
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
-
Times históricos #13: Flamengo 1953

Vamos continuar as homenagens ao Nosso Rei Zico pelo seu 70o aniversario, com uma volta no ano de seu nascimento, que não foi apenas a criação de Deus para Flamengo, 1953 também foi um ano de ouro, de título, de milagre.
O ano começou com o fim do campeonato carioca 1952. No 3 de janeiro de 1953, Flamengo perdeu seu primeiro jogo do ano, contra o America. O técnico era um monumento no Flamengo, Jayme de Almeida, e Flamengo tinha grandes jogadores como o goleiro paraguaio Garcia, Jordan, Dequinha, Joel, Índio e Zagallo. Flamengo ainda goleou Botafogo por 6×3 e Bonsucesso 5×2, Índio fazendo um hat-trick nos dois jogos, e fechou o campeonato com uma vitória 3×1 contra Fluminense, com gols de Índio, Adãozinho e Rubens, o supercraque do time. O apelido do Rubens era Doutor Rubis pela classe que ele tinha em campo. O grande jornalista Mario Filho descreveu Rubens assim: “Gostava de dar dribles largos. Parecia que prendia a bola com um barbante amarrado à chuteira. Porque a bola, que ele atirava para a esquerda e para a direita, voltava sempre, logo, aos pés dele. Rubens não andava como qualquer mortal. Levava um pé à frente, devagar, deixava-o pousar na calçada e, depois, trazia o outro, gingando o corpo, como se dançasse. Não era um samba (…) era um gingar de malandro. De bamba de terreiro”.
Mas quem foi campeão carioca 1952 foi o Expresso da Vitória, o grande time do Vasco. Desde o tricampeonato do Flamengo entre 1942 e 1944, Vasco faturou a maioria dos títulos cariocas: 1945, 1947, 1949, 1950, 1952. Fluminense conseguiu ser campeão em 1946 e 1951 e Botafogo acabou com um jejum de 13 anos em 1948. Flamengo ainda ficava num jejum de 9 anos, não tinha levantado a taça desde 1944, quando o Maracanã nem era um sonho. As coisas precisavam mudar.
Mas as coisas não mudavam ainda. No primeiro quadrangular internacional do Rio de Janeiro, Flamengo empatou contra o Racing e venceu Boca Juniors por 4×2. Mas no jogo do título, foi goleado 5×2 pelo Vasco, que conquistou a taça. Flamengo ainda passou por amistosos, inclusive um na Vila Belmiro onde foi derrotado 4×3 pelo Santos apesar de um novo hat-trick de Índio. Dois dias depois, vingou-se com uma goleada 4×0 contra o mesmo Santos na mesma Vila Belmiro. No torneio quadrangular Régis Pacheco, na Bahia, Flamengo começou com uma goleada 8×2 contra Vitória e em seguida venceu dificilmente Bahia e empatou contra o Internacional, que levou o título com duas goleadas contra os times baianos. No torneio Juan Domingo de Perón, no Monumental de Buenos Aires, Flamengo empatou contra o Racing e Boca Juniors e goleou Botafogo 3×0 com dois gols de Rubens e um de Joel. Flamengo, enfim, campeão.
Flamengo era campeão na Argentina, mas de um torneio amistoso. Voltou no Brasil para um torneio para valer, o torneio Rio – São Paulo. Contra o mesmo Botafogo, Doutor Rubis fez de novo um doblete, mas Flamengo empatou 3×3. E agora sim, as coisas mudaram com a nominação como técnico do paraguaio Fleitas Solich, que levou dez dias antes o Paraguai ao seu primeiro título do campeonato sul-americano, conquistado num jogo desempate contra o Brasil. Tinha três outros paraguaios no time: o goleiro Garcia, o meio-campista Modesto Bría e o centroavante Benítez. Tinha também o argentino Chamorro para um Flamengo internacional no contexto pós-Maracanaço. Fleitas Solich, que recebeu o apelido de Feiticeiro para sua capacidade de revelar jogadores, não foi o primeiro estrangeiro a treinar o Flamengo, este foi Ramón Platero em 1922, que treinava ao mesmo tempo Flamengo e Vasco! Depois teve vários, o mais famoso foi o húngaro Dori Kruschner, que revolucionou a tática no Brasil e importou o WM.
Fleitas Solich também revolucionou a tática no Brasil, com um 4-2-4 e um Zagallo recuado, um esquema tático que será utilizado pelo Brasil campeão do mundo em 1958. Fleitas Solich começou no Mengo com uma vitória 3×2 contra o Santos no Maracanã, com gols de craques, apenas de craques: Joel, Evaristo de Macedo e Esquerdinha. Flamengo sempre foi diferente. Em seguida, empatou contra Vasco e logo no seu terceiro jogo, Fleitas Solich levou uma terrível goleada, um 6×0 contra o Corinthians! O clube paulista fechou com o título este ano e tinha um grande time, com Cláudio, Luizinho, Carbone e Baltazar, mas uma derrota assim sempre dói. Em seguida, Flamengo empatou quatro vezes consecutivamente e fechou sua participação com uma derrota contra Bangu e um 8o lugar num torneio de 10 times. Uma decepção. Conquistou o torneio triangular de Curitiba contra a Portuguesa e Coritiba, mas levou um 4×1 num amistoso contra São Cristovão no antigo estádio Figueira de Mello e perdeu logo no torneio inicio carioca contra o Canto do Rio. Fleitas Solich ainda estava longe de convencer todo mundo.
No campeonato carioca, Flamengo estreou com uma goleada 4×0 contra Madureira. Venceu Olaria e a Portuguesa. Goleou Bonsucesso 4×0, Benítez fazendo todos os gols do jogo! Benítez ainda fez um doblete numa outra goleada, um 5×0 contra Bangu, com também um doblete de Rubens e um gol de Joel. Mas depois, Flamengo perdeu contra Fluminense, empatou contra São Cristovão e perdeu 3×0 contra Botafogo. Flamengo sofreu com Garrincha, autor de um gol e que disputava esse ano seu primeiro campeonato carioca, enfrentando Jordan, que foi segundo o próprio Garrincha, o maior marcador dele, sempre jogando limpo. Laterais esquerdos para Garrincha era tudo João, a mesma coisa, menos Jordan, o marcador impecável. Apesar de outras vitórias durante a primeira fase, Flamengo fechou o primeiro turno com um 3×3 contra Vasco e ainda não convencia todo mundo, vencendo nenhum dos grandes times do Rio.
Flamengo precisava vencer, não podia ficar mais um ano sem título, completar um jejum de dez anos. Flamengo tinha que ganhar em 1953, ano do nascimento de Zico, um ano totalmente rubro-negro. O padre Góes, flamenguista roxo, não aguentava mais. No livro A Nação, como e por que o Flamengo se tornou o clube com a maior torcida do Brasil, Marcel Pereira escreve: “O padre Góes, da Igreja de São Judas Tadeu, flamenguista fanático, sofria. Em 1953, quando não aguentou mais, foi à Casa Grande da Gávea e lá, sem preâmbulo, com os jogadores em volta – Fleitas Solich mostrando os dentes de coelho num riso, Gilberto Cardoso sério, como numa igreja – garantiu que, em nome de São Judas Tadeu, o Flamengo ia ser campeão de 1953. Mas os jogadores tinham que ajudar um pouco: não custava nada ir numa missa de domingo, na manhã antes de cada jogo”. Flamengo era, é e sempre será diferente de todos os outros clubes.
E Flamengo começou o segundo turno com uma goleada 7×2 contra Bangu, três de Índio, dois de Rubens, um de Esquerdinha, um de Joel. De novo, só craques no Flamengo. Venceu Olaria, Canto do Rio, Bonsucesso e como na primeira fase, empatou 3×3 contra Vasco. Também empatou contra Botafogo, um 1×1 com gols de Joel e Garrincha, dois campeões do mundo em 1958 na ala direita. Entre goleadas, 5×0 contra a Portuguesa e Madureira, 4×0 contra São Cristovão, uma vitória mais difícil contra America, 3×2 com gols de Benítez, Rubens e Índio. Só craques. Rubens e Índio voltaram a fazer um gol para vencer o Fla-Flu, último jogo da segunda fase. Flamengo classificou-se para o hexagonal final como primeiro do campeonato, com 36 pontos, um a mais do que o Botafogo. Com a ajuda do padre Góes, rezar para São Judas Tadeu parecia funcionar.
Fluminense, Vasco, America e Bangu também se classificaram para o hexagonal final, uma era de ouro para o futebol carioca. Flamengo venceu um outro Fla-Flu, de novo por 2×1, agora com gols de Benítez e Índio. Benítez continuou a marcar nas duas vitórias contra América e Bangu, as duas pelo placar de 2×0, contra América no 28 de dezembro de 1953 e contra Bangu no 3 de janeiro de 1954. Mas nada de férias, Flamengo precisava ganhar o campeonato, precisava rezar ainda mais para São Judas Tadeu.
De novo Marcel Pereira no livro A Nação, como e por que o Flamengo se tornou o clube com a maior torcida do Brasil: “Quando chegou a manhã da partida decisiva, Gilberto Cardoso, Fleitas Solich, Alves de Morais, todos os jogadores, até o dr. Rúbis, com velas na mão, ajoelhara-se diante do altar da Igreja de São Judas Tadeu, no Cosme Velho”. No jogo decisivo contra Vasco, 132.508 almas no Maracanã. O adversário era o Expresso da Vitoria, de Ely, Ademir, Pinga e Ipojucan, campeão de 1952, e que também tinha um zagueiro no início de carreira, Bellini. O técnico é Flavio Costa, outra lenda do Flamengo, ainda hoje que dirigiu mais vezes o Flamengo, 765 vezes entre 1934 e 1965. Um monumento.
No Maraca, o lateral-esquerdo vascaíno Jorge foi o primeiro a marcar. Só que foi gol contra. Flamengo 1×0. Com meia-hora de jogo, Índio marcou, pelo Flamengo, 2×0 e um minuto antes do intervalo, Benítez quase deu o título ao Flamengo com um gol, Flamengo 3×0. O grande Ademir deu esperança ao Vasco fazendo um gol com uma hora de jogo. Mas um minuto antes do fim do jogo, Benítez deu o título ao Flamengo com mais um gol, Flamengo 4×1, Flamengo campeão. No 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro de Rio de Janeiro, Flamengo fechou o campeonato contra Botafogo com mais uma vitória, a quinta em 5 jogos no hexagonal final, com um gol de seu maior craque de um time cheio de craques, Doutor Rubis.
Com 22 gols, dois a mais do que Garrincha, o paraguaio Benítez se tornou o primeiro estrangeiro a ser artilheiro do campeonato carioca desde 1915 e o inglês Harry Welfare, centroavante do Fluminense. Pelo Flamengo, Índio fez 18 gols e Rubens 17. Espetáculo não foi só em campo, mas também na arquibancada. No total do campeonato carioca de 1953, 2.456.678 espectadores, um recorde que será batido só em 1976. “Quando o estádio foi construído pareceram exageradas as suas proporções e excessivos os sacrifícios financeiros dedicados à sua formidável concepção. Mas agora vemos que esses domingos esportivos são úteis para a higiene mental do povo e para arejar as pesadas preocupações da semana” escreveu o Jornal do Brasil no 12 de janeiro de 1954. Uma era de ouro do futebol carioca. E mais importante, Flamengo, depois do tricampeonato 1942-1944, enfim, depois de 9 anos de luta e sofrimento, era o campeão da cidade, com a ajuda de São Judas Tadeu, o padroeiro das causas impossíveis, que também virou o padroeiro do Flamengo.
Em 1954, outros padres tentaram ajudar outros times do Rio, torcedores tricolores reclamaram, mas o padre Góes garantiu: “O Flamengo vai ser bicampeão”. E foi. E a torcida do Fluminense continuou reclamando, até escrevendo carta para o Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara. E o padre Góes continuou: “Em nome de São Judas Tadeu, garanto o tricampeonato”. E foi, em 1955, Flamengo conquistou o segundo tricampeonato de sua história. Hoje, o Dia do flamenguista é 28 de outubro, porque é dia do São Judas Tadeu.
O técnico Fleitas Solich ficou no Flamengo até 1957 e voltou em três outras ocasiões, até 1971. Dirigiu o time em 504 jogos, sendo ainda hoje o segundo técnico com mais jogos no Flamengo, atrás apenas de Flávio Costa. E nesse último ano no banco, em 1971, o feiticeiro Fleitas Solich fez mais magia, lançou pela primeira vez nos profissionais um jogador, um Deus, Nosso Rei, Arthur Antunes Coimbra, Zico. 1953, realmente um ano de fé, de ouro e de glória eterna para o Flamengo.
-
Jogos eternos #43: Flamengo 4×1 Fluminense 1986

Para a semana do aniversario de Zico e o Fla-Flu de hoje, vamos relembrar de um Fla-Flu histórico e um dos maiores jogos do Zico com o Manto Sagrado. Hoje, um Fla-Flu para fechar a Taça Guanabara. Em 1986, um Fla-Flu para estrear na Taça Guanabara e no campeonato carioca.
No 16 de fevereiro de 1986, para um Fla-Flu histórico, o técnico Sebastião Lazaroni escalou Flamengo assim: Cantarele; Jorginho, Leandro, Mozer, Adalberto; Andrade, Adílio, Sócrates, Zico; Chiquinho, Bebeto. Inclusive, foi o único jogo de Zico e Sócrates juntos no Flamengo. Uma pena, que uma dupla assim que brilhou tanto com a Seleção, jogou tão pouco com o Manto Sagrado. Mas os dois foram vítimas de lesões, foram convocados com a Seleção e não teve tempo de jogar mais juntos. Foi um Fla-Flu só, um Fla-Flu eterno, onde o Fluminense, tricampeão carioca entre 1983 e 1985, tinha também grandes nomes, como Ricardo Gomes, Branco e Romerito.
Flamengo entrou em campo na frente de 84.303 presentes e a torcida do Fluminense provocou Zico: “bichado, bichado”. Desde o 29 de agosto de 1985 e o atentado de Márcio Nunes, Zico tinha dificuldade para voltar ao seu melhor nível, até para voltar apenas em condições de jogo. Na verdade, a reputação de bichado começou antes de 1985, e saiu do próprio presidente do Flamengo, Antônio Augusto Dunshee de Abranches, que vendeu Zico em 1983, alegando que “ele estava bichado, a verdade é essa. Zico jamais será o mesmo. Ele era o arco e a flecha. Armava e voava para finalizar. Agora, no máximo, poderá armar”. Zico foi vendido, voltou no Flamengo, foi machucado, foi operado, foi machucado de novo, voltou ao campo.
Zico voltou de maneira oficial nesse 16 de fevereiro eterno, num Flamengo reforçado por um outro craque da Seleção de 1982, Sócrates. Mas quem brilhou nesse dia foi o próprio Zico. E brilhou com poucos minutos. Apenas dez, como o número da camisa eterna. E Zico foi o arco e a flecha. Armou a jogada para Bebeto, Alexandre Torres cortou mas a bola foi nos pés de Adílio, que cruzou desde a esquerda. A flecha Zico cabeceou e fez seu gol 15 num Fla-Flu. Já não tinha mais canto de bichado, só a torcida do Flamengo que cantava “Zico, Zico”.
Alguns minutos depois, uma advertência. Uma falta sensacional de Zico no travessão de Paulo Vitor. Fluminense impedia no momento um novo gol de Zico e empatou um pouco antes do intervalo com um pênalti de Leomir. Zico brilhou muito no primeiro tempo, errando quase nada, mas ia brilhar ainda mais no segundo tempo.
Com 3 minutos de jogo no segundo tempo, Zico deu um passe sensacional atrás para Sócrates, que abriu na esquerda, Adilio achou Bebeto, que não conseguiu finalizar. Depois, mais uma advertência de Zico. Uma finta com a perna direita suspendida no ar, e um chute, no meio de gol, sem problema para Paulo Vitor. O arco Zico voltou em ação, com um passe sensacional de calcanhar para Adalberto, que parou no goleiro tricolor. No momento, jogo ficava no empate.
E depois, a obra arte de Zico, uma falta perto da grande área, uma falta perfeita, na gaveta de um Paulo Vitor que só olhou. A comemoração é icônica também, Zico, de braços para o céu, num Maracanã cheio de lenços brancos para homenagear mais uma vez o gênio de Zico. Nosso Rei não precisava desse jogo para ser eternizado no Flamengo, mas mais uma vez, ele provou a existência de Deus, apenas com essa falta. Já sem o contexto, é uma das faltas do Zico que gosto mais, a curva é sensacional. Agora com o contexto, vira uma divindade. Depois, com outra ginga, Zico quase fez o terceiro dele no jogo, mas Paulo Vitor defendeu.
A torcida do Flamengo cantou, cantou forte, cantou bonito. E Flamengo fez mais um gol, agora sem a participação de seu maior jogador, do dia e da história. Chiquinho para Sócrates, de novo para Chiquinho, em seguida para Bebeto, que fazia nesse dia seu 22o aniversario, e com uma bola no fundo das redes, quase matava o jogo. E o jogo acabou com mais um gol de Zico, de pênalti, que fazia assim seu gol 700 na sua carreira. Números surreais para um jogador fora de série. E o juiz apitou o fim do jogo com a bola nos pés de Zico, que fez nesse dia uma das suas partidas mais memoráveis de uma carreira de ouro. De novo, falta palavras para descrever o gênio do Nosso Rei. Quem ficava também sem palavra era a torcida do Fluminense, que não podia engolir o próprio canto de “bichado” no início do jogo.
Quem também não falou nada foi o próprio Zico, demostrando mais uma vez a mesma classe em campo e fora do campo. No livro Zico: 50 anos de futebol, de Roberto Assaf e Roger Garcia, Zico voltou a falar desse jogo eterno: “Foi duro ouvir a torcida do Fluminense me chamando de bichado antes do jogo. Mas não fiquei com raiva da torcida deles. O problema é que quando fui vendido para a Udinese o Antônio Augusto, numa festa em que estava meio alegre, jogou a merda no ventilador. E para justificar a minha saída do clube disse que eu estava bichado. Ainda bem que Deus me ajudou naquele dia. Acho que foi um jogo em que não consegui errar nenhuma jogada. Dava tudo certo… bicicleta, passe de calcanhar, tudo, tudo… Eu não sei como a torcida do Fluminense deve ter voltado para casa. Mas eu não abri meu braço, minha boca, não fiz nada, fiz os gols, fui sempre para a torcida do Flamengo, para a torcida do Fluminense eu não disse um aí para ela”. Ah Zico, você nos deu tanta alegria e tanto orgulho de ser flamenguista…
-
Jogos eternos #42: Flamengo 2×0 Vasco 1996

De novo, o Flamengo está de volta no campeonato carioca, de novo vindo de um vice-campeonato. Só em 2023 são três competições perdidas e agora tem apenas o campeonato carioca para conquistar um título no primeiro semestre. Ou, diante de tantas frustrações, podemos até considerar a Taça Guanabara um título, e já levantar uma taça esse domingo. Ultima vez que Flamengo ganhou a Taça Guanabara em cima do Vasco foi em 1996, quando tinha um time histórico e craques como Romário e Sávio.
Como hoje, Flamengo chegou em 1996 em condição de ganhar a Taça Guanabara de maneira invicta. Em 1996, era o último jogo da fase, hoje ainda falta o Fla-Flu depois do jogo contra Vasco. Em 1996, o Vasco de Juninho Pernambucano tinha perdido apenas um jogo e estava também em posição de ganhar a Taça Guanabara. Hoje, o Vasco de Pedro Raul precisa de pontos para ficar no G-4, com apenas um ponto a mais do que Volta Redonda e Botafogo.
No 5 de maio de 1996, com 89.686 espectadores no Maracanã, inclusive os atletas americanos Michael Johnson e Mike Powell, Joel Santana escalou Flamengo assim: Roger (Zé Carlos); Zé Maria, Jorge Luiz, Ronaldão, Gilberto; Márcio Costa, Mancuso, Nélio, Marques (Iranildo); Sávio, Romário. Um time com jogadores muito bons e dois craques diferenciados, que iam fazer a diferença, Sávio e Romário.
Quem começou a brilhar foi Sávio, com muitos dribles, para quem Vasco tinha só carrinhos e pancadas como respostas. Romário não tardou a brilhar, com um domínio sensacional num lançamento longo de Zé Maria, mas não conseguiu finalizar. Sávio chutou de longe, sem perigo para Carlos Germano. Vasco reagiu, com Assis e Juninho Pernambucano, sem marcar. No intervalo, 0x0.
No início do segundo tempo, Válber chutou sem defesa para Zé Carlos, mas Nélio salvou em cima da linha. Com uma hora de jogo, Iranildo achou Romário que achou as redes, aproveitando da falha de Carlos Germano. Romário foi demais nessa Taça Guanabara, em 10 jogos, fez 17 gols, passando em branco apenas no primeiro jogo. Contra o antigo clube, Romário comemorou exaltando a torcida flamenguista.
Vasco precisava agora de dois gols para conquistar a Taça Guanabara, mas Zé Carlos, que entrou no decorrer do jogo e reestreava no time depois de 5 anos longe do clube, defendeu no seu ângulo um chute de Assis. Flamengo voltou a atacar, e Zé Maria, que fazia seu primeiro jogo com o Manto Sagrado, fez um passe sensacional para Sávio, que, de primeira, fez um gol que valia um título, que valia uma Taça Guanabara. Depois, ainda com Sávio e Romário brilhando, Flamengo conquistou o campeonato carioca de maneira invicta. Aprende, Flamengo de 2023.
-
Ídolos #11: Zinho

A camisa 11 também é um pouco menos emblemática do que a 9 ou a 10 no Flamengo, mas também é cheia de história. A escolha obvia era Romário, que brilhou durante muitos anos com a camisa 11. Brilhou não só com a camisa 11 no Flamengo, até fez história nos clubes rivais, mas com o Manto Sagrado, foram muitos muitos gols, 204 exatamente, muitas artilharias e um pouco menos de títulos. Outro ídolo do coração é Renato Abreu, artilheiro durante muitos anos do Flamengo no século XXI. Brilhou quando comecei a assistir aos jogos, brilhou no meio do campo, com raça e carisma, brilhou fora da área, com muitos gols de falta. Romário e Renato Abreu são ídolos do Flamengo e terão um dia a crônica deles aqui. Mas hoje eu vou de um outro ídolo camisa 11, Zinho.
Zinho, ou Crizam Cézar de Oliveira Filho de nome completo, nasceu no 17 de junho de 1967 no estado de Rio de Janeiro, em Nova Iguaçu. Craque de casa, estreou com o Manto Sagrado no campeonato carioca 1986 e logo já se tornou campeão pelo Flamengo. O ano seguinte, em 1987, foi ainda mais mágico, com a Copa União. Foi um dos times mais fortes da história do Flamengo, com antigos craques como Zico, Andrade e Leandro e a nova geração, com Zinho, Leonardo e Jorginho. E entre as duas gerações, um jogador diferenciado, que jogou muito nesse ano, Renato Gaúcho. Um time cheio de craques, com muitos jogadores tetracampeões em 1994 e apenas um titular que nunca jogou na Seleção, mas jogou muito com o Manto Sagrado, Aílton. Um título muito marcante, que alguns podem desmerecer se quiseram, mas que vale ouro, com um time de ouro.
Em 1988, o canhoto Zinho fez um golaço contra o Atlético Mineiro na Copa União. Uma matada da bola alta, uma caneta entre as pernas de Carlão e um chute cruzado entre as pernas de um outro defensor, um golaço. Em 1989, foi convocado pela primeira vez na Seleção, num amistoso contra Equador. E os títulos voltaram com o Flamengo, a Copa do Brasil de 1990 e o campeonato carioca 1991. Zinho agora fazia a ligação entre os jovens da base e os craques mais consagrados. Marquinhos, Djalminha e Marcelinho de um lado, e do outro, Gilmar Rinaldo, Wilson Gottardo e Gaúcho, e claro, o mestre, o Vovô-Garoto Júnior. Na final do Brasileirão, contra Botafogo, Zinho foi o craque do primeiro tempo no jogo de ida. Inclusive, foi ele que provocou a falta eternizada pelo Júnior. No 19 de julho de 1992, doze dias depois de meu nascimento, Zinho se tornava bicampeão e, no aniversario da mãe, cedia a faixa de campeão para ela. Um craque dentro e fora dos campos.
Era a hora de sair do Flamengo e Zinho foi no supertime do Palmeiras da Era Parmalat. Foi campeão brasileirão mais duas vezes, completando um tricampeonato consecutivo que poucos fizeram. Também foi bicampeão paulista e ganhou o Torneio Rio – São Paulo 1993. Em 1994, foi nos Estados Unidos para ser mais uma vez tetracampeão, agora com a Seleção de Romário, a quem cedeu a sua camisa 11 para pegar a 9. Zinho foi criticado pela falta de apoio ofensivo numa seleção bem organizada e defensiva. “Vendo o povo na rua, louvei a Deus. Essa Copa não foi boa para minha carreira, mas tenho certeza de que dei a minha contribuição para a conquista do título. Dar essa alegria ao povo foi muito mais importante do que os interesses profissionais e a reputação do Zinho” falou Zinho sobre a recepção da torcida no Brasil no livro Quem venceu o tetra escrito pelo Alex Dias Ribeiro e que fala sobre a história dos Atletas do Cristo, de quem Zinho faz parte. E sim, hoje Zinho é relembrado como tetracampeão, como campeão de tudo.
Depois, Zinho seguiu o caminho aberto pelo Zico e foi jogar no Japão, no Yokohama Flügels. Voltou ao Palmeiras, tempo de ganhar ainda mais títulos, uma nova Copa do Brasil e títulos continentais, a Copa Mercosul de 1988 e ainda mais, a Copa Libertadores 1999. Um supercampeão. No Grêmio, ganhou em 2001 a Copa do Brasil e o campeonato gaúcho. Depois, foi reserva do Alex no Cruzeiro de 2003, que conquistou a tríplice coroa inedita, o campeonato mineiro, a Copa do Brasil e o Brasileirão. No jogo do título do primeiro campeonato da era de pontos corridos, Zinho substituiu um Alex suspenso e jogou muito na vitória contra Paysandu. Com esse pentacampeonato pessoal, igualou-se como maior vencedor do Brasileirão a outro craque do Flamengo, Andrade.
Zinho ganhou tudo, mas para ter uma carreira completa, precisava voltar ao Flamengo. E 18 anos depois do primeiro título carioca, Zinho voltou a ser campeão com o Maior do Rio em 2004, jogando no meio de campo com outros craques, Ibson e Felipe. Em 2005, entrou em conflito com Cuca e saiu do Flamengo. 2005 também foi o ano que comecei a acompanhar o Flamengo, mesmo de longe, mesmo com poucas informações, mas com muito coração. Não tenho lembranças do Zinho com o Manto Sagrado, mas relembro da camisa desse ano, então Zinho é o craque da época antiga que me sinto próximo, quase como se tinha o visto jogar em campo. Depois, ainda jogou no Nova Iguaçu, o time de sua cidade de nascimento, e encerrou a carreira nos Estados Unidos, no Miami, com 40 anos.
Zinho era esse jogador carismático, com essa mecha de cabelos brancos e sobretudo com muitas qualidades, um pé canhoto brilhante, um jogador que podia fazer tudo, defender e atacar, recuperar a bola nos pés adversários, avançar no campo, fazer o drible, dar a assistência ou fazer o gol. Só com o Flamengo foram 470 jogos, 247 vitórias, 121 empates, 102 derrotas e 63 gols. E, talvez ainda mais impressionante, ao longo de uma carreira de 20 anos, ganhou 29 títulos, quase a metade com nosso Flamengo.
E para fechar, vale dizer que Zinho é o padrinho do meu tão amado Consulado Fla Paris, onde ele deixou vários vídeos e mensagens para apoiar campanhas de ajuda do consulado, na França e no Brasil. Obrigado por isso Zinho, e obrigado para tudo que fez com o Manto Sagrado.
-
Jogos eternos #41: Flamengo 3×0 Independiente del Valle 2020

A lembrança do dia é evidente para o jogo de hoje, com um outro jogo de volta da Recopa Sudamericana, contra o mesmo Independiente del Valle. Mas diferente do jogo de ida de 2020, Flamengo entra nesse jogo de 2023 com uma desvantagem e vai ter que reverter a decisão.
Na Recopa Sudamericana de 2020 de ida, jogo foi 2×2 antes da volta no Maracanã. E a volta foi muito bom. No 26 de fevereiro de 2020, também dia do primeiro caso de Covid no Brasil, a torcida lotou o Maracanã, com 69.986 presentes. Para um de seus últimos jogos no Flamengo, Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Gustavo Henrique, Léo Pereira, Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Éverton Ribeiro, Arrascaeta; Gabigol, Pedro. Um timaço, que ia fazer um jogo eterno.
Primeiro lance perigoso foi do Flamengo, Gerson escapando da saída do goleiro para fazer um passe atrás para o Gabigol, que chutou, mas o zagueiro Segovia salvou de cabeça. Um minuto depois, o mesmo Segovia se perdeu, cabeceou atrás para seu goleiro, bola foi na trave e depois para Gabigol, loiro e imperdoável, que fazia mais um gol numa final.
Com apenas 23 minutos, Willian Arão foi expulso e deixou Flamengo com 10 homens. Mas esse Flamengo de Jorge Jesus era avassalador. Everton Ribeiro lançou em profundidade Gabigol, que acelerou, passou entre três defensores e chutou cruzado. Goleiro defendeu, impedindo um golaço. Mesmo sem o gol, que saudade desse Flamengo brilhante e ofensivo.
No segundo tempo, quem começou a brilhar no Flamengo foi Diego Alves, com uma defesa impressionante contra Favarelli, que estava na cara do gol, a 10 metros de distância. Cinco minutos depois, Gabigol, mais uma vez ele, driblou na direita, acelerou, entrou na área, cruzou atrás para Gerson, que, com um chute de carrinho, fazia o terceiro gol de sua carreira com o Manto Sagrado.
No fim do jogo, mais uma contra-ataque e uma triangulação com Michael, Gabigol e Vitinho. Vitinho se distanciou do goleiro adversário, mas conseguiu rolar a bola para Gerson. O Coringa dominou de sola e achou com a tranquilidade do artilheiro que ele não é, o canto aposto. Inclusive, um gol quase em câmera inverso do gol eterno de Tardelli contra Botafogo, na final da Taça Guanabara de 2008. Mesmo em desvantagem numérica durante uma hora, Flamengo deu mais um show, com a marca do Vapo, que em apenas um jogo, dobrou seus números de gols com o nosso Mengo.
Flamengo, dez dias depois de ganhar a Supercopa do Brasil, ganhava mais um título, fazia mais uma vez a alegria de um Maraca lotado.
-
Times históricos #12: Flamengo 1912

Hoje é dia de um time histórico do Flamengo, o primeiro time da história do clube, em 1912. O Grupo de Regatas do Flamengo foi fundado como clube de regatas no 17 de novembro de 1895, data celebrada no 15 de novembro para coincidir com a proclamação da República. Nesse mesmo ano de 1895, o primeiro jogo de futebol aconteceu no Brasil, em São Paulo. O futebol cresceu no início do século seguinte, e Alberto Borgeth, brasileiro da classe alta, jogava remo no Flamengo e futebol no Fluminense. Torcedor do Flamengo, queria já fundir uma seção de futebol no Flamengo, mas a ideia foi recusada, futebol sendo um esporte “de bailarinas” e não para “homens” como o remo era na época.
Em 1911, Alberto Borgeth, centroavante do Fluminense, foi substituído para os últimos jogos do campeonato carioca pelo zagueiro Ernesto Paranhos, uma humilhação na época. Jogadores recusaram-se a jogar para dar apoio ao Alberto Borgeth, que recusou essa ideia. Fluminense foi campeão, mas quase ninguém assistiu a festa do título. “Nunca se comemorou menos ruidosamente a conquista de um campeonato”, escreveu Mario Filho. Alberto Borgeth liderou a turma dos dissidentes e propôs a fundação de uma seção de futebol no Flamengo num assembleia de sócios realizada em 8 de novembro de 1911. Apesar de uma certa desconfiança dos remadores, a ideia foi aprovada e no 24 de dezembro de 1911, criou-se o Departamento de Esportes Terrestres, tendo como primeiro diretor o próprio Alberto Borgeth. Nove titulares do Fluminense campeão carioca 1911 foram no Flamengo, as únicas exceções sendo Oswaldo Gomes e James Calvert, que ficaram no Fluminense.
Ainda sem campo, Flamengo treinou na Praia do Russel. Flamengo estreou no 3 de maio de 1912, no campo do America, na rua Campos Salles, contra Mangueira. Pela primeira vez de sua história, Flamengo, dirigido pelo Ground Committee, entrou em campo e foi escalado assim: Baena; Píndaro, Nery; Coriolano, Gilberto, Gallo; Baiano, Arnaldo, Amarante, Gustavo, Borgeth. Flamengo estreou com a famosa camisa papagaio de vintém, uma camisa com 4 grandes quadrados. O Manto Sagrado com listras horizontais já existia, mas só no remo, mais elitista, que obrigou a seção de futebol a jogar com uma camisa diferente.
E nosso Flamengo precisou de menos de um minuto em campo para já fazer um gol, Gustavo marcando o primeiro gol da história do maior do Mundo. Na revista Grandes Clubes Brasileiros de 1971, Gustavo volta as lembranças de quase 60 anos atrás: “Foi praticamente no início da partida, mais precisamente no primeiro minuto. A jogada começou lá atrás, na esquerda da nossa defesa, com o Galo dominando e me cedendo um passe na altura da meia canhota. De primeira, tão pronto recebi, lancei na extrema direita, em profundidade, para o Arnaldo, que fugiu pela linha de fundo e de lá deu para trás, dentro da grande. Eu acompanhara o ataque no pique mais veloz que possuía e, de pé direito e em plena velocidade, emendei de primeira e violentamente, rasteiro, de forma indefensável para qualquer goleiro. Eu era baixinho e muito leve, mas compensava tudo isso com a rapidez […] Eu fui o autor desse feito histórico e titular até o mês de julho, quando viajei para a Inglaterra, onde permaneci cinco anos, estudando engenharia. Quando formado, em 1918, voltei ao Rio e a jogar pelo Flamengo”.
E com apenas dois minutos de jogo, Flamengo fazia um segundo gol, de novo com Gustavo, agora com assistência de Gilberto. Flamengo continuou a fazer gols com um ritmo impressionante. No intervalo, uma ampla vantagem de 5×1 para nosso Mengo. Numa época antiga de futebol, ou melhor, do Foot-Ball, o intervalou durou apenas 5 minutos. E Flamengo voltou em campo ainda mas avassalador. No dia seguinte, o Jornal do Brasil escreveu, num vocabulário de uma época antiga: “A peleja foi desastrosa para o Mangueira, cujo eleven era visivelmente inferior ao do adversário. Foram poucas as vezes em que seus players pisaram o campo inimigo. O seu goal-keeper, desnorteado, sem calma, fez o que era possível naquella conjectura. Para o contraste flagrante do estado das equipes o defensor das barras do Flamengo passeava de braços cruzados por não ter serviço”.
Flamengo fez gols, continuou a fazer gols, até errou dois pênaltis. Alberto Borgeth fez o gol 14 e Gustavo o gol 15. No fim das contas, Flamengo 15×2 contra Mangueira. Cinco gols de Gustavo, quatro de Arnaldo e Amarante, um de Gallo e Borgeth. Durante muitos anos, o placar considerado foi um 16×2, por causa do Jornal do Comércio, que deixou em manchete no dia seguinte um erro duplo: “Fluminense vence 16×2 Mangueira”. A correção no dia seguinte passou despercebida, até a pesquisa de Marcelo Abinader no seu livro 1912, surge o futebol do Flamengo. Mas qual clube poderia estrear no futebol com uma goleada assim de 15 gols? Só o Flamengo.
No segundo jogo de sua história, agora em Laranjeiras, Flamengo abriu o placar de novo no primeiro minuto do jogo, agora com Alberto Borgeth. No final, vitória 6×3 contra o America, com dobletes de Borgeth, Arnaldo e Gustavo. Flamengo perdeu o artilheiro do campeonato, Gustavo, que foi estudar na Inglaterra. Depois voltara ao Flamengo, como jogador e até como presidente, onde brigou com Leônidas da Silva. Flamengo também conheceu a primeira derrota de sua história, contra Paysandu. Recuperou-se com uma vitória 7×4 contra Bangu. Outra época de futebol. E depois o primeiro Fla-Flu da história, um 7 de julho de 1912, dia do meu aniversario, exatamente 80 anos antes do meu nascimento. Por causa da história, Fla-Flu já era clássico antes do primeiro jogo. Nelson Rodrigues, escritor tricolor, escreveu: “O Fla-Flu surgiu quarenta minutos antes do nada”. Tricolor roxo, também escreveu: “Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia”. Eu não sou brasileiro, mas sou Flamengo, por todos os dias de minha vida.
Infelizmente, Flamengo perdeu o primeiro Fla-Flu da história, 3×2, com um gol tomado no último minuto do jogo. Nas Laranjeiras, apenas 800 pessoas nas arquibancadas, por causa de uma competição de regatas no mesmo dia, o remo ainda sendo o esporte mais popular da cidade na época. Flamengo perdeu o primeiro Fla-Flu, mas depois ia se tornar o maior vencedor do clássico mais charmoso do Rio. Em 1912, Flamengo fechou o primeiro turno do campeonato carioca no segundo lugar com 10 pontos, mesmo total que o America e dois pontos atrás do Paysandu. Em quarto lugar, Fluminense, com 9 pontos.
No segundo turno, Mangueira de novo foi goleado de forma vergonhosa, um 14×0 para Flamengo com 4 gols de Arnaldo e 3 de Borgeth. Fla ganhou seu primeiro jogo de W.O, contra Bangu, e em seguida empatou 1×1, tanto contra Paysandu que contra Rio Cricket, os dois primeiros empates da história do Flamengo. No mesmo dia do empate contra Rio Cricket, Paysandu, time fundado por ingleses, ganhou 4×2 contra Fluminense com uma arbitragem duvidosa segundo os jornais da época, e sagrou-se campeão carioca. Pelo menos, nosso Mengo vingou-se da derrota no primeiro Fla-Flu, com uma vitória 4×0 contra Fluminense no 27 de outubro de 1912, também nas Laranjeiras. Flamengo fechou seu primeiro campeonato carioca com uma vitória 3×0 contra São Cristóvão, com 3 gols de Baiano, jogador nascido em 1893 em Fortaleza, mostrando as ligações entre Flamengo e o Nordeste já desde o início do clube.
Flamengo ficou no segundo lugar, como faria em 1913, antes de ganhar o título em 1914 e 1915, este último de maneira invicta. No fim do ano de 1912, alguns jogadores do Flamengo, como Píndaro, Gallo, Milton, Arnaldo e Nery jogaram com a seleção carioca, que fez uma excursão no Sul do Brasil. Para o Flamengo, o título não veio em 1912, mas nascia em campo nesse ano o maior clube do Brasil.
-
Jogos eternos #40: Flamengo 2×1 Botafogo 1991

Eu já falei na crônica sobre o jogo contra Bangu em 1999 que eu adorava o campeonato carioca, um dos melhores do mundo durante muitas décadas. Nos anos 1990, o nível caiu, mas ainda era o campeonato raiz. Eternizei aqui também um 5×3 contra o America, também em 1991, também com elementos raízes do futebol carioca. E o jogo contra Botafogo, também em 1991, também respira a alma do futebol carioca.
Era o último jogo da Taça Guanabara, o primeiro turno do campeonato carioca. Botafogo, ainda invicto, sonhava com o título, com 16 pontos. Flamengo, com 15 pontos, também podia ser o campeão. Mas o líder era Fluminense, com 17 pontos e que jogava nas Laranjeiras contra o America. Futebol raiz.
Flamengo vinha de um jejum contra o Botafogo no campeonato carioca. Nas edições de 1988 e 1989, foram 5 empates seguidos e no jogo de volta da final do campeonato de 1989, Botafogo ganhou e punha fim a um outro jejum, muito mais constrangedor, 21 anos sem título no campeonato carioca. No campeonato carioca 1990, Botafogo ganhou os dois jogos contra Flamengo, ou seja, foram 8 jogos seguidos sem vencer o Botafogo para nosso Mengo entre 1988 e 1990.
Mas no 21 de setembro de 1991, a história mudou. O palco, o de sempre, o Maracanã. Com pouco publico, apenas 10.311 espectadores, mas com uma geral antiga, um Maraca raiz. Radinho de pilha, torcedor botafoguense fumando o cachimbo, torcedor flamenguista nas costas de outro torcedor botafoguense, este voltaria a ser personagem do jogo. Para pôr fim ao jejum, o saudoso Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar, Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Rogério, Piá; Uidemar, Júnior, Marquinhos, Zinho; Nélio, Gaúcho.
Flamengo era uma máquina, com um maestro, o Vovô-Garoto Júnior, ídolo do Flamengo. Passe sem olhar, dribles curtos, dois chapéus seguidos, um passe incrível de trivela, um show de um mestre. Com apenas 5 minutos de jogo, Júnior já brilhava no Maraca. Uma falta de perna direita na pequena área, uma cabeçada de Djair, e Rogério sobe mais do que Válber. Flamengo 1×0 Botafogo.
Depois, Valdeir empatou, com um autentico golaço, um gol de calcanhar. Ser flamenguista não impede de desfrutar um bom futebol, bem ao contrário. Flamengo 1×1 Botafogo. E no segundo tempo, Flamengo marcou, com um gol esquisito. Gaúcho errou o voleio, a bola foi nos pés de Nélio, que errou o chute, a bola foi nos pés de Gaúcho de novo, a bola foi na rede do Botafogo. Flamengo 2×1 Botafogo. Gaúcho era o artilheiro do campeonato nesse momento, com 9 gols, e seria também no fim do campeonato, com 17 gols.
No fim do jogo, Botafogo fez o gol do empate com Vivinho, mas o bandeirinha anulou um gol que parecia legítimo. E o torcedor botafoguense que carregou o flamenguista no início do jogo, não carregou a pressão no fim do jogo. Invadiu o campo, agrediu o bandeirinha, que rebateu, com a ajuda da própria bandeirinha. O torcedor valentão foi entrevistado e depois foi preso. Futebol carioca raiz.
No fim, Flamengo ganhou mas quem riu foi Fluminense, que conquistava a Taça Guanabara com um empate contra America. Mas quem riu por último é o Flamengo, campeão carioca 1991 em cima do Fluminense, de novo com um show de Júnior.
-
Jogos eternos #39: Independiente del Valle 2×2 Flamengo 2020

A lembrança de hoje é facil, com um jogo da Recopa Sudamericana, contra o mesmo adversário, Independiente del Valle, que jogou muito em 2019 e conquistou a Copa Sudamericana. Mas no continente sul-americano, ninguém jogou mais que Flamengo em 2019, ganhando em dois dias a Libertadores e o Brasileirão. E continuou a conquistar títulos em 2020, já com a Supercopa do Brasil, conquistada com um 3×0 contra o Athletico Paranaense.
Três dias depois do título da Supercopa do Brasil, Flamengo estreou para mais uma decisão, a Recopa Sudamericana, contra o Independiente del Valle. E Flamengo estava sem Gabigol, vale relembrar que além do doblete no Milagre de Lima, Gabigol foi expulso no fim do jogo contra River Plate. Mesmo assim, como nos três primeiros jogos dele com o Manto Sagrado, Pedro, principal reforço da temporada de 2020, começou no banco. No estádio Olímpico Atahualpa de Quito, Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Gustavo Henrique, Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Éverton Ribeiro, Diego, Arrascaeta; Bruno Henrique.
No início do jogo, dois lances, um de cada time, um chute de fora da área, fora do gol. E no 20 minuto, um golaço de falta do Independiente del Valle, Murillo achando a gaveta de Diego Alves. Em apenas 6 minutos, Bruno Henrique empatou, driblando o goleiro, mas o gol foi muito mal anulado, Bruno Henrique saindo do próprio campo para mostrar toda sua velocidade.
No início do segundo tempo, Independiente del Valle teve três oportunidades de fazer o gol, sem conseguir. E nesse tipo de jogos, quem não faz acaba tomando. De novo, Bruno Henrique na velocidade, agora sem bandeirinha para impedir o golaço. Jogou demais, e ainda vai jogar demais nosso Bruno Henrique no Flamengo. Infelizmente, três minutos depois, machucou-se e saiu do campo.
De novo, Independiente del Valle teve oportunidades de fazer o gol, não conseguiu e tomou o gol da virada. Na segunda trave, Éverton Ribeiro foi mais esperto para ganhar a bola dividida. Depois foi gênio para driblar o defensor com um giro à la Cruyff, e foi lucido para fazer um passe atrás. E Pedro, que tinha entrado no lugar de Bruno Henrique, fez seu terceiro gol com o Flamengo em 4 jogos, todos entrando durante a partida. Jogou e ainda joga demais nosso Pedro no Flamengo.
No fim do jogo, mais um erro de arbitragem, o juiz dando um pênalti inexistente com uma suposta falta de Rafinha. O Independiente del Valle aproveitou do presente para empatar e deixar tudo igual antes do jogo no Maracanã. Deixo o último capítulo da Recopa Sudamericana de 2020 para a próxima semana e o jogo de volta, do novo no Maraca.
-
Ídolos #10: Diego

A camisa 10 é a mais bonita do futebol, ainda mais no Flamengo, onde foi eternizada pelo Nosso Rei Zico. E para escolher um ídolo camisa 10, o nome de Zico era o mais obvio, mas ainda não me sinto preparado para escrever essa crônica. Eu quero um texto igual à carreira dele no Flamengo e não é hoje que vou atingir a perfeição. Depois, tinha outros nomes, mas Sávio já escreveu sobre ele, Petkovic guardo para a crônica 43 se eu vou até lá, Ronaldinho era outra opção, mas eu vou de nosso último camisa 10, antes de dar a camisa 10 para Gabigol, Diego.
Escolho Diego com uma pergunta, Diego é ídolo ou não ídolo do Flamengo? Já duvidei da idolatria de Júnior, então claramente pode ser o caso para Diego. Parece-me que ele já se colocou acima do clube, o que é para mim a característica do não-ídolo.
Diego chegou ao Flamengo em 2016. Para muitos, foi o primeiro reforço de peso do projeto de Eduardo Bandeira de Mello. Discordo. Acho que Paolo Guerrero, que chegou em 2015, foi o primeiro nome internacional. Mas a passagem de Paolo Guerrero no Flamengo foi abaixo das esperanças e Guerrerro é um nome sul-americano. Já Diego é um nome mundial, com passagens em vários clubes europeus importantes e história na Seleção. Acho também que a carreira de Diego foi abaixo das esperanças quando ele estreou no Santos com 16 anos e já com a camisa 10, mas sempre foi um jogador diferente, um jogador com muita classe.
Diego permitiu ao projeto de EBM de crescer. Ele acreditou no projeto, e depois vieram Éverton Ribeiro, Diego Alves, Vitinho e outros até ter o time histórico de 2019. Diego foi no Flamengo numa época onde era muito difícil de contratar jogadores de peso. Estreou sem a camisa 10, já de Ederson, e escolheu a 35, em homenagem aos filhos de 3 e 5 anos. E estreou com gol, contra Grêmio. Diego foi muito bem em 2016, ao ponto de ser nomeado no time do Brasileirão pela CBF. Flamengo ficou no terceiro lugar, mas a esperança de títulos voltava.
A esperança sim, os títulos ainda não, mesmo em 2017. Diego me deu uma das minhas maiores alegrias num estádio, no 3×3 contra Fluminense na Copa Sudamericana, um jogo que deve ser eternizado aqui. Um golaço de falta para inflamar a torcida, para mexer meu corpo e minha alma de flamenguista. Infelizmente, Flamengo perdeu a final, contra o Independiente. E nesse ano também perdeu a final da Copa do Brasil, contra Cruzeiro. E de toda a disputa de penalidades, Diego foi o único a errar. Diego bateu mal, mas só errou quem tentou, e a culpa de uma derrota dever ser dividida com o resto do elenco. Mesmo com a frustração, Diego fez mais uma ótima temporada em 2017, com 18 gols.
Em 2018, Diego fez um dos seus gols mais bonitos com o Manto Sagrado, num amistoso contra o Atlético-GO, numa cavadinha perfeita. Mas ele não foi tão bom em 2018. Fez menos gols, jogou menos em termo de qualidade. Em 2019, ainda era titular com Abel Braga apesar da chegada de Arrascaeta. Mas Diego se machucou gravemente contra Emelec, quebrando seu tornozelo. Em teoria, a temporada dele já estava acabada. Mas Diego voltou em apenas 3 meses. Isso só foi possível graças ao extremo profissionalismo de Diego, que se dedicou muito para voltar. O profissionalismo dele é exemplar e ele voltou num jogo eterno, o cincum contra Grêmio, jogo onde voltou já com a faixa de capitão em homenagem a sua importância no grupo, mesmo longe dos gramados.
Com Jorge Jesus, Diego ficou na reserva, não tinha mais espaço para ele no time titular com um Arrascaeta tão brilhante. Aceitou sua nova função e ainda ajudou o time. E foi decisivo num jogo eterno, o Milagre de Lima. Já falei nessa crônica que não importa se foi chutão ou cruzamento, foi assistência. Diego fez o que tinha que fazer e é eternizado na galeria dos ídolos rubro-negros só com esse lance.
Em 2020, voltou a titularidade no fim do campeonato com Rogério Ceni, e com uma nova função, de volante. E jogou muito bem. Deu qualidade técnica ao meio de campo e também deu muita raça, o que sempre precisa quando veste o Manto Sagrado. Diego foi importantíssimo no octacampeonato. E em 2021, começou a temporada com talvez o que é seu lance mais marcante no Flamengo, a bola salvada em cima da linha contra Palmeiras na Supercopa do Brasil, outro jogo eterno do Flamengo. A ironia é aqui, um jogador tão técnico que Diego, camisa 10, com passes, dribles e gols de falta, o que sempre precisa quando veste o Manto Sagrado, é lembrado com um lance defensivo. Mas mostra a polivalência de Diego e tudo que ele deu quando estava em campo.
O resto do ano foi difícil e já era a hora de sair do clube. Ficou em 2022, virou um peso financeiro sem destaque no campo, mas quem conseguiria sair do Flamengo quando mais um ano é possível? Teve uma ótima despedida com o Flamengo no jogo contra Avaí, onde foi merecidamente homenageado pela torcida. E deu a camisa 10 para nosso Gabigol, que está num outro patamar dos ídolos rubro-negros. E Diego se aposentou como jogador do Flamengo, deixando a história mais linda assim. Ainda poderia ajudar metade dos times do Brasileirão, mas seu último clube é nosso Mengo. Ele foi durante anos um jogador muito importante do Flamengo, um ótimo capitão mas as duas últimas temporadas foram desnecessárias. Mesmo assim, com 12 títulos, 285 jogos, 42 gols, 34 assistências e lances memoráveis, Diego faz parte sim, dos grandes ídolos do Flamengo.

-
Jogos eternos #38: Resende 0x3 Flamengo 2014

Para o jogo de hoje, uma pequena lembrança de um jogo de 2014, um ano que ninguém gosta de lembrar, que seja pela seleção brasileira ou seja pelo nosso Mengo. Mas vamos de uma vitória fácil contra Resende, com um frango e dois golaços.
No 22 de fevereiro de 2014, Jayme de Almeida escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Wallace, Samir, André Santos; Muralha, Cáceres, Elano, Lucas Mugni; Everton, Alecsandro. Alguns bons jogadores sim, mas vale a pena lembrar, ou não vale, que quem vestia a camisa 10 era Lucas Mugni. E no ataque, tinha Alecsandro. Um bom jogador do Brasileirão, que fez mais de 100 gols no campeonato nacional. Ganhou alguns campeonatos estaduais, uma Copa do Brasil com Vasco, um Brasileirão com Palmeiras e duas Libertadores, com Internacional em 2010 e o Atlético Mineiro em 2013. Um bom atacante sim, mas que nunca me fez realmente vibrar, e muito longe de outros centroavantes titulares no Flamengo, até nos períodos mais difíceis.
Mas Alecsandro foi o personagem do jogo em Raulino de Oliveira, com apenas 1.786 pagantes, protestando com uma faixa contra o preço alto dos ingressos. Ainda mais com um futebol tão baixo, o Flamengo de 2014 foi um dos piores da história do clube. Mas ganhou fácil nesse dia, contra Resende.
No primeiro tempo, um cruzamento e um erro do goleiro Mauro, que deixou escapar a bola. De cabeça, Alecsandro aproveitou para abrir o placar. Dez minutos depois, agora um golaço, um chute de longe de Alecsandro, na gaveta do goleiro, que esta vez não podia fazer nada. No intervalo, Flamengo 2×0 Resende.
Mas a pintura do dia só chegou no segundo tempo. Num passe no chão, Léo Moura deu um chapéu espetacular com um toque só, encobrindo o defensor. Não era mais o Léo Moura da metade dos anos 2000, mas ainda era nesse time meu jogador preferido, talvez por falta de outras opções. Léo Moura completou o chapéu e deu a bola na profundidade para Alecsandro que errou o chute. O chute transformou-se em assistência para outro bom jogador, Everton, que como Léo Moura, falou algumas besteiras quando saiu do clube.
O time de 2014 não me empolgou, mas vale lembrar que foi campeão carioca, em cima do Vasco. Até no pior, tem bons momentos.








