Jogos eternos #400: Flamengo 1×0 Palmeiras 2025

E o destino, com ajuda minha, queria que o jogo eterno #400 desse blog fosse um Flamengo x Palmeiras, a maior rivalidade do futebol brasileiro dos últimos 10 anos. A crônica #100, publicada em outubro de 2023, foi um Flamengo x Vasco de 1983. A #200, escrita em setembro de 2024, um Fla-Flu de 2006. A #300, publicada em julho de 2025, foi a decisão da Taça Guanabara de 1995 entre Flamengo e Botafogo.

Na época da publicação da 300a crônica, eu já tinha decidido que eu ia trocar mais uma vez de rival e de década. Tinha a opção de um jogo contra Bangu ou o America na década de 1960, também pensei num jogo contra Palmeiras desde 2016. Só faltava saber qual jogo. E a evidência chegou quatro meses depois, não podia ser outro jogo a não ser a final da Copa Libertadores de 2025.

Era um jogaço antes do apito inicial. O Flamengo se classificou no sufoco, passando nas fases anteriores com dificuldades por Estudiantes e Racing. Mais difícil ainda para o Palmeiras, que perdeu 0x3 contra a LDU na ida, mas conseguiu vencer 4×0 na volta e se classificar para a final. Era o campeão de 2019 e 2022 contra o campeão de 2020 e 2021. Eram os dois melhores times da América. Só faltava saber qual era o maior.

Também era para o Flamengo a possibilidade da vingança da derrota de 2021, que ainda dói na alma. Mais ainda, o vencedor se tornaria o primeiro brasileiro tetracampeão da Copa Libertadores. Melhor que o Santos, que o São Paulo, que o Grêmio, que o rival derrotado. Era um jogaço antes do apito inicial e já escrevi sobre o pré-jogo, no meu ainda amado consulado Fla Paris, numa crônica logo depois do jogo. Eu vou então já para a escalação do Mengo. Em 29 de novembro de 2025, o técnico e ídolo Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Danilo, Léo Pereira, Alex Sandro; Erick Pulgar, Jorginho, Arrascaeta; Carrascal, Samuel Lino, Bruno Henrique.

Antes do apito inicial, o estádio Monumental de Lima trazia lembranças ótimas, a decisão contra River Plate, o Milagre de Lima, o pé santo de Gabigol e a glória eterna do Mengo. O estádio era o mesmo, mas agora era outro jogo, outro rival, outra taça para conquistar. Contra Palmeiras, Flamengo começou melhor. Bruno Henrique chutou para fora, Samuel Lino pedalou, também chutou para fora. O jogo se equilibrou e ficou bastante disputado. Cada time reclamava de um cartão vermelho para o adversário, mas o juiz só deu amarelos, três para o Flamengo e um para o Palmeiras. No final do primeiro tempo, Bruno Henrique teve outra chance, mas Píquerez salvou. No intervalo, ainda 0x0, ainda nada definido.

No início do segundo tempo, Murilo falhou e entregou a bola para Bruno Henrique perto do gol palmeirense. Porém, Flamengo não conseguiu aproveitar, Gustavo Gómez bloqueando o chute de Arrascaeta. Era uma final, com jogo fechado, pouco espaço e poucas oportunidades de gol. Na metade do segundo tempo, Arrascaeta, já eterno com a camisa 10 e melhor jogador do Flamengo na temporada, cobrou um escanteio, à la Zico, à la Petkovic. Danilo subiu no céu de Lima e cabeceou firme. A bola tocou na trave e morreu na rede. Gol do Flamengo, Flamengo na frente.

O Danilo, que já tinha feito um gol numa final de Copa Libertadores, em 2011 no início da carreira com o Santos de Neymar, fazia agora um gol para o Flamengo. Se juntava na história do clube ao Zico e Gabigol. Só isso, apenas isso. Oriundo de Bicas, cidade mineira mais perto do Rio de Janeiro do que de Belo Horizonte, Danilo sempre foi torcedor do Flamengo e no início de 2025, finalmente ingressou no clube de coração. “Poderia ter ido para vários clubes, tive várias propostas, não é segredo para ninguém. Não pensei em grana, teve a ver com necessidade de continuar vencendo e realizar meu sonho de criança”, falou o lateral-zagueiro depois do jogo.

Flamengo estava na frente, mas numa final em Lima, tudo podia acontecer. O gol obrigava o Palmeiras a partir no ataque, o Flamengo a se defender, a sofrer. Felipe Anderson driblou na grande área, mas não conseguiu finalizar. Faltando cinco minutos para o final do jogo, Flaco López cruzou, Gustavo Gómez cabeceou, A bola seguiu viva e chegou ao pé de Vítor Roque na pequena área. Chutou forte, Danilo chegou junto e conseguiu desviar um pouquinho o chute, com só que precisava para a bola fugir do gol rubro-negro. Era assim o segundo ‘gol’ de Danilo no jogo. Não era um lance que valia +1 para o Flamengo, mas -1 para o adversário. Um lance tão decisivo quanto o primeiro gol, do já consagrado Danilo. O Deus do futebol já tinha escolhido seu vencedor, sua história bonita. A Nação respirava, os mais sabidos já podiam comemorar.

Nos acréscimos, Éverton Cebolinha cobrou uma falta na trave e o jogo seguiu 1×0. Já estava escrito que o jogo tinha um lance só, um herói só, que provavelmente, sem a lesão de Léo Ortiz, nem teria jogado. Danilo tinha uma coisa de Rondinelli, de Ronaldo Angelim. Flamenguista de infância, herói comum de sangue vermelho e preto. Um zagueiro que podia morrer em campo para o Mengo, mas que matou o outro time com um cabeceio mortal, num escanteio imortal do ídolo e camisa 10, Zico, Petkovic, Arrascaeta.

Não resisto à vontade de citar o amigo Douglas Nogueira no seu livro O Flamengo do século XXI, sobre o gol de Ronaldo Angelim no título do hexa contra Grêmio em 2009: “Aquela partida teve um paralelo com outra decisão inesquecível: o Campeonato Carioca de 1978. Assim como em 1978, quando o jogo estava empatado, o jogador mais talentoso do time cobrou escanteio e um zagueiro cabeceou para a consagração. Em vez de Zico, Petkovic colocou a bola na área adversária. No lugar do Deus da Raça Rondinelli, o Magro de Aço Angelim subiu entre os 438 marcadores. Não foi Adriano Imperador, Léo Moura, Juan, Zé Roberto ou outro jogador de perfil ofensivo que surgiu na multidão da pequena área. Coube ao defensor Ronaldo Angelim se antecipar e cabecear aquela bola longe do alcance do goleiro Victor. Entre todos, o mais humilde entrou para a eternidade. Nada mais justo”. Pode trocar os jogadores ofensivos, mais uma vez o herói foi o zagueiro, o mais humilde.

O juiz apitou o final do jogo e a canonização de Danilo, a glória eterna do Flamengo como maior campeão brasileiro da Copa Libertadores. Faltam palavras para descrever a importância do jogo, então só escrevo isso: Flamengo tetracampeão 1981, 2019, 2022 e 2025. E para fechar, ainda emocionado, deixo a palavra para Danilo, que provou mais uma vez a existência de um Deus rubro-negro: “Não é segredo para ninguém que sou flamenguista, o quanto eu queria voltar para jogar no Flamengo. Era a minha prioridade. É especial. A minha tia faleceu ontem. O meu pai teve que voltar. Meu pai é flamenguista, está lá em Bicas, não pôde estar aqui. Queria dedicar essa vitória para ele e para toda a minha família”. Amém, a Terra está em paz e o paraíso em festa, Fla é tetra.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”