Gabigol até Bruno Henrique. Ainda garoto de 17 anos, Vinícius Júnior fez o chororô e esquentou o final do clássico. Flamengo estava na final, Botafogo só podia chorar. No carnaval carioca, a festa era rubro-negra.

  • Jogos eternos #369: Flamengo 2×1 Vasco 1955

    Sem jogo hoje e com o carnaval se aproximando, eu vou de um jogo aniversariante de 71 anos atrás, quando o Flamengo também antecipou o carnaval. No campeonato carioca 1954, Flamengo conquistou os dois primeiros turnos e só precisava de mais uma vitória para ser campeão, sem necessidade de jogar uma final nem de vencer o último jogo do terceiro turno. Para conquistar o título, o adversário era ideal, Vasco.

    Já campeão carioca de 1953, o Flamengo do feiticeiro Fleitas Solich continuou a brilhar em 1954, até no início de 1955 quando o campeonato carioca se estendeu. Para o jogo decisivo contra Vasco, Pavão e Evaristo, dúvidas antes da partida, foram confirmados. Em 12 de fevereiro de 1955, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: García; Tomires, Pavão; Servílio, Dequinha, Jordan; Rubens, Paulinho, Índio, Evaristo de Macedo, Benítez.

    O Vasco também tinha um timaço, principalmente Pinga, Vavá e Ademir. Este último abriu o placar no seu estilo particular, com um rush passando na frente de Dequinha e Jordan. Logo depois, o zagueiro vascaíno Elias se machucou, mas sem substituições na época, ficou em campo. Flamengo aproveitou. No final do primeiro tempo, “Benítez deu ótimo passe à Índio que avançou em direção à meta. Elias, seu oponente não pôde intervir, o ‘center-forward’ após alguns passos não teve dificuldade em atirar rasteiro, no canto esquerdo, cortando qualquer possibilidade a Victor González de praticar a defesa”, escreveu o Jornal do Brasil no dia seguinte.

    Flamengo empatou e virou na metade do segundo tempo. “Paulinho foi otimamente servido por Rubens. Desvencilhou-se de seu marcador e logo depois de entrar na área, deu uma ‘queda de corpo’ para iludir Victor González e desferiu no outro lado um violento shoot enviesado, desempatando o prélio”, prosseguiu o Jornal do Brasil. Vale a pena dizer que outros jornais como o Correio da Manhã e o Jornal dos Sports vieram assistência de Índio e não de Rubens. Certeza é que o gol foi de Paulinho, que foi segundo o Jornal dos Sports, “a ‘arma secreta’ do bicampeonato. Voltando a repetir a brilhante atuação que cumpriu frente ao America, o veloz e arisco ponteiro rubro-negro, com seus constantes deslocamentos e infiltrações, conseguiu desmoronar o sistema defensivo da retaguarda vascaína”.

    Fla virou, o juiz apitou e o Mengo foi campeão, bicampeão. Era uma festa em campo, no vestiário, nas arquibancadas e em toda a cidade. Foi a “vitória do legítimo campeão”, “um triunfo de campeão, de uma equipe harmoniosa e raçuda que impôs a transcendência de sua categoria”, para o Jornal dos Sports, que relatou o apito final e a festa rubro-negra no gramado: “Os jogadores abraçavam-se. Uns riam, outros choravam de emoção num espetáculo que impressionou vivamente”.

    Nos vestiários, o técnico paraguaio Fleitas Solich ficou emocionado: “Dirigir estes rapazes é uma satisfação. O feito deles constitui a maior alegria de minha vida esportiva”. O presidente Gilberto Cardoso abraçou o “crack paulista” Rubens e foi ao banheiro, de terno, sapatos e gravata. Ainda o Jornal dos Sports, sobre o eterno presidente: “E Gilberto Cardoso que esqueceu-se que era Dr. presidente do clube, saiu radiante com os cabelos e correrem água, camisa ensopada e calças e sapatos completamente embebidos. Era a alucinação, o extremo a que podem chegar os homens quando reduzem-se a simples torcedores, esquecendo-se de suas condições e atribuições. Mas não era para menos. O Flamengo vencerá de forma inilidível um campeonato e só podia ser assim: muita euforia, muitos aplausos, muita alegria”.

    No Maracanã, a alegria se contagiava. De novo o Jornal dos Sports: “Nas arquibancadas, a torcida do Flamengo começou a dar início ao carnaval da vitória cantando sambas e fazendo aparecer bandeiras e flâmulas numa demonstração que a torcida compareceu já na certeza de que seria à noite do título supremo. A noite do bicampeonato que o Flamengo tanto perseguiu e conquistou-o de forma extraordinária e merecidamente”. No público, entre os “simples torcedores” e anônimos, tinha uma estrela, a famosa atriz e cantora Carmen Miranda, que fez sucesso nos Estados Unidos e estava de volta ao Brasil. Assistiu pela primeira vez a um jogo no Maracanã, que tinha menos de 5 anos de vida, torcendo claro, para o Flamengo.

    A festa rubro-negra se espalhou nas ruas de Rio de Janeiro. “O estádio do Maracanã demorou a ser abandonado pela grande torcida do Flamengo. E esta quando o fez, foi para realizar passeatas pelas ruas que circundam o estádio terminando pela cidade. Foi uma noite rubro-negra. Uma noite em que o Flamengo comemorou a conquista de um título justo e brilhante sob todos os aspectos”, fechou o Jornal dos Sports. O carnaval rubro-negro se estendeu até o final do campeonato, quando Flamengo venceu Bangu e desfilou com a escola de samba da Mangueira, outro jogo eternizado no Francêsguista. E a alegria prosseguiu até o final do campeonato carioca de 1955, até o início de 1956, quando Flamengo alcançou o tricampeonato carioca. Já sem Carmen Miranda e Gilberto Cardoso, que faleceram durante o ano de 1955. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”