
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #7: Flamengo 2×1 Bragantino 1995

Hoje vamos com um jogo não tão eterno, mas que poderia ter sido. O jogo de abertura do Brasileirão 1995. Já falei na crônica sobre Sávio que eu considerava a contratação de Edmundo um erro. Já em maio de 1995, quando Emundo foi apresentado na Gávea, era um erro. Claro, apesar da rivalidade com o Vasco, considero Edmundo como um craque. Em outros tempos, poderia ter ajudado Flamengo. Mas o Flamengo de 1995 era muito bem de ataque já, com uma dupla que tinha tudo para funcionar, Sávio e Romário. O time era desequilibrado, fraco na defesa e no meio-campo. Se tinha que contratar, devia ser para reforçar as linhas mais defensivas.
E mais, Flamengo já tinha seu craque problema com Romário. Um craque problema pode funcionar, um time precisa de um jogador diferenciado, que pode ganhar jogos sozinho, fazendo esquecer os problemas com os companheiros, adversários, técnicos, juízes, torcedores com uma jogada de craque só. Dois craques problemas é muitos problemas. E o futebol deles acaba se anulando, um querendo ser melhor do que o outro, o outro privilegiando o chute na hora de fazer o passe para o craque companheiro. É inevitável que vai criar problemas, para os companheiros, os dirigentes, o técnico, os torcedores. Romário e Edmundo funcionou no Vasco durante um tempo, mas no Flamengo, era um erro desde o início.
Edmundo chegou no Flamengo dizendo: “Que eu, Romário e Sávio possamos formar o melhor ataque do mundo”. Outro erro, não era uma coisa a dizer na apresentação, e foi obviamente exagerado pela imprensa. Fácil de dizer depois, mas mesmo antes, não dava para imaginar os três jogando bem juntos. Talvez, uma jogada de craque de Romário, depois um lindo drible de Sávio numa outra jogada, e no fim, Edmundo que faz a diferença sozinho. Diversas jogadas de craques, sim, eles eram craques, mas jogar bem juntos, ao longo dos jogos e da temporada, não.
Quando Edmundo chegou, Romário falou: “Edmundo sem confusão não é Edmundo. As confusões vão continuar, só que em menor intensidade”. Outro erro. Foram muitas, e com muita intensidade. Briga generalizada em campo contra Vélez, e pior, um acidente de carro que provocou a morte de 3 pessoas.
Primeiro jogo de Romário e Edmundo juntos foi um amistoso, contra Guarani, em Cuiabá. Era ano de centenário, Flamengo jogou até esse amistoso de papagaio de vintém. Mas viu Guarani abrir o placar. Empatou com um golaço, Edmundo, camisa 11, para Romário, camisa 100, que procurou a tabelinha de trivela. Completou a tabelinha com a chegada de Edmundo, que fez o gol. 1×1, nada de vitória, mas muita esperança para o resto da temporada.
Estreia oficial do Edmundo foi a estreia do Brasileirão, contra Bragantino. Flamengo estava de briga com a Suderj, e deslocalizou o jogo, do Maracanã para o São Januário, por ironia, onde começaram Romário e Edmundo. Já no iníciozinho do jogo, foi arrancada e dribles de Sávio. Depois, assistência de Romário e gol de Edmundo. “Edmundo é cruel” falou o comentarista Januário de Oliveira. Marcelo Henrique empatou e estragou a festa até o finalzinho do jogo quando Aloísio, 20 anos e que tinha entrado no jogo, chutou com força. O goleiro rebateu sem força, Romário fez o gol da vitória. “Romário é cruel” falou Januário de Oliveira.
Flamengo começava o Brasileirão com uma vitória. Era o ano do centenário, Flamengo esperava um título, uma glória eterna para os 100 anos. E o ano do centenário foi cruel para Flamengo. Flamengo começou bem, dava para pensar que não ia se concluir tão bem, mas não dava para pensar que ia ser tão ruim. Flamengo fechou a primeira fase na última colocação, escapando do rebaixamento de pouco!
Um ano para esquecer, mas Flamengo é inesquecível.
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Ídolos #4: Adriano

Essa crônica é um pedido de meu amigo Kevin, também flamenguista roxo, também francês, também membro da Fla Paris. Mas claro, Adriano ia ter sua crônica no Francesguista. Porque é ídolo demais do Flamengo.
Descobri Adriano quando jogava no Parma. Nessa época, não sabia que ele tinha começado no Flamengo. Ele estava emprestado pelo Inter, onde jogava meu primeiro ídolo no futebol, Ronaldo. Jogava é uma palavra forte para Ronaldo, porque as lesões não paravam de acontecer, e quase parecia que ele estava aposentado. Eu estava privado de meu ídolo. E tinha Adriano, com muitas semelhanças, de físico e de futebol. Habilidade, velocidade e claro, potência, ainda mais do que o Fenômeno.
Vibrei com Adriano na Seleção em 2004 e 2005, e ele me impressionou com a camisa do Inter. Não era Ronaldo para mim, mas era um de meus jogadores favoritos. E mais, agora, eu sabia que ele era cria daqui, que tinha ganhado alguns títulos com o Manto Sagrado, como o campeonato carioca em 2000 e 2001.
Em 2009, Ronaldo quase foi no Flamengo, falarei desse momento num outro dia. Porque hoje é dia de Adriano. Em 2009, Adriano foi convocado com a Seleção no Brasil e nunca voltou na Itália. Teve rumores de desaparecimento, Adriano era alcoólatra, era drogado, era traficante, era morto. Mas Adriano era bem vivo e saiu do silêncio: “Resolvi dar um tempo na minha carreira, pois perdi a alegria de jogar. Não sei se vou parar dois ou três meses, para repensar minha carreira. Não gostaria de voltar a Itália. Lá a pressão é muito grande. Quero viver em paz, aqui no Brasil. Estou fazendo isso pensando em minha felicidade”. Adriano estava em paz, no Brasil, num lugar onde não tem tanta paz, Vila Cruzeiro, mas Adriano estava em casa, pronto a ser feliz.
E Adriano voltou na outra casa, a casa do Mengão. Ele não tinha outra opção: “Se eu for jogar no Brasil, tem que ser no Flamengo. Senão a minha avó me mata!”. Acho que nós flamenguistas temos essa vantagem sobre os outros torcedores, Adriano é nosso. Imperador para eles, Didico para nós. Adriano é a identificação do torcedor rubro-negro, quando tem gol do Didico, tem festa na favela, em dose dupla. Adriano é esse Flamengo que eu gosto, o Flamengo raiz, humilde, feliz com as coisas simples da vida. Na apresentação, ele quase foi nas lágrimas falando da favela e do Flamengo, queria conquistar a sua felicidade, que aconteceu quando vestiu o Manto Sagrado, com um sorriso largo, profundo, sincero.
Adriano vestia de novo a camisa do Flamengo, estreando contra o Athletico Paranaense. Estreando no Maracanã, com um gol de cabeça. Festa no Maraca, festa na favela. “O Imperador voltou” cantou o Maraca, “O Didico é nosso” cantou a favela. No fim do jogo, Adriano estava feliz: “Foi muito importante fazer o gol. Não tem dinheiro que traga tanta felicidade. Recuperei a alegria de jogar, mas sei que ainda posso fazer muito mais. Vamos devagar e com humildade”.
Adriano fez muito mais no Flamengo em 2009. Golaços contra Inter, Coritiba, Santos, decidiu o Fla-Flu sozinho, gols de cabeça, de pênalti. Fez um ano histórico, e no fim, Flamengo campeão, depois de um jogo eterno contra Grêmio. O Hexa tem a cara do Adriano, Adriano tem a cara do Flamengo, do povo. Nesse momento, todo mundo estava feliz. Já Imperador, Adriano, com essa temporada de 2009, foi coroado como um dos maiores ídolos da história do Flamengo.
Em 2020, Globo colocou Adriano como o 10o ídolo de toda a história do Flamengo. Eu tenho dificuldades para colocar nesse ranking os ídolos antigos, como Leônidas, Domingos, Zizinho, Dida, Carlinhos. Prefiro fazer um ranking a partir da Era Zico, com Zico no topo claro. Na 2a colocação, como o número de sua camisa eternizada, Leandro. E depois, terceiro, acho que vou de Adriano.
Na final de Libertadores 2019, esse milagre de Lima, teve um vídeo emocionante, o abraço entre Gabigol, Petkovic e Júnior, ídolos de três gerações. Mas teve um vídeo ainda mais emocionante para mim, não em Lima, mas no Rio, numa casa simples, Adriano, com amigos e familiares, chorando com a vitória do Mengão. Essas lágrimas são mais Flamengo do que qualquer declaração.
Por isso que Adriano é no meu top 3, ele é Flamengo. Gabigol, outro candidato possível ao top 3, tem ligação forte com a torcida, mas Adriano é a torcida, faz parte de nós. O grande Imperador pode ser apenas Didico no Flamengo, um menino simples e humilde, que vibrou com o Flamengo e fez o Flamengo vibrar. Adriano não brilhou muito em 2010 e voltou em 2012, sem sequer jogar. Não foi sempre profissional, mas nunca desrespeitou o que é Flamengo.
Adriano parou de jogar em 2016, sonhou com uma volta no Flamengo, mas não deu. Mas Didico nunca saiu do Flamengo, sempre foi Flamengo, sempre foi favela. “Adriano não sumiu nas favelas. Ele apenas voltou pra casa” concluiu Didico no seu emocionante depoimento ao Players Tribune.
Na Europa, tem a ideia que Adriano hoje é arruinado, deprimido, que virou traficante. Acho que não é o caso, tem dinheiro, mas prefere ser feliz e ser ele mesmo em casa, no Vila Cruzeiro. É apenas o que eu desejo para ele. Seja feliz Didico, que você nos deixou muito felizes.
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Jogos eternos #6: Fortaleza 3×4 Flamengo 2006

No início do Brasileirão da era dos pontos corridos, Flamengo foi muito mal. Em 2003, a 8a posição foi razoável, mas depois Flamengo foi 17o em 2004 e 15o em 2005, escapando de pouco do rebaixamento. Em 2006, no 22 primeiros jogos, foram apenas 6 vitórias! De novo, Flamengo estava na zona de rebaixamento.
Graças a uma vitória contra Botafogo, Flamengo escapou do Z-4 antes de ir no Ceará para jogar contra Fortaleza. O time era limitado e o principal jogador do ano foi Renato Abreu. Um outro Renato, o Renato Augusto, era a maior promessa da base. Mas com um time que não podia sonhar conquistar o Brasileirão, a temporada já era um sucesso porque Fla ganhou a Copa do Brasil, e ainda melhor, em cima do Vasco. A volta na Libertadores era garantida, só faltava escapar do rebaixamento.
Para o jogo contra Fortaleza, Ney Franco não tinha a disposição sua dupla de ataque habitual, Sávio, de quem já falei aqui, e o pentacampeão Luizão. Mas Flamengo tinha um outro ídolo, de quem também já falei lá, eternizado com o gol contra Paraná, imortalizado com o gol contra Vasco, Obina. No 17 de setembro de 2006, Flamengo foi escalado assim no Parques dos Campeonatos: Bruno; Leo Moura, Renato Silva, Fernando, André; Paulinho, Léo, Renato Abreu, Renato Augusto; Obina, Fabiano Oliveira.
Flamengo começou bem o jogo, com um gol de Fabiano Oliveira no 11o minuto e uma assistência de um outro Renato, o zagueiro Renato Silva. Depois, foi Renato Abreu, que fez a assistência, para Obina, agora com uma camisa 7 menos histórica que a 18, mas que venceu o goleiro Albérico de um chute cruzado, de fora da área. Três minutos depois, numa jogada ensaiada, de novo foi Renato Abreu para Obina, que fez seu segundo do jogo. Um golaço, meio de calcanhar, meio de trivela. Obina talvez não era um craque, mas mostrava com esse gol que ele tinha habilidade e instinto de goleador, fez o único gesto que podia ser feito para fazer o gol. Uma pintura de um operário, que permitia ao Flamengo de fazer três gols num jogo do Brasileirão 2006 pela apenas segunda vez, a primeira foi na segunda rodada com uma vitória 3×1 contra Juventude, meses atrás!
Fortaleza não desistiu, insistiu e numa jogada nada ensaiada, fez o gol do 3×1. No início do segundo tempo, outro golaço, agora de Rinaldo, Fortaleza era agora a um gol de um empate inesperado. Flamengo podia tremer, mas foi o lateral Bruno Barros que tremeu, errando um lateral, curto demais, a destinação de seu goleiro. Obina estava com espírito de matador nesse dia, antecipou a saída do goleiro, driblou-o e completou seu primeiro hat-trick como profissional. No Flamengo, faria um outro hat-trick, contra America, no campeonato carioca 2008.
O segundo gol de Rinaldo no jogo foi inútil, Flamengo vencia 4×3 no Fortaleza, com uma grande atuação de seu ídolo Obina e ficava mais longe do tão temido rebaixamento.
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Times históricos #3: Flamengo 1972

O time de 1972 teve no começo do ano o reforço de alguns craques como o argentino depois naturalizado brasileiro Doval, de volta de um empréstimo na Argentina, e o Paulo César Caju, craque do Botafogo, culpado pela perda do campeonato carioca 1971 contra Fluminense. O capitão do time era o zagueiro paraguaio Francisco Reyes, que morreu precocemente com apenas 35 anos, vítima de uma leucemia. Tinha também bons jogadores, como o centroavante Caio Cambalhota, também antigo jogador do Botafogo, e Wanderley, que depois se tornara Vanderlei Luxemburgo como técnico. Falando de técnico, o de Mengão de 1972 era também antigo botafoguense, mas também passou pelo Flamengo como jogador: o Mário Jorge Lobe Zagallo. Pela primeira vez, não a última, o tricampeão do mundo era o treinador do Mengo.
Flamengo iniciou a temporada de 1972 com dois torneios amistosos, começando com o Torneio Internacional do Rio de Janeiro. Também participaram Vasco e Benfica. O primeiro jogo, contra Benfica, merece um capítulo a parte. Foi uma vitória 1×0 com um golaço de Fio Maravilha, que virou um canto de Jorge Ben. “Foi um gol de classe onde ele mostrou sua malícia e sua raça, foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa”. Fio Maravilha, nos gostamos de você. No último jogo, também no Maracanã, Flamengo ganhou também 1×0, agora com gol de Paulo César Caju. Flamengo começava a temporada como campeão.
Depois, jogou o Torneio General Emílio Garrastazu Médici, popularizado Torneio do Povo. Eram tempos sombrios da ditadura militar. O regime usou o futebol para divertir o povo, esconder a tortura e os desaparecimentos. Então foi Torneio do Povo, com os times de maiores torcidas: Bahia, Atlético Mineiro, Corinthians, Internacional e Flamengo. De novo, Flamengo começou com uma vitória 1×0, contra Bahia, agora com gol de Caio Cambalhota. Contra o Galo, Caju abriu o placar, Doval fez o segundo, Flamengo ganhou. Contra o Timão, Caju abriu o placar, Doval fez o segundo, Flamengo ganhou. Um 0x0 contra o Internacional na Fonte Nova foi suficiente para gritar de novo “é campeão”.
O campeonato carioca foi especial, por ser o do ano de sesquicentenário da independência do Brasil. Uma metade sem o Flamengo, a outra com o Flamengo. Bem melhor a segunda metade. Em 1972 também, a Taça Guanabara passou a ser o primeiro turno do campeonato carioca, e não mais uma competição a parte, como era o caso antes. E o primeiro campeão dessa Taça Guanabara foi o Flamengo, com 9 vitórias, 2 empates e nenhuma derrota. E uma goleada 5×2 contra Fluminense. Flamengo perdeu a invencibilidade contra São Cristóvão no segundo turno, vencido pelo Flumimense. Vasco ganhou o terceiro turno, precisava de um triangular final para ter um campeão.
O Vasco de Tostão perdeu contra Flamengo e contra Fluminense. A grande final era uma Fla-Flu, a primeira vez desde 1963, quando Flamengo ganhou. Para mim, evitando o clubismo apesar do fanatismo, o time do Fluminense de 1972 era melhor. Tinha os tricampeões Félix e Marco Antônio, um meio-campo de ouro com Denílson, Gérson e Didi, não o Didi bicampeão do mundo, mas também grande jogador, e um ataque muito bom com Jair, Cafuringa e Lula. Para mostrar a qualidade do time, basta dizer que Toninho, que brilhou depois no Flamengo, era reserva.
Um Fla-Flu é sempre especial, uma final ainda mais. E em 1972, a data do jogo foi especial também, um 7 de setembro. 150 anos depois do grito do Ipiranga, tinha outros gritos, agora no Maracanã, de 136.829 torcedores. Nem foi o maior público do campeonato carioca 1972, maior público foi um outro jogo do Flamengo, claro, mas contra Botafogo, com 137.261 torcedores. Contra Fluminense, 7 de setembro de 1972, Doval abriu o placar, e acabou artilheiro do campeonato com 16 gols. Caio Cambalhota, já autor do gol contra Vasco, fez o segundo. Apesar do gol de Jair pelo Tricolor, Flamengo ganhou o Fla-Flu e conquistou a Taça Sesquicentenário da Independência do Brasil.
O campeonato carioca de 1972 foi especial por um outro motivo. Uma jovem promessa participou de dois jogos, um 0x0 contra Botafogo, o jogo dos 137.261 torcedores, e um 2×2 contra Vasco. O nome da promessa era Arthur Antunes Coimbra, ninguém menos do que o Zico, que ganhava assim seu primeiro título profissional depois de ganhar o campeonato carioca juvenil no mesmo ano. O ano de 1972 também foi um ano de decepção para Zico, como ele explicou no UOL em 2012: “A minha maior tristeza no futebol foi não ter ido à Olimpíada de 72. Eu fiz o gol que classificou o Brasil e meu nome não estava na lista dos convocados. Foi a maior decepção da minha vida. Na hora fui falar com o meu pai que eu queria encerrar a minha carreira e cheguei a ficar dez dias sem ir ao Flamengo”. Graças a Deus, Zico voltou ao Flamengo.
Zico voltou no Brasileirão 1972, com uma vitória contra Sergipe, uma derrota contra Grêmio e dois empates, contra Santos e Cruzeiro, os quatro jogos fora de casa. Flamengo foi eliminado na segunda fase, mas foi na primeira fase que conheceu uma decepção, quero dizer uma humilhação, agora no Maracanã. Numa outra data especial, um 15 de novembro, Flamengo perdeu 6×0 contra Botafogo. Graças a Deus e ao talento time de 1981, o 6×0 foi vingado, mas não totalmente esquecido. Como o time de 1972, com a ginga de Paulo César, os gols de Doval e Caio, a promessa de Zico, não foi esquecido.
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Jogos eternos #5: Flamengo 4×2 Uberaba 1981

Como não tem jogo hoje, vamos matar a saudade do Mengo com um jogo eterno, de um time histórico, o de 1981, de quem já falei aqui. Faz parte dos melhores times da história, com o Santos de Pelé, o Ajax de Cruyff, o Milan de van Basten, o Barcelona de Messi, o Real Madrid de Cristiano. E tinha o Flamengo de Zico, que ganhou tudo em 1981.
Ganhou tudo, menos o Brasileirão. Mas mesmo assim, não deixou de fazer história e vamos lembrar um jogo do Brasileirão, no Maracanã. O adversário era Uberaba Sport Clube, time do Minas Gerais, que agora joga na segunda divisão do campeonato mineiro. Outros tempos do futebol. Na primeira fase do Brasileirão 1981, Flamengo ficou na 2a colocação, atrás do Santos. Mas como tinha 7 dos 10 times do grupo classificados pela próxima fase, não foi problema.
Foi mais difícil na segunda fase. Agora eram grupos de quatro, com apenas dois classificados pelas oitavas de final. Flamengo começou com uma vitória contra o Atlético Mineiro, mas depois empatou contra o mesmo Galo no jogo de volta e Uberaba no jogo de ida. Pior, contra o Colorado, time de Curitiba que também desapareceu do cenário nacional, foi derrotado por 4×0. Flamengo precisava de uma reação.
Apos quatro rodadas, o líder era o surpreendente Colorado, com 5 pontos, na frente do Flamengo e de Uberaba, ambos com 4 pontos, e o Atlético Mineiro na última colocação, com 3 pontos. No Maracanã, numa quarta-feira, 1o abril de 1981, Flamengo, jogando em branco, era escalado assim: Raul; Carlos Alberto, Luís Pereira, Marinho, Júnior; Vitor Silva, Adílio, Zico; Tita, Carlos Henrique, Nunes.
Flamengo precisava de uma reação no campeonato, mas começou muito mal contra Uberaba. Um gol de fora da área de Paulo Luciano, após apenas 5 minutos de jogo, e antes do fim do primeiro tempo, outro gol, agora marcado pelo Serginho. No intervalo, Flamengo 0x2 Uberaba, Flamengo quase eliminado.
Mas Flamengo é raça, Flamengo é reação, Flamengo é virada. No início do segundo tempo, escanteio de Júnior, na primeira trave. Escanteio de novo. Agora, na segunda trave. Num ângulo quase impossível, Tita conseguiu fazer o gol. Flamengo passou a dominar o jogo, procurando-se várias oportunidades do gol. Até uma falta de Zico na área, Marinho, o homem dos gols importantes, empatou. Flamengo 2×2 Uberaba, melhor, mas ainda não suficiente.
Num outro escanteio de Júnior, primeira trave de novo. Zico estava lá, desviando a bola de calcanhar numa autentica jogada de craque. A dois metros do gol, bem no centro, Nunes estava lá, para fazer o gol da virada. Nunes fez um grande jogo nesse dia, e a recompensa estava lá, da melhora forma possível para um centroavante, um gol.
Mas Nunes não era só centroavante, tinha habilidade também para jogar nesse time cheio de craques. Pegou a bola a 40 metros do gol, fixou a defesa, deixou para Júnior, que de primeira, achou Ronaldo Marques no lado esquerdo. Cruzamento na segunda trave, Tita, de voleio, fez o gol. Flamengo 4×2 Uberaba, agora bem melhor.
Era a recompensa para a geral do Maraca, que apoiou, torceou, acreditou. Talvez, provavelmente, essa virada não teria sida possível sem a geral. Flamengo se recuperou no campeonato, se classificou nas oitavas, passou do Bahia, mas acabou eliminado nas quartas pelo Botafogo. Mesmo assim, num domingo sem futebol, valia a pena lembrar uma quarta-feira cheia de Maracanã, de Flamengo, de gols, de virada.
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Ídolos #3: Sávio

O Sávio é um ídolo de uma geração no Flamengo. Comecei a acompanhar o Flamengo de perto entre 2005 e 2006, meu primeiro ídolo foi Obina, de quem já falei aqui. Mas para quem começou a acompanhar o Flamengo em 1994, o nome de Sávio como primeiro ídolo é evidente.
Sávio Bortolini Pimentel nasceu no Espírito Santo no 9 de janeiro de 1974, e em 1988, com 14 anos, já era do Flamengo. Torcedor do clube, foi observado pelo Flamengo num torneio em Vitória: “No meio tempo, o meu pai disse que o diretor do Flamengo me pediu. Eu falei: ‘Pai, pelo amor de Deus é meu sonho’. Em 92, eu subi e o saudoso Carlinhos, que eu sempre tive um carinho grande, me efetivou no profissional. Eu participei de todo processo. Tinha o Júnior, o Zinho e outros craques”, relembra Sávio para Colunadofla. Começou no Flamengo, com o coração já flamenguista.
O ano de revelação foi 1994 com um dos melhores jogos, não só de Sávio, mas de um jogador com a camisa do Flamengo, o 2×0 contra Palmeiras no Maracanã. Um dia, falarei mais em detalhes desse jogo. Nesse momento, Sávio já era da Seleção, estreando contra a Islândia. Ele tinha habilidade e muita classe, ao ponto de ser comparado ao Zico. Apenas isso. Chegou a ser nomeado Diabo Loiro, mas depois virou eternamente Anjo Loiro. Sávio explica: “Anjo ou Diabo Loiro? Hoje é Anjo. Quem me deu esse apelido foi o Januário de Oliveira, um dos maiores narradores do futebol brasileiro. Tinha bordões incríveis, improvisos muito legais. Teve um momento no Carioca, acho que em 94, que eu fiz gol e ele disparou ‘Diabo Loiro da Gávea’. Mas a avó da minha esposa é muito católica, e o ‘Diabo’’ incomodava muito ela. Ela dizia: ‘Sávio, eu sei que é com carinho, mas eu não gosto desse apelido!’. Ela se encontrou com o Januário uma vez, foi pedir pra ele, ‘não chama mais meu Savinho de Diabo? Pra mim ele é um anjo!’. E, no jogo seguinte, eu fiz o gol e ele trocou o meu apelido pra Anjo Loiro da Gávea”.
Em 1995, se firmou na Seleção e buscava um título com o Mengão, ano do centenário. Sávio foi artilheiro da Copa do Brasil, fazendo um jogo eterno contra o Grêmio mas Flamengo foi eliminado pelo próprio Grêmio nas semifinais. Flamengo também não ganhou o campeonato carioca, não ganhou o Brasileirão, não ganhou a Supercopa Libertadores. Sávio merecia um título esse ano, Flamengo merecia um título. Um time que tem Sávio e Romário no ataque é um pesadelo para os adversários. Acho que contratar Edmundo foi um erro. Um time que tem Edmundo e Romário no ataque juntos é um pesadelo para o próprio time. O Flamengo ganhou nada no ano do centenário e Edmundo saiu. Sávio falou depois sobre essa época, mostrando que ele era muito flamenguista, nunca se colocando acima do clube, que é a qualidade indispensável do verdadeiro ídolo: “Criaram essa coisa de melhor ataque do mundo e isso sempre atrapalhou. Era realmente um grande ataque, mas o resto do time era muito fraco. É só pegar o elenco e olhar. Além disso, era muita bagunça. O fracasso em campo era apenas um reflexo de tudo que acontecia do lado de fora. Todo mundo via aquela zona. Não tinha como dar certo. As principais peças do time não entendiam que a instituição Flamengo estava acima dos interesses pessoais. Era muita vaidade, muita individualidade. O ego atrapalhou o que o time tinha de melhor”.
Flamengo voltou a ganhar em 1996, Sávio sempre jogando bem. Foi campeão invicto do campeonato carioca, com 18 vitórias e 4 empates, inclusive o jogo do título, um 0x0 contra Vasco. Conquistou também a Copa de Ouro, um torneio organizado pela CONMEBOL, que convidou quatro times: Rosário Central, Grêmio e São Paulo também participaram. Na final, Flamengo venceu São Paulo 3×1, com três gols de Sávio. Apenas isso. Mas a Taça foi levantada em Manaus, na frente de apenas 4.680 torcedores e o título não faz parte das grandes conquistas da história do Flamengo.
Quem faz parte da história do Flamengo é o próprio Sávio. Jogou ainda em 1997, onde fez um jogo eterno contra o Real Madrid, sendo decisivo nos três gols da vitória por 3×0. Sávio jogou tão bem que acabou contratado pelo Real Madrid. Minhas lembranças de criança apaixonado pelo futebol com Sávio começam nesse momento. Eu era fã do Real Madri, virei fã do Sávio, que virou tricampeão da Liga dos campeões, campeão mundial em cima do Vasco. Eu ainda tive o prazer de ver ele jogar na França, no Bordeaux. Não me marcou tanto que outros jogadores brasileiros do campeonato francês, mas o que me marcou já nessa época era a classe dele em campo. Futebol virava uma coisa delicada com ele.
Voltou ao Flamengo em 2006, mas eu não me relembro muito, até porque jogou pouco. Mas no seu jogo de volta, contra Goiás, fez uma jogada para provocar uma falta, de onde saiu o único gol da partida, marcado pelo Obina. O ciclo dos ídolos estava completo. Faltava fechar o ciclo do Sávio no Flamengo, o que foi feito numa vitória 3×0 contra o Corinthians em 2006. Foram 95 gols e 261 jogos com o Manto Sagrado. Na Seleção, também conquistou uma Copa de Ouro em 1996, fazendo dois gols durante o torneio. Por causa da concorrência absurda da época, não disputou uma Copa do Mundo mas foi medalha de bronze nos Jogos Olímpicos, também em 1996. Na seleção principal, foram 6 gols e 24 jogos, mas foi com a camisa rubro-negra que Sávio fez história, sendo o ídolo principal da geração 94, encantada pela classe dele e o futebol mágico que saía de seus pés. Sávio, o Anjo loiro, para sempre.
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Jogos eternos #4: Flamengo 2×1 River Plate 2019

Difícil fazer um jogo tão histórico, um jogo tão eterno que esse jogo do 23 de novembro de 2019. Só pode ter o 3×0 contra Liverpool na frente, e ainda é questão de preferência. O jogo contra Liverpool já era ganhado no fim do primeiro tempo. O jogo contra River não, bem ao contrário.
Já falei que o consulado da Fla Paris foi fundado em 2019 e meu primeiro jogo com a galera foi o cincum, na casa do consulado do Grêmio. Para a final, agora a Fla Paris tinha sua própria casa, jogo foi na sala em baixo do Belushi, um bar gigante especializado com transmissão de eventos esportivos.
Em Paris, tinha muita emoção e muito estresse no pré-jogo. Mas não só em Paris, em todos os lugares do mundo onde tinha pelo menos um flamenguista, tinha estresse. Porque final de Libertadores é assim, é diferente de qualquer jogo. Ainda mais quando faz 38 anos que seu time não jogou uma final de Libertadores. Era uma anomalia e também a lembrança que antes disso foram muitos anos de sofrimento, de decepções e às vezes até de vergonha.
Mas Flamengo foi tudo diferente em 2019. Esse time obviamente merece um capítulo à parte na categoria dos times históricos. Fez coisas bonitas em muitos lugares, mas fez história em Lima. Já era um jogaço antes do primeiro minuto, contra o vencedor da última edição, River Plate. Flamengo podia ser o favorito, mas não de muito. E foi tudo pior depois de apenas quatorze minutos de jogo, com o gol de Borre. Flamengo 0x1 River Plate.
Depois foi de novo sofrimento, medo de perder, de deixar mais uma oportunidade de gritar é campeão, de ser rei da América. No intervalo, no Belushi, nós fomos da sala de baixa para a de cima. Na sala de baixa, tinha talvez 60-70 pessoas, que já era muito bom para um consulado de 2 meses de existência. Mas quando fomos na sala principal, tinha ainda mais flamenguistas, no total talvez 200 flamenguistas doentes, estressados, mas era muito bom de ver toda essa força. Apesar da derrota parcial, esse momento foi de euforia para mim, de ver o tamanho dessa torcida. Em Paris, no RJ, em Lima.
Em Lima, a torcida estava lá. Flamengo não era 11 homens, era muito mais. Em Paris, a sala virou um caldeirão, tinha gritos a cada lances de perigo, gritos de desespero, de esperanças, de ódio, de fé. E o milagre aconteceu. O gol de empate foi uma síntese do que aconteceu durante o ano, com a participação de cada jogador de um trio eternizado na história do futebol brasileiro. De Arrascaeta é uruguaio, não é só técnica, também é raça, e foi no carrinho que recuperou a bola dos pés argentinos. A bola foi nos pés do Bruno Henrique. Fez uma jogada de craque, esperou um pouco, driblou, acelerou, ficou entre quatro zagueiros e teve o tempo suficiente para achar de novo Arrascaeta, já uma lenda do futebol brasileiro. Nosso Arraxxxca fez o passe, caindo no chão, na raça, no coração. Não foi o gol mais difícil da carreira do Gabigol, mas com certeza foi o mais importante da carreira dele até esse momento. Flamengo 1×1 River Plate.
Gol foi no minuto 44 do segundo tempo. Confesso que queria ser minuto 43, porque um gol tão emocionante, talvez só o do Petkovic contra Vasco na hora do tri. E confesso também que a alegria não foi total para mim em Paris, porque no final do jogo, a retransmissão do bar travou um pouco. Então alguém foi na internet, vi que Flamengo tinha empatado, gritou, a palavra foi de boca a boca, Flamengo tinha empatado antes de ver o gol na televisão. E foi a mesma coisa com o gol da virada.
Confesso que ainda fico puto com isso. Talvez escapei de uma parada cardíaca mas queria viver esse momento ao vivo, sem saber, como se estava em Lima. Sempre que tenho a oportunidade, assisto ao segundo gol. Última vez foi anteontem, dia do terceiro aniversário da Fla Paris, lá na Gávea, na loja do Flamengo. Posso assistir da TV brasileira, prefiro a versão de João Guilherme do que a do Luís Roberto, da TV argentina ou ainda melhor, da arquibancada. Tudo foi perfeito nesse gol, da bola do Diego, não importa se foi chutão ou cruzamento, foi assistência para o anjo Gabigol, que, empurrado pela torcida, chutou, com força, com precisão, com coração, para ficar marcado na história, para fazer o gol mais importante da carreira dele. Flamengo 2×1 River Plate.
O estádio monumental de Lima agora é eternizado, sempre conectado com o espírito rubro-negro. É de arquitetura linda, mas é de história ainda maior. 23 de novembro é eterno para os rubro-negros, em 1981 com dois de Zico em Montevidéu, e em 2019 com dois de Gabigol em Lima e uma virada até hoje incrível. Flamengo, o Rei da América.
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Na geral #5: Minha volta na Norte

Ontem fui no Maracanã pela segunda vez desde minha chegada no RJ. Na quarta, uma vitória contra São Paulo e uma classificação na final da Copa do Brasil. Ontem, uma derrota no Fla-Flu. Odeio perder o Fla-Flu. Porém, acho que preferi o jogo de ontem. Porque na quarta estava na Oeste, e ontem na Norte. O coração do Flamengo está na tribuna Norte. Cantei, vibrei, quase chorei de emoção vendo a lindeza do Maraca, a montanha no fundo, a torcida de perto, muito perto.
Antes do jogo, encontrei Ramon da Fla Miami, que me procurou o tão desejado ingresso na Norte. Mais um irmão flamenguista, mais um irmão dos consulados. Fizemos fotos com a bandeira da Fla Paris, aproveitando o pré-jogo nos arredores do Maraca, com o Manto Sagrado e a bandeira na mão, uma cerveja na outra mão, falando dos projetos da Fla Paris, dos próximos encontros, no Maracanã, na Gávea, no Vidigal. Acho que esse ano vai ser incrível.
Estava com dois franceses do meu hostel, que tinham também o ingresso na Norte, e outros franceses que ajudei a entrar no estádio. Virei quase um guia do Maraca. Depois, enfim, fui na Norte. É um dos lugares mais maravilhosos do mundo. Falta palavras para descrever quanto essa tribuna é tão linda.
Eu estava com os dois franceses, vibrando comigo, como se o Maraca era a casa deles, arriscando um “vai pra cima deles Mengo”. Era emoção no campo e nas arquibancadas, só faltava o gol do Flamengo, que dominava o jogo, sem marcar. Isso sempre é um perigo. Eu tenho um amigo carioca, Gabriel, que eu não tinha visto desde 2019, ele me falou que estava na Norte também, com a Fla Manguaça. Eu era do outro lado da cerca, olhei um pouco por lá, e incrivelmente, consegui o ver, sem camisa, vibrando. Gritei, mas ele não me viu. Era no momento do pênalti, então esperei Ganso fazer o gol para ter um momento mais calmo e ver ele. Ganso marcou, e eu subi imediatamente as escadeiras. Mas a torcida começou a gritar, a cantar o hino, eu cantando, Gabriel cantando, depois ele me viu, surpreso e feliz, então começamos a cantar juntos, só a cerca nos separando. Foi um momento maravilhoso, que não existe na Oeste.
No segundo tempo, eu e os dois outros franceses foram no outro lado da tribuna, com a Fla Manguaça. Foram emoções ainda mais fortes, em campo e na Norte. Quando o jogo foi um pouco mais calmo, Fluminense fez o segundo. Depois teve o gol do Gabigol mas era tarde demais. Apesar da derrota, teve pelo menos um gol, esperava isso para que os novos amigos franceses podem ver como é um gol do Flamengo, na Norte. Eles adoraram o clima do Maraca e eu adoro a paixão que tem quando tem um gol, o grito, o copo de cerveja no ar, o abraço com o irmão mais próximo, o choro, o canto, a oração, a vibração.
Ontem, tudo isso não foi suficiente para ganhar o Fla-Flu. Ficava então tempo para tirar fotos na Norte, com a bandeira da Fla Paris, aproveitando da beleza do Maraca num pôr do sol.
Com a derrota, acho que é o fim da esperança para Flamengo ganhar o Brasileirão. Doze pontos atrás, não vejo como Palmeiras pode perder essa vantagem. Acho que parte da culpa está nas mãos do Dorival Júnior. Contra Palmeiras, quando foi empate, era para escalar a força máxima em campo. Os reservas foram muito bem esse ano, mas jogo decisivo é para colocar melhor time possível. Num jogo contra Palmeiras, com nove pontos de diferença, é para colocar Arrasca, Pedro e os outros, ganhar e meter pressão. Agora sim, com doze pontos em onze jogos, é focar nas finais. Que sejam dois títulos.
O Flamengo perdeu o Fla-Flu e certamente perdeu o campeonato. Mas voltar na Norte era bom demais.
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Na geral #4: A Fla Paris celebra três anos de existência

Hoje é uma data muito importante para mim. O consulado Fla Paris foi criado nesse dia, um 19 de setembro de 2019, um ano de glória eterna para o Flamengo. E espero para a Fla Paris também.
Já falei num outro artigo sobre a criação do consulado. Eu tenho um grande orgulho de ser um dos fundadores do consulado. Mas também já falei que quem é o consulado é quem vai aos encontros, vai assistir aos jogos com a galera. Agora morando no Rio, vou ter muita saudade da Fla Paris. Mesmo de longe, o consulado vai ficar no meu coração.
Para os três anos, quero falar sobre a Fla Paris e nosso presida Cidel, que foi o idealizador do consulado. Sempre motivado para organizar encontros, para ajudar as pessoas, para fazer brilhar o nome da Fla Paris. Sempre vai fazer fotos e postar no Instagram para motivar outras pessoas a vir no consulado. O projeto dos consulados e embaixadas do Flamengo tem sorte de ter um cara como Cidel como presidente de um consulado. Dos fundadores, tem também Waldez, um baiano que promete feijoada, demora, mas honra a palavra. É o cara que vai lançar os cantos no bar, sempre que tem um lance de perigo, tem um « Mengoooo » do Waldez, como no antigo Maraca. Outro fundador é Felipe, que infelizmente não pode vir aos jogos muitas vezes, mas que é um cara de uma gentileza extrema, com uma tranquilidade contagiante.
Agora na diretoria também tem Sammy e Danilo. Sammy foi quem achou nosso local para ver os jogos, o Fleurus, no sul de Paris. É quem falou com o pessoal do bar para organizar os jogos. Também é um dos caras mais generosos e engraçados que conheço. Num jogo no bar, a final do campeonato carioca 2020, falou que o novo bike dele ia pegar como nome o nome do jogador que faria o gol do título. Agora é fã eterno do Vitinho. Danilo também é um cara muito humilde e gentil, deixou várias mensagens me desejando uma boa viagem no Rio e me deu o contato do irmão dele para me buscar no aeroporto.
No consulado, também tem o Piriquito, que conhecia antes, do time de futsal. São muitos anos de amizade, de cervejas e de conversas sobre Flamengo e de outras coisas. Conheço a mulher dele, a filha, o pai, a mãe, o irmão, Vini, que vem também no consulado quando pode. Acho que amigo se torna irmão quando você passa a conhecer a família dele, então Pirika é meu irmão, de verdade.
No consulado tem também Bruno, que foi o primeiro a abrir sua casa para receber os membros do consulado e ver um jogo quando não tinha gente suficiente para assistir ao jogo no bar. O Thiago está no consulado também, me desejou uma boa temporada no Brasil de uma maneira simples mas linda, não falava com a boca, falava com o coração.
Agora o Glen, filho de pai americano, dos Estados Unidos não o alvirrubro, e de mãe brasileira. Deixa-me contar como ele foi se apaixonar pelo Flamengo que a história é sensacional. Toda a família dele do lado do mãe é vascaína, os tios todos vascaínos. E o pai é mais football que soccer, mais beisebol ou essas coisas de americanos, mas começou a torcer pelo Flamengo só para zoar a família vascaína da mulher. Virou flamenguista e Glen é flamenguista por causa do pai americano.
O consulado tem até o seu casal franco-brasileiro, Kevin e Sheyla. No início, ficavam mais no canto deles no bar, mas agora são da família do consulado e sempre vão nos jogos, do pré-jogo até o pós-jogo, com alegria e cervejas. Kevin é francês, é flamenguista. As vezes é bom de falar um pouco em francês sobre o Flamengo ou Rio, que ele adora também Rio e sempre é disposto a ajudar com contatos ou conselhos. Sheyla também me ajudou, me deu contatos de pessoas no RJ, e sempre tem um largo sorriso no rosto. São dois corações rubro-negros puros. Tem as outras mulheres também, que torcem juntas, com a galerinha delas e com a família do consulado, Bianka, Roberta, Carina, Gi, Vanessa, Simone.
E tem o Davidson, que faltou alguns jogos por causa do trabalho, mas que sempre quer ir nos encontros. No meu aniversário, dia 7 de julho, convidei todo o consulado e ele não podia ir. Mesmo assim, comprou um presente para mim, ainda não sei qual é o presente porque infelizmente não o viu antes de chegar no RJ. Mas ele é carioca, e quando ele me falou que não podia ir no meu aniversário, falei pra ele que íamos comemorar juntos o próximo aniversário, mas no Rio. Isso era mais uma coisa de tipo sensação, premonição e espero muito que vai ser o caso.
E tem ainda muito mais gente, que foram num jogo só, ou de vez em quando, que sempre vão ser bem recebidos. Outro motivo que me fez adorar o consulado é que as vezes têm turistas brasileiros, de férias em Paris e que vão assistir a um jogo no consulado. É um jogo só, mas tem flamenguistas de todos os estados do Brasil, de passagem em Paris, que vão contar a história deles, trocar dicas, gritar juntos na hora do gol. Tudo isso graças ao Flamengo e a Fla Paris. Precisamos fazer uma mapa do Brasil com todos os estados e colocar uma cruz quando temos um representante. Já tem RJ, BA, PA, SP, DF e deve ter muitos outros.
Sobre os turistas de passagem no consulado, tenho uma história boa mas precisa de um pouco de contexto. O consulado foi criado em 2019, mas no início so tinha os jogos de Libertadores, o cincum, o milagre de Lima. Encontros muitos marcantes mas raros. Depois, por causa da pandemia, não teve uma rotina de assistir aos jogos juntos em 2020 e 2021, então o consulado realmente começou em 2022. Agora estou pensando que é incrível como em tão pouco tempo toda essa galera ficou no meu coração.
Mas apesar de toda a alegria de se reunir para ver os jogos, também teve muita frustrações por causa dos resultados. Derrota na final do carioca, derrota na Supercopa do Brasil. No Brasileirão foi pior ainda, parecia maldição. Quando não tinha encontros no consulado, teve 6 vitórias, 1 empate, 3 derrotas. Quando tinha consulado, teve um empate contra Ceará, 4 derrotas e nenhuma vitória ! Teve busca para identificar o pé frio dentro do grupo, até teve uma reflexão para mudar de local para ver os jogos. No jogo contra Avaí, o consulado buscava sua primeira vitória no Brasileirão e teve um turista chamado José que foi ver o jogo com a gente. Foi no banheiro e teve um gol do Flamengo, foi de novo no banheiro e de novo um gol do Flamengo. Então depois do segundo gol, de própria iniciativa claro, ele ficou nas escadarias, sem ver o jogo e quando teve o apito final, pude voltar com a gente, comemorar a vitória tão esperada. Nosso pé frio, acho que é o Waldez mas ainda não tem certeza, mas nosso pé quente é o José com certeza.
Apesar das frustrações dos resultados, a gente não vai trocar de lugar, porque no Fleurus sempre nós somos muito bem recebidos. Tem o dono do bar Ali, o cozinheiro Moussa, o garçom Djack. Djack é outro coração puro, zoador também mas gente boa. Eu dei uma camisa do Flamengo para ele, Vini deu outra, e quando tem jogo no Fleurus, ele sempre vai com o Manto Sagrado, como toda a gente. Ele faz parte da Fla Paris também.
Meu último jogo no consulado foi contra Ceará, um dia antes de minha ida no RJ. Aliás, uma outra decepção com um empate frustrante. Mas eu queria ver uma última vez todas essas pessoas que amo. Nesse dia, tinha dois flamenguistas de Paris que foram no consulado pela primeira vez. Tinha Luiz e um outro cara que agora me falta o nome. Um procurou no Instagram se tinha um consulado em Paris e outro descobriu o consulado nas sugestões de Instagram.
Como falei antes, quem é a Fla Paris é quem vai nos jogos. E espero que vai ter muitas pessoas novas para descobrir o consulado e fazer parte do consulado. O Flamengo é imortal, foi fundado há mais de cem anos, e depois dos fundadores, foram muitas muitas muitas pessoas que fizeram a história e a glória do Flamengo. Espero que a Fla Paris também não vai ter fim. Vi o início da Fla Paris, três anos atrás, mas meu sonho é de pensar que o consulado vai me sobreviver, que vai ter outras pessoas depois para organizar os jogos, se reunir, cantar e vibrar juntos. Fazer as amizades deles, ter as histórias boas, as risadinhas, ter uma galera que se transforma em uma família de flamenguistas, que vai vibrar a 10.000 quilômetros do Maracanã, lá em Paris. É tudo isso que quero parabenizar para os três anos da Fla Paris.
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Jogos eternos #3: Fluminense 0x5 Flamengo 1989

“Ganhar Fla-Flu é normal” cantam os torcedores tricolores. Verdade que eles ganharam o primeiro Fla x Flu, no 7 de julho de 1912. Inclusive, dia de meu aniversario. Verdade também que eles ganharam muitas decisões contra o Flamengo, embora algumas não sejam verdadeiras decisões, embora perderam muitas das últimas. Verdade também que quando os dois clubes unificaram as estatísticas dos jogo, para o Fla x Flu 431 do 14 de março de 2021, Flamengo estava na frente: 158 vitórias do Fla, 139 empates, 133 do Flu.
Eu acho que ganhar um Fla-Flu nunca será normal. Fla-Flu é sempre especial. É meu clássico favorito no futebol. Apesar de a rivalidade ser maior com o Vasco, o Fla-Flu é diferente, mais charmoso. O peso da história é maior, como foi o caso em 1936, 1941, 1973, 1984, 1995 e 2022 para Flu, como foi o caso em 1963, 1972, 1991, 2017, 2020 e 2021 para Fla. E em tantos outros jogos em mais de 100 anos de história, em mais de 400 Fla-Flus. Como foi o caso em 1989.
Dia era o 2 de dezembro de 1989. Inclusive, dia do aniversario de meu pai. Um jogo qualquer do Brasileirão, os dois times não tinham nada mais a jogar, nada a ganhar, nada a perder, nada a esperar, nada a tremer. Mas Fla-Flu nunca será normal, sempre será especial. Ainda mais quando o jogo marca a despedida do Rei Arthur, do Deus Zico. Começou como profissional contra Vasco em 1971, e dezoito anos depois, acabava seu reino contra Fluminense.
Zico merece um capítulo a parte nesse blog, de tantas coisas incríveis que ele fez. Talvez sua maior façanha foi de dar aos flamenguistas um sentimento eterno de orgulho. Talvez é a ligação mais forte entre um jogador e um clube no futebol brasileiro. Com certeza, Zico será para sempre o maior ídolo do Flamengo. Com certeza, Zico não podia deixar de brilhar no seu último jogo, no seu último Fla-Flu.
Ultimo jogo de Zico merecia o Maracanã. Mas o mandante era Fluminense e mandou o jogo em Juiz de Fora, no estádio Mário Helênio, inaugurado um ano antes. O técnico Valdir Espinosa escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Josimar, Rogério, Luís Carlos, Júnior; Aílton, Bujica, Uidemar, Zinho, Zico; Renato Gaúcho. Um misto de gerações e um ídolo máximo, Zico. Com 20 minutos de jogo, deixou a bola entre as pernas de Donizete, que impediu a continuação da jogada com uma falta. Não impediu o perigo. Falta de 30 metros, bem no centro, com Zico como batedor, é muito perigo. Três passos e bola na gaveta.
No seu último jogo, Zico faz mais um gol de falta com o Manto Sagrado, o 47o dele, número impensável nos dias de hoje, ainda mais no Flamengo, que ficou num jejum de três anos. Um último golaço, de marca registrada. “Zico, Zico, Zico” canta o estádio. Mas Zico é muito mais do que os gols de falta. É os chutes bem colocados ou rasteiros, os golaços de cabeça ou de bicicleta, os dribles desconcertantes e precisos, a visão de jogo, a qualidade do passe. Maior artilheiro do Flamengo com 509 gols, Zico era camisa 10, organizador do time, dava presentes para os companheiros.
No início do segundo tempo, duas embaixadinhas e um lançamento de gênio. Só um gênio pode fazer um passe assim. Um passe para outro gênio, Renato Gaúcho, que corta com um drible e chute com força. Outro golaço. “Ei, ei, ei, Zico é o nosso rei” canta o estádio. Zico podia ceder seu lugar ao Uidemar, era seu último jogo com o Flamengo. Tudo tem um fim, menos o amor do Flamengo para Zico e o amor do Zico para o Flamengo.
Falou para GloboEsporte, Moacyr Toledo, um dos administradores do estádio: “Entre os vários jogos que foram realizados aqui no Mário Helênio, sem dúvida essa partida foi uma das mais marcantes. E olha que eu já vi muita coisa ao longo desses anos. Receber um craque como Zico, para uma partida que representou tanto para ele e para o futebol brasileiro, foi um privilégio”.
Foi um privilégio sim, como falou bem o bem nomeado Milagres, goleiro reserva do Flamengo durante o jogo, e natural de Juiz de Fora: “Eu não diria que o Zico é um grande ídolo do Flamengo. Ele é um grande ídolo mundial, e supera qualquer preferência por clubes. Pra mim, foi uma honra participar desse momento, com a camisa rubro-negra e na minha cidade. Um jogo memorável para todos que lá estiveram”.
Final do jogo não tinha mais importância, mas foi importante. Teve outros gols, outros golaços, de Luiz Carlos, Uidemar e Bijuca. E teve vitória do Flamengo de 5×0. O último jogo do Zico no Flamengo, o jogo 732, merecia um Fla-Flu e merecia uma goleada. Ainda hoje, Zico é o maior artilheiro do Fla-Flu com 19 gols. Para sempre, Zico é o maior ídolo do Flamengo.








