Antes do jogo da Copa entre o Brasil e o Haiti, e como fiz antes do Brasil x Marrocos na estreia, eu vou lembrar de um jogo do Flamengo no Haiti. Não há dúvida sobre o jogo, já que Flamengo jogou apenas uma vez no Haiti, em 1964. Eleito presidente de Haiti em 1957, François Duvalier, conhecido como Papa Doc, transformou o país em uma ditadura com o apoio dos Estados Unidos. O Massacre de 26 de abril de 1963 custou a vida de ao menos 73 pessoas, a maioria militares da oposição. Em junho de 1964, o Papa Doc foi proclamado “presidente vitalício” do país.
Entre as duas datas, Flamengo foi jogar lá, no início da temporada de 1964. Depois de dois jogos contra o Atlético Nacional da Colômbia na Jamaica, a delegação rubro-negra, chefiada pelo antigo jogador e ídolo Agustín Valido, chegou na ilha haitiana. No dia do jogo, contra um combinado de dois times locais, Racing e Aguila Negra, o Jornal do Brasil escreveu: “A recepção ao Flamengo – primeiro time brasileiro que se exibe aqui – foi extraordinária, com o prefeito da cidade, o embaixador do Brasil e um grande cortejo de carros formado especialmente em homenagem à delegação”.
Em 23 de fevereiro de 1964, sem o poupado Aírton mas com a volta de Luís Carlos, o histórico técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Marcial; Murilo, Luís Carlos, Joubert, Paulo Henrique; Carlinhos, Nelsinho; Espanhol, Carlos Alberto, Paulo Alves, Osvaldo Ponte Aérea. Em Porto Príncipe, no estádio Sylvio Cator, atleta haitiano medalhista de prata nas Olimpíadas de 1928 e antigo recordista mundial de salto em distância, Flamengo começou melhor. “No primeiro tempo da partida de sábado, o Flamengo ainda foi superior ao combinado haitiano, marcando um gol aos 14 minutos, numa finalização de Carlos Alberto”, escreveu o Jornal do Brasil.
Porém, no segundo tempo, o combinado do Haiti conseguiu o empate. “Moran, cobrando uma penalidade, aos 14 minutos da etapa final, fez o gol de empate para a seleção do Haiti. Marcial falhou na defesa do chute de Moran, que saiu fraco e quase cobre o goleiro”, julgou o Jornal dos Sports.
Na crônica sobre o jogo contra o time do Marrocos, escrevi que o próprio Rei do Marrocos anulou um gol legítimo do Flamengo. Agora, no pesado clima de Haiti, um gol do Flamengo foi anulado pelo ator legítimo, o juiz. Ainda o Jornal dos Sports: “O campeão carioca poderia ter alcançado a vitória, não tivesse o arbitro da partida anulado gol lícito de Carlos Alberto, aproveitando uma bola rebatida pela defesa do Flamengo, já ao final do jogo, e quando maior era a pressão dos haitianos em busca do gol da vitória. Os protestos dos jogadores cariocas junto ao juiz de nada valeram, pois o mesmo se manteve irredutível na marcação de impedimento, inexistente. O delírio do público, ao constatar a anulação do gol de Carlos Alberto, serviu de incentivo para que o juiz mantivesse a marcação e até de expulsão”.
“Flamengo empate com Haiti por 1 a 1 e não vence por causa do arbitro”, manchetou o Jornal dos Sports. Ser roubado pelo juiz fora do Brasil é coisa habitual. Ainda mais num regime autoritário, como se tornava o Haiti. Coisa anormal, mesmo para a época, podia-se ler na crônica do Diário de Notícias: “Flamengo jogou com medo no Haiti: juiz estava armado”. Na matéria, foi além, falando de “um revólver que o juiz portava na cinta, enquanto o técnico do time adversário também não fazia segredo de que estava armado”. O clima era pesado e, pior ainda, nas semanas seguintes, o Brasil também se tornaria uma ditadura, com todos os abusos associados…





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