Flamengo não perde contra Vasco no Brasileirão desde 2015. Já são 15 jogos de invencibilidade. Porém, os três últimos jogos acabaram em empate. Para o jogo eterno do dia, eu vou então de um empate entre Flamengo e Vasco, no caminho do penta.
No Brasileirão de 1992, os 20 times jogaram uma vez entre si, e os 8 primeiros se classificaram para a segunda fase. No primeiro Flamengo x Vasco do campeonato, ainda na primeira fase, o cruzmaltino venceu 4×2 com gols de Bebeto, duas vezes, Edmundo e Flávio. O Vasco disparou na liderança e Flamengo ficou no 13o lugar, ameaçado de ficar fora da segunda fase. Porém, sob a maestria do Vovô-Garoto Júnior, Flamengo arrancou e acabou no quarto lugar.
Na segunda fase, tinha dois grupos de quatro times e apenas o primeiro se classificava para a final. Na estreia, Flamengo venceu São Paulo, mas logo depois perdeu contra Santos. Já o Vasco começou a fase com dois empates contra os mesmos times. O Clássico dos Milhões valia ouro. Quem perdia estava quase eliminado. “Desse duelo, só um sobreviverá”, escreveu Washington Rodrigues para o Jornal dos Sports. Talvez por isso o jogo ficou tão violento.
E a violência começou antes mesmo do jogo. Teve brigas de torcidas organizadas nas ruas, apreensão de coquetéis molotov, barras de ferro e pedaços de pau nos ônibus, invasões em portões do Maracanã, cheio com 101.343 pagantes e mais de 130 mil presentes. Em 28 de junho de 1992, o nosso eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá; Uidemar, Júnior, Zinho, Nélio; Paulo Nunes, Gaúcho. O Vasco era o favorito do jogo, com um trio ofensivo impressionante: Bismarck, Bebeto e Edmundo.
Já do lado do Flamengo, o principal nome era o de sempre: Júnior. Ainda mais que o Vovô-Garoto completaria 38 anos no dia seguinte e recebeu uma homenagem do Jornal dos Sports. A festa do pré-jogo foi realmente bonita, com show das duas torcidas. Mas em campo, teve pouca festa e ainda menos futebol. Com apenas dois minutos de jogo, Zinho cruzou, Luís Carlos Winck tocou a bola com a mão, mas o juiz nada marcou pênalti. Assim, inflamou o jogo, que foi quase só violência. Teve algumas faltas que hoje são impossíveis de imaginar. “No primeiro tempo do jogo vimos apenas pancadas e troca de socos e pontapés, diante do olhar complacente do árbitro”, escreveu Washington Rodrigues.
Até a torcida reclamou da falta de futebol e do excesso de violência. Na sua crônica para o Jornal do Brasil, Cláudio Arreguy viu uma “vitória da arquibancada”: “A torcida foi a grande vencedora […] Ela, com sua sabedoria, conseguiu a proeza de fazer com que um jogo que caminhava para um triste desfecho, tamanha a violência exibida pelos jogadores em campo, melhorasse, ganhasse contornos do clássico que ele é e terminasse eletrizante […] Até então, o que eles tiveram de suportar eram botinadas de ambos os times, trocas de empurrões, peitadas e até uma cusparada de Eduardo em Nélio […] Foram momentos de tremor nas estruturas do velho estádio, cada torcida tentando gritar mais alto que a rival. E o futebol, que ainda não entrara em campo, surgiu com a emoção que uma casa cheia é capaz de proporcionar. Não um espetáculo de alto nível, com jogadas de arte. Mas, pelo menos, um jogo de velocidade, empenho, busca do gol”.
O único ponto positivo das inumerosas faltas é que dava chances de gol. Ainda mais quando no time tem a figura de Júnior. O ex-lateral e agora meio de campo vivia uma fase exuberante, com vários golaços de falta no campeonato, contra o Atlético Mineiro, o Corinthians e o Internacional. Destaque para o primeiro gol, contra o Galo, num lugar do campo reservado aos craques, bem na esquerda, com muito pouco ângulo. Mesmo assim, Júnior conseguiu o golaço, com uma curva reservada aos craques. E do exato mesmo cantinho do campo, teve uma falta para o Flamengo no jogo contra Vasco. Júnior conhecia a curva e o efeito, conhecia tudo da bola. Bateu de pé direito e surpreendeu o goleiro Régis, que falhou. Com um golaço de seu capitão, Flamengo abria o placar no final do primeiro tempo.
No segundo tempo, o futebol melhorou, apesar de ainda algumas faltas duras, afinal era o Clássico dos Milhões. Numa bola alta, Júnior Baiano antecipou a saída fraca de Gilmar e tocou de cabeça. Cássio recuperou, invadiu a grande área rubro-negra e tocou para Wilsinho, pronto para fazer o gol. Júnior, definitivamente o nome do jogo, chegou antes e foi quase forçado a fazer o gol contra, o gol do placar final.
Com o empate, os dois times seguiam vivos para a classificação. O jogo seguinte, outro Flamengo x Vasco marcado três dias depois, prometia mais uma guerra, dentro e fora do campo: “Tomara que a gente assiste a futebol, nos 90 minutos. E que as torcidas não repitam o triste espetáculo na saída do estádio, quando resolveram brigar e ameaçar a muitos que nada tinham a ver com a história”, concluiu Washington Rodrigues. A festa nas arquibancadas submetia-se a muitos, mas a festa do futebol em campo dependia apenas de alguns craques, como Júnior, o Vovô-Garoto de agora 38 anos.








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