A Seleção brasileira está eliminada da Copa do Mundo e volto então com a programação original. Eu já escrevi aqui que eu sou flamenguista desde meu nascimento, até antes de nascer. Sou brasileiro no coração e flamenguista na alma. Acreditando na reencarnação e já tive a sensação de ter sido brasileiro na minha última vida passada. Na verdade, me parece o motivo mais sensato para explicar um amor tão forte pelo Brasil em geral e o Flamengo em particular. Tenho uma certeza quase matemática que eu já vivi grandes glórias rubro-negras de outra época, num outro corpo.

Assim, hoje eu escrevo sobre meu primeiro jogo como torcedor do Flamengo nesta encarnação, com apenas um dia de existência. Eu nasci no dia 7 de julho, dia do primeiro Fla-Flu da história, da estreia de Pelé na Seleção brasileira, da atuação mágica de Ronaldo Fenômeno na semifinal da Copa contra os Países Baixos, de um jogo eterno do Mengo contra Toronto, com mais um show de Zico. Em 1992, fiz meu primeiro grito, com passaporte francês e sangue vermelho e preto.

Flamengo estava na fase final do Brasileirão e o grupo estava apertadíssimo: São Paulo com 6 pontos, Flamengo e Santos com 5 pontos, Vasco com 4 pontos. E tinha apenas uma vaga para a final. Na última rodada, Flamengo precisava vencer o Santos e ainda contar com a ajuda do rival Vasco, que absolutamente precisava derrotar São Paulo para oferecer a vaga ao Flamengo. Era complicadíssimo, mas eu com um dia de vida, eu já sabia, nada era impossível para o Mengo. Em 8 de julho de 1992, o eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Fabinho, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá; Uidemar, Júnior, Zinho, Júlio César Garcia; Nélio, Gaúcho.

No Maracanã, tinha menos de 30 mil presentes, mas era o Maraca antigo, ainda com a geral, com os cantos “Mengo” e a fé rubro-negra, com raça, amor e paixão. O Maracanã explodiu quando a três quilômetros de lá, o antigo ídolo Bebeto abriu o placar para o Vasco no São Januário e deixou aberta a classificação do Mengo. “O jogo seguia em alto nível tático até que o gol de Bebeto, em São Januário, mudou completamente o panorama do jogo no Maracanã, quando o relógio marcava cerca de 15 minutos. Daí em diante, Flamengo e Santos partiram para o desespero. Suas táticas foram esquecidas com os dois times passando a jogar na base da garra”.

E na raça, Flamengo levou o melhor. Logo depois do gol de Bebeto, o ídolo Gaúcho desviou de cabeça uma cobrança de falta, Nélio dominou de peito, fez uma embaixadinha para abrir o caminho do gol e chutou, sem força nem precisão. Porém, Índio desviou o chute, que enganou o goleiro. Assim, Nélio, craque carioca nascido em 1971 e irmão de vários jogadores, que surgiu da base do Flamengo com outros grandes nomes como Marcelinho, Djalminha e Paulo Nunes, fez o primeiro gol de minha existência rubro-negra. Amém.

Santos também podia sonhar com uma classificação e lutou para o empate. E no amor, Flamengo levou o melhor. Júnior, craque consagrado de 38 anos recém-completados, cobrou uma falta e forçou Bernardo a fazer o gol contra. No São Januário, Bismarck e Edmundo fizeram gols para o Vasco e colocaram Flamengo perto da decisão. Porém, no Maracanã, o jogo ficou tenso. Júnior Baiano cometeu um pênalti, cobrado por Paulinho, defendido por Gilmar. Logo depois, Marcelo Passos fez o primeiro gol santista. Flamengo estava perto de uma enorme decepção, o jogo se tornava irrespirável.

E na paixão, Flamengo levou o melhor. Nos acréscimos, Nélio tabelou com Júlio César e abriu para Gaúcho. O artilheiro estava num jejum de 6 jogos e prometeu um gol. E cumpriu. No passe de Nélio, Gaúcho errou o domínio, acertou o chute. Mesmo desequilibrado, conseguiu chutar com força e precisão para vencer o goleiro, para fazer o terceiro gol rubro-negro, para colocar o Mengo na decisão. Na minha França, com apenas um dia de existência, eu já conhecia a alegria de uma vitória do Flamengo. Para fechar sobre a reencarnação, eu tenho a sensação que meu último falecimento foi difícil. Meu nascimento em 1992 também foi. Por causa de um problema no parto, passei os 15 primeiros dias de minha vida no hospital. Assim, mesmo antes de meu corpo conhecer minha casa na França, minha alma ainda estava no Maracanã cheio, com o Flamengo campeão brasileiro.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”