A temporada de 2026 marcou a reestreia de um patrocinador histórico do clube, a Lubrax. Durante 25 anos, a Lubrax estampou o Manto Sagrado e viu desfilar craques e ídolos como Zico, Júnior, Romário, Petkovic e Obina. Para a crônica do dia, vamos lembrar o primeiro jogo do Mengo com a Lubrax, em 1984 contra o America.

Em 13 de maio de 1982, o Conselho Nacional Desportos aprovou a publicidade nas camisas de futebol, até então consideradas invioláveis. O CND definiu algumas regras explicadas pelo Jornal dos Sports: “O espaço destinado à propaganda terá 250 centímetros quadrados, no máximo, com 25 centímetros às costas da camisa, acima ou abaixo do número identificador do jogador, e de maneiras uniforme para todos os atletas”. As regras mudaram em 1983 e foi autorizada a colocação de publicidade na frente da camisa.

Em abril de 1984, Flamengo acertou um contrato com a Petrobras para estampar a Lubrax na camisa. Claro, a medida e o retângulo amarelo não agradavam todos, do torcedor mais simples até o presidente George Helal, que explicou para o Jornal dos Sports: “Existe ainda uma controvérsia com relação à utilização da publicidade no uniforme do Flamengo. O Conselho Deliberativo aprovou a medida, mas acho que a camisa do Flamengo tem um certo misticismo. Eu, por exemplo, me sinto um pouco incomodado em ver a mudança no uniforme”. Na mesma página do JDS, tinha uma explicação meio óbvia na outra notícia ao lado e fala do ídolo Júnior: “A partir do dia 28 de abril, dia em que se encerra o seguro que firmei com o Flamengo, não tenho mais nenhum vínculo com o clube. Não poderei jogar, por lei”. Flamengo, que perdeu Zico um ano antes de forma traumática, precisava de dinheiro. E o contrato com a Petrobras trazia 60 milhões de cruzeiros para os cofres para apenas seis jogos da Copa Brasil. E podia render mais 90 milhões com a Lubrax na camisa nos três jogos da Copa Libertadores.

A estreia do Manto Sagrado com patrocinador aconteceu na estreia da terceira fase do Brasileirão de 1984, chamado Copa Brasil. O adversário era o America, na época um dos grandes do Rio de Janeiro. O técnico rubro-negro Cláudio Garcia tinha a volta no time de Leandro, ausente dos dois últimos jogos por causa de uma lesão. Em 8 de abril de 1984, Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Bigu, Andrade, Adílio; Tita, Edmar, Bebeto.

No Maracanã, com mais de 55 mil pagantes, Flamengo começou melhor o jogo, com um cabeceio de Edmar, fora do gol. O America reagiu, mas Fillol fez duas belas defesas. No final do primeiro tempo, o Flamengo aplicou seu jogo característico, mesmo sem Zico. Bebeto ganhou a bola e fez o passe para Bigu, que alertou Tita na profundidade. O novo camisa 10 cruzou, Edmar chegou antes do goleiro, esticou a perna e fez o primeiro gol da Era Lubrax.

No início do segundo tempo, Tita fez sua segunda assistência do jogo. Cobrou um escanteio na segunda trave, Adílio chegou sozinho e bonito para ampliar de cabeceio. A partir do segundo gol, Flamengo dominou completamente o jogo e confirmou a vitória faltando 15 minutos para o final. Escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports: “Absoluto em campo, o Flamengo intercepta todas as jogadas do adversário a partir do meio-campo. João Paulo, que entrara pouco antes, ganha do adversário e não consegue passar, mas Júnior recebe na frente, vai à linha de fundo, peneira e chuta, Gasperin não consegue segurar, a bola passa por baixo e Bebeto entra com tudo”. Bebeto, que fazia apenas seu segundo jogo inteiro com o Flamengo, começava a se firmar no time e fez o gol que decretou a vitória rubro-negra.

Quem era já consagrado era Júnior, que levou a nota 10 tanto para o Jornal dos Sports quanto o Jornal do Brasil. Nas colunas do Jornal dos Sports, o jogador em fim de contrato explicou: “Como profissional, tenho que ter responsabilidade e consciência para levar o meu time a mais uma vitória e entro em campo para fazer isto a todo custo. Entretanto, como pai de família, tenho que procurar o melhor para o futuro, daí pensar seriamente nos italianos”.

A Lubrax deu sorte, reapareceu quatro dias depois no Maracanã, agora com a camisa rubro-negra, já que jogou de branco contra o America. Contra Náutico, mais uma vez o Flamengo venceu. E, como era de esperar, Flamengo também jogou com a Lubrax na Copa Libertadores, por mais 90 milhões. A estreia na Copa Libertadores deu sorte, com uma goleada 5×0 sobre Santos, um jogo eterno no Francêsguista. Porém, não foi suficiente para segurar Júnior, que saiu do clube logo depois da eliminação no Brasileirão. “Quando veio a proposta do Torino, não deu nem para pensar duas vezes. Sinceramente, até então, não planejava deixar o Flamengo. Estava satisfeito. Porém, iria ganhar um salário vinte vezes maior. Já estava com trinta anos e não podia deixar passar uma chance de fazer a minha independência financeira. Além disso, iria jogar no maior campeonato do mundo, onde estavam os maiores craques da época, como Rummenigge, Platini, Maradona e Zico”, explicou depois o lateral no livro 100 anos de bola, raça e paixão. Enfim, o jogo contra o America marcou uma nova fase para o Flamengo e, de uma forma mais geral, para o futebol brasileiro.

Deixe um comentário

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”