Antes do jogo de hoje contra São Paulo, Flamengo tem 7 pontos a menos que o líder Palmeiras. Falta ainda um turno inteiro – e mais um jogo para Flamengo, para conseguir o primeiro lugar. Ou seja, cada jogo é importante, mas ainda tem muito tempo.
Em 2009, a situação era mais desesperada e, com três quartos do campeonato já disputados, quase ninguém ousara sonhar com o título. O objetivo mais realista, já grande, era uma classificação para a Copa Libertadores. Apesar da boa fase, Flamengo estava apenas no 8o lugar, 12 pontos a menos que o líder, na época já Palmeiras. O hexa era improvável.
O próximo adversário do Mengo era um gigante e hexacampeão, São Paulo, que tinha vencido os três últimos campeonatos nacionais. Em 2009, estava na vice-liderança e sonhava com um tetra consecutivo. O jogo prometia ser equilibrado. Em 10 de outubro de 2009, o técnico Andrade escalou Flamengo assim: Bruno; Everton Silva, Álvaro, Ronaldo Angelim, Juan; Maldonado, Willians, Petkovic; Zé Roberto, Everton, Dênis Marques. Sem Adriano, convocado com a Seleção brasileira, o maior protagonismo caiu nas costas do veterano Dejan Petkovic, que vivia uma nova e excelente fase com a chegada no banco do ídolo Andrade.
A chuva quase ininterrupta nos dias anteriores impediu que o Maracanã ficasse completamente lotado. Mesmo assim, tinha 57.210 pagantes e 60.280 presentes no estádio. Flamengo dominou o início do jogo, com duas oportunidades para Dênis Marques, sem achar a rede. Petkovic apareceu no lado esquerdo, fez bom passe para Juan, que pegou de voleio, de novo fora do gol de Rogério Ceni. Na metade do primeiro tempo, São Paulo finalmente conseguiu levar perigo. Dagoberto lançou Hernanes, que dominou perfeitamente, até driblando o goleiro Bruno. O Profeta só teve que empurrar na rede vazia para abrir o placar, contrariando a fisionomia do jogo e as esperanças da Nação.
Flamengo estava atrás mas não se desanimou, nem o Maracanã. Zé Roberto, outro jogador rubro-negro em grande fase, escapou na direita e cruzou. Rogério Ceni fez a defesa parcial, a bola voltou para Juan, que chutou com o pé direito. Ceni foi vencido, mas Renato Silva salvou em cima da linha. De 30 metros, Everton Silva soltou a bomba, Rogério Ceni fez a defesa, o Maraca dobrou o apoio ao Mengo. Num longo cruzamento de Pet, Ronaldo Angelim fez um ótimo cabeceio, mas Rogério Ceni salvou mais uma vez. Ainda não era a hora do Magro de Aço se eternizar no Flamengo. O intervalo acabou assim, com uma vantagem de um gol para São Paulo, que ameaçou apenas uma vez a meta rubro-negra. Do outro lado, o Flamengo lutou muito, mas Rogério Ceni parou tudo. Parecia esse tipo de jogo em que o ídolo são-paulino era simplesmente invencível.
O segundo tempo começou igualmente: chute de um jogador rubro-negro, defesa do goleiro tricolor. O técnico Andrade mexeu, com as entradas em campo de Toró e Bruno Mezenga. Num lateral, Bruno Mezenga brigou na dividida de cabeça, a bola ficou livre na grande área, Toró chegou primeiro, Jorge Wagner chegou atrasado e cometeu o pênalti. Era um duelo de ídolos veteranos entre Petkovic, especialista em bolas paradas, e Rogério Ceni, também mestre neste quesito, tanto em defesas quanto em cobranças. De 11 metros, Petkovic chutou, e mais uma vez Rogério Ceni defendeu, calando por um segundo o Maracanã. Só que Ceni, especialista também nisso, se adiou e o juiz mandou tirar de novo. Petkovic tinha outra chance.
Quando o pênalti se repete, acho que o cobrador perde a vantagem natural. Fica a dúvida: chutar no mesmo canto, com nova possibilidade de errar, ou trocar de lado, também com o risco de perder. Petk escolheu outro caminho, chutou no meio do gol, com uma cavadinha espetacular, humilhando Rogério Ceni. Para mim, é uma das cavadinhas mais sensacionais da história do futebol, num estilo próximo ao do Benzema na Liga dos campeões contra Manchester City em 2022. No meu top 5 de panenkas, como se chama na minha França, tem aquela do Petkovic contra São Paulo, junto com outros especialistas, como Pirlo, El Loco Abreu, Benzema e Zidane.
Flamengo empatou e o Maracanã explodiu, cantou até o final do jogo. Na arrancada de 2009, o Maraca fez muita diferença, ganhou jogos quase sozinho. Claro, também tinha alguns craques em campo. No minuto seguinte, Rodrigo chegou sozinho na grande área flamenguista, mas errou feio no chute. O Maracanã cantou ainda mais, comemorou mais forte. Mesmo com o empate no placar, a vitória parecia já ser do Mengo. Num chute de longe de Pet, Rogério Ceni brilhou mais uma vez e adiantou a glória rubro-negra.
E a glória chegou no Maracanã. Faltando 10 minutos para o final do jogo, Bruno Mezenga fez um passe lindo de peito para Petkovic. O Maestro dominou, acelerou, esperou e fez o passe mágico de pé esquerdo, no espaço certo, no momento certo. Zé Roberto só teve que chutar de primeira. Nem tocou perfeitamente na bola, que venceu o Ceni e chegou mansamente na rede do Tricolor. Era o gol da virada, da alegria, da euforia. Com uma atuação impecável de Petkovic, Flamengo vencia mais um jogo e prolongava o sonho da Libertadores. E talvez neste dia, dentro dos 60 mil iluminados no estádio Mário Filho, alguns já sonhavam com uma glória ainda maior.









Deixe um comentário