Nessa época de Copa do Mundo, eu vou de um craque da base do Flamengo, campeão do mundo em 1994 e que voltou ao Mengo em 2002, outro ano de glória da Seleção brasileira. Craque em campo, Leonardo também foi fora, sendo um símbolo de classe e fair play.
Já falei em outras crônicas que comecei a acompanhar o futebol na Copa de 1998 e, sendo garoto francês, descobri muitos jogadores brasileiros na Europa, seja na Copa, ou nos campeonatos europeus. Foi o caso de Leonardo, que descobri na Copa de 1998, na minha França. Mas, no meio de tantos craques, não realmente notei Leonardo. Ou talvez, eu o percebi por sua diferença com os outros, parecia uma pessoa comum. Tinha os craques habilidosos, Rivaldo, Ronaldo e Denílson, tinha os xerifes atrás, Aldair e Júnior Baiano, tinha o operário Dunga e tinha um quase funcionário público, Leonardo. Enganei-me. Leonardo era um craque.
Leonardo Nascimento de Araújo nasceu em 5 de setembro de 1969, em Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara. Como no Rio de Janeiro, tinha muitos garotos flamenguistas, Leonardo sendo um deles. Caçula de uma família de classe média com três filhos, Leonardo, já bem cedo, combinou os estudos, aprendendo o inglês, e o futebol, jogando no Rio Cricket, clube de Niterói. Aos 14 anos, Ratinho, como era chamado pelos colegas por causa do físico franzino, conseguiu um teste no… Vasco. Jogando como ponta-esquerda, ingressou no Vasco, mas ficou no time reserva dos infantis. Além disso, o transporte de Niterói até São Januário custava caro, tanto em tempo quanto em dinheiro, e Leonardo perdia as aulas de inglês que gostava. Ficou pouco tempo no Vasco.
Isaías Tinoco, supervisor da base do Flamengo, conheceu Leonardo no Vasco e chamou o garoto para um teste no Maior do Rio. Em 1985, Leonardo finalmente ingressou no time do coração, se destacando na posição de lateral esquerdo. Conquistou a Taça Belo Horizonte de Juniores, além de um torneio internacional no Marrocos. Em 1987, o técnico da base era o eterno Carlinhos Violino, símbolo maior do amor pelo Flamengo. Melhor ainda, o time principal fez uma excursão nos Estados Unidos e Zico ficou no Rio de Janeiro para treinar com os jovens, reencontrando Carlinhos e conhecendo o garoto Leonardo. E, como um sonho, no dia em que completou 18 anos, Leonardo recebeu uma ligação do técnico Antônio Lopes, convidando-o para treinar com o time principal. Flamengo tinha uma mescla de experiência e juventude, com Zico, Leandro, Mozer e Andrade de um lado, Jorginho, Aldair e Bebeto do outro. E agora Leonardo.
Dois dias depois do 18o aniversario, Leonardo estreou com o Manto Sagrado numa amistoso contra Bahia, na Fonte Nova. No time rubro-negro, tinha Zé Carlos, Edinho, Renato Gaúcho, Nunes e claro, Zico. Flamengo tinha um timaço. Na estreia do Brasileirão de 1987, Flamengo perdeu para o São Paulo e, já pressionado, o técnico Antônio Lopes foi demitido. O técnico da base Carlinhos foi chamado, o que facilitou ainda mais a adaptação do Leonardo no time principal. Ainda amador, Leonardo não decepcionou e conquistou os fãs, principalmente as meninas. Com cara de bom moço, virou um dos jogadores mais assediados pelas torcedoras, logo decepcionadas: o jovem craque se casou com sua namorada desde a adolescência, com quem teve três filhos.
Na tão falada Copa União de 1987, Leonardo participou de 18 dos 19 jogos, inclusive os dois jogos da final contra o Internacional. Após a final, chorou de emoção, o ainda adolescente já era campeão brasileiro com o time de coração. Em seguida, assinou seu primeiro contrato profissional. Craque dentro e fora de campo, ainda prosseguiu os estudos na faculdade de Educação Física da Universidade Gama Filho. Em 1988, ao lado dos vascaínos Bismarck e Sonny Anderson, foi campeão sul-americano com a seleção brasileira de juniores. Um ano depois, participou do Mundial da categoria, inclusive fazendo um gol na vitória contra os Estados Unidos que deu ao Brasil o terceiro lugar. Lembra o Raí, no livro Os 11 maiores laterais do futebol brasileiro de Paulo Guilherme: “Quando o Leonardo disputou o Mundial Sub-20 na Arábia Saudita, ele era o único membro da delegação brasileira que falava inglês fluentemente. Assim, era ele quem falava com a imprensa estrangeira e representava a seleção brasileira diante dos dirigentes da Fifa. O Leonardo sempre teve muita facilidade em fazer contato com as pessoas e isso lhe abriu muitas portas”.
Com o Manto Sagrado, o primeiro gol de Leonardo chegou em julho de 1988, num amistoso contra uma seleção de Ilhéus. Pouco tempo depois, ao pedido da Nação, Telê Santana foi nomeado treinador do Flamengo. Com seu estilo limpo e sua habilidade, Leonardo caiu nas graças do novo técnico, que por sua vez, desenvolveu a confiança e os fundamentais do jovem lateral-esquerdo. O primeiro gol oficial do Leonardo chegou contra Cabofriense, no início do campeonato carioca de 1989. Porém, na final do campeonato, Leonardo foi vencido no duelo com Maurício, que fez o único gol da decisão, oferecendo ao Botafogo a taça. O jovem lateral ficou marcado pelo erro e começou a ser criticado.
No início de 1990, participou do jogo de despedida de Nosso Rei Zico, e mais, fez o gol do empate, permitindo assim que Zico não saísse com uma derrota. Na Copa do Brasil de 1990, Leonardo fez 3 gols em 8 jogos, incluindo um lindo gol contra Taguatinga, com domínio de peito e voleio de pé esquerdo. Porém, na decisão vencida pelo Flamengo contra Goiás, Leonardo já tinha deixado o clube. O craque de Niterói foi contratado pelo São Paulo, que tinha acabado de fechar o campeonato paulista num vergonhoso 15o lugar. Lembra o Raí, capitão do time: “O Leonardo jogava no Flamengo e foi trocado por empréstimo junto a Alcindo por outros dois jogadores do São Paulo. Eu me lembro que no dia em que ele apareceu pela primeira vez no Centro de Treinamento da Barra Funda eu estava machucado, fazendo trabalhos de recuperação no Departamento Médico. Ali conversamos um pouco e logo surgiu uma admiração mútua pelo futebol e também pelo lado pessoal. É um jogador muito inteligente e uma pessoa muito carismática. Tem ótimo relacionamento com todo mundo e em campo apresentou uma técnica e habilidade acima da média”.
Logo depois de sua chegada ao São Paulo, Leonardo reencontrou o técnico Telê Santana, fortalecendo um relacionamento muito especial. Lembra o próprio Leonardo no livro Ao mestre, com carinho – O São Paulo FC da era Telê, de Felipe Morais: “Telê era um cara especial, eu sabia que ele gostava muito de mim, ele nunca me disse ou demonstrou, mas sabia. Existia uma ligação forte, uma comunicação silenciosa que nós entendíamos. Eu, com certeza, não fui o maior jogador que ele dirigiu, mas com certeza fui o que mais o atendeu. Era nítida a ligação que tínhamos e que era diferente dos demais jogadores […] Sempre gostei de treinar e chegar cedo para me preparar. Eu chegava às 7h30 para o treino das 9h e lá estava Telê arrumando o gramado, todos os dias. Ele queria um ‘tapete’ pois sabia que o palco era importante para o espetáculo. Ele queria a perfeição, sempre”. E O São Paulo quase foi perfeito. Ainda Leonardo, agora no livro Os 11 maiores camisas 10 do futebol brasileiro, de Marcelo Barreto: “Aquele São Paulo era especial. Nunca joguei num time em que tinha tanta certeza da vitória. Fizemos uns cem jogos entre 1990 e 1991 e não me lembre de quantos perdemos”. São Paulo foi vice-campeão brasileiro em 1990 e conquistou o título em 1991. Leonardo, lançado na Seleção brasileira em 1990 pelo também craque Falcão, foi eleito melhor lateral-esquerdo do Brasileirão de 1991, conquistando a tão prestigiosa Bola de Prata.
Os sucessos coletivos e individuais chamaram a atenção da Europa e Leonardo acabou contratado pelo Valencia. Repetiu o sucesso coletivo e individual. Valencia fechou o campeonato espanhol no quarto lugar e Leonardo foi eleito melhor lateral-esquerdo, conquistando o também prestigioso premio Don Balón. Na temporada seguinte, passou a jogar no meio de campo, com a mesma classe e eficiência. Quando foi a vez de Raí de deixar o São Paulo FC para a Europa, o craque não duvidou e indicou Leonardo como seu substituto. “Ele é muito inteligente, vai saber jogar bem no meio de campo”, explicou o Raí para sua diretoria. Dito e feito, Leonardo, que tinha perdido espaço na Seleção, estava de volta ao São Paulo.
O São Paulo tinha acabado de conquistar o bi da Copa Libertadores. Leonardo não esperou para brilhar no time paulista, principalmente contra nosso Flamengo, na final da Supercopa Libertadores. Na ida no Maracanã, Leonardo abriu o placar num jogo que acabou em 2×2. Na volta no Morumbi, outro 2×2, outro gol de Leonardo, que ainda converteu o pênalti dele na disputa que consagrou o Tricolor. Sobretudo, São Paulo conquistou logo depois mais um Mundial, agora contra o Milan de Baresi, Maldini, Papin e outros. Avalia o Raí sobre Leonardo: “Depois que eu saí do São Paulo, em 1993, ele assumiu o papel de criação das jogadas […] O Leonardo chegou em seguida, após a minha saída, para comandar o time na conquista do Mundial, naquela vitória contra o Milan. Ele jogou no meio de campo com a camisa 10, que eu costumava usar, e foi fundamental para aquela conquista”. Quando o jogo estava em 1×1, Leonardo fez ótimo drible na grande área e cruzou bem para o gol de Toninho Cerezo.
A boa fase de Leonardo no Tricolor o ajudou a reencontrar a Seleção em 1993. Fez a preparação da Copa como reserva de Branco, mas teve um papel importante, principalmente na crise depois da derrota na Bolívia, assegurando ao técnico Parreira que os reservas também estavam focados no sucesso coletivo. Com os problemas de lesão de Branco, Leonardo assumiu a posição de titular na Copa. O que era para ser uma consagração virou um pesadelo nas oitavas de final, com uma violenta cotovelada, que quase matou Tab Ramos. Leonardo foi expulso e suspenso até o final da Copa, mas negou fazer isso de propósito: “As pessoas que me conhecem sabem que eu jamais iria atingir um adversário com o objetivo de machucá-lo. Não é essa a minha filosofia. Eu tinha um sonho, que era disputar uma Copa do Mundo. Agora esse sonho é interrompido de modo tão feio”. A classe e o histórico de fair play falam em favor da boa fé de Leonardo, que foi até o hospital para pedir desculpas ao Tab Ramos. O Brasil foi campeão, mas como o companheiro de sempre Raí, que perdeu a braçadeira e até a posição de titular durante o torneio, a Copa teve um gosto agridoce para Leonardo. Ao menos, foi campeão, ao lado de outros craques da base rubro-negra, como Jorginho, Aldair, Zinho e Bebeto.
Após a Copa, Leonardo atendeu ao apelo de outro ídolo, o maior de todos, Zico, que o chamou para ser seu substituto no Japão, no time do Kashima Antlers. De novo, Leonardo conquistou os torcedores e torcedoras, até aprendendo um pouco de japonês. “O Leonardo tem uma facilidade incomum de aprender novos idiomas. Isso ajuda bastante quando um jogador vai atuar em um clube estrangeiro. Mas a capacidade de adaptação ele já mostrou ainda garoto, quando saiu do Rio de Janeiro para jogar em São Paulo. Muitos jogadores cariocas não conseguem se acostumar com o ritmo da vida paulistana. O Leonardo chegou e já se adaptou muito bem”, explicou o amigo Raí. Em campo, fez simplesmente o gol mais bonito da história do campeonato japonês com três chapéus e um voleio para finalizar, além de conquistar a J-League em 1996.
Com o objetivo da Copa do Mundo, disputada na minha França em 1998, Leonardo voltou para a Europa e mais uma vez atendeu ao apelo do amigo Raí, destaque do Paris Saint-Germain, clube pelo qual eu torço na França. A história é conhecida: Leonardo aprendeu rapidamente o idioma e conquistou os fãs. Não ganhou títulos na única temporada que fez, mas conquistou com a Seleção a Copa América e a Copa das confederações em 1997. Na Copa América, o Brasil tomou dois gols contra o México antes de empatar em 2×2. No final, Leonardo ganhou uma bola, driblou dois zagueiros e mandou a bola na gaveta para fazer o golaço de virada. Na Copa das confederações, todos os jogadores rasparam o cabelo, o que deixou Leonardo bastante irritado. O veterano era bem diferente dos outros.
Em 1997, Leonardo assinou com o Milan. Claro, ficou fluente em italiano e conquistou a Serie A em 1999. Jogando como ponta-direita, mais uma posição para ele, fez 12 gols no campeonato, com destaque para os dois gols no Derby de la Madonnina, incluindo um lindo gol de falta. Eu começava a acompanhar o futebol europeu, mas tenho poucas lembranças do Leonardo no Milan. Por causa das contusões, o craque bonito faltou a vários jogos. Voltamos então ao meu início, a Copa do Mundo de 1998, com Leonardo dando entrevistas em português, inglês, espanhol, italiano e francês. Começou o primeiro jogo no banco, mas com Giovanni fora do time, disputou todos os outros, jogando em mais uma posição, como meia mas caindo na direita, com Rivaldo no lado esquerdo. “Leonardo era um jogador muito inteligente, atuou como lateral em uma Copa e no meio de campo na outra”, homenageou o técnico Zagallo. Na grande final, ficou bastante preocupado com o drama vivido pelo Ronaldo. Lembrou Zico para a Folha de S. Paulo: “Alguns jogadores que sabiam mostraram preocupação em campo. O Cafu correu quando Ronaldo se chocou com o goleiro da França. O Leonardo a todo momento perguntava se ele tinha perigo de vida jogando ali”. Leonardo não fez um bom primeiro tempo e, com o Brasil precisando fazer dois gols, foi substituído pelo Denílson no intervalo. Eu precisava esperar para saber realmente quem era Leonardo.
Em 1999, Leonardo era o capitão da Seleção brasileira que ia disputar a Copa América. Mas com relacionamento difícil com o técnico Vanderlei Luxemburgo e a perda da braçadeira, Leonardo se desligou da seleção antes mesmo da Copa América. Voltou em 2001 para dois jogos no comando de Luiz Felipe Scolari. E teve outra volta, maior ainda, no Flamengo, quando assinou um contrato de 6 meses no início de 2002. “Eu sempre quis terminar minha carreira onde comecei”, explicou o meia, que reestreou num amistoso contra Palmeirinha, já fazendo dois gols na goleada 4×0! Na reestreia oficial, contra Palmeiras no Torneio Rio-São Paulo, fez um golaço de falta para abrir o placar. Porém, ficou pouco tempo, fazendo apenas 8 jogos, o último contra Santos na eliminação do Torneio Rio-São Paulo. Ao total, em duas passagens, foram 176 jogos e 10 gols com o Manto Sagrado além de conquistar o Brasileirão e a Copa do Brasil.
Leonardo ainda teve outra volta, no Milan, quando fez parte do elenco que conquistou a Copa da Itália em 2003. Jogou pouco e definitivamente pendurou as chuteiras, sem deixar o futebol. Foi dirigente do Milan e acertou em cheio com as contratações de Kaká, Alexandre Pato e Thiago Silva. Substituiu Carlo Ancelotti com técnico e logo depois foi para o rival, a Internazionale, com quem conquistou a Copa da Itália em 2011.
Voltou como dirigente no Paris Saint-Germain, que iniciava o projeto de ser um dos maiores clubes do mundo. Fazia muitas entrevistas com um francês impecável, que parecia impossível para uma pessoa que passou apenas um ano na França, 15 anos atrás. O poliglota tinha classe e competência, mas o final foi frustrante. Depois de um jogo tenso, deu uma trombada no juiz e foi suspenso 9 meses, um fim que lembrava a cotovelada de 1994. Pediu demissão, voltou no Milan, voltou no PSG em 2019 e contratou o Lionel Messi. Porém, o PSG falhou de novo na Liga dos campeões e o brasileiro acabou demitido.
Para fechar, escrevo sobre o maior golaço de Leonardo na sua carreira. Em 1998, ainda em atividade, fundou com o amigo de sempre Raí a instituição Gol de Letra, que atende às crianças de comunidades carentes em São Paulo e no Rio de Janeiro. Lembrou o Raí: “O atleta de sucesso tem um poder de mobilização muito grande, e é um desperdício ele não usar isso. Não precisa fazer como eu e o Leonardo fizemos e montar um projeto como o nosso, mas pode se colocar à disposição em alguma atividade em prol de uma causa”. Eu sou voluntário na Gol de Letra há mais de 10 anos, e nunca vi Leonardo, que aparentemente se desligou do projeto. Porém, ele deu o apito inicial de um projeto que já ajudou mais de 30 mil famílias. Craque dentro de campo, Leonardo também é fora.






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