Com a longa parada por causa da Copa, eu vou aproveitar do momento sem jogos do Flamengo para lembrar jogos aniversariantes de um tempo atrás, mais ou menos antigo. Hoje eu vou de um jogo que aconteceu há muito tempo, há exatamente 110 anos.

Flamengo ainda era um moço, com apenas quatro anos de existência falando da seção de futebol. O rubro-negro já tinha vencido o campeonato carioca em 1914 e 1915, porém, os antis podem sorrir, não tinha estádio próprio. E o rubro-negro nem era totalmente rubro-negro. A história já foi muitas vezes escrita e lida, falada e ouvida. Em 1911, os fundadores do Flamengo e praticantes do remo, esporte do maior prestígio social, eram contra a criação de uma seção de futebol dentro do clube. Finalmente, autorizaram, mas sem deixar os “foot-ball players” usar o Manto Sagrado, de listras vermelhas e negras. O time usou uma camisa Papagaio de Vintém, que não trouxe sorte. Então o Flamengo trocou de camisa, com a Cobra Coral, que tinha pequenas listras brancas entre as duas tradicionais, ainda para diferenciar da camisa de regatas. O Mengão conquistou o bicampeonato carioca, mas a Alemanha, que tinha a bandeira semelhante, virou inimigo de guerra do Brasil. Finalmente, a seção do futebol ia adotar o Manto Sagrado, com estreia contra São Bento em 1916.

Além da estreia da camisa rubro-negra, tinha a inauguração do estádio da rua Paysandu. Na verdade, era a terceira, o estádio já tinha sido o palco de um primeiro jogo, contra Bangu, para fechar o glorioso campeonato carioca de 1915, um jogo já eterno no Francêsguista, com vitória 5×1 do Mengo. Teve outra inauguração, com o maior jogo possível, o Fla-Flu, em 13 de maio de 1916, dia da comemoração da abolição da escravidão, apenas 28 anos antes. E teve o maior resultado possível, vitória 4×1 do Fla. Agora era a inauguração oficial, como relatou a Gazeta de Notícias no dia do jogo: “A história do foot-ball no Brasil será aumentada de mais uma de suas brilhantes páginas, assinalada nesta data pela grandiosidade e pelo duplo efeito esportivo da festa que se prepara para a tarde de hoje era excelente praça da rua Paysandu”.

Por sua vez, o Correio da Manhã escreveu depois do jogo: “A festa de ontem, como foi fartamente anunciado pela imprensa, inaugurou oficialmente a nova sede do campeão do Rio. As palavras de elogio que todos já tivemos, para com os moldes magníficos que serviram à construção de suas dependências não necessitam de ser repetidas”. Vamos então para o adversário do jogo, o São Bento, campeão paulista em 1914. “O ‘team’ que nos envia a associação paulistana é um conjunto forte, capaz de levar de vencida o nosso glorioso campeão”, escreveu o Jornal do Commercio no dia do jogo. O principal nome era o meia Lagreca, que fez em 1914 o primeiro gol da seleção brasileira, apenas isso.

Além da estreia da camisa e da inauguração do estádio, teve uma terceira inovação, bem menos oficial. Escreveu Luís Miguel Pereira no excelente livro Bíblia do Flamengo: “Ao contrário do que muita gente pensa, o hino oficial do Flamengo não é o popular ‘Uma vez Flamengo, sempre Flamengo!’. ‘Flamengo, tua glória é lutar’, é o verdadeiro hino oficial. A obra tem letra e música de Paulo Magalhães, teatrólogo, jornalista e ex-goleiro do clube. Foi gravado, pela primeira vez, em 1932, pelo cantor Castro Barbosa, e foi registrado apenas em 1937 no Instituto Nacional de Música. A primeira exibição pública do hino aconteceu a 4 de junho de 1916, na Rua Paysandu, num amistoso Flamengo x São Bento”. O hino, o estádio, o Manto, faltava apenas o Mengo vencer.

Em 4 de junho de 1916, o ‘técnico’ Emmanuel Nery escalou Flamengo assim: Cazuza; Antonico, Nery; Coriolano, Sidney Pullen, Gallo; Arnaldo, Gumercindo, Reid, Borgerth, Riemer. Na nova casa, o Flamengo, mantendo sua tradição, partiu para o ataque. “Desde o primeiro minuto de jogo até o último, o Flamengo se manteve na ofensiva”, escreveu o Correio da Manhã, que, com grafia da época, também relatou o primeiro gol: “Desde os minutos iniciaes, o Flamengo premiu, com as suas investidas continuadas, os defensores do ‘goal’ paulista. Em quatro minutos de jogo, Sidney marca o primeiro ponto do vencedor. Após driblar alguns antagonistas, o ‘center-half’ desloca-se para a meia-direita. Dahi lança um ‘shoot’ enviesado. O ‘keeper’ do São Bento segura a bola… e deixa-a penetrar nas redes do ‘goal’”. Sidney Pullen escrevia seu nome na história e é, até hoje, um dos cinco jogadores nascidos no exterior a ter defendido a Seleção brasileira.

Flamengo abria o placar e continuava no ataque. Treze minutos depois, fez outro gol, agora com descrição do Jornal do Brasil: “A bola permanece por alguns instantes no centro do campo, até que Gumercindo com bem calculado ‘kick’ vasa pela segunda vez o ‘goal’ confiado a guarda de Penteado. Prolongada salva de palmas coroou o feito do impetuoso ‘forward’ carioca”. Ainda no primeiro tempo, o São Bento conseguiu um gol. O lance partiu com um chute de Hopkins. O Jornal do Brasil viu uma defesa parcial do goleiro rubro-negro e um gol de Dias. O Correio da Manhã viu um chute na trave e um gol de Burgos. Ficou a dúvida. Certeza é que o gol foi aplaudido pela plateia e o placar no intervalo foi de 2×1 para o Mengão.

O segundo tempo foi mais calmo. “Nada houve de notável neste segundo ‘half’, a não ser o ‘goal’”, até escreveu o Jornal do Brasil. O Flamengo fez mais um gol com uma dupla que brilhou muito nos primeiros anos de futebol: Borgerth, o fundador da seção, e o Riemer, um dos primeiros artilheiros do Flamengo. Prosseguiu o Correio da Manhã: “Só depois de vinte e sete minutos do início do período os nossos acrescentam mais um merecido ‘goal’ ao seu ‘stock’ victorioso. Esse ‘goal’ é adquirido de um belo passe de Borgerth, pelo ‘inside’ Riemer, com um ‘shoot’ de estilo”.

Flamengo vencia 3×1 e quebrava a série de empates entre paulistas e cariocas. “Finalmente o ‘statu-quo’ entre Rio e São Paulo, que se vinha mantendo e que prometia prolongar-se pelo resto do ano, graças aos deuses do ‘football’, foi ontem quebrado em favor do Rio”, escreveu o jornal A Noite, que prosseguiu: “A nossa admiração, entretanto, é toda pela linha dianteira dos flamengos, que nem da metade do que fez supúnhamos capaz”. Por sua vez, o Jornal do Brasil destacou “Sidney, o herói da tarde, Nery, Antonico, Casusa e a ala direita” quando para a Gazeta de Notícias: “As honras do match couberam sem dúvida alguma a Sidney, um dos center-halves mais perfeitos que tem pisados nos nossos campos”.

A festa continuou após o jogo: “Depois do ‘match’ o Club de Regatas Flamengo ofereceu à embaixada do São Bento um lauto banquete, que foi servido no luxuoso salão do City Club”, relatou o Jornal do Commercio. Flamengo fechava a trindade de inaugurações do estádio da rua Paysandu com três vitórias: 5×1, 4×1 e 3×1. “A festa de inauguração da sede do Flamengo alcançou, como esperávamos um grande sucesso, firmando um traço indelével na história sportiva do nosso paiz”, ainda escreveu o Correio da Manhã.

Flamengo tinha um Manto Sagrado e um estádio, um hino e uma torcida, títulos e ídolos, era maior que qualquer um do Rio, de São Paulo, do Brasil inteiro. Para fechar, deixo mais um recorte de jornal da época, agora o bem nomeado o Imparcial: “O glorioso campeão carioca pode orgulhar-se de possuir a melhor praça de sports existente aqui na Capital, ou talvez, do Brasil. Há um ano, a diretoria do Flamengo, não medindo sacrifícios, afrontando toda a crise que avassalava o país, tomou conta do ground, obrigando-se a fazer todas as obras necessárias para que ali fosse construída uma sede modelo. E para que a colossal empreitada fosse coroada de êxito, meteu mãos à obra”. Flamengo, Flamengo, tua glória é imortal.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”