Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou lembrar um jogo aniversariante de 2003. O Flamengo tinha um elenco bem limitado e estava no meio da tabela no campeonato nacional. O Brasileirão de 2003 era o primeiro com pontos corridos e já era claro que Flamengo, com 14 pontos em 11 rodadas, não ia brigar pelo título. Pior ainda, o rubro-negro vinha de uma goleada sofrida por 6×2 diante do Paraná. E para piorar ainda mais, quatro dias antes do jogo contra Vasco, Flamengo foi derrotado pelo Cruzeiro na final da Copa do Brasil, perdendo a maior chance de um título em 2003.
Do outro lado, Vasco vinha invicto nos últimos seis jogos, mas com 5 empates e apenas uma vitória. Tinha conquistado o campeonato carioca três meses antes. O roteiro apontava uma vitória do Vasco, ainda mais que o Mengo tinha desfalques de peso: Athirson e Felipe lesionados, Júlio César convocado com a seleção e Edílson suspenso. Eram literalmente os quatro melhores jogadores do time. Assim, Flamengo sendo o Flamengo, a vitória rubro-negra era o mais provável. Em 15 de junho de 2003, o técnico Nelsinho Baptista escalou Flamengo assim: Diego; Luciano Baiano, Fernando, André Bahia, Cássio; Fabinho, Jônatas, Fabiano Eller, Igor; Jean, Zé Carlos. Vendo a escalação completa, ficava mais razoável apostar numa vitória do Vasco, que tinha como destaque Souza e Marcelinho Carioca.
Por causa dos resultados recentes, tinha pouca gente no Maracanã, apenas 13.920, com maioria vascaína. Em campo, o Vasco abriu o placar já nos dez primeiros minutos. Marques, craque que se despedia do Vasco neste dia, cruzou, André Bahia falhou e Cadu aproveitou para fazer o primeiro gol do dia. Flamengo reagiu rapidamente, muito rapidamente. Três minutos depois, Igor lançou de trivela para Luciano Baiano que cruzou na grande área. De pivô, Zé Carlos dominou, girou e chutou para empatar o jogo. O placar ficou assim até o intervalo. Escreveu o UOL: “Apesar da disposição das duas equipes, o jogo foi caindo de ritmo. Com muitos erros na armação das jogadas, os dois times não criaram mais grandes chances de gol e Márcio e Diego, goleiros de Vasco e Flamengo, pouco trabalharam até o final do primeiro tempo”.
No início do segundo tempo, Cássio quase fez gol contra de cabeça, mas Diego impediu o vexame com uma linda defesa. “Foi praticamente o único lance de emoção durante vários minutos. As duas equipes, muito desorganizadas, erraram muito. O jogo ficou morno e com baixo nível técnico”, prosseguiu o UOL. Cássio, que substituía o lesionado Athirson como lateral-esquerdo, chutava de longe, mas sempre encontrava um vascaíno no caminho. No final de jogo, Cássio chutou de fora de área de novo. A bola de novo foi desviada por uma cabeça do Vasco. A bola pegou efeito, surpreendeu o goleiro vascaíno e morreu na rede. Era o gol da virada, do triunfo rubro-negro, para esquecer a derrota na Copa, para esquecer o elenco pífio. Outro aniversariante era o próprio Maracanã, que completaria no dia seguinte 53 anos. O velho estádio queria uma vitória de seu maior patrimônio, o Flamengo.
E de novo, como foi o caso dez dias atrás com a lembrança de uma vitória magra sobre Chapecoense em 2015, não resisto à vontade de citar o grande tricolor Nelson Rodrigues, que, sem ser um idiota da objetividade, entendeu porque o Flamengo, mesmo sem jogadores, nunca ia ser rebaixado: “Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E diante do furor imponente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.






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