Flamengo ampliou a vantagem na reta final do Brasileirão, com três pontos e duas vitórias a mais que o Palmeiras. O jogo contra Grêmio ainda não é uma final, mas quase. Por isso, para a crônica do dia, escolho um Flamengo x Grêmio na semifinal da Copa do Brasil, em 1993.

Na Copa do Brasil de 1993, Flamengo estreou contra o América de Natal. Passou com empate em Natal e goleada no Maracanã. Ainda eliminou com dificuldades o Paysandu do Pará e o Londrina do Paraná. Na semifinal, o adversário era bem mais poderoso, o Grêmio, campeão da primeira edição da Copa do Brasil em 1989. Mais vibrante ainda, tinha a possibilidade de um clássico carioca na final, já que Vasco jogava contra o Cruzeiro na outra semifinal.

Para o jogo contra o Grêmio, o técnico rubro-negro Jair Pereira tinha a volta de Renato Gaúcho que teve uma operação no joelho. O atacante polêmico não jogava há três meses e ainda era diminuído, como ele próprio explicou: “Ainda sinto bastante dor no tendão. Estou com apenas 30 por cento de minha capacidade, mas se esperasse ficar bom totalmente, não jogaria nunca”. Em 20 de maio de 1993, o técnico Jair Pereira escalou Flamengo assim: Gilmar; Uidemar, Rogério, Júnior Baiano, Piá; Marquinhos, Júnior, Nélio, Djalminha, Marcelinho Carioca; Gaúcho.

Do lado do Grêmio, o jogo marcou a estreia de um saudoso craque, o habilidoso Dener, emprestado pela Portuguesa. Deixo a palavra para Nelson Rodrigues Filho, que como o pai, era craque de literatura: “Os zagueiros do Flamengo precisam ficar de olho em Dener, se ele jogar, para descobrir se ele está em dia de bestial ou de besta. Se estiver bem, podem se preparar para ter trabalho. Se jogar o feijão com arroz que marcou metade dos seus jogos pela Portuguesa, Júnior Baiano & Cia vão poder respirar sem qualquer dificuldade”. Já o experiente capitão rubro-negro Júnior falava o óbvio: “Esta vitória será fundamental, teremos dado um grande passo para a classificação. Se ganharmos por mais de um gol, melhor ainda. Mas nosso primeiro objetivo é conseguir a vitória sem sofrermos gol”.

No Maracanã, Flamengo precisou de apenas 12 minutos para abrir o placar. Nélio achou Djalminha, que completou a tabelinha com um lindo toque de cobertura, em cima da zaga gaúcha. Sem deixar a bola cair, Nélio tocou de primeira e venceu o goleiro. O Flamengo fez um segundo gol, anulado pelo juiz de forma incompreensível. Gaúcho tocou uma bola de cabeça, o zagueiro Paulão errou e devolveu para Gaúcho, que fez o gol. Ignorando as regras mais básicas do futebol, o juiz marcou impedimento e anulou o gol. O novo jogador gremista Dener começou a brilhar ainda no primeiro tempo, deixando dois flamenguistas no chão e deixando Juninho em posição de fazer o gol. Júnior Baiano chegou bem e salvou o Mengo. Pouco tempo depois, Juninho pegou um cruzamento de voleio e, aproveitando a falha de Gilmar, empatou o jogo. No final do primeiro tempo, o juiz pouco inspirado esqueceu de marcar um pênalti evidente sobre Piá.

No início do segundo tempo, o goleiro Eduardo saiu com o punho. A bola saiu bem alto e morreu no peito de Júnior que, lembrando o futebol de areia, fez o passe para Djalminha de peito mesmo. O chute do camisa 11 foi desviado pelo Geraldão e enganou o goleiro, morrendo na rede. Oito minutos depois, Dener deixou Rogério no chão com um drible seco e, antes da chegada de Júnior Baiano, acionou Gílson, que chutou cruzado. Mais uma vez, Gilmar faltou de firmeza e deixou a bola entrar no gol.

No minuto seguinte, Renato Gaúcho entrou em campo pela primeira vez depois de três meses fora dos gramados. Na sua primeira bola, tentou uma bicicleta e o time rubro-negro inteiro reclamou de um pênalti. O juiz não marcou, mas logo depois expulsou o gremista Jamir depois de uma falta sobre Renato Gaúcho. Já escrevi que faltou pouco para o Flamengo de 1993 se tornar histórico. Era um time de craques consagrados e jovens promessas. Júnior cobrou perfeitamente um escanteio, Gaúcho desviou de cabeceio, Renato Gaúcho dominou, chutou e fez valer a lei do ex. Porém, Renato Gaúcho era um craque problema. Logo depois, fez uma falta desnecessária e recebeu o cartão amarelo lógico. Longe de se calar, reclamou, se envolveu em uma discussão com Geraldão e os dois acabaram expulsos. Foram apenas 18 minutos em campo de Renato Gaúcho.

Quem brilhou o jogo inteiro foi Djalminha, que, no final do jogo, pedalou duas vezes, tabelou com Luís Antônio e fez o quarto gol do Mengo, o segundo dele. “Sua habilidade e refinado toque de bola encantam qualquer um”, escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports, que lhe atribuiu a nota 8. O Flamengo encaminhava sua classificação, mas nos acréscimos, o juiz marcou um “pênalti inventado” para o Grêmio segundo o JDS. Na cobrança, Eduardo diminuiu e fez o gol que faria toda a diferença na volta.

Para o Jornal dos Sports, “o destaque absoluto do Grêmio foi o atrevido Dener”. Mas talvez o maior nome do jogo foi o próprio juiz, o que nunca é bom sinal. A diretoria rubro-negra reclamou bastante, o presidente Luís Augusto Veloso falando de “provocação ao Flamengo” e o juiz “Paulo César Gomes deixou o gramado correndo, e tropeçou nas escadarias que dão acesso ao vestiário”. Mas nada mudou o placar final nem o roteiro frustrante na volta.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”