Jogos eternos #406: Flamengo 2×0 Botafogo 1974

Sem jogo do Flamengo hoje, eu escolho para a crônica do dia um jogo aniversariante de 52 anos, contra um dos maiores rivais históricos do Flamengo, o Botafogo, numa época de rivalidade acirrada, nos anos 1970.

O maior trauma do Flamengo em relação ao Botafogo é a derrota 6×0 em 1972. De lá para cá, o Flamengo só tinha o desejo de vingança. Não importava a tabela, a competição, o palco, a escalação, o Flamengo, a Nação, só queriam o 6×0 da vingança, que não chegava. Nos cinco Flamengo x Botafogo seguintes, teve dois empates, duas vitórias do Botafogo e uma do Flamengo, no Brasileirão de 1973.

Seis meses depois, já na edição seguinte do Brasileirão, Flamengo foi bem, com apenas uma derrota nos 17 primeiros jogos. Com 27 pontos, estava classificado para a fase seguinte e mirava a primeira colocação do grupo. Já o Botafogo tinha apenas 14 pontos e precisava desesperadamente de uma vitória para sonhar com uma classificação na segunda fase.

Zico, que estreou no time profissional em 1971, escapou da humilhação do 6×0 quando não foi escalado pelo Zagallo. Em 1974, o Flamengo trocou o comando e chamou Joubert, que tinha sido o técnico de Zico na base. Nosso Rei, que passou em branco nos cinco jogos que fez contra o Fogão, definitivamente se firmou dentro do time titular. Virou a maior esperança de gol do time, a maior possibilidade de espetáculo, ao lado do gênio gringo Doval. Em 9 de junho de 1974, o técnico Joubert escalou Flamengo assim: Cantarele; Nei, Rondinelli, Luís Carlos, Jayme; Liminha, Geraldo, Zico; Doval, Paulinho, Arílson.

No Maracanã, o Flamengo dominou o jogo, desde o apito inicial. Explicou na sua edição do dia seguinte o Jornal dos Sports: “Um Flamengo como a sua torcida gosta e cada vez mais de acordo com as tradições de muita garra, foi o se que viu, ontem, desde o primeiro minuto de jogo. Quando Zico, aos 9 minutos, provocou a primeira explosão nas arquibancadas, obrigando o goleiro Jair Bragança a uma sensacional defesa, ficou claro que os primeiros 45 minutos seriam todos do rubro-negro. A defesa do Botafogo mostrou-se completamente perdida com o ataque do Flamengo, principalmente com a dupla Zico-Doval”.

Flamengo era o melhor e logo fez o primeiro gol do jogo. Agora a palavra para o Globo: “Doval inaugurou o marcador aos 13 minutos, recebendo um passe de Paulinho após troca de passes com Zico, batendo inapelavelmente a Osmar e Jair Bragança”. Ainda no primeiro tempo, Flamengo fez o segundo, com o maior de todos. De novo, o relato do Jornal dos Sports: “Aos 34 minutos, Zico fez 2 a 0, num dos mais bonitos gols de todo o Campeonato Nacional. Driblou todos os adversários que se lhe apresentaram, inclusive o goleiro, e, deslocando-se da direita para o interior da área, ainda teve que tirar Doval da jogada. Ao completar, no ângulo, levou um sarrafo de Valtencir”.

Abro um parêntese aqui para falar do Valtencir, realmente era um zagueiro viril, às vezes violento. Ainda o JDS: “Além do destaque para o toque de bola do time rubro-negro e da genialidade da dupla Zico-Doval, realmente desequilibrando o jogo, o primeiro tempo teve um outro detalhe a não ser destacado: a violência de Valtencir, um jogador que se preocupou muito mais em bater nos adversários do que na bola”. Porém, Valtencir teve um fim trágico. Num jogo entre Colorado e Grêmio Maringá em 1978, teve um choque com Nilvaldo. Fraturou a coluna cervical e teve uma hemorragia fatal na medula. Morreu quase em campo, com apenas 31 anos de idade.

De volta ao jogo, o segundo tempo de novo foi rubro-negro. Flamengo tinha dois gols de vantagem e a Nação queria muito mais. “Com a torcida gritando ‘queremos seis’ – para vingar a goleada histórica – e sem qualquer substituição, o segundo tempo começou mostrando o Botafogo disposto a descontar”, descreveu o Jornal dos Sports. Não teve outro gol, nem para o Flamengo, muito menos para o Botafogo. “Com vantagem numérica em campo e no marcador, o Flamengo continuou dominando o jogo. Despreocupado com o marcador, o Flamengo preferiu gastar o tempo, para delírio de sua torcida, que terminou o jogo gritando olé e festejando uma nova excelente vitória de sua equipe”, prosseguiu o Jornal dos Sports, que ainda escreveu: “Pelo volume de jogo do Flamengo e considerando-se as chances desperdiçadas por seus atacantes, pode-se concluir que o Botafogo, com muita sorte, conseguiu escapar da forra dos 6 a 0”.

Confirmou o Globo: “O melhor que poderia ter acontecido ao Botafogo, foi perder de apenas 2 a 0 para o Flamengo que, positivamente, está atravessando este Campeonato Nacional em estado de graça”. Além disso, o jogo confirmava mais uma vez a dupla Doval-Zico. Escreveu o Jornal dos Sports sobre o Gringo: “Sabe tudo de bola e não é de hoje. Fez um gol – o primeiro – e mostrou que é um dos mais completos atacantes do futebol brasileiro pela sua habilidade e visão de gol. Ele se encaixa perfeitamente ao futebol de Zico e formam uma dupla de área a gosto da torcida”. Já sobre o Zico, escrevia: “Um gol sensacional quando além de driblar o goleiro chegou a passar até pelo seu companheiro de ataque Doval. Está numa fase excelente e comprovou isso mais uma vez ontem”.

Nas suas avaliações, o Globo deu uma nota 8 para Doval: “‘Quem sabe, sabe sempre’ disse o ‘gringo’ desde que chegou. E Doval sabe que sabe”. E o melhor jogador, claro, foi mais uma vez Zico, com uma nota 9: “Há muito tempo que o futuro de Zico é o presente e só não vê isso quem não quer. É uma estrela da Companhia e uma vedete humilde, para sorte sua e do seu clube. Parece melhorar de 15 em 15 minutos e como um jogo de futebol tem 6 x 15 minutos, sabe tudo sobre futebol”. Zico e Doval juntos, era o passado e o futuro que se juntavam no presente para ter uma das maiores duplas da história do Flamengo.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”