Jogos eternos #415: Flamengo 2×2 Corinthians 1996

Depois de um mês parado, Flamengo está de volta em campo hoje com um amistoso contra o River Plate. Para o jogo eterno do dia, escolho um outro amistoso, que completa hoje 30 anos, um Flamengo x Corinthians de 1996, em Manaus.

Na época, todo mundo tinha na boca apenas um nome, que ainda dividia as opiniões: Bebeto. Sete anos depois da saída traumática para o Vasco, Bebeto estava de volta ao Mengo. Entre os dois momentos, Bebeto conquistou o Brasileirão de 1989 com o clube cruzmaltino e passou quatro anos na Espanha, no time da Corunha. Com um pouco de desgaste de ambas as partes, o craque baiano voltou ao Brasil. Um ano depois do fracasso dos Bad Boys, Flamengo tinha um novo ataque dos sonhos, com Sávio, Romário e Bebeto.

“É hora de voltar, meu coração me diz”, explicou Bebeto para o Jornal do Brasil. Porém, a traição de 1989 ainda pesava na alma de cada torcedor rubro-negro. Para esquecer, precisava de gols e títulos, precisava de vitórias, mesmo em amistosos. Para o jogo da reestreia contra o Corinthians, em 3 de julho de 1996, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Roger; Zé Maria, Jorge Luis, Fabiano, Gilberto; Márcio Costa, Djair, Nélio; Sávio, Bebeto, Romário.

Romário reencontrava Bebeto, o parceiro dos Jogos Olímpicos de 1988, da Copa América de 1989 e claro, do Tetra em 1994. Com o apoio de Sávio, Flamengo tinha um dos, se não o melhor, ataques do mundo. Invicta pela Seleção brasileira, a dupla Romário – Bebeto tinha tudo para dar certo, mas podia dar errado também. “Todo mundo considera um risco, no futebol de hoje, formar um time deixando lá na frente, nada menos de três jogadores ofensivos. Essa é a doutrina do futebol europeu, onde, por sinal, craque-atacante é coisa rara”, advertiu já em 1996 o grande Armando Nogueira.

No estádio Vivaldão de Manaus, o Flamengo começou melhor o jogo, sem abrir o placar. Na metade do primeiro tempo, Bebeto perdeu uma bola e no contra-ataque, o corintiano Edmundo, que fez 9 gols em 23 jogos no Flamengo no ano anterior, foi lançado em profundidade e abriu o placar. “De útil, no primeiro tempo, Bebeto acertou apenas uma cobrança de falta, que saiu rente à trave esquerda de Nei, aos 45 min”, julgou no dia seguinte o Jornal do Brasil.

No intervalo, o técnico Joel Santana deu bronca, sem efeito. Com uma hora de jogo, o corintiano Souza driblou dois rubro-negros e cruzou atrás para o gol de Ricardo Mendes. Só então o Flamengo reagiu, com seu melhor jogador, Romário. O Baixinho gingou na frente de Alexandre Lopes e chutou cruzado, no fundo da rede. Dois minutos depois, Bebeto tabelou com Romário e abriu o pé para chutar com efeito. Nei fez bela defesa e no rebote, Iranildo chutou livre, mas o volante Gilmar Fubá salvou em cima da linha.

Só no final do jogo, já no meio da noite, o Flamengo alcançou o empate. Iranildo cobrou um escanteio, o goleiro falhou na saída e Romário cabeceou para fazer o segundo gol do Mengo, o segundo dele. Flamengo conseguia o empate e tinha motivos de esperança para seu ataque dos sonhos. “Nós ganhamos tudo que disputamos juntos e tenho certeza que aqui vai ser igual”, julgou Bebeto no final do jogo.

No Jornal do Brasil, escreveu no dia seguinte o grande Sérgio Noronha: “O Flamengo não consegue se livrar do estigma de ter um ataque dos sonhos. Recomeçou tudo ontem no amistoso contra o Corinthians […] O sonho é embalado pelas mesmas frases. ‘Craque se entende dentro do campo’, ou ‘eles sabem que alguém tem que se sacrificar um pouco, de vez em quando’, e existe até a abertura para a declaração de Joel, que diz ainda não ter a fórmula para juntar Bebeto, Romário e Savio, mas terá que encontrá-la. Nem sempre os craques se entendem, dentro ou fora do campo”.

E no Flamengo de 1996, os craques nem se encontraram em campo. Com lesão de Bebeto e ida e vinda de Romário no Valencia, a dupla do tetra participou de apenas um jogo oficial, contra o Internacional, quando Romário voltou do empréstimo na Espanha. No Beira-Rio, o Flamengo abriu o placar, Romário saiu machucado e o Inter virou com dois gols de Fabiano. Flamengo ficou fora da fase final do Brasileirão e Bebeto, com 7 gols em 21 jogos, teve números ainda inferiores aos do Edmundo em 1995, sem reencontrar o amor da Nação. De novo, o sonho virou pesadelo.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”