Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Times históricos #8: Flamengo 1983

    Times históricos #8: Flamengo 1983

    Depois do ano de 1977 e do pacto dos jogadores, Flamengo ganhou a cada ano pelo menos um título: campeonato carioca em 1978, duas vezes o campeonato carioca em 1979, Brasileirão em 1980, carioca, Liberta e Mundial em 1981 e mais um Brasileirão em 1982. Muito difícil de ganhar tantos títulos em muitos anos seguidos, ainda mais com os mesmos jogadores, sem perder a fome de gols, de vitórias, de títulos. O fim dessa geração de ouro foi em 1983.

    Flamengo começou o ano 1983 com mudanças no ataque, Tita foi emprestado no Grêmio e Nunes foi vendido no Botafogo. Do outro lado, chegaram Robertinho e Baltazar para apoiar Zico no ataque. O ano 1983 começou com o Brasileirão, e contra um adversário que voltaria a cruzar o caminho do Mengo, Santos. Baltazar e Zico fizeram os gols da vitória. Depois, Flamengo goleou Moto Clube 5×1 e Rio Negro 7×1 mas perdeu a liderança na última rodada, com a primeira derrota no campeonato, contra Santos. Na Copa Libertadores, estreou mal com nenhuma vitória nos três primeiros jogos. Depois, goleou Blooming 7×1 e Bolívar 5×2, mas não foi suficiente para tirar o primeiro lugar do Grêmio, único classificado do grupo para as semifinais. Na segunda fase do Brasileirão, de novo Flamengo foi no segundo lugar, mas agora classificado para a terceira fase.

    Dessa vez, na terceira fase, Flamengo ficou na liderança com mais uma goleada, mais um jogo eterno, um 5×1 contra o Corinthians para a estreia do técnico Carlos Alberto Torres. Zico estava em dia de Zico, com dois gols e duas assistências. E a goleada foi pouca, com dois gols mal anulados de Júnior e Zico. O Rei Arthur estava em grande forma, tinha feito o gol 500 da carreira um ano antes, e brocou de novo nas quartas de final contra Vasco e na semifinal contra o Atlético Paranaense. Ninguém podia parar Flamengo, ninguém podia parar Zico, que foi pai pela terceira vez no início do ano e, mesmo com 30 anos, jogava com o mesmo brilho de sempre.

    Ninguém podia parar Zico, ao menos o próprio presidente do clube, Antônio Augusto Dunshee de Abranches. O presidente fez a coisa mais absurda da vida, se separou do Zico. No livro Gigantes do futebol brasileiro de João Máximo e Marcos de Castro, Zico fala: “Eu não tinha o menor interesse em deixar o Flamengo, mas o presidente Antônio Augusto forçou a minha saída. Mostrou que na verdade não queria que eu continuasse no clube, porque existiu essa possibilidade, com a Adidas pagando as luvas de renovação de contrato, como se dispunha a pagar. Mas ele quis jogar para a torcida, invertendo as coisas e dizendo que eu é que estava forçando minha saída do clube”. Claro, a venda foi no sigilo, se não a torcida do Flamengo ia se revoltar, impossibilitar de qualquer maneira a saída de seu maior ídolo.

    Antes, teve a final do Brasileirão, contra Santos, primeiro adversário da campanha. No jogo de ida, no Morumbi, com um publico impressionante de 114.761 torcedores, Santos abriu 2×0 antes do gol de Baltazar no final do jogo, um gol muito importante. Flamengo precisava agora de uma vitória de dois gols de diferença no Maracanã para conquistar um terceiro título brasileiro em 4 anos. Confiança dos torcedores, dos jogadores e do técnico Carlos Alberto Torres. O Capita falou depois do jogo de ida: “No Maracanã, podem ter certeza, não temos como perder para o Santos”. Confiança e para Zico, tristeza. As negociações com Udinese já eram concluídas, a transferência definitiva. Zico não era mais jogador do Flamengo. E só a diretoria e ele sabiam, não os outros jogadores, ainda menos a torcida. Imagina a emoção de Zico antes de pisar no Maracanã pela última vez com o Manto Sagrado.

    Mas Zico é Flamengo para sempre, e também é extremamente profissional. Precisou de menos um minuto no Maracanã para abrir o placar, para a alegria dos 155.523 torcedores do Maracanã. Aliás, o maior publico da história do Brasileirão. Nunca teve tanta gente em qualquer estádio para um jogo do Brasileirão, e podemos dizer tranquilamente que nunca terá mais gente. De novo, imagina a emoção do Nosso Rei ao fazer o gol, balançar as redes talvez pela última vez com o Maior do Mundo. No final do primeiro tempo, o peixe-frito Leandro fritou o Peixe. Leandro fez um gol de cabeça, depois de uma falta de Zico. Leandro no livro 6x Mengão de Paschoal Ambrosio Filho: “Foi muita emoção. A gente tinha perdido o primeiro jogo em São Paulo e precisávamos de dois gols de diferença. Nunca fui de fazer muitos gols, mas o Zico me dizia que, quando eu marcava, era sempre um gol importante. Foi o caso deste dia”.

    Flamengo já era campeão, mas esse jogo merecia uma goleada, merecia mais um gol. E no final do jogo, Adílio, provavelmente o melhor jogador em campo nesse dia, fez um gol de cabeça depois de um show de Robertinho na ala direita. Flamengo 3, Santos 0, Flamengo tricampeão. Uma alegria para todo o Maracanã e uma mistura de emoções para Zico. “Dos jogadores que disputaram a final do Brasileirão só eu sabia que estava vendido. A direção do clube sabia, mas não vazou, nas deve ter vazado, ninguém da imprensa falou nada, ninguém tocou no assunto. O duro foi você ser campeão, ver a torcida gritando o teu nome e você sabendo que não ia ter mais aquilo, que aquilo tinha acabado, aí foi brabo. Foi assim que comemorei o título. Sabendo que era o último. Não passava pela minha cabeça que eu ia cumprir o contrato e voltar”, explica Zico no livro Zico 50 anos de futebol. Ao menos, Zico saiu, mas Zico voltou, como o que era, como campeão.

    Dois dias depois do tricampeonato, o Jornal do Brasil anunciava a saída de Zico, pegando toda uma Nação de surpresa. Talvez ainda pior foi o destino, no pequeno clube de Udinese, longe dos grandes da Itália. Causou revolta na Itália e a federação bloqueou momentaneamente a transferência. Imagina agora a revolta da torcida do Udinese, que nunca esperou ter um craque como Zico no time deles. Os torcedores até ameaçaram de pedir separação da Itália e voltar ao domínio da Áustria se a transferência ficava bloqueada. Zico jogou no Udinese e quem ficou revoltada era a torcida do Flamengo. O presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches teve de pedir demissão diante da traição contra a Nação.

    Sem Zico, sem seu melhor craque e seu maior ídolo, Flamengo estreou no campeonato carioca contra o pequeno Goytacaz com derrota. Também perdeu contra America, Americano e Campo Grande. Levou um 3×0 do Botafogo e foi goleado pelo Bangu, uma derrota humilhante por 6×2. Flamengo foi apenas no sexto lugar na primeira fase e se recuperou na segunda fase, ficando na liderança junto com o Bangu. No jogo de desempate, Flamengo conquistou a Taça Rio com uma vitória 1×0, gol de Adílio. Flamengo era no triangular final, com o próprio Bangu, que conquistou o maior número de pontos nas duas fases, e o vencedor da Taça Guanabara, Fluminense.

    No primeiro jogo, empate entre Bangu e Fluminense. No segundo jogo, Flamengo perdeu o Fla-Flu com um gol de Assis no último minuto jogo. Há torcedores do Fluminense que consideram esse jogo uma decisão. Não foi. Flamengo estava fora do título, mas Fluminense ainda não era campeão. Precisava de uma vitória do Flamengo contra Bangu para ser campeão. E Flamengo deu o título ao Fluminense, é assim que aconteceu, com uma vitória 2×0, gols de Adílio e Tita, já de volta na Gávea. Uma decepção, que seria ainda maior com o roteiro de 1984, mas o maior drama do Flamengo em 1983 não foi a perda do carioca, mas a perda de Zico. A maior alegria, 155.523 pessoas a viram no Maraca.

  • Jogos eternos #24: Flamengo 5×1 Corinthians 1974

    Jogos eternos #24: Flamengo 5×1 Corinthians 1974

    Com o fim da temporada, vamos relembrar um jogo de início de uma temporada, um amistoso contra o Corinthians em 1974. Nesse ano, Zico se tornava titular absoluto e referência técnica do time. Com quase 21 anos, começava a responder a todas expectativas que a torcida tinha já quando ele jogava na base. E começou com um amistoso, contra o Corinthians.

    O Corinthians de 1974 era um time cheio de craques: Zé Maria, Wladimir, Vaguinho, Adãozinho, Roberto Miranda e o nome mais importante, que jogava sua última temporada com o Corinthians antes de ir no Fluminense, o tricampeão Rivelino. Apesar da falta de títulos, era um timaço. Já o Flamengo, treinado pelo técnico Joubert, que jogou quase dez anos no Flamengo como zagueiro, foi escalado assim no 17 de fevereiro de 1974: Renato; Souza (Betaglione), Chiquinho Pastor, Luís Carlos (Jaime), Rodrigues Neto; Liminha, Geraldo (Zé Mário), Rogério (Julinho); Zico, Paulinho Carioca, Dario.

    No Maracanã, Zico se procurou a primeira oportunidade do jogo, um chute poderoso bem defendido pelo Armando, mas quem fez o primeiro gol foi o Corinthians, com um gol marcado pelo Vaguinho. Era suficiente para acordar os 13.926 espectadores no Maracanã, a maioria na geral, e os 11 rubro-negros em campo. E o Flamengo empatou. Como? Quando Zico está em campo, a reposta mais obvia é um gol de falta de Zico. E foi, com uma falta de 20 metros na gaveta, sem chance para Armando. Flamengo empatou mas era só o início de uma goleada.

    No segundo tempo Flamengo desempatou, com outro gol de falta. Mas agora que fez o gol foi o melhor companheiro de Zico na base, Geraldo, que merece um capítulo a parte na categoria dos ídolos. Geraldo morreu dois anos depois, com apenas 22 anos depois de uma cirurgia, e se o Flamengo de 1978-1983 foi mágico, poderia ter sido ainda mais com uma dupla Geraldo – Zico. Uma pena e uma grande perda pelo Flamengo e pelo futebol brasileiro. No jogo contra Corinthians, Zico fez mais um golaço, depois de passar entre três zagueiros, finalizou com tranquilidade, fora do alcance de Armando. Geraldo – Zico era para brilhar durante dez anos e aterrorizar os adversários.

    Depois foi o centroavante Dario, que também merece um capítulo dentro dos ídolos, que fez o gol. Bateu com força os zagueiros, bateu com inteligência o goleiro, e empurrou nas redes. E como Zico, Dario deixou o segundo dele, de novo com um drible no goleiro, agora um drible de vaca. Rivelino estava desolado no meio de campo, Flamengo aplicava uma goleada irresistível, um 5×1 eterno.

    Num amistoso contra o Corinthians, Flamengo fez um show para a geral do Maraca e para iniciar uma temporada brilhante, com gols e gênio de Zico, e concluída da melhor forma possível, com um título carioca em cima do Vasco.

  • Ídolos #7: Ibson

    Ídolos #7: Ibson

    Eu já escrevi que meu primeiro ídolo no Flamengo foi Obina. Porque comecei a conhecer os jogadores do Flamengo em 2006, e Obina, cheio de carisma e gols, era o ídolo da torcida. Dessa época, também gostava de Léo Moura, Juan, Renato Augusto, Renato Abreu. Depois Bruno, Fábio Luciano, Claiton, Souza.

    Primeiro Brasileirão que acompanhei foi em 2007. Eu já tinha conquistado um título com o Flamengo, a Copa do Brasil 2006, mas primeiro Brasileirão, foi 2007 mesmo. E o início do Flamengo no Brasileirão foi muito ruim, até para o Flamengo dessa época que decepcionava muitas vezes no Brasileirão. Nos 13 primeiros jogos, Flamengo ganhou apenas um jogo! Flamengo ficava na lanterna e Ibson chegou como grande reforço depois de semanas de incerteza.

    Eu estava feliz com esse reforço, porque ele era cria da casa, começou como profissional no Flamengo em 2003 e ganhou o campeonato carioca 2004. Depois, foi no Porto, onde não se destacou tanto que outros brasileiros do clube portista, mas era um meia com muitas qualidades. Mas Ibson, camisa 7, recomeçou com o Flamengo com duas derrotas, contra Santos e o Atlético-PR. Ganhou seu primeiro jogo no último jogo do primeiro turno, contra Náutico, também primeira vitória depois da volta de um outro conhecido do clube, o técnico Joel Santana. Flamengo ganhou, mas Flamengo ainda era na vice-lanterna, com um verdadeiro risco de rebaixamento.

    Mas o segundo turno foi melhor, muito melhor. Ibson fez seu primeiro gol, de cabeça, contra Goiás, na 21a rodada, onde a vitória deixava enfim Flamengo fora do Z-4. No Maracanã, já tinha mais de 50.000 pessoas. Esse Maracanã, o da reforma para os Jogos Pan-Americanos de 2007 é meu Maracanã particular, apesar de infelizmente nunca ter ido. Porque quando comecei a assistir aos jogos, era esse o Maracanã, e mesmo no computador, era um show incrível. A arrancada de 2007 não teria sido possível sem o Maracanã. Também não teria sido possível sem Ibson.

    Ibson voltou a marcar contra Figueirense e depois contra São Paulo. Foi uma das vitórias mais marcantes da temporada, porque São Paulo tinha um timaço e era o líder disparado do campeonato, porque era até lá o maior publico do Brasileirão 2007, com quase 60.000 pessoas, porque Ibson fez o único gol do jogo, aliás um golaço.

    E Ibson não era só gols claro, era de uma liderança técnica incrível, também um líder de homens. Ibson transformou o Flamengo de 2007 e o Flamengo de 2007 tinha a cara de Ibson. De lá até cá, talvez nenhum outro jogador carregou tanto sozinho um time do Flamengo. Era um show em campo do Ibshow, e também um show na arquibancada do Maraca. Depois de uma derrota contra Fluminense, Flamengo venceu 5 jogos consecutivos, e o recorde do publico do Brasileirão 2007 estava batido a quase cada jogo do Flamengo no Maracanã.

    A torcida acompanhava o time, o time acompanhava o Ibson, mais líder do que nunca. Depois da vitória do Flamengo contra o Corinthians, com mais um gol de Ibson, o Flamengo estava no G-4, uma situação improvável no fim do primeiro turno. Era a arrancada que marcou todo flamenguista que assistiu. Flamengo bateu mais duas vezes o recorde do publico e garantiu a volta na Libertadores após uma vitória contra o Atlético-PR, para a alegria de 82.044 rubro-negros no Maracanã.

    Ibson foi merecidamente eleito no time do Brasileirão e só não foi o melhor jogador porque o campeão também tinha um grande líder, Rogério Ceni, que também foi eleito craque da galera. Mas Ibson ficou na história, ficou no coração dos flamenguistas, foi ídolo para sempre. Foram gols, liderança, e um estilo particular que eu adorava, com chuteiras pretas e meias brancas. Duvido achar um flamenguista que não gostava do Ibson nessa época.

    Em 2008, Ibson começou muito bem o Brasileirão, com 4 gols nos seus 5 primeiros jogos. Mas era depois de uma traumatizante eliminação na Libertadores contra o América. Ibson ainda jogou bem, brilho no campeonato carioca onde foi campeão, ainda foi líder, mas o que ele fez em 2007 não podia ser ultrapassado, nem até igualado. Flamengo brigou com Porto para ficar com o jogador, que também fechou bem o Brasileirão 2008. Num 5×2 eterno contra Palmeiras, fez um hat-trick com dois golaços, um chute no ângulo e um gol de letra. Mas Flamengo não ganhou nenhum dos três últimos jogos e fechou o ano 2008 com mais uma decepção.

    O ano 2009 foi feliz para o Flamengo, mas bem diferente para Ibson, que fez apenas um gol em 32 jogos pelo Flamengo! Um gol de pé esquerdo depois de um cruzamento, contra Cabofriense, no campeonato carioca. Depois de alguns jogos no Brasileirão, suficiente para ser campeão, era a hora do adeus. No seu último jogo, contra Vitória e já com Adriano em campo, Ibson perdeu um pênalti. E mesmo assim, foi ovacionado pela torcida, não pelo jogo, não pelo ano de 2009 mas pelo tudo que fez antes. E era muito, muito merecido.

    Ibson voltou na Europa, no Spartak Moscou, voltou no Brasil, no Santos, e depois vestiu de novo o Manto Sagrado, em 2012. Santos tinha Neymar, tinha a Libertadores, mas Flamengo tem alguma coisa a mais, impalpável, inexplicável e impossível de entender para quem não é Flamengo. E os que são Flamengo sabem o que é, não precisa explicar para entender. Ibson era e ele falou da saudade ao receber de novo a camisa 7 do Flamengo. Falou também que não voltava como uma “solução” e não foi mesmo, num time bem ruim. Fez apenas um gol em 2012, em 33 jogos, um belo chute de trivela de fora da área, contra Sport. Em 2013, de novo fez apenas em gol, mas agora em 3 meses, a diretoria do Flamengo liberou-o em março.

    Ibson também criticou a diretoria do clube e o atraso dos pagamentos, falando que não era Casa Bahias. Isso não sei, eu não sou da diretoria do Flamengo, eu não sou dos jogadores do Flamengo, eu sou do Flamengo. E eu sei que do Flamengo, Ibson foi muito ídolo.

  • Jogos eternos #23: Flamengo 3×0 Liverpool 1981

    Jogos eternos #23: Flamengo 3×0 Liverpool 1981

    Hoje é o dia, pela lei estadual, das embaixadas e dos consulados do Flamengo, um projeto muito lindo, de qual tenho o orgulho de fazer parte com a Fla Paris. E o dia escolhido não é por acaso, no 13 de dezembro de 1981, Flamengo jogava o que é para mim o seu maior jogo da história.

    Claro, tem o Milagre de Lima, sobre qual já escrevi aqui. Mas Mundial é Mundial. E era realmente o caso na época, apesar de ser um confronto apenas entre o campeão europeu e o campeão sul-americano, os times dos outros continentes não podiam entrar na conversa. Era o que se fazia do melhor no mundo, principalmente o Flamengo. No 13 de dezembro de 1981, Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Nunes. Um time histórico, o melhor da história, para um jogo eterno, o maior da história.

    O Liverpool era o favorito e os jogadores sequer conheciam os jogadores do Flamengo, com exceção de Zico e Júnior. E não era para menosprezar o time, era alguns meses antes da Copa de 1982, Leandro não era titular da Seleção e ainda hoje os jogos do futebol sul-americano não são retransmitidos nas televisões da Europa. Então imagina em 1981…

    Liverpool não menosprezou o Flamengo, ou talvez não, mas riu do Flamengo. Quem escreve agora é Eduardo Monsanto, escritor do livro 1981, o ano rubro-negro: “Carpegiani deu o recado, e antes do aquecimento, houve tempo para um pouco mais de samba à beira do gramado. Figueiredo, Adílio, Peu, Zico, Anselmo e Júnior ainda faziam som quando tiveram o primeiro contato visual com os ingleses, que estranharam ver os adversários cantando e batucando antes do jogo, algo inimaginável na terre de Sua Majestade”. Depois, os jogadores do Flamengo rezaram juntos, e os jogadores do Liverpool riram juntos. Um choque de cultura ainda visível quando europeus não entendem que os jogadores da Seleção comemoram os gols com dança. Mas Zico usou o argumento do rir e reuniu todos os jogadores do Flamengo: “Quem ri por último, ri melhor. Vamos entrar concentrados. Nossa reposta vai ser dada dentro de campo”.

    E Flamengo deu a reposta, com juros, bônus, extra e tudo mais. No estádio Nacional de Tóquio, construído para os Jogos Olímpicos de 1964, na frente de 62.000 torcedores, Flamengo abriu o placar com apenas 12 minutos de jogo. Um passe perfeito de Zico, uma finalização perfeita de Nunes. Quando é perfeito, não precisa de outras palavras para dizer que é perfeito. É apenas perfeito. Flamengo 1×0 Liverpool.

    Era a primeira reposta, mas ainda faltava os juros. Numa falta de Zico, o goleiro defendeu, mas com dificuldades e não segurou a bola. Adílio foi o mais rápido, o mais determinado, o mais abençoado. Com um detalhe não muito conhecido: Adílio não deixou Rio para Tóquio com o resto da delegação por uma razão simples e importante: estava em lua de mel. Por isso mandou beijos nas arquibancadas para comemorar o gol. Para o livro 1981, o ano rubro-negro, Adílio fala do momento do gol, homenageando o técnico Cláudio Coutinho, que tinha falecido alguns meses antes: “Passou de tudo pela cabeça! Eu cheguei lá em lua de mel, a responsa para mim era maior. Quando veio o gol, aí foi a realização, missão cumprida! Eu agradeci a Deus, era isso que o Coutinho queria que acontecesse. Foi uma causa bem espiritual. Claro que Coutinho estava com a gente! A toda hora, a todo momento. Era desejo dele; ele queria ver isso de perto”.

    Cláudio Coutinho foi o técnico tricampeão carioca 1978-1979-1979 Especial e campeão brasileiro 1980. Se o Flamengo jogou tão bem nesse momento, foi graças aos jogadores sim, mas também graças a ele, com liberdade para os laterais, liberdade para o gênio Zico, e ideias de jogo como o overlapping e a polivalência dos jogadores. E acho também que ele teve uma grande influência na tão mítica Seleção de 1982. No 13 de dezembro de 1981, o rubro-negro Cláudio Coutinho estava em paz, e feliz, como milhões de outros rubro-negros.

    O capitão inglês Thompson devia marcar o Zico. Ele não fez uma partida ruim, apenas a tarefa era demasiado difícil. Se você dá a missão para alguém de parar o vento, ele tem boas chances de fracassar. Porque no estádio Nacional, Zico voava em campo. Antes do intervalo, Zico fez mais um lançamento perfeito para o Nunes. Galvão Bueno antecipou o gol de quem ele ia chamar o “artilheiro das decisões”, com toda justiça. Flamengo 3×0 Liverpool. “Esse Zico é mesmo infernal, é um jogador de sonho. Estive atrás dele o tempo todo, e mesmo assim ele armou a maior confusão na nossa defesa, com lances absolutamente imperdíveis. É um monstro”, falou Thompson depois do jogo.

    O segundo tempo não serviu para muitas coisas. Flamengo levou o pé, Liverpool ficou abaixo do chão. Era tarde demais para Liverpool para rezar, Flamengo podia rir, podia dançar, podia comemorar. É uma das Copas intercontinentais mais marcantes, com o Santos – Benfica de 1962 e o São Paulo – Barcelona de 1992. Porque o Liverpool era gigante na Europa, ganhando 3 das últimas 4 Copas europeias. Mas o Flamengo era gigante no Rio, no Brasil, na América do Sul, e agora no Japão. Flamengo era o maior do Mundo.

    Depois de ter o melhor clube do mundo, faltava eleger o melhor jogador da partida. Os jornalistas japoneses escolheram Zico com 22 votos, um pouco na frente dos 19 votos para Nunes. Adílio recebeu um voto, e também o goleiro Raul, provavelmente de um jornalista que tinha entendido que precisava eleger quem menos apareceu no jogo. “Fiquei meio frustrado porque não participei do jogo. Só veio uma bola. O Flamengo podia ter jogado sem goleiro, que seria 3 a 1”, explicou Raul no livro 20 jogos eternos do Flamengo de Marcos Eduardo Neves.

    Zico ganhou do sponsor Toyota um carro Cellica zero-quilômetro, e o artilheiro Nunes um Toyota Carina. Os dois ficaram com os carros mas ofereceram para os outros jogadores o valor compartilhado do carro. Era também isso esse Flamengo de 1981, era mais do que 11 jogadores em campo jogando juntos, era a perfeição mais perfeita de um time de futebol.

  • Jogos eternos #22: Gama 2×4 Flamengo 2000

    Jogos eternos #22: Gama 2×4 Flamengo 2000

    Gama é um clube de Brasília, que em 2022 jogou apenas o campeonato brasiliense. Mas em 2000, foi o pivô de uma nova virada de mesa do futebol brasileiro, onde os detalhes não serão detalhados nessa crônica. Basta dizer que Gama recorreu na justiça comum para garantir seu lugar no Brasileirão de 2000, uma edição com 116 clubes! A competição pegou o nome de Copa João Havelange, do nome do presidente brasileiro da FIFA, onde também aqui nós não vamos contar mais detalhes.

    Gama ficou no Módulo Azul da Copa João Havelange, que era mais ou menos a Série A, com 25 clubes, incluindo obviamente Flamengo, que nunca foi rebaixado do Brasileirão. Flamengo não fez um ótimo início no Brasileirão 2000, com 5 vitórias, 5 empates e 2 derrotas. Antes do jogo contra Gama, vinha de uma vitória 3×0 contra Santos no Maracanã, com gols de Adriano, Petkovic e Fernando.

    No 30 de setembro de 2000, no antigo estádio Mané Garrincha, o saudoso Carlinhos escalou Flamengo assim: Júlio César; Bruno Carvalho, Fernando, Ronaldo, Athirson; Leandro Ávila, Rocha, Mozart, Petkovic; Denílson, Edison. Um time com craques e ídolos, que poderia ter feito bem mais em campo, mas a diretoria era bem mais desorganizada do que hoje, o que nunca ajuda. Uma palavra aqui para a camisa de 2000, a primeira de Nike depois de anos com Umbro. Era um Manto Sagrado muito lindo, para mim mais lindo do que os últimos do Umbro.

    Contra Gama, Flamengo abriu o placar com 17 minutos. Jogada começou com Denílson, um jogador que eu adorava com a Seleção, particularmente na Copa de 1998, com um estilo de jogo tipicamente brasileiro, cheio de ginga e de dribles. Em 2002, foi novamente muito bem na Copa. Entre os dois, uma passagem no Flamengo não tão feliz. Mas contra Gama, matou a bola de peito e deixou de calcanhar para Athirson, que eliminou um adversário de caneta e entrou na área. Bola para Petkovic, primeiro chute bloqueado por um zagueiro, segundo chute nas redes. Flamengo 1×0. Depois de uma primeira experiência brilhante no Brasil com a camisa de Vitória, e uma volta na Europa com Venezia, Petkovic foi num clube bem maior, nosso Flamengo, e começou a brilhar com gols, assistências e jogadas mágicas.

    Alguns minutos depois do gol, Gama aproveitou da desorganização da zaga do Flamengo para empatar com um gol de Juary. Antes do intervalo, Flamengo conseguiu ter um pênalti, depois de dois dribles do lateral-direito Bruno Carvalho. Era mais falta do que pênalti, mas para Petkovic falta e pênalti eram quase a mesma coisa, quase um gol. De 11 metros, Petkovic bateu com força, com precisão e fez o seu segundo do jogo. No intervalo, depois de dois milagres de Júlio César e de uma bola salvada na linha do gol de Ronaldo, Gama 1, Flamengo 2.

    No início do segundo tempo, Gama empatou com um gol contra do não tão gênio Mozart. Depois, Flamengo e Gama tiveram oportunidades, mas nada de gol. Com 30 minutos no segundo tempo, a torcida do Flamengo, que enchia quase todo o estádio Mané Garrincha, foi à loucura com Adriano que finalizava o aquecimento e se preparava para entrar, e com uma falta para Petkovic, a mais ou menos 25 metros do gol, bem no eixo central do gol. E para Pet, uma falta era quase um pênalti, quase um gol. Com uma trajetória que ia ser eternizada no ano seguinte, a bola foi na gaveta do pobre goleiro de Gama. Petkovic completava o hat-trick, seu único com o Manto Sagrado, e de novo, Flamengo estava na frente no placar..

    Só que dessa vez, Flamengo não cedeu o empate, conservou a vantagem, ampliou-a. Porque agora tinha um outro gênio em campo, não da Sérvia mas da favela, um atacante de 18 anos, Adriano Leite Ribeiro, nosso Didico. Na sua primeira bola, no meio de campo, Adriano passou de um defensor e antes da chegada do segundo, abriu na direita para Rocha. Adriano foi na grande área, Rocha tentou finalizar a tabela, mas por poucos centímetros, Adriano não conseguiu dominar a bola. A torcida flamenguista ficou no grito de desespero.

    Adriano ficou na frente da ataque, e Arthirson se infiltrou na zaga, Adriano abriu espaço na esquerda, Arthirson deixou de trivela, Adriano bateu cruzado, brocou, comemorou com a torcida agora com gritos de alegria, sob os aplausos do Petkovic no banco, que tinha cedido seu lugar para Alessandro. Gama 2, Flamengo 4, show de Petkovic, brilho de Adriano, que fazia aqui seu sexto gol da temporada.

    Flamengo fazia aqui um dos seus melhores jogos do campeonato, mas era o Flamengo do fim do século XX – começo do século XXI. Em seguida, perdeu cinco jogos consecutivos e ficou fora da fase seguinte por 3 pontos. Flamengo já estava eliminado de um campeonato que ia ser conquistado pelo arquirrival Vasco. Para esquecer, mas a história, de novo como Petkovic, ia ser bem diferente alguns meses depois.

  • Times históricos #7: Flamengo 1977

    Times históricos #7: Flamengo 1977

    Para a volta dos times históricos, vamos de um time que não fez tanta história, mas que foi muito importante para o clube. O ano é 1977, com já alguns dos jovens jogadores que fariam parte da maior geração do clube, entre 1978 e 1983: Rondinelli, Adílio, Júnior, Tita e claro, Zico. Flamengo também trouxe do Fluminense um veterano ídolo do Brasil, o Capita do Tri, Carlos Alberto Torres. Técnico era o saudoso Cláudio Coutinho, também jovem, apenas 38 anos.

    Flamengo começou a temporada de amistosos, de goleadas também: 9×0 contra Central e 7×0 contra Portela. Depois, também num amistoso, jogou contra Fluminense, com na ponta do ataque o desconhecido Kalu, que lembrou-se do jogo para GloboEsporte: “Quando regressei para o Flamengo eu era ainda juvenil. O técnico era o Cláudio Coutinho, o centroavante titular era o Luizinho, e o reserva, o Marciano. No dia do jogo, de manhã, o Luizinho falou que não ia jogar, porque estava sem contrato. E o Marciano estava machucado. Aí o Coutinho telefonou para a concentração dos juvenis, que ficava na Praia do Flamengo, e me perguntou se eu estava bem, se não tinha ido a festa na noite anterior”. Kalu estava numa festa, mas mentiu e fez bem: no jogo, fez dois golaços e Flamengo venceu 3×1.

    Flamengo também foi jogar um amistoso no Estadio Nacional do Santiago, contra a própria seleção chilena. O Chile jogou como de costume em vermelho, e Flamengo entrou em campo com o Manto Sagrado para a foto oficial, mas depois trocou para o jogo para uma camisa azul-celeste, que era da associação de futebol do Chile. Apesar de um gol de Adílio, Flamengo perdeu por 2×1.

    No campeonato carioca, Fla começou com um empate 1×1 contra Olaria, Zico fazendo o primeiro gol oficial da temporada de 1977. Na Taça Guanabara, Flamengo ficou 3 pontos atrás do Vasco, com uma frustrante derrota 3×0 contra o próprio Vasco. Depois de mais outros amistosos, Flamengo e Vasco fecharam o segundo turno do campeonato carioca na liderança com 12 vitórias, 2 empates e nenhuma derrota. Flamengo foi muito bem com várias goleadas, 37 gols pro em 14 jogos e apenas 2 gols contra. Mas se o Flamengo era o melhor ataque, com 27 gols em 28 jogos para Zico no campeonato, os 2 gols tomados não foram suficientes para ser a melhor defesa do segundo turno, a Taça Manoel do Nascimento Vargas Netto. Vasco tomou nenhum gol, o goleiro Mazarópi ficando 1.816 minutos sem ter o gol vazado, um recorde mundial.

    Precisava então de um desempate para o segundo turno, Flamengo precisando da vitória para forçar uma final, já o Vasco podia ser o vencedor do campeonato carioca com uma vitória no jogo de desempate. Como aconteceu no último jogo entre os dois clubes, a partida ficou num 0x0. Mas um empate num jogo de desempate não é uma opção e jogo foi decidido numa disputa de pênaltis. Júnior abriu a disputa com um gol de pé direito, depois todo mundo fez, até Tita, que tinha entrado no jogo só para bater o pênalti. Tita, 21 anos na época, chutou e Mazarópi defendeu. Ultimo cobrador do Flamengo, Zico fez o dele, achando o canto direito de Mazarópi. O ídolo do Vasco, Roberto Dinamite, foi no contrapé de Cantarelli e ofereceu o título ao Vasco.

    Apesar da dor de perder contra Vasco, foi uma derrota muito importante para a geração de ouro do Flamengo, como falou Zico: “o marco inicial daquela equipe vitoriosa foi a derrota no estadual de 77, especialmente pelo Tita. Ele era muito jovem e entrou só pra bater o pênalti. Acabou perdendo e o grupo se fechou em torno dele. Saímos do Maracanã arrasados. Fomos para um restaurante e fizemos um pacto. O time era esse, não precisava de reforços significativos. Nós seremos vencedores. Precisamos acreditar no trabalho que estamos fazendo. E assim foi. Só nós, jogadores e a Comissão Técnica estavam lá. Foi o início de tudo”. O Flamengo nunca ia ser o mesmo depois dessa derrota contra Vasco.

    Antes do início do Brasileirão, Flamengo jogou mais um amistoso, contra o Cosmos de New York. No Maracanã, Flamengo goleou o time de Beckenbauer por 4×1, com dois gols de nosso Rei Arthur. O Brasileirão de 1977 ficou com 62 times e começou apenas no 15 de outubro. Flamengo estreou com uma goleada 5×0 contra Vitória, de novo Zico fazendo o primeiro gol rubro-negro do campeonato. Goleou também o Fluminense de Feira, time baiano, por 6×0, de novo Zico fazendo dois gols no jogo. Flamengo perdeu o Fla-Flu, mas fechou a primeira fase na liderança de seu grupo. Na segunda fase, agora no grupo K, Flamengo também foi o vencedor do grupo.

    Tinha mais uma fase, Flamengo agora no grupo S! Com tantos jogos, a terceira fase começou no ano de 1978. Flamengo estava no grupo de Londrina, Vasco, Corinthians, Santos e Caxias, um grupo acessível onde só o primeiro se classificava para as semifinais do Brasileirão. E Flamengo foi muito mal, jogou mal, exceção com Adílio, e ganhou nenhum dos cinco jogos da fase! Flamengo estava eliminado e o vencedor do grupo foi o surpreendente Londrina, que caiu na semifinal contra o Atlético Mineiro.

    A temporada de 1977 foi frustrante para os flamenguistas, mas foi a última antes de muitos anos de felicidade. E talvez tudo isso não teria sido possível sem a frustração de 1977 e o pacto dos jogadores.

  • Jogos eternos #21: Vasco 1×1 Flamengo 2011

    Jogos eternos #21: Vasco 1×1 Flamengo 2011

    Por causa da Copa do mundo, a temporada do futebol acabou mais cedo do que costume, que geralmente se fecha mais ou menos nesse período do ano. Como foi o caso em 2011, com um jogo contra Vasco. Inclusive, a CBF teve a ideia de programar oito clássicos na última rodada do Brasileirão. Não gosto da ideia, prefiro ver clássicos regularmente durante o ano, e não todos decisivos, ou não, com times que não têm mais nada a ganhar, a menos um clássico, que já é muito.

    Mas a última rodada do Brasileirão de 2011 era decisiva, com dois dos maiores clássicos do país, o Clássico dos Milhões e o Derby Paulista, Flamengo x Vasco e Corinthians x Palmeiras. E vejam como as coisas podem mudar em dez anos, em 2011, Vasco brigava pelo título da Série A. Para o Vasco ser campeão, precisava vencer Flamengo e torcer para uma derrota do Corinthians contra Palmeiras.

    4 de dezembro foi um dia muito triste para o futebol brasileiro, com a perda de um craque eterno, o Doutor Sócrates, que merece nesse blog uma crônica na categoria dos ídolos, apesar de ter jogado muito pouco com o Manto Sagrado. Fez muita mais história no Corinthians e sua morte era mais um motivo para desejar a vitória do Corinthians no Brasileirão 2011. Por seu lado, Flamengo precisava pelo menos de um ponto para ficar na frente do Internacional e se classificar na pré-Libertadores.

    No Engenhão, para um publico de 34.604 pessoas, Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Welinton, Alex Silva, Júnior César; Willians, Fierro, Renato Abreu; Thiago Neves, Ronaldinho, Negueba. Um time limitado, para quem uma classificação na Libertadores já era uma satisfação.

    O Vasco de Diego Souza, Alecsandro e Felipe, precisando da vitória, começou melhor a partida. Com meia hora de jogo, Gonzalo Fierro foi facilmente driblado pelo Nilton, que cruzou para Diego Souza fazer valer a lei do ex. Vasco estava na frente e agora dependia de uma vitória de Palmeiras para ser campeão. Era para ver qual união era a melhor, entre Vasco e Palmeiras ou Flamengo e Corinthians.

    No início do segundo tempo, Vasco também começou melhor. Mas, Flamengo tinha um craque que Vasco não tinha. Ronaldinho, que apareceu muito pouco durante o jogo, recebeu no campo do Flamengo uma bola de Renato Abreu, resistiu ao contato do Dedé, e com uma facilidade impressionante mas não surpreendente, fez um lançamento com o pé esquerdo de 50 metros em profundidade para o Deivid. De forma surpreendente, Deivid pedalou e achou Renato Abreu, chegando na grande área em velocidade. Um domino, um drible curto para abrir o ângulo, e um chute esquerdo para empatar. Gol do Flamengo, agora Vasco nem precisava olhar o que acontecia no Pacaembu, não ia ser campeão brasileiro.

    Depois, foram lances perigosos, expulsões, uma de cada lado, Jumar e Renato Abreu, mas nada de gol. E no Pacaembu, também foi empate sem gol e expulsões. No final das contas, Corinthians campeão, Flamengo na Libertadores e para o Vasco, a resposta vinha da torcida flamenguista nas arquibancadas do Engenhão: “Ôooo, vice de novo”.

  • Ídolos #6: Andrade

    Ídolos #6: Andrade

    De volta com os ídolos, depois de um bom tempo. O último era Júnior, camisa 5. Vou seguir a combinar número de cronicas e número de ídolos, e vou continuar com um jogador da geração de ouro, Andrade.

    Andrade nasceu no 21 de abril de 1957 em Juiz de Fora, terra flamenguista. Mas nesses tempos, Andrade era botafoguense. Acontece. Depois foi na base do Flamengo, estreou com o Manto Sagrado, e logo depois foi emprestado na ULA, na Venezuela. Voltou no Flamengo em 1979, fez parte do maior meio-campo da história do Flamengo, e um dos maiores da história do futebol, talvez só atrás do Barcelona de Busquets-Xavi-Iniesta e do Real de Casemiro-Modric-Kroos. Pode ser também, sem clubismo, o maior da história, porque Andrade-Adílio-Zico era coisa de outro mundo. Andrade escreveu o primeiro grande capítulo de sua carreira em 1980.

    Data, 1° de junho de 1980, palco, Maracanã, adversário, Atlético Mineiro, publico, 154.355 pagantes. Em jogo, o título do Brasileirão. Nunes abriu o placar, Reinaldo empatou no minuto seguinte. Nosso Rei Zico marcou, Reinaldo empatou de novo. No fim do jogo, Nunes desempatou, Flamengo era o virtual campeão. E no finalzinho do jogo, no fim do fim do jogo, o desconhecido Manguito, zagueiro do Flamengo, substituindo um Deus da Raça Rondinelli lesionado, fez um passe atrás, para o goleiro Raul, um passe muito curto, Pedrinho teve tempo de interceptar a bola. Se fizesse o gol, título era do Galo. Mas Andrade voltou a tempo, salvou o Flamengo, salvou o Manguito também: “Salvei a carreira do Manguito. Ele sairia crucificado do Maracanã”, falou Andrade no livro 20 jogos eternos do Flamengo de Marcos Eduardo Neves.

    Andrade, como toda uma geração de ouro, foi campeão carioca, campeão brasileiro, campeão americano (com o primeiro cartão vermelho de sua carreira numa final violenta contra Cobreloa), e enfim campeão mundial. Mas deu o maior orgulho a torcida flamenguista contra o seu time de infância, Botafogo. Em 1972, Botafogo goleou Flamengo por 6×0. Doí, mas acontece. A torcida do Flamengo pediu vingança por muitos anos. Teve várias goleadas, mas nada de um 6×0. Até 1981, um ano histórico para o Flamengo. No campeonato carioca, no Maracanã, um jogo eterno. No intervalo, Flamengo 4×0 Botafogo. Mas a torcida do Flamengo queria mais, pedia o 6×0. Zico fez o quinto de pênalti. Faltava mais um. E no final do jogo, Andrade abriu no lado esquerdo para Adílio, que cruzou na grande área. A bola voltou nos pés do camisa 6 Andrade, para um chute poderoso, para um gol inesquecível, para o gol do 6×0, para uma goleada completa, para uma vingança inteira, para um momento único na carreira de Andrade: “Tive a sensação de ter saído do ar por alguns instantes. Deu um branco, tanto que na hora do gol corri para o lado errado”. Depois de 9 anos, o Flamengo era vingado, e o Botafogo tinha que esperar uma revirada, um outro 6×0. Até hoje, nunca aconteceu.

    Em 1982, foi bicampeão brasileiro, contra Grêmio. No jogo de desempate, uma polêmica, uma confusão na grande área do Flamengo, com uma bola na mão de Andrade para os gremistas, com uma bola no punho do goleiro Raul para os flamenguistas. E para Andrade, “ficou aquele bate-rebate e eu estava em cima da linha quando a bola subiu. Em fração de segundos, pensei, esses caras vão me jogar com bola e tudo pra dentro do gol e o juiz vai correr pro meio, não vai nem querer saber se foi falta ou não. Pensei em colocar a mão. Mas a coisa aconteceu tão rápido que, naquele tumulto, nem sei se tirei com a mão ou de cabeça”. Vendo o lance de novo, eu também não sei, apenas sei que o Flamengo foi campeão esse ano.

    O Tromba, como era chamado no vestiario do Flamengo, não é apenas bicampeão brasileiro, nem tri, depois do título contra Santos em 1983. Foi tetra em 1987, agora como veterano, sempre decisivo, com uma assistência para Bebeto no gol do título: “As pessoas esperavam que eu chutasse. Eu batia bem de fora da área, estava numa posição boa. Mas conduzi a bola de cabeça erguida, vi a movimentação do Bebeto na diagonal e a defesa saindo. O Bebeto era um jogador que, no olhar, entendia tudo. Quando meti, ele arrancou. O Taffarel tentou sair, mas hesitou. No que hesitou, o Bebeto chegou antes e deu o toquinho. A mesma alegria que ele teve com o gol, eu tive com o passe. Saí correndo que nem maluco naquele campo enlameado. Era um passe que significava o título”. Obrigado, Andrade, que honrou muito o Manto Sagrado.

    Depois, foi penta em 1989, com a camisa do Vasco. Vamos esquecer essa breve passagem ainda mais rapidamente. Mas Andrade não é só penta, é hexacampeão brasileiro. Agora técnico, no início interino depois efetivado, montou um time que tinha como craques Petkovic e Adriano. No final do primeiro turno, perdeu 4×1 contra o Grêmio e depois de duas mais derrotas, o cargo estava ameaçado. Mas Andrade ficou, o Petkovic brilhou, nosso Didico brocou, o Flamengo goleou. E no jogo decisivo, contra Grêmio, que esperava uma derrota, o Flamengo estava atrás no placar. No intervalo, o Tromba deu bronca. “No intervalo, pela primeira vez vi o Andrade chateado. Concordamos com ele. Tinha que ser na raça. Precisávamos pressionar de alguma forma”, relembra o herói Ronaldo Angelim. O segundo tempo é conhecido, um jogo eterno, o Flamengo campeão, Andrade hexacampeão particular. “Foi talvez, a conquista mais importante de minha carreira. Acho que fizemos uma grande campanha e o nosso grupo foi forte. Sou uma pessoa positiva e de fé. Acho que o título estava escrito. Deus botou a mão e nos deu de presente”, emocionou-se nosso Andrade.

    Para fechar, voltamos a uma injustiça. Jogou apenas 13 jogos com a Seleção. Em 1982, contra a Alemanha Ocidental no Maracanã, Telê escalou para o Brasil o meio do campo do Flamengo: Adílio, Zico e… Vitor, reserva do Andrade com o Flamengo. Uma loucura. Toninho Cerezo era craque, mas para mim, na Seleção de 1982 tão bonita, o meio-campo devia ser Zico, Sócrates, Falcão e Andrade. Talvez isso era a chave para o Tetra que o Brasil merecia.

    Andrade fez apenas um gol com a Seleção, mas um autentico golaço, desfilando sua classe no meio da zaga da Áustria em 1988. Um gol que para Andrade deve ser lembrado: “Mas daqui 100 anos, as pessoas só vão falar do gol do 6×0”. Tá certo, Andrade.

  • Jogos eternos #20: Flamengo 2×1 Colorado 1981

    Jogos eternos #20: Flamengo 2×1 Colorado 1981

    No 25 de setembro de 2022, alias aniversario de meu irmão, Flamengo não jogava. Então fui de um jogo eterno de 1981, um time histórico, contra Uberaba. No início, estava na dúvida com o jogo contra Uberaba dia 1o de abril de 1981, ou contra Colorado, dia 4 de abril. Então fui de ordem cronológica, com o jogo contra o Uberaba, sabendo que um outro dia tera oportunidade para o jogo contra Colorado. E agora, com a temporada infelizmente, muito infelizmente, acabada, tem tempo para o jogo contra Colorado.

    Vamos voltar ao tempo, 4 de abril de 1981, com um jogo no Maracanã, Modesto Bria escalando Flamengo assim: Raul; Carlos Alberto, Luís Pereira, Marinho, Júnior; Vitor, Adílio, Zico; Tita, Ronaldo Marques, Nunes. Um timaço, que fez muita história em 1981, apesar de não ganhar o Brasileirão. Até tinha esquecido que Luís Pereira, um verdadeiro craque, ídolo do Palmeiras e do Atlético de Madri, tinha jogado num time tão histórico.

    No Brasileirão de 1981, Flamengo passou na primeira fase no segundo lugar, atrás apenas do Santos. Na segunda fase, estava num grupo com Atlético Mineiro, Uberaba e Colorado. Ganhou do Galo, depois empatou contra Uberaba e foi surpreendentemente goleado contra Colorado, uma derrota 4×0. Nos jogos de volta, empatou contra o Atlético Mineiro e ganhou de 4×2 contra Uberaba. No 4 de abril de 1981, era hora de vingança, contra Colorado, um time de Curitiba que foi extinto em 1989.

    No Maracanã, com um publico de 61.749 pagantes, Flamengo jogando de branco de novo, Colorado abrindo o placar, Aladim na recepção de um cruzamento de Buião. Nem tenho comentários a fazer sobre os nomes dos jogadores.

    Flamengo só reagiu no final do jogo, no minuto 33 do segundo tempo. Júnior para Marinho. Marinho para Adílio, que dominou de peito, acelerou de calcanhar, tabelou com Fumanchu. Adílio passou entre dois defensores, deixaoupara Zico de trivela entre mais dois defensores. Zico, claro, fez o gol e comemorou com a geral.

    Dois minutos depois só, Zico, no meio de campo, achou Tita. Tita achou o melhor jogador do mundo, Zico. O Rei Arthur fez uma finta, passou entre dois jogadores, e antes da chegada de mais dois defensores fez o gol, o gol da virada, o gol da vitória. Quatro defensores não eram suficientes para parar o Flamengo de 1981. Flamengo 2×1 Colorado, Flamengo nas oitavas de final. Depois, Flamengo perdeu nas quartas contra Botafogo mas é outra história. No 4 de abril de 1981, o Mengo fez mais um show num ano dourado.

    E esse jogo é ainda melhor do que dois meses atrás, porque agora encontrei Deus, nosso Rei, Arthur Antunes Coimbra, Zico.

  • Times históricos #6: Flamengo 2008

    Times históricos #6: Flamengo 2008

    O Flamengo deu muitas alegrias desde 2019. Mas antes, já fomos muitos felizes, com times de menos qualidade. Mas o Manto Sagrado era o mesmo. Ou quase, o fornecedor era outro. Acho a camisa de 2008 a mais bonita da história recente do Flamengo, gosto também muito do Manto dos anos 1980. E o ano de 2008 foi bom, um dos primeiros onde acompanhei religiosamente o time.

    O Flamengo de 2008 estava bem de ídolos. O goleiro Bruno não é mais ídolo por causa do que ele fez, mas era um grande goleiro, um dos melhores que vi no Flamengo com Diego Alves. Na zaga, Ronaldo Angelim fez muita história no clube, mas confesso que gostava ainda mais do Fábio Luciano. Era nosso capitão e achava ele muito carismático. A dupla de laterais Léo Moura – Juan era incrível, de um apoio de sempre no ataque. Não foi melhor do que a dupla Filipe Luís – Rafinha, mas eram outros tempos. Era um prazer de ver eles jogar.

    No meio de campo, Flamengo contratou um campeão do mundo, Kleberson. Tinha ainda Ibson, que fez uma temporada de 2007 incrível, era o melhor jogador de meus tempos ainda recentes de torcedor assíduo do Flamengo. Depois chegou outro craque, que eu gostava muito na Europa já, Marcelinho Paraíba. A passagem foi rápida, mas honrou o Manto Sagrado. E tinha também o craque da casa, o primeiro da base que vi crescer, Renato Augusto. No ataque, outra dupla carismática, Souza e meu primeiro ídolo, Obina. Os dois eram limitados, mas eram outros tempos. Deram muita alegria aos flamenguistas. Até de técnico, Flamengo tinha alguém limitado, mas carismático, Joel Santana. Adorava o Papai Joel.

    No campeonato carioca, Flamengo jogou a final da Taça Guanabara contra Botafogo. Wellington Paulista abriu o placar e Ibson empatou de pênalti. Foi um jogo de polêmicas, de brigas, de expulsões, de chororô também. Diego Tardelli fez um golaço no fim do jogo para a alegria dos flamenguistas e o choro dos botafoguenses. Eu não era um grande fã de Diego Tardelli, mas ele melhorou muito o ataque e fez um dos golaços mais icônicos da história do Flamengo. E no jogo seguinte, Souza, fez uma das comemorações mais icônicas, o chororô, que voltou depois a ser eternizado pelo Hernane, Vinícius Júnior e Gabigol.

    Na Libertadores, Flamengo ficou no primeiro lugar de seu grupo, e no segundo lugar da classificação geral, atrás apenas de um rival, Fluminense. O Fla-Flu é meu clássico favorito desde sempre, desde o início de tudo, ou melhor, meu amor pelo Fla-Flu nasceu 40 minutos antes do nada. Tínhamos perdido 4×1 no campeonato carioca e já estava louco para um Fla-Flu na Libertadores. Revelação do início do ano foi Marcinho, um jogador de muita velocidade, ousadia e gols também. Adorava ele, adorava o elenco de 2008.

    Na final do campeonato carioca, de novo contra Botafogo, Flamengo perdeu o jogo de ida e também levou o primeiro gol do jogo de volta, com um frango de Bruno. Mas esse Flamengo era time de desafio, de superação, de virada. No segundo tempo, Obina empatou e no fim do jogo, com outros gols de Tardelli e de novo de meu ídolo Obina. Flamengo campeão. Campeão da Copa do Brasil 2006 contra Vasco, campeão carioca 2007 contra Botafogo, campeão carioca 2008 de novo contra Botafogo, meus inícios de torcedor flamenguista acompanhando o time eram quase perfeitos. E a festa no Maracanã foi de novo muita linda. Se eu tenho saudade do time de 2008 apesar do time de hoje ser bem melhor, a saudade do Maracanã é diferente, é uma saudade que não passa, ou que passa para sempre voltar. Só o antigo Maracanã não pode voltar. Foi destruído para sempre.

    Eu estava cheio de alegrias mas a vida do torcedor é de altos e baixos, da alegria mais pura a decepção mais absoluta, do grito de campeão ao grito de desespero. Nas oitavas de final da Libertadores, Flamengo era quase classificado depois de ganhar 4×2 no México. Quase. Sem alguns titulares, Flamengo perdeu 3×0 no Maracanã. Um outro Maracanaço. Não assisti ao jogo ao vivo e não relembro bem onde estava quando soube da tragédia. Como um choque traumático. Ainda hoje não dá para entender. Achava e ainda acho que o time tinha possibilidade de ganhar a Libertadores. E eram outros tempos, o peso ainda era diferente de hoje, onde a diferença entre os times brasileiros e os outros é muito maior, e Flamengo é quase já semifinalista antes do início do torneio. Pior que o Fluminense foi na final esse ano e tinha a possibilidade de dois Fla-Flus na semifinal. Pelo menos Flu perdeu a final. Mas para o Fla, a temporada já estava meio perdida. Talvez esse outro Maracanaço contra o América é minha maior decepção no Flamengo, só a final do Mundial contra Liverpool pode competir, num outro tipo de decepção. Nem mesmo a perda da final da Libertadores 2021 contra Palmeiras foi tão dolorida.

    Mas ainda tinha o Brasileirão a jogar, agora sem Renato Augusto e Marcinho. Passei até a odiar eles, eram outros tempos e eu era ainda bem jovem, não entendia a escolha de vestir outra camisa quando tinha a possibilidade de vestir o Manto Sagrado. No Brasileirão, Flamengo foi bem, foi até líder após uma goleada 5×0 contra Figueirense na quinta rodada. E depois ficou sete jogos sem vencer. Isso aqui também era Flamengo. Voltou a ganhar, goleou Coritiba e Palmeiras no fim do campeonato, com de novo Ibson jogando de terno. Contra Palmeiras, Ibson fez três, num Maracanã cheio, com a esperança de um hexa. Mas Flamengo ganhou apenas um ponto nos três últimos jogos e ficou até de fora da Libertadores.

    Um ano de 2008 marcante, um elenco que ainda está no meu coração, mas um ano muito frustrante. Eram outros tempos e tempos melhores vão vir.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”