Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #30: Flamengo 5×1 Portuguesa-RJ 2017

    Jogos eternos #30: Flamengo 5×1 Portuguesa-RJ 2017

    Para preparar o jogo de hoje, uma lembrança de 6 anos atrás, na estreia da Taça Rio, com um jogo entre Flamengo e a Portuguesa da Ilha do Governador no Raulino de Oliveira. Provavelmente o melhor jogo de Leandro Damião com o Manto Sagrado. Gostava muito do Leandro Damião no seu início de carreira com o Internacional e acho que ele tinha tudo para ser o centroavante da Seleção nos anos 2010. Mas decepcionou, e no Flamengo, ainda achei um bom reforço, decepcionou ainda mais.

    No 11 de março de 2017, para um pequeno publico de 1.301 torcedores, Zé Ricardo escalou Flamengo assim: Thiago; Rodinei, Juan, Donatti, Renê; Márcio Araújo (Ronaldo), Cuéllar, Matheus Sávio (Lucas Paqueta); Gabriel, Felipe Vizeu, Leandro Damião (Berrío). Faltava peças importantes como Réver, Diego e Paolo Guerrero, mas Flamengo mudou muito em 6 anos.

    Mesmo assim, Flamengo era bem superior ao adversário e Leandro Damião abriu o placar no primeiro tempo, depois de um toque de calcanhar de gênio de um ídolo, o zagueiro e capitão Juan. Num longe cruzamento do pé esquerdo de Rodinei, Leandro Damião fez o segundo, de cabeça.

    Ainda no primeiro tempo, a Portuguesa voltou no jogo, de novo com um gol de cabeça, do zagueiro Marcão. Mas no minuto seguinte, aproveitando as hesitações e falhas de toda a defesa do time da Ilha do Governador, Leandro Damião completou o hat-trick. Três gols em um tempo, três gols em puro oportunismo, bem ao estilo do Damião. Pena que não fez mais com o Manto Sagrado.

    No último minuto do primeiro tempo, Leandro Damião quase fez o quarto dele, mas a bola saiu do lado errado da trave. O quarto gol do Flamengo não demorou a chegar, com 5 minutos no segundo tempo, teve mais um gol, mais um gol de cabeça, do nosso ídolo Juan, que também merece um capítulo na categoria dos ídolos.

    Flamengo ganhava 4×1, jogo estava ganho e o segundo tempo foi mais tranquilo. Mas com mais um gol, agora de uma promessa que deu certo. No tempo adicional, Lucas Paqueta fez um lindo gol de falta, decretando o placar final: 5×1 para o Flamengo.

    Flamengo estreava com o pé direito na Taça Rio, turno onde o time sairia invicto. Como sairia invicto e campeão do carioca 2017.

  • Times históricos #10: Flamengo 2000

    Times históricos #10: Flamengo 2000

    A última temporada do segundo milênio, a primeira temporada desde o fim da Era Romário, a última temporada da Era Umbro, a primeira temporada da Era Nike, também a primeira da dupla Petkovic – Adriano, o ano de 2000 foi histórico para o Flamengo, com de novo muitas competições e muitos jogos, algumas alegrias e muitas decepções, e muitos, muitos craques. Mesmo sem Romário, o imortal Flamengo, com o apoio da ISL, era bem servido de craques, em cada posição: Júlio César no gol, Juan e Gamarra na zaga, Athirson como lateral, Leandro Avila como volante, Lê e Denílson nas alas, Reinaldo, Adriano e Edílson no ataque.

    Mas, se o Flamengo era muito bem servido numa posição, era de uma das mais importantes no futebol do século XX, o camisa 10, o cérebro do time. E para a décima crônica dessa categoria, o Flamengo de 2000 tinha dois camisas 10, dois gênios, Petkovic e Alex. Sempre é muito difícil de jogar com dois camisas 10, dois jogadores centralizados, que precisam da bola para existir. Se alguém tem duas articulações no mesmo joelho, dificilmente ele conseguira andar sem mancar.

    A temporada do Flamengo em 2000 começou com um torneio amistoso, o troféu São Sebastião, patrão de Rio de Janeiro e celebrado os 20 de janeiro. No 20 de janeiro, também dia aniversario da morte de Garrincha, Flamengo, de calça vermelha e camisa toda preta, começou a temporada da melhor maneira, com um título, em cima do Fluminense, gol de Lúcio. A estreia oficial, no torneio Rio – São Paulo, foi mais difícil. Duas derrotas, contra São Paulo e Botafogo, depois dois empates, contra Santos e Botafogo, e depois duas vitórias, de goleada, 5×2 contra São Paulo e 4×1 contra Santos.

    O jogo contra São Paulo no Morumbi foi o palco do primeiro gol profissional de um dos maiores ídolos do Flamengo, nosso Didico Adriano. Trinta segundos depois de sua entrada no jogo, dominava a bola esquivando um defensor ao mesmo tempo, chutava com a perna esquerda e fazia um golaço contra uma outra lenda em início de carreira, Rogério Ceni. No jogo contra Santos, foi estreia de outro ídolo do Flamengo, também hexacampeão em 2009, Petkovic. O Pet estreou com golaço, duas fintas de pé direito, um chute cruzado de pé esquerdo. Em seguida, no antigo Maraca, um escanteio de Pet num canto onde voltaria a brilhar, um escanteio bem curvado, para o gol de Beto. Apesar das goleadas e do gênio dos futuros ídolos, Flamengo acabou sendo eliminado na primeira fase do Torneio Rio – São Paulo, conquistado pelo Palmeiras depois de um 4×0 contra o Vasco na final.

    No campeonato carioca, Flamengo também começou com goleada: 5×0 contra o America. Depois, outra goleada, 4×0 contra Madureira. Nos dois jogos, Reinaldo marcou um doblete. Na Copa do Brasil, estreou com empate contra River lá no Piauí, mas não tremeu no Maracanã, Athirson fazendo o único gol da partida no início do jogo. No campeonato carioca, perdeu a invencibilidade contra o Botafogo, mas conquistou outras goleadas: 7×1 contra Friburguense e 6×1 contra Bangu, com destaque para Reinaldo e Athirson, 4 gols para cada um na soma dos dois jogos. Entre as duas goleadas, uma vitória de prestígio, de virada, contra Fluminense, de novo com gol de Athirson, que faria 12 gols em 32 jogos durante a temporada.

    Depois, foi o momento da goleada sofrida, contra um arquirrival e um artilheiro bem conhecido, o Vasco de Romário. Num domingo de Pascoa, o Maraca virou centro de distribuição de chocolates, com a arrogância de Eurico Miranda, as provocações de Pedrinho e o gênio de Romário. Foi um jogo eterno, um grande jogo na história do Vasco. Parabéns para eles, ainda não era o momento da vingança para o Flamengo. Mas era para o técnico Paulo César Carpegiani a hora de sair, o técnico campeão mundial em 1981 pediu demissão no dia seguinte.

    No lugar de Carpegiani, chegou um outro ídolo, ainda mais ídolo, Carlinhos, sobre quem já escrevi aqui. Ídolo como jogador, onde só jogou no Flamengo, e ídolo como técnico, onde muitas vezes foi chamado para sair de uma crise e onde ganhou o Brasileirão de 1987 e 1992. Em 2000, ajudou o clube a voltar para cima depois da goleada sofrida contra Vasco, também com a ajuda de Petkovic, que marcava a quase todo jogo, e quando não marcava, dava assistência. Petkovic foi eternizado em 2001, mas já jogou muito em 2000.

    Flamengo conquistou a Taça Rio e encontrou de novo Vasco, agora na final do campeonato carioca. Agora sim, era hora de vingança. E chegou com juros e com título, Vasco sendo vice de novo. No jogo de ida, a goleada foi construída nos quinze minutos finais, mais um gol de Athirson, um golaço de falta de Fábio Baiano, e os vascaínos, já saindo do Maracanã, sem ter tempo de ver o terceiro gol, uma cabeçada de Beto. Sim, era a vingança de Pascoa. No jogo de volta, uma vitória de virada, com gol de empate de Reinaldo e depois Tuta roubando um gol de Juan. Flamengo bicampeão carioca, Vasco bi-vice. A vingança não era completa só porque o Vasco ia sofrer ainda mais no ano seguinte.

    Mas o Flamengo desses tempos sofria de transtorno bipolar, era de uma alegria pura e no instante seguinte, os torcedores sofriam com a derrota mais dura. Nas quartas de final da Copa do Brasil, foi goleado 4×0 pelo Santos, em pleno Maracanã. Flamengo acabou eliminado depois de mais uma derrota contra Santos, 4×2 no Vila Belmiro. Em mais uma outra competição, a Copa dos campões regionais, também caiu nas quartas de final, contra Palmeiras. Na disputa de penalidades, Reinaldo foi o único a errar e o Flamengo foi eliminado.

    Depois era tempo de mais uma competição, o Brasileirão, nesse ano chamado de Copa Jõao Havelange, com viradas de mesa, (des)organização do Clube dos 13 e da CBF e 116 clubes participando, apenas isso. E mais uma vez no Brasileirão desses tempos bipolares, Flamengo começou mal, com apenas uma vitória em 6 jogos. De nova, era hora de estrear em mais uma competição, a Copa Mercosul, competição em alta e de qual o Flamengo era o último campeão, com vitoria na final de 1999 contra Palmeiras. Apesar de um gol de Petkovic, Flamengo estreou com derrota no Maracanã, 2×1 contra River Plate, jogou que marcou a estreia de Edílson com o Manto Sagrado.

    E mesmo com tantos jogos, tantas competições, Flamengo teve o tempo de fazer uma excursão na Europa. E Flamengo tinha mais um reforço de peso, um jogador que eu adorava em 1998, Denílson. A ISL dava recursos para o Flamengo ter um timaço. Flamengo perdeu o Troféu Villa de Madrid, disputado a cada ano pelo Atlético de Madrid, apesar de um gol de Edílson, que achou de novo as redes no segundo e último jogo na Europa, uma vitória 2×1 contra Betis, jogo onde Adriano também marcou. O Flamengo prometia no Brasileirão 2000.

    De volta ao Brasil, o Flamengo enfrentava o Atlético Mineiro de Cláudio Caçapa, Mancini, Valdir Bigode e Guilherme. No Mineirão, Flamengo ganhou de virada com gols de Petkovic e Edílson, e grande atuação de Adriano. Quatro dias depois, no Estadio Nacional de Santiago, Flamengo goleava o Universidad de Chile por 4×0. O Flamengo prometia, nesse jogo Edílson abriu o placar num escanteio de Petkovic, e fez mais um no segundo tempo, agora ignorando completamente Petkovic, sozinho na frente do gol. Já dava para perceber que esse Flamengo prometia brigas de ego e vaidade também.

    Flamengo goleou o Santos do Edmundo e venceu Gama, num jogo eternizado aqui. Depois, foi a vez de Alex de estrear com o Manto Sagrado, mas o craque do Palmeiras fez muito pouco pelo Mengo. Na Resenha de Primeira, Alex explicou: “Primeiro, eu fiquei 45 dias. Isso já resume tudo. O Flamengo tinha sérios problemas estruturais e eu encontro um grupo de muita qualidade individual, mas que ninguém queria nada. E quando eu digo que ninguém queria nada, eu também me incluo nisso porque eu poderia ter feito ‘N’ coisas diferentes e acabei não fazendo, entrei no ‘oba-oba’ que existia naquele momento e aí o rendimento do time foi muito abaixo”. No 10 primeiros jogos do Alex, Flamengo ganhou apenas um, empatou apenas um e perdeu 8. Coisa improvável vendo a qualidade do time. Flamengo perdeu 5 jogos consecutivos no Brasileirão, uma série fatal para o técnico Carlinhos, substituído por um outro ídolo, Zagallo.

    Para o primeiro jogo de Zagallo, Flamengo precisava de um empate contra Vélez Sársfield para passar da primeira fase da Copa Mercosul. E fez mais, Adriano abriu o placar depois de jogada de Petkovic, e saiu para a entrada de Roma, que fez um golaço cheio de ginga. E três dias depois, um jogo eterno contra o Vasco, na frente de mais de 60.000 torcedores no Maracanã. Antes do jogo, um cumprimento entre os antigos desafetos, Zagallo e Romário. No jogo, um golaço de falta de Petkovic, na gaveta de Helton, quase um flashforward. No segundo tempo, um gol de Adriano, um outro golaço de Petkovic, agora driblando dois jogadores do Vasco e por fim, um pênalti de Edílson. Flamengo 4×0 Vasco, mais uma vingança, ainda não completa, ainda não era o 27 de maio de 2001. Mas nesse fim do segundo milênio, a esperança voltava na Gávea, o Flamengo podia realizar um ano histórico.

    Mas o Flamengo dessa época é assim, meio feliz, meio infeliz, com uma esperança na mesma altura do que a decepção. Flamengo empatou contra Fluminense, com gol de outro craque, agora zagueiro, o paraguaio Carlos Gamarra, e perdeu contra o Internacional e o Cruzeiro. Entre esses jogos, perdeu duas vezes contra o River Plate, e acabou eliminado nas quartas de final da Copa Mercosul, apesar de gols de Edílson, Juan e Petkovic no jogo de volta. Um timaço, que não saiu do papel.

    Flamengo não passou da primeira fase do Brasileirão e viu o arquirrival Vasco conquistar a Copa Mercosul e o Brasileirão. Os dois últimos jogos, vitórias contra o Corinthians e Vitoria, só serviram para ver os três primeiros gols de Alex, os únicos, golaços de canhoto, e um pouco mais do gênio de Petkovic e Edílson. Só serve para se lamentar, pensando o que poderia ter feito o Flamengo de 2000.

  • Jogos eternos #29: Flamengo 1×1 Fluminense 1985

    Jogos eternos #29: Flamengo 1×1 Fluminense 1985

    Ainda não falei muito nesse blog sobre Leandro, para mim o segundo maior ídolo do Flamengo. Recentemente, escrevi um pouco sobre ele, na crônica sobre o time histórico de 1983, onde ele fez gol na final do Brasileirão contra Santos. No livro 6x Mengão de Paschoal Ambrosio Filho, Leandro falou: “Nunca fui de fazer muitos gols, mas o Zico me dizia que, quando eu marcava, era sempre um gol importante. Foi o caso deste dia”. Vamos então de um outro dia importante, o 11 de dezembro de 1985, contra Fluminense.

    O jogo foi a estreia no triangular final do campeonato carioca. Fluminense era bicampeão, e Flamengo bi vice-campeão. Acontece também para o nosso Mengo. Flamengo queria o título carioca, que não vinha desde 1981. Uma anomalia para um time cheio de craques. Até Zico tinha voltado ao time, mas estava fora do jogo, por causa de uma entrada criminosa do Márcio Nunes, jogador do Bangu. No 11 de dezembro de 1985, Sebastião Lazaroni escalou o Flamengo assim: Cantarele, Jorginho, Leandro, Mozer, Adalberto; Andrade, Adilio, Waltinho (Gilmar Popoca); Chiquinho, Marquinho (Júlio César Barbosa), Bebeto. Um time de craques, só faltava Zico para liderar o time.

    Flamengo dominou o jogo, mas no fim do primeiro tempo, Washington abriu o placar para Fluminense com um gol de cabeça. Flamengo sofreu muito com o Casal 20, a dupla Assis – Washington nos triangulares finais do campeonato carioca em meado dos anos 1980. Flamengo estava fora do título, até o último minuto, até o brilho de Leandro.

    Leandro é o maior lateral-direito da história do Flamengo. E os flamenguistas consideram o Leandro como o maior lateral-direito da história, não só do Flamengo claro, mas do futebol mundial. Tem candidatos já no Brasil: Djalma Santos, Carlos Alberto, Cafu, Dani Alves. Todos com ótimos argumentos, mas a meu ver, Leandro, de uma maneira geral, supera todos. No mundo, ainda tem Javier Zanetti ou Philipp Lahm. Leandro supera eles também. Talvez explicaria isso mais em detalhes na crônica sobre Leandro na categoria dos ídolos, mas Leandro é criminosamente esquecido nesse debate do maior lateral-direito, no mundo e até no Brasil. Não explicaria isso mais em detalhes porque não tem explicação.

    Leandro não foi apenas o maior lateral-direito da história do Flamengo, também foi um dos maiores zagueiros da história do clube rubro-negro. Na segunda parte da carreira, brilhou na zaga, com a mesma classe, a mesma técnica, a mesma eficiência de sempre. E brilhou no triangular final de 1985, com um chute de 30 metros, um chute poderoso e preciso, um dos gols mais bonitos da história do Flamengo. Salvou o Flamengo, que infelizmente perdeu no jogo seguinte contra Bangu, com Márcio Nunes, sem Zico. Fluminense ficou com o tricampeonato.

    Um final infeliz, mas valia a lembrança para o golaço de Leandro, um dos maiores nomes da história do Flamengo e do futebol mundial.

  • Jogos eternos #28: Flamengo 2×2 Vasco 1975

    Jogos eternos #28: Flamengo 2×2 Vasco 1975

    Infelizmente, uma semana depois da homenagem ao Rei Pelé e o jogo eterno contra o Atlético Mineiro em 1979, uma nova homenagem a um ídolo do futebol brasileiro, Roberto Dinamite. Roberto Dinamite nunca vestiu a camisa do Flamengo, mas fez Zico vestir a camisa do Vasco. Isso basta a mostrar quanto foi tão grande o Roberto Dinamite.

    Roberto Dinamite foi uma espécie de Zico para os vascaínos. A classe em campo, os gols, de falta ou de voleio, mas também a classe fora dos gramados, honrou a camisa de seu clube de sempre, e sempre respeitou os outros clubes, as outras torcidas. Por isso Roberto Dinamite e Zico são tão respeitados no mundo do futebol.

    Durante quase duas décadas, Zico e Roberto Dinamite fizeram do Flamengo x Vasco um dos maiores clássicos do Rio, se não o maior. Foram muitos duelos entre Zico e Roberto Dinamite, desde a base, o Zico é apenas um ano mais velho do que Roberto Dinamite. No profissional, ainda mais jogos, com pequena vantagem para Roberto Dinamite: 42 jogos, 13 vitórias do Vasco, 17 empates, 12 vitórias do Flamengo, 22 gols do Roberto Dinamite, 14 gols do Zico.

    Foram muitos duelos, uma rivalidade muito grande. No site Eusoumengao, Zico explica: “Tinha uma rivalidade nossa, de Flamengo e Vasco, dentro do campo, mas existia uma amizade muito grande. Nossas mães assistiam os jogos juntas. E acho que desde a época de juvenil a gente já jogava contra. Então a gente nunca precisou ficar falando um do outro para motivar e levar mais de 100 mil pessoas ao Maracanã”. Tive muitos duelos, era só escolher o jogo certo para mais um jogo eterno. Pensei, como Pelé contra o Galo, a um jogo de 1979. Um jogo do campeonato carioca especial, com golaços de Roberto Dinamite e Zico. Um voleio de Roberto Dinamite, e um gol de cabeça de Zico, depois de toques de cabeça de outros dois companheiros. Foi um jogo qualquer do segundo turno, a quinta rodada, mas com 122.596 presentes no Maracanã. Não era um jogo qualquer, era um jogo entre o Flamengo de Zico e o Vasco de Roberto, mas 122.596 pessoas para um jogo não-decisivo é coisa de outros tempos. Coisa de Zico e Dinamite. Mas Flamengo finalmente ganhou esse jogo e achei feio homenagear Roberto Dinamite com uma derrota.

    Pensei então num jogo do Brasileirão 1975, com um gol de Zico e dois gols de Roberto. Um ano antes, Zico se tornava titular absoluto do Flamengo, maior craque do time. Roberto Dinamite fazia ainda mais, com apenas 20 anos, foi campeão brasileiro e artilheiro do torneio. No Flamengo – Vasco do Brasileirão 1975, Roberto Dinamite deu a vitória ao Vasco com um golaço de falta. Nesse aspecto do jogo, não era tão bom que o Zico – e quem seria?, mas com muito trabalho, Roberto foi um exímio batedor de faltas. Coisa de outros tempos. Também pensei no hat-trick de Dinamite no 4×2 contra Flamengo no campeonato carioca 1979, mas eu sou de um clubismo intenso e imenso, porém necessário e moderado. Não quero ver aqui Flamengo perder do Vasco.

    Fui então de um jogo do campeonato carioca, também em 1975. Zico e Roberto Dinamite fizeram a história do campeonato carioca, com gols, títulos e jogadas de gênio. Na estreia do campeonato carioca 1975, Flamengo enfrentou Vasco. Na verdade, Vasco já tinha disputado um jogo antecipado, contra Portuguesa, Roberto Dinamite fazendo o primeiro gol do torneio. No 2 de março de 1975, Joubert escalou Flamengo assim: Renato, Júnior, Jaime, Luís Carlos, Rodrigues Neto; Liminha, Geraldo, Edson (Julinho); Paulinho, Zico, Doval. Do outro lado, Mário Travaglini escolheu nomes conhecidos como o goleiro Andrada, que tomou o gol 1000 de Pelé, Paulinho, que como Geraldo, que também disputou esse jogo, faleceu precocemente, com 23 anos de uma leucemia em 1977, e Edu Coimbra, irmão de craque, sim o irmão do Zico. E claro, no ataque, o camisa 10, Roberto Dinamite.

    E foi Roberto Dinamite que abriu o placar, com um golaço. Recebeu um cruzamento de Luís Carlos, matou a bola de peito, e sem deixar a bola cair, empurrou as redes de Renato. No segundo tempo, Flamengo empatou, com outro golaço. Jogada começa nos pés de Zico, para o calcanhar de Edson, a trivela de Liminha e o golaço de Paulinho. Um golaço coletivo, e apenas dois minutos depois, um golaço individual, com Zico, que depois de um passe de Geraldo, driblou toda a defesa do Vasco, goleiro incluído, para virar o jogo. No final do jogo, aproveitando uma falha de Rodrigues Neto, Luís Carlos empatou e decretou o placar final: 2×2.

    Um empate para a alegria ou a frustração de 55.715 torcedores presentes no Maracanã. No final do campeonato, o Fluminense de Rivelino foi campeão, e pela primeira vez, Zico se tornava o artilheiro do campeonato carioca, com 30 gols, 5 a mais do que o segundo, Roberto Dinamite, o que anunciava duelos disputadíssimos durante muitos anos. Quase 50 anos depois, fica a magia dos lances de Roberto Dinamite e Zico, fica agora na memória o gênio de Roberto, ficam pensamentos para a família dele e para o Zico, que perdeu o maior rival que o futebol lhe deu, mas que também perdeu um grande amigo, que ajudou a fazer do Flamengo x Vasco o Clássico dos Milhões e que deixou agora milhões de pessoas, vascaínos, flamenguistas ou apenas amantes de futebol, com muita tristeza.

  • Jogos eternos #27: Flamengo 5×3 America 1991

    Jogos eternos #27: Flamengo 5×3 America 1991

    Com a aproximação do reinicio do campeonato carioca, vamos de um jogo de um campeonato carioca, o de 1991, contra o time que não joga mais na elite do futebol carioca, mas um time histórico do Rio, o America da rua Campo Sales.

    Em 1991, o jogo foi no Maracanã, justamente para a estreia do campeonato carioca daquele ano. No 14 de agosto de 1991, para um pequeno publico de 3.506 pagantes, Vanderlei Luxemburgo escalou o Flamengo assim: Gilmar; Fabinho, Wilson Gottardo, Rogério, Pia; Júnior, Marquinhos (Djalminha), Zinho, Marcelinho; Paulo Nunes, Gaúcho. Um time com veteranos, promessas e muitos craques. Um time digno do Flamengo.

    E o Flamengo não esperou muito para brilhar no campeonato carioca 1991. Com apenas três minutos, numa falta, Júnior achou a gaveta do goleiro, de pé direito. Já falei isso na crônica sobre nosso ídolo Júnior, mas me impressiona a categoria de Júnior com os dois pés, parece que o pé direito é igual ao pé esquerdo, dois pés de um craque só, que nem sabe com qual perna joga melhor. Nesse jogo contra o America, começou a brilhar de pé direito. Flamengo deixou America igualar ao placar e no intervalo, era um decepcionante 1×1 para a pouca torcida presente no Maracanã. No segundo tempo, será bem melhor.

    De novo no início do tempo, Pia cruzou para Marcelinho, para o gol do 2×1. De novo, America empatou, com erro grosseiro de Rogério, que tentou cabecear para o goleiro Gilmar. E o America até virou, com Nando sendo mais rápido do que Gilmar. Mas boas coisas iam acontecer no segundo tempo para o Flamengo, que empatou com assistência de Júnior e gol de Gaúcho.

    E no fim do jogo, o saudoso Gaúcho provocou um pênalti. E provocou a fúria dos jogadores do America contra o juiz Jorge Emiliano. Outros tempos do futebol, o Gaúcho, não nosso Gaúcho rubro-negro mas um outro jogador do America, até agrediu o juiz. O America ficou com apenas oito jogadores em campo, e o próprio Gaúcho, nosso ídolo rubro-negro, fez o pênalti depois de uma meia-hora de paralisação do jogo, de ameaças da diretoria do America de retirar o time do campo, de ameaças do juiz de expulsar todo mundo. Tudo isso na frente das câmeras. Realmente, outros tempos do futebol.

    Com ampla vantagem numérica, Flamengo fez mais um gol, Djalminha definindo um placar de 5×3 para o Mengo. No fim, o presidente do America falou de uma vergonha do futebol brasileiro, para um clássico histórico do futebol carioca, ainda furioso com a marcação de um pênalti que para mim, mesmo clubismo a parte, me parecia legítimo. Enfim, o Flamengo estreava com o pé direito no campeonato carioca, um campeonato onde o Flamengo ia perder apenas um jogo, e ia conquistar depois de uma final emocionante contra o Fluminense, de novo com a maestria de Júnior.

  • Times históricos #9: Flamengo 1996

    Times históricos #9: Flamengo 1996

    Eu acho que o Flamengo de 1996 foi o melhor time da Era Romário, junto com o ano de 1999. Foi um ano de muitas competições, muitos jogos e até títulos. Um time que tinha como craque Romário claro, mas também o goleiro Zé Carlos, um jovem Athirson, um muito jovem Juan, um meio campo com o argentino Mancuso e as promessas Rodrigo Mendes e Iranildo, e um ataque impressionante, que não tinha só Romário, longe disso. Em 1996, jogaram no ataque craques como Sávio, Bebeto, Nélio, Aloísio Chulapa e Amoroso. Joel Santana tinha nas mãos um time de muita qualidade, que podia brigar para todos os títulos.

    Flamengo começou a temporada com um torneio amistoso, a Copa Euro-América, junto com Borussia Dortmund e Palmeiras. Seria muito legal ainda ter esse tipo de torneios amistosos hoje. No primeiro jogo, 1×1 contra o Borussia, gol de Romário. No segundo jogo, 1×1 contra o Palmeiras, gol de Romário. Nesse início de temporada, o Baixinho já mostrava o que ele sempre foi: um goleador nato, um artilheiro, o gênio da grande área. Mas quem levou o título foi o Palmeiras, com uma goleada 6×1 contra o Borussia, último campeão da Alemanha.

    Depois, Fla jogou a Taça da Cidade Maravilhosa, que o vencedor, o Botafogo, considera como campeonato carioca especial. Bem. O Flamengo foi invicto, com 3 vitórias e 4 empates, mas não foi campeão. Nessa competição, Flamengo chegou a jogar na Gávea, um de seus últimos jogos de sua história nesse estádio. Não é a prioridade, mas gostaria de uma reforma da Gávea para jogar alguns jogos, do time principal ou dos outros times do Flamengo.

    Flamengo estreou em competição oficial na Copa do Brasil, contra Linhares no Espirito Santo, com a primeira polêmica do ano de Romário. O Baixinho só queria chegar lá no dia do jogo. Perdeu o voo, voluntariamente ou não, perdeu o jogo também. Flamengo não perdeu, ganhou 1×0 e disputou o jogo de volta no antigo estádio Mané Garrincha de Brasília. Flamengo é do Brasil. E Flamengo aplicou uma goleada, com show do nosso ídolo Sávio, que fez um golaço depois de um drible de vaca no pobre goleiro.

    Na estreia do campeonato carioca, nova vitória, contra Volta Redonda. A fase da Taça Guanabara foi quase perfeita, 11 jogos, 10 vitórias e um empate, contra Fluminense. Um ano depois do jogo eterno de 1995, infelizmente perdido pelo Flamengo, Renato Gaúcho fez dois gols para o Fluminense, mas Romário empatou no fim do jogo e se envolveu em mais uma polêmica, provocando a torcida do Fluminense e o próprio Renato Gaúcho na comemoração. Na opinião de Romário claro, ele comemorava os gols como ele queria, gols eram deles. E foram muitos gols. Só na Taça Guanabara, Romário fez 17 gols em 10 jogos! Apenas no primeiro jogo o Baixinho passou em branco. Depois, fez contra todos os grandes do Rio, Botafogo, Fluminense, Vasco. Também fez 5 gols contra Olaria, onde jogou quando ele era jovem, e 4 gols contra o America, time de coração de seu pai. O Romário era sinistro.

    Na Copa do Brasil, Flamengo passou do Inter nas quartas de final. Depois de uma derrota no Beira-Rio na ida, um jogo épico no Maracanã na volta. Nélio abriu o placar, depois foi show de Sávio, que começou para obter um pênalti. Romário perdeu. Acontece às vezes, Romário falando na televisão de uma “sensação estranha”. De novo Sávio, com um drible curto, um chute seco, um gol para deixar Flamengo na frente no placar. De novo Sávio, provocando mais um pênalti. Romário fez, aconteceu muitas vezes. De novo Sávio foi derrubado na grande área, agora sem pênalti apesar de a marcação ser evidente. Enfim, Flamengo na semifinal, com mais um grande show de Sávio.

    Na Taça Rio, a segunda fase do campeonato carioca, mais jogos e mais gols de Romário. Dois contra Itaperuna, um contra Barreira, quatro contra Olaria durante mais um jogo na Gaveá. Olaria pode ter pesadelos de seu antigo jogador, em dois jogos, O Baixinho fez 9 gols. Romário ainda fez dois gols no 2×2 contra Botafogo. Depois, sem gol de Romário, Flamengo foi eliminado na semifinal da Copa do Brasil pelo futuro campeão Cruzeiro, e de forma surpreendente, O Baixinho não marcou nos quatro últimos jogos do campeonato carioca. Mesmo assim, Flamengo, após um 0x0 contra Vasco no Maracanã, conquistou a Taça Rio com 8 vitórias, 3 empates e nenhuma derrota. Assim, Flamengo se livrou de uma final para já conquistar o campeonato carioca, pela primeira vez de forma invicta desde 1979. Mesmo não marcando nos últimos jogos, Romário fez 26 gols em apenas 19 jogos, sendo evidentemente o artilheiro do campeonato carioca.

    Depois, mais uma competição. A Copa dos Campeões Mundiais, apenas com times brasileiros: Santos, Flamengo, Grêmio e São Paulo, nesse momento os únicos brasileiros campeões mundiais, isso não é um debate. Flamengo empatou 0x0 contra São Paulo e venceu Grêmio 2×0, com gol e assistência de Romário. Fla também venceu Santos para se classificar na final, contra o São Paulo de Muricy Ramalho. Claro, Romário deixou o dele, de pênalti, mas não foi suficiente e Flamengo foi vice-campeão. Foi o último jogo de Romário, até voltar, com o Manto Sagrado. Quando seu antigo parceiro do Tetra de 1994, Bebeto, voltou no Flamengo, Romário voltou na Espanha, agora no Valência. O fim de uma era, graças a Deus, não um fim definitivo. Flamengo ainda precisava do Baixinho e o Baixinho ainda precisava do Flamengo para ser feliz.

    Depois, mais uma competição. O Brasileirão, com estreia também de Bebeto, contra o Atlético Mineiro, com vitória 2×1 no Maracanã. Cinco dias depois, mais uma competição, a Copa Ouro, entre os diferentes campeões da Conmebol em 1995: Grêmio da Libertadores, Rosário Central da Copa Conmebol, São Paulo da Copa Master da Conmebol. Independiente, vencedor da Supercopa Libertadores, desistiu e o vice-campeão Flamengo foi chamado. Fla venceu na semifinal Rosário Central, com dois gols de Fábio Baiano. Na final, uma vingança da final da Copa dos Campeões Mundias contra o mesmo São Paulo. E mais um show do Anjo Loiro. Contra um jovem Rogério Ceni, Sávio fez apenas os três gols do Mengo, sempre com muita categoria. Mais um título para o Flamengo de 1996.

    Depois, uma excursão na Europa. Realmente um calendário incrível, e muitos jogos, em 1996 foram 81 jogos! Um número de alegria para a torcida, mas realmente desgastante para os jogadores, ainda mais com tantas competições e jogos em vários continentes. Na Europa, Flamengo jogou o Troféu Naranja de Valência, parte de acordo da transferência de Romário, um troféu que Flamengo já tinha conquistado no ano histórico de 1964, e também em 1986, outro ano histórico, mas ainda não nesse blog. Goleou o time italiano de Venezia por 5×2, mas perdeu contra Valência por 2×0. Romário nem participou no jogo.

    Como foi muitas vezes o caso nessa época, Flamengo decepcionou no Brasileirão. Entre a segunda e a quarta rodada, perdeu os três jogos. Depois perdeu quatro jogos consecutivos, inclusive com goleadas sofridas: 1×4 contra São Paulo, 1×4 contra Vasco, 1×3 contra Grêmio, 1×4 contra Paraná. Uma decepção, um sofrimento, uma vergonha, vendo a qualidade do time. Estreou numa outra competição, a Supercopa Libertadores. Estreou com empate 0x0 contra Independiente, mas conseguiu se classificar no jogo de volta com uma vitória 1×0 no Mané Garrincha, gol de Fábio Baiano. Nas quartas de final, foi eliminado contra Colo-Colo. Mais uma decepção.

    A alegria voltou junto com um velho conhecido, um ídolo, Romário. O Baixinho brigou com o técnico espanhol Luis Aragonés e voltou no Rio, ao Flamengo, voltou a vestir o Manto Sagrado. Mas a alegria durou pouco. Para o primeiro jogo da dupla Romário – Bebeto no Flamengo, contra o Internacional, Romário saiu por contusão com apenas 39 minutos do jogo, e Flamengo foi derrotado no Maracanã. No fim do ano, já sem Bebeto, Romário voltou a jogar os dois últimos jogos do campeonato. Sem gol para ele, e com duas derrotas para o Flamengo, fora das quartas de final. Um final decepcionante, mas que não faz esquecer o início de ouro, com campeonato carioca invicto e artilharia impressionante de Romário.

  • Jogos eternos #26: Flamengo 5×1 Atlético Mineiro 1979

    Jogos eternos #26: Flamengo 5×1 Atlético Mineiro 1979

    Para o início do ano, uma volta no tempo. Para o enterro do Rei, um jogo eterno, quando ele vestiu o Manto Sagrado. Flamengo e Pelé juntos, dois monumentos do Brasil. Uma história linda, de apenas um jogo.

    O jogo aconteceu no 6 de abril de 1979 entre Flamengo e o Atlético Mineiro, antes do inicio de uma das maiores rivalidades interestaduais do Brasil. Esse jogo foi um amistoso beneficente para as vítimas de uma chuva no Minas Gerais, que deixou 246 mortos e milhares de pessoas sem casa. Pelé, já aposentado e mineiro de nascimento, vestiu a camisa mais linda do mundo, a do Flamengo. O jogo no Maracanã teve a presença de 139.953 pagantes, para uma renda de mais de 8 milhões de cruzeiros. Ver Pelé e Zico juntos em campo valia todos os cruzeiros do ingresso, independentemente do preço final do ingresso.

    No 6 de abril de 1979, o saudoso Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele, Toninho Baiano, Rondinelli (Nelson), Manguito, Junior; Andrade, Paulo César Carpegiani (Ramirez), Zico (Claudio Adão); Tita, Pelé (Luisinho), Julio César Uri Geller (Reinaldo). Um time histórico para um jogo eterno. Não era só Flamengo, era Flamengo com a presença do maior jogador de todos os tempos. Zico, com toda sua classe, cedeu sua eterna camisa 10 para Pelé, que fez a camisa 10 ser não apenas uma camisa, mas um mito, uma definição do futebol-arte.

    O Atlético Mineiro tinha também alguns craques, em todas as posições, como João Leite, Luizinho, Toninho Cerezo, Paulo Isidoro e Dario. E quem abriu o placar foi o próprio Galo, com cruzamento de Serginho e chute de primeira de Marcelo. Mas o Flamengo já era irresistível sem Pelé, então com Pelé, era quase desleal para os adversários. Tita se infiltrou na grande área driblando, até ser derrubado pelo Luizinho. O juiz marcou pênalti, e o Maraca chamou Pelé para cobrar o pênalti. Zico, com toda sua classe, deixou a bola para Pelé. Pelé, com toda sua classe, recusou e deixou Zico bater. Zico, camisa 9, pronto a bater. Só Pelé podia impedir Zico de vestir a camisa 10 do Manto Sagrado. Zico, com toda sua classe, empatou. Pelé, com toda sua classe, abraçou Zico. O Pelé e o Pelé branco. O Rei do futebol e Nosso Rei. Dois Reis. Pelé e Zico, juntos com o Flamengo.

    Pelé saiu no intervalo, com lesão na perna. Não foi um grande jogo no primeiro tempo, mas foi um jogo eterno. Um jogo que fez brilhar o olho de todos, os jogadores do Flamengo, os torcedores, até o juiz, até os adversários. “Eu posso dizer que foi o jogo mais importante da minha vida. Eu me senti um torcedor privilegiado dentro do gramado vendo Pelé e Zico barbarizarem juntos” falou depois o centroavante atleticano Dario. Um jogo que ultrapassa as gerações, um jogo na eternidade, um jogo com Zico e Pelé, um jogo de fotos e fatos históricos. E ainda não tinha a goleada. No segundo tempo, Zico fez o segundo, com oportunismo, e o terceiro, com um show na esquerda de Júlio César, um novo Garrincha. E Zico, com esse gol, chegava ao seu 245o gol com o Manto Sagrado, ultrapassando Dida para se tornar o jogador com mais gols na história do Flamengo. Realmente, um jogo eterno.

    Zico ainda fez uma assistência para o gol de Luisinho, e depois, Cláudio Adão, com passe de Júnior, fez o quinto gol, o gol final da goleada por 5×1. Um jogo eterno, com Pelé, que com tudo que conhecia da bola, previa que o Flamengo ia ganhar muitos títulos. E ganhou.

    Pelé morreu no 29 de dezembro de 2022, mas Pelé não foi, porque Pelé é eterno, como esse jogo de 1979 contra o Atlético Mineiro é eterno.

  • Na geral #11: Hoje eu vi Zico em campo

    Hoje, ou mais anteontem, o Zico estava lá. Arthur Antunes Coimbra. Eu vi Zico jogar, pela primeira vez, e talvez pela última vez. É inesquecível, mais um grande momento vivendo no Rio. Zico em campo.

    Meus amigos franceses Antoine e Marc-Antoine chegaram na segunda feira dia 26 de dezembro. Antônio e Marco no Brasil. Hospedados comigo, na Rocinha. Já teve tempo de ir na Pedra do Sal, na parte baixa da Rocinha, em Copacabana, na parte alta da Rocinha. Hoje o dia começou lindo, com uma trilha da Pedra Bonita. Depois foram na sede do Flamengo na Gávea, onde fomos recebidos de uma forma maravilhosa pelo Dudu, do projeto das Embaixadas e Consulados. Ele falou com os franceses em inglês, mais fácil e mai precioso para comunicar. Eu, representando com orgulho a Fla Paris, mostrou para eles a sede, as instalações, as infraestruturas, os esportes diferentes. A capela, o ofício de Dudu, o bar, a loja. Uma grande alegria para mim.

    Antoine pegou já a camisa do Flamengo para ele, primeira camisa, com nome Gabi, com camisa 9. Só faltou o patch da Libertadores que não era disponível. Depois vai ter que voltar para comprar mais dois Mantos Sagrados, para o pai e para o irmão. Marco ainda não precisava, emprestei para ele a camisa mais bonita do Flamengo, a do ano histórico de 2008. Fomos visitar a sede, o ofício dos consulados e fomos beber uma cerveja, bem geladinha, com sede e na sede. Um momento único para mim. Os franceses já gostavam muito do Flamengo. E depois era hora de ir no Maracanã, com uma primeira parada no Buxixo, com mais cervejas. E depois era hora de ir no Maracanã. Mais 3 cervejas para nós, e depois, com um vendedor malandro, mais 3 a mais. Mas com alegria, prazer e gratidão de estar aqui, no Rio, no Maraca, no Brasil.

    E depois era hora de entrar no Maracanã. Uma emoção enorme para quem nunca foi no Maracanã. Uma emoção enorme para quem tinha muita saudade do Maracanã, após uma dezena de jogos lá em 2022. Não tinha jogo do Flamengo, mas foi mais um show da torcida do Flamengo. Antes do apito inicial, foram muitos cantos do Flamengo, os mais conhecidos, cantados pelo 90% dos 60.356 torcedores, os outros, vascaínos, tricolores e botafoguenses, caladinhos. Foi meu primeiro jogo das estrelas e não sabia como ia ser. Esperava alguns cantos do Flamengo, menos para mim do que pra meus amigos franceses. E com esse show de 10-15 minutos, Antoine e Marc-Antoine estavam lá, com o celular na mão e o brilho no olho. E com uma vontade só, voltar no Maracanã, para um jogo do Flamengo.

    O anúncio das escalações foi mais um grande momento. Um momento de alegria e também de risos, até para os amigos franceses que não entendiam tudo, como podia ter tanta paixão num jogo beneficente. O time vermelho é quase um Flamengo, todo mundo foi muito aplaudido. E a emoção maior com o nome de Zico. Muitas palmas, muitos gritos, muito amor, muita emoção. Isso, só Zico. Agora, o time branco é quase um Vasco. Foram muitas vaias, e aplausos claro para Andrade, Nunes, Hernane, Endrick e alguns outros.

    Vi muitos jogadores jogar pela primeira vez. Adoro o menino Endrick, que tem muita estrela. Vi ídolos, como Sávio, Petkovic, Júnior, Júlio César. Mas eu só olhava para o Zico. Numa noite cheia de estrelas, a do Zico brilho mais, muito mais, quase apaga o brilho das outras estrelas. Queria ver o Zico marcar um gol. E teve oportunidade num pênalti. Estava pronto a vibrar, mas Carlos Germano fez a loucura de parar o pênalti de Zico, na frente de meus olhos, na Norte, claro. No minuto seguinte, Zico quase fez um golaço. Valia a pena perder o pênalti para fazer o golaço em seguida. Mas Germano defendeu de novo. Acho que é meu maior lamento num estádio ao vivo. Queria esse golaço, essa vibração.

    Não teve, e Zico saiu no intervalo. Acho que ele merecia sair aos 40 minutos, para ser ovacionado pelo Maracanã lotado. Mas talvez pela própria humildade, Zico não queria. E Zico entrou no fim do jogo, fazer o gol tão esperado, num passe de Arrascaeta. Mas estava longe de meus olhos, e o Maracanã já estava meio vazio. Quando Zico saiu, as pessoas saíram do Maracanã. Isso só Zico.

    Zico fez o gol, fez a alegria de milhares de torcedores, e vai ajudar milhares de pessoas com a renda. Tinha mais de 60.000 pessoas no Maracanã, para um jogo beneficente, com um ingresso não tão barato. Isso só Zico. Meus amigos franceses curtiram muito, querem voltar para um jogo do Mengo. Antoine já tem a camisa do Flamengo, com o nome de Gabi. E Marc-Antoine vai comprar, e escolher um jogador. Ele já me falou que queria botar o nome de um jogador antigo, de Nosso Rei, de Deus. Só Zico tem esse peso, esse tamanho de idolatria que até um francês vai querer eternizar sua camisa com o nome de Zico. Isso só Zico.

    Mais uma vez, obrigado Zico. Por tudo.

  • Ídolos #8: Elias

    Ídolos #8: Elias

    Depois da sétima crônica dos ídolos, com um meio-campo que brilhou nesse século, Ibson, vamos de um outro meio-campo do século XXI, camisa 8, Elias.

    Elias chegou no Flamengo no início de 2013, depois do que foi uma das piores temporadas do Flamengo, o ano 2012, com nenhum título e pouco futebol. Elias chegou como a maior contratação no Sporting Lisboa, mas decepcionou lá e voltou ao Brasil. Com o Manto Sagrado, escolheu a camisa 8: “Fiz minha história no Corinthians com a 7, fui muito feliz, mas agora escolhi a 8 para fazer a minha história no Flamengo”. Fez bem.

    Elias começou no campeonato carioca, contra Volta Redonda. Jogou ao lado do próprio Ibson, que se aproximava do fim de sua história com o Flamengo. Tinha também Léo Moura, Victor Cáceres, Rafinha, Hernane. Um time bem mediano. O primeiro gol de Elias saiu num belo chute de fora da área, depois de uma tabelinha com Hernane. Nesse jogo, Flamengo perdeu em casa contra Resende. Realmente, tempos difíceis.

    Elias voltou a marcar contra Campinenses e ASA, os dois gols na Copa do Brasil, realmente a competição que ia fazer do ano 2013 um ano histórico. Flamengo começou mal o Brasileirão, com 2 pontos nos 4 primeiros jogos, e já não tinha esperança de um título. Elias jogava bem, mas sem destaque até agora.

    Nas oitavas de final da Copa do Brasil, Flamengo enfrentou o futuro campeão brasileiro, o Cruzeiro de Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart. Um timaço, bem superior ao Flamengo. E no jogo de ida, deu lógica, com vitória 2×1 do Cruzeiro no Mineirão. E no jogo de volta, deu raça, deu amor, deu paixão. Deu Flamengo. No finalzinho do jogo, ainda num 0x0 que eliminava o Flamengo, Paulinho cruzou, Elias, com a braçadeira de capitão, bateu e fez o gol da classificação. Fez mais do que isso. Com esse gol, o Maracanã explodiu. O Novo Maracanã abriu nesse ano de 2013, vibrou com a vitória do Brasil contra a Espanha na final da Copa das confederações, mas esperava ainda seu momento histórico com o Flamengo. E aconteceu com Elias, que fez até aqui, o gol mais importante de sua carreira com o Manto Sagrado.

    Flamengo voltou a decepcionar, a jogar mal. No jogo seguinte, uma derrota 4×0 contra o Corinthians. Depois de mais uma derrota, contra o Atlético Paranaense, Mano Menezes pediu demissão. Para as quartas de final da Copa do Brasil, mais um timaço a enfrentar, o Botafogo de Seedorf. E Flamengo jogava sem Elias, suspenso depois de alguns cartões amarelos. Sem seu melhor jogador, Flamengo conseguiu um 1×1, que deixava a esperança viva. O jogo de volta foi o dia de Hernane, que fez três gols na goleada por 4×0. Elias pediu para jogar esse jogo, apesar do momento muito difícil para ele e sua família. O filho de 1 ano estava internado num hospital, por causa de uma pneumonia.

    Na semifinal, vitória 2×1 no jogo de ida em Goiânia, de novo com atuação discreta de Elias. Mas na volta no Maraca, foi mais um show de Elias. Assistência para mais um gol de Hernane, e um golaço de fora da área, um chute certeiro, repentino, libertador. E com o pequeno Davi que estava bem melhor, pronto a sair do hospital. E com homenagens da torcida para Elias, a torcida sempre apoiou o jogador, mostrou o que é uma torcida de verdade, em todos os sentidos. Elias era o homem-chave de Flamengo, o dono do meio-campo e parecia crescer a cada jogo, com atuações cada vez mais firmes. Só faltava o título.

    Na final contra o Atlético Paranaense, um jogo eterno, gols de Elias e Hernane, e um tricampeonato. Uma alegria incrível para quem estava no Maracanã ou na frente da televisão, vibrando com o Flamengo. Era o último jogo de Elias com o Manto Sagrado e ele deu mais um show, mais um gol, o gol décimo da temporada. Obrigado Elias para essa temporada de sonhos e de um título tão importante para quem sofreu muito em 2012.

    Elias foi escolhido no time do Brasileirão de 2013, prova que ele não jogou muito só na Copa do Brasil. O camisa 8 queria ficar no Flamengo e chegou a recusar uma oferta milionária da China. Também por isso que ele é ídolo. Mas, outros tempos do Flamengo, as negociações com o Sporting não permitiram de chegar a um acordo. Depois, voltou no Corinthians.

    Em apenas uma temporada e 55 jogos, Elias conseguiu se inscrever na galeria dos ídolos do Flamengo e honrou, muito, o Manto Sagrado.

  • Jogos eternos #25: Ceará 0x3 Flamengo 2019

    Jogos eternos #25: Ceará 0x3 Flamengo 2019

    Para o presente de Natal, mais um jogo eterno de um ano histórico, o de 2019. Já teve crônicas de jogos eternos de 2019, o 1×0 contra Santos, gol de Gabigol, para fechar o primeiro turno na liderança, o 6×1 contra Avaí, o jogo das Taças, e claro, o Milagre de Lima, contra River Plate com dois gols de Gabigol. Esse ano foi maravilhoso, e vamos de mais um jogo, contra um time que foi rebaixado em 2022, Ceará.

    O Flamengo vinha de uma vitória 2×0 contra o Internacional no jogo de ida das quartas de final da Libertadores. No jogo antes, uma goleada contra Vasco. O Flamengo de Jesus já era uma realidade, faltava os títulos, mas as vitórias, as goleadas, os golaços já desfilavam no Maracanã e nos outros estádios do Brasil e da América.

    Depois da alegria do Maraca contra o Internacional, Flamengo foi no Ceará, em Fortaleza, para jogar contra Ceará, no Castelão. Detalhe importante para o final da história, o jogo foi num domingo as 19 horas no Brasil, então meia-noite na França. No 25 de agosto de 2019, um domingo, Jorge Jesus escalou um time misto, por causa do jogo de volta da Libertadores três dias depois. No Castelão, Flamengo entrou em campo assim: Diego Alves; João Lucas, Rodrigo Caio, Pablo Marí, Renê; Willian Arão, Piris da Motta, Gerson, De Arrascaeta; Berrío, Gabigol.

    Na metade do primeiro tempo, um primeiro golaço. Um passe de peito de Berrío, um voleio de Marí, sem chance para o goleiro. Um golaço para a alegria do setor flamenguista do Castelão, para outros torcedores do Castelão nos setores de Ceará mas com o coração dividido, para os flamenguistas em todos os cantos do Brasil e do mundo, e para mim em Paris, já na cama de meu pequeno studio parisiense. Depois, João Lucas salvou em cima da linha de uma maneira impressionante. Flamengo ficava na frente no placar. Ainda no primeiro tempo, tabelinha entre Berrío e Gabigol, e um chute poderoso de Gabigol, sem chance para o goleiro. Segunda assistência de Berrío e segundo golaço do jogo.

    Depois, foi história de gol anulados por impedimento, dois para Ceará, bem anulados, e um golaço de Gabigol de cobertura, também bem anulado. Depois, foi história de lances perigosos, sem gol. E para mim, acabou aqui a história do jogo. O juiz Wilton Pereira Sampaio deu 8 minutos de acréscimo. Na França, era duas da manhã, com trabalho cedo no dia seguinte. Para ganhar alguns minutos de sono, com o jogo já ganhado, desliguei a televisão e fui dormir. Mas o jogo não tinha acabado ainda, e o jogo virou eterno. Narrou Luiz Carlos Júnior: “La vem o Flamengo, querendo o terceiro, para terminar bem o jogo, Arrascaeta…”. Num cruzamento de Rafinha, Arrascaeta fez uma das bicicletas mais impressionantes que vi na minha vida. Mas que não vi ao vivo, e eu não terminei bem o jogo, ao contrário de todos os flamenguistas na frente da televisão.

    Não relembro se vi o gol pela primeira vez no dia do jogo ou no dia seguinte. Acho que foi no dia do jogo mesmo. Sempre tenho um pouco de insônia depois de um jogo de Flamengo de noite, e após um tempo sem conseguir dormir, vou olhar o que está se dizendo no Twitter. E nesse dia no Twitter, foi só Arrascaeta, só o golaço do nosso Arraxxxca. Estava muito frustrado de ter faltado esse gol ao vivo por poucos minutos de (não) sono. Desde esse dia do 25 de agosto de 2019, ou dessa noite do 26 de agosto, nunca desligo um jogo do Flamengo antes do apito final. Luto até o fim. Mas desde lá, nunca vi um golaço tão bonito do que o gol de bicicleta de Arrascaeta.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”