Na última quarta-feira, completaram-se dois anos do falecimento do eterno Adílio. Ainda lembro onde eu estava quando soube da notícia, ainda sinto a dor de perder precocemente um ídolo tão gigante do Flamengo. Para o jogo eterno do dia, escolho um jogo que completa hoje 43 anos, com mais uma vez Adílio decisivo.
Na época, Flamengo já estava de luto. O presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches cometeu o crime de vender o maior ídolo, o maior patrimônio do clube, Zico. Na estreia do campeonato carioca de 1983, já sem Zico, Flamengo perdeu contra o inexpressivo Goytacaz. “O Flamengo sem o Zico é um time igual aos outros”, escreveu João Saldanha no Jornal do Brasil. Confirmou Washington Rodrigues para o Jornal dos Sports: “O Flamengo sem o Zico é igualzinho a todo mundo”.
A torcida estava furiosa. O presidente Dunshee de Abranches, além de vender Zico, falhou em trazer novos jogadores. Tentou contratar João Paulo de Santos, Zé Sérgio de São Paulo, Alzamendi de Nacional e Gareca do Boca Juniors, mas todos acabaram em fracasso. Assim, antes do jogo contra São Cristóvão, os muros da Gávea foram pichados com mensagens como “Fora ditador” e “Um presidente pequeno demais para um clube tão grande”.
Fora da estreia contra Goytacaz por causa de uma lesão, Adílio voltou na segunda rodada para o Fla-Flu, que terminou empatado em 0x0. Ficou fora de mais um jogo do campeonato carioca e voltou dois dias antes do jogo contra São Cristóvão, fazendo os dois gols da vitória rubro-negra num amistoso contra Rio Branco. Para o Jornal dos Sports, que via com o novo camisa 10 da Gávea a “promessa de uma grande atuação”, Adílio explicou como era o novo Flamengo: “A melhor defesa é o ataque e, apesar de esta história ser velha, ainda funciona. O Flamengo está mudando sua maneira de jogar e vai voltar a ser o favorito do campeonato. Estamos aprendendo a marcar com mais rigor, função que tem de ser desempenhada, agora que não contamos mais com o Zico”.
Em 7 de agosto de 1983, o técnico Carlos Alberto Torres escalou Flamengo assim: Raul; Carlos Alberto, Marinho, Mozer, Júnior; Vítor, Adílio, Lico; Robertinho, Edson, Baltazar. Pior para os saudosistas de Zico, ou seja, para cada rubro-negro vivo, o Nosso Rei jogava neste mesmo dia contra Vasco, mas na Itália, com a camisa de Udinese. O time de Zico derrotou Vasco 3×0 e conquistou o Troféu Zanussi. De volta no Rio de Janeiro, ou mais exatamente no estádio Caio Martins de Niterói, Flamengo justificou o favoritismo contra o Tóvão e abriu rapidamente o placar: “O gol surgiu logo aos 11 minutos. Carlos Alberto lançou Marinho, que cruzou para a área. Robertinho disputou a bola com um zagueiro e Adílio recebeu o rebote na pequena área e não teve dificuldade para marcar, embora o gol desse a impressão de ter sido casual, sem uma construção lúcida. O descontrole do Flamengo começou a partir daí”, escreveu Márcio Tavares para o Jornal do Brasil.
Sem Zico, Flamengo era outro time, quase um time comum. Até o final do primeiro tempo, o Mengo teve outras oportunidades, principalmente com Vítor, mas o goleiro Mauro fez algumas boas defesas. No intervalo, Adílio, que “fez o gol e as melhores jogadas de ataque” segundo o Jornal dos Sports, atribuindo-lhe a nota 9, sentiu no tornozelo e teve que ser substituído. Já morno no primeiro tempo, Flamengo ainda caiu de produção na segunda etapa: “Pior foi no segundo tempo, quando a torcida já estava impaciente e sentiu que a saída de Adílio e consequente entrada de Peu contribuíram ainda mais para a queda de produção do Flamengo […] O São Cristóvão era cada vez mais perigoso nos contra-ataques. Muito mais pelos erros da zaga do Flamengo, indecisa e muito exposta, do que pelas virtudes do modesto grupo”, prosseguiu o Jornal do Brasil.
Com sofrimento, Flamengo conseguiu a vitória magra, mas não escapou das críticas da própria torcida. “Parece que o Flamengo assumiu a rotina de sair de campo vaiado. Sem Zico, ficou reduzido a um time absolutamente igual aos outros, com ligeira superioridade individual em algumas posições, mas sua torcida ainda não se habituou ao novo quadro. E vaia muito porque não admite atuações lamentáveis, medíocres e decepcionantes como a de ontem”, julgava severamente o Jornal do Brasil. Para Wilson de Carvalho, autor de uma crônica no Jornal dos Sports, “Flamengo tem que valorizar esta vitória, pelas circunstâncias. O seu time precisa realmente de reforços em, pelo menos, duas posições. Aquela força que a equipe tinha com Zico, é óbvio, não existe mais”.
A palavra final para Sandro Moreyra, nas páginas do Jornal do Brasil: “O Flamengo continuou dando razão aos que lamentam e choram a saída de Zico. Decididamente não sabe jogar sem o seu Galinho […] O time anda perdido e dá a impressão que não está se entendendo. As constantes mudanças de jogadores e determinadas escalações não estão, ao que dizem, sendo bem recebidas. A torcida, por sua vez, anda impaciente. Mal acostumada com atuações bisonhas, irrita-se ao ver o Flamengo jogar tão mal e começa a vaiar o time, tornando as coisas piores. De muita calma está precisando o Flamengo, ainda tonto com a perda de Zico”. Não era fácil a vida sem Zico. E quando Adílio não conseguia ficar em campo, era ainda pior.








Deixe um comentário