Jogos eternos #402: Flamengo 3×3 Vasco 2000

Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de um jogo aniversariante com um clássico eterno, disputado ao menos mais de 400 vezes, talvez milhões de vezes. Porém, escolho de um placar raro, que aconteceu apenas seis vezes na história do clássico, um placar que acho bom demais. E a última vez que tal resultado aconteceu foi exatamente 26 anos atrás.

Em 2000, o clássico Flamengo x Vasco viveu um de seus momentos mais acirrados da rivalidade. Ainda mais que Romário trocou o Flamengo para o Vasco no início do ano. Na sua volta contra o Mengão, o Baixinho deixou 3 gols na goleada 5×1 do Vasco. Foi o fim da linha para o técnico Carpegiani e depois de uma incerteza com o Carlos César, o Carlinhos Violino, herói da Copa Mercosul de 1999 e de tantos outros momentos rubro-negros, voltou mais uma vez no banco do Mengo.

A volta do Carlinhos como técnico alegrava o time, principalmente a estrela sérvia Petkovic. “Técnico faz até Petkovic sorrir”, escreveu o Jornal do Brasil, que relatou as palavras de Carlinhos para o Pet: “Eu já fui jogador e quero o melhor para nós dois. Como você prefere jogar?”. Para a imprensa, o Violino explicou a nova função do Maestro: “Não vou pedir para ele marcar. A palavra certa é participar. Ele tem que estar sempre no jogo, participar ali dentro do seu pedaço de campo”. Fora do jogo contra Bahia por causa de uma amigdalite, Petkovic devia voltar contra o Vasco.

O jogo de ida na Taça Guanabara ainda ficava na memória de cada torcedor, seja vascaíno, seja flamenguista. O Vasco venceu a Taça Guanabara de maneira invicta e já tinha seu ingresso para a final do campeonato. Porém, Romário, principal nome da goleada cruzmaltina, estava fora da partida da Taça Rio. Do outro lado, tinha a volta de Edmundo para o Vasco e de Athirson para o Flamengo. Além da volta de Petkovic. Era um jogaço antes do apito inicial. Em 28 de maio de 2000, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Maurinho, Juan, Fabão, Athirson; Rocha, Mozart, Fábio Baiano, Petkovic; Reinaldo, Leandro Machado.

O Clássico dos Milhões se animou com apenas 5 minutos de jogo. Fábio Baiano cobrou uma falta com potência, bola foi desviada e chegou até o Juan, que antecipou a saída de Helton. O zagueiro-artilheiro esticou a perna e abriu o placar. Flamengo já estava na frente.

Aos 20 minutos, Petkovic entrou em ação. Na esquerda, “o sérvio, que é muito habilidoso” segundo o narrador Luiz Carlos Júnior, pedalou na frente de Odvan e deixou para Athirson. O lateral chutou e bola foi morrer na linha do fundo, flirtando com a trave. No escanteio, Petkovic mostrou que era um autêntico craque e cobrou diretamente no gol. O pulo de Juninho serviu para nada, a bola foi diretamente na gaveta, no gol vascaíno. Petkovic já tinha feito um gol olímpico com a camisa rubro-negra de Vitória, mas pela primeira vez, fazia com o Manto Sagrado essa proeza que repetiria cinco vezes até 2009.

Flamengo já sonhava de devolver a goleada 5×1 da Taça Guanabara, mas no minuto seguinte ao gol de Pet, o Vasco já reagiu. “Há certas deficiências na defesa do Flamengo que parecem crônicas. Uma delas é que Clemer não saiu do gol – ou sai mal. A outra é que, em cruzamentos, a defesa marca a bola”, avaliou o Jornal do Brasil. Numa bola vinda da esquerda, Edmundo escapou da zaga, chegou livre e cabeceou para vencer o Clemer. Pior ainda para o Mengo, cinco minutos depois, Edmundo mais uma vez desequilibrou. O Animal chutou, o Clemer desviou, o Mozart fez jogada feia e não conseguiu afastar o perigo. Juninho Pernambucano, outro craque de bolas paradas, foi no chão e, ainda sentado, conseguiu tocar a bola no fundo da rede para empatar.

No final do primeiro tempo, Flamengo teve uma falta, bem no lado esquerdo, quase na entrada da grande área, com muito pouco ângulo. Quase no mesmo lugar onde Fábio Baiano se eternizaria duas semanas depois na final do Carioca. Só que essa vez foi Petkovic que bateu, e Helton ficou vigilante, conseguindo o desvio para impedir o golaço. Petkovic tinha que esperar ainda mais para fazer seu golaço de falta numa decisão contra Vasco.

Voltando ao jogo da Taça Rio, o juiz expulsou severamente pouco antes do intervalo Fábio Baiano, que saiu da barreira numa falta. Flamengo se complicava a vida, mas tinha raça. No início do segundo tempo, com apenas 30 segundos, Athirson driblou um vascaíno, atraiu mais dois antes de fazer o passe em profundidade. Reinaldo chutou de primeira, cruzado e firme, bem na rede. De novo, o Flamengo estava na frente no placar. Porém, Dedé e Mozart se desentenderam e acabaram expulsos. O jogo, agora com 9 jogadores do Flamengo contra 10 do Vasco, era ainda mais complicado para o time rubro-negro.

O Mengo lutou, mostrou alma e coração, mas cedeu o empate nos minutos finais. Edmundo mais uma vez fez a diferença, com um drible de vaca sobre Maurinho. Bola chegou até Viola que, de pivô, girou e chutou forte, diretamente na gaveta. Era o gol do empate, do 3×3 final. O Clássico ainda não tinha escolhido seu vencedor, mas Flamengo ficava na liderança na Taça Rio. O Mengo podia sonhar com outro Clássico dos Milhões, agora na final, com golaço eterno de falta, com goleada 5×1 a devolver.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”