Jogos eternos #399: Flamengo 3×0 Estudiantes 1988

Flamengo joga hoje contra o Estudiantes, com jogo valendo o primeiro lugar do grupo. Os dois times já se encontraram na Copa Libertadores do ano passado e o confronto pode virar um clássico da Libertadores, como já foi em outra competição, hoje extinta.

Disputada entre 1988 e 1997, a Supercopa Libertadores, como o nome indicava, reunia os campeões da Copa Libertadores. Na época, entre os clubes brasileiros, apenas Santos, Cruzeiro, Flamengo e Grêmio. Nas dez edições do torneio, Flamengo enfrentou em quatro oportunidades o Estudiantes: em 1988, 1991, 1992 e 1994. Eu fico então para a crônica do dia com o primeiro confronto, em 1988.

O Estudiantes, campeão da Copa Libertadores em 1968, 1969 e 1970, foi o primeiro adversário do Flamengo na história da Supercopa Libertadores, uma competição em mata-mata. Nas oitavas de final, Flamengo estreou com empate 1×1 na Argentina. Assim, até um empate sem gol no Maracanã era suficiente para se classificar na próxima fase. O Mengo era o franco favorito, já que o Estudiantes estava no 15o lugar do campeonato argentino, com apenas 5 vitórias em 30 jogos até então. Em 5 de abril de 1988, o eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Jorginho, Zé Carlos II, Edinho, Leonardo; Andrade, Ailton, Zinho; Luís Henrique, Renato Gaúcho, Bebeto.

Das ausências rubro-negras, tinha dois jogadores em destaque, provavelmente os dois maiores ídolos da história do Flamengo. Leandro recebeu uma pancada no jogo de ida e se machucou na costela. Já o Zico não jogava desde um mês por causa de dores musculares e até anunciou uma provável aposentadoria por causa das lesões repetidas. Dessa forma, o maior protagonismo do jogo ficou para Bebeto e Renato Gaúcho, sempre provocativo com os argentinos: “Em plena Buenos Aires, eles não tomaram uma goleada porque tivemos muito azar nas finalizações. Aqui, porém, vai ser diferente. A torcida pode comparecer. É sempre bom se derrotar argentinos”.

Apesar do apelo de Renato Gaúcho, a competição, ainda na sua primeira edição, atraiu pouco público. No Maracanã, foram 8.653 pagantes. Porém, a baixa de bilheterias e de policiamento provocaram uma confusão e até invasão do Maracanã. “Muita gente só conseguiu entrar bem depois do jogo iniciado”, explicou o Jornal do Brasil na edição do dia seguinte. Por isso, muitos perderam o primeiro gol, marcado com apenas 5 minutos de jogo. No escanteio curto, Renato Gaúcho cruzou, Luís Henrique chegou, cabeceou e abriu o placar.

A competição era diferente da Copa Libertadores, mas tinha uma coisa que não mudava. Atrás no placar, os argentinos partiam para a violência e Bebeto, Edinho e Jorginho foram deslealmente atingidos. “O maior adversário do time foi a violência do adversário”, até escreveu o Jornal do Brasil. No intervalo, Flamengo tinha um gol de vantagem e precisava fazer um pouco mais para derrotar os argentinos e garantir a classificação.

Renato Gaúcho falava muito fora do campo e fazia ainda mais em campo. No início do segundo tempo, depois de passe de Bebeto, chutou de primeira, mas o goleiro defendeu. Na esquerda, o craque gaúcho fintou e cruzou bem para o voleio de Ailton, que passou em cima do travessão. Dois minutos depois, outro passe de Bebeto para Renato Gaúcho, que dominou de peito e pegou de voleio, de novo fora do gol. Numa ‘homenagem’ ao gol de Diego Maradona dois anos antes, Henágio fez um gol com a ajuda da mãozinha, mas não enganou o juiz, que anulou o gol.

Henágio, falecido em 2015 com apenas 53 anos de idade, é um pouco esquecido hoje, infelizmente como muitos outros. Na época, era o reserva natural de Zico, substituindo-o muitas vezes em campo na reta final do Brasileirão de 1987. Tinha um futebol alegre e irreverente, mas também irregular. Cotado como substituto de Zico, não vingou no Flamengo e deixou o clube em 1988 com apenas 28 jogos. Mas tinha seus momentos de brilho. Contra Estudiantes, Henágio entrou no lugar de Luís Henrique, eliminou um adversário apenas com uma finta de corpo e, no primeiro toque, deixou em profundidade para Renato Gaúcho. No cara a cara, com a habilidade do craque e a tranquilidade do artilheiro, Renato Gaúcho venceu o goleiro sem dificuldade.

No final do jogo, com classificação já definida, Jorginho driblou na direita e cruzou para Bebeto, que fez o terceiro e último gol da partida. Apesar da vitória ampla do rubro-negro, não foi um bom jogo. “Foi talvez a pior partida do Flamengo desde que cheguei ao clube. Tudo deu errado. O time não jogou como está habituado no meio campo, marcando em cima, dando chance a que o adversário crescesse”, até falou o zagueiro Edinho. Na fase seguinte, o Flamengo foi eliminado com duas derrotas 0x3 e 0x2 contra o Nacional.

A torcida rubro-negra, já privada de Copa Libertadores, vivia um drama maior, com a possível despedida de seu maior ídolo, Zico. Com apelo de Renato Gaúcho e do amigo vascaíno Roberto Dinamite, que vivia problemas similares, Zico recogitou a aposentadoria, como ele próprio explicou para o Jornal dos Sports: “É claro que manifestações de apoio, como as do Roberto e do Renato, deixam a gente sensibilizado. Vou pensar mais um pouco sobre o assunto, ver se realmente o melhor será largar o futebol. Em julho, como já disse, definirei minha posição”. A Nação ainda tinha esperança.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”