Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #301: Santos 0x1 Flamengo 2020

    Jogos eternos #301: Santos 0x1 Flamengo 2020

    Na penúltima crônica, para a volta do Brasileirão, escrevi sobre um Flamengo x São Paulo de 1992, ano do pentacampeonato, para trazer sorte. Hoje, na hora de reencontrar Santos e o Vila Belmiro, vou de um jogo do último campeonato brasileiro conquistado pelo Flamengo, espero o penúltimo no final do ano.

    Apesar da conquista no final, Flamengo começou muito mal o Brasileirão de 2020, com apenas uma vitória em 5 jogos e uma vergonhosa 15.a colocação. No jogo anterior, Gabigol evitou um vexame maior, empatando no clássico contra Botafogo aos 90+11 minutos do jogo. E agora era para Gabigol a hora de reencontrar o ex, Santos, ainda mais no dia do aniversário. Era quase escrito que Gabigol faria gol, restava a saber se seria suficiente para o Flamengo. No 30 de agosto de 2020, o conturbado técnico Domenec Torrent escalou Flamengo assim: Diego Alves; Renê, Gustavo Henrique, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Thiago Maia, Gerson, Arrascaeta; Michael, Bruno Henrique, Gabigol.

    Na Vila Belmiro, Flamengo começou muito mal o jogo, Santos fez dois gols, o juiz anulou os dois gols depois de consultar o VAR. Quase por milagre, o placar ainda estava de 0x0. Santos continuou a dominar o jogo, e era a vez do Diego Alves brilhar, com boas defesas contra Marinho, Felipe Jonatan e Raniel.

    Flamengo reagiu com contra-ataques, Bruno Henrique serviu Michael para um chute, defendido pelo João Paulo. No final do primeiro tempo, era a vez de Michael de puxar o contra-ataque, e servir Gabigol na direita. Era a hora do predestinado, Gabigol dominou e chutou de pé esquerdo, era o gol do Gabigol. Era o presente dos 24 anos, era mais uma vez a lei do ex que não falhava, era a estrela de Gabigol, que fez uma comemoração em homenagem ao Chadwick Boseman, ator da Pantera Negra, falecido dois dias antes.

    No segundo tempo, Gabigol quase dobletou de voleio, mas João Paulo mandou para escanteio. Num chute de Raniel, Diego Alves defendeu, mas saiu machucado e faltou dois meses de competição. Gabigol ainda teve duas chances de gol, a última claríssima, mas perdeu gol feito e saiu de campo com dores. Santos ainda tentou o empate, Jean Mota de bicicleta, mas estava escrito antes do jogo: a vitória era do Mengo, a estrela era do ex, do aniversariante, o eterno Gabigol.

  • Jogos eternos #300: Flamengo 3×2 Botafogo 1995

    Jogos eternos #300: Flamengo 3×2 Botafogo 1995

    Para a crônica #100, escrevi sobre um Flamengo x Vasco de 1983 e para a #200 sobre um Fla-Flu de 2006. Para a crônica #300 dos jogos eternos, vou então do terceiro rival e vou cortar os anos 1983-2006 no meio, hoje eu vou de um Flamengo x Botafogo de 1995.

    O ano de centenário do Flamengo começou bem, samba da Estácio de Sá no Carnaval, contratações de Branco e sobretudo de Romário, o maior jogador do mundo. No campeonato carioca de 1995, o Baixinho estava em grande forma, com 11 gols em 11 jogos, mas por causa de uma contusão no cotovelo, quase ficou fora da decisão da Taça Guanabara contra Botafogo. O atacante botafoguense Túlio Maravilha, nesta hora artilheiro do campeonato com 17 gols, provocou: “Essa dor de cotovelo dele é porque está perdendo espaço para mim”. Romário respondeu de forma ainda leve: “Ele não é ninguém para tirar onda com a minha cara” e partiu para o jogo, com uma proteção no cotovelo.

    No 23 de março de 1995, valendo título da Taça Guanabara e mais um ponto para o octogonal final, o técnico Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Emerson; Fabinho, Agnaldo, Jorge Luiz, Marcos Adriano; Charles Guerreiro, Válber, Marquinhos, William; Sávio, Romário. O jogo no Maracanã começou num ritmo alto, Márcio Theodoro quase abriu o placar para Botafogo, que vinha de 7 vitórias consecutivas. Aos 7 minutos, Romário usou a inteligência e o corpo para lutar contra Wilson Gottardo e conseguir o pênalti, que claro, cobrou ele mesmo. No seu estilo particular, com calma e tranquilidade, com raça e habilidade, Romário colocou a bola no cantinho e abriu o placar.

    Botafogo teve uma oportunidade de empatar, mas Túlio chutou para fora. Quem colocava dentro do gol era o maior artilheiro, o melhor centroavante, o Baixinho. O lance decisivo começou com matada de peito de Romário, que tabelou com Marquinhos e abriu de trivela na esquerda. A bola chegou até Sávio, que cravou a falta, mas com inteligência, o juiz deixou o jogo seguir. William cruzou, o Baixinho pulou, cabeceou e aumentou a dor de cabeça para os botafoguenses, agora dois gols atrás. Romário partiu para comemorar com a geral ainda antiga e raiz, mandou calar a torcida do Botafogo ou o próprio Túlio. Com apenas 22 minutos de jogo, a taça estava quase nas mãos rubro-negras.

    O jogo mudou uma primeira vez aos 33 minutos, Agnaldo e Túlio se desentenderam e o juiz expulsou os dois. No final do primeiro tempo, Romário quase fez o terceiro, depois de aplicar dois dribles desconcertantes sobre Márcio Theodoro, mas a bola passou em cima da trave. Ainda não era a hora do hat-trick. No início do segundo tempo, Botafogo passou a dominar quase inteiramente o jogo, porém sem fazer gol. Ainda não era a hora de esquentar completamente o jogo.

    No gramado do Maracanã, um urubu aparaceu, o jogo se equilibrou, mas o 2×0 no placar permaneceu. Até a entrada no jogo do botafoguense Adriano. Faltando 15 minutos para o final do jogo, num tiro indireto, Adriano venceu a barreira flamenguista e o goleiro, e colocou fogo no Maraca. Pior ainda para o Flamengo quatro minutos depois, quando o juiz assinalou um pênalti para Botafogo. Adriano cobrou e empatou. O destino era a prorrogação, mas pelo roteiro, pela fisionomia do jogo, a vitória do Botafogo talvez era ainda mais provável.

    Romário apareceu muito pouco no segundo tempo, a não ser uma falta bem batida, mas bem defendida pelo Wagner. Nélio, que como Adriano também entrou no jogo, lançou Romário na profundidade. O zagueiro Márcio Theodoro interveio na primeira vez e se atrapalhou na segunda vez, oferecendo a bola para Romário. Claro, o Baixinho não perdoou, fintou uma vez, uma segunda vez, e colocou a bola no cantinho, para o terceiro gol dele, o terceiro do Mengo. O geral e as arquibancadas explodiram.

    No finalzinho, Adriano cobrou muito bem uma outra falta, mas Emerson espalmou para escanteio. Depois de última falta sobre Romário, o juiz pegou a bola e apitou o fim do jogo. Com uma atuação tenebrosa de seu artilheiro do dia e da eternidade, Flamengo conquistava a Taça Guanabara. O ano do centenário começava muito bem, uma pena que acabou tão mal.

  • Jogos eternos #299: Flamengo 3×2 São Paulo 1992

    Jogos eternos #299: Flamengo 3×2 São Paulo 1992

    Flamengo acabou sua participação no Mundial dos clubes de uma forma decepcionante mas também honrosa e com motivos para confiar no resto da temporada. E além do otimismo de sempre, tenho uma intuição que Flamengo vai conquistar o Brasileirão, que não vem desde 2020 falando de edição, ou de 2021 falando de calendário. Ou seja, uma eternidade. Antes do jogo contra São Paulo no Maracanã, vou lembrar um outro jogo contra o Tricolor de um ano especial, ano de meu nascimento, ano do pentacampeonato, em 1992.

    Flamengo retorna hoje ao Brasileirão como líder e em 1992, também tinha começado bem o campeonato com duas vitórias sobre Guarani e Palmeiras e dois empates contra Bahia e Botafogo. Antes do jogo contra São Paulo, teve uma troca de faixas entre os últimos campeões estaduais, São Paulo no campeonato paulista 1991 e Flamengo no campeonato carioca 1991. Dois times que iam conquistar coisas ainda melhores em 1992, a Libertadores e o Mundial para São Paulo, o Brasileirão para Flamengo. Tinha craques em campo como Raí e Júnior, antigos craques no banco e técnicos eternos como Telê Santana e Carlinhos.

    No 19 de fevereiro de 1992, o eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Rogério, Piá; Uidemar, Júnior, Zinho, Nélio; Paulo Nunes, Gaúcho. Um timaço que avassalou São Paulo no primeiro tempo. Gaúcho fez um gol bem anulado com a mão e Flamengo colocava pressão na grande área tricolor com escanteios sempre muito bem cobrados pelo Júnior. Depois, foi a vez do goleiro Zetti fazer uma mão, fora da área, e sequer recebeu um cartão amarelo. Flamengo continuava a dominar o jogo, com Gaúcho organizando o time, ele era longe de ser apenas um centroavante matador e artilheiro. Porém, seja de cabeceio ou de voleio, Júnior não conseguiu abrir o placar.

    Com 30 minutos, na direita, Paulo Nunes driblou, gingou, cruzou. Como centroavante matador e artilheiro, Gaúcho dominou de peito, abriu o espaço para o voleio do pé esquerdo e fuzilou Zetti. Golaço. No final do primeiro tempo, Gaúcho fez outro gol, agora mal anulado pelo juiz, que viu um impedimento que não existia. No segundo tempo, São Paulo finalmente reagiu. O Tricolor também tinha seus craques, Cafu cruzou na direita e Palhinha, que tinha acabado de entrar, empatou com uma cabeçada.

    Oito minutos depois, Júnior cobrou perfeitamente uma falta na direita, Zetti saiu mal, Rogério cabeceou na segunda trave e recolocou Flamengo na frente no placar. O jogo tinha vários craques técnicos em campo, mas o jogo se decidiu nos ares. No final da partida, Júnior fez um drible desconcertante sobre Suélio e cruzou alto, Gaúcho subiu ainda mais alto, e como o gênio do jogo aéreo que era, cabeceou no outro lado do gol, sem chance para Zetti. Mais um golaço do Flamengo, mais uma alegria na antiga geral do Maraca. No finalzinho do jogo, mais um gol de cabeça do Flamengo, agora contra, num cruzamento de Raí, Wilson Gottardo se atrapalhou com Gilmar e fez o gol contra. Sem consequência no final, Flamengo atropelava o São Paulo, futuro campeão sul-americano e mundial. Mas quem será campeão brasileiro no final do ano, era o próprio Flamengo.

  • Ídolos #45: Hernane

    Ídolos #45: Hernane

    Para a crônica #45, um nome vem rapidamente na cabeça. Um jogador que escolheu esse número na camisa para seu clube seguinte, em homenagem ao número de gols que fez com o Manto Sagrado, em homenagem à torcida do Flamengo. Um jogador quase comum, mas que virou ídolo da Nação.

    Hernane Vidal de Souza nasceu no 8 de abril de 1986 em Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia. Começou na várzea da Bahia e nunca passou na base de um grande clube, até de um clube pequeno. Chegou no interior de São Paulo, já com 21 anos. Seu técnico no Atibaia, Eduardo Clara, falou assim do futuro ídolo do Flamengo: “Talento, sorte e estrela. Ele nunca jogou categoria de base na vida. Chegou da Bahia sem nunca ter jogado partida oficial. Lembro que ele era grandão e vi muito potencial. Era um finalizador nato. A bola procurava ele. Batia na trave e voltava para ele fazer”.

    Hernane jogou em vários clubes do interior paulistano e se destacou com a camisa do Mogi Morim, sendo vice-artilheiro do campeonato paulista de 2012, atrás apenas de ninguém menos que Neymar. Seus 16 gols em 22 jogos foram suficientes para garantir um lugar na seleção do campeonato paulista e um empréstimo no Flamengo. Mesmo em tempos sombrios do Flamengo, Ronaldinho tinha acabado de sair do clube, o atacante de já 26 anos chegou sem muita esperança, para ser reserva, ou até terceira opção, atrás de Vágner Love e Deivid. Tempos sombrios mesmo.

    Mas Hernane era predestinado e mostrou isso logo no primeiro jogo no Flamengo. Entrou no segundo tempo contra Coritiba e precisou de apenas 18 minutos em campo para fazer seu primeiro gol com o Manto Sagrado e garantir a vitória do Flamengo. “Esse foi o primeiro de muitos gols com a camisa do Flamengo” garantiu o então camisa 22, que demorou para cumprir a promessa. Em 2012, foram apenas outros dois gols, na sua amada Bahia e um golaço de voleio contra Figueirense. Uma temporada decepcionante, coletivamente e individualmente.

    Em 2013, sem dinheiro nos cofres, Flamengo liberou Vágner Love e Liedson, e comprou Hernane, ainda sem muitas esperanças. Hernane recebeu a camisa 9, Carlos Eduardo tinha a camisa 10. Tempos difíceis no Flamengo, que em cima disso não tinha o Maracanã, na fase de reconstrução, ou destruição, para a Copa. Mas Hernane era predestinado. No primeiro jogo da temporada, fez os dois gols na vitória 2×0 sobre Quissamã. Nos 7 primeiros jogos, fez 8 gols, inclusive gols nos clássicos contra Vasco e Botafogo. Fazia gol de todo jeito, de pé esquerdo, pé direito, de cabeça. Na verdade, tinha uma coisa que não fazia, se não me engano, nos 45 gols com o Manto Sagrado, não fez sequer um de fora da área. Hernane era um jogador de grande área, às vezes de pequena área. O que não mudava era a comemoração, cheia de raça, vontade e garra.

    Em boa fase, Hernane começou a ser chamado de “Chicharito Hernane”, mas não gostou e preferia o apelido de Brocador. E gols ele brocava, assim foi prontamente atendido pelo maior patrimônio do Flamengo, a torcida. Porém, ainda no campeonato carioca, Hernane entrou num jejum, com apenas um gol em 8 jogos. Voltou a brocar no melhor clássico, o Fla-Flu, com uma alegoria de gol: Hernane caiu, se levantou e na sequência fez o gol de cabeça. E voltou numa fase de artilheiro, fez 3 na Copa do Brasil contra Remo, outros dois contra Macaé para fechar o campeonato carioca com uma eliminação precoce sim, mas também uma primeira artilharia em 2013, com 12 gols em 15 jogos.

    Hernane já virava um nome importante da temporada do Flamengo. A indicação para a contratação foi do dirigente Jairo dos Santos e vale a pena citar a matéria do SporTV sobre as anotações de Jairo, que primeiramente não gostou do Hernane: “Dificuldade em dominar a bola, não demostrou habilidade em geral, sem condições de ser jogador para o Flamengo, atualmente. Chances de dar certo: 15%”. Depois, Jairo voltou a ver jogar Hernane no campeonato paulista de 2012. “Uma coisa me chamou a atenção: Hernane disputava a artilharia do Campeonato Paulista com o Neymar e, mesmo nas últimas rodadas, deixava o individualismo de lado em prol do jogo coletivo”, disse Jairo, que notou 10 características de Hernane. Além de ser “ambidestro, com forte chute de esquerda”, “oportunista” e “atuando como pivô”, além de ter “boa percepção tática”, ser “finalizador”, de ter “bom jogo aéreo”, são os itens 5 e 10 que me marcam mais. O 5 é: “atento aos lances e decidido nas divididas: luta com o time” e o 10: “não reclama, mostra bom comportamento, concentração, coesão, tranquilidade emocional, espírito de equipe”. E acho que é por isso, além dos gols claro, que Hernane virou ídolo do Flamengo. Num momento complicado para o time e a torcida, honrou o Manto, como muitos, e ao mesmo tempo, poucos, fizeram na história do Flamengo.

    No Brasileirão de 2013, Hernane passou em branco nos 4 primeiros jogos, fez gol contra Criciúma e depois não jogou durante quase dois meses. Teve a pausa para a Copa das confederações, Hernane ainda perdeu a posição para a nova contratação de peso (mediano), o boliviano Marcelo Moreno. O Brocador nem saia mais do banco. A volta de Hernane, que também foi a volta do Flamengo no Maracanã depois de 3 anos de obras, foi heroica. Hernane entrou para os 15 minutos finais do clássico contra Botafogo, que vencia 1×0. No último minuto dos acréscimos, fez assistência para Elias e Flamengo escapou da derrota, ainda ficando na vice-lanterna. Hernane saiu do jejum de gols num outro clássico, o Fla-Flu, também de forma heroica. Num jogo eternizado no Francêsguista, fez 2 gols, incluindo um golaço de letra, talvez seu gol mais bonito com o Flamengo.

    E Hernane se consagrou como o artilheiro do Novo Maracanã, de uma forma absurda. Entre os meses de setembro e outubro, disputou 8 jogos no Maracanã, passou apenas em branco contra Botafogo e fez ao total 12 gols! E detalhe, no jogo sem gol, o mandante era Botafogo. E no mesmo período, disputou 7 jogos fora do Maracanã e fez apenas um gol! E detalhe, o gol foi marcado num jogo em que Flamengo era mandante, mas deslocalizou a partida no Mané Garrincha, que viu Hernane brocar contra Vasco… Hernane era o homem dos clássicos, o homem do Maracanã, o homem-gol.

    Porém, nada supera o jogo contra Botafogo nas quartas de final da Copa do Brasil. Claro, teve os gols na temporada, o estilo brigador e brocador, mas tem o jogo contra Botafogo, um jogo eterno no Francêsguista e na história do Flamengo. O Botafogo favoritaço, o Flamengo lutando para não cair no Brasileirão, o Flamengo sofrendo, mas lutando com toda sua alma, sua história. Teve Elias nas oitavas, tinha Hernane nas quartas. Um Novo Maracanã louco para vibrar, com o Flamengo que tinha, com os jogadores que tinham. Teve um show de Hernane, um primeiro gol do pé esquerdo depois de falta e confusão na grande área, um segundo gol, ainda no primeiro tempo, ainda com o pé esquerdo, depois de chute de Paulinho defendido pelo Jefferson. “Ambidestro, com forte chute de esquerda” e “oportunista” tinha avisado Jairo dos Santos.

    Jairo também falou que tinha “bom jogo aéreo” e no segundo tempo, André Santos cruzou, Hernane cabeceou, triplicou e apenas com esse jogo, se eternizou na galeria dos ídolos do Flamengo. Ainda mais que no segundo gol, fez uma comemoração que pode se repetir a cada Flamengo x Botafogo, o chororô criado pelo Souza e repetido por muitos, mas ao mesmo tempo, poucos ídolos do Flamengo. Ainda no Maracanã, Hernane fez seus gols contra Goiás, tanto na Copa do Brasil que no Brasileirão, e Flamengo partiu para uma final da Copa do Brasil, contra o Athletico Paranaense. Outro jogo eterno, e um final mais que perfeito. No estilo oportunista, brigador e brocador, Hernane fez o gol, o sinal do acabou, e acabou mesmo. Acho que nunca antes, e nunca depois, o Novo Maracanã gritou tanto, explodiu tanto que nesse gol do Brocador. Com problemas financeiros e um time limitado, Flamengo conquistou um dos títulos mais festejados de sua história, um título inesquecível para quem pegou essa época, viveu esses momentos de frustrações e glórias ainda maiores.

    Hernane conseguia outra artilharia e ainda brocou no final da temporada, o último gol contra Cruzeiro no Maracanã, para ser vice-artilheiro do Brasileirão, para se consagrar o artilheiro do ano no Brasil, com um total inesperado de 36 gols. Inclusive com 20 gols no Novo Maracanã, então um recorde, ultrapassado por um rubro-negro apenas em 2019 pelo Gabigol na goleada histórica sobre Grêmio, exatamente 6 anos após o hat-trick de Hernane contra Botafogo. Em 2014, Hernane ainda fez seus golzinhos, incluindo 4 na goleada 5×2 contra Macaé, mas viveu com lesões, o que não impediu a torcida rubro-negra de pedir sua convocação na Copa. Hernane ainda rendeu uma boa grana ao clube quando foi vendido ao Al-Nassr. No clube de Arábia Saudita, escolheu diretamente o número 45 na camisa, como o número de gols no Flamengo. Depois, teve boas passagens no Sport e com Bahia, joga até hoje, sendo artilheiro do campeonato amazonense 2025 com Confiança, e agora fazendo seus golzinhos no Cianorte.

    A Nação já teve como ídolos centroavantes que não eram gênios nem craques, mas que honravam o Manto, jogadores valentes, que compensavam a falta de técnica com um coração enorme. Num duelo entre Obina e Hernane, tenho minha preferência para o primeiro, por ser justamente o primeiro, época em que comecei a assistir aos jogos do Flamengo. Mas o Flamengo também sofreu no início da década de 2010 e não caiu, de divisão ou de tamanho de torcida, muito graças ao Brocador, aos seus gols e seu carisma, se eternizando na galeria dos ídolos rubro-negros, com um temporada inesquecível, 36 gols e algumas noites mágicas no Maracanã.

  • Jogos eternos #298: Flamengo 2×1 Athletico Paranaense 2023

    Jogos eternos #298: Flamengo 2×1 Athletico Paranaense 2023

    Hoje eu vou de uma lembrança nostálgica e pessoal de um jogo que aconteceu exatamente dois anos atrás. E a vida pode mudar muito em dois anos. Morei um ano no Rio de Janeiro entre 2022 e 2023 e neste início de julho de 2023, me aproximava do final de minha temporada. Não contava mais os meses que me restavam no Brasil, mas as semanas, quase os dias.

    Para o final, Maxime e Julie, um casal de amigos franceses, foram me visitar. Foram no Rio de Janeiro duas semanas de muitas experiências, trocas, risadas e lembranças inesquecíveis. No dia do 5 de julho de 2023, apesar da tristeza da saída chegando, acordei com um sonho ainda vivo na minha cabeça. Faltando dois dias para meu aniversário, Maxime e Julie me ofereceram um passeio de helicóptero no Rio de Janeiro, da zona oeste até a zona sul, girando 1,5 vez em torno do Cristo. Com certeza, se o dinheiro permite, é uma das 10 coisas a fazer no Rio de Janeiro. Outra coisa que cada guia recomendaria, é assistir a um jogo do Flamengo no Maracanã.

    E fui muitas vezes, sempre que podia, ao Maracanã, ver meu maior amor. Quando outros amigos franceses foram me visitar, Marco e Antoine, era o final da temporada e só conseguimos assistir ao jogo das estrelas de Zico. Outro sonho eterno, mas sem ver toda a paixão da Nação, mesmo percebendo um pouco. Com Maxime e Julie, fomos primeiramente ver o jogo contra Aucas, uma goleada para garantir a classificação nas oitavas de final, já um dia de festa. Mas sabia que o jogo contra o Athletico Paranaense seria diferente ainda.

    O confronto contra o Furacão na Copa do Brasil marcava o último capítulo de uma história de cinco anos. Na Copa nacional, deu Athletico em 2019 e 2021, deu Flamengo em 2020 e 2022. E pessoalmente, também completava uma novela rubro-negra. Quando cheguei, o primeiro jogo que assisti ao Maracanã foi Flamengo x São Paulo na semifinal da Copa do Brasil, ainda na tribuna oeste. Depois, vi na arquibancada, na minha sagrada Norte, o título contra o Corinthians, em 2023, sempre da Norte, assisti a estreia (e goleada 8×2) contra Maringá na terceira fase, aos dois Fla-Flus nas oitavas e ia para meu último jogo possível da Copa, as quartas de final. Assim, com duas edições distintas, da terceira fase até a final, completava uma Copa do Brasil inteira.

    Com meu 20.o jogo do Flamengo apenas no ano de 2023, eu já tinha feito do Maracanã minha segunda casa. E acolhia os amigos em casa, na tribuna Norte. Para um de meus últimos jogos no Maracanã, encontrei meu amigo Gabriel, parceiro de vários rolês, sendo o maior e melhor um jogo do Flamengo no Maracanã. Como ele tinha prometido, me ofereceu um boné da Fla Manguaça, torcida organizada que erguei a bandeira. Não lembro quem, Gabriel, Maxime ou Julie, tirou uma foto de mim que até virou contracapa de meu livro Francêsguista. Tinha no Maracanã, minha pequena tropa, dentro de uma Nação inteira.

    No Maracanã, ainda mais na Norte, o pré-jogo vale às vezes tanto que o jogo, até mais. Por isso, não gosto de chegar depois dos jogadores. Chegamos só um pouco antes, já com o Maracanã cheio, em clima de decisão. Com a ajuda de Gabriel, chegamos no lugar de sempre ou quase, muito longe do campo, muito perto do coração da Nação. Um lugar de difícil acesso para os turistas, por isso eu estava feliz de oferecer isso para meus amigos. O jogo contra Aucas já tinha sido diferente de tudo que eles viveram num estádio europeu. E o jogo contra o Furacão era ainda diferente, senti a animação dentro do corpo de Maxime vendo a arquibancada e o campo. Foi um furacão de emoções que apenas o show da Nação e um “estou sempre contigo”, ou talvez um passeio de helicóptero, pode proporcionar.

    No 5 de julho de 2023, o técnico Jorge Sampaoli escalou Flamengo assim: Matheus Cunha; Wesley, David Luiz, Fabrício Bruno, Ayrton Lucas; Erick Pulgar, Victor Hugo, Gerson; Arrascaeta, Everton Ribeiro, Pedro. E o jogo, num Maracanã cheio com 66.505 pagantes, começou mal para o Flamengo, com apenas 6 minutos de jogo, Canobbio venceu o cara a cara com Cunha e abriu o placar para o Athletico. Maxime e Julie só tinham conhecido o Maracanã uma vez, com vitória 4×0 do Mengo, ou seja, sem gol tomado. E descobriam aqui uma tradição da Nação. Quando Fla toma um gol, a torcida não se abate, ela se reergue, canta a plenos pulmões o hino, e depois um “Oh, meu Mengão eu gosto de você”. E com 10 minutos, já era a hora de honrar os garotos do Ninho, dez estrelas a brilhar. A torcida do Flamengo é diferente e envolve até quem não tem o contexto, quem não solta uma palavra de português. Em campo, Arrascaeta quase fez um golaço de falta, mas a bola escapou da gaveta. No intervalo, o Athletico vencia 1×0, na tribuna Norte era o momento de respirar um pouco, pegar mais uma cerveja, falar em francês com os amigos, sobre Flamengo claro. Em duas semanas no Rio de Janeiro, morando comigo na Rocinha, eles tinham vivido já muitas coisas. Mas o jogo do Flamengo, sobretudo o clima da arquibancada, era umas das coisas mais marcantes da viagem.

    No início do segundo tempo, Arrascaeta quase fez, mas Bento defendeu mais uma vez. Aos 7 minutos, Madson fez falta leve no Arrascaeta e depois de intervenção do VAR, o juiz marcou o pênalti. Explosão de alegria no Maracanã. Sempre vale a pena comemorar um pênalti como um gol, já que não sabe se ele vai ser transformado, melhor comemorar duas vezes que nenhuma. No seu estilo particular, Pedro fez o gol de pênalti e empatou no jogo. Explosão completa no Maraca, que agora cantava “Vamo virar Mengo”. Se fze um gol, pode fazer dois.

    Na metade do segundo tempo, Bruno Henrique entrou no jogo ao som de “Ah! É Bruno Henrique!”. Quatro minutos depois, uma falta no lado direito, num lugar que me proporcionou uma de minhas maiores alegrias no Mara, o gol de Willian Arão no Fla-Flu de 2017 que acabou em 3×3 e classificação do Flamengo. Seis anos depois, o ídolo Arrascaeta cobrou na segunda trave, apareceu outro ídolo Bruno Henrique, que cabeceou e desempatou. Flamengo virou, o Maraca explodiu de vez, a Nação, que nessa hora já contava mais dois franceses em seu seio, irradiava de felicidade.

    O final do jogo foi de muitos cantos, de “Mengão é paixão”, de “Acima de tudo rubro-negro”, de “Você pagou com traição”, de “Vou festejar”. De muitos vídeos também para Maxime, que registrava os momentos com os olhos alucinados e calor no coração, apenas a barreira da língua o impedia de cantar mais. Até hoje, não posso falar sobre o Flamengo sem que Julie solta um “Flameeeengo” no ar do “Outra vez vou te apoiar” . O Maracanã mudou sim, se elitizou, mas ainda tem o poder de seu maior patrimônio, a torcida do Flamengo. Há dois dias de meu aniversário, mesmo com minha saída do Brasil se aproximando cada vez mais, o 5 de julho de 2023 foi um dos dias mais felizes de minha vida, começado no céu do Rio de Janeiro, acabado no coração do Rio de Janeiro, o Maraca e sua Nação rubro-negra.

  • Jogos eternos #297: Flamengo 2×0 São Paulo 2017

    Jogos eternos #297: Flamengo 2×0 São Paulo 2017

    Flamengo está eliminado do Mundial dos clubes, uma decepção depois do primeiro lugar na fase de grupos e de um chaveamento muito mais difícil. Flamengo jogou bem contra o Bayern, mas perdeu por detalhes, que fazem toda a diferença. O Bayern foi muito mais realista e ainda teve um pouco de sorte nos dois primeiros gols, punindo friamente os erros do Flamengo. Agora é focar para o resto da temporada, com o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Copa Libertadores, para voltar no próximo Mundial. E a volta no Brasileirão, contra São Paulo no Rio de Janeiro, já se aproxima.

    E há exatamente oito anos, Flamengo já jogou contra São Paulo no RJ. Depois de oscilar no início do Brasileirão de 2017, Flamengo estava melhor. Venceu de goleada a Chapecoense, um jogo eternizado há poucos dias, venceu 1×0 Bahia com estreia de gala e assistência de Éverton Ribeiro, ainda venceu Santos nas quartas de final da Copa do Brasil. No Brasileirão, Flamengo estava no terceiro lugar, mas já com uma boa distância do líder disparado, o Corinthians, 9 pontos a mais do que o rubro-negro. Já São Paulo tinha apenas 6 pontos a menos que o Flamengo, mas com um conturbado 16.o lugar.

    Flamengo jogava mais uma vez na Ilha do Urubu, e ainda tinha um aproveitamento de 100% no estádio, com vitórias sobre Ponte Preta, Chapecoense e Santos. Para o jogo contra São Paulo, no 2 de julho de 2017, o técnico Zé Ricardo escalou Flamengo assim: Thiago; Pará, Réver, Rhodolfo, Trauco; Márcio Araújo, Cuellar, Diego; Éverton Ribeiro, Everton, Guerrero.

    O Mengão dominou o início do jogo, mas Everton e Trauco chutaram para fora. Diego tentou de longe, mas a bola apenas flirtou com a trave. No final do primeiro tempo, Flamengo teve uma falta perigosa, perto da grande área. Nem Zico nem Petkovic, Paolo Guerrero pegou a bola, dois passos, bola em cima da barreira, bola na gaveta, indefensável para o goleiro. Guerrero fazia um golaço e voltava a ser o grande artilheiro que foi, indispensável para os sucessos do Flamengo.

    Quatro minutos depois, ainda Guerrero, agora no início da jogada, com bom passe para Éverton Ribeiro. Com a velocidade e inteligência do craque, Éverton Ribeiro dominou de pé esquerdo e levantou levemente a bola de pé direito, para a chegada de Diego, a batida de primeira, um voleio sem chance para o goleiro, outro golaço do Flamengo.

    No segundo tempo, São Paulo reagiu, sem fazer gols. Flamengo também não fez. O então são-paulino Rodrigo Caio salvou dois chutes de Guerrero em cima da linha. Depois foi a vez de Rhodolfo de salvar na linha flamenguista. Era um jogo de dois golaços, parar manter o terceiro lugar e o aproveitamento de 100% na Ilha do Urubu. Era um dia lindo de futebol, de nossa maior paixão, as duras derrotas apelando sempre glórias maiores do Mengo.

  • Jogos eternos #296: Flamengo 3×1 Bayern 1994

    Jogos eternos #296: Flamengo 3×1 Bayern 1994

    Flamengo está nas oitavas de final do Mundial dos clubes e fez sua parte, até mais, fechando a fase de grupos no primeiro lugar. Infelizmente, com algumas surpresas nos outros jogos, pegou um chaveamento mais difícil, com Bayern de Munique nas oitavas, talvez Paris nas quartas, Real Madrid na semi, Manchester City na final. Apesar da dificuldade, vejo o Bayern como um dos times mais poderosos do torneio, dá para sonhar alto, ainda mais porque Flamengo ganhou o único Flamengo x Bayern da história até aqui, em 1994.

    O jogo de 1994 não aconteceu nem no Brasil nem na Alemanha, muito menos nos Estados Unidos, que ao mesmo tempo acolhia a Copa do Mundo, com a conquista do Tetra da Seleção. O jogo aconteceu na Malásia, para a inauguração do estádio Shah Alam. Flamengo estreou no Torneio Internacional de Kuala Lumpur com empate 0x0 contra a seleção olímpica de Austrália. Expulso no primeiro jogo, Charles Baiano cedeu seu lugar ao Magno, que fez um dos gols na vitória 2×1 sobre Leeds United. Flamengo estava na final, contra um gigante europeu, o Bayern de Munique. No 23 de julho de 1994, valendo título, o eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Adriano; Henrique, Gélson, Rogério, Marcos Adriano; Fabinho, Marquinhos, Hugo Rodrigo Mendes; Sávio, Charles Baiano.

    Por sua vez, o Bayern andava sem seus jogadores que foram aos Estados Unidos para a Copa, os alemães Lothar Matthäus e Thomas Helmer, o colombiano Valencia e o campeão do mundo Jorginho, que brilhou durante 5 anos com o Manto Sagrado antes de ir na Alemanha. Mesmo assim, o Bayern tinha em campo algumas promessas como Ziege, Hamann e Scholl e um craque na frente, o francês Jean-Pierre Papin, Bola de ouro em 1991. Para GloboEsporte, a então promessa rubro-negra Sávio explica: “A gente sabia que o time do Bayern era forte. Era o atual campeão alemão, mas eles estavam sem o Jorginho, que estava com a Seleção na Copa do Mundo, e sem um outro jogador que também estava na Copa. Mas era um time bom, forte. Para mim, com 20 anos, era uma oportunidade muito grande. Eu só queria jogar. Não queria saber quem estava do outro lado”.

    No estádio Shah Alam, com publico de mais de 65 mil, o jogo começou mal para o Mengo. Aos 17 minutos, Papin driblou o goleiro Adriano e foi derrubado. O juiz apitou pênalti e ainda expulsou Adriano. Como o goleiro titular Gilmar estava na Copa, Carlinhos sacou o Rodrigo Mendes para a entrada do terceiro goleiro, Fábio Noronha, de apenas 18 anos e que fazia assim seu primeiro jogo com o Flamengo! Sem tremer, Papin converteu o pênalti e a situação ainda piorou para o Flamengo, com a lesão de Charles Baiano, principal nome do Flamengo no primeiro semestre de 1994. A goleada era temida.

    Mas Flamengo é Flamengo, e o Manto Sagrado pesa mais que qualquer outra camisa. “Há de chegar o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará à camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável” escreveu uma vez o escritor tricolor Nelson Rodrigues. Aos 30 minutos, com jogada ensaiada, Rodrigo Lourenço fez golaço de falta e empatou no jogo.

    E aos 30 minutos, agora do segundo tempo, Marquinhos fintou um e chutou cruzado, a bola foi desviada e enganou o goleiro, morrendo na rede. Flamengo virou e no final do jogo, a estrela de Sávio brilhou mais uma vez. O Anjo Loiro puxou o contra-ataque e venceu o goleiro, decretando o placar final, 3×1. Flamengo conquistava a taça, ganhava o prêmio de 20 mil dólares, vencia um gigante europeu, de virada, com um a menos, de forma heroica. Para fechar, deixo a palavra para um dos craques do jogo, ao lado do goleiro estreante Fábio Noronha, nosso craque da Gávea, Sávio: “O nosso time era muito jovem, a base do time era jovem e formada no Flamengo. Ganhamos moral com a vitória com o Leeds. Fomos para final, sofremos um pênalti. O Adriano foi expulso e entrou o Fábio Noronha, que foi um dos melhores jogadores em campo. Ele pegou para caramba durante o jogo. Nós ganhamos de 3 a 1, com um jogador a menos, mas foi uma pressão muito grande deles. Até pelo que foi o jogo, com um jogador a menos desde o começo, a gente não esperava muito esse resultado. Mas quando acabou, parecia que tinha sido um título de um campeonato importante. Apesar de ter sido um torneio, foi de virada, um jogador a menos e contra o Bayern, foi um jogo bem legal. E, para mim, foi o meu primeiro torneio internacional e o meu primeiro jogo contra um grande da Europa. Foi super importante”.

  • Jogos eternos #295: Flamengo 1×0 Barcelona 1967

    Nessa época de Mundial de clubes e encontros entre times de diferentes continentes, aproveito para falar de um jogo que aconteceu exatamente 58 anos atrás contra Barcelona, gigante da Europa mas que não joga o Mundial.

    Em meados da temporada de 1967, Flamengo partiu para uma excursão na Europa, atravessando a Cortina de Ferro. Virou um desastre, o técnico Armando Renganeschi andava desmotivado porque sabia que não ia ter seu contrato ampliado, e tinha conflitos entre jogadores e o chefe da delegação, o autoritário Flávio Costa. Flamengo começou com 3 derrotas, contra as seleções olímpica e principal da Alemanha Oriental e contra o Dínamo de Moscovo. Fla finalmente venceu 1×0 o inexpressivo Neftyanik Baku e voltou a perder, agora de goleadas, 0x4 contra Dínamo Tbilissi e 1×4 contra Ferencvaros-Vasas.

    De volta na Europa ocidental, Flamengo continuou a perder: 0x1 contra Betis e 1×4 contra Atlético de Madrid. Na estreia do Troféu Ibérico, disputado pela primeira vez neste ano de 1967 em Badajoz na Espanha, Flamengo perdeu 1×2 contra o Sporting Portugal. A excursão era um desastre, 9 jogos, apenas uma vitoria, 8 derrotas, 7 gols pró, 23 gols contra. Já fora do título, Flamengo enfrentou o Barcelona e reencontrou um ídolo do clube, Silva Batuta, agora no Barcelona. No 26 de junho de 1967, o técnico Armando Renganeschi escalou Flamengo assim: Marco Aurélio; Jarbas, Ditão, Jayme Valente, Leon; Nelsinho, Reyes; Américo, Rodrigues, Osvaldo Ponte Aérea, Fio Maravilha.

    Flamengo tinha muitos jogadores machucados, entre eles Aírton, Carlinhos e Ademar, e apenas dois jogadores no banco. Assim, o Atlético de Madrid emprestou o paraguaio Reyes, que de tão bem jogo, acabou contratado pelo Flamengo, onde virou ídolo. Já do lado do Barcelona, Silva Batuta estreou bem no clube catalão, com dois gols contra Botafogo na Pequena Taça do Mundo em Caracas, mas as regras o impediam de jogar os jogos oficiais da liga espanhola. Escreveu no Jornal do Brasil o grande Armando Nogueira: ‘Vejam o que fazem com o rapaz: vendem-lhe o passe para o Barcelona numa hora em que o jogador estrangeiro não pode jogar na Espanha. Tipo da transação cruel em que o jogador é transformado em mercadoria. Já pensaram no drama desse rapaz? Ídolo completo e acabado de um dos maiores públicos do mundo, jogador em plena glória, faturando dignamente o seu ganha-pão, de repente vê-se transferido para um clube onde não pode jogar”.

    Como o Troféu Ibérico era amistoso, Silva Batuta conseguiu jogar, mas foi outro ídolo do Flamengo que brilhou em primeiro. Com apenas um minuto de jogo, Fio Maravilha abriu o placar para o rubro-negro. Depois, foi quase só o ataque do Barcelona e as defesas de Marco Aurélio. Na sua edição do dia seguinte, o Jornal dos Sports também fala de uma briga generalizada, uma “verdadeira batalha campal, de que participaram não só os 22 jogadores, como massagistas, reservas, técnicos e auxiliares”. Depois de intervenção da policia e parada de 15 minutos, a partida recomeçou. Ainda o Jornal dos Sports: “Na metade do segundo tempo, Nelsinho fez falta em Zabala, que o juiz Sanchez Ibañez anotou como penalidade máxima, que, cobrada, foi magistralmente desviada a corner pelo goleiro Marco Aurélio”.

    No seu livro Silva, o Batuta, Marcelo Schwob escreveu sobre o jogo e o lance: “Fla vencia por 1×0 com um gol milagroso de Fio no primeiro minuto da partida, que se resumiu no ataque espanhol contra a defesa rubro-negra. Mas o gol espanhol não saía. Marco Aurélio fazia milagres. Até que houve um penalty […] Silva iria bater. Jayme, que conhecia bem o modo de Silva cobrar pênalti, disse para o goleiro Marco Aurélio: ‘Pula no canto esquerdo, porque é onde ele costuma cobrar!’. Dito e feito. Silva chutou ali e Marco Aurélio defendeu […] Até jogando contra o Flamengo, Silva era rubro-negro. O curioso é que em depoimento dado para este livro, Jayme Valente nos disse que a indicação foi apenas para estimular o goleiro, pois não tinha certeza do que falara…”.

    Nos minutos finais, Rodrigues foi expulso por falta dura, mas, mesmo com um jogador a menos, Flamengo segurou o placar e deixou um pouco menos amargurada a excursão. Foram tempos difíceis, um dos piores períodos do Flamengo. Porém, era só uma fase, tinha um futuro brilhante. Na mesma edição do Jornal dos Sports, bem na página seguinte, podia se ler um convite de “Os Antunes em festa”: “Maria José, José Antunes Coimbra (Zeca), e Sra., Fernando (Nando), Eduardo (Edu), Antônio (Tunico) e Artur (Zico) convidam para a missa em ação de graças pelos 25 anos de casados de seus pais, José Antunes Coimbra e Dona Matilde Silva Coimbra […] É o convite simples que a família Antunes distribuiu para seus amigos e marca a passagem de 25 anos de vida unida de uma família, quase toda ela dedicada ao futebol. Antunes, Edu, Nando e Tunico jogam pelo America. O Zico, com apernas 15 anos, é astro das peladas e espera completar os 16, para também ingressar no America”. Três meses depois, com atuação decisiva de Celso Garcia, Zico chegava na Gávea, mudava a história de toda uma família e uma Nação inteira.

  • Jogos eternos #294: Flamengo 4×1 Cosmos 1977

    Jogos eternos #294: Flamengo 4×1 Cosmos 1977

    Flamengo joga hoje para o último jogo da fase de grupos do Mundial de clubes, já com o primeiro lugar garantido, contra Los Angeles FC, time fundado em 2014. Vamos então para a lembrança do dia de um jogo contra outro time americano, muito mais mítico, o Cosmos de New York.

    No 1.o de outubro de 1977, Pelé se aposentou, com jogo de despedida entre Cosmos e Santos em Nova York. Duas semanas depois, o Cosmos estava no Brasil para um jogo amistoso, parte da contratação de Carlos Alberto Torres, que trocou Flamengo pelo Cosmos meses antes. Detalhe, Flamengo e o Cosmos se reencontraram cinco anos depois, no Giants Stadium, para agora a despedida de Carlos Alberto Torres, outro jogo eterno no Francêsguista.

    Mesmo sem Pelé, o Cosmos ainda tinha um timaço. Além de Carlos Alberto Torres, tinha outro brasileiro na defesa, Rildo, um craque italiano na frente, Chinaglia, e uma craque mundial que fazia tudo no time, o alemão Franz Beckenbauer. Por sua vez, Flamengo perdeu o campeonato carioca contra Vasco numa disputa de penalidades traumática contra Vasco, com pênalti perdido do jovem Tita, mas já tinha um timaço que ia se firmar nos anos seguintes. Para o jogo contra o Cosmos, no 14 de outubro de 1977, o técnico Jayme Valente escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Nelson, Dequinha, Júnior; Merica, Adílio, Zico; Osni, Cláudio Adão, Luís Paulo.

    O jogo começou com uma decepção na bilheteria, com apenas 11.912 ingressos vendidos no Maracanã. O jogo começou com alegria em campo, com apenas 3 minutos de jogo, Adílio chutou, o goleiro Yasin, não o grande goleiro russo Yashin, mas um goleiro turco, desviou na trave, Luís Paulo seguiu o lance e abriu o placar. Dez minutos depois, Júnior lançou Osni, que cruzou da direita. Zico, que já tinha feito um gol no Maracanã dois dias antes, esta vez com a camisa da Seleção, cabeceou e já liquidou o jogo nos 15 primeiros minutos.

    No final do primeiro tempo, Tony Field fez um golaço para os americanos depois de bom passe de Benckenbauer, mas a superioridade rubro-negra era evidente. No segundo tempo, com um belo chute de fora da área, Zico, que se tornou pai pela primeira vez no dia seguinte, fez seu segundo gol do jogo. Zico cedeu seu lugar ao Tita, autor do último gol do dia, decretando um placar de 4×1. “O marcador só não foi maior porque o Flamengo teve o cuidado de evitar maior vexame para o time veterano do Cosmos” escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports. O Cosmos era mítico sim, mas Flamengo também era e ainda é.

  • Jogos eternos #293: Flamengo 5×1 Chapecoense 2017

    Jogos eternos #293: Flamengo 5×1 Chapecoense 2017

    Ainda na empolgação da vitória sobre Chelsea no Mundial de clubes, eu vou de um jogo de oito anos atrás, com um time bem diferente de hoje, mas que também se diferençava dos anos precedentes.

    Flamengo começou a mudar em 2015 com uma contratação de peso, o peruano Paolo Guerrero, apesar, com algumas excepções, de não corresponder totalmente em campo. Em 2016, Fla fez outra grande contratação, agora com mais peso nos gramados, Diego Ribas. E em 2017, Flamengo ainda se reforçou, com um jogador que estrearia no jogo seguinte e seria ainda mais importante para os sucessos futuros, Éverton Ribeiro. Campeão do campeonato carioca de 2017, Flamengo começou o Brasileirão de forma bem mediana, com 2 vitórias, uma derrota e já cinco empates, o último no Fla-Flu com gol no último minuto de Miguel Trauco. O companheiro peruano Paolo Guerrero era alvo de críticas, já que em quatro jogos no campeonato nacional, ainda não tinha balançado na rede.

    Para o jogo contra Chapecoense, no 22 de junho de 2017, o técnico Zé Ricardo escalou Flamengo assim: Thiago; Rodinei, Réver, Juan, Trauco; Willian Arão, Márcio Araújo, Diego; Berrío, Everton, Guerrero. Na Ilha do Urubu, adorava esse estádio bem característico dessa época ainda sem títulos mas com esperança de volta, a Chape, que meses antes viveu a tragédia da queda do avião, foi a primeira a estar em ação, sem fazer o gol. Para Flamengo, Everton, de cabeça, também não fez. Aos 14 minutos de jogo, num escanteio curto, Berrío cruzou, a bola voltou na entrada da grande área nos pés de Diego, que pegou de primeira, no fundo da rede. O maestro ainda de camisa 35 fez o primeiro gol e cinco minutos depois, cruzou para Paolo Guerrero, que esticou a perna e com um pouco de sorte, fez seu primeiro gol do Brasileirão de 2017. A dominação do Flamengo passou a ser absoluta e Fla só não fez mais gols no primeiro tempo por causa das defesas do goleiro Jandrei.

    No segundo tempo, Paolo Guerrero quase fez o doblete, mas uma vez chutou nas mãos de Jandrei, outra vez chutou para fora do gol. Aos 10 minutos do segundo tempo, a Chape aproveitou da falha do goleiro Thiago para fazer um gol e acreditar ao menos a um empate. Mas na Ilha do Urubu, era dia do Mengo, do Guerrero, do Diego. Faltando 15 minutos para o final do jogo, Juan cruzou, Willian Arão cabeceou, Jandrei desviou na trave, e Guerrero, num estilo oportunista, fez seu segundo do dia. Quatro minutos depois, o artilheiro virou garçom, Paolo Guerrero achou Diego, que dominou e chutou, sem chance para Jandrei. Dois de Guerrero, dois de Diego, quatro do Flamengo, que se aproximava da vitória fácil.

    E três minutos depois do quarto gol, Everton cruzou, Guerrero pulou, cabeceou, pediu a música. Pela primeira vez, Paolo Guerrero fazia um hat-trick com o Manto Sagrado. Flamengo oscilou em 2017, alegrou e decepcionou, e no caminho, uma goleada sobre a Chape com uma dupla Diego – Guerrero que brilhou na Ilha do Urubu.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”