Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Na geral #10: Encontrei Deus

    Encontrei Deus, Nosso Rei, O Galinho de Quintino, Arthur Antunes Coimbra. Zico. E como a vida é bem-feita, essa crônica da categoria da Geral, é a número 10, como a camisa que Zico eternizou com o Manto Sagrado.

    Encontrar Zico fazia parte das coisas que eu queria fazer durante minha temporada no Brasil. Imaginava ser no Centro de Futebol Zico, o CFZ lá no Recreio dos Bandeirantes, mas quando soube que ele estava no Leblon para o lançamento do livro A história com o Flamengo, de Luís Miguel Pereira, não perdi a ocasião. Eu ia encontrar Zico, ainda sem acreditar, sem ousar sonhar.

    Realizei o sonho de muitos flamenguistas, encontrar Zico. Mas também um sonho que muitos flamenguistas já realizaram. Porque Flamengo é uma Nação, tem muita muita gente, e é o maior sonho de muitos flamenguistas de encontrar nosso maior ídolo, e porque Zico é muito muito acessível. Então ele já realizou o sonho de muita gente, e continua a fazer isso para minha alegria.

    A humildade de Zico é bem conhecida. Uma coisa que me marcou é que, claro, todo mundo queria sua foto como o Nosso Rei. Servi três vezes de fotografo para as pessoas na minha frente. E a cada vez, Zico olhava o celular, claro, mas não por 3 ou 4 segundos e depois voltava a assinar os livros, e tinha muitos livros. Não, Zico olhava o celular até o fotografo baixar o celular. Assim, ele tinha certeza que teve tempo para a pessoa tirar uma foto legal. Parece pequena coisa, mas não é.

    Zico brincou também com um garoto, falando do gol de Rondinelli contra Vasco em 1978. “E pesquisa quem bateu o escanteio!”. E depois o momento de minha maior emoção, meu encontro com Zico. Falei que era francês, mas o nome para a assinatura era “Marcelino”, porque para os brasileiros “Marcelino” é mais fácil que “Marcelin”. Então Zico brincou comigo também: “Francês e se chama Marcelino? Quer nos enganar, é francês paraguaio!”. Zico é de uma simplicidade extrema, te deixa a vontade apesar de o momento ser irreal. Mas sim, sou bem francês, sou flamenguista e sou fã de Zico.

    Já falei que Flamengo tem muita chance de ter uma torcida assim. E Flamengo, e a torcida, têm muita chance de ter um ídolo maior como o Zico. É a personificação do Flamengo, de Quintino até o Mundo. Nunca desrespeitou o clube, nunca se colocou acima do clube, apesar de representar tanto para o Flamengo. A relação entre Zico e o Flamengo é única no Brasil, não tem outro clube que tem um ídolo como Zico é ídolo no Flamengo.

    Já falei também que meu melhor momento no Rio com o Flamengo desde minha chegada foi o AeroFla, um momento único da demonstração do que é a torcida do Flamengo. Em segundo, tem que ser um momento no Maracanã, o pré-jogo da final da Copa do Brasil contra o Corinthians. Terceiro, provavelmente um título, o da Libertadores, vivido na Rocinha. Tem também o Fla-Flu e o reencontro com Gabriel, cantando o hino juntos depois do gol do Ganso que não calou o Maracanã. Tem também claro a recepção dos campeões no Centro do RJ, um momento único entre os jogadores e a torcida. Mas acho que o encontro com Zico supera todos esses momentos. Esses outros momentos, eu sei que estava lá, mas não conheço a data. Vou ter que aprender a data do Tri sim, mas a data do encontro com Zico, o 18 de novembro de 2022, fica marcada na história. E acho que agora todos os 18 de novembro, até o fim de minha vida, vou relembrar que nessa data encontrei Deus.

    No 18 de novembro de 2022, Zico conseguiu fazer mais uma proeza, ele conseguiu se tornar ainda mais ídolo do que ele era antes para mim.

  • Na geral #9: Um fim de semana inteiramente rubro-negro

    Ontem era o aniversário do Flamengo, 127 anos de glória e de luta, de raça, amor e paixão. As festividades para mim começaram no sábado com o encontro das embaixadas e dos consulados na sede do clube. Tinha bandeiras de todos os lugares do Brasil, de Roraima até cidades da Baixada Fluminense. E bandeiras de fora do Brasil, do Miami de Ramon, do Washington de Bernard, outro gringo flamenguista, e claro da Fla Paris. Nenhum outro clube do Brasil é capaz de fazer isso.

    Eu estava com Toni, filho do nosso presidente Cidel. Era a primeira vez que o encontrava, mas a gente se falava antes e tinha essa impressão de se conhecer já. O Flamengo permite isso também. Bebemos cervejas, fizemos amizade com os Flamigos de Natal, depois Tiffany, que estava comigo no AeroFla, me falou que o irmão dela estava lá, com a Fla Unidos de Campo Grande. Encontrei ele com muita alegria. E a Fla Unidos estava com a Fla Oceânica, de Niterói. E a Fla Paris apoia uma ONG de Niterói, a Associação Amor ao Próximo. Pegamos contatos da Fla Oceânica para organizar ações juntos. Se tem um outro clube do Brasil que é capaz de fazer isso, não o conheço.

    Depois, era a hora de ir no Maracanã, infelizmente para a última vez do ano. Assisti a 7 jogos esse ano, com muito amor e muito orgulho. No calor do Maracanã, perdi meus óculos no pré-jogo. Fui pedir no bar se alguém tinha deixado os óculos aqui, mas o irmão desconhecido flamenguista ao meu lado era mais sensato: “Já era irmão, aproveite o jogo”. Então fui aproveitar, mas com uma visão fraca, mudei de lugar na arquibancada. Sempre vou com a Fla Manguaça, um pouco em cima do grupo mais animado e das bandeiras. Sem óculos, fui um pouco em baixo na Fla Manguaça. Não sei se é a troca de lugar ou é porque era o último jogo, mas o ambiente, no primeiro tempo, foi um dos melhores que vivi esse ano. Todo mundo, ou quase, cantava. Frustrante que o segundo tempo foi menos animado, talvez por causa da derrota. Mas o Flamengo já deu muitas alegrias esse ano de 2022, meu primeiro no Brasil.

    Domingo é dia de torcer pro time que sou fã. Não no Maracanã, mas no Centro do Rio, para a recepção dos jogadores. Desde que eu sei que estarei no Brasil para a final da Copa Libertadores, eu estava louco para viver a recepção, como foi em 2019 com imagens incríveis. Em 2022, já duas semanas depois do título e não o dia seguinte, o ânimo foi um pouco menor. Estava com a Roça Fla, o grupo de torcedores da Rocinha, e acho que o AeroFla foi mais impressionante. No AeroFla, era a torcida, na recepção era a ligação entre a torcida e os jogadores. E o Flamengo é muito bem servido de ídolos. Claro essa torcida merece. Em 2019, foi Bruno Henrique, em 2022, David Luiz e Arturo Vidal. Como gringo flamenguista, me identifico com o Arturo Vidal, que deve viver um sonho incrível. Mas o ídolo maior dessa geração é sem dúvida Gabigol. Decisivo, provocante com os ex-rivais, Gabigol continua a fazer história num time da favela. E agora meu ídolo veste a camisa 10. Por muitos anos eu espero.

    Segunda-feira fui no CT Ninho do Urubu, com outros sócio-torcedores e membros de consulados. Outras amizades, mas uma visita um pouco rápida, do lugar da base até o dos profissionais. Para mim, momento mais emocionante talvez foi um pouco inusitado. Foi quando o guia mostrou o lugar onde o ônibus fica para esperar os jogadores antes de ir no aeroporto dia de jogo fora de casa, ou no Maracanã dia de jogo em casa. Imaginei a mistura de excitação e de ansiedade dos jogadores antes de um jogo importante. Não dá realmente para perceber, mas muitos momentos importantes do clube aconteceram nesse lugar. Também uma decepção, não vi nenhuma homenagem aos 10 garotos do Ninho, com se essa tragédia não existiu. Mas aconteceu, e eles merecem ser lembrados, como a torcida lembra durante todos os jogos no Maracanã.

    Terça-feira era dia do aniversario, dia de todos os flamenguistas. Cheguei um pouco tarde na Gávea e faltei a inauguração do busto de Lico, homenagem bem-merecida, e da maior parte do show da Charanga Rubro-Negra. Mas cheguei a tempo para encontrar de novo pessoas que estavam comigo na visita do CT, ver de novo o americano Bernard, ser entrevistado pelo Alan do canal Urubu 81, tirar uma foto com o Adílio, e comprar a biografia do Mozer, que me fez o prazer de dedicar o livro. Um dia lindo para quem é flamenguista, cheio de alegria e de saudade já, porque vou sentir muita falta do Flamengo até o ano próximo, eu espero, outro ano de ouro para meu Flamengo.

  • Jogos eternos #19: Flamengo 6×1 Avaí 2019

    Jogos eternos #19: Flamengo 6×1 Avaí 2019

    Para o último jogo do ano, vamos de um outro Flamengo x Avaí num fim de temporada, de uma temporada de ouro, a de 2019. O Flamengo de 2019 foi incrível, era certeza de futebol bem jogado, alta probabilidade de golaços, possibilidade forte de goleada. Jogo contra Avaí, o último do ano no Maracanã, foi o jogo das faixas de campeão da Libertadores e do Brasileirão. E não só dos profissionais. Flamengo ganhou em 2019 também o Brasileirão sub-17 e o Brasileirão sub-20. Realmente, um ano de ouro.

    No 5 de dezembro de 2019, Flamengo entrou em campo contra Avaí num clima de festa, com um time misto: César; Rafinha, Thuler, Rhodolfo, Renê; Piris da Motta, Diego, Éverton Ribeiro, Arrascaeta; Lincoln, Gabigol. No Maracanã, um dia de chuva, mas mais um dia de festa com 3 troféus, o do campeonato carioca nas mãos de Juan, o do Brasileirão nas mãos de nosso Didico, o da Libertadores nas mãos do Adílio. Flamengo é gigante.

    Gigante e bonito é o Flamengo do Jorge Jesus. Com 10 minutos de jogo, numa falta de Arrascaeta, Rafinha se movimentou bem na direita e recebeu a bola. Cruzou no chão para Lincoln, que de pivô deixou para Arrascaeta. A jogada começou com Arrascaeta de falta, dois toques rápidos de Rafinha, dois toques rápidos de Lincoln, e finalização de primeira de Arrascaeta. Do início até o fim, um golaço na construção. O Mengo do Mister realmente era bonito.

    Quatro minutos depois, outra falta, agora de Everton Ribeiro, no travessão. Calma torcedor, a chuva de gols só não vai ser maior do que a chuva no Rio nesse 5 de dezembro de 2019. Avaí empatou com um chute de longe de Lourenço. Acordou o gigante. No fim do primeiro tempo, um chute colocado de Diego no ângulo, bem no ângulo, indefensável para o goleiro. Outro golaço. Sem dúvida um dos gols mais bonitos do Diego com o Manto Sagrado. Dois minutos depois, um chute de Gabigol de fora da área, um rebote na frente do goleiro, mortal com a ajuda da chuva. Esse Flamengo de 2019 é imortal, não tinha piedade, sempre buscava fazer mais um gol. No intervalo, 3×1 para o Flamengo.

    No início do segundo tempo, quase mais um golaço. Bola alta de Diego, Lincoln quase conseguiu fazer o chapéu no goleiro, concluir de bicicleta, mas não deu. O golaço veio um pouco depois. O Flamengo de 2019 era incrível na movimentação. Piris da Motta achou Arrascaeta, de trivela para Gabigol, de calcanhar para completar a tabelinha com Arrascaeta. Arrascaeta pedalou, e a bola foi com a ajuda de Deus nos pés de Lincoln. Deus ajudou porque a jogada era bonita, e merecia se transformar em gol para a alegria da arquibancada. Flamengo 4×1 Avaí.

    No fim do jogo, outro golaço. Gabigol para Reinier, outra promessa do Mengo. Com um toque só para Diego, que devolveu também com um toque para Reinier. Reinier dominou com um toque rápido, e achou de novo de calcanhar Diego, agora com perigo na grande área do pobre Avaí. Com um toque do pé esquerdo, Diego deixou em condição ideal ninguém mais que Reinier. Já não era mais tabelinha, virava tabelão. Reinier dominou a bola e chutou cruzado. Golaço, no puro estilo do Mengo do Mister. E ainda tinha outro gol, de novo com Reinier, na recepção de um cruzamento de Rafinha, para fazer o gol do 6×1.

    Por isso que acho o Flamengo de 2019 maior do que o de 2022. Porque o futebol exibido era melhor. Muitas goleadas, muitos golaços, muitos jogos eternos. Mas para fechar o ano de ouro de 2022, também quero uma goleada contra Avaí.

  • Jogos eternos #18: Juventude 0x2 Flamengo 1995

    Jogos eternos #18: Juventude 0x2 Flamengo 1995

    Por mais incrível que parece, Flamengo é freguês do Juventude no campo deles. Flamengo ganhou os dois primeiros confrontos no Brasileirão, em 1995 e 1997, e depois nos dez últimos confrontos, o Mengo não ganhou nenhum jogo! Vamos então da primeira vitória, em 1995.

    Na abertura do Brasileirão de 1995, Flamengo venceu o Bragantino, já um jogo eterno no Francesguista. Depois, foi bem mais difícil, um 0x0 contra Guarani, uma derrota 0x2 contra Paysandu, e outras duas derrotas, contra os rivais Palmeiras e Corinthians, as duas vezes pelo placar de 1×2, as duas vezes com gol de Romário. Flamengo já precisava de uma reação.

    O técnico do Flamengo era o jornalista Washigton Rodrigues, o Apolinho, que escalou Flamengo assim para o jogo contra Juventude: Paulo César; Agnaldo, Cláudio, Ronaldão, Leonardo Inácio; Pingo, Márcio Costa, Djair, Nélio; Sávio, Romário. Apesar da qualidade do ataque, era um time bem mediano. No outro lado, o técnico Emerson Leão estreava no Juventude e tinha no meio de campo o Cuca, em fim de carreira. No Alfredo Jaconi, tinha 15.690 torcedores no 17 de setembro de 1995 para ver o jogo entre Juventude e Flamengo.

    Com 16 minutos, uma bola longa de Agnaldo para Sávio, pronto para a jogada do craque que ele era. Dominou a bola, girou, pedalou, fintou, fintou mais uma vez, o defensor já meio perdido. Depois, um drible curto, um chute cruzado, um golaço. Mais um golaço de Sávio, que apesar de estar no começo da carreira, já tinha brilhado tanto com o Manto Sagrado.

    Ainda no primeiro tempo, Sávio fez um belo cruzamento para Romário pegar de primeira, mas o goleiro defendeu. No segundo tempo, lançamento de Ronaldão para a velocidade de Nélio. A bola no meio de campo, a meia altura. Com esse tipo de bola, às vezes quem ganha o lance é quem tem mais raça. E às vezes quem ganha o lance é quem conhece mais o jogo, é o jogador que sente o que deve ser feito, é quem tem mais visão de jogo, é o craque. Romário chegou primeiro e de um toque só, perfeitamente executado, deixou Sávio em condição ideal. O Anjo Loiro também não perdeu tempo com a bola, já no domino da bola, driblou o goleiro. Depois, só tinha a empurrar a bola no fundo das redes para fazer um outro golaço no jogo.

    Uma atuação marcante, porém não tanto conhecida do craque Sávio, um ídolo da Nação, também já um ídolo no Francesguista. Que essa bela lembrança ajuda o Mengão a trazer, enfim, uma vitória no campo do Juventude.

  • Jogos eternos #17: Coritiba 2×2 Flamengo 1988

    Jogos eternos #17: Coritiba 2×2 Flamengo 1988

    Antes de um dos últimos jogos do ano, vamos relembrar de um jogo entre Coritiba e Flamengo, de 1988. Por uma vez, o campeonato brasileiro, depois do muito polêmico de 1987, era relativamente simples. Duas fases, dois grupos, dois classificados por grupo para as quartas de final. Mas CBF é CBF e tinha que fazer alguma coisa esquisita. O jogo valia agora 3 pontos e não mais 2 pontos. O jogo sim, e não a vitória. A vitória valia 3 pontos sim, mas em caso de empate, tinha uma disputa de penalidades para obter um ponto bônus!

    Flamengo perdeu sua primeira disputa de penalidades no campeonato, contra Santa Cruz, mas depois ganhou três em seguida, contra Botafogo, Grêmio, Cruzeiro, aquela um jogo antes da partida contra Coritiba. O jogo contra Coritiba era o último da primeira fase, Flamengo já sem chance de se classificar. No Couto Pereira, para um publico de 45.458 torcedores, Flamengo foi escalado assim: Zé Carlos; Xande, Rogério, Darío Pereyra, Leonardo; Delacir, Luvanor, Zinho, Zico; Sérgio Araújo, Bebeto. Um time com craques, como o veterano uruguaio Darío Pereyra na zaga, Zico no meio e Bebeto na frente, e jogadores mais desconhecidos. Técnico também era craque, Telê Santana, que chegou no Mengão duas semanas antes.

    No Coritiba, treinado pelo Valdir Espinosa, que passou pouco tempo depois no Flamengo, o craque era Tostão e tinha o japonês Kazu Miura, inspiração para o mangá Captain Tsubasa. Detalhe, com agora 55 anos, Kazu ainda está jogando num nível profissional no Japão! No 9 de novembro de 1988, Flamengo começou melhor mas levou o primeiro gol, marcado por Osvaldo, com 32 minutos de jogo. Flamengo reagiu rapidamente, com Zico mais uma vez. O toque de calcanhar foi bloqueado pelo zagueiro Everaldo, mas Zico não desistiu e empatou de pé esquerdo.

    No segundo tempo, Xande cruzou e Bebeto fez o gol da virada. Zico e Bebeto faziam os gols, uma dupla que foi pura magia para o Flamengo em 1987. Coritiba voltou bem no jogo, e depois de uma bola na trave, fez o gol do 2×2 com Tostão. Empate no final, o que não existia em 1988. O herói da disputa de penalidades foi o goleiro de Coritiba, Rafael, que fez defesas nas tentativas de Zico e Luvanor, e fez o dele, no contrapé de Zé Carlos. Bebeto e Leonardo fizeram para o Mengo, mas no fim, Zinho achou o travessão e Coritiba ganhou o ponto bônus. Pelo menos, hoje, também num jogo sem importância, não teria disputa de penalidades.

  • Jogos eternos #16: Flamengo 5×1 Corinthians 1983

    Jogos eternos #16: Flamengo 5×1 Corinthians 1983

    O último jogo entre Flamengo e Corinthians no Maracanã foi um jogo eterno, com o tetra na Copa do Brasil. O jogo de hoje também vai ser eterno, com a recepção dos tricampeões da Libertadores. Vamos então de um outro jogo eterno, também num ano histórico, em 1983.

    Na primeira fase do Brasileirão 1983, Flamengo ficou no segundo lugar, atrás do outro finalista daquele Brasileirão, Santos. Na segunda fase, ficou de novo no segundo lugar, de novo atrás de um time paulista, Palmeiras. Eram muitas fases, três antes das quartas de final, muitos times, 44, muitos grupos, até a letra T! O grupo T era justamente o do Flamengo na terceira fase, com Goiás e outros dois times paulistas, Guarani e Corinthians.

    Flamengo começou o grupo T com vitória contra Goiás no Maracanã, gols de Robertinho e Zico. Depois, empatou por 0x0 contra Guarani no Brinco de Ouro. Zico estava nos momentos finais de sua primeira passagem no Flamengo, sem ninguém saber. No 17 de abril de 1983, o Rei Arthur estava em campo, o saudoso Carlos Alberto Torres escalando Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Vitor, Adílio, Zico; Júlio César, Elder, Baltazar. Um time cheio de craques e o Corinthians, bicampeão paulista em 1982 e 1983, também estava bem de craques, com Emerson Leão, Wladimir, Zenon e Sócrates para o jogo no Maracanã, com 91.120 presentes.

    O Corinthians começou melhor, com uma cabeçada de Sócrates, que não foi no gol só graças a intervenção de Júnior na linha do gol. Depois, Zenon bateu uma falta no travessão de Raul, que ficou só olhando. Num contra-ataque, Vidotti bateu, mas Raul fez a defesa. Corinthians não fazia o gol, Flamengo fez. O cruzamento do pé direito de Leandro foi bloqueado, a bola voltou no Leandro, que cruzou com o pé esquerdo. Julio César Barbosa, a não confundir com o craque Júlio César Uri Geller que vestiu o Manto Sagrado algumas temporadas antes, fez uma autentica jogada de craque, um desvio de calcanhar para Zico, que não teve dificuldades para fazer o gol. Flamengo 1×0 e era só o início.

    Antes do fim do primeiro tempo, uma falta para o Flamengo. Todo mundo já sabe o que vai acontecer. Zico bateu e fez o gol, com um rebote mortal para o Leão. Flamengo 2×0 Corinthians. No início do segundo tempo, um golaço, bem ao estilo desse Flamengo 1978-1983. Uma falta provocada pelo Leandro depois de um drible curto, no campo do Flamengo. Zico joga rápido, no outro lado, o esquerdo, para o desvio de cabeça de Júnior. Bola para Adílio, que mata no peito, acha Elder, que mata no peito, acha Baltazar. Baltazar, um giro, um segundo giro, um Wladimir meio perdido, um cruzamento. De cabeça, Adílio completou o golaço coletivo. Flamengo 3×0 Corinthians.

    O jogo foi um pouco mais equilibrado depois, mas Adílio quase fez o quarto. Num escanteio, Zico cruzou para Mozer, que cabeceou, deixando Emerson Leão sem reação. Flamengo 4×0. Virava goleada. Depois, Zico recebeu a bola, e como tinha feito três minutos antes, dominou com a sola do pé, uma pisada digna dos melhores jogadores de futsal. Assim, o craque pode esperar a pressão dos adversários, pode ver os movimentos dos companheiros. Magicamente, perfeitamente, O Galinho achou Elder na profundidade, que conseguiu fazer um drible de vaca sobre o pobre Emerson Leão, batido pela quinta vez no jogo. Flamengo 5×0 Corinthians, virava uma goleada humilhante.

    No fim do jogo, outro craque, Sócrates, fez o gol de honra para os corintianos, mas mesma assim foi um jogo eterno, a maior goleada em favor do Flamengo no Clássico do Povo. Com uma atuação mágica de Zico, que fez dois gols no primeiro tempo e deu duas assistências no segundo tempo, o povo do Brasil estava feliz.

  • Na geral #8: Fla é tri e eu sou feliz

    Eu esperava a recepção da torcida para escrever sobre a final da Libertadores, mas acho que posso esperar um tempão ainda. Vamos então para o dia de 29 de outubro de 2022. Na verdade, no dia antes, 28 de outubro. Claro que a ansiedade começa no dia da classificação para a final, 7 de setembro de 2022, dia do bicentenário da independência do Brasil e também um dia depois de minha chegada no RJ. A ansiedade se intensifica no começo da semana da final, e para mim, se torna realmente insuportável um dia antes da final.

    Talvez a ansiedade do dia antes é pior que a do dia D. No 29 de outubro de 2022, já tem a excitação do jogo. Eu estava na Rocinha, onde moro atualmente, e sempre tem muitas camisas do Flamengo no morro. Mas no 29 de outubro, a Rocinha estava de duas cores só, o preto e o vermelho. Era de uma energia incrível, a Nação estava lá, com estava em todos os lugares do RJ, favelas e asfalto, em todos os cantos do Brasil, do Norte até o Sul, no Nordeste e no Distrito Federal. Isso, só o Flamengo.

    Assisti ao jogo com a Roça Fla, um grupo de torcedores do Flamengo na Rocinha. Já tinha assistido ao jogo de ida da final da Copa do Brasil, e para a final da Copa da Libertadores, o jogo era retransmitido numa quadra de futebol. E claro, a quadra estava cheia de rubro-negros. Eu estava com a camisa da Fla Paris e outra da Roça Fla. E já falei da hospitalidade dos brasileiros, mas vou falar mais uma vez aqui, porque fui muito bem acolhido de novo. O presidente da Roça Fla, Fernando, me acolheu com sorriso, abraços e muita fé na vitória do Flamengo. E retribuí um pouco o carinho, chamando franceses para assistir ao jogo na Rocinha. Dois foram, e acho que eles gostaram muito do ambiente do local. Talvez mais dois rubro-negros no mundo. Porque a paixão flamenguista é contagiante.

    A final não foi o melhor jogo da Libertadores, como acontece muitas vezes numa final. Fui entrevista pelo Diário do Fla no AeroFla e falei que o placar não importava, o que importava era a vitória, o título. Na Rocinha, a expulsão do Pedro Henrique foi festejada como um gol, com cerveja no ar, gritos, cantos, foguetório. A festa era impressionante, a torcida não para de cantar, nunca. A quadra da Rocinha virava o Maracanazinho. E o gol do Gabigol foi de uma emoção indescriptível. Eram abraços, lágrimas, orações. Isso, só o Flamengo.

    Flamengo é merecidamente o campeão da Libertadores de 2022. Fez uma campanha incrível, com 12 vitórias, um empate e nenhuma derrota. Talvez é a maior campanha da história do torneio, Estudiantes teve um aproveitamento de 100% em 1969, mas com 4 jogos só. Porém, acho a campanha de 2019 do Flamengo mais marcante, com uma qualificação dramática contra Emelec nas oitavas, e depois confrontos contra os dois grandes do Rio Grande do Sul, Internacional e Grêmio, com um cincum eterno. Mais eterno, só o jogo final, contra River, com dois de Gabigol. E uma taça que não vinha desde 38 anos finalmente nas mãos rubro-negras.

    Na quadra da Rocinha, teve mais festa ainda, com cantos, hino, cerveja, churrasco e até champanhe. Depois, claro, muita música. Kevin, da Fla Paris, me ligou, para compartilhar a alegria. Sabia que tinha muito festa em Paris também, e apesar de ser bastante feliz aqui, tenho também saudade do consulado da Fla Paris. Depois, fui num bar da Rocinha, onde de novo, tinha só camisas do Flamengo. No 29 de outubro de 2022, o Manto Sagrado parecia dress code. Fiz outras amizades, um cara chegou a me dizer que estava mais feliz de me ter conhecido de que ter visto a vitória do Flamengo. Agradeci pelo elogio e estou muito feliz de conhecer ele, mas a honestidade me obrigou a dizer que sou mais feliz ainda com o título do Flamengo. Tem uma alegria e um orgulho incomparáveis nas conquistas do Flamengo, ainda mais numa Libertadores. Começa o dia com ansiedade tremenda, fecha o dia com felicidade imensa. Isso, só o Flamengo.

    Fecho a crônica com a atuação do Gabigol. Decidiu mais uma vez uma final da Libertadores. É bicampeão, em 2019 e 2022, e também duas vezes artilheiro, em 2019 e 2021. Falei que meu top 3 particular dos ídolos da Nação é primeiro Zico claro, depois a camisa 2 Leandro e em terceiro nosso Didico. Mas acho que o Gabigol pode ser agora o segundo maior ídolo do Flamengo. No Flamengo, só dois jogadores marcaram gols em finais de Libertadores, o Rei Arthur e o Gabigol. Para Gabigol, foram 4 gols em 3 jogos, achando as redes em todos os jogos. Gabigol é a cara dessa geração do Flamengo, que ganhou tudo, menos o Mundial, que vai ganhar. Falta ainda alguns meses para esse jogo chegar, com uma ansiedade que não vai parar de crescer. Isso, só o Flamengo.

  • Jogos eternos #15: Flamengo 2×0 Cobreloa 1981

    Jogos eternos #15: Flamengo 2×0 Cobreloa 1981

    Para hoje, um dos dias mais importantes da história do Flamengo, não vamos de um jogo eterno contra o Athletico Paranaense, até porque já escrevi sobre a última final contra o clube paranaense, o tri da Copa do Brasil em 2013. Eu vou então de uma final de Libertadores vencida pelo Flamengo, e como já escrevi também sobre o milagre de Lima em 2019, vamos da primeira conquista do Flamengo na competição, contra Cobreloa em 1981.

    Eu também já escrevi sobre o time histórico de 1981, o maior time da história do Flamengo. Vamos então diretamente para a final, contra Cobreloa, time chileno que, como Flamengo, estreava na competição. O jogo de ida, no Maracanã, teve marca de gênio, com dois gols de Zico. O jogo de volta, no Estádio Nacional, teve marcas de sangue, com o zagueiro Mario Soto agredindo Adílio, Lico e Tita com pedra na mão que o juiz fingia não ver. Na época, não tinha uma final única, mas teve um jogo de desempate, no Centenario de Montevidéu, onde alguns meses antes a Seleção tinha perdido o Mundialito contra os donos da casa. O Centenario, palco também da primeira final da Copa do Mundo. Um estádio que infelizmente não será tão feliz para o Flamengo 40 anos depois da glória de 1981.

    No 23 de novembro, dia histórico para o Flamengo, Paulo César Capergiani escalou o time assim: Raul; Nei Dias, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Leandro, Zico; Adílio, Tita, Nunes. Um time histórico, e uma ousadia de Carpegiani, que escalou Leandro no meio de campo, Lico não podendo jogar por causa da violência e das batidas do Mario Soto. Mas Leandro é craque em qualquer lugar de campo, se não tinha Zico, poderia ter jogado com a camisa 10. Mas graças a Deus, Zico estava lá.

    Flamengo entrou em campo com as camisas dos juniores, as camisas do time principal foram perdidas em algum lugar do aeroporto de Santiago. Zico recusou de apertar a mão de Mario Soto. Fez certo. Mario Soto não estava aqui para jogar bola, estava lá para bater, com arma não mão. Se fosse na rua e não num campo de futebol, seria preso com toda justiça. Mas a justiça no futebol é muitas vezes diferente. No Centenario, o jogo começou com muita violência dos chilenos, como no Estádio Nacional. E no Centenario, o jogo começou com gol de Zico, como no Maracanã.

    O primeiro gol de Zico pode parece ser sorte. Mas não é. É o gol de quem acredita, de quem não desiste. Zico é cercado por quatro jogadores, perde a bola, mas não desiste, fazendo a pressão. Com a ajuda de Andrade e Adílio, a bola volta nos pés de Zico. Na verdade, volta só no pé direito de Zico, que com um toque só, já manda a bola no fundo das redes. Golaço. Flamengo 1×0 Cobreloa.

    Depois, Alarcón é expulso por falta dura e o jogo fica mais fácil entre um time que sabe jogar futebol e um outro que gosta de bater. Mas mesmo assim, Cobreloa não desiste da violência. No segundo tempo, mais uma falta, com uma oportunidade boa para o Flamengo. Na verdade, uma grande oportunidade quando o batedor se chama Zico. O Rei Arthur já tinha batido uma falta no jogo no Maracanã, já tinha observado que o goleiro fazia antecipação, já sabia que ia bater no outro lado, no contrapé. Pensou com a cabeça, matou com o pé. Golaço. Flamengo 2×0 Cobreloa.

    O jogo estava quase acabado, o Flamengo enfim era oficialmente o dono da América. E o Carpegiani fez o que milhões de rubro-negros sonhavam. Fez entrar Anselmo, que realizou o sonho de uma Nação, a Nação do Flamengo e também quem não era flamenguista, mas que se apaixonava com um time que jogava um futebol maravilhoso, mesmo contra muita violência. Anselmo atendeu ao pedido especial de Carpegiani, entrou no jogo, não procurou a bola, procurou o Mario Soto. No livro 1981, o ano rubro-negro de Eduardo Mansanto, Zico fala: “O Brasil inteiro queria dar uma porrada no cara por tudo que tinha acontecido. O Anselmo, já entrou, encostou do lado e deu-lhe uma jamantada. O cara arriou! Capotou. Estava terminando o jogo, ninguém viu! A gente só viu depois os caras correndo atrás dele. Por que estão correndo atrás dele? Alguma coisa aconteceu, não é”. Acho que foi justo.

    O pedido do Carpegiani, a realização perfeita de Anselmo ficaram na história desse jogo eterno. E quem fica na história do futebol é o Flamengo de 1981, é o Zico, nosso perfeito craque, que mais uma vez brilhava com o Manto Sagrado e fazia do Flamengo, ainda não oficialmente, o melhor time do mundo.

  • Na geral #7: Eu fui no AeroFla

    Sempre gostei das demonstrações de torcidas quando a bola não está rolando, quando não tem jogo. Seja um treino aberto, seja uma recepção depois de um título. Ou melhor ainda, um incentivo antes de um jogo importante, lá no aeroporto. Confesso que um dos que gosto mais nem é do Flamengo. Quando o Corinthians foi no Japão em 2012, a festa no Guarulhos foi impressionante. Acho que por ser num local fechado, se tornava mais irrespirável, mais impressionante. Mas a torcida do Flamengo não cabe em nenhum aeroporto internacional do mundo. Aliás, Flamengo não tem torcida, Flamengo tem Nação.

    Com o Flamengo, fiquei fascinado no AeroFla de 2016 no Santos Dumont e o de 2019 no Galeão, antes da final da Libertadores. Sempre com uma vontade só, de estar lá com os irmãos flamenguistas para torcer juntos. Em 2022, estou no Rio, posso ir para mais um AeroFla apesar do horário nada agradável, com um início as 6 de manhã no Galeão, e, pelo menos, uma hora de transporte para mim.

    Procurei no Twitter a página do AeroFla e pedi para me inscrever num grupo WhatsApp para ter mais informações. Com um limite de 256 pessoas por grupo, os grupos enchem rapidamente. Tive a sorte de ficar no grupo 7. Um número que gosto já, o número de um dos meus maiores ídolos no futebol, Garrincha. O dono atual da camisa 7 no Flamengo também é ídolo, Everton Ribeiro, um dos jogadores mais antigos do clube, um craque, o melhor jogador da final da Copa do Brasil, que tive o prazer de assistir no Maracanã. Também, nasci um 7 de julho, 07/07. Esse grupo era predestinado.

    O dia antes, não fui no Maraca para o jogo contra Santos. Ainda um pouco doente, e com um jogo às 21:45, sabia que não ia voltar em casa antes de uma hora da manhã, com algumas cervejas bebidas. E que talvez não ia conseguir acordar para o AeroFla. Um jogo no Maracanã é quase uma vez por semana, um AeroFla é uma vez na temporada, duas vezes no melhor dos casos. Preferi o AeroFla e fiz bem.

    Dia do AeroFla, acordei às 5:45 de manhã. Muito cedo, ainda mais que agora no RJ tenho costume de não acordar antes de 9 horas. Mas Flamengo vale todos os esforços. Peguei um Uber da Rocinha até Galeão, e cheguei um pouco antes de 7 horas. Já tinha alguns flamenguistas e depois os selfies de identificação, encontrei a primeira do grupo 7 da AeroFla do WhatsApp, Ana Paula. Depois, mais pessoas se juntaram, virou uma galerinha. E chorei discretamente. Portanto, ainda não tinha tanta animação, não foi o show da torcida que me fez chorar, foi de estar lá, nesse momento presente, uma quarta-feira às 7 da manhã, para o Flamengo. Tudo pelo Flamengo, nada do Flamengo.

    Depois, mais pessoas do grupo 7 da AeroFla do WhatsApp se juntaram, virou uma família. Fui muito bem acolhido, a informação que era francês se passando rapidamente. Fui batizado “gringo da sorte”. Mas quem tinha sorte era eu. Já falei que o povo brasileiro é de uma gentileza extrema, de coração puro. Claro que a paixão flamenguista em comum ajuda, mas acho que ia ser acolhido da mesma maneira em outras ocasiões. Recusei a cerveja de 7:30 da manhã, aceitei a de 8:30. Eu dificilmente fazia 100 metros sem Taynara perguntar “cadê o gringo?”, Tiffany responder “não podemos perder o gringo da sorte”, Guto abrir o caminho para mim. Tive muito sorte, fui muito feliz.

    Andei com meu Manto Sagrado, a bandeira da Fla Paris na mão, cantando muito, vibrando muito. A Torcida Jovem chegou, a ponte tremeu, tremi de cair na água, a Nação estava lá, numa quarta-feira, 9 horas da manhã. Ainda cantei, ainda vibrei. Quando o ônibus dos jogadores chegou, foi de arrepiar. Talvez minha maior emoção com o Flamengo desde que cheguei no RJ, e fui no Maracanã ver o Flamengo ser campeão da Copa do Brasil. Mas no AeroFla tinha uma coisa a mais, o povo era presente, com a voz alta e o coração batendo forte, e com alguns loucos subindo o ônibus para fazer a bandeira do Flamengo voar no topo do mundo. Depois, Taynara foi me buscar que estava me perdendo um pouco de tanta emoção, perdendo o espaço, a hora, ficando o brilho no olho.

    Ainda teve cantos, fotos com a bandeira da Fla Paris, abraços entre o “gringo da sorte” e novos irmãos flamenguistas, algumas cervejas, teve até entrevista na televisão, perto de 10 da manhã. E teve Flamengo, muito Flamengo, sempre Flamengo. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

    Depois teve a volta, a longa caminhada, a chegada de ônibus até a Penha, onde mora Guto, um cara sensacional, que ajuda quem pode ajudar, sem nenhum tipo de distinção. Fui muito sorteado de encontrar ele, o AeroFla não teria sido tão bom sem ele, tive tempo de dizer isso para ele e falo isso aqui de novo. Fomos beber uma cerveja no bar, eu queria ficar mais tempo, mas estava de cansaço forte e de bateria do celular fraca, já era meio dia, mas era um dia inteiro pelo Flamengo e com o Flamengo.

    Voltei na Rocinha de trem, passando por Olaria, Ramos, Bonsucesso, Manguinhos e mais. Um recado para mim, que fica principalmente na Zona Sul. O Rio é muito lindo, o Rio é muito Flamengo, mas é de muitas desigualdades também. E no AeroFla, encontrei pessoas de Vila Cruzeiro, Vigário Geral, Cidade de Deus e de outros lugares sem saber, e quero agradecer todos pelo acolhimento que fizeram ao “gringo da sorte”. Que toda essa força se transforma em uma vitória de nosso Mengo amanhã.

  • Na geral #6: A Copa do Brasil eu tenho 4

    Eu peguei tempo para escrever essa crônica sobre a final da Copa do Brasil de 2022. Talvez porque a ficha não caiu ainda, talvez porque vivi outras emoções com o Flamengo desde o 19 de outubro, e preciso explicar antes o que vivi o 19 de outubro. Vamos então voltar a esse dia, dia de final, dia de Flamengo ser campeão.

    Já falei que queria muito ganhar a Copa do Brasil, porque era o único título com o Mundial que o Flamengo não tinha vencido desde que começou a ganhar de novo tudo, em 2019. Adoro também o formato de mata-mata, tem muita emoção e teve muitas frustrações nos anos passados, contra o Athletico Paranaense duas vezes, contra o São Paulo uma vez. Mas em 2022, Flamengo passou do Athletico nas quartas, do São Paulo nas semifinais, já tinha eliminado Altos e Atlético Mineiro antes. Agora, o Flamengo, e eu também, podiam sonhar alto.

    Inclusive, já estava presente no Maracanã para o jogo de volta da semifinal, meu primeiro jogo no Maracanã em 2022. E agora estava de volta para a final, minha primeira decisão do Flamengo no Maracanã de sempre, pelo menos nessa incarnação. Já tinha assistido a uma decisão no Maracanã, quando a Seleção venceu o Peru para conquistar a Copa América de 2019, mas agora eu tinha o Manto Sagrado nas costas.

    A escolha do Manto Sagrado para o dia 19 de outubro era importante. Deixei várias camisas do Flamengo na França, porque claro não cabia tudo numa mala de 20 quilos. Tenho só algumas no Brasil e escolhi finalmente o Manto Sagrado de 2014. Não um ano grande para o Flamengo, mas Flamengo vestiu essa camisa como campeão da Copa do Brasil. Então para a final da Copa do Brasil, me parecia a melhor escolha possível.

    No 19 de outubro, cheguei bem cedo no Maracanã. Nunca tinha assistido a uma decisão do Flamengo no Maraca, mas já imaginava as confusões. E mais, ainda não tinha o ingresso na mão. Um ingresso de valor alta, em reais e no coração. Cheguei no Maracanã mais de duas horas antes do apito inicial e chegou o primeiro susto. Estava sem internet, sem saber como podia encontrar o Ramon que tinha meu ingresso. Reparei um cara que estava ligando alguém e o pediu depois para ele ligar o Ramon para mim. Aproveito aqui para dizer que o povo brasileiro é de uma gentileza extrema, ajuda plenamente e com o coração, sem esperar nada em troca. O cara não só ligou Ramon, ele também esperou comigo, apesar da pressa dos amigos dele para entrar no estádio. Esperou uns vinte minutos, me deixando só quando eu tinha o ingresso na mão.

    Eu tinha o ingresso na mão e podia entrar no Maracanã, evitando as confusões do pré-jogo. O Maraca virou minha casa, desde a semifinal de volta contra São Paulo, fui de novo para o Fla-Flu, para as vitórias contra o Red Bull Bragantino e o Atlético Mineiro. No 19 de outubro, passei das seguranças para entrar no Maracanã. Sempre tenho um pequeno estresse antes de entrar no estádio, de o ingresso não ser valido, mas agora estava bom, estava dentro do Maraca, pronto para o jogo. Eu nunca tinha chorado de verdade no Maracanã, chorei no meu primeiro gol no estádio, lá no Fla-Flu de 2017, gol de Everton, mas era lagriminha, ficando no olho. Mas no 19 de outubro, nos corredores, eram lágrimas no rosto inteiro. Tive de parar a caminhada para recuperar das emoções. Clima de decisão é diferente.

    Não sei o que é melhor, ganhar um título com o Flamengo ou assistir a um jogo no Maracanã, na Norte. Por sorte, fiz os dois ao mesmo tempo. Estou agora mais acostumado com o Maracanã, fui diretamente no 43, perto da Fla Manguaça. Subindo as escadas, chorei de novo, com lágrimas no rosto. Faltava uma hora antes do jogo, e o Maraca já era cheio, cantando, vibrando, fumando. Arrepiei, chorei, estressei. E depois cantei, alto, forte, às vezes errado, mas sempre com o coração.

    O pré-jogo foi um dos maiores espetáculos que eu vi na minha vida. A entrada do time foi uma coisa pela qual não tenho as palavras suficientes, em português ou em francês, para descrever. Mas acho que meu maior jogo no Maracanã ainda é o Fla-Flu de 2017, o 3×3 na Sudamericana. Porque no 19 de outubro, a vibração da torcida caiu durante o jogo. Claro, com um ingresso tão caro, é mais difícil de ter o ambiente que já existiu no Maracanã faz tempo, que fez do Flamengo a melhor torcida do mundo. Na final contra o Corinthians, até na Norte, tinha pessoas quase não cantando durante todo o jogo. Algumas pessoas esperavam o lance do jogador, o chute perto do gol para apoiar o time, quando deve ser o contrário, é a torcida que empurra para o jogador fazer o lance decisivo.

    A torcida podia ter uma responsabilidade em caso de derrota na final, como Dorival Júnior, que mexeu errado, fez o time esperar a reação do Corinthians. Flamengo fez um gol com 5 minutos de jogo, e depois esperou, esperou o Corinthians fazer o gol, que de fato aconteceu. Para minha primeira decisão do Flamengo, era um disputa de penalidades, e sem saber porquê, estava vestido de um pessimismo grande. Ainda mais quando Filipe Luís errou, na primeira tentativa.

    E de novo, a torcida podia ter sido melhor, o barulho maior. É o fim do jogo, pode dar tudo que fica na voz ainda para empurrar o Flamengo, vaiar o Corinthians, mas teve de esperar o erro de Fagner para ter um ambiente digno do Maraca, digno do Flamengo. Depois, ainda mais estresse, ainda meu vestido de pessimista, nas tentativas de Gabigol e Everton Cebolinha. Mas Gabigol é ídolo da Nação, não tremeu, e fez tremer a torcida agora completamente louca. Na Norte, orações, lágrimas, abraços com o irmão desconhecido. E depois foi Rodinei, meu Rodilindo. Adoro ele, um jogador limitado, mas esforçado, de comportamento exemplar. Merecia o gol, como o Flamengo merecia o título. Chutou cruzado e fez, fez a torcida vibrar.

    Depois foi um outro show nas arquibancadas que não merecia fim. Infelizmente, precisava pegar o último metrô e não foi possível de ficar muito tempo, nem de ver o time levantar a taça. Mas nesse 19 de outubro, já estava bem de emoções. Podia voltar tranquilamente, mas não evitei as confusões do pós-jogo. Na rampa, fogos eram lançados nos torcedores. Dei um pique para entrar no metrô, de novo com os olhos úmidos, mas agora por causa do gás de pimenta. O metrô chegou, e eu podia voltar a sonhar com meu Flamengo. Vi um título do Flamengo, no Maracanã, e ainda hoje, 27 de outubro, parece um sonho. Depois voltei na Rocinha, fui ver rapidamente a Roça Fla, o grupo de torcedores de lá, que espero vai virar minha casa para os jogos fora de casa. A Roça Fla que fez o show dela, com fogos e cantos. Dei um abraço para Fernando, vibramos juntos, quase duas horas depois do apito final. Ainda fui no bar onde já estou acostumado de ir, e vi a felicidade no olho da gerente, Irani, com o título do Flamengo. Flamengo ainda tem a maior torcida do mundo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”