Jogos eternos #413: Flamengo 4×1 Vasco 1976

Sem jogo do Flamengo hoje, escolho um jogo eterno que completa exatamente 50 anos. O rival era o maior, o Vasco, e o momento era delicado. Duas semanas antes, Flamengo e Vasco disputaram a decisão da Taça Guanabara. Com gols de Roberto Dinamite e Geraldo, o jogo acabou em 1×1. Na disputa de penalidades, Zico tinha a cobrança decisiva para oferecer o título ao Flamengo, mas Mazarópi defendeu. Em seguida, Vasco conquistou a Taça Guanabara.

Hoje inexpressiva, a Taça Guanabara valia muito na época. O Brasileirão e a Copa Libertadores eram importantes, mas o campeonato estadual era a alma do futebol carioca, ainda mais com o Maracanã cheio. A derrota contra Vasco foi dura, para o time todo, para a Nação inteira. Ainda mais para Zico, que foi culpado pela derrota. No dia seguinte ao jogo, os muros rubro-negros ainda foram pichados, com cobrança sobre o salário alto de Zico. O Galinho, na época com 23 anos, respondeu: “Sei que é uma minoria. A maior prova disso é que até agora recebi mais de 30 cartas e só uma com palavras odiosas, ofensivas, pedindo até que eu encerrasse minha carreira. As outras trazem palavras de carinho e compreensão”.

Quinze dias depois da decisão, o jogo ainda estava em todas as cabeças, da comissão técnica, dos jogadores e do Maracanã, meio lotado com 47.912 pessoas. Em 27 de junho de 1976, o técnico Carlos Froner escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Rondinelli, Dequinha, Vanderlei Luxemburgo; Merica, Tadeu, Júnior Brasília; Zico, Luisinho, Zé Roberto. O Flamengo tinha alguns desfalques como Jayme, Júnior e Geraldo, mas precisava absolutamente de um sucesso para recuperar a confiança.

O início do jogo mostrou o nervosismo do time rubro-negro, que dominava a partida, sem conseguir o gol. Talvez a decisão da Taça Guanabara ainda pesava nas pernas e nas cabeças. No dia seguinte, o Sandro Moreyra escreveu para o Jornal do Brasil: “Sempre melhor, o Flamengo poderia ter começado já no primeiro tempo a sua goleada, o que não fez talvez por um certo respeito pelo adversário e pelos já habituais gols perdidos por Luisinho”. Assim, no intervalo, o placar ainda era de 0x0.

Mas foi só marcar um gol para desencadear as coisas. Com 8 minutos no segundo tempo, Zico cobrou uma falta, a bola foi desviada pela barreira e chegou até Tadeu, que chutou de primeira, firme e preciso, para abrir o placar. No minuto seguinte, Dé aproveitou de um erro de Rondinelli para empatar o jogo. Mas estava escrito já antes do apito inicial, já 15 dias antes, esse jogo era do Mengo.

De novo no minuto seguinte ao gol do Vasco, o Flamengo fez pressão alta e ganhou a bola na grande área vascaína. A bola chegou até Zico, que já tinha chutado três vezes na trave durante o jogo. Chutou forte e não perdoou o goleiro, nem os críticos e os duvidosos. Com o gol, o Galinho recuperava a artilharia do campeonato carioca. Depois do jogo, Zico explicou: “Aquela decisão para mim foi algo muito cruel, que chegou a me abalar profundamente por todos estes dias. Por sorte nossa, foi exatamente o Vasco que acabou nos proporcionando esta oportunidade. Confesso que no momento em que percebi que poderia marcar, parti de encontro à bola com uma raiva imensa e quando a vi no fundo da rede é que pude respirar descansado. Foi como se tivesse tirado um peso enorme da cabeça”.

Logo depois, o vascaíno Renê foi expulso e a goleada rubro-negra se desenhava. Faltando dez minutos para o final do jogo, o Flamengo aplicou seu jogo característico de passes ao pedido do técnico Carlos Froner. Luís Paulo achou de trivela Tadeu, que dominou, cortou um jogador com um drible seco e tocou de trivela para o chute de primeira de Vanderlei, no fundo do gol. E como aconteceu com o segundo gol, Vasco teve um jogador expulso na sequência, agora Dé. “O pior do Vasco foi que, além de jogar mal, não soube perder. Teve três jogadores expulsos de campo por não aceitarem a derrota que o Flamengo impunha lisamente”, continuou Sandro Moreyra.

Já nos acréscimos, Luisinho finalizou uma linda jogada individual e decretou a goleada flamenguista: 4×1. “Como se disse de início uma vitória bem ao gosto da torcida rubro-negra. Com garra, determinação, uma vontade de vencer que era de todo o time. Num jogo assim, qualquer tática é secundária. O Flamengo de ontem valeu pelo empenho com que lutou sempre”, finalizou Sandro Moreyra.

Flamengo goleava e Zico superava o trauma da Taça Guanabara, sendo mais uma vez o craque de sempre. No dia seguinte, o Jornal dos Sports avaliou: “De novo todo o esplendor do craque. Foi o nome do jogo, mesmo sem muita sorte. Um golaço e três balaços na trave que fizeram a torcida gritar seu nome como nos melhores dias”. Para fechar, deixo um retrato da crônica de Duarte Gralheiro para o mesmo JDS: “Falo de Zico. Todas as coisas que fez durante a partida comprovam sua grande classe. O tiro indefensável no gol. As três bolas na trave. O passe para o gol anulado de Luisinho. Algumas passagens e tabelas do melhor Zico […] Esta vitória, não tenho dúvida, tem um efeito curativo e regenerador. No mesmo local e contra o mesmo adversário, Zico e seus parceiros recuperaram a confiança perdida”. O Flamengo estava quase pronto para ser campeão e deixar o vice ao Vasco.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”