O Campo Grande sumiu do mapa do futebol carioca, mas foi um clube importante da Cidade Maravilhosa nas décadas de 1960 até de 1980. Teve seu maior título em 1982 quando conquistou a Taça Prata, na época a Série B do campeonato brasileiro. Para a crônica do dia, eu vou justamente de um jogo de 1982, na estreia do campeonato carioca.

O jogo aconteceu duas semanas depois da Tragédia do Sarriá, quando a Seleção brasileira foi eliminada da Copa. Zico, Júnior, Leandro e os outros voltaram mais cedo para casa. O jogo contra Campo Grande marcou a reestreia com o Manto Sagrado da dupla Zico – Júnior. “No Flamengo reaparecem Zico e Júnior. Normalmente os jogadores que reaparecem depois de longa permanência em seleção brasileira, especialmente em Copa do mundo, jogam mal”, previa Washington Rodrigues no dia do jogo para sua crônica no Jornal dos Sports. E Leandro ficava fora do jogo.

Há uma frase conhecida do grande presidente rubro-negro George Helal sobre Leandro: “No auge da carreira, Leandro chegou na minha sala para renovar o contrato e, assinou em uma folha A4 em branco dizendo: ‘os valores não importam, o fundamental é jogar no Flamengo’”. Pesquisando nos jornais da época, a realidade parece menos romântica. Leandro esperou a Copa para renovar no Flamengo, apostando com boas atuações para ter um aumento salarial. Porém, não foi completamente o caso e depois da Copa, teve um impasse entre o pai do jogador e a diretoria do Flamengo.

Vale lembrar que o presidente do clube na época não era George Helal, mas Antônio Augusto Dunshee de Abranches, que um ano depois cometeria o crime de vender Zico. Em 1982, foi o vice-presidente Eduardo Motta que denunciou a atitude de Leandro: “Antes da Copa, tínhamos uma estrutura montada. Oferecemos ao Leandro as mesmas garantias oferecidas a Júnior e Zico. Ele porém, preferiu valorizar a coisa, causando alguns pequenos problemas, se preocupando com detalhes que consideramos insignificantes. Então, ele foi o grande culpado do negócio ter melado. Só podemos pagar o que oferecemos. O restante era da publicidade, que agora não existe mais em virtude da retração do mercado”. A oferta da diretoria passou assim de 2,2 milhões de cruzeiros mensais para 1,2 milhão de cruzeiros. Uma queda de quase a metade do valor.

Segundo a imprensa, o pai de Leandro chamou Eduardo Motta de “maluco”, o que ele negou. O presidente do Flamengo não gostou e o proibiu de entrar na sede do clube, ainda falando que “Leandro, se não estiver satisfeito pode começar a procurar clube”. Mais uma vez, Eduardo Motta detalhou as negociações com o pai de Leandro: “Ele exigiu que o Flamengo ficasse com o compromisso de pagar o Imposto de Renda, o que não concordei e ele começou a discutir comigo. Vendo que não havia acordo, rasguei o local onde Leandro já havia assinado […] O Flamengo não mudou nada. Continuamos oferecendo ao Leandro o mesmo que propusemos na última vez. Acontece que as empresas que cobriram a diferença estão em fase de retraimento, já que o Brasil não se sagrou campeão do mundo. O grande culpado desta situação foi o Leandro mesmo”.

Assim, o passe de Leandro foi colocado à venda e teve ameaças de o vender para Olaria, que jogava na segunda divisão do campeonato carioca, também de não inscrever o jogador na lista para a Copa Libertadores. Por sua vez, Leandro ficou firme: “Gosto muito do Flamengo, acho sua diretoria excelente, mas pelo que me foi oferecido é impossível. Estou tranquilo e disposto a parar de jogar até aparecer clube interessado em me contratar […] Errei quando coloquei meu pai como procurador. Agora eu mesmo discuto a questão com a diretoria”. Desse jeito, Leandro ficou fora do jogo contra Campo Grande. Em 18 de julho de 1982, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Cantarele; Antunes, Marinho, Figueiredo, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Peu.

No Maracanã, tinha um pouco mais de 30 mil pagantes e muito mais presentes. Com poucas bilhetarias disponíveis e a hora do jogo se aproximando, vários torcedores invadiram o Maracanã. A Nação tinha saudade de seu time e de seus craques. E Zico precisou de apenas oito minutos para mostrar que, mesmo não sendo campeão do mundo com a seleção, era o ídolo de sempre. Bem lançado por Adílio, Zico antecipou a saída do goleiro e fez o toque leve de cobertura para abrir o placar. E se Zico não estava na finalização, estava na criação. Com 20 minutos de jogo, Nosso Rei fez um lindo toque de trivela para Lico. No bate-rebate, a bola chegou até o pé de Peu, que chutou firme para fazer o segundo gol rubro-negro do dia. Antes do intervalo, o Campo Grande conseguiu um gol, também de cobertura, Neném surpreendendo Cantarele.

No segundo tempo, de novo o astro de Zico brilhou mais que o dos outros. Na criação, Zico fez outro passe sensacional de trivela para Peu, que antecipou a saída do goleiro e conseguiu o pênalti. Na finalização, Zico chutou bem, a meia altura, e converteu o pênalti para fazer seu segundo gol do jogo. Zico aparecia muito no jogo e Júnior nem tanto, até fazer o golaço do dia. O goleiro de Campo Grande afastou o perigo com o punho, a bola quicou uma vez e chegou até Júnior, que, de fora da área, pegou de voleio, com um lindo chute indo embaixo do travessão.

O Flamengo se relaxou um pouco e tomou mais um gol, com uma falha de Antunes que, claro, Leandro não faria. Já nos acréscimos, Wilsinho acelerou na direita, driblou um e cruzou. Zico não conseguiu tocar na bola, Adílio pegou de voleio e decretou o placar final: 5×2. O jornalista Washington Rodrigues estava errado. Talvez os jogadores normais decepcionassem na reestreia depois da Copa, mas Zico e Júnior eram craques fora de série. Para o Jornal do Brasil, o melhor do jogo foi Zico, para o Jornal dos Sports, foi Júnior. Empate entre os dois craques.

Para fechar a crônica, falo sobre o outro craque Leandro e sua novela que se estendeu por mais dez dias. O final foi feliz, Leandro assinou um novo contrato, mostrou que o caso não era sobre dinheiro, como ele mesmo explicou e provou: “Renovei por 12 meses. Estou feliz porque adoro o Flamengo e não queria mesmo sair daqui. Assinei em branco, acreditando que o presidente vai me pagar o que mereço. Se for Cr$ 100 mil, Cr$ 500 mil ou Cr$ 2 milhões, jogarei sem problemas. Assinei em branco porque confio nele. Posso dizer apenas que não há publicidade no contrato”. George Helal estava certo, mesmo no auge, Leandro assinava em branco, o fundamental era jogar no Flamengo. O camisa 2 ainda falou na renovação: “Não importa quanto vou receber, e sim o fato de continuar na Gávea”. A diretoria de Dunshee de Abranches vencia uma batalha contra um ídolo, aplicou um ano depois a mesma estratégia de (não)pagamento de salários por patrocinadores com Zico e voltou atrás da palavra. E dessa vez, o final foi bem trágico…

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”