Depois do empate 1×1 no Mineirão, Flamengo precisa de uma vitória simples no Maracanã para eliminar o Cruzeiro da Copa Libertadores. Como foi o caso na ida com um jogo da Copa do Brasil de 1995, eu escolho para a crônica do dia um Flamengo x Cruzeiro em mata-mata, mas numa outra competição, a Copa dos campeões 2001.

Criada um ano antes, a Copa dos campeões, como o nome indicava, reunia campeões de diversos torneios da CBF e valia uma vaga para a Copa Libertadores. Campeão carioca em cima do Vasco com dois gols de Edílson e o inesquecível gol de falta de Pet, Flamengo estreou na Copa dos campeões de 2001 contra Bahia, vencedor da Copa do Nordeste. Vitória 4×2 no estádio Almeidão de João Pessoa, vitória 2×0 no estádio Rei Pelé de Maceió e Flamengo classificado na semifinal, contra Cruzeiro. Na ida, um empate 0x0 no Rei Pelé. Flamengo precisava de uma vitória simples para se classificar.

Em 4 de julho de 2001, o técnico Mário Zagallo escalou Flamengo assim: Júlio César; Maurinho, Juan, Gamarra, Cássio; Leandro Ávila, Rocha, Beto, Petkovic; Edílson, Reinaldo. Destaque para a dupla Petkovic – Edílson, que fazia maravilhas em campo e virava um inferno fora dos gramados. A briga de egos começou um ano antes, já na chegada de Edílson. No excelente livro 2001, isso aqui é Flamengo, de Claudio Portella e Roberto Assaf, lembrou o presidente rubro-negro Edmundo Silva: “Eles não se entenderam porque quando o Edílson chegou, pediu pra vestir a 10. Mas o Pet tinha no contrato que seria só dele […] Acho que o Pet ficou sabendo e não gostou. Ali, de forma velada, começou o conflito”. Para o lateral-esquerdo Cássio: “Esse foi o grande problema que enfrentamos. Afetava o grupo fora de campo. Todos tinham um bom relacionamento, mas os dois se detestavam”. Até o técnico Zagallo, com toda sua experiência, não conseguiu impedir o conflito: “A briga deles foi repercutida durante todo o ano. Havia uma grande incompatibilidade por conta de uma enorme vaidade. Um queria ser melhor que o outro. E eram os dois principais nomes do time”.

O estádio Almeidão virou um pequeno Maracanã. No Nordeste, a torcida, para um jogo entre Flamengo e outro time do Sudeste do Brasil, era e ainda é só rubro-negra. Flamengo jogou toda a Copa dos campeões quase em casa. Flamengo dominou o início de jogo e quase abriu o placar aos 16 minutos. Esquecendo-se da vaidade, Edílson tocou na esquerda para Petkovic, que parou no goleiro. Em seguida, Beto chutou para fora do gol. Na metade do primeiro tempo, Edílson roubou uma bola na frente de Cris e André, mas não conseguiu finalizar.

Além da dupla Pet – Capetinha na frente, Flamengo tinha um paredão no gol com Júlio César. No contra-ataque, Cruzeiro teve uma grande chance com Oséas. Júlio César defendeu, caiu, voltou em pé, desviou o cruzamento e no chute poderoso de Sérgio Manoel, defendeu com o pé, desviando a bola no travessão. Mais um milagre do Júlio César.

No final do primeiro tempo, o goleiro cruzeirense errou o lançamento, diretamente nos pés de Petkovic, a 30 metros do gol. Pet acelerou em direção ao gol. Tinha muitas opções de passe, Reinaldo na esquerda, Beto no meio, Edílson na direita. Petkovic escolheu o mais simples e mais difícil, foi sozinho, resistiu à marcação de Cléber Monteiro, invadiu a grande área e no limite da corrida, chutou, sem chance para o goleiro. Na comemoração, beijou o escudo do Flamengo e foi abraçado por Rocha e Maurinho. No pôster, perto de Pet, nada de Beto ou Reinaldo, muito menos de Edílson.

No início do segundo tempo, Petkovic errou um passe para um companheiro. Os dois quase saíram na briga e Petkovic teve de ser contido pelo Reinaldo para impedir um drama. Só que o companheiro não era Edílson como podiam imaginar, mas Leandro Ávila. Enfim, “quando resolveu jogar bola, o Flamengo passou a dominar a partida com sobras”, como escreveu o Jornal do Brasil no dia seguinte. Petkovic fez ótimo lançamento para Reinaldo, que chutou cruzado, sem vencer o goleiro. Edílson, bem servido pelo Juan, também teve boa chance, mas a bola escapou do gol.

Aos 20 minutos do segundo tempo, Cruzeiro teve a oportunidade do empate. Edmílson chutou forte, Júlio César fez outra defesa sensacional. No minuto seguinte, bola rubro-negra chegou na esquerda até Rocha. Do banco, Zagallo pediu para o meia acalmar o jogo. Porém, Rocha não escutou e jogou na frente, perto da grande área cruzeirense. A bola escapou de Beto, não de Edílson, que dominou do pé direito e chutou do pé esquerdo. O Almeidão explodiu, era o segundo gol do Mengo, o segundo da dupla Petkovic – Edílson.

O clima esquentou, teve briga quase generalizada, Luisão e Leandro Ávila acabaram expulsos. Jackson também foi expulso por falta dura sobre Beto e o jogo ficou ainda mais fácil para o Flamengo. A goleada só não se desenhou por causa da falta de lucidez de Reinaldo, em dia pouco inspirado. No final do jogo, Petkovic quase fez o golaço de cobertura, mas a bola apenas flertou com a trave. Quem fez o golaço foi Beto, que saiu do círculo central, passou entre dois zagueiros, ainda aplicou um drible de vaca sobre Cris antes de vencer o goleiro com categoria. Golaço.

Flamengo vencia facilmente e se classificava para a final. Não impediu a briga de egos de continuar. O jogo contra Cruzeiro no Almeidão foi o último com gols de Petkovic e Edílson juntos. Uma semana depois, em cima do São Paulo, Flamengo levaria a taça que valia vaga para a Copa Libertadores de 2002. No torneio continental, já sem a dupla de sonhos e pesadelos, Flamengo nem passou da fase de grupos.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”