Jogos eternos #396: América de Cali 1×1 Flamengo 1984

Flamengo pode já se classificar para as oitavas de final da Copa Libertadores em caso de vitória na Colômbia, contra o Independiente de Medellín. Até um empate ajuda. Assim, para o jogo eterno do dia, eu vou de um outro empate na Colômbia na Copa Libertadores, contra o América de Cali.

Em 1984, Flamengo estava órfão de Zico, exilado na Itália, mas ainda tinha craques em cada posição, em cada lugar do campo. Na estreia da Copa Libertadores, Flamengo goleou 4×1 Santos, um jogo já eternizado no Francêsguista, com gols de Mozer, duas vezes, Lico e Tita. Por sua vez, o América de Cali, bicampeão colombiano em 1982 e 1983 (seria tri em 1984), também estreou com vitória, sobre o Junior de Barranquilla.

Depois da vitória contra Santos, Flamengo estava relativamente tranquilo na competição, mas com apenas o primeiro do grupo classificado na semifinal, também não podia vacilar. Para se defender dos contra-ataques do América, o técnico rubro-negro Cláudio Garcia escalou no meio do campo Bigu, de apenas 19 anos. A defesa ficou a mesma. “Na defesa, não há o que se mexer, pois os seus integrantes são jogadores de alto nível”, escreveu Ricardo Pietro no Jornal dos Sports. Em 27 de março de 1984, o técnico Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Bigu, Adílio, Tita, Lico, Nunes.

Já nos primeiros minutos, Leandro, ainda jogando de lateral-direito, mostrou toda sua classe e seu repertório: um passe de trivela, um desarme limpo, um apoio ao ataque. Ali está meu personagem do jogo. Leandro tinha uma classe absurda, fazendo o simples quando apenas precisava disso, fazendo o difícil quando precisava mais, com a mesma impressão de facilidade. Lia tudo, a trajetória da bola, o movimento dos companheiros e dos adversários. Desarmava fácil, fintava apenas com o corpo para abrir espaço, se livrava do adversário para criar perigo no ataque.

E de vez em quando, Leandro fazia seu gol. No campo de Cali, Leandro dominou de peito e chutou de pé esquerdo. Sabia fazer tudo. A bola foi embaixo do travessão, mas o goleiro defendeu e retardou o brilho de Leandro. Mas claro, nosso ídolo tinha muita estrela e mostrou isso mais uma vez, na metade do primeiro tempo. Aqui o relato de Antônio Maria Filho para o Jornal do Brasil: “Aos 24 minutos, o Flamengo fez uma jogada muito boa. Leandro cortou um contra-ataque do América de Cali, tocou rápido para Tita e recebeu na frente, fora da área. Dali mesmo, de primeira, ele emendou de direita, no canto, sem defesa para Falcone. Era o primeiro gol do Flamengo, marcado por um dos jogadores de maior destaque, até aquele momento”.

Vale a pena assistir ao gol, de novo ou pela primeira vez, descrever mais uma vez o lance do gol. Aqui está o paradoxo de Leandro. Faz tudo como se fosse nada. Desarma com classe, e no mesmo desarme, já faz o passe certinho, bonitinho, de trivela para Tita. Na verdade, nem faz coisas difíceis, faz coisas impossíveis para os mortais. Ainda dá opção de passe, domina no ar, deixa a bola cair para melhor pegar nela e manda no cantinho de voleio. E fazia tudo isso, do desarme até o gol, com uma beleza plástica de poucos, talvez só de Leandro.

Três minutos após o gol de Leandro, Flamengo foi surpreendido num escanteio e cedeu o empate. Nosso lateral ainda mostrou sua classe, com desarmes limpos, lançamentos precisos e dribles bonitos. No final do primeiro tempo, recebeu uma pancada e precisou ser substituído. Apenas as lesões podiam atrapalhar o futebol dele. Leandro só jogou no Flamengo na carreira inteira, mas pendurou as chuteiras com apenas 31 anos e 414 jogos. A Nação em particular e o futebol em geral mereciam mais.

Enfim, com a substituição de Leandro, o jogo perdeu metade do interesse e o futebol no estádio Pascoal Guerrero caiu. Leandro precisou de apenas 45 minutos para ser eleito o melhor do jogo pelo Jornal dos Sports, com nota 9: “Foi um dos principais jogadores do Flamengo, apoiando com decisão e marcando um lindo gol”. Para o Jornal do Brasil, Antônio Maria Filho escreveu: “A saída de Leandro, que se contundiu no fim do primeiro tempo ao sofrer uma falta violenta, desarrumou um pouco o Flamengo, e a péssima atuação do juiz peruano Cesar Pegano, sem personalidade e beneficiando sempre o time da casa, desarrumou totalmente o jogo, que era bom no primeiro tempo”. Assim era a Copa Libertadores nesta época. Ao menos, Flamengo conseguiu o empate e ficou no primeiro lugar. Leandro se recuperou e ainda durante alguns anos, desfilou toda sua classe nos gramados da América do Sul.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”