Em 1913, o mundo era diferente. A Primeira Guerra Mundial, conhecida como A Grande Guerra, nem tinha acontecido. Leônidas da Silva, maior ídolo do Flamengo na era do amadorismo, não tinha ainda nascido, Nelson Rodrigues tinha apenas um ano de existência e Rasputin ainda estava vivo. O bondinho do Pão de Açúcar foi inaugurado um ano antes e o Cristo Redentor era apenas um sonho. Era outro mundo. Mas Flamengo já existia.

Falando de futebol, Flamengo tinha também apenas um ano de existência em 1913. Vale a pena explicar de novo. No final de 1911, Alberto Borgerth, atacante do Fluminense, entrou em conflito com a diretoria do Tricolor. Já praticante de remo no Flamengo, convenceu oito outros jogadores do Fluminense, que tinham acabado de conquistar o campeonato carioca, a criar um time de futebol dentro do clube de regatas. “Alberto Borgerth e seus companheiros de rebelião, ao deixarem o Fluminense, adotam novos hábitos: incorporam o espírito flamengo que vinha sendo moldado pela República Paz e Amor. O Flamengo nunca desejou ser um club à inglesa […] O Flamengo já é caracterizado bem diferentemente. Tem a cara do carioca: moleque, sério e criativo”, escreveu Edilberto Coutinho no livro Nação Rubro-Negra.

Flamengo fez sua primeira partida de foot-ball em 3 de maio de 1912. Com camisa Papagaio de Vintém, goleou Mangueira 15×2, um jogo eterno no Francêsguista. Por causa da história da fundação, o jogo Flamengo x Fluminense era especial antes mesmo do primeiro confronto. Completou Edilberto Coutinho: “Fluminense e Flamengo eram como irmãos. A vida de um, muitas vezes, se confundiu com a do outro. Virgílio Leite de Oliveira e Silva chegou a ser, ao mesmo tempo, presidente do Flamengo e diretor do Fluminense. Muitos atletas, nos primeiros tempos, eram jogadores de futebol do tricolor e remadores do Flamengo. Mesmo depois de iniciados os Fla-Flus no futebol, se manteve a convivência fraterna”. Flamengo, apesar do favoritismo, perdeu o primeiro confronto contra Fluminense, em 7 de julho de 1912, exatamente 80 anos antes de eu nascer.

No segundo turno do campeonato carioca, Flamengo se vingou da derrota inaugural contra Fluminense com uma goleada 4×0, mas fechou o torneio na vice-liderança. Nos arquivos, há poucas coisas sobre os jogos dos primeiros tempos. O Jornal dos Sports, maior fonte de jogos antigos, só foi fundado em 1931. Assim, eu tinha que pesquisar em outros jornais. No pré-jogo de 1913, nas páginas do jornal A Época, tinha coisas sobre esportes com turf e rowing, mas nada de futebol. No pós-jogo, uma página inteira sobre hipismo, mas de novo, nenhuma palavra sobre o Fla-Flu, que nem se chamava ainda assim, o termo só foi popularizado em 1925. O Jornal do Brasil apenas escreve sobre o pré-jogo e prováveis desfalques, como Gallo no ataque rubro-negro. A única fonte que achei foi do Jornal do Commércio, que fala sobre o jogo e até descreve os gols. Vamos então para o terceiro Fla-Flu da história. Afinal, como escreveu Nelson Rodrigues, o Fla-Flu foi criado 40 minutos antes do nada.

No campeonato carioca de 1913, Flamengo começou o torneio com duas derrotas, antes de vencer Paysandu 3×2, Mangueira 11×0 e Bangu 4×0. Agora era o dia do Fla-Flu. Mas a cidade, ainda não apaixonada pelo esporte bretão, quase não percebeu o momento de história. Em 3 de agosto de 1913, para o jogo no General Severiano, casa do Botafogo, o Ground Committee liderado por Píndaro de Carvalho escalou Flamengo assim: Baena; Píndaro, Nery; Lawrence Andrews, Amarante, Gallo; Pinho, Gumercindo, Pedro Alves, Baiano, Borgerth.

Obviamente sem imagens do jogo, eu vou apenas citar alguns trechos da matéria do Jornal do Commércio, bem no estilo da época. Por isso também, decido preservar a ortografia antiga, já no pré-jogo: “O jogo mais importante dos realizados domingo ultimo para a disputa do campeonato do Rio de Janeiro foi o do match Flamengo ‘versus’ Fluminense, effectuado no campo da rua General Severiano. Uma numerosa assistencia, avaliada numas 2.000 pessoas, affluio às elegantes archibancadas e demais dependencias daquella nova praça de sports do Botafogo F.C parar apreciar o tão fallado encontro entre os dous clubs rivaes”.

O primeiro tempo viu um jogo equilibrado em campo e uma dominação total do Flamengo no placar. Prosseguiu o Jornal do Commércio: “Na primeira parte do jogo, que foi bastante movimentada e cheia de lances mais ou menos emocionantes, o Fluminense se não conseguio abrir o seu score, enquanto que o valoroso team do club nautico marcava tres bellos goals, sob delirantes acclamações dos seus numerosos partidarios. Estes pontos do Club de Regatas do Flamengo foram conseguidos por Bahiano, Gumercindo e Pinho”.

No segundo tempo, Fluminense acreditou na virada. O Tricolor “consegue marcar o seu primeiro goal” com Baptista, que ainda fez um segundo gol, “off-side” segundo o Jornal do Commércio. Borgerth, o artilheiro do Flamengo e líder da dissidência com Fluminense, de uma certa forma o criador do Fla-Flu, entrou em ação: “Borgerth, recebendo a bola da extrema-direita, dribla a defesa contraria e com shoot firme augmenta o score do seu club”.

Flamengo vencia 4×1 e era o dono do jogo, o dono do Fla-Flu. Já respeitando sua tradição, o rubro-negro ainda queria fazer gols e continuou a atacar. Descreveu a matéria: “Pouco depois Bahiano apanhando a bola, tendo os backs pela frente, dribla estes e manda um shoot que resulta em goal, porém o referee, não sabemos porque, anulla esse ponto. O 5o ponto do Flamengo foi feito com um bello kick por Gumercindo e o 6o e ultimo por Borgerth, sendo o Club de Regatas delirantemente applaudido pela assistencia”.

O último gol do Tricolor apenas definiu o placar: 6×3 para o Mengo. O rubro-negro vencia o terceiro Fla-Flu da história, o segundo de goleada. Flamengo ainda venceria os seis confrontos seguintes, até um empate 1×1 em 1915. Os torcedores do Fluminense falam que ganhar Fla-Flu é normal. Discordo. Mesmo com as estatísticas de nosso lado, ganhar Fla-Flu sempre é especial, isso desde 1912 e a abençoada fundação do Flamengo.

Deixe um comentário

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”