A reestreia do Flamengo no Brasileirão se aproxima e aproveito a data para eternizar um último jogo aniversariante. Na semana passada, escolhi um jogo contra Vasco em 2008 e escrevi que o Flamengo dos anos 2000 era imprevisível. Além do vexame da Copa Libertadores, Flamengo estava na liderança do Brasileirão com 5 pontos a mais que o segundo colocado, mas fracassou e perdeu o título.

E teve pior, no início da década, Flamengo lutou várias vezes contra o rebaixamento. No Brasileirão de 2004, Flamengo teve que esperar a 9a rodada para finalmente vencer um jogo! A sequência seguinte foi um pouco melhor e logo depois, Flamengo voltou a mergulhar na crise. Teve três derrotas seguidas, duas em casa contra Vasco e Juventude, sem sequer fazer um gol. O técnico Abel Braga não resistiu a mais uma vergonha e foi demitido. Como interino, foi chamado um ídolo e campeão, Andrade.

Antes do jogo contra Guarani, Flamengo estava simplesmente na 24a e última colocação, com apenas 12 pontos em 16 rodadas. Guarani estava só um pouco melhor, na 20a colocação, com 16 pontos. O jogo já era uma questão de vida ou morte. Em 20 de julho de 2004, o técnico Andrade escalou Flamengo assim: Diego; Gauchinho, Henrique, Fabiano Eller, Roger; Da Silva, Ibson, Douglas Silva, Jônatas; Jean, Whelliton. Com certeza, uma das piores escalações da história do Flamengo, com apenas Ibson se salvando.

Antes da partida, o técnico interino Andrade recebeu do Japão o apoio do amigo e maior ídolo rubro-negro, Zico: “Torcemos pelo amigo Tromba. Que Deus lhe ilumine”. Com uma frase só, a fase do Flamengo já tinha mudado. Porém, ainda era um time com nenhuma confiança, com quase nenhum craque. No frio de Campinas, com apenas 2.703 pagantes no Brinco de Ouro, o jogo foi ruim, o Flamengo também. “A defesa continua confusa. O meio-campo, sem criatividade. E o ataque, uma nulidade”, até escreveu o Jornal do Brasil.

No primeiro tempo, Flamengo teve apenas uma chance. A palavra agora para o Jornal dos Sports: “Sem qualquer inspiração, o time rubro-negro pouco criou. Ibson se encarregou de perder uma oportunidade com a bola rolando. Todas as outras surgiram em cobranças de faltas endereçadas à arquibancada do estádio pelo cabeça-de-área Douglas Silva. Triste sina. Pior mesmo somente as falhas do zagueiro Henrique, que teve sua atuação salva pelas defesas milagrosas de Diego, em noite para lá de inspirada”.

No início do segundo tempo, quase um replay do lance do primeiro tempo, Whelliton para Ibson na direita. O meia chutou cruzado, de trivela, e, dessa vez, venceu o goleiro. Depois de 412 intermináveis minutos, Flamengo finalmente voltou a marcar. A salvação era Ibson mesmo. Apesar do gol, a fisionomia da partida não mudou. “O jogo continuou com o nível técnico baixo, como já havia sido no primeiro tempo, mas os jogadores rubro-negros mostrando pelo menos a disposição que a torcida exige”, prosseguiu o JDS. E o jogo acabou assim, sem brilho, mas com vitória, que foi insuficiente para tirar o Flamengo da última colocação.

Nas avaliações do Jornal dos Sports, o time teve uma nota média de apenas 3,69, o goleiro Diego sendo o melhor do jogo com nota 7. Nem o Ibson se salvou: “Acabou se perdendo na mediocridade do time. Só se encontrou quando fez o gol. Nota 5”. Assim, a maior figura do jogo era o técnico interino Andrade, “iluminado por Zico” segundo a manchete do Jornal dos Sports. “Essa vitória foi importante para devolver a confiança aos jogadores. Não posso esconder que sonho continuar como técnico”, revelou Andrade depois do jogo. Não foi realmente o caso. Ainda em 2004, o Tromba voltou duas vezes como interino depois do fracasso dos técnicos PC Gusmão e Ricardo Gomes. Andrade garantiu a permanência e só foi efetivado cinco anos depois, na glória do Hexa. Era o fim do tenebroso Flamengo dos anos 2000.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”