Na última crônica, escrevi sobre um Fla-Flu de 1913, apenas o terceiro da história. Hoje, aproveito de outro aniversário para comemorar mais um Fla-Flu, o 88o da história, em 1939.

Entre 1913 e 1939, aconteceram muitas coisas. O mundo mudou, com a Grande Guerra de 1914-1918. E estava pronto a conhecer a Segunda Guerra Mundial, maior conflito da história, causando a morte de entre 60 à 80 milhões de pessoas no mundo inteiro. O futebol também mudou em 26 anos. Flamengo conquistou seu primeiro título carioca em 1914, repetiu a dose em 1915, conquistou outro bicampeonato em 1920-1921. Também foi campeão em 1925 e 1927 e depois, não conquistou outro título na era amador.

A oficialização do profissionalismo em 1933 definitivamente mudou a face do futebol brasileiro em geral e do Fla-Flu em particular. Fluminense também vivia um jejum de títulos, não conquistando o campeonato carioca desde 1924. Como o profissionalismo permitia, e respeitando a tradição de elitismo, contratou jogadores ricos e brancos, em maioria de São Paulo. O Flamengo procurou outro caminho e contratou jogadores pobres e negros, em maioria de Rio de Janeiro. Escreveu Mário Filho na sua obra clássica O Negro no futebol brasileiro: “Enquanto o Fluminense trazia para Álvaro Chaves os grandes jogadores do futebol paulista, quase todos brancos, muitos com nome italiano, o Flamengo levava para a Gávea os grandes jogadores do futebol carioca, quase todos pretos, Fausto dos Santos, Leônidas da Silva, Domingos da Guia, brasileiros até no nome”. Assim, o Fla-Flu, já com nome oficial e difundido, virou outra coisa do que apenas um jogo de futebol, virou uma coisa social, uma questão de honra e identificação.

Com o profissionalismo, a dupla Fla-Flu passou a dominar o futebol carioca, mas com vantagem para Fluminense, tricampeão em 1936-1937-1938. E Flamengo, igualmente com um timaço, estava sempre na vice-liderança. O Fla-Flu era a coisa mais séria da cidade. Antes do jogo de 1939, e bem diferente do que acontecia nos primórdios do Foot-Ball, o Diário da Noite falava sobre o jogo: “O prestígio do Fla-Flu cada vez se acentua mais. A torcida já não pode conceber o football sem um Fla-Flu. Seria, assim, uma coisa sem graça, parecida com abacate sem limão, para não citar a clássica formula da flor sem perfume nem a do amor sem ciúme… Pois o negócio é assim. E, por isso mesmo, ninguém quer saber se amanhã vai haver ou não um tal competição que se desconfia chamar ‘Grande Prêmio Brasil’”. Agora, não era sobre hipismo no Rio de Janeiro, era sobre futebol, um futebol para ricos e pobres, para a cidade inteira, que tinha com o Fla-Flu sua maior expressão.

O Diário da Noite também trouxe números do Fla-Flu desde o primeiro confronto em 1912 e dividiu o confronto em duas fases: a do amadorismo e a do profissionalismo. No amadorismo, tem 16 vitórias do Fla, 14 vitórias do Flu e 12 empates. No profissionalismo, o jornal conta 14 vitórias do Flu, 9 vitórias do Fla e 11 empates. De acordo com os dados do excelente site FlaEstatísticas e com minha própria pesquisa, tenho mais jogos até o jogo de 1939: 87 jogos, 28 vitórias do Fla, 31 vitórias do Flu e 28 empates. Certeza é que Fluminense dominava no início do profissionalismo. Dori Kruschner, treinador húngaro do Flamengo a partir de 1937, trouxe o esquema tático em WM, mas falhou para conquistar um título. E nem conquistou um Fla-Flu. Em 8 jogos, teve 7 derrotas e apenas um empate…

Em 1938, o técnico Hilton Santos quebrou o tabu do Fla-Flu. Em 1939, Flamengo voltou com o histórico técnico Flávio Costa e o tradicional 2-3-5. O rubro-negro vivia seu maior jejum de títulos, não conquistando o campeonato carioca desde 1927. Começou o estadual com um empate, quatro vitórias e uma goleada sofrida 0x4 contra Bangu. No primeiro Fla-Flu do ano, Fluminense abriu 2×0, mas sob o impulso de Leônidas e Valido, Flamengo conseguiu o empate. E Leônidas teve que parar de jogar. O grande Alberto Borgerth, fundador da seção de futebol do Flamengo, autor de dois gols no já falado Fla-Flu de 1913 e médico de profissão, aconselhou Leônidas a ser operado do apêndice. Foi, e Leônidas ficou fora dos gramados durante quase três meses. E voltou justamente para o Fla-Flu do segundo turno. O Diamante Negro já tinha feito 9 gols em 16 Fla-Flus. O número de jogos pode surpreender para um jogador que chegou ao clube apenas três anos antes, mas vale lembrar que no de 1936 só, teve 10 Fla-Flus.

Do lado do Fluminense, tinha a volta de Russo, artilheiro argentino do Tricolor entre 1933 e 1937 e que passou uma temporada na França, na minha cidade-luz de Paris antes de voltar ao Rio de Janeiro, outra cidade de meu coração. Em 5 de agosto de 1939, para mais um Fla-Flu, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Walter; Domingos, Newton Canegal; Volante, Jocelino, Artigas; Sá, Valido, Jarbas, González, Leônidas.

O jogo aconteceu à noite e, mesmo assim, o estádio do São Januário ficou lotado. A renda de mais de 156 contos foi um recorde do campeonato. Na “peleja das multidões” como chamou o jogo o jornal A Noite, Flamengo começou melhor. Leônidas cruzou para uma cabeçada de Jarbas, forçando Batatais a fazer a defesa. Fluminense reagiu com Amorim, o goleiro rubro-negro Walter também brilhou. Flamengo dominava o primeiro tempo, como relatou o Jornal do Brasil: “Continua o Flamengo a cerrar os ataques à defesa tricolor. Valido apodera-se da bola, corre sobre o goal e cede em boa situação a Sá, que avança sobre o arco, quando surge Machado, que é obrigado a praticar a falta máxima. Assinalada a falta pelo juiz Carlos Monteiro, aliás muito justamente, Leônidas, com shoot rasteiro no canto esquerdo do goal do Batatais, consigna, às 21:46 horas, o 1.o goal do Flamengo”. De pênalti, era o décimo gol de Leônidas no Fla-Flu, era a volta do consagrado artilheiro.

No segundo tempo, Fluminense voltou melhor, mas Flamengo tinha Leônidas, que quase fez o segundo gol do jogo. Porém, chutou no lado de fora do gol de Batatais. Com uma hora de jogo, Flamengo de novo fez a diferença. Agora o relato do Jornal dos Sports: “Jarbas cobra o escanteio com segurança e González saltando no ‘bolo’ cabeceia vigorosamente para o canto direito, fazendo o segundo goal do Flamengo”. Faltando cinco minutos para o final do jogo, Romeu fez o gol do Tricolor e colocou mais emoção no Fla-Flu. O time do Fluminense teve a oportunidade de empate, mas brilhou o zagueiro Newton Canegal, de 22 anos e quase um estreante no Flamengo. Já com “duas tiradas seguidas, notáveis pela firmeza” no primeiro tempo segundo o Jornal dos Sports, Newton salvou Flamengo no final, quando “arroja-se de cabeça, cortando espetacularmente o centro”. Para o jornal A Noite, “Flamengo obteve um belíssimo triunfo, por 2×1, que refletiu a superioridade conseguida durante o match”.

Flamengo era o vencedor e Leônidas o grande nome do jogo, mesmo sem fazer um grande jogo. “Leônidas apareceu discretamente, ainda não está em plena forma”, julgou o Jornal do Brasil quando Jornal dos Sports avaliou: “Leônidas, ainda que sem produzir o máximo de suas possibilidades, foi a atração e o perigo permanente do ataque”. Palma para o Correio da Manhã, que teve um comentário aparentemente contraditório e completamente justo: “Leônidas ainda não está em forma. É ainda um perigo com a bola”. Assim era o Diamante Negro, o melhor jogador do mundo. Nos seus piores dias, era discreto, mas decisivo. Com um gol dele, o Fla-Flu era do Mengo. E daqui a pouco, o campeonato carioca finalmente seria do Mengo também.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”