Flamengo joga hoje no campo do Mirassol pela segunda vez da história. No ano passado, empatou 3×3 na última rodada com o time sub-20, já que o time principal estava no Catar para a Copa Intercontinental. Assim, prefiro escolher para a crônica do dia outro adversário do interior de São Paulo, o Botafogo de Ribeirão Preto.

Em 1999, Flamengo começou bem o Brasileirão, com 15 pontos em 8 rodadas e um quarto lugar. Na rodada anterior, já um jogo eterno no Francêsguista, Flamengo derrotou o líder invicto, o Corinthians, em São Paulo, com dois gols de Romário. Muitas vezes, os jogos da segunda parte da década de 1990 são eternizados pelo Romário, seja com um golaço, seja com uma atuação memorável. Em 6 jogos do Brasileirão, o Baixinho já tinha feito 5 gols, comemorando com uma mensagem estampada na camisa.

Pela primeira vez da história, Flamengo jogava contra Botafogo em Ribeirão Preto, no estádio Santa Cruz. Em 4 de setembro de 1999, o técnico e eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Célio Silva, Fabão, Athirson; Jorginho, Leandro Ávila, Leonardo Inácio, Fábio Baiano; Romário, Leandro Machado. Do lado do Botafogo, além do técnico Lula Pereira, tinha dois nomes bem conhecidos do futebol brasileiro, multicampeões da Copa Libertadores: o zagueiro Índio e o meia-atacante Palhinha.

No estádio Santa Cruz, Flamengo começou melhor, com um cabeceio de Célio Silva, que passou perto do gol. A preocupação de Índio e da zaga do Botafogo era Romário, claro. “Apesar do sufoco imposto pelo Flamengo, Romário passava em branco no jogo. Isolado no ataque, ele recebeu poucas bolas no primeiro tempo”, escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil. Assim, a defesa de Botafogo abriu espaços para outros jogadores rubro-negros. Aos 14 minutos, Fábio Baiano escapou na esquerda, pedalou e cortou no meio. O chute saiu limpo e preciso, caiu no fundo do gol. Palhinha quase fez um golaço de falta, mas Clemer foi literalmente tirar a bola da gaveta para impedir o empate. Atrás no placar, Botafogo passou a dominar o jogo e Clemer fez outras lindas defesas. Na metade do primeiro tempo, o time da casa finalmente empatou com outra linda cobrança de falta de Palhinha.

Apenas dois minutos depois, Flamengo deu o troco com a mesma moeda. De falta, Célio Silva fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado e colocou de novo o time rubro-negro na frente. No final do primeiro tempo, Leonardo Inácio fez um lindo lançamento para Romário, que ainda não tinha aparecido durante o jogo. Com o olho do artilheiro e a experiência do veterano, Romário nem dominou a bola. Apenas esperou o momento certo para chutar de primeira e vencer o goleiro com a habilidade do craque. Como era de costume na temporada de 1999, Romário mostrou na comemoração uma camisa com mensagem, agora política, apoiando o presidente: “FHC, eu e muito estamos com você”.

O Flamengo foi de uma eficiência máxima no primeiro tempo, com três gols em três chutes. No segundo tempo, teve quase outro golaço de falta, com boa defesa de Alexandre, teve gol bem anulado de Wágner e teve três expulsões, duas para Botafogo com Marcão e Bell, uma para o Flamengo com Leandro Machado. No final do jogo, Maurinho achou Romário, que completou a tabelinha de calcanhar. Maurinho invadiu a grande área e forçou o pênalti. Bem no estilo dele, Romário cobrou com categoria e fez o segundo dele, o quarto do Mengo. O vice-artilheiro do campeonato mostrou mais uma camisa com apoio ao presidente: “FHC. Seguimos acreditando”.

Fernando Henrique Cardoso sofreu no início do ano de 1999 uma tentativa de impeachment e, principalmente por causa da desvalorização do real, sofria recorde de rejeição pela população. Romário ainda via “Fernando Henrique como homem de bem, capaz de fazer algo pelo Brasil”. O Baixinho acreditava no presidente e no título do Flamengo, agora vice-líder do Brasileirão. Porém, Flamengo perdeu 7 dos últimos 9 jogos e nem se classificou para a fase final do campeonato.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”