Jogos eternos #139: Flamengo 3×2 São Paulo 1982

Flamengo reestreou na Copa Libertadores e está perto de reestrear em mais uma competição, o Brasileirão que Flamengo não ganha desde 2020. Vamos para hoje numa outra reestreia do Brasileirão, em 1982, que viu no final das contas Flamengo conquistar o bicampeonato.

No início de 1982, o Flamengo estava o Maior do Mundo, no papel e no campo, com um 3x0 eterno contra Liverpool. Campeão de quase tudo, sonhava de conquistar de novo o Brasileirão, que escapou das mãos rubro-negras em 1981 com eliminação nas quartas de final. Para a edição de 1982, Flamengo começou num grupo de 5 times e estreou contra o adversário mais poderoso, o São Paulo.

Para o primeiro jogo do ano, no 20 de janeiro de 1982, inclusive dia de São Sebastião, padroeiro de Rio de Janeiro, o Maracanã estava bem lotado. Um público de 85.236 pessoas, para festejar os recentes campeões do mundo. E o Paulo César Carpegiani, quase repetindo o time campeão mundial, escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Chiquinho, Lico, Nunes. Na época, o futebol brasileiro era o maior do mundo e São Paulo tinha um grande time também, quase só com jogadores com passagem na Seleção. A defesa tinha o goleiro Waldir Peres, os laterais Getúlio e Marinho Chagas e provavelmente a maior zaga da história do clube, com Oscar e o uruguaio Darío Pereyra. O Tricolor ainda tinha o craque Mário Sérgio na armação do time e uma dupla de ataque poderosa, com Renato e Serginho Chulapa. Um timaço, para um jogo eterno, já antes do apito inicial.

E no Maracanã, o São Paulo foi o primeiro time a brocar, com o maior artilheiro de sua história, Serginho Chulapa, que de pé esquerdo, no estilo dele, achou o cantinho de Raul. Antes do intervalo, Renato, antigo craque do Guarani, cruzou e Serginho Chulapa, quase em cima da linha, só teve a empurrar a bola nas redes para completar o doblete. Serginho Chulapa foi o titular da Seleção de 1982 e foi bastante criticado pelo seu desempenho. Minha escolha para o ataque da Seleção, considerando a lesão de Careca teria sido Roberto Dinamite, fazendo dupla com Reinaldo. E o reserva teria sido nosso ídolo Nunes, que tinha mais bola para jogar com Zico, Sócrates & Cia. Mas mesmo sem ser gênio da bola, Serginho Chulapa era um artilheiro nato e no início de 1982, permitia ao São Paulo de voltar aos vestiários do Maracanã com vantagem de 2 gols, uma vantagem quase definitiva. Quase.

Flamengo, campeão do Rio, campeão da América, campeão do Mundo, só faltava o Brasil, voltou melhor no segundo tempo. Falou Zico no livro Zico, 50 anos de futebol: “Voltamos para o vestiário com uma vergonha danada, 85 mil pessoas no Maracanã… No vestiário, fizemos a corrente… vamos lá, vamos lá! Olha, o time voltou prontinho. Quando fizemos o primeiro gol, o estádio veio abaixo. O time de São Paulo ficou maluquinho”. Com uma hora de jogo, Júnior achou Zico, de costas, à 30 metros de distância do gol. Sempre me impressiona e me encanta a rapidez e a objetividade de Zico. No domínio da bola, já tinha visto tudo. Dominou a bola, girou, fez o passe para Lico no contrapé dos defensores e já chamou a bola de novo no espaço vazio. Lico completou a tabela e de novo, Zico foi mais craque que os outros. Apenas no domínio, escapou de dois adversários. A finalização foi de quem fez mais de 800 gols na carreira, de quem sabia tudo da bola. Combinou força e precisão, sem chance para Waldir Peres. A geral se inflamava e voltava a acreditar na virada.

Dez minutos depois, numa bola mal saída pela defesa tricolor, Adílio fez na grande área várias fintas, vários dribles, mas a bola finalmente escapou dos pés dele. E Zico, mesmo sendo craque, tinha a combatividade de quem era ruim de bola, de quem só tinha isso para jogar. Só que Zico tinha o drible do gênio da bola, o chute do artilheiro nato, o cérebro do meia arquiteto, o coração do meia raçudo. Acreditava em todas as bolas, até as mais perdidas. Na ponta do pé, ressuscitou a bola, que voltou atrás nos pés de Andrade, que chutou de primeira, que empatou. Além de Zico como sempre, agora era toda a geral do Maraca que acreditava na virada.

E dez minutos depois, Júnior, bem servido pelo Lico, cruzou na esquerda para Zico, que fez de cabeça o gol da virada, o gol da vitória do Mengo. Claro, Zico tinha o cabeceamento do goleador voador. O cabeceamento não ia faltar ao repertório do Zico, um dos jogadores mais completos de todos os tempos. A geral podia explodir de felicidade, Flamengo virava e fazia o primeiro passo para o bicampeonato. No final do campeonato, com várias outras viradas e time histórico, com jogo eterno contra Grêmio, Flamengo voltava a ser campeão do Brasil, a ser campeão de tudo.

Uma resposta a “Jogos eternos #139: Flamengo 3×2 São Paulo 1982”

  1. Avatar de Jogos eternos #170: Flamengo 3×0 Ferroviário 1982 – Francêsguista, as crônicas de um francês apaixonado pelo Flamengo

    […] Brasileirão de 1982, no início do ano, Flamengo começou justamente contra São Paulo, um jogaço já eternizado no blog, com vitória do Flamengo de virada. Depois, Flamengo venceu Náutico, também de virada, e goleou […]

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”