Flamengo cedeu quatro jogadores para a Copa do Mundo de 2026, repetindo o feito de 1958, primeiro ano de glória mundial da seleção brasileira. Em 2026, os jogadores eram mais nas funções defensivas, em 1958 eram ofensivos, com um dos mais brilhantes ataques da história do clube. Na Suécia, teve no começo da competição um trio ofensivo rubro-negro, depois ofuscado por uma dupla Pelé – Garrincha, apenas isso.
Como era de costume na época, Flamengo começou a temporada de 1958 com uma excursão na América do Sul. Na ausência do técnico Fleitas Solich, o time foi comandado por Jaime de Almeida, que, como o filho dele depois, regularmente assumia a função de técnico interino. No primeiro jogo do ano, o Mengo derrotou 2×0 o Alianza Lima no estádio nacional de Lima. Os gols foram marcados por Henrique Frade e Dida, que seriam os dois maiores artilheiros do clube na temporada. No Peru, Flamengo venceu também o Centro Iqueño e o Universitário antes de ir ao Chile para empatar duas vezes contra o Colo-Colo. Para fechar a excursão, mais três jogos na Bombonera de Buenos Aires: uma vitória de prestígio contra o Boca Juniors e uma derrota contra o Racing. Na despedida, mais um jogo contra o Racing, que acabou em empate 3×3. Com 11 gols em 8 jogos, Dida foi o grande artilheiro da excursão.
De volta ao Brasil, Flamengo estreou no Torneio Rio-São Paulo, contra o São Paulo no Pacaembu. Começou com vitória e ainda derrotou a Portuguesa e o Santos antes de perder contra o America no Maracanã. Goleou Botafogo 4×0 e Palmeiras 6×2, também venceu o Fla-Flu antes de empatar contra Vasco, que também lutava pelo título. No último jogo, Flamengo foi duramente vencido 3×0 pelo Corinthians no Pacaembu e viu quatro dias depois Vasco levantar a taça no mesmo estádio. Por dois pontinhos, Flamengo perdeu um primeiro título na temporada contra o Vasco. O grande artilheiro rubro-negro do torneio foi Henrique Frade, que fez 9 gols em 9 jogos, inclusive 4 gols na vitória 6×2 sobre o Verdão.
Flamengo fez alguns amistosos, o primeiro contra Bangu, com dura derrota 4×0 no Maraca. Porém, o jogo marcou a estreia de um dos maiores símbolos do Flamengo, o Violino Carlinhos. Depois de três jogos na Bahia, o Mengo voltou ao Maracanã para enfrentar o maior, a Seleção brasileira, que se preparava para a Copa do mundo. Um ano antes, Flamengo já havia enfrentado a Seleção, com um empate 0x0. Agora, Flamengo jogava sem Moacir, Joel, Zagallo e Dida, justamente convocados com a seleção brasileira. No Maraca, depois de um 0x0 no primeiro tempo, o técnico brasileiro Vicente Feola lançou em campo o quarteto rubro-negro. Eram quatro do Flamengo na Seleção contra 11 que vestiam o Manto Sagrado. Escreveu Roberto Assaf no livro Almanaque do Flamengo: “Logo aos 6 minutos, o atacante Manoelzinho, que substituíra Henrique no intervalo, apanhou uma sobra na entrada da área e bateu forte e rasteiro, surpreendendo Gilmar, que nem sequer esboçou reação. No final, a seleção até que apertou, porém o rubro-negro resistiu e garantiu o resultado”. O Flamengo conseguia uma vitória de prestígio e seguia invicto contra a Seleção, o que é o caso até hoje. Para fechar o capítulo da Seleção, a observação do Correio da Manhã: “É justo que se registre, também, que coube ao desfalcado quadro do Flamengo as honras da tarde esportiva de domingo […] Dentre os rubro-negros, deve ser ressaltada a atuação de Dequinha, a grande figura do gramado. De um modo geral, entretanto, todo o quadro atuou magnificamente, principalmente pelo jogo de conjunto, fator principal de sua brilhante atuação”.
Depois de vencer a Seleção, Flamengo imitiu a própria seleção e fez uma excursão na Europa pelo terceiro ano consecutivo. Na época, os torneios amistosos, muitas vezes quadrangulares, começavam a se tornar frequentes. O Torneio de Paris era para mim o mais prestigioso. Na primeira edição, em 1957, Vasco fez brilhar o futebol brasileiro e conquistou a taça. Um ano depois, Flamengo foi convidado como representante brasileiro e estreou contra Bolton, que tinha acabado de vencer a mítica Copa da Inglaterra. No Parque dos Príncipes, Duca abriu o placar com um “pelotaço”, mas Flamengo cedeu o empate no segundo tempo. Na disputa de penalidades, outro empate, agora 3×3. A dura, injusta, já ultrapassada regra do sorteio em caso de empate escolheu Bolton como vencedor. Na disputa do terceiro lugar, Flamengo derrotou o forte time húngaro de Ujpest e ficou invicto em Paris, na minha França também, com vitórias sobre Nantes e Sochaux em amistosos. Flamengo passou por Portugal, Espanha, Israel, Turquia e Hungria e ainda jogou no Brasil com um time alternativo, marcando a estreia de um meio campista canhoto de apenas 17 anos, um tal Gérson. Em 15 jogos na Europa e Ásia, o Mengo conseguiu 9 vitórias, 3 empates e teve apenas três derrotas. O maior artilheiro da excursão foi o pequeno Babá, com 9 gols. E mais, com participação de quatro atletas rubro-negros, o futebol brasileiro agora era diferente, era campeão do mundo.
O Flamengo tinha campeões do mundo, mas Zagallo saiu do clube para jogar no Botafogo e Dida e Joel perderam espaço no time titular, por causa de Pelé e Garrincha. Já Moacir só ameaçou o posto do insuperável Didi nos treinos. Numa entrevista para o Placar, Dida mostrou alguma mágoa: “Faltavam duas horas para o jogo com a Inglaterra. O Feola se aproximou de mim e disse: ‘Você não vai jogar’. Até hoje o Feola me deve uma explicação […] Os homens já queriam me queimar há muito tempo. Diziam que eu era de vidro, medroso. Nunca tive medo. É mentira sina, torpe! Não tremi contra a Áustria. Como iria tremer num jogo fácil daquele? Pedi então para voltar ao Brasil. Muito pedido, muitos conselhos e acabei ficando. Acabei não jogando ao lado do Pelé. Feola dizia que não queria complicar as posições. Mas não era nada disso. No jogo com a Inglaterra ele me tirou e botou o Vavá junto com o Mazzola”.
De volta ao Brasil, o Flamengo estreou no campeonato carioca com ampla vitória sobre Canto do Rio. No Maraca, o Mengo venceu 4×0, com gols de Babá, Henrique Frade, Joel e Dida. Logo depois, já perdeu a invencibilidade, com derrota 0x1 contra o America, de novo no Maracanã, a casa do Flamengo. O Mengão voltou com as goleadas, 4×1 contra Bonsucesso no Maraca, 5×0 contra a Portuguesa na Gávea, outra casa do Flamengo. E voltou a perder contra outro time mediano que já foi grande, o Bangu. O Flamengo oscilava e de novo goleou, agora 8×0 contra Olaria na Gávea, com nada menos que 5 gols de Dida! Para fechar o primeiro turno, o Mengo empatou contra Botafogo e Vasco e levou o Fla-Flu, de novo com um gol de Dida.
No segundo turno, Flamengo começou com duas vitórias 3×0 contra Canto do Rio e São Cristóvão. Com a saída de jogadores importantes como García, Tomires, Paulinho e Duca, o Mengo perdeu dois clássicos consecutivos, contra Fluminense e Botafogo. Voltou a vencer com o trio Dida – Henrique Frade – Luís Carlos em grande forma. Em pleno campeonato, Flamengo entrou de luto com a morte do fundador de sua secção de futebol, o grande médico Alberto Borgerth. O clube decretou um luto de cinco dias, “durante os quais a bandeira do clube será hasteada em funeral”. No Jornal do Brasil, Célio de Barros homenageou o homem de “ação diligente e inteligente”, o fundador da “seção terrestre, que tantas glórias acarretaria para as cores rubro-negras”, o jogador que “se tornou campeão carioca de futebol e, por várias vezes, integrou as seleções guanabarina e brasileira […] um autêntico craque em sua época”, o árbitro que dirigiu a “famosa partida entre argentinos e brasileiros, em Buenos Aires, na disputa da 1a ‘Copa Roca’”, o “dirigente do C.R. do Flamengo, presidente da Federação Metropolitana de Futebol, diretor da Confederação Brasileira de Desportos e juiz do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, deixando em todas essas funções de releve traços indeléveis de sua passagem”, além do “médico capaz e cirurgião hábil” e “o amigo devotado, de alma nobre e coração de ouro”.
De volta no campeonato carioca, Flamengo precisava vencer o Vasco na última rodada para forçar um supercampeonato, como aconteceu em 1946. Dida estava machucado e Luís Carlos virou o herói, fazendo dois gols na vitória 3×1. “Venceu o Flamengo na raça e na flama”, escreveu o Jornal dos Sports. Flamengo fechou o campeonato com 14 vitórias, 4 empates e 4 derrotas, exatamente como Vasco e Botafogo. Com 61 gols, o Mengo tinha o melhor ataque do campeonato e dos três times empatados, também tinha a melhor defesa. Porém, não existia o saldo de gols como critério de desempate e a solução foi um supercampeonato.
Na estreia do supercampeonato, ainda sem Dida, artilheiro rubro-negro no campeonato com 18 gols, Flamengo perdeu 2×0 contra Vasco. Em 27 de dezembro, para o último jogo do ano, Flamengo venceu o Botafogo de Didi e Garrincha com gols de Dida e Luís Carlos, e seguiu vivo na competição. Já no mês de janeiro de 1959, Botafogo venceu Vasco e forçou um supersupercampeonato. Só que dessa vez, no supersuper, Flamengo só conseguiu dos empates e viu o Vasco levar a taça de campeão depois de conquistar o Torneio Rio – São Paulo no início do ano.
No time vascaíno campeão, tinha um antigo ídolo rubro-negro, o grande Rubens, que entrou em conflito com o técnico Fleitas Solich e disputou apenas um jogo no Flamengo em 1957. Assinou com o Vasco e foi um dos destaques do time, com 8 gols em 21 jogos no campeonato carioca. “Nem o fato de ter vestido a camisa de um grande rival fez com que o torcedor rubro-negro esquecesse Rubens. Nos anos em que defendeu o Flamengo – 173 jogos e 84 gols –, ele se identificou de tal maneira com o clube que, para a História, ele sempre será lembrado como o ‘Doutor’ Rubens rubro-negro, um catedrático de futebol, um artista da bola”, escreveu Roberto Sander no seu livro Os dez mais do Flamengo.
Rubens conquistou um tetracampeonato carioca pessoal e Flamengo, sem vencer um grande título desde 1955, ainda precisava esperar para ser campeão, numa época de ouro do futebol brasileiro.




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