Jogos eternos #391: Flamengo 2×0 Vitória 1987

Flamengo estreia hoje na Copa do Brasil contra Vitória no Maracanã. Para o jogo eterno do dia, vamos de uma estreia de temporada, em 1987, também contra Vitória no Maracanã.

O ano era 1987 mas o Brasileirão ainda era de 1986. O campeonato nacional se estendia por semanas, às vezes meses, até o ano seguinte. A Seleção perdeu a Copa e pôs um fim definitivo ao futebol-arte como ideal. O futebol brasileiro estava em crise, de imagem e de dinheiro, o que incitou a criação da Copa União. Enfim, no início de 1987, ainda era o Brasileirão de 1986.

A temporada de 1987 apenas começava, mas Flamengo já andava com vários atletas machucados. Leandro, Adílio, Bebeto e Zico estavam fora do jogo contra Vitória. Ao menos, tinha Sócrates. O Doutor estreou no Flamengo no início de 1986, com três amistosos e a estreia do campeonato carioca, o inesquecível Fla-Flu com 3 gols de Zico. Foi o único jogo oficial no Flamengo da dupla Zico – Sócrates, que fez sonhar o Brasil e o mundo inteiro na Copa de 1982.

Depois do Fla-Flu de 1986, Sócrates não jogou com o Flamengo durante 9 meses, entre preparação na Copa, lesão na coxa e até hérnia discal. E mais, não se dava bem com o autoritário técnico do Flamengo, símbolo do futebol-força, Sebastião Lazaroni, que criticou publicamente o Doutor: “Talvez não o convocasse para a Copa. Eu não o considero um extraclasse. Hoje, Sócrates não seria titular do Flamengo. O dono da posição é e será Ailton”. Lazaroni também recusou a ideia de Leandro, que queria fazer de Sócrates o capitão do time na ausência de Zico. Mesmo assim, Sócrates voltou com muita classe no time titular no final de 1986, fazendo um golaço de falta contra Goiás, um jogo eterno no Francêsguista. Aliás, seu primeiro gol no Flamengo.

Sócrates ainda fez seis jogos no Brasileirão para fechar o ano de 1986, sem deixar sua marca. Não foi só ele, o Flamengo todo não marcou sequer um gol nos últimos quatro jogos do ano! Não escapou das críticas da imprensa e do torcedor, mas, faltando duas rodadas para o final da segunda fase, precisava apenas de mais uma vitória para se classificar nas oitavas de final. Em 25 de janeiro de 1987, o técnico Sebastião Lazaroni escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Ailton, Aldair, Mozer, Jorginho; Andrade, Sócrates, Gilmar; Carlinhos, Zinho, Kita.

No Maracanã, os poucos mais de 20 mil pagantes anunciavam um prejuízo para o Flamengo e a necessidade de reformar o campeonato nacional, que naquele ano teve nada menos que 80 clubes. No Jornal do Brasil, o grande Sandro Moreyra escreveu: “Mesmo com o aumento de 100% no preço dos ingressos, as rendas que marcaram a volta do futebol não foram suficientes para tranquilizar os dirigentes dos grandes clubes. A maioria deles continua pagando para jogar […] A legítima pretensão dos grandes em criar divisões visando não só reduzir o número dos concorrentes ao Campeonato Brasileiro, mas torná-lo mais rentável, até agora não foi alcançada. E embora já exista no papel, como resolução, dificilmente, será obedecida. A CBF, que neste campeonato se dobrou à vontade de ministros, infringindo do seus próprios regulamentos para manter na competição clubes já eliminados, evidentemente não merece confiança para evitar uma nova virada de mesa”.

Voltando ao campo, Sócrates precisou de apenas 3 minutos para ameaçar o gol do Vitória, com um cabeceio que passou para fora. Na metade do primeiro tempo, Andrade fez um passe para Kita, bem marcado por dois zagueiros. A bola seguiu viva, Sócrates foi o mais rápido para chegar. O Doutor abriu o pé e matou o goleiro com sua classe habitual, para fazer a alegria da Nação e de Zico, que assistia ao jogo no Maracanã com seus filhos.

No final do primeiro tempo, Mozer ultrapassou sua função – ou era função dele? – e invadiu a grande área. Girou e tocou atrás para a chegada de Sócrates, que, segundo o Jornal do Brasil, “deu um bico na bola, sutil e eficiente” no fundo da rede. “Sobrou para Sócrates ditar o ritmo. Marcou, não errou um passe sequer, infiltrou-se, deslocou-se, fez lançamento e também os dois gols da vitória do Flamengo”, avaliou o Jornal dos Sports.

Na entrevista depois do jogo, contrariando a genialidade em campo, Sócrates foi bem simples: “Foram dois gols que representaram muito para mim, por se tratar dos primeiros que marquei com a camisa do Flamengo no Maracanã e também por terem sido responsáveis pela nossa classificação para a terceira fase”. Para fechar, cito então a crônica para o Jornal do Brasil de Tadeu de Aguiar, bem intitulada “Tudo teria sido igual, não fosse Sócrates”: “O que mudou? Dois times, as mesmas cores, o mesmo Campeonato – e que Campeonato! – e um craque, sempre fator de desequilíbrio. Enfim, os torcedores do Flamengo viram a estreia de Sócrates – não a de direito, mas a de fato –, seus dois gols, o jeito manso e cadenciado de tocar a bola e o seu suor, in loco – não de ouvir falar. Felizmente. Pois de seus pés nasceu a vitória sobre o Vitória, que garantiu a classificação do Flamengo à próxima fase do Campeonato Brasileiro”.

Flamengo começava bem o ano de 1987, mas na fase seguinte, ainda com Sócrates, ainda sem Zico, acabou eliminado pelo Atlético Mineiro. O final do ano, com reforma necessária do futebol, com Zico de volta, mas sem Sócrates, que pendurou as chuteiras depois de outro conflito com Lazaroni, seria ainda melhor.

Deixe um comentário

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”