Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Na geral #23: Entrei de vez no Mundial, o Flamengo também

    Na geral #23: Entrei de vez no Mundial, o Flamengo também

    O Mundial de clubes começou agora de verdade. Eu estava ansioso para o torneio, apesar de não ser perfeito. Lamento o critério das vagas oferecidas, com vantagem para os europeus. Também lamento a sede ficar nos Estados Unidos, dando ao torneio um clima de torneio de pré-temporada europeia. Teria sido muito mais legal a competição acontecer no Brasil, porque os brasileiros sempre valorizaram o Mundial de clubes. E valorizam ainda mais hoje. Agora o clima é de Copa do mundo.

    Estava ansioso para a competição e a possibilidade de assistir aos jogos com meu tão amado consulado Fla Paris. O sorteio ofereceu uma sorte contrastada. Com dois jogos às três da manhã, tinha apenas um jogo que era possível de assistir em Paris. Mas era contra o maior adversário, Chelsea, uma sexta-feira, véspera de festa da música. Um clima de Copa do Mundo. Porém, até o dia do jogo, eu não estava tão ansioso. Flamengo estreou bem na competição com vitória sobre Espérance de Tunis e tinha a possibilidade de se classificar na última rodada contra LA Galaxy, mesmo com derrota contra Chelsea.

    No Mundial dos clubes, eu tenho uma posição esquizofrênica em relação os clubes brasileiros. Torço para ver o futebol brasileiro, e até sul-americano, brilhar. A Europa se considera muita superior ao resto do mundo e ver o futebol sul-americano lutar pela vitória, até alcançar, é uma coisa linda de ver. Mas mesmo assim, a rivalidade é forte e acho que ficaria feliz com a eliminação dos outros clubes brasileiros. Dias atrás, estava otimista com uma vitória do Flamengo sobre Chelsea, porém com um pouco de superstição, achava que a vitória do Botafogo sobre Paris pegou a vez de Flamengo e não seria possível ter duas vitórias consecutivas contra os europeus.

    Assim, comecei o dia do 20 de junho sem ficar muito ansioso, nada a ver com a ansiedade antes de uma final de Copa Libertadores. Também cheguei no Fleurus, antiga sede do consulado Fla Paris e de volta para esse jogo, sem muito estresse. Mas meu amigo Waldez chegou, com uma animação de clima de Copa do mundo, de jogo decisivo. O jogo já tinha começado. Trinta minutos antes do jogo, já tinha 30 pessoas e a previsão era de casa cheia. O bar não é tão grande e ficou superlotado. No final, umas 80-100 pessoas, um dos encontros mais lindos do consulado já antes de bola rolada.

    Antes do jogo, começaram os cantos como poucas vezes vi no consulado, talvez só numa final de Copa Libertadores. Bola rolando, Flamengo começou bem o jogo mas tomou o primeiro gol numa vacilada da defesa, na verdade ainda no meio de campo. Aqui era a dura realidade do futebol europeu. Um time, mesmo não jogando bem, aproveita de um erro e garante vantagem no placar. O resto do primeiro tempo, ainda com muitos cantos, viu um Flamengo jogando bem, porém sem conseguir o empate.

    Com calor de verão parisiense e bar lotado, aproveitei do intervalo para respirar fora e falar do jogo. Flamengo estava bem e a esperança ainda era de virada. Se dá para empatar, dá para virar. Lá fora, o amigo Perceu perguntou quem devia entrar no segundo tempo. Fui olhar os jogadores disponíveis no banco e o nome de Bruno Henrique foi o destaque na minha cabeça, no meu coração, de tanto ídolo que ele é, de tantos jogos que decidiu. Lembro também que antes do segundo tempo começar, Waldez falou que a gente já tinha visto Flamengo fazer dois gols em 5 minutos. Claro, o Milagre de Lima, um jogo que já assisti com Waldez e todo o consulado. Na Fla Paris, Waldez tem uma fama de ser pé frio e alguns falaram disso no jogo de ontem. Cortei, hoje pé frio não tinha, a vitória era nossa.

    No início do segundo tempo, Gerson invadiu a grande área e chutou. O chute foi desviado e chegou até Gonzalo Plata. O gol era tão certo que já comemorei antes da bola ir na rede, o que ela não fez. Acho que a última vez que tanto xinguei um jogador do Flamengo foi Lincoln contra Liverpool em 2019. Acho que foi muito gol perdido, um lance que poderia ter definido o jogo. Ainda mais que no minuto seguinte, Léo Pereira quase fez gol contra, a bola passando por centímetros na trave de Rossi. A sorte era do Mengo.

    Bruno Henrique entrou no jogo e estranhei. Não por causa de BH, falei que queria o ver em campo, mas porque o substituído foi Arrascaeta. Nessa hora, já queria Gonzalo Plata sair do jogo, talvez até do Flamengo. Também tinha medo de perder a criatividade de Arrascaeta, o poder de decisão, mas verdade que o craque uruguaio apareceu pouco no jogo. Um amigo na minha esquerda, não lembro quem, falou que tinha que confiar no trabalho de Filipe Luís. Concordei, tinha que confiar, confiei. Na hora de jogo, cinco minutos para Bruno Henrique, Gerson tabelou com Bruno Henrique e abriu na esquerda para Plata, que dominou, cortou na direita e chutou atrapalhado. Não foi gol perdido, mas também não foi bonito e eu tinha tanta raiva que o xinguei ainda mais.

    E um minuto depois, a consagração. No início da jogada, ainda Gerson, que aproveitou da ultrapassagem de Wesley para ter espaço e cruzar. E no cabeceio, Plata foi perfeito, fora de alcance do goleiro ou da zaga dos Blues, perfeito para a chegada de um ídolo, Bruno Henrique, quase na mesma posição de Plata no gol perdido. Só que agora era Bruno Henrique, com uma carreira de muitos gol e títulos, com uma idolatria de poucos. Bruno Henrique fez o gol, fez a alegria da Nação, de Filadélfia a Rio de Janeiro, de Paris a qualquer lugar do mundo. Poucas vezes comemorei tão forte, tão intensamente, um gol. Era mais que um clima de Copa do Mundo, porque agora tinha meu maior amor, o Flamengo.

    E três minutos depois, a eternidade. Uma jogada semelhante, agora de escanteio, na esquerda, agora Bruno Henrique virando garçom, de cabeça, na segunda trave, agora para Danilo, no fundo da rede. Em três minutos, Flamengo virou, já escrevendo um dos capítulos mais lindos de sua história. Com a luz do sol e a arquibancada rubro-negra, o estádio de Filadélfia virou Monumental de Lima, o Fleurus virou Maracanazinho. Abracei os amigos e os não conhecidos, cantei, gritei, quase chorei, tinha uma felicidade que quase virava insanidade.

    Nicolas Jackson, atacante de Chelsea, facilitou o jogo para o Mengo com uma expulsão e quase não tremei no resto do jogo. E Filipe Luís confirmou que tem estrela como técnico do Flamengo. Wallace Yan entrou no jogo e no minuto seguinte, combinou com Plata, com um pouco de sorte (a sorte do campeão?), foi sozinho na frente do gol, botou a bola no gol e a alegria no meu coração. O consulado Fla Paris tinha uma noite de sonho e já um canto: Em junho de 2025, botou os ingleses na roda, 3×1 contra Chelsea, ficou marcado na história.

    Além da vitória, a noite foi um sucesso, com o final da campanha de alimentos, um pilar do projeto das embaixadas e consulados, abraçado pelo povo parisiense e rubro-negro. Outro pilar é reunir flamenguistas, reunir pessoas com uma mesma paixão. E até quem ainda não é apaixonado. Um de meus amigos franceses, Mathieu, foi ver o jogo no Fleurus. Apaixonado pelo Brasil e a América do Sul, falou antes do jogo que ainda não tinha time de coração no Brasil. Ao se despedir, me falou que agora tinha um time, Flamengo. Já escrevi que a paixão do rubro-negro é contagiante e ontem foi mais uma prova.

    Depois do jogo, entre sorrisos bobos de felicidade, algumas cervejas, risadas e sonhos. Antes do jogo, eu só tinha antecipado as oitavas de final, com o desejo de escapar do Bayern. Agora com a classificação garantida, e o primeiro lugar, ainda tem a esperança de jogar contra Benfica ou Boca Juniors, dois adversários que Flamengo pode vencer, e já vejo mais longe. Com a vitória do Botafogo, tem a possibilidade de escapar do Paris Saint-Germain nas quartas de final, tem a possibilidade de sonhar com uma semifinal, talvez ainda mais. Ainda tem jogos, ainda tem Flamengo, ainda tem um Mundial, em que entrei de vez.

  • Jogos eternos #292: Flamengo 3×1 Arsenal 1949

    Jogos eternos #292: Flamengo 3×1 Arsenal 1949

    Depois da boa estreia no Mundial dos clubes. Flamengo vem para seu jogo mais importante da competição, até aqui, contra Chelsea. Flamengo já jogou contra times ingleses, teve o jogo mais importância da história do Flamengo, o 3×0 contra Liverpool, quando botou os ingleses na roda, teve também outro jogo eterno no Francêsguista, na inauguração do Camp Nou, quando goleou Burnley em 1957. Hoje eu vou para um jogo contra o vizinho de Chelsea, a primeira vitória do Flamengo sobre ingleses, contra Arsenal em 1949.

    Os ingleses, diferentemente dos italianos ou espanhóis, sempre tiveram um certo desdém para o futebol de fora, como se ser o inventor do futebol equivalia a ser o melhor. Por isso a excursão do Arsenal em 1949, ainda mais que o time foi campeão inglês um ano antes, foi tão importante, tão marcante. Arsenal iniciou a jornada brasileira com goleada 5×1 sobre Fluminense. Em São Paulo, empatou contra Palmeiras e venceu o Corinthians. De volta ao Rio de Janeiro, perdeu 1×0 contra Vasco e enfrentava agora o maior de todos, Flamengo.

    O Maracanã ainda em obras, o jogo aconteceu no São Januário, com todos os ingressos à disposição vendidos em tempo recorde. Inclusive, os ingleses visitaram o Maracanã, como relatou José Lins do Rego: “Não vi os ingleses de queixo caído, mas o vi de boca aberta… o Estádio Municipal parece já o colosso que será. As formas de madeira, pilastras de cimento, as imensas galerias, tudo mesmo para provocar aquele espanto dos britânicos […] E quando um inglês abre a boca de admiração, é porque a coisa é mesmo para abafar”. E os ingleses ainda tinham coisas maravilhosas para ver, o Flamengo em campo, liderado pelo Jair Rosa Pinto. No 29 de maio de 1949, o técnico Kanela escalou Flamengo assim: García; Juvenal, Job; Biguá, Modesto Bria, Beto; Luisinho, Gringo, Durval, Jair Rosa Pinto, Esquerdinha. Destaque para o goleiro paraguaio García, que estreava neste dia com o Manto Sagrado.

    E García, e todos os outros jogadores do Flamengo foram pegos de surpresa, Arsenal abrindo o placar no primeiro minuto de jogo. “O Flamengo entrara em campo disposto a lutar como lutou, a fazer o que fez. O goal de Goring nos cinquenta e cinco segundos foi um golpe para o qual o Flamengo não estava preparado. Daí a desorientação do time” escreveu no dia seguinte no Jornal do Sports o eterno Mário Filho. No São Januário, a torcida vascaína comemorou por 7 minutos, até uma falta para Flamengo, de 35 metros. Sem perigo para os ingleses, para quem não conhecia Jair, com expectativa para quem conhecia o craque de pé pequeno, de talento imenso. Escreveu Mário Filho: “A multidão compreendeu quando a penalidade de quarenta jardas foi marcada que aquele era o grande momento do match para o Flamengo. O Flamengo poderia perder-se definitivamente ou salvar-se. Para o Arsenal tratava-se de um simples foul. Ninguém do Arsenal, por não conhecer bem o shoot de Jair, imaginava que aquele shoot de um jogador de perna fina e de pé de moça podia alterar todo o panorama da partida. Mas quem era brasileiro e estava em São Januário pressentiu o goal”.

    No seu excelente livro Nação Rubro-Negra, Edilberto Coutinho escreve: “Oito minutos, Mário Vianna pune falta de Smith em Durval. Um pouco longe do gol, mais para o lado esquerdo. Os ingleses armam barreira. Sete homens, orientados por Swindin. O pequenino Jair, de perna esquerda, bate na bola que sai rasteira, queimando a grama. Faz uma curva por volta da barreira e dá a impressão de que vai na direção do goleiro. Mas, de repente, toma um efeito contrário e entra, deixando o inglesão estático, de pernas abertas, tonto, sem compreender como aquilo foi possível: uma bola inverter a curva inicial, descrever um S. Sua perplexidade aumenta, ao fixar as pernas finas do autor do shoot. Tão finas que nem as meias de Jair Rosa Pinto se sustentavam. Ficavam caindo em cima das chuteiras. E o tamanho das chuteiras? Parecia pé de moça ou de menino”. Mário Filho completa: “ Viu-se Swindin curvar-se para defender a bola. Swindin continuou pronto para defender a bola, imóvel, enquanto a bola tomava, subitamente, outra direção, inapelavelmente para o fundo das redes. Quando Swindin percebeu a mudança de direção da bola era tarde. Nem teve tempo de atirar-se para fingir um esforço desesperado. Ficou onde estava. Só que desviou o olhar e viu a bola ganhando as redes”.

    Flamengo empatou e tomou conta do jogo, botou os ingleses na roda. Ainda Edilberto Coutinho: “Depois desse maravilhoso gol de empate, começa o baile. Os gringos na roda, a solução que encontram é dar botinadas. Mas nem isso funciona. O Flamengo mostra o que é a arte do futebol: a rapidez, a agilidade e o malabarismo dos artistas da Gávea é grande. Os pontapés dos supermen do Planeta Europa acertam o vento de São Januário. Silêncio na social”. Apenas Swindin, com algumas grandes defesas, impediu o Flamengo de voltar aos vestiários com um gol de vantagem, ou mais.

    Arsenal voltou para o segundo tempo com modificações, Rooke entrando em campo. Mas jogo ficou violento, o juiz brasileiro Mário Vianna até parando o jogo para solicitar a intervenção da polícia, e o jogo ficou sob dominação do Flamengo. “O Flamengo é um clube diferente dos outros. Os outros clubes não têm legenda. E legenda aí quer dizer uma expressão, um ‘slogan’ que incarne o clube. O Flamengo é o clube da força de vontade” escreveu Mário Filho, que prossegue assim: “Os jogadores lutando com o entusiasmo de flamengos. Até Jair. Jair lutando como um menino que vê num match a porta da glória. Quem está de fora achando que ele não pode aguentar aquele train de jogo. E Jair continuando a lutar como um menino. Justamente Jair o que parecia o mais anti-flamengo dos jogadores. Um jogador que jogava um shoot, que descansava nos matches, que não queria saber de se matar em campo. Pois Jair correu do princípio ao fim do match, molhando a sua camisa como só molham a camisa os jogadores que aparecem mais pelo entusiasmo do que pela técnica. Só com a diferença: é que correndo em campo, molhando a camisa, Jair não deixou de ser Jair”.

    Agora a palavra para Edilberto Coutinho: “Aos oito minutos, Jair Rosa Pinto pega uma bola no meio-campo e parte. A neguinha corre em linha reta, e Jair passando o pé por cima dela, como numa carícia. Dando a impressão – é ginga, é pura dança – de que vai ora para a direita ora para a esquerda. Jajá de Barra Mansa matando um por um os Atletas de Sua Majestade Britânica. Então, ainda fora da área, dribla para a esquerda, escapa à entrada forte de Barnes, puxa a nega, que cai sobre sua perna direita, a do moleque pegar bonde (naquele tempo, havia). Para surpresa dos ingleses – surpresa maior dos brasileiros e da Social vasca – vai de direita mesmo (não sendo o habitual e mortal canhotaço do Jair Rosa Pinto), Mais uma vez a bola faz a trajetória sinuosas, fugindo ao salto de Swindin. Mais uma que Jair Rosa Pinto coloca na última gaveta dos ingleses”.

    Essa crônica é uma tabelinha entre Edilberto Coutinho e Mário Filho, este escreveu: “O Flamengo teve grandes figuras. A maior de todas – a maior de campo, inclusive – foi Jair. Pelo espetáculo que ofereceu de virtuosismo. Um virtuosismo que não lhe diminuiu, pelo contrário, a influencia que teve no match e que foi decisiva. Modificou inteiramente o panorama da partida como o goal do empate que deu confiança ao Flamengo, que devolveu ao Flamengo a confiança perdida. E desempatou a partida com um goal magistral de pé direito. E se dizia que Jair não tinha pé direito. Parece que Jair escolheu o dia para desmentir tudo o que de ruim se dizia dele. E Jair tinha coração e Jair tinha pé direito. Jair com coração, Jair como pé direito, dá uma ideia do Flamengo”. De novo Edilberto Coutinho: “O Flamengo está virando Escola de Samba. Tem razão Gilberto Freyre: esse futebol é dança. Tem razão João Nogueira: o Flamengo é música. É a ópera com a bola”.

    Depois, foi a vez do goleiro García brilhar pela primeira vez no arco rubro-negro, impedindo os ingleses chegar a um empate que não merecia. E no final, o final perfeito, Durval, lutando com três jogadores do Arsenal, fazendo o terceiro gol do Flamengo, colorindo por um dia os torcedores vascaínos, botafoguenses e tricolores de rubro-negro. Mário Filho fecha sua crônica assim: “Foi, por tudo isso, uma vitória para botar no quadro. Bem do Flamengo e bem do football brasileiro. O team do Flameno soube ser o flamengo e soube ser o football brasileiro jogando com uma disciplina técnica inglesa. […] Uma vitória indiscutível. Do melhor team em campo, do melhor football em campo. Uma vitória maior do que o placar. Os três a um não dizem o que foi a vitória do Flamengo. Por isso é bom botar essa vitória num quadro. Para mostrá-la a todo o team que entrar em campo com a camisa do Flamengo. Foi assim que o Flamengo conquistou o seu público. É por isso que o Flamengo é o Flamengo”. O Jornal do Brasil viu uma “brilhante vitória do Flamengo” e o Correio da Manhã um dos “mais memoráveis triunfos” do Flamengo.

    Para fechar, nem Edilberto Coutinho nem Mário Filho, mas o herói do jogo, Jair Rosa Pinto, que fez um depoimento sobre o jogo ao Roberto Assaf em 1999: “ Os ingleses tinham um time muito bom. Não era conversa fiada. Me lembro do Macaulay e do McPherson. Os jornais só falavam do Arsenal. Mas eu fiz naquele dia uma partida fantástica, fora de série, exuberante, coisa nunca vista. Fiz um gol de falta de quase 40 metros. O goleiro quis tirar uma onde. Mandou abrir a barreira, eu dei uma pancada daquelas e ele nem viu por onde a bola passou. Logo, eles acharam que eu era o maior jogador do mundo. O técnico deles, Tom Whittaker, deu uma entrevista dizendo assim: ‘o Flamengo tem um rapaz de pernas finas, que calça 38, um menino… É um menino, mas joga demais, nunca vi nada igual’ […] Não saí muito bem do Flamengo, mas esse jogo contra o Arsenal ficou na minha memória. Foi, sem dúvida, um dos meus grandes momentos no futebol”. Sem dúvida, um dos grandes momentos de Jair e do próprio Flamengo.

  • Jogos eternos #291: Flamengo 3×0 Bangu 2020

    Jogos eternos #291: Flamengo 3×0 Bangu 2020

    Sem jogo do Flamengo hoje, volto ao passado com um jogo que aconteceu exatamente há 5 anos. E não era qualquer jogo, era a volta do futebol brasileiro depois de três meses parados por causa da pandemia de Covid-19.

    A volta do futebol gerava debates já que o Brasil tinha mais de 45 mil mortes do Covid. Em junho de 2020, era uma média de mais de mil mortes por dia, com um triste recorde de 1.470 óbitos no único dia do 4 de junho de 2020. Duas semanas depois, o futebol estava de volta no Rio de Janeiro, mesmo com quase 300 mortes por dia só no estado fluminense. Do outro lado, sem jogos, a economia do futebol não funcionava e muitos funcionários de clubes foram demitidos. O clube do Flamengo, com diretoria próxima ao presidente Jair Bolsonaro, estava em favor da volta do futebol. Mesmo que seu funcionário mais antigo, o eterno Jorginho, massagista do clube desde 1980, morreu do Covid no mês de maio.

    O futebol carioca estava de volta, o Flamengo também, com uma mistura de doce e salgado. Eu tinha saudade do futebol e do Flamengo, mas a situação sanitária estava dramática e parecia que só piorava, com muitas informações e ainda mais desinformação. Mesmo sendo contra uma volta antecipada do futebol, eu estava na televisão para assistir ao jogo do Flamengo, num Maracanã vazio, tinha que se acostumar. No 18 de junho de 2020, o ainda técnico do clube Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Léo Pereira, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol.

    O adversário era Bangu e o primeiro lance de perigo foi para Gabigol, que chutou de perna esquerda mas a bola apenas flirtou com a trave. Na direita, Rafina cruzou, a bola flirtou com a cabeça de Bruno Henrique e voltou no pé esquerdo de Arrascaeta, que fuzilou o goleiro para abrir o placar. Flamengo voltava ao futebol sem as pernas de 2019, mas ainda era capaz de brilhar. Na metade do segundo tempo, Michael lançou na profundidade Gabigol, que ganhou do adversário e cruzou para o cabeceio de Bruno Henrique, sem chance para o goleiro.

    No final do jogo, Gabigol, em dia de garçom, cortou no meio e deixou a bola para Pedro Rocha que, três minutos depois de entrar no jogo, fez seu único gol com o Manto Sagrado. Sem convencer nem comover, a não ser no minuto de silêncio em homenagem a Jorginho e às vítimas do Covid, Flamengo vencia facilmente Bangu. O futebol estava de volta em terras cariocas. No mesmo dia, 274 pessoas morreram do Covid no estádio de Rio de Janeiro, inclusive dois no hospital de emergência montado no próprio complexo do Maracanã.

  • Jogos eternos #290: Flamengo 4×1 Stade Soussien 1962

    Jogos eternos #290: Flamengo 4×1 Stade Soussien 1962

    Flamengo estreia hoje no Mundial de Clubes contra Espérance de Tunis, time da Tunísia. Flamengo já jogou contra times tunisianos, até jogou na Tunísia, em 1962.

    A história do Flamengo é riquíssima e detalhadíssima. Jogou em todos os continentes, em mais de 70 países, mais de 350 cidades. Para escolher minhas crônicas e combinar história e atualidade, eu sempre uso o site FlaEstatísticas, que tem as fichas de todos os jogos do Flamengo em mais de 120 anos de história. Com mais de 6600 jogos, tem apenas três partidas em que não se sabe quem fez gol: o décimo gol na goleada 14×0 sobre Mangueira em 1912, os gols no 6×2 contra Vila Isabela e o jogo contra o Stade Soussien em 1962.

    Entre abril e junho de 1962, Flamengo partiu para uma excursão na Europa e na África de 22 jogos, destaque com vitórias 2×0 sobre Barcelona, 5×1 contra Malmö e 5×1 contra a Noruega. Atravessou a Cortina de Ferro para jogar na Tchecoslováquia e também foi jogar na África. Fla estreou no Quadrangular da Tunísia contra o Stade Soussien, em El Menzah, perto de Tunes. No 16 de junho de 1962, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Mauro; Joubert, Vanderlei, Décio Crespo, Jordan; Carlinhos, Nelsinho; Joel, Henrique Frade, Dida, Miranda.

    Semanas atrás, Celso Júnior, dono do site FlaEstatísticas que já mencionei, entrou em contato comigo para tirar dúvidas sobre jogos do Flamengo na França, em Tolosa e Sochaux. Também falamos sobre o jogo contra o Stade Soussien em que, apesar das pesquisas profundas, não se sabe quem fez os gols do Flamengo. O Jornal dos Sports, principal fonte da época, escreve algumas linhas sobre a vitória 4×1 do Flamengo na Tunísia, um texto tão pequeno que podemos o citar integralmente: “Em partida realizada ontem, em Tunis, o Flamengo derrotou a equipe do ‘Stade Saoussien’, pela contagem de quatro tentos a um. O jogo foi valido pelo torneio quadrangular que se realiza naquela capital, tendo a equipe rubro-negra brilhado em sua estreia naquele certame. Em Túnis, o Flamengo ainda tem cerca de dois compromissos após os quais fará duas ou três exibições em Accra-Ganna, de onde retornará ao Rio”.

    Na França, escrevo sobre o futebol brasileiro no site Lucarne Opposée, que fala sobre futebol em vários lugares do mundo. Temos vários especialistas dos outros futebol e um deles, Farouk Abdou, é tunisiano. Entrei em contato com ele sobre esse jogo, mas ele me respondeu que tem nada nos arquivos, já que a Tunísia teve sua independência apenas em 1956. Porém, Farouk falou que tem a possibilidade que não foi exatamente os jogadores do Stade Soussien que jogaram contra Flamengo. Em 1961, o Étoile du Sahel, um dos maiores times da Tunísia, foi extinto depois de episódios de violência num clássico contra Espérance de Tunis, o adversário de hoje do Flamengo. Vários jogadores do clube de Sahel foram jogar no Stade Soussien até 1962, talvez enfrentando Flamengo. Já é um esclarecimento, porém a dúvida de quem fez os gols segue inteira.

    Ainda hoje pesquisei em vários jornais cariocas da época e só achei um trecho de O Jornal, dias depois apenas falando que “Flamengo ganhou um torneio de futebol em Tunis, cidade que, segundo os entendidos, deve ficar entre Barra Mansa e Volta Redonda…”. No 17 de junho de 1962, quando a Seleção conquistava o bicampeonato do mundo no Chile, Flamengo derrotou o Stade Tunisien 3×0, agora com marcadores definidos: Henrique Frade, Nelsinho e Dida. Flamengo conquistava o Torneio da Tunisia e seguia na África, no Gana. Há registros da Portuguesa Santista jogando na África do Sul em 1959 e o Santos de Pelé jogou no Marrocos em 1960, mas se não me engano, Flamengo foi o primeiro time brasileiro a jogar nessa parte da África. O Flamengo foi pioneiro, foi campeão e, mesmo sabendo pouco sobre os jogos, brilhou na África como brilhou em todos os cantos do mundo.

  • Jogos eternos #289: Flamengo 2×0 Ujpest 1979

    Jogos eternos #289: Flamengo 2×0 Ujpest 1979

    O início do Mundial de clubes se aproxima, entre empolgação e indiferença segundo os torcedores. Eu pessoalmente gosto do novo formato e estou ansioso para ver confrontos contra times de outros continentes, mesmo que agora os clubes europeus estão anos-luz na frente. Confrontos entre clubes europeus e sul-americanos existem desde quase sempre e a Europa não foi sempre o lugar onde se jogava o melhor futebol.

    Hoje quase inexistentes, os jogos amistosos eram comuns décadas atrás e eram para os clubes a única possibilidade de enfrentar times de outros horizontes, além de encher os cofres. Na minha cidade amada de Paris, o Santos de Pelé brilhou e permitiu aos parisienses de ver uma coisa nunca vista antes. Precursor nas excursões no Brasil, na América do Sul e no mundo inteiro, Flamengo disputou a segunda edição do Torneio de Paris, em 1958, ano de glória para o futebol brasileiro. Na semifinal, foi eliminado após um empate e… um sorteio fatal. Conquistou o terceiro lugar contra Ujpest, time da Hungria.

    Flamengo voltou a jogar contra Ujpest, vinte anos depois, num outro torneio prestigioso na Europa. A Espanha tinha vários torneios no final da temporada europeia, os mais importantes o Troféu Teresa Herrera na Corunha e o Troféu Ramón de Carranza em Cádis. O torneio convidava times importantes da Espanha, de outros países europeus e da Argentina, Uruguai e Brasil. Até 1979, Palmeiras foi o único brasileiro a conquistar o torneio, alias era tricampeão. O próprio Flamengo, em 1965, mas também Vasco, Botafogo, Santos e o Corinthians nunca conseguiram fazer melhor que um terceiro lugar. Benfica, duas vezes, era o único time além de Palmeiras que conseguiu tirar o título dos times espanhóis.

    Em 1979, entre duas fases de um exaustante campeonato carioca, Flamengo foi na Europa para disputar o Troféu Ramón de Carranza. A estreia era uma “final antecipada” contra Barcelona, campeão da Recopa de Europa três meses antes. O time catalão tinha um trio de ouro com Rexach, Krankl e a nova contratação, o dinamarquês Simonsen, Bola de ouro em 1977. No estádio Carranza, com apenas 2 minutos de jogo, Júlio César Uri Geller entortou vários adversários e abriu o placar. No final do primeiro tempo, o juiz recusou um pênalti para Flamengo e concedeu uma falta perto da grande área. Destino igual para Zico, que mesmo exausto depois de um jogo com a Seleção brasileira no Monumental de Buenos Aires, achou a rede do Barcelona. E o destino para Flamengo, depois de ser ovacionado de pé pelo estádio, foi a final.

    Para a Rádio Tupi, o jornalista Iata Anderson lembrou: “O super-Barcelona não sabe até hoje a cor da bola. Foi uma exibição de gala. Júlio César Uri Geller estava numa tarde infernal. Deixou os espanhóis encantados e assustados. Afinal, quem era aquele ponta que nem jogava pela Seleção e acabara de destruir uma potência da Europa, símbolo maior do futebol catalão? Carpegiani e Zico se encarregaram do resto. Que partida do Mengão”. Vale também citar a imprensa espanhola maravilhada, como o jornal madrilenho As que escreveu: “Um futebol de outra galáxia, não conhecido por aqui. Se tivesse mais sorte e precisão nas conclusões, o Flamengo teria imposto ao Barcelona uma goleada escandalosa e histórica”.

    A Espanha estava ansiosa para ver de novo o Flamengo em campo, agora na final, contra o Ujpest, que eliminou o dono da casa Cádiz na semifinal. No 26 de agosto de 1979, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele: Toninho Baiano, Manguito, Nelson, Júnior; Andrade, Carpegiani, Zico; Tita, Júlio César, Cláudio Adão. O técnico do time húngaro, que assistiu ao primeiro jogo do Flamengo, colocou três homens para a marcação do driblador Júlio César. Cláudio Coutinho foi bem mais esperto, com uma troca inusitada de números das camisas. Lembra Zico no livro Zico 50 anos de futebol de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Contra o time da Hungria teve a história dos negros. No vestiário, o Coutinho disse: ‘Para os húngaros, os negros são todos iguais’. Eles marcavam homem a homem, então o Coutinho pegou o Toninho e botou nele a camisa nove, pegou o Cláudio Adão e pôs nele a dois, a oito no Manguito, a quatro no Andrade… Foi tudo estudado. Nós combinamos: o Adão dá a saída para mim, eu dou ao Carpegiani, o Júnior entra aqui, o Carpegiani, o Júnior entra aqui, o Carpegiani dá e o Adão de movimentava para que eu possa entrar pelo meio. Pois bem. Deu a saída, o Adão tocou para mim, e dei para o Carpegiani e parti. O Carpegiani segurou um pouquinho, o Júnior entrou, ele meteu por cima do Júnior, o Adão se movimentou, o Júnior deu para mim e eu fiz o gol. O cara que era para marcar o Adão estava com o Toninho lá na lateral-direita e o outro com o Adão, e por aí vai”.

    Com sua humildade de sempre, Zico esqueceu de dizer que o gol foi golaço tanto na construção do que na finalização, de cobertura. Os húngaros nem tinham tocado na bola e Flamengo já estava na frente no placar, com apenas 9 segundos de jogo, talvez um recorde na história do Flamengo. Na metade do segundo tempo, Zico fez outro gol, Flamengo venceu 2×0 e podia levantar, ou ao menos segurar, a impressionante taça, de 1,5 metro de altura e 65 quilos. Na volta para o Brasil, o time do Flamengo compartilhou o voo com exilados de volta ao Brasil depois da anistia e desembarcou no Rio de Janeiro com festa, ao som de Apesar de você, de Chico Buarque. Teve até a fundação da “Flanistia”, era um momento de alegria para os amantes da liberdade e do futebol brasileiro, que mais uma vez brilhou na Europa. Para fechar a crônica, deixo o comentário do Diaro de Cádiz, que em poucas palavras já diz tudo, após o jogo contra Barcelona: “O Flamengo fez com os pés o que os Globetrotters fazem com as mãos”.

  • Jogos eternos #288: Flamengo 3×0 Vasco 2000

    Jogos eternos #288: Flamengo 3×0 Vasco 2000

    Três dias atrás, escrevi sobre um Flamengo x Vasco de 1975, exatamente 50 anos após o jogo. Ainda sem jogo do Flamengo, eu vou de outro aniversario do Clássico dos Milhões, agora de 25 anos.

    E não foi qualquer Clássico dos Milhões, era a final do campeonato carioca. E não era qualquer Vasco, era o Vasco de Romário e Edmundo, um time que conquistou o Brasileirão e a Copa Mercosul no final do ano. No início do ano, Vasco venceu a Taça Guanabara, aplicando um 5×1 sobre Flamengo com 3 gols de Romário. Flamengo perdeu (liberou) o próprio Romário no final de 1999 e vivia novos sonhos com a empresa ISL. Ainda sem as contratações de peso (algumas que não pesaram tanto) do segundo semestre como Alex, Edílson, Denílson e Gamarra, Flamengo se recuperou no campeonato carioca e conquistou a Taça Rio. A final era Flamengo x Vasco, era Clássico dos Milhões.

    A vontade para Vasco era de vingança, já que perdeu a final do campeonato carioca um ano antes contra Flamengo. Mesmo sem Juninho, Vasco tinha um timaço, Mauro Galvão na zaga, Amaral e Pedrinho no meio, e claro, a dupla Romário – Edmundo na frente. Vasco era o favorito, mas Flamengo tinha no banco um ídolo, Carlinhos Violino, de volta após uma cirurgia cardíaca, para sua sexta e última passagem como técnico do Mengo. No 11 de junho de 2000, o ídolo Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Maurinho, Juan, Fabão, Athirson; Leandro Ávila, Mozart, Fábio Baiano, Iranildo; Tuta, Reinaldo.

    Flamengo dominou o início do jogo, com Iranildo como maestro do time. Helton fez boa defesa num chute de longe de Fábio Baiano, Mozart também chutou de longe e Helton fez outra grande defesa. Vasco só conseguiu ameaçar a meta rubro-negra na segunda parte do primeiro tempo e foi a vez de Clemer brilhar num chute potente de Paulo Miranda. Em resposta, Tuta quase fez o golaço de letra, mas Helton defendeu mais uma vez. O Flamengo dominava absolutamente o primeiro tempo, porém no placar a igualidade persistia. Romário, de volta de lesão, foi perfeitamente anulado pela zaga rubro-negra e o juiz apitou o intervalo sem gol marcado.

    O segundo tempo começou igual o primeiro tempo, Flamengo dominando, sem conseguir fazer o gol libertador. Tuta quase fez outro golaço, agora de bicicleta, e mais uma vez Helton defendeu. O jogo estava bloqueado e se abriu com a expulsão de Nasa por um segundo amarelo. Athirson, mais uma vez reinando na sua ala esquerda, voltou no meio e chutou de longe, Helton fez outra defesa. O goleiro era o único a impedir o naufrágio do Vasco.

    Na parte do campo de Vasco, Edmundo conseguiu um drible em cima de Athirson mas errou no passe fácil a 30 metros do gol vascaíno. Tuta tocou atrás de bico para Fábio Baiano, já acionando Athirson. No domínio da bola, Athirson girou de sola em direção ao gol e chutou cruzado, sem tanta força, mas um chute preciso e rasteiro, para finalmente vencer Helton, para abrir o placar, esquentar o Maraca. E quase já matar um Vasco que mostrou quase nada durante o jogo. Um gol merecido, o décimo no torneio de Athirson, o craque do campeonato.

    Faltava 15 minutos para o final do jogo e Flamengo continuou a dominar, Athirson continuou a atacar. O lateral-esquerdo acelerou, pedalou, gingou na frente de um Amaral mais uma vez perdido na frente de um rubro-negro. Athirson cravou a falta no lado esquerdo, ideal para um cruzamento. Helton posicionou a barreira, tentou acalmar o time. Uma cena que se repetira, de outro lugar do campo, no mesmo Maraca, com outro jogador para bater a falta e se eternizar no Clássico dos Milhões. Em 2000, a cobrança foi para Fábio Baiano que, esperto, tentou, e achou, diretamente a gaveta. Um golaço, um dança de Fábio Baiano e aplausos do sempre calmo Carlinhos.

    No tempo adicional, quando ao mesmo tempo Gustavo Kuerten se aproximava de conquistar o Roland Garros e meu coração já dividido entre Brasil e França, Maurinho cruzou na direita para Lúcio, que cabeceou mal. O cabaceio errado se transformou em assistência linda para outro jogador que saiu do banco durante o jogo, Beto. Era o terceiro gol do Flamengo, o Maracanã se transformou em festa e canto de baile funk com referência a um Velho Lobo, que se eternizará num outro Clássico dos Milhões um ano depois: “Tá dominado, tá tudo dominado / Tá dominado, tá tudo dominado / ih, ih, ih, vai ter que me engolir”. Flamengo vencia a primeira, faltava 90 minutos de pura emoção para conquistar um título menos marcante que o de 2001, mas que nunca podemos esquecer.

  • Jogos eternos #287: Flamengo 2×1 Vasco 1975

    Jogos eternos #287: Flamengo 2×1 Vasco 1975

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou para um jogo que aconteceu exatamente 50 anos entre Flamengo e o arquirrival Vasco. O Clássico dos Milhões foi o melhor clássico do futebol carioca a partir da segunda metade dos anos 1970 por causa de dois jogadores de alta categoria e classe dentro e fora do campo, Zico para nós, Dinamite para eles.

    No campeonato carioca de 1975, Flamengo foi bem mediano na Taça Guanabara com 5 vitórias, 3 empates e 3 derrotas. Precisava vencer o segundo turno para já se classificar no triangular final. Andava bem melhor no segundo turno, a Taça Augusto Peira da Motta, ainda era invicto com 6 vitórias e 2 empates. Problema é que Botafogo fazia ainda melhor, com apenas um ponto perdido, justamente contra Flamengo. A vitória rubro-negra contra Vasco era obrigatória.

    No 8 de junho de 1975, para mais um Clássico dos Milhões, o técnico Joubert escalou Flamengo assim: Cantarele; Júnior, Jayme, Luís Carlos, Rodrigues Neto; Liminha, Geraldo, Zico; Doval, Luisinho Lemos, Edson. No lado vascaíno, além de Roberto Dinamite, destaque para Edu Coimbra, o irmão de Zico, que ingressou Vasco neste ano de 1975 depois de 10 anos brilhando no America. E Flamengo, além de Zico, tinha dois craques no meio de campo, o saudoso Geraldo, que nos deixou no ano seguinte, e o argentino Doval, que também morreu cedo.

    No Maracanã, com mais de 75 mil presentes na arquibancada e na geral, Flamengo precisou de apenas 12 minutos para abrir o placar. Doval lançou Geraldo, que fintou Zanata e voltou atrás para o próprio Doval. O chute de Doval não saiu forte, porém preciso, com um pouco de efeito que deixou o também argentino Andrada vencido. Flamengo dominou o resto do primeiro tempo, sem fazer o outro gol.

    Após o intervalo, Vasco voltou melhor e empatou aos 7 minutos do segundo tempo. Numa falta cobrada por Edu, o lateral Paulo César aproveitou da indecisão na pequena área e fuzilou Cantarele. A esperança vascaína durou apenas 5 minutos. Geraldo abriu na direita para Júnior, que entrou em velocidade na grande área, porém sem dominar bem a bola. A jogada ficou indecidida até chegar aos pés de Zico. Aí já era decidido. Zico dominou a bola, deixou quicar no chão uma vez e chutou no gol. O Vasco inteiro reclamou da arbitragem, alegando uma mão de Zico, porém não adiantava, Flamengo venceu, o Clássico dos Milhões era rubro-negro.

  • Jogos eternos #286: Flamengo 4×1 River Plate 1959

    Na última crônica, para antecipar o Mundial de clubes, eternizei um jogo entre Flamengo e Corinthians no torneio octogonal de Rio de Janeiro de 1961, com times brasileiros, argentinos e uruguaios. Eu faço agora um passo de dois anos atrás com um torneio ainda mais prestigioso, o Torneio Internacional de Lima, também chamado de Gran Serie Sudamericana Inter Clubs.

    O torneio tinha apenas 6 times, 6 gigantes: Flamengo, River Plate, Peñarol, Colo-Colo, Alianza Lima e Universitario. Sem dúvida, foi inspirado da Copa dos campeões europeus e o embrião da Copa Libertadores, criada no ano seguinte, ainda com o nome de Copa dos Campeões. Exaustado com o interminável (supersuper)campeonato carioca 1958, Flamengo estreou no Torneio Internacional de Lima com derrota 2×0 contra Peñarol, mas se recuperou com vitórias sobre Universitario e Colo-Colo. Por sua vez, River Plate, tricampeão argentino entre 1955 e 1957, foi o único a derrotar Peñarol, campeão uruguaio em 1958. Assim, os três favoritos ainda eram candidatos ao título final.

    Assim, o jogo entre Flamengo e River Plate era decisivo, quase uma semifinal. No 3 de fevereiro de 1959, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Fernando; Joubert, Pavão, Jadir, Jordan; Milton Copolillo, Moacir; Luis Carlos, Henrique Frade, Dida, Babá. O Flamengo andava desde a primeira rodada sem um dos seus maiores craques no meio de campo, Dequinha, machucado contra Peñarol. Mas se ainda queria o titulo, a vitória era obrigação.

    Em Lima, terra de milagres, terra de Flamengo x River inesquecíveis, foi o time argentino que dominou o início do jogo, obrigando o goleiro rubro-negro Fernando a fazer várias defesas. O jogo era difícil, na sua crônica no Jornal dos Sports, Carlos Marcondes escreveu: “Também não se entrosou de início a dianteira do clube da Gávea, perdendo-se Moacir em fintas inúteis. Mesmo assim, quando conseguia realizar seu intento de fornecer pelotas ao comando, coube a Henrique desperdiçar infantilmente inúmeras oportunidades”. Flamengo reagiu e passou a dominar o jogo, ainda sem fazer o gol. “Apenas os tentos não surgiam porque não estavam em noite inspirada os homens-goals comandados por Fleitas Solich. Nem Dida, nem Henrique ou mesmo Luís Carlos conseguiam traduzir em números a superioridade e pressão que passou a surgir desde os vinte minutos da primeira etapa” ainda escreveu Carlos Marcondes.

    E no final do primeiro tempo, finalmente saiu o gol do Flamengo, em dose dupla. “Somente quase ao final da primeira etapa, ou seja, aos 42 minutos pode o Flamengo traduzir no marcador sua superioridade, com um tento de Luís Carlos, recebendo na ponta, ótimo passe de Henrique. Nem bem os portenhos se haviam refeito do golpe quando aos 44 minutos Henrique fugiu pelo setor esquerdo e fuzilou com um tiro seco e enviesado, marcando o segundo goal dos rubro-negros”. Sem mudanças no intervalo, o segundo tempo também não mudou. “Acontece ainda que o panorama foi exatamente igual ao do final da primeira etapa. Domínio técnico, tática e territorial da equipe brasileira” prossegue Carlos Marcondes.

    Norberto Menéndez, que teve a proeza de ser ídolo de River Plate e depois do Boca Juniors, fez um gol para River, mas a alegria dos argentinos, ou “portenhos” como se chamava mais frequentemente na época, durou pouco tempo, muito pouco. Ainda o Jornal dos Sports na edição do dia seguinte: “Nem bem sentiam-se os portenhos confortados com a diminuição do placard, foi dada a saída, de Henrique, para Moacir, deste para Babá e, sempre de primeira para Henrique, que marcou um minuto após o tento adversário, restabelecendo a diferença no marcador, com o placar de 3×1”. O Flamengo estava muito superior e fez um quarto gol, agora com Babá: “Em boa combinação de Moacir com Babá, este último enveredou pelo setor esquerdo, driblando sensacionalmente seu marcador Ballesteros. Com um ângulo livre, atirou sem que o goleiro Ovejero pudesse fazer qualquer esforço para a defesa. Era o tento número quatro que caracterizava a vitória e a manutenção da liderança”.

    Fecho meu trabalho de escriba do dia com a analise de Carlos Marcondes sobre a goleada: “Na realidade, não há o que reclamar por parte dos portenhos pela vitória rubro-negra. Foi justa, incontestável e insofismável”. Melhor ainda o último jogo, já eternizado no Francêsguista, mas vale repetir. Flamengo perdia 0x3 contra Alianza Lima e no segundo tempo fez 4 gols em 8 minutos para virar o jogo e conquistar o título. Uma virada monumental, uma vitória épica, um “Carnaval em Lima”, um troféu de prestígio, um Flamengo imortal.

  • Jogos eternos #285: Flamengo 2×1 Corinthians 1961

    Jogos eternos #285: Flamengo 2×1 Corinthians 1961

    Flamengo goleou Fortaleza e mira agora o Mundial dos clubes nos Estados Unidos. Estou ansioso para a competição e ver os confrontos entre clubes de diferentes países e continentes. Há anos e anos que existem competições internacionais, algumas oficiais como hoje e outras amistosas como era mais comum nos dias mais distantes.

    Em 1961, mesmo com a Copa Libertadores já criada, o presidente do Boca Juniors, Alberto José Armando, inclusive que deu seu nome ao mítico estádio da Bombonera, idealizou um torneio da América do Sul com 2 gigantes do Rio de Janeiro (Flamengo e Vasco), de São Paulo (Corinthians e São Paulo), da Argentina (Boca Juniors e River Plate) e do Uruguai (Nacional e Cerro). Há outros clubes que pediram o reconhecimento deste torneio como uma Copa Libertadores. Não quero que seja o caso do Flamengo, acho que só apequena o clube, porém precisamos falar sobre esse torneio e de sua importância na época.

    Prova é o Jornal dos Sports, que falava na edição do dia de abertura do “Torneio Octogonal, cujo certame nasce cercado da mais acentuada expectativa”. Flamengo estreou no Torneio Octogonal Sul-Americano contra o Corinthians, inclusive os dois times se reencontraram três meses depois na final de um outro torneio importante que sumiu, o Torneio Rio-São Paulo, com título do Flamengo e jogo eternizado no Francêsguista. Antes disso, para a estreia do Torneio Octogonal, no 4 de janeiro de 1961, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Ari; Joubert, Bolero, Jadir, Jordan; Carlinhos, Gérson; Luís Carlos, Henrique Frade, Babá, Dida.

    Nem todos os espectadores haviam chegado ao Pacaembu quando Flamengo abriu o placar, já no primeiro minuto do jogo. Segundo a reportagem do Jornal dos Sports, “a bola veio ter aos pés de Dida, que, em excelente situação, chutou bem, para assinalar o primeiro goal do Flamengo”. O jogo ficou equilibrado e Gérson quase fez de falta, Gilmar defendeu parcialmente e teve o tempo de afastar o perigo antes da chegada de Dida. Antes do intervalo, o Corinthians quase empatou, mas o juiz uruguaio Esteban Marino, que um ano depois será pivô da absolvição de Garrincha para jogar a final da Copa, assinalou um impedimento.

    O jogo ainda andava equilibrado e os dois goleiros Ari e Gilmar brilharam. No intervalo, Moacir entrou no lugar de Dida, mas o Corinthians empatou no início do segundo tempo graças a um gol de Lanzoninho. O Pacaembu pegou fogo mas gelou dois minutos depois. “Um chutaço de Henrique voltou no ataque. Vinha parar nos pés de Gérson, mas o meia, proposicionalmente, deixou passar e Moacir aproveitou bem: enfiou o pé com decisão. Era o segundo goal rubronegro”. Mesmo sem imagens, um gol com marca de gênio de Gérson e feiticeira do experiente técnico paraguaio Fleitas Solich.

    Na frente no placar, Flamengo passou a dominar mas quase concedeu o empate. “Joaquinzinho ia marcar, apareceu Jadir na hora exata para afastar a escanteio”. Jadir salvou, Flamengo conseguiu a vitória no Pacaembu e estreou bem num Torneio Octogonal conquistado três semanas depois.

  • Jogos eternos #284: Flamengo 2×1 Fortaleza 2020

    Jogos eternos #284: Flamengo 2×1 Fortaleza 2020

    Flamengo joga hoje contra Fortaleza, último jogo antes da ida aos Estados Unidos para o Mundial dos clubes. Tenho muitas esperanças para o Mundial e eu vou para a lembrança do dia de um jogo ainda recente, ano do último título brasileiro, com alguns craques que teriam merecidos jogar essa competição se ela tivesse criada antes.

    Em 2020, apesar do título no final, Flamengo começou mal o campeonato com duas derrotas. Melhorou, mas ainda estava apenas na sexta colocação após a 7a rodada e um outro jogo eternizado aqui, uma vitória 5×3 na Bahia. Três dias depois, numa Maracanã ainda vazio por causa da pandemia, Flamengo enfrentou outro time nordestino, Fortaleza. No 5 de setembro de 2020, o técnico Domènec Torrent escalou Flamengo assim: Gabriel Batista; Isla, Gustavo Henrique, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Arrascaeta; Everton Ribeiro, Michael, Pedro. Ou seja, três jogadores, Gerson, Arrasca e Pedro que podem escrever a história no Super Mundial, mais o técnico Filipe Luís. Sem esquecer os craques que já saíram do Flamengo.

    Com apenas 6 minutos, o jogo contra Fortaleza já entrou na história. Everton Ribeiro fez um passe sensacional de trivela, Pedro dominou de peito e fez o voleio. O goleiro Felipe Alves defendeu, apenas de forma parcial. Everton Ribeiro chegou e se eternizou mais uma vez no Flamengo. Quando a lógica queria que o jogador chutasse o mais forte possível para a bola entrar no gol, Everton Ribeiro apenas fez uma cavadinha para tirar o goleiro da jogada e concluiu de cabeça. Depois de já um golaço contra Bahia, Everton Ribeiro fazia outra maravilha, um gol eleito pela CBF o mais bonito do Brasileirão de 2020. Esses dois gols, junto com o gol contra Cruzeiro em 2018, são para mim o top 3 dos gols mais bonitos de Everton Ribeiro com o Manto Sagrado. E minha preferência maior vai para o gol contra Fortaleza, pela rapidez do raciocínio, pela capacidade de fazer o gesto nada evidente, mas absolutamente adequado. Os gols contra Bahia e Cruzeiro são de poucos jogadores, de craques capazes de tal pintura, o gol contra Fortaleza ainda menos.

    Cinco minutos depois, Isla fez falta burra e concedeu o pênalti, Juninho empatou. Em seguida, Fortaleza quase virou, Osvaldo tocando na trave. Flamengo voltou a dominar, mas sempre travava no goleiro ou com um chute fora do gol. Rodrigo Caio, Arrascaeta, Michael e Pedro tentaram, mas nada do gol antes do intervalo. Sem público, jogo ficou mais morno no segundo tempo, o técnico Doménec precisava mexer.

    De pivô, Gabigol, que entrou no intervalo no lugar de Pedro, tentou, mas chutou para fora. Bem servido por Everton Ribeiro, Gabigol teve outra chance, mas chutou fraco. Sem arrependimento, estava em impedimento. Faltando cinco minutos para o final do jogo, o craque Everton Ribeiro apareceu de novo, deixou a bola na direita para Matheuzinho, que também entrou no decorrer do jogo. Matheuzinho cruzou no chão, Gabigol de primeira, ajustou o pé, ajustou o goleiro, fez a alegria da Nação, em casa só. Flamengo vencia do jeito que gostava, um gol no final do predestinado Gabigol, e um golaço, uma pintura, uma obra de arte inesquecível de nosso craque de sempre, Everton Ribeiro.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”