Dos ídolos rubro-negros dos anos 1990 ou do início dos anos 2000, eu conheci muitos sendo ‘francês’, ou seja, conhecendo-os porque jogavam na Europa ou eram jogadores da Seleção. Edílson, que jogou pouco na Europa, é um deles. Ele também é minha memória mais antiga do Flamengo. Comecei a acompanhar o futebol brasileiro de clubes em 2005 e conhecer bem o elenco do Flamengo em 2007. Mas lembro que para a Copa do Mundo de 2002, eu tinha um carinho especial pelo Edílson porque jogava no Flamengo. Na verdade, nem jogava mais no Flamengo, mas nos quadrinhos Panini, bem famosos na França e que eu colecionava como todos os garotos, a ficha do Edílson indicava que jogava no Flamengo. E gostava do Edílson porque eu gostava do Flamengo. Ele é minha prova que eu era flamenguista antes de meus 10 anos, quem sabe antes de meu nascimento.
Edílson da Silva Ferreira nasceu em 17 de setembro de 1970, em Salvador. Passou por clubes menores em vários estados do Brasil. No livro 2001, isso aqui é Flamengo de Claudio Portella e Roberto Assaf, Edílson lembra sua trajetória: “Jogava futebol amador em Salvador e recebi um convite de um treinador para jogar no Industrial, time da primeira divisão do Espírito Santo. Aceitei, fiquei um ano e me profissionalizei. Consegui fazer alguns gols no Campeonato Capixaba […] Meu tio me levou para fazer um teste no Vitória, mas o clube estava contratando Arthurzinho, que jogava na mesma posição, e não me deixaram treinar. Acabei aceitando uma proposta para ir para o Tanabi, do interior de São Paulo. Fui bem e o Guarani me contratou”. Quando chegou ao Guarani em 1992, já tinha 21 anos. Foi bem, inclusive com dois gols em cima do Palmeiras, e no ano seguinte, acabou contratado pelo próprio Palmeiras, um time que tinha, entre outros, Roberto Carlos, Zinho, Evair e Edmundo. Conquistou uma tríplice coroa em 1993 com o campeonato paulista, o torneio Rio – São Paulo e o Brasileirão. No jogo de ida da final, no seu Salvador natal, Edílson fez o único gol do jogo contra Vitória.
Em 1994, Edílson conquistou mais um campeonato paulista e fez um dos gols mais bonitos da história do futebol brasileiro contra o Corinthians. Saiu da parte do campo do Verdão e driblou todo mundo antes de finalizar a pintura, ainda mais bela na voz de Silvio Luiz. Com seu futebol envolvente e irreverente, também ganhou o apelido de Capetinha, como ele próprio explicou: “Combina com o que eu fazia dentro de campo porque eu sempre fui um cara tranquilo no dia a dia. O apresentador Roberto Avallone, que era da TV Gazeta na época, colocava apelido nos jogadores. Colocou Animal no Edmundo, El Matador no Evair, Enceradeira no Zinho e começou a me chamar de Capetinha, e aí pegou”.
Depois percorreu o mundo, jogou na Europa no Benfica. “Gostei muito de Portugal. Aprendi a gostar do Benfica. Eles me conhecem como o ‘Pequeno Grande Homem’, pois era baixinho e fazia coisas grandes dentro de campo. Lembro que tive uma despedida emocionante lá”, ainda lembra Edílson, que depois passou pelo Japão, seis anos antes da Copa. Brilhou e fez seus gols antes de voltar para o futebol brasileiro, agora no arquirrival do Palmeiras, o Corinthians. E de novo fez história num timaço, que tinha Gamarra, Vampeta, Ricardinho, Marcelinho Carioca e Luizão. Em 1998, foi eleito o melhor jogador do campeonato, que conquistou em cima do Cruzeiro. No jogo desempate, driblou o goleiro Dida, que já tinha martirizado na final de 1993, para abrir o placar e deixar o Timão perto da taça.
Em 1999, provocou uma das maiores brigas do futebol brasileiro, quando fez algumas embaixadinhas para zoar o Palmeiras, o que custou sua vaga na Copa América com a Seleção. Também conquistou seu terceiro Brasileirão e deixou no ano seguinte mais uma jogada icônica do futebol brasileiro. No Mundial de clubes, o Capetinha conseguiu a canetinha nas pernas do francês Karembeu e completou para fazer o golaço contra o Real Madrid. Conquistou o Mundial e foi eleito melhor jogador da competição. Porém, o Corinthians foi eliminado pelo Palmeiras no campeonato paulista e Edílson pediu para sair do clube.
Edílson era desejado pelo Flamengo e também pelo Vasco, vice-campeão mundial, vice-campeão carioca e que tinha no elenco jogadores como Júnior Baiano, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano e claro, Romário. Lembra o presidente do Flamengo, Edmundo Silva: “O Luiz Viana, empresário na época do Edílson, trouxe o nome dele. Foi uma briga entre Vasco e Flamengo. Mas chegamos na frente e fechamos antes. Eu achava a cara do Flamengo pela sua irreverência e futebol vistoso”. No mesmo livro 2001, isso aqui é Flamengo, Edílson revela o motivo da escolha: “Acreditei no projeto de levantar um time que estava em baixa. No Vasco, seria o contrário, já que estavam no alto e a tendência era cair”. Ainda falou o Capetinha: “Não encerraria a carreira sem jogar pelo Flamengo”.
Edílson chegou ao Flamengo por 7,5 milhões de dólares, uma fortuna na época. O clube rubro-negro fechava uma janela bem ambiciosa, trazendo também Gamarra, Petkovic, Alex e Denílson. Não deu tudo certo em campo. Edílson estreou numa derrota contra River Plate na Copa Mercosul e fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado, no jogo seguinte, na Europa contra o Atlético de Madrid. No jogo seguinte, contra o Bétis, Edílson fez outro gol com passe de Denílson. O outro gol da vitória rubro-negra foi marcado pelo Adriano. Havia muito talento.
De volta ao Brasil, Edílson fez mais um gol para seu primeiro jogo do Brasileirão com o Flamengo, uma vitória 2×1 contra o Atlético Mineiro no Mineirão, um jogo eterno no Francêsguista. Dejan Petkovic fez o outro gol da vitória em virada do Flamengo. Havia muito talento, muito ego também. Edílson ainda fez dois gols no jogo seguinte, uma goleada 4×0 contra o Universidad de Chile, outro jogo eterno no blog. O Capetinha chegou aos 5 gols nos seus 5 primeiros jogos, mas fechou a temporada de 2000 com apenas 2 gols nos 21 jogos seguintes! Ao menos, sabia escolher seus jogos e deixou a marca dele na goleada 4×0 contra Vasco e abriu o placar contra River Plate, o que não foi suficiente para impedir a eliminação rubro-negra da Copa Mercosul.
Em 2001, alguns medalhões saíram do time e Edílson, que vestia a camisa 9, trocou de camisa, como ele explicou: “Gosto de dois números. Como a 10 é do Petkovic, optei este ano pela camisa 11. O 7 e o 9 são números feios”. Já tinha uma rivalidade entre o Capetinha e Pet, que começou a temporada machucado. Assim, o maior protagonismo caiu nos ombros do camisa 11, herdeiro de Romário, que não decepcionou. “A torcida do Flamengo deposita grande esperança em mim, mas, por ter chegado no meio do campeonato ano passado, não vinha correspondendo. Agora fiz uma boa pré-temporada e tenho tudo para decidir os jogos”, explicou Edílson, que passou os dois primeiros jogos do ano em branco. Logo depois, fez dois contra o Americano, inclusive um golaço com drible de vaca, ginga e habilidade.
No campeonato carioca, Edílson fez vários gols, o que lhe valeu convocações na seleção brasileira e uma briga na artilharia com ninguém menos que Romário. “Não é fácil ganhar do Romário, não. Ser artilheiro numa competição em que ele está disputando e sempre ganhando não é para qualquer um”, explicou Edílson. Por sua vez, Romário explicava que era os concorrentes eram cavalos paraguaios e garantiu que seria o artilheiro. Fazia cinco anos consecutivos que o Baixinho era o artilheiro do campeonato carioca, seja com a camisa do Flamengo quatro vezes, seja com a camisa do Vasco uma vez.
Edílson passou a meta dos 10 gols no campeonato fazendo os dois gols do jogo contra Friburguense. No livro 100 anos de bola, raça e paixão, pode se ler: “Foi exatamente após esse jogo que os problemas de relacionamento entre os jogadores se tornaram públicos. O grupo estava desunido. Iranildo saiu de campo criticando a falta de união do time. Houve uma discussão em campo. Reinaldo se preparava para bater uma falta e foi empurrado por Petkovic. Reinaldo saiu reclamando: ‘Não adianta treinar faltas aqui no Flamengo porque o Pet não deixa bater’. Dentro do clube, os dirigentes já começavam a cogitar uma possível venda do sérvio. Além do alto salário que recebia, era apontado como desagregador e com pouco ambiente entre os jogadores mais jovens”. Para lidar com o ego de Petkovic e Edílson, precisava da habilidade e experiência de Zagallo, que reuniu os dois e falou: “Aqui dentro do campo, é o preto e vermelho. É a união. Fora de campo, se vocês não se dão, aí é outro problema”. No jogo seguinte, Fla venceu, Edílson fez um gol, Pet fez dois, e Zagallo abraçou o sérvio, acabou com os problemas.
Edílson também estava acostumado a voltar nas suas terras baianas e às vezes atrasava para voltar na concentração no Rio de Janeiro. “Algumas vezes você precisa ter equilíbrio e não tomar nenhuma atitude radical. Era um jogador importante e que estava fazendo sua parte dentro de campo”, explicou Zagallo, que ainda falou sobre o Capetinha: “la para o jogo e decidia. Jogava muita bola! Infernizava qualquer defesa”. Na Taça Rio, Flamengo ficou no segundo lugar, atrás do Vasco. A final, como em 1999 e 2000, era entre Flamengo e Vasco.
Vasco venceu o jogo de ida por 2×1, podendo perder por até um gol de diferença na volta e ser campeão. Por causa de falta de pagamentos, tempos sombrios da ISL, Petkovic ameaçou não jogar o jogo de volta. Acabou jogando e quem ficou fora foi o Romário, ainda machucado. Assim Edílson se consagrou como artilheiro do campeonato e pôs fim ao reinado do Baixinho. Faltava o título coletivo. No Maracanã lotado, com 20 minutos, um pênalti para o Flamengo. Edílson cobrou firme e abriu o placar. No final do primeiro tempo, Juninho Paulista empatou. No início do segundo tempo, Petkovic pedalou, fintou, driblou. O Pet cruzou, o baixinho Edílson pulou, cabeceou, golaçou. Flamengo vencia, mas faltava um golzinho para conquistar o título.
O minuto 43 é eterno na história do Flamengo, mas a canonização começou no minuto 42. Edílson fez a jogada de pivô e cavou a falta, à 25 metros de distância, para manter viva a esperança da torcida. O final, todo mundo conhece, foi visto e revisto, mesmo sem ver o lance de novo, é impresso na retina, na cabeça e no coração de todo rubro-negro. Agora, paro de escrever para ver de novo a falta de Edílson, a esperança da Nação, a preocupação de Helton, a ansiedade de Alessandro, a fé de Zagallo, o chute, o suspiro, o golaço de Petkovic. Gol do Pet, Fla campeão, Fla tricampeão. No final do jogo, o artilheiro do campeonato exultou: “Já passei por tudo na carreira, mas hoje foi demais. Ganhei títulos em quase todos os clubes, mas igual a esse, sofrido assim, nunca”.
Há uma curiosidade com Edílson no Flamengo. Em seu maior jogo com o Manto Sagrado, sua atuação é esquecida. O golaço de falta de seu maior rival apagou sua participação. O próprio Edílson reconhecia isso no livro 2001, isso aqui é Flamengo de Roberto Assaf e Claudio Portella: “Fiz dois gols na final, sofri a falta, mas o Pet que levou a fama. Se não fosse o gol dele de nada adiantariam os dois que fiz. Foi uma das grandes decisões que disputei na minha carreira”. Como camisa 10, Petkovic elogiou Edílson, no estilo particular dele: “Ele foi para Seleção com tanta assistência que eu dei para ele naquele ano. E, claro, por méritos dele”. Nas eliminatórias, o melhor momento dele foi na 16a rodada, quando o Brasil estava ameaçado de ficar fora da Copa. Contra o Chile no Couto Pereira, Edílson abriu o placar e o caminho do Brasil para a Copa.
Com o Flamengo, repito, no inesquecível 27 de maio de 2001, Edílson fez dois gols e cravou a falta para o gol eterno de Pet no tricampeonato carioca. Teve outros momentos de brilho, na Copa dos Campeões regionais, fez um gol contra Bahia na estreia. Fez outro na semifinal contra Cruzeiro e deixou mais uma atuação inesquecível no jogo de ida da final contra São Paulo. Abriu o placar, fez uma assistência de bicicleta, deixou mais um gol e ainda provocou o quinto gol do Flamengo com um drible de vaca para uma vitória 5×3, outro jogo eterno no Francêsguista. Na volta, mais um golaço de falta de Pet, mais uma taça para o Mengo.
No Brasileirão, fez um gol contra Bahia, gostava de fazer gols na sua terra natal, mas decepcionou no final. O Capetinha fez apenas 3 gols no campeonato e Flamengo quase foi rebaixado. Dos últimos 15 jogos na temporada, Edílson passou em branco em 14 jogos! Ao menos, escolheu bem seu jogo para mais uma atuação de craque. Nas quartas de final da Copa Conmebol, Flamengo goleou Independiente 4×0, Edílson fez dois gols, com duas assistências de Petkovic. O fim de uma dupla de sonho e pesadelo. Na final, Edílson foi expulso e já tinha deixado o clube para o jogo de volta, perdido contra San Lorenzo. O fim de uma época.
Voltamos assim ao início da crônica, a Copa de 2002, ao quadrinho de Panini. A minha primeira lembrança de flamenguista, minha prova que Flamengo foi uma coisa de criança, talvez que já estava na minha alma antes de nascer. Edílson não foi titular, porque na frente tinha Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. Apenas isso. Mas o Capetinha participou de 4 jogos, com destaque para a semifinal. Substituiu o Ronaldinho Gaúcho, expulso contra a Inglaterra, e teve uma atuação segura contra a Turquia. Não jogou a final, mas foi um dos 23 pentacampeões. Analisa o próprio Edílson: “Não conquistei a titularidade, mas joguei quatro jogos na Copa e dei a minha contribuição com boas exibições. Saí de um time amador da Bahia e fui pentacampeão mundial. Foi coisa de Deus. Posso dizer que fui muito longe na vida”.
Depois de boa passagem no Cruzeiro, conquistando a Copa Sul-Minas de 2002, Edílson ficou no Japão após a Copa. Voltou ao Kashiwa Reysol, onde já tinha jogado em 1996. Fez seus golzinhos e teve mais uma volta, agora no Flamengo. Já na reestreia, fez um gol contra Vitória, gostava de deixar sua marca nas suas terras baianas. Marcou no jogo seguinte contra Sport, mas com um elenco ruim e algumas lesões, passou os nove jogos seguintes em branco. A volta foi sensacional, um hat-trick na goleada 6×0 contra… Bahia. Fez outros gols, mas não levou títulos. Até a despedida foi melancólica. O Capetinha fez dois gols na virada contra São Paulo, mas acabou expulso por causa de uma briga com Jean. Era assim o fim definitivo da linha de Edílson no Flamengo: 117 jogos, 51 gols, dois títulos, a artilharia do campeonato carioca de 2001, e claro, a atuação inesquecível contra Vasco.
Em 2004, Edílson voltou para a Bahia, conquistando o campeonato baiano com Vitória. Passou pelo futebol árabe e voltou ao Brasil, no São Caetano e depois o Vasco, perdendo a final da Copa do Brasil de 2006 contra o Flamengo. Aposentou-se em 2007 com a camisa do Vitória, mas voltou dois anos depois, agora com o arquirrival Bahia. Jogou até a final do campeonato baiano de 2010, perdida contra o Vitória.
Com bom humor e brincadeiras, teve passagens na televisão, como comentarista e até participante de reality show como Danças dos Famosos e BBB. No Flamengo, não foi o maior jogador nem o melhor, não foi o maior ídolo nem o mais flamenguista. Mas sem ele, não teria saído o gol de Pet contra Vasco. Basta isso para fazer do Capetinha um ídolo do Flamengo.








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