Sem jogo do Flamengo hoje, eu escolho mais um jogo aniversariante para a crônica do dia. Não foi um grande jogo, nem um bom jogo. O Jornal dos Sports até escreveu na edição do dia seguinte: “Flamengo e Seleção carioca disputaram ontem um jogo fraco sob todos os aspectos. Do lado do campeão da Taça Guanabara ainda se viu algum entusiasmo, o que lhe garantiu absoluto domínio durante os 90 minutos. A Seleção carioca, entretanto, nada mostrou de bom e perdeu de apenas 1 a 0 por pura sorte”.

Por que então escolher esse jogo? Na verdade, a eternização começou antes do apito inicial, começou 16 anos antes do dia do jogo. Em 1954, o eterno Biguá, que só jogou no Flamengo na carreira inteira, se despediu dos gramados e entregou as chuteiras a um jogador da base, que tinha apenas 17 anos, Carlinhos. O jovem virou Violino, virou ídolo e eterno, também só jogou no Flamengo até o final da carreira, em 1969. Para fechar o ciclo, precisava repetir o gesto das chuteiras e abençoar um jovem rubro-negro. E a escolha foi perfeita. Escreveu o Jornal dos Sports dois dias antes do jogo de 1970 contra a seleção carioca: “O apoiador Carlinhos, antes do jogo principal dará uma volta olímpica no gramado e entregará suas chuteiras a Zico, irmão de Dudu, do America, que surge como um futuro valor do Flamengo”.

Zico, com os mesmos 17 anos que Carlinhos na hora de receber as chuteiras de Biguá, era a maior promessa do Mengo e, pela primeira vez, jogava no Maracanã. Escreveu Marcus Vinícius Bucar Nunes, no livro Zico, uma lição de vida: “Foi na preliminar do jogo de despedida do Carlinhos, aquele grande jogador de meio-de-campo, que formava dupla com Liminha. As escolinhas do Flamengo e do América abriram a jornada festiva, fazendo um bom jogo. E lá estava ele, pela primeira vez, correndo com a camisa do Flamengo, em pleno Maracanã. Como registro dessa partida, apenas um gol feito, que ele perdeu, no final. No jogo principal, Carlinhos, ao deixar o gramado, entregou-lhe as chuteiras de presente, simbolizando sua confiança na nova geração”.

Agora a palavra para o próprio Zico, no livro Maracanã, 50 anos de glória, de Renato Sérgio: “Foi inesquecível, a primeira vez que joguei no Maracanã. Estava no dente-de-leite e o jogo contra o América fazia parte da despedida de Carlinhos do Flamengo. Eu nem imaginava que viveria exatamente ali os melhores momentos da minha carreira, ali, naquele palco que abrigaria tantos craques inesquecíveis […] O Maracanã foi um prolongamento de minha família, sentia-me tão à vontade ali como se estivesse em minha casa”. Carlinhos brilhou no Maraca, se despediu e entregou as chuteiras ao garoto. Agora, o Flamengo e o Maracanã já não eram os mesmos.

Em 16 de junho de 1970, para o jogo contra uma seleção carioca que tinha jogadores como Denílson e Didi do Fluminense no meio de campo, Flávio e Silva na frente, o técnico Yustrich escalou Flamengo assim: Adão; Murilo, Washington, Reyes, Paulo Henrique; Zanata, Liminha; Doval, Caldeira, Adãozinho, Fio Maravilha. O início do jogo foi do Mengo, como relatou o Jornal dos Sports: “Aos 9 minutos, surgiu a primeira jogada perigosa do Flamengo, quando Adãozinho chutou da linha da grande área, rasteira, exigindo de Cao o maior esforço para colocar a córner. A esta altura, o Flamengo já dominava inteiramente o jogo e, aos 21 minutos, surgiu o gol: Paulo Henrique faz um lançamento em profundidade, Leônidas sai para colocar Adãozinho em impedimento, mas Batista dava condições de jogo. Adãozinho correu, perseguido por Denílson e chutou, sem chances de defesa para Cao”.

“O segundo tempo foi bem pior que o primeiro, com o Flamengo dominando”, ainda escreveu o Jornal dos Sports, que relatou poucas coisas sobre o segundo tempo: “Aos 23 minutos, Alex salva da linha de gol uma cabeçada de Caldeira que tinha endereço certo. Depois disso, ainda se viu algumas oportunidades do Flamengo, mas o placar permaneceu no 1 a 0”.

É um dos poucos casos de jogos eternizados em nenhum dos 90 minutos, mas já no pré-jogo, com um jovem craque de chuteiras velhas, de sonhos gigantes e de realizações ainda maiores. Para fechar então, deixo a palavra para um dos dois heróis do dia, Zico, na biografia do segundo, Carlinhos, escrita por Renato Zanata e Bruno Lucena: “Quando eu já estava há três anos no Flamengo, ele parou de jogar e eu fui o garoto escolhido para receber as chuteiras dele. Era um cara espetacular. Aquela tranquilidade, delicadeza, na forma como ele tratava todo mundo, envolvidos ou não no trabalho dele. Uma pessoa de diálogo. Gostava de falar sobre futebol e também era professor […] E vejam vocês como é o destino. Eu pude entregar a ele a camisa do meu último jogo pelo Kashima. Foi contra o Flamengo, e o Carlinhos era o técnico. Pude retribuir o que ele havia feito por mim”.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”