Hoje completam-se 105 anos de um dos títulos mais antigos da história do Flamengo, o campeonato carioca de 1921. Flamengo, falando de futebol, foi criado em 1911 e disputou seu primeiro jogo em 1912. Conquistou seu primeiro título carioca em 1914 e foi campeão invicto pela primeira vez em 1915. Depois, viu o Fluminense conquistar o tricampeonato entre 1917 e 1919 e acabou com o reino tricolor conquistando o campeonato carioca de 1920, de novo de forma invicta. E de novo, mirava um bicampeonato.
O ano de 1921 trouxe algumas novidades para o Flamengo. A diretoria lançou um novo escudo, muito próximo ao atual, como descreveu o Imparcial: “um escudo heráldico de forma ogival, com o campo dividido em oito listras, sendo quatro pretas e quatro vermelhas, alternadas, equidistantes e colocadas horizontalmente. No ângulo superior esquerdo há um retângulo de altura correspondente às três primeiras listras, tendo ao centro as letras CRF, brancas e entrelaçadas”. Também nomeou um técnico em vez do tradicional Ground Commitee. Mais surpreendente ainda, a diretoria escolheu um estrangeiro, o uruguaio Ramón Platero, que tinha conquistado o campeonato sul-americano de 1917 com o Uruguai e o campeonato carioca 1919 com Fluminense. Porém, em função de maus resultados, ficou pouco tempo no cargo rubro-negro.
Outra novidade do Flamengo foi a contratação do artilheiro Nonô, que jogava no pequeno Palmeiras, time do bairro de São Cristóvão no Rio de Janeiro. Nonô, na época com 22 anos, foi o primeiro mulato da história do Flamengo. Fez seus dois primeiros gols na segunda rodada do campeonato carioca, numa derrota 2×4 contra Bangu e repetiu a dose no jogo seguinte, agora Flamengo vencendo de goleada 4×0 contra o America. Flamengo alternava jogos bons e outros mais frustrantes, como uma derrota surpreendente contra Andarahy. Faltando três jogos para o final do campeonato, Flamengo estava apenas na quarta colocação.
Com um grande trio ofensivo Junqueira – Candiota – Nonô, Flamengo não perdeu mais e acabou o campeonato com os mesmos 15 pontos que o America, um dos maiores times cariocas da época, campeão em 1913 e 1916. Na época, não tinha critérios de desempate e, pela primeira vez na história, o campeonato carioca teve um jogo-desempate no estádio Laranjeiras. A expectativa era de um grande jogo e um estádio cheio. No livro Almanaque do Flamengo, pode-se ler: “A Liga Metropolitana passou a semana discutindo os preços que deveriam ser cobrados pelo espetáculo. Na sexta-feira dia 2, quando pôs os 13 500 ingressos à venda, verdadeira multidão tomou de assalto o Estádio das Laranjeiras. Bilhetes para as gerais e para as arquibancadas, aos preços respectivamente de 1 000 e 3 000 réis, esgotaram-se num abrir e fechar de olhos. Só escaparam da confusão os que podiam adquirir cadeiras, a 6 000 réis. Para que se tenha uma noção do valor da moeda, basta lembrar que um exemplar de jornal custava 100 réis”.
Pesquisando nos arquivos da Biblioteca Nacional, achei vários jornais que escreviam sobre o jogo, com o bem nomeado O Jornal: “É um encontro que se prevê sensacional e que, certamente, o será”. Por sua vez, o jornal O Paiz também previa um grande jogo, escrevendo com grafia da época: “No stadium, então, estamos calculando, a enchente será colossal. Lá será realizada a lucta maior, a peleja entre os gigantes do shoot, do drible, do passe… A partida será entre os dois campeões America e Flamengo, que resultará o campeão maior, porque… o vencedor de hoje será o campeão da cidade”. Em 4 de setembro de 1921, o zagueiro e chefe da comissão Telefone escalou Flamengo assim: Kuntz; Burgos, Telefone; Rodrigo, Sidney Pullen, Dino; Galvão Bueno, Orlando Torres, Candiota, Junqueira, Nonô.
Antes mesmo do apito inicial, o jogo já era eterno na cidade e no estádio. Escreveu o jornal O Paiz no dia seguinte ao jogo: “O grande match foi levado a effeito, no bello stadium do Fluminense F.C., que apresentava um magestoso aspecto, identico ao do memoravel encontro do campeonato Sul-Americano, entre brasileiros e uruguayos. A assistencia que compareceu ao stadium, ora calculada em trinta mil pessoas, sendo a Liga obrigada depois das 14 horas, a suspender a venda de entradas. O jogo como se esperava, dado o preparo dos quadros contendores, foi bellisimo e sensacional e ha bastante tempo o povo sportivo carioca não assistia um match tão renhido e empolgante como foi o de hontem”. O Jornal do Brasil, no seu Diario Esportivo, fez a mesma comparação com o Brasil x Uruguai de 1919: “A tarde de domingo ultimo marcou uma pagina de glorias, pagina bem maior do que qualquer outra, tarde só comparavel aquela em que vencendo os uruguayos, a equipe brasileira levantou o campeonato sul-americano. A grande assistencia que occupou completamente as vastas dependencine do Stadium, não regateou applausos a vencidos e vencedores.”. Ou seja, fora a decisão do campeonato sul-americano de 1919, o jogo entre Flamengo e America foi o maior evento esportivo da cidade até então.
Para o Correio da Manhã, “contribuiu-se assim o excellente dia para que a magnifica praça de sports da rua Guanabara confessasse a sua fraqueza diante da enormidade de curiosos que se movimentaram pela cidade e bairros, desde as primeiras horas da manhã, emprestando-lhes uma alegria enorme, um exemplo de festividade e de contentamento”. Acrescentou O Jornal: “O stadium do Fluminense, apesar das suas grandes dimensões, foi pequeno para conter a multidão que para lá affluiu, desejosa de assistir o embate entre as turmas do Flamengo e do America, em disputa do titulo de Campeão da Série A, da primeira divisão. O elemento feminino emprestou ao prelio o concurso da sua graça, garridamente representado por torcedores dos clubes combatentes”.
Nas Laranjeiras, o publico numeroso viu um primeiro tempo equilibrado. Escreveu O Paiz: “O match, à proporção que o tempo decorre, torna-se cada vez mais animado e disputado, não parando um instante a bola, em nenhum dos dois campos”. Um trecho do Correio da Manhã dá mais detalhes sobre o primeiro tempo: “O jogo assume grandes proporções, rivalizando-se os perigosos ataques. O Flamengo periga seriamente o posto de Tomich, perdendo Candiota uma excellente occasião de abrir o score da tarde, mandando o balão por cima. Kuntz produz defesas de assombrar, sendo perigosissimas as escapadas do trio americano. O match torna-se empolgante, desenvolvendo-se o jogo em todos os pontos da área do campo. Os ataques dos da camisa vermelha dão um trabalho insano a Kuntz, que se desempenha admiravelmente de sua missão, pegando duas seguidas e difficeis bolas. Nonô e Orlando proporcionam aos preto e vermelho uma reacção, que não surte effeito, devido intervenção de Tomich”.
Talvez com um pouco de exagero, o Jornal do Commercio homenageou a atuação do goleiro rubro-negro Kuntz, que, de desconhecido, passou a ser um dos maiores goleiros do país depois do campeonato sul-americano de 1920: “Kuntz em ulttimo recurso de defesa commette um ‘corner’ que batido não deu resultado. O Flamengo reage e Tomich defende um forte ‘kik’ dado por Candiota. A seguir toma novamente a offensiva o America e Kuntz salva o seu posto quatro vezes seguidas de ‘shoots’ dados por Chico, Ribeiro e Muniz. O jogo prosegue durante alguns minutos com ataques do America, es quaes encontraram em Kunz uma barreira intransponivel. O juiz marca varias faltas. Quando faltavam dez minutos para terminar o primeiro tempo do jogo, os atacantes assediaram repetidas vezes o ‘goal’ do Flamengo com ‘shoots’ fortissimos, mas Kuntz tem occasião de praticar sete defesas magnificas”.
Assim, depois de 40 minutos, era a duração de um tempo no campeonato carioca da época, os dois times ainda estavam em igualdade, com um placar de 0x0. Mas, no segundo tempo, o America precisou de apenas três minutos para fazer um gol, marcado por Chico. Atrás no placar e na tabela geral, o Flamengo não se assustou e partiu para o ataque. “Os rubro-negros passam a assediar o posto de Tomich, tendo os forwards em determinado momento, ‘furado’ em peso”, detalhou a Gazeta de Notícias. Na metade do segundo tempo, Flamengo conseguiu o gol de empate. “Cabe a Nonô, às 4 horas e 50 minutos e meio, com forte shoot rasteiro, ao receber a bola de Dino, passar pelos backes, obtendo o primeiro goal do Flamengo, tendo o keeper deixado a esphera escapar-lhe por entre as pernas”, prosseguiu a Gazeta de Notícias. Nonô chegava aos 11 gols no campeonato e ultrapassava o Tank Harry Welfare para se tornar o maior artilheiro do campeonato carioca.
O jogo seguiu animado logo depois do gol de Nonô, como relatou O Paiz: “O ponto rubro-negro é bastante aplaudido e a pugna torna-se ainda mais sensacional. O Flamengo, animado com o feito do seu center, faz vários ataques à defesa americana”. Para o Correio da Manhã: “Melhora muito o jogo com bons ataques de parte a parte, sendo grande o empenho dos dois lutadores, no sentido de ser desfeito o empate”. E o tempo regulamentar acabou assim, com uma igualdade no placar e no campeonato. Na época, ainda não tinha disputas de penalidades e o jogo partiu para uma prorrogação, como relatou O Jornal: “Como mandam as regras da Metropolitana, os clubes trocam de campo, para jogarem mais 20 minutos”.
Na prorrogação, Flamengo chegou ao gol da virada com Candiota, que provou que não era apenas o “Rei dos passes”, como era chamado. E a jogada vencedora começou com o melhor jogador da partida, o arqueiro Kuntz. Narrou O Paiz: “O America organiza um serio ataque, fazendo Almeida Netto um corner, que Kuntz defende com um soco. O Flamengo responde immediatamente ao ataque e carrega pela esquerda. Junqueira centra bem a bola e Candiota, aproveitando uma indecisão de Tomich, marca às 5.28 o segundo goal do Flamengo”.
Na frente no placar, Flamengo respeitou sua tradição já existente e não se retrancou. Ainda O Paiz: “Com a conquista do goal de victoria do Flamengo, o America dede o terreno por completo e os rubro-negro atacam ainda mais”. O Correio da Manhã dá um relato mais detalhado: “A luta é reiniciada, continuando reacção do America, que periga o muito movimentada. É grande à goal de Kuntz, em continua offensiva. Mas o Flamengo não se deixa levar de vencida e procede com heroismo, defendendo-se da melhor maneira, vindo tambem a investir contra os adversarios. O tempo vae se escoando e as duas equipes se desdobram, para augmentar e diminuir o score, conforme o seu interesse, sem o conseguirem porém”.
Assim, depois de 80 minutos no tempo regulamentar e mais 20 no tempo extra, o juiz acabou o jogo, o Flamengo finalmente era o grande campeão da cidade. Para o Jornal do Brasil, “O match, disputado com grande galhardia, foi um dos mais cheios de lances emocionantes, que temos assistido ultimamente. Vimos os vinte e dous players sem um momento sequer de esmorecumento e dando o melhor dos seus esforços pela conquista da victoria, que só coube ao Flamengo”. Também vale a pena citar o bem nomeado O Imparcial: “Essa luta titanica e empolgante, que finalisou com triumpho admiravel do C. Regatas do Flamengo, representou a victoria do rival que no final da mesma se houve com mais persistencia nos ataques e mais heroismo nas defezas. Foi, pode-se dizer mesmo, a victoria do mais forte, pois, essa conquista do Flamengo foi obtida em condições identicas as da inesquecivel victoria do scratch brazileiro no Campeonato Sul Americano de 1919. Foi obtida não no tempo regulamentar, mas, na prorrogação do vinte minutos, que segundo as leis da Liga se verificou”. De novo, o jogo Flamengo x America e o triunfo rubro-negro eram apenas comparáveis ao grande jogo Brasil x Uruguai, no mesmo Laranjeiras.
O relato dos diferentes jornais pode variar sobre os minutos das jogadas, às vezes até dos jogadores. Mas para todos, “Kuntz, o colossal arqueiro gaúcho, foi o heróe da pugna”, como deixou em manchete o O Imparcial. Para o Jornal do Brasil, “Kuntz esteve otimo. Pegou bolas tidas como indefensaveis” quando para O Paiz, “Na equipe vencedora é de justiça salientar na defesa Kuntz, que no goal como sempre, foi a alma do team”. Para (quase) concluir, uma avaliação do Jornal: “Kuntz, o extraordinario arqueiro flamengo, foi a principal figura da tarde, pondo mais uma vez em evidencia as qualidades que o collocaram no primeiro plano do football carioca. Ao seu excellente keeper dever o rubro-negro, em grande parte, a victoria que ante-hontem brilhantemente conquistou”.
A palavra final é para o Jornal do Brasil, sobre a festa do já bi bicampeão carioca: “Após a terminação do grande match Flamengo x America, realizou-se no campo do primeiro a chegada dos victoriosos grande demonstração de alegria pela victoria, sendo os players saudados por uma grande banda de clarins e por crescido numero de associados que cantaram o hymno do campeão do mar e terra”.
A imprensa carioca toda considerava com justiça o Flamengo o campeão carioca. Porém, ainda não era oficialmente o caso. Explico-me. Antes do início do campeonato, Fluminense, lutando contra a popularização do futebol, resolveu reduzir o número de times participantes no campeonato carioca. Em vez dos 10 times em 1920, alguns já mais populares, teve em 1921 dois grupos de sete times. O grupo A com os times mais tradicionais e o grupo B com times modestos, uma espécie de segunda divisão. Para justificar a mudança, teve, no final do campeonato, um jogo extra marcado entre o último do grupo A e o primeiro do grupo B, uma espécie de mata-mata de repescagem. Em caso de vitória do campeão do grupo B, ainda tinha mais um jogo, agora entre os dois campeões, para definir o campeão da cidade. Em caso de vitória do último colocado do grupo A, obviamente não tinha necessidade de jogo de título.
E o último do grupo A foi… Fluminense. Três dias depois do Flamengo x America, Fluminense enfrentou Vila Isabel para escapar do rebaixamento. Teve pouco destaque na imprensa, salvo A Noite, que escreveu: “com o jogo eliminatorio de hontem, em que o Fluminense derrotou o Villa Isabel, coube definitivamente o título de campeão de 1921 ao C.R. do Flamengo”. O Flamengo x America, com glória de Candiota, Nonô e Kuntz, foi um dos maiores jogos que presenciou o Rio de Janeiro até então, mas confesso que mais um Flamengo x Vila Isabel pelo título, e assim, Fluminense rebaixado, teria sido ainda mais legal…








Deixe um comentário